Dissertação Nathaly.pdf
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
FACULDADE DE MEDICINA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS MÉDICAS
Nathaly Esperidião de Melo
Gravidade da dor psicológica como fator de risco para comportamento
suicida em pacientes com transtornos psiquiátricos
Maceió
2023
1
NATHALY ESPERIDIÃO DE MELO
Gravidade da dor psicológica como fator de risco para comportamento suicida em
pacientes com transtornos psiquiátricos
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação
em Ciências Médicas da Faculdade de Medicina da
Universidade Federal de Alagoas-UFAL, como parte das
exigências para a obtenção do título de Mestre em
Ciências Médicas.
Área de Concentração: Epidemiologia, fisiopatologia e
terapêutica em Ciências Médicas.
Orientador: Prof. Dr. Valfrido Leão de Melo Neto
Maceió
2023
2
Ficha Catalográfica
3
4
RESUMO
O suicídio e os comportamentos relacionados representam um grande problema mundial de
saúde pública, sendo uma das principais causas de morte em todo mundo. Estudos apontam
uma correlação entre dor psicológica e risco de suicídio, sendo a dor um componente crítico
que pode influenciar os pensamentos suicidas em curto prazo. Foi objetivo geral do estudo:
Analisar a gravidade da dor psicológica e sua associação com perfil sociodemográfico, traços
de personalidade, história de trauma precoce e risco de suicídio. O estudo foi realizado com 8
pacientes atendidos no Hospital Geral do Estado (HGE) devido à tentativa de suicídio e 44
atendidos no Ambulatório de Psiquiatria do Hospital Universitário Prof. Alberto Antunes
(HUPAA/UFAL) para o tratamento de transtornos psiquiátricos. Foram aplicados os seguintes
questionários: Questionário sociodemográfico e clínico próprio da pesquisa; MINI 5.0.0 (Mini
International Neuropsychiatric Interview); Escala de Impulsividade de Barratt (BIS-11);
(Escala de Agressividade de Buss-Perry (AQ); Escala de dor psicológica (PAS) e
Questionário de Trauma na Infância (CTQ). A maioria dos participantes (61,8%; n=21)
apresentou algum risco de suicídio, classificado como baixo, moderado ou alto. Encontramos
uma escore médio de 38,48±15,11 para dor psicológica e 66,91±14,53 e 81,13±23,70 para
impulsividade e agressividade, respectivamente. Foi identificada correlação negativa entre a
dor psicológica e renda familiar (ρ:-,320; p-valor:,030), mas positiva com impulsividade
global (ρ:,388; p-valor:,008) e os subtipos de impulsividade motora (ρ:,350; p-valor:,017) e
por não planejamento (ρ:,391; p-valor:,007), assim como a agressividade global (ρ:,378; pvalor:,010), raiva (ρ:,424; p-valor:,003), agressão física (ρ:,380; p-valor:,009) e hostilidade
(ρ:,328; p-valor: ,026). Os resultados obtidos no presente estudo enfocam um alto risco de
suicidalidade e presença de elevado escore de dor psicológica. A gravidade da dor psicológica
se correlacionou com menor renda, maiores níveis de impulsividade global, motora e
atencional, bem como maiores escores de agressividade global, raiva, agressão física e
hostilidade, mas não com histórico de trauma precoce. Esses achados destacam a relação
complexa entre a dor psicológica, fatores socioeconômicos e traços de personalidade e
destacam possível associação entre essas variáveis contribuindo com o desfecho suicídio em
pacientes vulneráveis.
Palavras-chave: Tentativa de suicídio, prevenção ao suicídio, transtornos mentais.
5
ABSTRACT
Suicide and related behaviors represent a major global public health problem, being one of the
leading causes of death worldwide. Studies point to an influence between psychological pain
and suicide risk, with pain being a critical component that can influence suicidal thoughts in
the short term. The general objective of the study was: To analyze the severity of
psychological pain and its association with sociodemographic profile, personality traits,
history of early trauma and risk of suicide. The study was carried out with 8 patients attended
at the General Hospital of the State (HGE) due to suicide attempts and 44 attended at the
Psychiatry Ambulatory of the Prof. Alberto Antunes (HUPAA/UFAL) for the treatment of
psychiatric disorders. The following versions were applied: Sociodemographic and clinical
questionnaire specific to the research; MINI 5.0.0 (Mini International Neuropsychiatric
Interview); Barratt Impulsivity Scale (BIS-11); (Buss-Perry Aggressiveness Scale (AQ);
Psychological Pain Scale (PAS) and Childhood Trauma Questionnaire (CTQ). Most
participants (61.8%; n=21) showed some risk of suicide, classified as low, moderate or high.
found a mean score of 38.48±15.11 for psychological pain and 66.91±14.53 and 81.13±23.70
for impulsivity and aggressiveness, respectively. psychological pain and income familiar (ρ:,320; p-value:,030), but positive with global impulsivity (ρ:,388; p-value:,008) and motor
impulsivity subtypes (ρ:,350 ; p-value: .017) and for not planning (ρ:.391; p-value:.007), as
well as global aggressiveness (ρ:.378; p-value:.010), anger (ρ:.424; p-value :,003), physical
aggression (ρ:,380; p-value:,009) and hostility (ρ:,328; p-value:,026). suicide risk and
presence of high psychological pain score. with history These findings highlight the complex
relationship between psychological pain, socioeconomic factors, and personality traits, and
highlight the possible association between these voluntary variables and suicide in
independent patients.
Keywords: Suicide attempt, suicide prevention, mental disorders.
6
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................
8
2 OBJETIVOS ............................................................................................................. 10
2.1 Objetivo geral .......................................................................................................... 10
2.2 Objetivos específicos ..............................................................................................
10
3 REVISÃO DE LITERATURA ...............................................................................
11
3.1 Panorama e epidemiologia do comportamento suicida............................................ 11
3.2 Traços de personalidade e sua relação com o suicídio............................................. 12
3.3 O impacto da presença de traumas na infância sob o comportamento suicida........
14
3.4 Dor psicológica........................................................................................................
15
4 METODOLOGIA ....................................................................................................
17
4.1 Desenho, local e população do estudo.....................................................................
17
4.2. Critérios de elegibilidade........................................................................................
18
4.2.1. Critérios de inclusão..........................................................................................
18
4.2.1. Critérios de exclusão..........................................................................................
18
4.3 Aspectos éticos......................................................................................................... 18
4.4 Coleta de dados........................................................................................................
19
4.4.1. Questionário sócio-demográfico e clínico........................................................
19
4.4.2. BIS-11 (Escala de Impulsividade de Barratt).................................................. 19
4.4.3. AQ (Escala de Agressividade de Buss-Perry).................................................. 20
4.4.4. Escala de dor psicológica...................................................................................
20
4.4.5. CTQ (Childhood Trauma Questionnaire).......................................................
20
4.4.6. MINI 5.0.0 (Mini International Neuropsychiatric Interview).......................
20
4.5. Processamento e análise dos dados.........................................................................
21
5 RESULTADOS ......................................................................................................... 21
6 DISCUSSÃO.............................................................................................................. 31
6.1 Dor psicológica........................................................................................................
31
6.2 Perfil sociodemográfico, características clínicas e relação com a dor psicológica.. 32
6.3 Traços de personalidade e relação com a dor psicológica.......................................
34
6.4 Trauma na infância e relação com a dor psicológica...............................................
37
7 CONCLUSÃO...........................................................................................................
39
8 LIMITAÇÕES E PERSPECTIVAS........................................................................ 40
7
Referências ............................................................................................................
41
Apêndices .................................................................................................................
48
Anexos ......................................................................................................................
53
7
1 INTRODUÇÃO
O suicídio e os comportamentos relacionados representam um grande problema
mundial de saúde pública, com aproximadamente 700.000 mortes a cada ano, tornando-se
uma das principais causas de morte em todo mundo. Além disso, estima-se que o número de
tentativas de suicídio seja mais de vinte vezes maior do que as mortes por suicídio
(ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE [OMS], 2021).
O comportamento suicida pode resultar da interação de muitos fatores de risco, como
fatores psicossociais, biológicos, culturais e ambientais (RUMBLE et al., 2018). Um dos
modelos mais aceitos para explicar o comportamento suicida é o modelo estressevulnerabilidade descrito por Mann e Arango (1992). Neste modelo os autores descrevem que
um estressor agudo (“estado”), não é suficiente para que ocorra o suicídio, mas o referem
como resultado da combinação de perspectivas sociológicas, psicológicas e neurobiológicas,
reafirmando a multifatorialidade do comportamento suicida.
Há muito tempo, estudos já indicavam uma correlação entre dor psicológica e risco de
suicídio, sendo a dor um componente crítico que pode influenciar os pensamentos suicidas em
curto prazo (MEE et al., 2011; SHNEIDMAN, 1993). Teorias de ideação, como a Teoria dos
Três Passos de Klonsky e May (2015), sugerem que a experiência de dor é o primeiro passo
para o surgimento dos pensamentos suicidas, independentemente da sua origem, seguido de
desconexão emocional e capacidade adquirida.
Viver uma vida marcada pela dor pode reduzir o desejo de viver e, consequentemente,
despertar pensamentos suicidas. No entanto, a presença da dor por si só não é suficiente para
gerar ideação suicida (KLONSKY; MAY, 2015). Compreender melhor como a dor
psicológica funciona, quais os demais fatores de risco associados a ela, incluindo as
características clínicas que predizem dor psicológica elevada e podem potencializar o
desfecho do suicídio, pode ajudar a desenvolver intervenções mais eficazes para aliviar o
sofrimento emocional e reduzir os riscos associados a ela.
Dentre outros fatores de risco que podem contribuir para o desfecho do suicídio, são
citados traços de personalidade como impulsividade e agressividade. A ação impulsiva
quando associada com traços relacionados à agressividade, predispõe a presença de
comportamentos suicidas e a doenças psiquiátricas, como o transtorno depressivo. Além
disso, a presença desses traços de personalidade se relaciona com a aplicação de métodos
mais violentos e letais nas tentativas (HOLLANDER, ROSEN, 2000; SADDICHHA,
SCHUETZ, 2014; DUMAIS, et al. 2005)
8
Adicionalmente, na população psiquiátrica em geral, há uma ligação significativa entre
antecedentes de trauma na infância e comportamento suicida (BRUFFAERTS et al., 2010).
Experiências de negligência parental, abuso físico, abuso sexual ou abuso emocional durante
a infância são consideradas traumáticas (TURECKI; BRENT, 2016). Investigar a presença de
trauma na infância desempenha um papel crucial na compreensão das correlações existentes
com o comportamento suicida. Por isso, é de suma importância avaliar se a pessoa vivenciou
eventos traumáticos durante os primeiros anos de vida, como abuso, negligência ou outras
formas de violência. Esses traumas podem deixar marcas emocionais profundas e contribuir
para o desenvolvimento de problemas de saúde mental.
Embora já haja estudos indicando a correlação entre dor psicológica e risco de suicídio,
poucos estudos abordam a dor psicológica como um fator central na compreensão do
comportamento suicida, investigando não apenas a dor em si, mas também sua interação com
outros fatores de risco, como fatores sociodemográficos, traços de personalidade
(impulsividade e agressividade) e antecedentes de trauma na infância. O presente estudo
propõe um aprofundamento da compreensão dos fatores associados ao comportamento
suicida, com ênfase na dor psicológica e suas interações com outros elementos, contribuindo
para uma abordagem mais abrangente e direcionada na prevenção do suicídio e
comportamentos relacionados.
