Dissertação - Jacyara.pdf

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
FACULDADE DE MEDICINA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS MÉDICAS

Jacyara Farias de Melo

Estudo de Associação entre Comportamento Suicida, Trauma Precoce e
Dor Psicológica em Mulheres Deprimidas

Maceió
2022

JACYARA FARIAS DE MELO

Estudo de Associação entre Comportamento Suicida, Trauma Precoce e Dor Psicológica
em Mulheres Deprimidas

Dissertação (Mestrado) / apresentada ao Programa
de Pós-graduação em Ciências Médicas da
Universidade Federal de Alagoas-UFAL, como parte
das exigências para a obtenção do título de Mestra
em Ciências Médicas.
Área de Concentração:
Degenerativas

Doenças

Crônicas

Orientador: Prof. Dr. Valfrido Leão de Melo-Neto

Maceió
2022

e

Dedico esse trabalho à todas as mulheres e crianças vítimas de trauma precoce. Bem
como, aqueles que desejam conhecer um pouco mais sobre algumas variáveis que envolvem o
adoecimento mental e o comportamento suicida.

AGRADECIMENTOS
Uma vez ouvi dizer que uma pessoa que deseja ser sábia deve saber olhar para sua
história e reconhecer os ombros dos gigantes que o acompanharam e o ajudaram em sua jornada.
Sendo assim, gostaria de agradecer alguns gigantes que atravessaram minha vida e sem os quais
eu não chegaria até aqui.
Gostaria iniciar, agradecendo a todas as minhas ancestrais, mulheres fortes e guerreiras,
todas as que vieram antes de mim e que através de sua força e delicadeza me impulsionam até
aqui. Em especial, gostaria de agradecer à minha mãe, Maria Sônia, por ser minha rocha nas
tempestades, cuidando de mim nos períodos mais críticos desses anos, e por acreditar e confiar
em minha educação e nos bons frutos que daqui surgem. Ao meu pai (Josmário) e ao meu irmão
(Henryque) agradeço por colaborarem, dentro de suas possibilidades, para que esse sonho se
tornasse realidade.
Gostaria de seguir agradecendo três grandes mestres e maestros na educação no ensino
superior em Ciências Médicas de Alagoas:
Profº Valfrido, por ser um orientador capaz de olhar através das dificuldades de seus
alunos e enxergar muito mais do que nós mesmos podemos enxergar. Obrigada por me acolher
em seu grupo e por me fortalecer, em conhecimento e autonomia, nessa caminhada. Grata por
acreditar em meu trabalho e me orientar até aqui.
Profª Michelle, por ser uma coordenadora excepcional e um ser humano empático e
compassivo. Obrigada por lutar conosco, em dias tão tristes para educação brasileira, sobretudo
para a pós-graduação, por um ensino stricto sensu mais inclusivo e justo.
Profº Claudio Miranda, pelas ricas contribuições para esse trabalho e minha formação.
Obrigada por dividir comigo seu conhecimento e seus ensinamentos. É um privilégio poder
contar com o senhor.
Gostaria de agradecer a cada paciente que me confiou e dividiu sua história de vida
comigo ao longo dessa jornada. Agradecer a equipe de acadêmicos de Medicina que estiveram
comigo ao longo desse projeto, Juliana, Saulo e Larissa Menezes, obrigada por seu empenho e
dedicação à essa pesquisa, o trabalho e as contribuições de vocês foram essenciais. Não posso
deixar de gradecer a Weidila por ser luz no Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas
e nos ajudar a caminhar com mais clareza e tranquilidade.
Gostaria de agradecer as minhas colegas de turma e amigas de vida Luísa (meu melhor
match!), Manu, Chrys e May, com vocês os dias na pós-graduação tiveram, além de muito
conhecimento, muito cuidado e amor. Obrigada por terem contribuído com minha formação
profissional e pessoal ao longo desses anos.

A vida é uma jornada repleta de muitos desafios e é sempre bom sabermos que podemos
contar com pessoas que gostam de dividir suas caminhadas conosco e nos ajudar a caminhar
melhor. Em minha vida, sempre pude contar com a presença de boas pessoas em minhas
caminhadas. E durante esse período foi muito importante caminhar ao lado e ao encontro de
vocês: Débora Cristina, Débora Ribeiro, Luiz Araújo, Iury Domingos, Thaíse Ravanny, Gabriel
Cortez, Edmar Quintela, Suzete Galvão, Ana Kilvia, Felipe Granja e Gabriela Bothrel.
Obrigada pelo afeto, cuidado e apoio nessa jornada!
Um país que não investe em pesquisa tende a ter muitas dificuldades para evolução.
Sendo assim, gostaria de agradecer à agencia de fomento CAPES, por ter me financiado como
aluna, mesmo em dias tão difíceis, como os atuais. Sem o apoio financeiro eu jamais teria
conseguido dar continuidade ao sonho de ser mestra e pesquisadora no Brasil.
Por fim, sou grata aos meus guias espirituais, aqueles que me fortalecem em espirito e
sabedoria, me ajudando a dar passos firmes na direção de meu propósito de amar, aprender,
acolher e ensinar. E a mim, por não desistir, ainda que sob circunstâncias adversas.

A todos aqui, muito obrigada!

“Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos sabemos alguma coisa. Todos nós
ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre”.
Paulo Freire

Resumo
Introdução: O comportamento suicida é um problema de saúde pública associado com a
presença de transtornos mentais que, no entanto, não é suficiente para explicar fenômeno tão
complexo. O trauma precoce parece ser um fator de risco distal, enquanto a dor psicológica um
fator de risco proximal para o comportamento suicida. Objetivo: Investigar associações entre
comportamento suicida, trauma precoce e dor psicológica em mulheres com episódios
depressivos. Método: Trata-se de um estudo transversal, analítico, com abordagem quantitativa.
Foram utilizados os instrumentos: Questionário Sociodemográfico, Mini Entrevista
Neuropsiquiátrica Internacional (M.I.N.I 7.0.2), Inventário de Depressão de Beck II (BDI-II),
Escala de Dor Psicológica (PAS) e Questionário de Trauma na Infância (CTQ). Resultados:
Foram entrevistadas 48 mulheres com média de idade de 42,5 (±11,9) anos e registrado que
89,6% dessas mulheres possuíam comportamento suicida e 85,4% haviam sofrido algum tipo
de trauma precoce. Ideação suicida passiva foi detectada em 83,3% das entrevistadas e se
associou significativamente com negligência física (p<0,01), maior gravidade de depressão
(p<0,01) e dor psicológica mais intensa (p<0,05). Ideação suicida ativa esteve presente em
62,5% das entrevistadas, as quais apresentaram 5 vezes mais chances de relatar negligência
física na infância (Odds ratio: 5,2; IC95%: 1,28 – 21,18). Ideação suicida ativa também se
associou a maior gravidade da depressão (p<0,01) e maior dor psicológica (p<0,05). As
tentativas de suicídio, por sua vez, foram associadas ao relato de abuso físico (p<0,05). Intenção
suicida associou-se com negligência física (p<0,05), bem como com maior gravidade da
depressão (p<0,01) e da dor psicológica (p<0,01). Conclusão: Trauma precoce, em especial a
negligência física, contribui para ideação suicida passiva e ativa, em mulheres deprimidas,
enquanto relato de abuso físico na infância associa-se a tentativas de suicídio ao longo da vida.
Dor psicológica tem importante associação com ideação suicida tanto passiva, quanto ativa e
com intenção suicida.

Palavras-chaves: Suicídio, Trauma Precoce, Dor Psicológica, Transtornos do Humor.

Abstract
Introduction: Suicide is a public health issue associated with mental disorders, nonetheless,
their occurrence is not sufficient to explain the phenomenon of suicide. Early trauma may be a
distal risk factor and psychological pain can be a proximal risk factor that contributes to suicidal
behaviour. Objective: To investigate associations between suicidal behaviour and early trauma
and psychological pain in female depressed outpatients. Method: It is a cross-sectional,
analytical, quantitative study. The following instruments were used in the assessment of the
patients: Sociodemographic Questionnaire, Mini International Neuropsychiatric Intreview
(M.I.N.I 7.0.2), Beck Depression Inventory, Psychache Scale and Childhood Trauma
Questionnaire (CTQ). Results: Forty-eight female depressed outpatients were interviewed. The
mean age was 42.5 (±11.9) years old. Suicidal behaviour was reported by 89.6% of the patients
and 85.4% referred that suffered from any kind of early trauma. The prevalence of passive
suicidal ideation was 83.3% and it was associated with physical negligence (p<0.01), greater
severity of depressive episode (p<0.01) and higher psychache scores (p<0.05). The prevalence
of active suicidal ideation was 62.5% and its occurrence was five times more common among
the women that reported physical negligence during childhood (Odds ratio: 5.2; IC 95%: 1.28
– 21.18). Active suicidal ideation was also associated with greater depressive symptoms
(p<0.01) and higher psychache scores (p<0.05). Suicide attempts were associated with physical
abuse (p<0.05). Intention to commit suicide in the next few days was associated with physical
negligence (p<0.05), and also with greater severity of depressive symptoms (p<0.01) and higher
psychache scores (p<0.01). Conclusion: Report of early trauma, especially physical negligence,
contributed to the occurrence of passive and active suicidal ideation among depressed female
outpatients. Early physical abuse was related with suicide atttempts during life. Psychache
presented important association with passive and active suicidal ideation and with acute
intention to commit suicide.
Keywords: Suicide, Early Trauma, Psychache, Mood Disorders.

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Quadro 1 - Definições de Subtipos de maus-tratos na infância adaptadas, segundo SanvicenteVieira e Grassi-Oliveira (2016)...............................................................................................16

Quadro 2 - Frequência de notificações de violência entre pessoas de 1 a 19 anos, segundo o
sexo, no Brasil, entre o período de 2017 a 2019.....................................................................17

LISTA DE TABELAS

Tabela 1. Perfil Sociodemográfico da Amostra de acordo com a presença de Comportamento
Suicida avaliado pela Mini Entrevista Neuropsiquiátrica Internacional (MINI 7.0.2)..............27

Tabela 2. Perfil Clínico das Pacientes e Histórico de Trauma Precoce de acordo com a presença
de Comportamento Suicida avaliado pela Mini Entrevista Neuropsiquiátrica Internacional
(MINI 7.0.2)..............................................................................................................................29
Tabela 3. Associação entre Ideação Suicida Passiva, Trauma Precoce e Dor Psicológica em
Mulheres com Episódios Depressivos......................................................................................31

Tabela 4. Associação entre Ideação Suicida Ativa, Trauma Precoce e Dor Psicológica em
mulheres com Episódios Depressivos.......................................................................................33

Tabela 5. Associação entre Tentativa de Suicídio ao Longo da Vida, Trauma Precoce e Dor
Psicológica em Mulheres com Episódios Depressivos............................................................35

Tabela 6. Associação entre Intenção de Suicídio, Trauma Precoce e Dor Psicológica em
Mulheres com Episódios Depressivos......................................................................................37