E levando em consideração a prevenção do suicídio definida pelo Suicide Prevention
Resource Center que engloba atividades implementadas antes do surgimento de resultados
adversos à saúde, é importante investigar as tentativas de suicídio, dimensionar o problema e
investigar seus determinantes. Isso favorecerá a adoção de medidas mais específicas para a
região estudada, a fim de reduzir as taxas de morte por suicídio (ZALSMAN, et al., 2016).
Dessa forma, a pesquisa tem como questão norteadora a compreensão da associação
entre a dor psicológica e outros fatores de risco relacionados ao comportamento suicida. O
problema investigado é a alta incidência global de suicídio e comportamentos
correlacionados, que constituem um desafio significativo para a saúde pública. A hipótese
levantada é que a dor psicológica desempenha um papel crucial no desenvolvimento de
pensamentos suicidas, e que sua interação com traços de personalidade, como impulsividade e
agressividade, juntamente com antecedentes de trauma na infância, pode aumentar o risco de
comportamentos suicidas.
9
2 OBJETIVOS
2.1 Objetivo geral
• Analisar a gravidade da dor psicológica e sua associação com perfil sociodemográfico,
traços de personalidade, história de trauma precoce e risco de suicídio.
2.2 Objetivos específicos
• Caracterizar o perfil sociodemográfico da amostra pesquisada;
• Pesquisar comportamento de risco de suicídio.
• Mensurar escores de gravidade de dor psicológica;
• Determinar a intensidade de traços de personalidade: agressividade e impulsividade;
• Investigar história de trauma na infância e/ou adolescência;
10
3 REVISÃO DE LITERATURA
3.1 Dor psicológica
A dor psicológica, também referida como dor emocional ou mental, pode ou não ter
semelhança à dor física e vai além de uma simples sensação negativa temporária
(MEERWIJK et al. 2013). Essa dor compreende pensamentos, emoções e comportamentos
caracterizados por sensação desagradável, avaliação negativa e incapacidade pessoal. Essa dor
pode ser intensa e persistente, afetando significativamente o bem-estar emocional.
Shneidman, descreve a dor psicológica como um estado mental intolerável e perturbador,
acompanhado por fortes emoções negativas como vergonha, ansiedade, culpa, solidão e medo.
Geralmente, a dor psicológica não desaparece facilmente nem em curto prazo, podendo
acarretar consequências sérias ao longo do tempo. (COVINGTON, 2000; MEERWIJK,
WEISS 2011; SHNEIDMAN, 1993).
A dor psicológica desempenha um papel crucial nos comportamentos suicidas, sendo
considerada uma variável psicológica fundamental (CAMPOS; HOLDEN, 2020). É
importante reconhecer a dor psicológica como um tipo de sofrimento mental mais primitivo
do que a angústia ou a depressão. A busca por alívio dessa dor tem sido identificada como
uma motivação significativa para as pessoas que tentam cometer suicídio. Assim, o desejo de
escapar desse sofrimento intenso pode impulsionar alguém a considerar o suicídio como uma
solução (LAMBERT et al., 2020).
Segundo Shneidman (2001), o desejo subjacente ao suicídio é aliviar a dor psicológica
insuportável, buscando o fim da consciência dessa dor e do sofrimento que ela acarreta. A
existência de um diagnóstico psiquiátrico tem sido reconhecida como um fator de risco
significativo para comportamentos suicidas, no entanto, a dor psicológica pode desempenhar
um papel adicional na previsão e compreensão desses comportamentos, pois já se reconhece
que “sem dor, não há suicídio”. Essa afirmativa destaca a importância da dor psicológica nos
modelos de comportamento suicida (SCHNEIDMAN, 2001; KLONSKY, MAY 2015).
A dor psicológica pode estar associada a uma variedade de diagnósticos psiquiátricos
(JOINER 2001). Porém, nem todos os pacientes deprimidos vivenciam dor psicológica,
evidenciando uma variabilidade na sua presença (MEE et al. 2011). Além disso, foi
observado que pacientes deprimidos que relatam níveis elevados de dor psicológica
apresentam alterações na perfusão cerebral em áreas do cérebro relacionadas à regulação
emocional, em comparação com pacientes deprimidos que apresentam níveis baixos de dor
11
psicológica. Essas descobertas sugerem que a presença e intensidade da dor psicológica
podem estar associadas a diferenças neurobiológicas nos pacientes deprimidos. Esses achados
indicam que a dor psicológica não é apenas um fenômeno subjetivo, mas também possui
correlações objetivas com as alterações cerebrais (VAN HEERINGEN et al. 2010).
De acordo com Meerwijk et al. (2013), a dor psicológica está relacionada a uma rede
neural conhecida como "rede da dor" que inclui o tálamo, o córtex pré-frontal, o córtex
cingulado anterior e o córtex insular em indivíduos não suicidas. Essa rede compartilha
algumas sobreposições com as regiões cerebrais envolvidas na dor física.
Pesquisas
realizadas na temática têm explorado diferentes abordagens no tratamento da dor psicológica,
como o uso do agonista opioide buprenorfina (YOVELL et al., 2016) e do anestésico
cetamina (GRUNEBAUM et al., 2018). Esses estudos sugerem possíveis alvos terapêuticos
futuros para reduzir o sofrimento e o risco de suicídio subsequente.
3.2 Panorama e epidemiologia do comportamento suicida
O comportamento suicida é uma preocupação mundial de saúde pública, associado a
mortes prematuras, incapacidade e comprometimento funcional. A Organização Mundial da
Saúde (OMS) estima que o suicídio seja a quarta principal causa de morte entre jovens de 15 a
29 anos, sendo responsável pela morte de mais de 700 mil pessoas por ano no mundo. Este
fenômeno afeta pessoas independente de sexo, cultura, idade e classe social. No entanto,
existem pessoas e cenários mais propícios a esse desfecho, pois a sua etiologia se relaciona a
fatores de natureza social, econômica, política, cultural, psicológica e biológica (OMS, 2021).
No Brasil, o número de mortes por suicídio tem apresentado um aumento exponencial,
passando de 9.454 casos em 2010 para 13.523 em 2019. Essas taxas elevadas colocam o país
entre os dez com maior incidência de suicídios no mundo. No período de 2010 a 2013, foram
registrados, no Brasil, 112.230 mortes por suicídio (BOTEGA, 2014). Em 2019, a taxa
calculada foi de 6,6 mortes por 100 mil habitantes, sendo as Regiões Sul e Centro-Oeste as
áreas com as maiores taxas de suicídio (BRASIL, 2021).
Quanto às características sociodemográficas, observou-se uma maior prevalência de
suicídio entre homens, com um risco 3,8 vezes maior em comparação às mulheres. Houve um
aumento substancial de incidência de suicídios em todos as faixas etárias, de 2010 a 2019. A
faixa etária de 20 a 39 anos apresentou maiores taxas de lesões autoprovocadas,
correspondendo a 46,3% dos casos. Destaca-se também o aumento significativo nas taxas de
12
mortalidade entre os adolescentes, com um aumento de 81%, evoluindo de 3,5 para 6,4
mortes a cada 100 mil habitantes (BRASIL, 2021).
A maioria das lesões autoprovocadas registradas no período ocorreu entre indivíduos
com ensino médio completo ou incompleto (30,3%). Em relação à raça, a maior prevalência
foi encontrada em indivíduos que se identificavam como brancos (47,3%). Os métodos mais
utilizados foram envenenamento (60,2%), seguido de uso de objetos perfurocortantes (16,2%)
(BRASIL, 2021).
Embora a maioria dos suicídios consumados ocorra em homens, as tentativas são mais
frequentes entre as mulheres. Dentre os fatores de risco gerais, destacam-se tentativas de
suicídio anteriores, automutilação, transtornos psiquiátricos e dependência ou abuso álcool
e/ou outras substâncias psicoativas. No entanto, é importante ressaltar que cerca de 5% dos
pacientes psiquiátricos cometem suicídio. Dessa forma, faz-se necessário entender quais são
os outros fatores que determinam o comportamento suicida (BACHMANN, 2018; LESAGE
et al., 1994; MORTENSEN et al, 2000).
Outras variáveis que demostram associação significativa com risco de suicídio são
alterações cognitivas, histórico de abuso infantil e abuso na vida adulta, comprometimento
funcional e traços de personalidade. Evidências sugerem que comportamentos impulsivos e
agressivos estão frequentemente presentes na maioria dos indivíduos que cometem suicídio,
indicando uma correlação positiva entre esses traços de personalidade e a manifestação do
comportamento suicida. (RICHARD-DEVANTOY et al., 2012; ÁSGEIRSDÓTTIR et al.,
2018; TURECKI, 2005; MCGIRR et al., 2008)
Os transtornos psiquiátricos também são comumente associados às tentativas de
suicídio, sendo os mais comuns a depressão, transtorno bipolar, transtornos de personalidade
e a esquizofrenia. Os transtornos de humor são os que mais se destacam nessa correlação. A
depressão, em particular, está fortemente associada às tentativas de suicídio, visto que seus
sintomas se conectam a fatores importantes desse desfecho (GOMES et al., 2019).
3.3 Traços de personalidade e sua relação com o suicídio
Os traços de personalidade são descritos como fenótipos complexos, que são
determinados pelo ambiente, por genes individuais e interações gene-gene e gene-ambiente. A
impulsividade e a agressividade, por exemplo, são traços de personalidade que se relacionam
ao risco de suicídio bem como utilização de métodos mais violentos e tentativas em
indivíduos mais jovens (HIRVIKOSKI, JOKINEN 2012; DUMAIS et al., 2005).
13
Estudos têm observado que fatores de desenvolvimento cerebral e maturação
influenciam a variabilidade do comportamento impulsivo e agressivo durante o
desenvolvimento inicial do sujeito. Além disso, vivenciar experiências traumáticas na infância
apresenta potencial para aumentar a impulsividade, diminuir a capacidade do cérebro de inibir
ações negativas e dificultar o controle emocional (ROMER, 2010; BRAQUEHAIS et al.,
2010). Jordan et al. (2019) apoiaram a hipótese de que a impulsividade e o comportamento
suicida apresentam relação indireta, podendo ocorrer através da exposição a eventos
dolorosos e provocativos.
A impulsividade é definida como uma capacidade aumentada de apresentar
comportamentos rápidos e não planejados, de forma a não considerar as possíveis
consequências negativas de suas ações (MOELLER et al., 2001). A impulsividade é
considerada fator de risco para o suicídio, e indivíduos com esse traço de personalidade
apresentam maior propensão a agir em uma tentativa “planejada”, pois os planos podem
permanecer inativos até encontrarem circunstâncias que ocasionem certo comprometimento
do controle comportamental (DOIHARA et al. 2012; WITTE et al. 2008). Quando a
impulsividade é associada a episódios depressivos, por exemplo, o risco de suicídio é ainda
maior. Além disso, é importante considerar que quanto mais grave um desses fatores, menor
gravidade é necessária no outro para aumentar o risco de suicídio. Ou seja, a presença
simultânea de impulsividade e depressão pode potencializar o risco de comportamento
suicida, mesmo que um dos fatores seja menos severo em comparação ao outro. (SWANN et
al. 2007; WITTE et al. 2008).