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

BDI

Inventário de Depressão de Beck

BNDF
CTQ

Fator neurotrófico de crescimento
Questionário de Trauma Precoce

HPA

Eixo hipotálamo-pituitária-adrenal

MINI 7.0.2

Mini Entrevista Neuropsiquiátrica Internacional

OR

Odds Ratio

PAS

Psychache Scale

SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 13
2 OBJETIVOS ......................................................................................................................... 14
2.1 Objetivo geral ..................................................................................................................... 14
2.2 Objetivos específicos ......................................................................................................... 14
3 REVISÃO DE LITERATURA ............................................................................................. 14
3.1 Episódio Depressivo Maior................................................................................................ 14
3.2 Trauma Precoce.................................................................................................................. 16
3.3 Dor Psicológica .................................................................................................................. 17
3.4 Comportamento Suicida..................................................................................................... 19
4 METODOLOGIA ................................................................................................................. 21
4.1 Tipo de estudo .................................................................................................................... 21
4.2 Local .................................................................................................................................. 22
4.3 Critérios de Inclusão .......................................................................................................... 22
4.4 Critérios de Exclusão ......................................................................................................... 22
4.5 Amostra e Amostragem ..................................................................................................... 23
4.6 Coleta de Dados ................................................................................................................. 23
4.7 Instrumentos de Coleta de Dados....................................................................................... 23
4.7.1 Questionário sociodemográfico ...................................................................................... 23
4.7.2 Mini Entrevista Neuropsiquiátrica Internacional (M.I.N.I 7.0.2) ................................... 23
4.7.3 Inventário de Depressão de Beck (BDI) ......................................................................... 24
4.7.4 Psychache Scale (PAS) – Escala de Dor Psicológica ..................................................... 24
4.7.5 Childhood Trauma Questionnarie (CTQ)- Questionário de Trauma Precoce ................ 25
4.8 Análise de Dados ............................................................................................................... 25
5 RESULTADOS ..................................................................................................................... 26
5.1 Perfil Sociodemográfico ................................................................................................... 26
5.2 Perfil Clínico e Histórico de Trauma Precoce ................................................................... 28
5.3 Associação entre Ideação Suicida Passiva, Trauma Precoce e Dor Psicológica ............... 30
5.4 Associação entre Ideação Suicida Ativa, Trauma Precoce e Dor Psicológica................... 32
5.5 Associação entre Tentativa de Suicídio ao Longo da Vida, Trauma Precoce e Dor
Psicológica em Mulheres com Episódios Depressivos. ........................................................... 34
6 DISCUSSÃO ...................................................................................................................... 38
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................ 44
7 LIMITAÇÕES E PERSPECTIVAS ..................................................................................... 45
REFERÊNCIAS........................................................................................................................47
APÊNDICES.............................................................................................................................50
ANEXOS..................................................................................................................................53

13
1 INTRODUÇÃO
O suicídio é compreendido como o desfecho resultante da interação de múltiplos fatores.
A presença de transtornos de humor, como depressão e transtorno bipolar, oferecem risco
acentuado para o desenvolvimento de comportamentos suicidas (ideações, planejamento e
tentativas de suicídio). No entanto, outras variáveis psicológicas (Ex.: dor psicológica),
variáveis ambientais, biológicas e histórico de trauma na infância devem ser consideradas na
avaliação e classificação do risco de suicídio (SHNEIDMAN, 1993).
O Transtorno Depressivo Maior ou Depressão Maior é caracterizado por tristeza
profunda, perda acentuada de interesse ou prazer, sentimento de culpa, alterações no sono e/ou
apetite, fadiga, bem como, dificuldades na concentração e tomada de decisões. Os episódios
depressivos são compostos por, pelo menos, cinco desses sintomas, tendo obrigatoriamente
entre eles a tristeza profunda ou a perda acentuada de interesse ou prazer. Os sintomas devem
persistir a maior parte do dia, quase todos os dias, por um período mínimo de duas semanas
distintas e devem causar prejuízos às relações e dinâmica de vida das pessoas. Os episódios
depressivos podem se tornar recorrentes ou duradouros e, dependendo de sua gravidade, podem
contribuir para que as pessoas cometam suicídio, podendo ser comuns em quadros de transtorno
afetivo bipolar, além dos transtornos depressivos (WORLD HEALTH ORGANIZATION,
2017; AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2013).
O conceito de dor psicológica (psychache) foi desenvolvido por Shneidman, ao final de
sua carreira, para se referir a variável psicológica essencial para a ocorrência do suicídio. Dentro
dessa perspectiva, o suicídio só ocorre nos casos nos quais a pessoa não parece capaz de suportar
a dor psicológica, experienciada muitas vezes como solidão, vergonha, humilhação ou culpa
(SHNEIDMAN, 1993).
A dor psicológica é entendida como uma experiência aversiva que pode estar
relacionada à presença de transtorno mental e/ou trauma na infância (TOSSANI, 2013).
Pesquisas cientificas tem demonstrado que os diferentes subtipos de trauma na infância, como
por exemplo abuso emocional e abuso sexual, associam-se tanto com a gravidade de sintomas
depressivos quanto com comportamentos suicidas entre pacientes do gênero feminino (CARR
et al., 2013; MARTINS-MONTEVERDE et al., 2019).
A presente pesquisa apresenta como hipótese a associação entre a presença e gravidade
do comportamento suicida com a intensidade da dor psicológica e a presença de trauma precoce
em mulheres deprimidas.

14

2 OBJETIVOS

2.1 Objetivo geral
Investigar a associação entre Comportamento Suicida, Trauma Precoce e Dor
●
Psicológica em Mulheres Deprimidas
2.2 Objetivos específicos
Traçar o perfil sociodemográfico;
●
●

Descrever a ocorrência de transtornos de humor (depressão maior e transtorno afetivo

bipolar);
●

Investigar a prevalência do histórico de trauma precoce;

●

Mensurar os escores de Depressão, Dor Psicológica e Trauma Precoce;

●

Avaliar a associação entre as diferentes formas de comportamento suicida (ideação

passiva, ideação ativa, intenção suicida e tentativa de suicídio), histórico de trauma precoce e a
gravidade da dor psicológica.

3 REVISÃO DE LITERATURA

3.1 Episódio Depressivo Maior
O episódio depressivo maior é marcado por alterações, de pelo menos duas semanas de
duração, porém na maioria dos casos o tempo de duração é consideravelmente aumentado, no
afeto, nas cognições e em funções neurovegetativas, apresentando remissões interepisódicas.
Os sintomas relacionados ao quadro depressivo são: (1) Humor deprimido na maior parte do
dia; (2) Acentuada perda de prazer ou interesse em atividades tidas como prazerosas
anteriormente; (3) Aumento ou diminuição significativa de peso, alterações em torno de 5% do
peso corporal em um intervalo de pelo menos 1 mês; (4) Alterações no sono; (5) Agitação ou
retardo psicomotor; (6) Fadiga ou perda de energia; (7) Sentimentos inapropriados, culpa
excessiva ou de inutilidade; (8) Capacidade diminuída para pensar, se concentrar ou tomar
decisões; (9) Pensamentos recorrentes de morte, ideações suicidas recorrentes com e sem um
plano específico e tentativa de suicídio. O Transtorno Depressivo Maior ou Depressão Maior é
caracterizado por 2 ou mais episódios depressivos distintos, podendo ser classificado como
transtorno depressivo passado, atual ou recorrente. (AMERICAN PSYCHIATRIC
ASSOCIATION, 2013).