A impulsividade ocorre quando há um desequilíbrio na inibição da ação e pode ser
medida como uma característica de personalidade e atitude. Frequentemente é estimada por
escalas como: Escala de Impulsividade de Barratt e Escala de Urgência Positiva (SWANN et
al. 2005). Existem ainda, algumas características consideradas de risco para o surgimento ou
agravamento da impulsividade, tais como: hiperexcitação, interrupção do sono, estressores,
superestimulação ou utilização de agentes farmacológicos (prescritos ou não) que produzem
desinibição comportamental ou facilitam a superestimulação. Com o aumento da
impulsividade, consequentemente, há um aumento do risco de suicídio, principalmente
quando associado a quadros depressivos (SWAN et al., 2020; SWANN et al. 2009).
Herman e Duka (2018) descreveram o conceito de impulsividade em três categorias:
impulsividade reflexiva (preparação impulsiva da ação), impulsividade motora (execução
impulsiva da ação) e impulsividade temporal (impulsividade no estágio de resultado da ação).
Mais detalhadamente, a impulsividade reflexiva pode ser descrita como uma tendência a
14
tomar decisões sem uma análise criteriosa das informações disponíveis. Nesse contexto, as
escolhas são feitas de maneira rápida e pouco racional, o que aumenta a probabilidade de
cometer erros e experimentar arrependimentos posteriores. Essa falta de consideração
cuidadosa pode ter um impacto significativo na qualidade das decisões tomadas e nas
consequências resultantes (KAGAN, 1965; KAGAN et al., 1964).
Por outro lado, a impulsividade motora, está relacionada à execução inadequada de
ações motoras devido a uma incapacidade de “parar” ou de esperar pelo momento adequado
para agir. Estudos realizados por Logan (1994) e Hogg et al. (1975) forneceram evidências
que sustentam essa relação. Já impulsividade temporal envolve a dificuldade de aguardar
recompensas. Por exemplo, pessoas com esse tipo de impulsividade tendem a preferir receber
uma quantia menor de forma imediata em vez de esperar por uma quantia maior disponível
em um período mais longo (KIRBY et al., 1999).
A agressividade é outro traço de personalidade que pode predispor a um maior risco de
pensamentos e comportamentos suicidas e vice-versa. Teorias sugerem que a agressão
apresenta potencial de ocasionar uma autolesão letal (JOINER, 2005; GVION; APTER. 2011;
HARTLEY et al., 2018). Além disso, alguns estudos têm demonstrado forte associação entre
comportamentos agressivos e comportamento suicida em amostras psiquiátricas e não
psiquiátricas (GVION; APTER, 2012; GVION; APTER, 2011). A agressão pode ser dividida
em: agressão verbal, agressão física, hostilidade e raiva (BUSS; PERRY, 1992).
Outras pesquisas corroboram a relação entre agressividade e comportamento suicida,
bem como o uso de métodos mais letais. Esses estudos revelam diferenças notáveis entre
gêneros e comportamento suicida: as mulheres têm uma maior incidência de tentativas de
suicídio em comparação aos homens, no entanto, os homens morrem mais frequentemente por
suicídio. Esse achado pode ser explicado pela adoção de métodos mais letais nas tentativas de
suicídio praticadas por homens, pois o gênero masculino frequentemente apresenta maior
incidência de características como impulsividade e agressividade e tendência a responder com
comportamentos agressivos em situações estressoras (CHAPPLE; JOHNSON 2007; MERGL
et al., 2015; FREEMAN et al., 2017; SHELEF, 2021).
3.4 O impacto da presença de traumas na infância sob o comportamento suicida
A probabilidade de apresentar transtornos psiquiátricos, que podem iniciar na infância
e perdurar até a vida adulta, aumenta de forma significativa com a exposição a traumas,
violência física e emocional e história de abuso sexual vivenciadas na infância. O início do
15
desenvolvimento do indivíduo é crucial para o desenvolvimento do cérebro, fazendo com que
experimentar essas experiências tenham consequências a longo prazo (BRIGGS-GOWAN et
al., 2010). Se deve levar em consideração, ainda, que essas adversidades vivenciadas na
infância além de predispor a várias psicopatologias também podem ocasionar diversas outras
patologias, incluindo doenças cardíacas e câncer (NILSSON et al., 2008; KELLY-IRVING et
al., 2013)
Do ponto de visto fisiológico, o estresse precoce grave pode induzir uma série de
eventos que influenciam o desenvolvimento normal do cérebro e a hiperatividade no eixo
hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), sistema importante na fisiopatologia do suicídio
(TEICHER et al. 2002; WHITNALL et al 1993). Além disso, como resposta ao trauma, o
sistema imunológico ativa vias inflamatórias de sinalização. Nos neurônios, o aumento das
citocinas resulta em efeitos neurotóxicos e excitotóxicos, levando a déficits neurocognitivos
que se associam a alterações na neuroplasticidade, brotamento sináptico, amostragem
microglial,
neurogênese
reduzida,
estresse
nitro-oxidativo
elevado
e,
finalmente,
neurodegeneração, alterando a sinalização neuronal e a densidade da matéria cerebral,
resultando em volumes hipocampais menores (LIPPARD, NEMEROFF 2020; SERAFINI et
al., 2020; OLMOS, LLADÓ 2014; VYTHILINGAM et al, 2002).
Essas adversidades vivenciadas na infância, também estão relacionadas a um aumento
na resposta emocional ao estresse (KORKEILA et al., 2010). Em um estudo realizado nessa
área, observou-se que pacientes com depressão associada a histórico de trauma na infância
respondem de forma excessiva a situações estressoras quando comparados a pacientes
também deprimidos, mas sem o histórico de trauma (SAR et al. 2009). Além disso, pacientes
que apresentam transtornos psiquiátricos e que vivenciaram traumas na infância apresentam
recuperação mais lenta, períodos mais longos com sintomas depressivos e início mais precoce
desses sintomas (VALLATI et al. 2020).
Outros estudos relacionaram o histórico de trauma na infância à presença de
automutilação e comportamento suicida, considerando-o como fator de risco forte e
independente para tentativa de suicídio (JOINER et al. 2007; GLASSMAN et al. 2007).
Também foi relatado associação entre tentativa de suicídio e impulsividade em crianças com
história de abuso sexual, físico e abuso emocional (BRODSKY et al. 2001; YANIK; OZMEN
2002).
16
4 METODOLOGIA
4.1 Desenho, local e população do estudo
O presente estudo faz parte do projeto intitulado "Tentativas de suicídio atendidas no
Hospital Geral do Estado (HGE) em Maceió: Um estudo epidemiológico translacional com
intervenção clínica em seguimento de 12 meses", financiado pelo Programa de Pesquisa para
o SUS (PPSUS): Gestão Compartilhada em Saúde Decit-SCTIEMS/CNPq/FAPEAL, e
Secretaria de Saúde do Estado de Alagoas – Edital 2020.
Trata-se de um estudo quantitativo transversal analítico, realizado no período de março
de 2022 a março de 2023 com casos de tentativa de suicídio que foram identificados entre os
atendimentos realizados no Hospital Geral do Estado (HGE), localizado em Maceió, Alagoas,
Brasil. Uma vez aceitando participar do estudo, os pacientes foram convidados para continuar
a investigação sobre o comportamento suicida no Hospital Universitário Prof. Alberto
Antunes (HUPAA/UFAL). Além disso, a coleta e aplicação dos questionários foram
ampliadas para o Ambulatório de Psiquiatria do HUPAA/UFAL para investigação dos
pacientes que também já são atendidos neste local, reconhecendo a relevância da investigação
desse público para o campo da suicidologia e identificando essa expansão como oportunidade
para o crescimento do estudo.
Obtivemos um total de 52 pacientes, sendo 8 encaminhados do Hospital Geral do
Estado (HGE) pata o Ambulatório do HUPAA/UFAL devido a tentativa de suicídio, e 44
pacientes que estavam sendo atendidos no Ambulatório do HUPAA/UFAL para tratamento de
transtornos psiquiátricos. Os pacientes atendidos no ambulatório do HU foram selecionados
por conveniência à medida que foram sendo identificados dentre os atendimentos.
Para calcular a amostra dos pacientes que tentaram o suicídio, consideramos um estudo
prévio que identificou um total de 141 mortes por suicídio em Maceió entre os anos de 2013 e
2015, com uma média anual de 47 mortes por suicídio na cidade. Levando-se em
consideração que a média de tentativas de suicídio é em geral 20 vezes maior que o número
de mortes, estimou-se uma média de 940 tentativas de suicídio por ano na capital Alagoana.
Tendo em vista que apenas 1/3 das tentativas de suicídio atingem o atendimento hospitalar,
cerca de 314 tentativas de suicídio deveriam chegar a serem atendidas em Maceió, num
período de 12 meses. A partir deste número, calculou-se o tamanho da amostra do estudo,
levando em consideração um nível de confiabilidade de 95% e uma margem de erro de 5%,
17
chegando ao número de 228 casos. Considerando uma taxa de 20% de perdas, ajustou-se a
amostra para 274 casos a serem investigados num período de 12 meses. Assim, o tamanho da
amostra obtido no presente estudo não é representativo dos pacientes que tentam suicídio em
Maceió.
Para o cálculo da amostra de pacientes atendidos ambulatorialmente, considerando uma
população de cerca de 300 pacientes, com um intervalo de confiança de 95% e margem de
erro de 10%, o tamanho ideal da amostra seria de 73 pessoas. Dessa forma, o N do presente
estudo também não é representativo do ambulatório de psiquiatria do HUPAA.
4.2. Critérios de elegibilidade
4.2.1. Critérios de inclusão
Foram incluídos no estudo pacientes de ambos os sexos, com idade igual ou superior a
18 anos, que tenham dado entrada no Hospital Geral do Estado (HGE) por tentativa de
suicídio ou que estavam sendo atendidos ambulatorialmente no Ambulatório de Psiquiatria do
HUPAA/UFAL para o tratamento de transtornos psiquiátricos.
4.2.2. Critérios de exclusão
Foram excluídos do estudo pacientes com déficit intelectual significativo, que
dificultasse claramente a compreensão das perguntas feitas durante a entrevista, bem como
pacientes com transtornos psicóticos crônicos, como esquizofrenia, e transtornos de humor
com sintomas psicóticos agudos, como depressão com sintomas psicóticos e transtorno
bipolar com sintomas psicóticos.
4.3 Aspectos éticos
Conforme mencionado anteriormente, este estudo faz parte de um projeto maior,
intitulado "Tentativas de suicídio atendidas no Hospital Geral do Estado (HGE) em Maceió:
Um estudo epidemiológico translacional com intervenção clínica em seguimento de 12
meses", o qual foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade
Federal de Alagoas em atendimento as resoluções n°466/122 e 510/16 sobre a pesquisa
envolvendo seres humanos (nº do protocolo no CEP: 4.696.966 [Anexo A])
Os participantes que se enquadraram nos critérios de inclusão da pesquisa foram
convidados pelos pesquisadores responsáveis a participar do estudo. Foram devidamente
18
esclarecidos sobre o objetivo, métodos, desconfortos e os benefícios do estudo, além da
liberdade em retirar sua participação do estudo a qualquer momento. Após a confirmação da
participação voluntária no estudo, os participantes assinaram o Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido (T.C.L.E) (Apêndice A), formalizando sua participação na pesquisa.
4.4. Coleta de dados
A coleta de dados foi realizada através dos seguintes instrumentos:
4.4.1. Questionário sociodemográfico e clínico
Elaborado para o presente estudo, tem como objetivo coletar informações sobre os
participantes como idade, ocupação, escolaridade, gênero, cor/raça, estado civil, renda e dados
sobre história clínica e características da tentativa de suicídio (Apêndice B).