15
De acordo com o relatório global “Depression and other common mental disorders:
global health estimates”, lançado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), estima-se que
cerca de 322 milhões de pessoas vivem com Transtorno Depressivo Maior em todo o mundo.
Dados desse relatório demonstram um aumento de 18% nos casos de Transtorno Depressivo
Maior entre os anos de 2005 e 2015, atingindo cerca de 5,8% da população brasileira, o que
resultaria em aproximadamente 11.548.577 pessoas. Por essa razão, o Transtorno Depressivo
Maior é considerado um problema de saúde pública, gerando consequências diretas para as
pessoas que desenvolvem o transtorno e seus familiares, bem como, impactos sociais e
econômicos significativos na economia dos países (WORLD HEALTH ORGANIZATION,
2017).
Episódios depressivos, também, são comuns em pacientes com diagnóstico de
Transtorno Afetivo Bipolar. O transtorno afetivo bipolar é caracterizado por episódios
maníacos e/ou hipomaníacos e episódios depressivos. Os episódios maníacos se diferenciam
dos hipomaníacos pela duração dos sintomas apresentados, sendo estes: alteração no humor,
autoestima inflada, redução da necessidade de sono, pressão para falar muito, pensamentos
acelerados e comportamentos que coloquem em risco a própria saúde ou possam ter
consequências dolorosas (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2013; WORLD
HEALTH ORGANIZATION, 2017).Transtornos considerados do humor, como é o caso da
depressão maior e do transtorno bipolar, tradicionalmente são associados ao risco aumentado
de suicídio (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA, 2014).
Dados de uma pesquisa realizada com 6.216 pessoas demonstraram que aqueles com
diagnósticos de transtorno depressivo maior (OR 4,8, p < 0,01) e diagnóstico de transtorno
bipolar (OR 11, p < 0,01) estavam mais propensos a apresentarem ideações suicidas. Os
pacientes com transtorno depressivo maior (OR 5,4, p < 0,01) e transtorno bipolar (OR 11, p<
0,01), também, apresentavam maior probabilidade de planejar um suicídio. Em relação às
tentativas de suicídio, aqueles com transtorno depressivo maior (OR 7,0, p < 0,01 e transtorno
bipolar (OR 6,6, p < 0,01) estavam mais predispostos a tentar provocar a própria morte
(KUDVA et al., 2021). Entres os fatores associados ao desenvolvimento do transtorno
depressivo maior e transtorno bipolar estão traços de personalidade como neuroticismo,
experiências adversas no início da infância, genética e histórico familiar (AMERICAN
PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2013).

16
3.2 Trauma Precoce
O trauma precoce tem representado um problema de saúde pública em diversos países.
Levando pesquisadores à realização de trabalhos que evidenciam possíveis relações entre os
subtipos de estresse na infância com o desenvolvimento de psicopatologias na fase adulta
(BROWN, FIORI E TURECKI, 2019).
As variadas formas de trauma precoce são consideradas fatores de risco para o
desenvolvimento de transtornos mentais e são indicadores de prognósticos negativos
relacionados a psicopatologias, como transtorno depressivo maior, transtorno afetivo bipolar,
transtorno de personalidade borderline e esquizofrenia (KRUGERS ET AL, 2017; MELLO ET
AL, 2009; SANVICENTE-VIEIRA E GRASSI-OLIVEIRA, 2016).
De acordo com Sanvicente-Vieira e Grassi-Oliveira (2016) os maus-tratos na infância e
adolescência podem ser classificados como: abuso físico (AF), abuso emocional (AE), abuso
sexual (AS), negligência física (NF) e negligência emocional (NE). As especificações de cada
um dos tipos de experiências traumáticas são trazidas, segundo os autores, no quadro 1.
Quadro 1: Definições de Subtipos de maus-tratos na infância adaptadas, segundo SanvicenteVieira e Grassi-Oliveira (2016).

De acordo com algumas pesquisas, os diferentes subtipos de trama precoce têm
apresentado consequências graves e variadas, em relação à saúde mental e o risco de suicídio,
em indivíduos não clínicos e em pacientes psiquiátricos. Pesquisas envolvendo populações com
e sem diagnóstico psiquiátrico, demonstram que pessoas do sexo feminino apresentam maior

17
prevalência de abuso infanto-juvenil. Sendo a experiência de abuso emocional a mais associada
ao risco para o desenvolvimento de quadros graves de transtornos do humor, principalmente,
depressão maior e transtorno afetivo bipolar e maior número de tentativas de suicídio (CARR
et al., 2013; MARTINS-MONTEVERDE et al., 2019; TAE & CHAE, 2021; HATKEVICH,
SUMLIN & SHARP, 2021). No Brasil, cerca de 66% dos casos de notificações sobre maustratos infantis referem-se a crianças e adolescentes do sexo feminino, colaborando com as
pesquisas que referem maior prevalência de abuso-infantil nesse grupo, conforme descrito no
quadro 2.

Quadro 2: Frequência de notificações de violência entre pessoas de 1 a 19 anos, segundo o
sexo, no Brasil, entre o período de 2017 a 2019.

Fonte: Ministério da Saúde/SVS - Sistema de Informação de Agravos de Notificação - Sinan Net

Tais eventos traumáticos na infância e adolescência apresentam consequências
epigenéticas que aumentam a suscetibilidade para transtorno depressivo maior, bem como
pioram seu prognóstico. Podendo ocasionar alterações em estruturas cerebrais importantes para
a regulação emocional ao longo do desenvolvimento humano, como é o caso das amígdalas
(SAAVEDRA et al., 2016; KRUGERS et al., 2017; MARTINS-MONTEVERDE et al., 2019;
BROWN; FIORI; TURECKI, 2019; NOGOVITSYN et al., 2020).
3.3 Dor Psicológica
A dor psicológica ou psychache é definida por Shneidman como a dor que se refere à
psique. Sendo entendida como angústia, dor, dor psicológica na psique ou dor na mente. A dor
ou vergonha excessivamente sentida, culpa, humilhação, solidão, medo de envelhecer, medo de
morrer mal, ou o que seja, são experienciadas de maneira intrinsecamente psicológica e, quando
ocorrem, sua realidade é introspectivamente inegável (SHENEIDMAN, 1993).

18
Shneidman elaborou um modelo para a explicação psicológica do suicídio, utilizando a
dor psicológica como componente essencial para que a morte por suicídio ocorra. E embora a
depressão e a desesperança sejam variáveis importantes, a dor seria condição necessária para
tal. Para o autor, a percepção da dor deve ser insuportável para que a pessoa encontre na própria
morte, a única solução para cessá-la. (SHNEIDMAN,1993).
O interesse em desenvolver pesquisas que apoiem a premissa de Shneidman em relação
à psychache como fator de risco para o suicídio passou a ser nutrido pelos pesquisadores em
suicidologia. Em 2001, Holden e colaboradores desenvolveram uma escala com 13 itens
baseados nas definições de Shneidman sobre dor psicológica, com o objetivo de medir a
presença e a intensidade da dor. Considerando a psychache como a chave da construção
psicológica associada ao suicídio, espera-se que ela se comporte como uma variável mediadora
entre as variáveis suicidas atuais e outras psicológicas antecedentes. Ou seja, o risco de suicídio
tende a aumentar à medida que a dor psicológica torna-se mais intensa, sendo a presença
insuportável da psique, condição necessária para que o suicídio ocorra (HOLDEN et al., 2001;
TROISTER; HOLDEN, 2010).
A experiência da dor mental ou psicológica insuportável e intensa é vivida como um
sentimento, de base emocional, extremamente aversivo, sendo experienciado como tormento.
Podendo estar associada a um transtorno psiquiátrico ou a um trauma emocional grave e sendo
reconhecida a partir de metáforas emprestadas da dor física, como por exemplo, dor de cabeça
ou coração partido (TOSSANI, 2013).
De acordo com a revisão sistemática publicada por Verrocchio et al. (2016), utilizando
42 pesquisas originais realizadas entre 1995 e 2016. Observou-se associações entre dor
psicológica e suicídio em amostras de pacientes com transtornos do humor, em outras amostras
clínicas e não clínicas, evidenciando o caráter transversal dessa experiência. O aumento no nível
da dor psicológica parece representar uma condição de vulnerabilidade à ideação suicida,
tentativas de suicídio e outros comportamentos autodestrutivos, principalmente durante um
quadro de transtorno depressivo maior, na presença de acentuada desesperança. Sendo a dor
mental entendida como resultado de necessidades psicológicas básicas que não são
suficientemente satisfeitas, como por exemplo, amor, proximidade, apreço e independência
(VERROCCHIO et al., 2016).
Dados de um estudo realizado por Spínola et al. (2020), com o objetivo de avaliar os
efeitos mediadores da dor psicológica e das necessidades não satisfeitas na relação entre trauma
na infância e ideação suicida, indicou que variáveis psicológicas podem explicar tanto a relação

19
entre o trauma na infância e ideias protetoras contra comportamentos suicidas, quanto a relação
entre o trauma na infância e ideação negativa em relação ao suicídio. Os autores discutem que
a exposição ao trauma precoce leva os indivíduos a uma experiência psicológica de sofrimento,
sendo refletida na dor psicológica, nas necessidades interpessoais não atendidas e nos sintomas
depressivos que podem colaborar para a diminuição dos pensamentos protetores em direção a
comportamentos suicidas mais letais, contribuindo assim para o aumento do risco de suicídio.
3.4 Comportamento Suicida
A temática do suicídio se desenvolve em diferentes perspectivas e em várias áreas da
ciência. Por se tratar de um fenômeno envolvendo dilemas, interações complexas e
multidimensionalidades, não é possível adotarmos uma única vertente para olhá-lo ou abordálo. O suicídio esteve presente em nossa civilização desde os povos primitivos, sendo
compreendido por perspectivas que vão desde a busca pela liberdade, por alívio, o último
suspiro de dignidade, um ato condenável pela igreja e passível de punição pelo Estado, até
tornar-se um problema de saúde pública (BOTEGA, 2015).
Anualmente, mais de 700 mil pessoas chegam a óbito por suicídio em diversos países, ao
redor do mundo. Por essa razão, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estabeleceu como
meta a redução do número de óbitos por esta causa, até 2030, em 1/3. Entre os fatores
predisponentes para o comportamento suicida estão: a genética; traços de personalidade, como
impulsividade; doenças clínicas não crônicas; idade; gênero; alterações epigenéticas; histórico
de eventos adversos na infância e tentativas anteriores de suicídio. Os fatores precipitantes, ou
“gatilhos” para o comportamento suicida, podem ser associados a: desemprego; ser vítima de
preconceito por raça; etnia ou orientação sexual; desilusão amorosa; embriaguez; fácil acesso a
um meio letal e apresentar acentuada desesperança, por exemplo. Sendo a presença de
transtorno mental e o histórico de tentativas anteriores de suicídio considerados os principais
fatores de risco o suicídio (BOTEGA, 2015; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2021;
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2013).
O espectro de comportamentos relevantes ao suicídio é compreendido como ações que
vão desde ideações suicidas, elaboração de um plano suicida, tentativas de suicídio até o
suicídio consumado. E como resultado da interação entre os diversos fatores, variações no
comportamento e a presença e intensidade da dor psicológica, o suicídio é compreendido como
último recurso acessado por uma pessoa na intenção de acabar um sofrimento, referido como