As variáveis foram descritas da seguinte forma: A variável sexo foi dividida em
feminino e masculino; estado civil: com companheiro(a) ou sem companheiro(o); situação
ocupacional: ativo ou inativo; prole: com filhos ou sem filhos e procedência: capital (para
aqueles procedentes de Maceió) ou interior do estado. A idade foi descrita em anos e a renda
familiar e per capita em reais (R$). A escolaridade foi considerada como variável numérica
sendo que cada ano de estudo equivale a uma unidade na resposta. Assim, por exemplo, um
participante que concluiu o ensino fundamental, teve como resposta 9 anos de estudo. Já
aquele que concluiu o ensino médio teve 12 anos de estudo. Nessa variável não são
computados números a mais para os anos repetidos, apenas para os anos concluídos e com
aprovação. Para a variável cor/raça, as respostas possíveis foram consideradas como branco
ou não-branco (a qual incluía preto, pardo, indígena, amarelo ou qualquer outra denominação
dada pelo próprio participante).
4.4.2. BIS-11 (Escala de Impulsividade de Barratt)
Esta escala é composta por 30 itens, do tipo likert de 4 pontos: nunca ou raramente (1
ponto), ocasionalmente (2 pontos), frequentemente (3 pontos) ou muito frequentemente (4
pontos). A versão original do instrumento consiste em três subescalas: 1) impulsividade
atencional, composta por 8 itens (pontuação máxima de 32 pontos); 2) impulsividade motora,
composta por 11 itens (pontuação máxima de 44 pontos); e 3) impulsividade relacionada à
dificuldade de planejamento, composta por 11 itens (pontuação máxima de 44 pontos). A
soma das três escalas perfaz uma pontuação máxima de 120 pontos. Quanto maiores os
19
valores obtidos na escala, maiores os níveis de impulsividade. A BIS-11 foi traduzida e
submetida ao processo de adaptação transcultural para o contexto brasileiro por Malloy-Diniz
et al. (2010). (Anexo B)
4.4.3. AQ (Escala de Agressividade de Buss-Perry)
É um instrumento psicométrico amplamente utilizado para medir a agressividade em
indivíduos. É composta por 29 itens que avaliam diferentes aspectos da agressividade:
agressividade física, agressividade verbal, raiva e hostilidade. Os participantes respondem aos
itens indicando o grau de concordância com cada afirmação em uma escala de Likert de 7
pontos, variando de "discordo total" a "concordo totalmente". Quanto maiores os valores,
maiores os níveis de agressividade. A escala foi validada no português por Gouveia et al.
(2008). (Anexo C)
4.4.4. Escala de dor psicológica
A escala consiste em um questionário com 28 itens que avaliam a experiência da dor
psicológica durante o desenvolvimento do indivíduo, avaliando sua frequência e intensidade.
Cada item é pontuado em uma escala de Likert, que varia de 1 a 5, representando desde
"nunca" até "sempre", sendo que quanto maiores os escores, maior o nível de dor. A escala foi
traduzida e validada para o português por Campos, Holden e Gomes (2018). (Anexo D)
4.4.5. CTQ (Childhood Trauma Questionnaire)
O questionário conta com 28 assertivas compostas por afirmações nas quais o indivíduo
deve indicar a frequência com que experimentou cada uma delas ao longo de seu
desenvolvimento. O instrumento avalia 5 componentes traumáticos: abuso físico, abuso
emocional, abuso sexual, negligência física e negligência emocional. Os itens são respondidos
de forma autoaplicável por meio de escala tipo Likert de 5 pontos, com graduação que vai de
1 (nunca) a 5 (sempre). O questionário foi traduzido e validado para o português por GrassiOliveira; Stein e Pezzi (2006). (Anexo E)
4.4.6. MINI 5.0.0 (Mini International Neuropsychiatric Interview)
É uma entrevista diagnóstica padronizada que tem como objetivo explorar os principais
Transtornos Psiquiátricos do Eixo I do DSM IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais, 4ª edição) de forma rápida, levando cerca de 15 minutos para ser
20
aplicada. Sua estrutura é composta por módulos diagnósticos independentes, cada um focado
na avaliação da presença de um transtorno psiquiátrico específico. Ao todo, são abordados 17
transtornos psiquiátricos distintos por meio desses módulos. Neste estudo foi utilizado apenas
o módulo C, referente ao risco suicídio. Foi validado e adaptado ao português por Amorim
(2000). (Anexo F)
4.5. Processamento e análise dos dados
Os dados coletados foram digitados em planilha do Excel e analisados com auxílio do
programa estatístico SPSS, versão 29. Inicialmente foi realizada uma análise descritiva da
amostra, com cálculo de frequências, com números absolutos e porcentagens. Em seguida foi
realizado o teste de Shapiro-Wilk para examinar a normalidade da amostra. As variáveis
contínuas obtiveram distribuição normal e foram analisadas por meio do Teste t de Student
para comparação de médias entre grupos. As variáveis quantitativas foram investigadas para
determinação de correlação por meio do teste de correlação de Pearson. As associações entre
variáveis categóricas foram analisadas por meio do teste de qui-quadrado de Pearson.
Os grupos foram divididos com base nos escores obtidos na Escala de Dor
Psicológica: aqueles com escores abaixo de 30 foram designados para o grupo "Sem risco de
suicídio", enquanto aqueles com escores acima de 30 foram inclusos no grupo "Com risco de
suicídio". Essa divisão foi estabelecida com base no estudo de Holden e Campos (2020), que
demonstrou que esse ponto de corte identifica pacientes com alta dor psicológica e, portanto,
maior risco de suicídio (AUC = 0,754; SE = 0,035; sensibilidade = 0,70; especificidade =
0,85; OR = 11,68).
21
5 RESULTADOS
Foram incluídos na pesquisa 52 pacientes, sendo 8 encaminhados do Hospital Geral do
Estado (HGE) devido a tentativa de suicídio, e 44 pacientes que estavam sendo atendidos no
Ambulatório de Psiquiatria do Hospital Universitário Prof. Alberto Antunes para tratamento
de transtornos psiquiátricos.
No que diz respeito ao perfil sociodemográfico da amostra estudada, a maioria dos
participantes era do sexo feminino (73,1%; n=38), de etnia não-branca (67,3%; n=35), estado
civil sem companheiro (55,8%; n=29), com filhos (82,7%; n=43), situação ocupacional
inativa (73,1%, n=38) e procedentes da capital do estado (69,2%; n=36).
A média de idade da amostra foi de 50,8 (±14,06) anos, variando de 22 a 85 anos. A
renda familiar foi de R$2137,8 (±1815,2) e a renda per capita foi de e R$ 1262,5 (±1605,6). A
escolaridade dos participantes variou de 0 a 21 anos de estudo com uma média de 9,3(±5,8)
anos. Todos os dados referentes à caracterização geral da população estudada estão descritos
na Tabela 1.
Tabela 1. Caracterização sociodemográfica dos pacientes investigados no
Hospital Geral do Estado por tentativa de suicídio e no Ambulatório de Psiquiatria do
Hospital Universitário Prof. Alberto Antunes. Maceió, 2023.
Variáveis
N
%
Média
DP*
Sexo
Feminino
Masculino
38
14
73,1
26,9
Idade
50,8
14,6
Escolaridade (em anos)
9,3
5,8
Etnia
Branco
Não-branco
17
35
32,7
67,3
Estado civil
Com companheiro (a)
Sem companheiro (a)
23
29
44,2
55,8
Prole
Com filho(s)
Sem filho(s)
43
9
82,7
17,3
Situação ocupacional
Ativo
14
26,9
22
Inativo
38
73,1
Renda familiar (R$)
2137,8
1815,2
Renda per capita (R$)
1262,5
1605,6
Procedência
Capital
Interior do estado
36
16
69,2
30,8
*DP: Desvio padrão
Com relação à caracterização do comportamento suicida da amostra, como já referido
anteriormente, 8 pacientes estavam sendo atendidos em serviço de urgência devido à tentativa
de suicídio próxima e 44 estavam em atendimento ambulatorial para o tratamento de
transtornos psiquiátricos. Dos pacientes incluídos na amostra, 42,3% (n=22) deles já haviam
tentado o suicídio em algum momento da vida, sendo que 21,2% (n=11), já haviam tentado
mais de uma vez. A maioria das tentativas foi não planejada (81,3%; n=13) e a maioria dos
pacientes questionados sobre a possibilidade de tentar o suicídio novamente afirmou que
existia chance, seja forte ou fraca (54,6%; n=6).
Em relação aos resultados obtidos no Módulo C do Mini International
Neuropsychiatric Interview (MINI 5.0.0) sobre o risco de suicídio, a maioria dos participantes
(61,8%; n=21) apresentou algum risco de suicídio, classificado como baixo, moderado ou
alto. O maior percentual foi observado no grupo com risco alto (26,5%; n=9).
Aproximadamente 38,2% (n=13) dos participantes relataram ter tido ideação suicida passiva
no último mês, enquanto 26,5% (n=9) mencionaram ideação suicida ativa. Em relação às
tentativas de suicídio no último mês, um paciente (2,9%; n=1) relatou ter feito uma tentativa.
É importante destacar ainda, que o número de pacientes que responderam ao módulo de
suicidalidade do MINI 5.0.0 é inferior ao número total de participantes do estudo, totalizando
34 pacientes. Isso ocorreu porque o referido questionário foi administrado apenas a uma parte
dos pacientes atendidos no ambulatório para tratamento de transtornos psiquiátricos. Com o
decorrer da aplicação dos demais questionários, foi percebida a necessidade de complementar
essa avaliação, a partir daí, foi incluído o MINI 5.0.0.
23
Tabela 2. Caracterização do comportamento suicida dos pacientes investigados
no Hospital Geral do Estado por tentativa de suicídio e no Ambulatório de Psiquiatria
do Hospital Universitário Prof. Alberto Antunes. Maceió, 2023.
Variáveis
n
%
Motivo do atendimento
Tentativa de suicídio
Tratamento de transtornos psiquiátricos
8
44
15,4
84,6
Tentativa de suicídio
Já tentou suicídio
Nunca tentou suicídio
22
30
42,3
57,7
Tentativas anteriores
Sim
Não
11
41
21,2
78,8
Planejamento da tentativa
Tentativa planejada
Tentativa não planejada
3
13
18,8
81,3
Chance de tentar novamente
Sim, forte
Sim, fraca
Não há chance
2
4
5
18,2
36,4
45,5
Grau de suicidalidade – MINI 5.0.0
Sem risco
Risco baixo
Risco moderado
Risco alto
13
8
4
9
38,2
23,5
11,8
26,5
Ideação passiva
Não
Sim
21
13
61,8
38,2
Ideação ativa
Não
Sim
25
9
73,5
26,5
Tentativa no último mês
Não
Sim
33
1
97,1
2,9
*Mini International Neuropsychiatric Interview (MINI 5.0.0)
A tabela 3 apresenta as médias e desvio-padrão relacionados aos traços de
personalidade de impulsividade e agressividade conforme pontuação obtida nos questionários
de Escala de Impulsividade de Barrat – BIS 11 e Escala de Agressividade de Buss-Perry –
24
AQ, respectivamente, além da dor psicológica e de trauma na infância, incluindo a ocorrência
de abuso emocional, físico, sexual e negligência emocional e física.
Tabela 3. Escores de impulsividade (Escala de Impulsividade de Barrat – BIS 11),
agressividade (Escala de Agressividade de Buss-Perry - AQ), dor psicológica (Escala de
Dor psicológica - PAS) e trauma na infância (Childhood Trauma Questionnaire - CTQ)
em pacientes investigados no Hospital Geral do Estado por tentativa de suicídio e no
Ambulatório de Psiquiatria do Hospital Universitário Prof. Alberto Antunes. Maceió,
2023.
Variáveis
N
Média
DP*
Mínimo
Máximo
Impulsividade total
Impulsividade motora
Impulsividade atencional
Impulsividade por falta de
planejamento
46
46
46
46
66,91
20,24
19,85
26,83
14,53
4,882
5,70
6,23
40
13
9
13
96
33
32
42
Agressividade total
Raiva
Agressão física
Hostilidade
Agressão verbal
46
46
46
46
46
81,13
22,35
23,15
23,48
12,15
23,70
6,63
7,45
7,06
5,20
45
8
12
9
5
132
35
42
39
25
Dor psicológica
52
38,48
15,11
13
64
Trauma na infância
Abuso emocional
Abuso físico
Abuso sexual
Negligência emocional
Negligência física
26
26
26
26
26
26
52,77
13,25
9,92
6,19
12,58
10,73
22,01
6,28
6,40
2,98
5,91
4,58
30
5
4
5
5
5
110
25
34
16
16
22
*DP: Desvio padrão
Nas tabelas 4 e 5, estão apresentados os coeficientes de correlação de Pearson para a
maioria das variáveis analisadas neste estudo. Ao realizar a análise de correlação da escala de
dor psicológica, observamos uma correlação fraca negativa com a renda familiar. Isso
significa que há uma tendência de que quanto menor for a renda familiar, maior será a
intensidade da dor psicológica.
Além disso, foi identificada correlação fraca positiva entre a dor psicológica e o grau
de impulsividade global e os subtipos de impulsividade motora e por não planejamento. Esses
resultados indicam que indivíduos com maior nível de dor psicológica também apresentaram
25
maiores pontuações nos aspectos relacionados à impulsividade motora e por não
planejamento.
Tabela 4. Coeficientes de correlação de Pearson de 13 variáveis avaliadas na amostra
de pacientes investigados no Hospital Geral do Estado por tentativa de suicídio e no
Ambulatório de Psiquiatria do Hospital Universitário Prof. Alberto Antunes. Maceió, 2023.
RF
MINI
BIS
BM
BA
BNP
CTQ
CTE
CTF
CTS
CTNE
CTNF
EDP
1
-,245
1
-,413*
,569**
1
-,271
,565**
,818**
1
-,430*
,209
,852**
,513**
1
-,366*
,565**
,911**
,655**
,668**
-,340
,235
,378
,227
,252
-,186
,286
,358
,282
,283
-,388
,286
,524**
,377
,326
-,108
-,185
-,083
-,066
-,118
-,193
,163
,305
,079
,279
-,507*
,297
,259
,120
,089
-,320*
,326
,388**
,350*
,261
1
,438*
1
,288
,897**
1
,569**
,892**
,746**
1
,000
,568**
,443*
,449*
1
,371
,909**
,802**
,741**
,370
1
,439*
,791**
,577**
,621**
,367
,704**
1
,391**
,225
,365
,271
-,263
,217
,094
1
RF
MINI
BIS
BM
BA
BNP
CTQ
CTE
CTF
CTS
CTNE
CTNF
EDP
RF: renda familiar; MINI: escore total da suicidalidade do MINI IV; BIS: pontuação total de impulsividade do BIS11; BM:
pontuação de impulsividade motora; BA: pontuação de impulsividade atencional; BNP: pontuação de impulsividade por não
planejamento; CTQ: pontuação total de trauma na infância do CTQ; CTE: pontuação de abuso emocional; CTF: pontuação
de abuso físico; CTS: pontuação de abuso sexual; CTNE: pontuação de negligência emocional; CTNF: pontuação de
negligência física; EDP: escala de dor psicológica.
Em relação à escala de agressividade, os resultados demonstraram correlações
positivas fracas entre a dor psicológica e as medidas de agressividade global, raiva, agressão
física e hostilidade. Esse achado sugere que existe uma associação leve entre a intensidade da
dor psicológica e os níveis relatados de agressividade, indicando que indivíduos que
experimentam maior dor psicológica tendem a apresentar pontuações mais altas nas medidas
de agressividade global, raiva, agressão física e hostilidade.
Tabela 5. Coeficientes de correlação de Pearson de 14 variáveis avaliadas na amostra
de pacientes investigados no Hospital Geral do Estado por tentativa de suicídio e no
Ambulatório de Psiquiatria do Hospital Universitário Prof. Alberto Antunes. Maceió, 2023.
RF
MINI
AQ
AQR
AQF
AQH
AQV
CTQ
RF
MINI
AQ
AQR
AQF
AQH
AQV
CTQ
CTE
CTF
CTS
CTNE
CTNF
EDP
1
-,245
,466**
,574**
-,339*
.561**
,570**
-,301
-,340
-,186
-,388
-,108
-,193
-,507*
-,320*
,448**
,424**
,507**
,556**
,235
,286
,286
-,185
,163
,297
,326
1
,881**
,944**
,903**
,852**
,471*
,502*
,543**
,011
,335
,385
,378**
1
,765**
,738**
,638**
,547**
,601**
,528**
,077
,431*
,466*
,424**
1
,799**
,808**
,383
,447*
,480*
-0,38
,262
,250
,380**
1
,670**
,459*
,386
,563**
,117
,309
,420*
,328*
1
,252
,343
,324
-,175
,158
,204
,192
1
,897**
,892**
,568**
,909**
,791**
,225
1
26
1
CTE
CTF
CTS
CTNE
CTNF
EDP
,746**
,443*
,802**
,577**
1
,449*
,741**
,621**
,365
,271
1
,370
,367
-,263
1
,704**
,217
1
,094
1
**. A correlação é significativa no nível 0,01
*. A correlação é significativa no nível 0,05
RF: renda familiar; MINI: escore total da suicidalidade do MINI IV; AQ: pontuação total de agressividade do AQ; AQR:
pontuação do AQ relacionada a raiva; AQF: pontuação do AQ relacionada a agressão física; AQH: pontuação do AQ
relacionada a hostilidade; AQV: pontuação do AQ relacionada a agressão verbal; CTQ: pontuação total de trauma na infância
do CTQ; CTE: pontuação de abuso emocional; CTF: pontuação de abuso físico; CTS: pontuação de abuso sexual; CTNE:
pontuação de negligência emocional; CTNF: pontuação de negligência física; EDP: escala de dor psicológica.
Para análise de associação entre grupos, os participantes foram divididos em dois
grupos distintos: aqueles com risco de suicídio (pontuação igual ou superior a 30 na Escala de
Dor Psicológica) e aqueles sem risco de suicídio (pontuação inferior a 30).
Essa abordagem de divisão em grupos com base nos níveis de dor psicológica visa
explorar as diferenças entre os indivíduos que apresentam maior intensidade de dor
psicológica, considerada um fator significativo para a tentativa de suicídio, e aqueles que
relatam menor dor psicológica, provavelmente associada a um menor risco.
Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas em relação a sexo,
idade, estado civil, situação ocupacional, escolaridade ou renda per capita entre os grupos.
Isso sugere que eles apresentam características sociodemográficas semelhantes na maioria das
variáveis analisadas. No entanto, a análise estatística revelou uma diferença significativa entre
os dois grupos em relação à renda familiar, com um valor de p de 0,014, apontando que a
renda familiar é menor no grupo que apresenta maior dor psicológica e, por consequência,
maior risco de suicídio.
Variáveis
Idade
Sexo; N (%)
Masculino
Feminino
Tabela 7. Análise da associação das variáveis sociodemográficas e escores da
escala de dor psicológica (PAS) com o risco de suicídio medido pelo grau de dor
psicológica dos pacientes atendidos no Ambulatório de Psiquiatria do Hospital
Universitário Prof. Alberto Antunes. Maceió, 2023.
Sem risco de
Com risco de
Análise estatística
suicídio (PAS <30)
suicídio (PAS
N=19
>30)
Teste t de Student
N=33
Média
DP
Média
DP
χ2
Limite
Limite
p
p
inferior superior
valor valor
55,74
15,43
48,06
13,66
0,69
,940
5 (26,3)
14 (73,4)
9 (27,2)
24 (72,7)
-,612
15,96
27
,416
Estado civil; N (%)
7 (36,8)
Com companheiro(a)
12 (63,2)
Sem companheiro (a)
Situação ocupacional; N (%)
5 (26,3)
Ativo
14
(73,7)
Inativo
10,74
Escolaridade
2944,44
Renda familiar
6,4
2159,03
9 (27,3)
24 (72,7)
8,48
1619,25
1745,83
2248,31
940,28
Renda per capita
16 (48,5)
17 (51,5)
,940
5,49
1358,0
6
887,75
,187
,014
-1,127
285,50
5,631
2367,88
,100
-159,86
1770,96
Na análise da impulsividade, foram examinados tanto a presença de impulsividade
global quanto os subtipos específicos, incluindo impulsividade motora, impulsividade
atencional e impulsividade por falta de planejamento. Os resultados mostraram uma
associação estatisticamente significativa entre níveis mais elevados de impulsividade por falta
de planejamento e o grupo com risco de suicídio (p=0,046). As demais variáveis referentes à
impulsividade não demonstraram significância estatística (tabela 8).
De acordo com os resultados apresentados na tabela 8, a maioria das escalas que
avaliam a presença de agressividade, como agressividade total, agressividade física, raiva e
hostilidade, demonstrou diferenças estatisticamente significativas, com valores de p inferiores
a 0,05. No entanto, não foram observadas diferenças significativas em relação à agressividade
verbal (tabela 8).
Tabela 8. Análise da associação dos traços de personalidade (impulsividade e
agressividade) com o risco de suicídio medido pelo grau de dor psicológica dos pacientes
atendidos no Ambulatório de Psiquiatria do Hospital Universitário Prof. Alberto
Antunes. Maceió, 2023.
Sem risco de
Com risco de
suicídio (PAS <30)
suicídio (PAS
Análise estatística
N=18
>30)
Teste t de Student
N=28
Variáveis
Média
DP
Média
DP
p
Limite
Limite
valor
inferior superior
BIS-11* total
BIS-11 – Impulsividade
motora
BIS-11 – Impulsividade
atencional
BIS-11
–
Falta
de
planejamento
AQ** total
62,58
19,11
14,06
4,63
69,71
20,96
14,37
4,97
,104
,213
-15,839
-4,806
1,251
1,099
18,89
5,64
20,46
5,76
,367
-5,057
1,906
24,56
5,44
28,29
6,35
,046
-7,395
-,065
71,61
22,42
87,25
22,81
,027
-29,44
-1,837
28
AQ – Raiva
AQ – Agressividade física
AQ – Hostilidade
AQ – Agressividade verbal
19,33
20,33
20,39
11,56
5,13
7,49
6,38
5,28
24,29
24,96
25,46
12,54
6,84
6,97
6,86
5,21
,012
,038
,016
,539
-8,75
-9,00
-9,14
-4,17
-1,15
-,259
-1,00
2,20
*BIS-11: Escala de Impulsividade de Barratt; **AQ: (Escala de Agressividade de Buss-Perry)
Não foram observados resultados estatisticamente significativos em relação à
associação entre história de trauma precoce e risco de suicídio medido pela presença de
elevada dor psicológica. Os valores de p não apresentaram significância em nenhuma das
subescalas analisadas (tabela 9).