20
estado de dor psicológica insuportável (SHENEIDMAN, 1993; ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DE PSIQUIATRIA, 2014).
As ideações suicidas podem representar qualquer pensamento, imagem, crença, vozes
ou outras condições relatadas pela pessoa sobre ocasionar intencionalmente a própria morte e
são consideradas mais próximas ao ato suicida quando acompanhadas pelo desejo de acabar
com a própria vida e, quando a pessoa possui intenção de agir em relação a esse desejo. A
pessoa pode ter um pensamento intrusivo de matar-se, mas não possuir qualquer desejo ou
intenção de cometer suicídio (WENZEL, BROWN & BECK, 2010).
De acordo com Botega (2015) a intenção de pôr fim à própria vida e o planejamento
suicida, nos permitem classificar as ideações suicidas em: ideações passivas de morte (ideação
suicida passiva), quando o paciente deseja ou acredita que seria melhor morrer logo, porém não
apresenta intenção claramente suicida e nem planejamento; ideação suicida egodistônica,
quando a ideia de pôr fim à própria vida parece perigosa e provoca ansiedade no indivíduo e
ideação suicida egossintônica (ideação suicida ativa), ocorre quando a intensidade e a
continuidade de uma crise, sentida como intolerável fazem com que o indivíduo encontre no
suicídio uma forma de alívio, esse tipo de ideação abre portas para o início do planejamento
suicida. Para Booniam et al. (2020) a ideação suicida passiva refere-se ao desejo de morrer,
indicando o estágio inicial de suicídio. Enquanto a ideação suicida ativa é concebida como
pensamentos que envolvem um desejo existente de morrer seguido por um plano para causar a
própria morte.
A existência de um planejamento suicida coloca o paciente em um grau moderado ou
alto de risco de suicídio. Podendo ser avaliado por meio de questionamento sobre a existência
de um método para suicídio, o acesso ao meio para provocar a própria morte, definição de uma
data e local para se matar e organizações de tarefas, tendo em vista a própria morte. As tentativas
de suicídio são os comportamentos auto infligidos, potencialmente danosos e com a intenção
da morte como resultado e, geralmente, são associadas ao gênero feminino. Embora as taxas de
óbitos por suicídio apresentem-se mais elevadas entre os homens, em parte, como consequência
ao acesso e uso de meios mais letais para ocasionar a própria morte (BOTEGA, 2015;
WENZEL, ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA, 2014; WORLD HEALTH
ORGANIZATION, 2014; BROWN & BECK, 2010).
Por mais cuidado que tenhamos em sua formulação, o risco de suicídio distancia-se da
previsão de quem irá ou não tirar a própria vida. Ele não se apresenta de maneira estática e, em
determinadas circunstâncias, pode transformar-se em um risco agudo ou crônico. Desse modo,

21
a avaliação dos eventos precipitantes (estressores agudos e crônicos), estado mental atual
(afetos intensos e compressão cognitiva), intencionalidade suicida (ideação e planejamento) e
principais fatores de risco e de proteção (transtornos mentais, tentativas de suicídio anteriores,
traços de personalidade e história pessoal, familiar e de trauma precoce) é essencial para
considerar e classificar o risco de suicídio e atuar em prol de reduzi-lo (BOTEGA, 2015).
No que se refere à investigação dos principais fatores de risco para o suicídio, algumas
pesquisas têm demonstrado que o trauma precoce é um problema de saúde pública capaz de
interagir com outros fatores de risco para o comportamento suicida, como por exemplo a
existência de transtornos psiquiátricos como a depressão e variáveis psicológicas como a dor
psicológica e as necessidades interpessoais não satisfeitas, aumentando a gravidade dos
comportamentos suicidas, ocasionando alterações epigenéticas que influenciam negativamente
nos tratamentos e prognósticos, contribuindo para suicídio como desfecho (BROWN; FIORI;
TURECKI, 2019; SPÍNOLA et al., 2020).
Compreendendo a complexidade sobre comportamento suicida, o presente estudo traz
como proposta investigar as associações entre os tipos de comportamento suicida, trauma
precoce e dor psicológica em mulheres com depressão assistidas por serviços de saúde mental
em Alagoas.

4 METODOLOGIA

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual
de Alagoas (UNCISAL) com o CAAE: 14689219.1.0000.5011.

4.1 Tipo de estudo
A presente pesquisa trata-se de um estudo de caráter transversal, analítico e quantitativo.
De acordo com Hochman et al (2005) em estudos transversais não há a necessidade de saber o
tempo de exposição de uma causa para gerar o efeito, o que faz esse modelo de pesquisa ser
utilizado quando a exposição é relativamente constante no tempo e o efeito (ou doença) é
crônico, como no caso de Transtornos Mentais, por exemplo.

22
4.2 Local
Os dados foram coletados nos serviços de saúde mental das unidades:
Hospital Escola Portugal Ramalho (HEPR) -

O Hospital Escola Dr. Portugal Ramalho –

HEPR – é o único hospital psiquiátrico público de Alagoas, sendo por isto, referência para o
atendimento da população de todo o Estado e alguns municípios de Estados circunvizinhos.
Esta instituição está vinculada a Universidade Estadual de Ciências da Saúde (UNCISAL).

Hospital Universitário Profº Alberto Antunes (HUPAA) - O HUPAA trata-se de um órgão
suplementar da Universidade Federal de Alagoas, com ações que abrangem as áreas de ensino,
pesquisa e assistência à comunidade assistida pelo SUS em Maceió e pacientes das cidades do
interior de Alagoas, sendo considerado um hospital de referência.
Unidades Básicas de Saúde (UBS) do Município de Girau do Ponciano – O município de Girau
do Ponciano, de acordo com o Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM (2021), esteve
entre os 5 municípios, fora a capital alagoana Maceió, com o maior número de casos de suicídio
notificados entre os anos de 2015 e 2019. Além disso, foi o primeiro município, em 2019, a
criar o Primeiro Ambulatório para Acolhimento e Tratamento de pessoas com Risco de
Suicídio.
4.3 Critérios de Inclusão
Foram incluídas na pesquisa, mulheres com idades acima dos 18 anos, acompanhadas
pelo serviço de psiquiatria e/ou psicologia das unidades descritas acima e com histórico de, pelo
menos, um episódio depressivo ao longo da vida. Todas as participantes foram apresentadas ao
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e assinaram-no antes do início das
entrevistas.

4.4 Critérios de Exclusão
Não participaram da pesquisa mulheres que retiraram o Termo de Consentimento Livre
e Esclarecido (TCLE), mulheres que possuíam sintomas psicóticos e mulheres que
apresentavam déficits cognitivos que impediam a compreensão dos questionários.