Tabela 9. Análise da associação de história de trauma precoce com o risco de
suicídio medido pelo grau de dor psicológica dos pacientes atendidos no Ambulatório de
Psiquiatria do Hospital Universitário Prof. Alberto Antunes. Maceió, 2023.
Sem risco de
Com risco de
Análise estatística
suicídio (PAS <30)
suicídio (PAS
N=9
>30)
Teste t de Student
N=17
Variáveis
Média
DP
Média
DP
p
Limite
Limite
valor
inferior superior
CTQ – Trauma na infância
CTQ* – Abuso emocional
CTQ – Abuso físico
CTQ – Abuso sexual
CTQ
–
Negligência
emocional
CTQ – Negligência física
49,22
12,11
8,56
6,67
11,67
19,96
5,92
4,66
3,31
5,33
54,65
14,00
10,65
5,94
13,06
23,43
6,53
7,18
2,86
6,30
,561
,477
,440
,566
,579
-24,42
-7,284
-7,58
-1,84
-6,49
13,57
3,506
3,40
3,295
3,71
10,22
3,03
11,00
5,29
,689
-4,74
3,18
*Childhood Trauma Questionnaire
Ao analisar o comportamento suicida por meio do MINI 5.0.0, foi identificada uma
tendência estatística entre altos níveis de ideação suicida passiva no último mês e o grupo com
maior intensidade de dor psicológica (p=0,056).
Tabela 10. Análise da associação de história de trauma precoce com o risco de
suicídio medido pelo grau de dor psicológica dos pacientes atendidos no Ambulatório de
Psiquiatria do Hospital Universitário Prof. Alberto Antunes. Maceió, 2023.
Sem risco de
Com risco de
Análise estatística
suicídio (PAS
suicídio (PAS
<30)
>30)
Teste t de Student
N=12
N=22
Variáveis
Média
DP
Média
DP
χ2
Limite
Limite
p
p
inferior superior
valor valor
4,17
9,50
9,05
9,04
,150
-11,609
1,852
MINI 5.0.0* – Pontuação
29
total
Ideação passiva; N (%)
Não
Sim
Ideação ativa; N (%)
Não
Sim
Método de suicídio; N (%)
Não
Sim
Tentativa último mês; N (%)
Não
Sim
Tentativa longo da vida; (%)
Não
Sim
10
2
11
11
,056
,339
10
2
15
7
11
1
14
8
,077
11
1
22
0
,169
9
3
12
10
,241
*Mini International Neuropsychiatric Interview
30
6 DISCUSSÃO
6.1 Dor psicológica
A dor psicológica tem uma relação independente com o comportamento suicida
(DUCASSE; HOLDEN; BOYER et al., 2018). Associação entre medidas de dor psicológica,
onde a presença da dor representa valor adicional para além da depressão e desesperança já
foi descrita na literatura (TROISTER; HOLDEN, 2010). Por exemplo, em estudo realizado
com estudantes universitários em risco de suicídio, a dor psicológica foi capaz de mediar as
mudanças na ideação suicida, depressão e desesperança (TROISTER; HOLDEN, 2012).
As pontuações totais da Escala de Dor Psicológica validada no português por Campos
et al., (2018) podem variar entre 13 e 65 com maiores resultados indicando níveis mais
elevados de dor psicológica. Em um estudo realizado por Campos e Holden (2020) com o
objetivo de estabelecer um ponto de corte para identificar tentativas de suicídio anteriores,
observaram que pontuações acima de 30 foram capazes de identificar uma tentativa de
suicídio prévia. Essa pontuação de corte foi utilizada em nosso estudo para determinar
indivíduos com risco de suicídio e alto grau de dor psicológica.
Em uma meta-análise realizada por Ducasse et al. (2018), foram avaliados estudos
observacionais de caso-controle que abordaram a diferença na dor psicológica entre
indivíduos com e sem histórico atual ou ao longo da vida de ideação suicida ou tentativa de
suicídio. Os autores encontraram associação entre maiores níveis de dor psicológica, tanto em
sujeitos com ideação suicida atual e ao longo da vida, quanto em tentativas de suicídio. Além
disso, os autores constataram que a relação entre dor psicológica e risco de suicídio
permaneceu estatisticamente significativa, mesmo quando os níveis de depressão não
apresentavam diferenças significativas entre os indivíduos.
Encontramos um alto nível de dor psicológica nos pacientes estudados (média de
38,48). Isso pode ser explicado pelo próprio perfil dos pacientes: todos apresentavam algum
distúrbio psiquiátrico. E sabidamente já é descrito na literatura a associação de transtornos
mentais com a presença de dor psicológica, principalmente em pacientes depressivos
(ALACREU-CRESPO, 2022). No entanto, é relevante destacar que todos os pacientes que
participaram da pesquisa estavam recebendo tratamento, porém, mesmo com essa
intervenção, eles apresentaram níveis significativos de dor psicológica. Isso indica que, apesar
do cuidado clínico, a gravidade da dor persistiu e demanda uma abordagem mais abrangente
31
personalizada visando a atenuação desse sintoma, e consequentemente, reduzindo a chance de
suicídio.
Um estudo conduzido por Ielmini et al. (2022) teve como objetivo investigar a
associação entre os níveis de dor mental e o risco de suicídio ou tentativa de suicídio em
pacientes ambulatoriais com diagnóstico psiquiátrico atendidos em um Hospital Universitário
em Varese. A pesquisa utilizou a Escala de Dor Psicológica para avaliar esses níveis,
encontrando uma média de 35,27 entre os pacientes que tentaram suicídio, enquanto os
pacientes que não tentaram o suicídio apresentaram uma média de 28,34. Essa diferença foi
estatisticamente significativa, confirmando que os níveis de dor mental são mais elevados
naqueles que estão propensos a realizar uma nova tentativa de suicídio. A escala se mostrou
potencialmente útil na distinção entre indivíduos com "alto risco de suicídio" e "baixo risco de
suicídio". Essas descobertas ressaltam a importância de considerar a avaliação da dor
psicológica como parte integrante da avaliação de risco suicida em pacientes psiquiátricos.
Ao comparar os resultados obtidos no presente estudo com os achados de Ieimini et al.
(2022), observamos que a média de dor psicológica encontrada em nossa amostra de pacientes
psiquiátricos, independentemente de terem ou não histórico prévio de tentativa de suicídio, foi
ainda maior do que a média encontrada especificamente na parcela dos pacientes que tentaram
o suicídio no estudo de Ieimini et al. (2022). Essa constatação ressalta a preocupante
magnitude da dor psicológica e o elevado risco de suicídio identificados em nossa amostra.
Considerando a relevância reconhecida da análise da dor psicológica e sua relação
com a suicidalidade, realizamos análises de associação e correlação entre a dor psicológica,
perfil sociodemográfico, comportamento suicida e níveis de impulsividade, agressividade e
trauma na infância. Essa análise teve o objetivo de obter uma compreensão mais aprofundada
de outras características clínicas que podem estar associadas ao grau de dor psicológica e,
consequentemente, ao risco de suicídio. As análises de correlação e associação realizadas
encontram-se ao decorrer do texto.
6.2 Perfil sociodemográfico, características clínicas e relação com a dor psicológica
O perfil dos pacientes incluídos no nosso estudo foi, principalmente, de adultos, sexo
feminino, com baixa escolaridade, vivendo sem companheiros, desempregados, com filhos,
renda familiar de cerca de dois salários-mínimos e per capita de um salário-mínimo, etnia não
branco e procedentes da capital. A maior frequência de mulheres neste estudo, pode estar
relacionada a uma maior assiduidade da população feminina nos serviços de saúde quando
32
comparado à população masculina (CARNEIRO et al., 2016). A respeito da etnia mais
prevalente, identificada como autodeclarado não-branco, podemos atribuir esse achado à
miscigenação da população em nosso país, pois observa-se uma grande variedade étnica entre
os brasileiros, formando uma população heterogênea, assim como a encontrada no nosso
estudo (IBGE, 2011).
Correlacionando o perfil sociodemográfico com o grau de dor psicológica,
encontramos relação estatisticamente significativa com a renda familiar. A correlação foi
negativa, ou seja, inversamente proporcional – quanto maior a dor psicológica, menor a renda
encontrada. Além disso, a análise da associação entre os grupos revelou que no grupo com
risco de suicídio, foi identificada uma renda familiar menor, o que apresentou uma associação
estatisticamente significativa. Isso sugere que indivíduos mais vulneráveis ao suicídio
apresentam maior chance de pertencer a famílias com menores recursos financeiros.
Abaatyo et al. (2023) também encontraram relação positiva entre o estresse decorrente
de restrições financeiras e uma maior suscetibilidade a comportamentos suicidas em pacientes
internados com transtornos mentais graves. Os autores relataram que o desemprego,
subemprego e a pobreza podem levar ao surgimento de sentimentos de desesperança,
desamparo e desespero, além de contribuir para a causa ou exacerbação de condições de saúde
mental, como depressão e ansiedade, que são fatores que aumentam a chance de suicídio.
Bachmann (2018) relata o círculo vicioso que envolve a renda e o suicídio: a baixa
renda ou desemprego são condições que podem levar à automutilação ou suicídio, da mesma
forma que os suicídios podem levar à perda de produtividade e renda e, portanto, ao aumento
da pobreza familiar. Ademais, pessoas em situações econômicas mais desfavoráveis tem
menos acesso a serviços de saúde mental e apoio social, podendo também resultar em
aumento da dor psicológica e desesperança, impactando no risco de suicídio.
Uma parcela significativa dos participantes do estudo (42,3%) relatou tentativa de
suicídio em algum momento de suas vidas. Estima-se que pacientes com transtornos
psiquiátricos apresentem taxas mais elevadas de tentativa de suicídio quando comparado com
a população em geral. Miller e Black (2020), por exemplo, constataram que entre 30% e 50%
dos indivíduos com transtorno bipolar tentam suicídio em algum momento de suas vidas, e
aproximadamente 15% a 20% acabam falecendo por suicídio.
A taxa de prevalência de tentativa de suicídio encontrada em nosso estudo também é
consistente com os achados de um estudo conduzido por Jentz et al. (2022) em pacientes
psiquiátricos forenses, onde 36% dos indivíduos avaliados já haviam feito pelo menos uma
tentativa de suicídio. A compreensão aprofundada dessas taxas de prevalência de tentativas de
33
suicídio em diferentes populações e contextos é essencial para orientar políticas públicas e
práticas clínicas, visando a prevenção e intervenção precoce.
Ao analisar os dados do – Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan)
do Ministério da Saúde do Brasil, referentes a 2019, constatou-se 124.709 casos de lesões
autoprovocadas no país (BRASIL, 2021). Isso resulta em cerca de 59,4 casos por 100.000
habitantes. Comparando esse dado com os resultados obtidos em nossa amostra, observamos a
severidade do comportamento suicida entre indivíduos com condições psiquiátricas.
Ao relacionar o elevado índice de comportamento suicida com o perfil
sociodemográfico identificado, observa-se que estudos anteriores também apontaram que as
tentativas de suicídio estão associadas a fatores como idade adulta, níveis educacionais mais
baixos e coabitação (RAPELI; BOTEGA, 2005; ENGSTRÖM et al., 1997). No contexto do
presente estudo, a coabitação pode estar relacionada não somente à presença de
companheiro(a), mas sim à prole.