23
4.5 Amostra e Amostragem
O método de amostragem dessa pesquisa constitui-se na amostragem não probabilística,
por conveniência e consecutiva. Sendo a amostra final composta por 48 mulheres.
4.6 Coleta de Dados
As pacientes foram abordadas na sala de espera das instituições de saúde, convidadas a
participar da pesquisa, esclarecidas, através da leitura do TCLE, sobre os objetivos, riscos e
benefícios de sua participação como voluntária. Após a assinatura do TCLE a entrevista foi
iniciada com o Questionário Sociodemográfico, seguido da entrevista M.I.N.I 7.0.2, do
Inventário de Depressão de Beck (BDI), da Escala de Dor Psicológica (PAS) e do Questionário
de Trauma na Infância (CTQ). As entrevistas foram realizadas individualmente.

4.7 Instrumentos de Coleta de Dados
4.7.1 Questionário sociodemográfico
O Questionário Sociodemográfico (ANEXO A) constitui-se como uma entrevista
estruturada, construída pelos pesquisadores, com o objetivo de coletar dados referentes a idade,
estado civil, escolaridade (em anos estudados concluídos) e residência. Os dados étnicos ou
raciais relativos a essa amostra não foram coletados.

4.7.2 Mini Entrevista Neuropsiquiátrica Internacional (M.I.N.I 7.0.2)
O M.I.N.I. 7.0.2 (ANEXO B) constitui-se como uma entrevista estruturada breve, que
investiga os principais transtornos psiquiátricos do DSM-5 e da CID-10. O mesmo foi
comparado e validado diante de instrumentos como o SCID-P, para a versão DSM-III-R, e ao
CIDI (entrevista estruturada desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde) e como
resultado apresentou confiabilidade e validade comparáveis aos instrumentos citados. No
entanto, pode ser aplicado num período de tempo muito mais curto e não necessita de um
treinamento extenso por parte dos aplicadores. (AMORIM, 2000; NEUROPSIQUIATRICA;
ENTREVISTA INTERNACIONAL, 2016).
Para determinar o perfil clínico da amostra foram realizadas as entrevistas dos módulos
A. Episódio Depressivo Maior, B. Suicidalidade e C. Episódio Maníaco e Hipomaníaco,

24
respectivamente, da M.I.N.I 7.0.2. A partir das respostas obtidas pelos módulos A e C, a
amostra foi dividida clinicamente em: Depressão Maior, Transtorno Bipolar, Transtorno
Bipolar Tipo 1 e Transtorno Bipolar Tipo 2. O módulo B. Suicidalidade foi utilizado para
definir as variáveis Ideação Passiva, através das respostas para o item B2 (pensou ou desejou
estar morta); Ideação Ativa através das respostas para os itens B3 (pensar em suicídio),
Planejamento através das respostas para os itens B5 (método para suicídio), B6 (meio para
suicídio), B7 (local para suicídio), B8 (data para suicídio) e B9 (tarefa para concluir antes do
suicídio); Tentativa de Suicídio ao longo da Vida através das respostas para o item B18 e
Intenção suicida para futuro próximo através da resposta para o item B19. O escore para
Suicidalidade foi obtido através do somatório das questões respondidas pelas pacientes como
“sim” O resultado da suicidalidade foi entendido com base nos pontos de corte do próprio
instrumento, sendo: 1-8 pontos considerada leve; 9-16 pontos considerada moderada e maior
ou igual a 17 pontos considerada elevada (GORESTEIN & WANG, 2016). (MINI
ENTREVISTA INTERNACIONAL NEUROPSIQUIÁTRICA, 2016).

4.7.3 Inventário de Depressão de Beck (BDI)
O Inventário de Depressão de Beck (ANEXO C) é um instrumento autoaplicável,
composto por 21 grupos de afirmações que buscam identificar como o sujeito se sentiu nas
últimas duas semanas. Seu objetivo é medir a gravidade dos sintomas depressivos e pode ser
aplicado em pessoas a partir dos 13 anos. A classificação da intensidade do sintoma depressivo,
medida através do BDI, em pacientes psiquiátricos diagnosticados, foi realizada baseando-se
nos seguintes pontos de corte do instrumento: 0 a 13 depressão mínima; 14 a 19 depressão leve;
20 a 28 depressão moderada; 29 a 63 depressão grave.
4.7.4 Psychache Scale (PAS) – Escala de Dor Psicológica
A Psychache Scale (ANEXO D) possui 13 itens que devem ser respondidos levando em
consideração a Dor Psicológica que o paciente sente e não as dores físicas. As respostas variam
em relação a frequência com que o paciente experiencia cada uma das afirmações, sendo
representada por “Nunca”, “Algumas vezes”, “Frequentemente”, “Muito Frequentemente” ou
“Sempre, e em relação ao nível de concordância para cada afirmação, podendo variar entre
“Discordo Fortemente”, “Discordo”, “Indeciso”, “Concordo” ou “Concordo Fortemente”. A
presença e a intensidade da dor psicológica foram consideradas através das pontuações da

25
própria escala, que pode variar entre 13 e 65 pontos, indicando que quanto maior a pontuação,
maior a intensidade da dor psicológica (HOLDEN et al., 2001).

4.7.5 Childhood Trauma Questionnarie (CTQ)- Questionário de Trauma Precoce
O Childhood Trauma Questionnarie (ANEXO E) é composto por 28 questões, divididas
em 5 grupos de subescalas e 1 grupo de questões que correspondem ao escore de minimização.
Cada subescala corresponde a um subtipo de mau-trato na infância, sendo eles: Abuso
Emocional, Abuso Físico, Abuso Sexual, Negligência Emocional e Negligência Física. O CTQ
é considerado como o padrão-ouro em avaliações retrospectivas de maus-tratos na infância
(GRASSI-OLIVEIRA; STEIN; PEZZI, 2006; SANVICENTE-VIEIRA & GRASSIOLIVEIRA 2016). Para calcular os escores da escala do CTQ, foi utilizado o crivo presente no
manual de aplicação e avaliação do CTQ desenvolvido por Bernstein e Fink (1998),
considerando o menor escore de cada subescala como ponto de corte para indicar o histórico de
experiência traumática. Sendo estes equivalentes a 9 pontos para presença de Abuso Emocional,
8 pontos para a presença de Abuso Físico, 6 pontos para a presença de Abuso Sexual, 10 pontos
para Negligência Emocional e 8 pontos para Negligência física. Qualquer pontuação a partir
destas demonstrava evidência da presença de trauma precoce no histórico de vida das pacientes.