A predominância de tentativas de suicídio não planejadas na amostra sugere a
presença de um certo grau de impulsividade. Esse aspecto é relevante, pois indica que muitas
das tentativas ocorrem de forma impulsiva, sem um planejamento prévio. Além disso, é
importante ressaltar que a maioria dos participantes ainda acredita que existe a possibilidade
de realizar novas tentativas de suicídio. Esse dado reforça a importância de abordagens
preventivas e de estratégias de intervenção eficazes, que visem não apenas tratar a crise
imediata, mas também fornecer suporte psicossocial e acompanhar de forma contínua esses
pacientes.
Os resultados obtidos no Módulo C do Mini International Neuropsychiatric Interview
(MINI 5.0.0) reforçam o perfil da amostra analisada. A maioria dos participantes apresentou
chances para o risco de suicídio (baixo, alto ou moderado), sendo que alto risco foi
encontrado com maior frequência. A maioria dos participantes do estudo relatou ter tido nos
últimos 30 dias, pensamentos suicidas sem intenção de agir. Uma parte deles afirmou ainda,
ter tido ideação suicida ativa, ou seja, planejaram e/ou consideraram ativamente métodos e
meios para concretizar o ato suicida no último mês, indicando risco de comportamento suicida
iminente.
6.3 Traços de personalidade e relação com a dor psicológica
A relação entre traços de personalidade, como a agressividade e a impulsividade com a
tentativa de suicídio tem sido objeto de estudo contínuo e apresenta importante relevância na
34
área da suicidologia. A literatura nos oferece estudos onde a impulsividade demonstra ser uma
característica
que
pode
facilitar
a
transição
de
pensamentos
suicidas
para
atos/comportamentos suicidas de fato. Assim como a impulsividade, níveis elevados de
agressividade também aumentam a chance de o indivíduo cometer o suicídio. Esse traço de
personalidade costuma ser encontrado com frequência em pessoas com tentativa de suicídio
ou que cometeram autoagressão não suicida (GVION; APTER, 2011; CHARTRAND et al.,
2015)
Na análise da impulsividade foram investigados a presença de impulsividade total e os
seguintes subtipos: impulsividade motora, impulsividade atencional e impulsividade por falta
de planejamento. A impulsividade motora se caracteriza pela tendência a agir sem
premeditação e é avaliada por 11 itens (pontuação máxima de 40 pontos). A impulsividade
atencional se relaciona a tendência de redução da atenção decorrente de um alto fluxo de
pensamentos, podendo ocasionar comportamentos descontextualizados e é avaliada por 8
itens (pontuação máxima de 32 pontos). Já a impulsividade por falta de planejamento trata-se
da tendência a supervalorização do presente quando comparado ao futuro, sendo avaliada por
11 itens (pontuação máxima de 44 pontos) (STANFORD et al., 2009). A pontuação máxima
que pode ser obtida na BIS-11 é de 120 pontos.
O questionário de impulsividade apresentou escores elevados, indicando alto grau de
impulsividade na amostra estudada. Arango-Tobón et al. (2021), estabeleceram associações
entre desesperança, depressão e impulsividade em relação à ideação e comportamento suicida
em uma amostra de estudantes universitários. Eles encontraram a média de 66.57 na
pontuação do BIS-11 naqueles indivíduos que apresentaram alto risco de suicídio. Em nossa
amostra, observou-se um alto risco de suicidalidade, e os escores de impulsividade
encontrados foram semelhantes aos relatados por Arango-Tobón et al. (2021).
Em estudo realizado por Lira et al. (2022) com o objetivo de investigar a relação entre
traço de impulsividade, histórico de exposição ao trauma ao longo da vida e presença de
transtorno de estresse pós-traumático com tentativas de suicídio em estudantes universitários
brasileiros, identificou que a impulsividade permaneceu associada à tentativa de suicídio,
mesmo quando consideradas outras variáveis que também influenciam esse comportamento.
Dessa forma, os autores sugerem que a impulsividade tenha atuado de forma longitudinal,
sendo mediada de forma parcial pelas pela exposição ao trauma e transtorno de estresse póstraumático.
Identificamos uma correlação fraca positiva entre a dor psicológica e o grau de
impulsividade global e os subtipos de impulsividade motora e por não planejamento. Esses
35
resultados sugerem que maiores níveis de dor psicológica se correlacionam com realização de
ações sem planejamento prévio e uma tendência a supervalorização do presente quando
comparado ao futuro, podendo resultar em comportamentos descontextualizados ou
inadequados.
Na análise da associação entre grupos, os resultados mostraram uma associação
estatisticamente significativa entre níveis mais elevados de impulsividade por falta de
planejamento e o grupo com risco de suicídio. A interpretação dos dados indica que
indivíduos com risco de suicídio tendem a supervalorizar o presente em detrimento do futuro
quando comparado com indivíduos sem risco de suicídio. Dessa forma, essa perspectiva de
curto prazo pode predominar nas decisões e comportamentos desses indivíduos.
Outro importante traço de personalidade estudado foi a agressividade. Ela se relaciona
ao risco de suicídio bem como utilização de métodos mais violentos, sendo um
comportamento que resulta em danos pessoais e destruição física. Os trabalhos realizados na
temática, enfatizam o papel da agressão física, verbal, da raiva e da hostilidade como subtipos
da agressividade. A agressão verbal e física constitui o componente instrumental do
comportamento. A raiva envolve a preparação para a agressão e representa o componente
emocional. Finalmente, a hostilidade consiste em sentimentos de má vontade ou injustiça e
representa o componente cognitivo (HIRVIKOSKI, JOKINEN 2012; DUMAIS et al., 2005;
BUSS, PERRY, 1992; HARRIS, 1995)
O questionário utilizado para medir o nível de agressividade foi o Questionário de
Agressividade de Buss-Perry (Buss-Perry Aggression Questionnaire). A sua pontuação total
pode variar de 29 a 145 pontos. Quanto maior a pontuação, maior é a tendência à
agressividade. A pontuação máxima das suas subescalas é de 36 para “raiva” e 24 para
“hostilidade”, “agressão física” e “agressão verbal”. A média encontrada no nosso estudo
(81,13) indica alto grau de agressividade na amostra. Assim como a média global, as
subescalas também apresentaram altas médias, chegando bem próximo da pontuação máxima
nas categorias de “agressão física” e “hostilidade” (médias de 23,15 e 23,48,
respectivamente).
Em estudo realizado por Colegaro et al., (2019) para descrever perfil clínico e avaliar
níveis de agressividade em pacientes com história de tentativa de suicídio em internação
psiquiátrica em um hospital, constatou que a presença de agressividade foi observada na
maioria dos indivíduos com comportamentos suicidas. Outros autores também têm
corroborado a associação entre a presença de agressividade e o comportamento suicida
(MCGIRR et al., 2008; DUMAIS et al., 2005). Essa relação evidencia a importância de
36
considerar a agressividade como um fator relevante na compreensão e prevenção das
tentativas de suicídio.
Os resultados revelaram correlação positivas, embora modestas, entre a dor
psicológica e as medidas de agressividade global, raiva, agressão física e hostilidade. A partir
desses resultados podemos pressupor que esses traços de personalidade podem influenciar a
presença de alta dor psicológica e, por sua vez, aumentar o risco de suicídio.
É interessante, ainda, enfatizar as disparidades de gênero já conhecidas em relação à
agressão: homens tendem a exibir níveis mais elevados de agressão em comparação com as
mulheres (BUSS; PERRY 1992). Porém, curiosamente, apesar de grande parte da amostra ser
do sexo feminino, ainda assim, obtivemos altas médias nos níveis de agressividade, incluindo
agressão global e física, componentes instrumentais da agressão.
A raiva, também correlacionada com a dor psicológica no nosso estudo, pode ser
considerada tanto como um estado transitório quanto como um traço de personalidade
duradouro. Quando presente em forma de traço se relaciona com a propensão a sentir o
sentimento de raiva de forma mais intensa e por um maior período quando comparado com as
outras pessoas (DEFFENBACHER, OETTING, THWAITES et al., 1996). Já a hostilidade
está relacionada aos pensamentos, percepções e crenças negativas em relação aos outros
(BUSS; PERRY 1992).
Na associação de grupos, a forte presença da agressividade foi evidenciada com
diferenças estatísticas também entre os grupos. Observou-se que o grupo com risco de
suicídio, obteve médias significativamente mais altas no escore de agressão, reforçando mais
uma vez a relevância da agressividade na multicausalidade do suicídio e destacando a
necessidade de se considerar a agressividade como um fator de risco importante na avaliação
e no tratamento de indivíduos vulneráveis.
6.4 Trauma na infância e sua relação com a dor psicológica
O trauma na infância é um fator de risco forte e independente para o comportamento
suicida (PARK et al., 2021). Em uma metanálise conduzida por Angelakis et al. em 2019,
com o objetivo de analisar a associação entre diversas formas de adversidades na infância e o
comportamento suicida, foi constatado que todas as formas distintas de maus-tratos na
infância, como abuso sexual, abuso físico e abuso emocional, estavam correlacionadas com
um aumento de duas a três vezes no risco de tentativas de suicídio. Adicionalmente, verificouse que a negligência física e emocional se associava a um risco 1,5 vezes maior de
37
manifestação de ideação suicida. No entanto, é importante a investigação de fatores de risco
que possam agravar ainda mais essa relação. No nosso estudo, encontramos médias totais que
denotaram nível baixo de abuso na infância.
Martins et al. (2022) em estudo realizado com pacientes que possuíam transtorno por
uso de substâncias, identificaram resultados que apontam para a relação entre trauma na
infância, sintomas depressivos e controle da dor psicológica. Os resultados revelaram que
sintomas depressivos e níveis mais baixos de controle da dor psicológica mediam a associação
entre trauma na infância e ideação suicida, indicando que experiências traumáticas durante a
infância podem levar a dificuldades no manejo da dor e, por consequência, na regulação
emocional, contribuindo para um aumento na ideação suicida.
Na correlação de Pearson não encontramos correlação significativa entre a dor
psicológica e trauma precoce, incluindo o abuso emocional, físico, sexual e negligência
emocional e física. No âmbito de nossa pesquisa, considerando que o trauma na infância é um
fator de risco distal, ele pode ou não, se relacionar com o nível atual de dor psicológica, uma
vez que esse sofrimento pode variar ao longo do tempo. O fato de alguém ter vivenciado um
trauma na infância não implica que essa pessoa carregará consigo uma dor psicológica
durante toda a vida adulta, pois a intensidade dessa dor pode oscilar. O mesmo nos ocorre na
análise da associação de grupos, onde não foi possível observar diferença significativa entre
trauma na infância e risco de suicídio, quando esse risco iminente de suicídio foi determinado
de acordo com os escores de dor psicológica.
Um estudo conduzido por Passos et al. (2023) com o objetivo de avaliar os efeitos
mediadores da tolerância à dor psicológica na relação entre trauma na infância e ideação
suicida, verificou que baixos níveis de controle da dor mediaram de forma parcial a relação
entre trauma infantil, abuso emocional, negligência física, negligência emocional e ideação
suicida, e mediaram de forma total a relação de abuso físico e abuso sexual com ideação
suicida. Ou seja, a incapacidade de lidar adequadamente com a dor psicológica está
diretamente ligada ao histórico de trauma na infância e ao aumento do risco de ideação
suicida. Dessa forma, estudos futuros levando em consideração não somente a dor, mas
também a capacidade de tolerá-la, pode nos fornecer achados mais precisos e aprofundados
sobre essa temática.
38
7 CONCLUSÃO
Os resultados obtidos no presente estudo enfocam uma forte presença de dor
psicológica e alta taxa de comportamento suicida entre pacientes com algum distúrbio
psiquiátrico. A gravidade da dor psicológica se correlacionou com menor renda, maiores
níveis de impulsividade global, motora e atencional, bem como maiores escores de
agressividade global, raiva, agressão física e hostilidade, mas não com histórico de trauma
precoce.
Esses achados destacam a relação complexa entre a dor psicológica, fatores
socioeconômicos e traços de personalidade e destacam possível associação entre essas
variáveis contribuindo com o desfecho suicídio em pacientes vulneráveis. Essas descobertas
são importantes para aprimorar a compreensão e a abordagem clínica dessas condições, com o
objetivo de implementar medidas preventivas e intervenções adequadas, como por exemplo,
estratégias clínicas voltadas para auxiliar e capacitar os indivíduos no enfrentamento de sua
dor. Ao oferecer suporte adequado e promover habilidades de regulação emocional, é possível
proporcionar um ambiente propício à recuperação desses pacientes e a consequente
diminuição do risco suicida.
Além disso, os questionários aplicados no presente estudo foram escolhidos por sua
confiabilidade e validade em pesquisas semelhantes e podem ser adaptados para o contexto do
Sistema Único de Saúde (SUS), mostrando-se uma estratégia relevante em termos de
praticidade e tempo de aplicação. A utilização de instrumentos padronizados, que demandam
menos tempo e recursos, pode facilitar a incorporação dessas avaliações na rotina de
atendimento dos profissionais de saúde do SUS.
39
8 LIMITAÇÕES E PERSPECTIVAS
Como limitação do nosso estudo podemos destacar o tamanho e tipo da amostra. O
tamanho amostral sofreu impactos devido a mudança de fluxo no atendimento de urgência em
nosso estado. O estudo foi desenhado para ser realizado no Hospital Geral do Estado (HGE),
onde, majoritariamente, os casos de tentativa de suicídio eram atendidos. No entanto,
atualmente, grande parte dos casos são encaminhados as Unidades de Pronto Atendimento
(UPAs), o que dificultou a nossa captação. Além disso a amostra foi coletada de forma
conveniente, ou seja, a partir dos pacientes disponíveis no Hospital Geral do Estado (HGE) e
do Ambulatório de Psiquiatria do HUPAA/UFAL no momento da pesquisa. Essa abordagem
pode gerar viés de seleção, tornando a amostra menos representativa da população-alvo.
Para solucionar esta questão, solicitamos autorização junto a Secretaria do Estado para
expandir a coleta de dados para as UPAS, porém não obtivemos autorização para coletar
nesses locais em tempo hábil. Dessa forma, resolvemos ampliar a aplicação dos questionários
para o Ambulatório de Psiquiatria do HUPAA/UFAL para investigação dos pacientes que
também são atendidos neste local, reconhecendo a relevância da investigação desse público
para o campo da suicidologia e identificando essa expansão como oportunidade para o
crescimento do estudo.
Outra limitação do nosso estudo foi a falta de um levantamento dos diagnósticos
psiquiátricos dos pacientes que receberam atendimento ambulatorial. Consequentemente,
temos uma amostra que inclui pacientes com diferentes condições, como depressão,
transtorno bipolar, transtornos de ansiedade e outras patologias psiquiátricas. Além disso, é
possível que haja outras comorbidades associadas aos participantes, as quais não foram
descritas no presente estudo. Essas informações adicionais podem ter relevância na
interpretação dos resultados e devem ser consideradas em estudos futuros.
40
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47
APÊNDICE
APÊNDICE A – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)
“O respeito devido à dignidade humana exige que toda pesquisa se processe após o
consentimento livre e esclarecido dos sujeitos, indivíduos ou grupos que por si e/ou por seus
representantes legais manifestem a sua anuência à participação na pesquisa”
Eu,..........................................................................................................................tendo
sido
convidado (a) para participar como voluntário(a) do estudo “TENTATIVAS DE SUICÍDIO
ATENDIDAS NO HOSPITAL GERAL DO ESTADO (HGE) EM MACEIÓ: UM ESTUDO
EPIDEMIOLÓGICO
TRANSLACIONAL
COM
INTERVENÇÃO
CLÍNICA
EM
SEGUIMENTO DE 12 MESES”, que será realizado no serviço no Hospital Universitário
(HU) Prof. Alberto Antunes – Universidade Federal de Alagoas na cidade de Maceió
(Alagoas) no período de doze meses. Recebi do Prof. Dr. Valfrido Leão de Melo Neto,
responsável por sua execução, as seguintes informações que me fizeram entender sem
dificuldades e sem dúvidas os seguintes aspectos:
1) Que o objetivo geral do estudo é avaliar o impacto da associação de teleatendimentos
breves regulares, durante um período de 12 meses, ao tratamento convencional, no
comportamento suicida de pacientes inicialmente atendidos por tentativa de suicídio no
Hospital Geral do Estado (HGE).
2) Que para atingir o objetivo acima serão aplicados questionários sóciodemográficos e
clínicos para investigar características da tentativa e do comportamento suicida, além de
questionários para avaliar sintomas depressivos, ansiosos, de traços de personalidade, história
de trauma precoce e violência doméstica, além de dor psicológica.
3) Que além da colheita de dados por intermédio de questionários, será colhida uma
amostra de meu sangue, para dosar alguns indicadores de inflamação no meu organismo, para
estudar a associação entre inflamação e comportamento suicida.
4) Que durante o tempo da pesquisa, por 12 meses serão feitos contatos telefônicos ou
por vídeo chamada para investigarem como estou me sentindo mentalmente quanto ao risco
de suicídio.
5) Que no final do acompanhamento de 12 meses, nova amostra do meu sangue será
colhida.
48
6) Que os possíveis riscos à sua saúde são constrangimento ao responder o questionário
e as escalas, além de dor ou complicações como inflamação ou infecção na parte do meu
corpo de onde será colhido meu sangue.
7) Que o anonimato dos participantes da pesquisa será resguardado e suas informações
pessoais só serão divulgadas de modo que não seja possível me identificar.
8) Que os benefícios esperados são: fornecer uma melhor assistência às pessoas com
comportamento suicida, por meio de contatos de teleatendimento regulares. Também,
informações sobre a condição estudada e orientações sobre educação em saúde, como
também, a partir das avaliações dos pacientes favorecer a identificação de fatores que
contribuam para o comportamento suicida.
9) Que o estudo começará a partir da aprovação do Comitê de Ética da Universidade
Federal de Alagoas (UFAL).
10) Que, sempre que desejar, serão fornecidos esclarecimentos sobre cada uma das
etapas do estudo.
11) Que, a qualquer momento, eu poderei recusar a continuar participando do estudo e,
também, que eu poderei retirar este meu consentimento, sem que isso me traga qualquer
penalidade ou prejuízo.
12) Que as informações conseguidas através de minha participação não permitirão a
identificação da minha pessoa, exceto aos responsáveis pelo estudo, e que a divulgação das
mencionadas informações só será feita entre os profissionais estudiosos do assunto. 13) Que
eu deverei ser ressarcido por qualquer despesa que venha a ter com a minha participação
nesse estudo e, também, por todos os danos que venha a sofrer pela mesma razão, sendo que,
para estas despesas foi-me garantida a existência de recursos.
14) Garantimos que o participante da pesquisa receberá uma via do Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido.
Finalmente, tendo eu compreendido perfeitamente tudo o que me foi informado sobre a minha
participação no mencionado estudo e, estando consciente dos meus direitos, das minhas
responsabilidades, dos riscos e dos benefícios, da assistência que será prestada e do sigilo que
a minha participação implica, concordo em dela participar e, para tanto eu DOU O MEU
CONSENTIMENTO SEM QUE PARA ISSO EU TENHA SIDO FORÇADO OU
OBRIGADO.
Nome e Endereço dos Pesquisadores Responsáveis:
49
Nome: Valfrido Leão de Melo Neto
Endereço: Av. Lourival Melo Mota, S/N, Tabuleiro do Martins, Maceió - AL, Cep: 57072970
Instituição: Universidade Federal de Alagoas
Maceió, __________ de _______________________ de ______________
Assinatura do responsável pela
Assinatura do responsável pelo estudo
pesquisa (rubricar todas as páginas)
(rubricar todas as páginas)
_____________________________
_______________________________
50
APÊNDICE B – Questionário Sócio-Demográfico e Clínico
N°
BE:________
Data
de
Entrada
na
instituição:
___/___/___
Hora:
___:___
Identificação:_______________________________ _____ Idade em anos: ______
Data de Nascimento: ___/___/__ Peso: _______kg Altura: ______cm IMC:_____
Sexo: ( ) Masculino ( ) Feminino ( ) Outro
Etnia: ( ) Branco ( ) Não-branco
Estado Civil: ( ) Com companheiro(a) ( ) Sem companheiro (a)
Tem filhos? ( ) Sim ( )Não. Se sim, quantos? ________________________________ Algum
dos filhos tem doença crônica? ( ) Sim ( ) Não. Se sim, qual? ________________ Requer
cuidados especiais? ( ) Sim ( ) Não
Escolaridade: _____ anos completos
Situação Ocupacional: Ativo ( ) Inativo ( )
Renda Familiar (em dólar): __________
Renda per Capita (em dólar): __________
Endereço:______________________________________________
N°
__________
Município:____________________________Uf:_____Bairro:____________________
Mãe:__________________________________________________________________
Responsável:____________________________________________________________
Local de Procedência:__________________________________________________ Motivo
do
Atendimento_________________________________________________
Data
Da
Tentativa: ___/___/___ Turno: ( ) Manhã ( ) Tarde ( ) Noite
Dia Da Semana: ( ) Dom ( ) Seg ( ) Ter ( ) Qua ( ) Qui ( ) Sex ( ) Sab
Mês: _____ Data Comemorativa: ______________________
Estação Do Ano: ( ) Primavera ( ) Verão ( ) Outono ( ) Inverno
Método Utilizado: ( ) Arma de Fogo ( ) Arma Branca ( ) Enforcamento ( ) Precipitação Altura
( ) Queimaduras intencionais ( ) Afogamentos ( ) Incidente de trânsito ( ) Autoagressão ( )
Intoxicação exógena: Se sim, qual substância?
( ) Medicamento, qual?________________________________________
( ) Drogas ilícitas, qual? _______________________________________
( ) Álcool ( ) Agrotóxicos, qual? _________________________________
( ) Produtos químicos, qual? ____________________________________
Tentativas anteriores: ( ) Sim ( ) Nº de tentativas ( ) Não
Se sim, quando foi a última? ( ) últimos 12 meses ( ) entre 12-24 meses ( ) mais de 24 meses
atrás
51
Tentativa atual planejada: ( )Sim ( ) Não
Sentiu a necessidade ou impulso de se matar antes do planejado? ( ) Sim ( ) Não
Qual a probabilidade de vir tentar se matar nos próximos 3 meses, de 0 a 100%? (marcar sim
para qualquer probabilidade maior que 0%) ( ) Sim ( ) Não
52
ANEXOS
ANEXO A – Parecer do Comitê de Ética e Pesquisa
53
ANEXO B – BIS-11 (Escala de Impulsividade de Barratt)
54
ANEXO C – AQ (Escala de Agressividade de Buss-Perry)
55
ANEXO D – Escala de Dor Psicológica
56
ANEXO E – CTQ (Childhood Trauma Questionnaire)
57
ANEXO F – Mini International Neuropsychiatric Interview (MINI 5.0.0)