4.8 Análise de Dados
Os dados foram tabulados e analisados através do software SPSS v. 22. Inicialmente
foi realizada uma análise descritiva da amostra, com apresentação de resultados absolutos e
percentagens, médias e medianas e desvios-padrão. Em seguida foi realizado o teste de
Kolmogorov-Sminorv para determinar o tipo de distribuição da amostra. Baseando-se nos
resultados desse teste foram realizados os testes de associação t de Student para análises
paramétricas de variáveis com distribuição normal, comparando médias entre diferentes grupos
e o teste de Mann Whitney foi utilizado para análises não-paramétricas de variáveis com
distribuição não-normal e o teste Qui-quadrado para a comparação entre grupos que envolviam
variáveis dicotômicas. Foi estabelecido como estatisticamente significativo, testes cujos
resultados demonstravam valor de p menor que 0,05.

26

5 RESULTADOS
5.1 – Perfil Sociodemográfico
Inicialmente foram realizadas análises estatísticas descritivas objetivando caracterizar o
perfil sociodemográfico da amostra quanto à idade, escolaridade, estado civil, residência e
histórico de trauma precoce. A amostra geral contou com a participação de 48 mulheres, com
média de idade de 42,5 anos (± 11,9). Cerca de 56,3% (n= 27) das mulheres relataram viver
sem companheiro (a), tendo 79,2 % (n= 38) delas residência na capital alagoana.
Com base no risco de suicídio, avaliado pela Mini Entrevista Neuropsiquiátrica
Internacional (MINI 7.0.2) a amostra foi dividida em dois grupos, sendo eles: sem
comportamento suicida e com comportamento suicida. Observou-se que cerca de 89,6% (n=
43) da amostra apresentaram algum tipo de comportamento suicida, neste grupo 60,5% (n= 26)
da amostra relataram viver sem companheiro (a). Através dos testes Qui-quadrado e t de
Student, com valores de p <0,05, verificou-se que não há diferença significativa entre as
variáveis analisadas nos grupos, indicando para uma homogeneidade sociodemográfica na
amostra coletada, conforme apresentado na tabela 1.

27
Tabela 1: Perfil Sociodemográfico da Amostra de acordo com a presença de Comportamento Suicida avaliado pela Mini Entrevista
Neuropsiquiátrica Internacional (MINI 7.0.2).

Amostra Geral
(N=48)

Ausência
(N=5)

Presença
(N=43)

Análise Estatística
X2 (p valor)

Idade, média (DP)

42,5(11,9)

48,0(14,3)

41,8(11,6)

Com Companheiro
Sem Companheiro

21(43,8)
27 (56,3)

4(80,0)
1(20,0)

17(39,5)
26(60,5)
1,47(0,48)

Residência, n (%)
Capital
Interior
Fora do estado

2,00 (0,28)
2,98(0,08)

Estado Civil, n (%)

38(79,2)
9(18,8)
1(2,1)

Fonte: Dados da Pesquisa, 2021.

5(100,0)
0(0,0)
0(0,0)

33(76,7)
9(20,9)
1(2,3)

Teste t (p valor)

28

5.2 Perfil Clínico e Histórico de Trauma Precoce
De acordo com as entrevistas utilizando os módulos A e C da M.I.N.I 7.0.2, para avaliar
transtornos de humor (depressão e bipolar) pelo DSM-5, observou-se que 62,5% (n=30) das
pacientes apresentaram diagnóstico de Depressão Maior e 37,5% (n=18) apresentaram
diagnóstico de Transtorno Bipolar. Já o comportamento suicida, foi investigado pelo módulo
B da M.I.N.I 7.0.2 e indicou que 89,6% (n=43) da amostra tinham histórico de comportamento
suicida.
As respostas do Childhood Trauma Questionnaire (CTQ), 85,4% (n=41) apresentaram
histórico de Trauma Precoce entre as mulheres, evidenciando uma alta frequência de
experiências traumáticas na população estudada. Sendo que 79,2% (n=38) possuíam histórico
de Abuso Emocional, 75% (n=36) possuíam histórico de Negligência Emocional e Negligência
Física, enquanto 62,5% (n=30) relataram ter sofrido Abuso Físico e 52,1% (n=25) Abuso
Sexual.
Com o objetivo de investigar diferenças entre aquelas pacientes com comportamento
suicida e as que não apresentaram esse comportamento, a amostra foi dividida em dois grupos.
Contudo, não se observaram diferenças significativas na distribuição dos transtornos de humor
e nem no histórico de trauma precoce entre os grupos, exceto no que concerne à negligência
física. Esta se fez presente em 81,4% (n=35) das mulheres com histórico de comportamento
suicida, 17,5 vezes mais comum do que entre aquelas sem comportamento suicida (IC95%:
1,72 – 178,43), ver tabela 2.
As mulheres com comportamento suicida apresentaram sintomas depressivos mais
graves, com escore médio igual a 27,9 (±13,4) pontos no inventário de Beck para depressão
(BDI) (Teste t de Student = -2,18; p = 0,04; IC 95%: -25,714 – 0,981), como descrito na tabela
2.

29
Tabela 2. Perfil Clínico das Pacientes e Histórico de Trauma Precoce de acordo com a presença de Comportamento Suicida avaliado pela Mini
Entrevista Neuropsiquiátrica Internacional (MINI 7.0.2).
Amostra
Geral
N= 48

Sem Comportamento
Suicida
N= 5

Média (DP)

N (%)
3(60,0)

Média (DP)

Com Comportamento
Suicida
N= 43

N (%)
27(62,8)

Média (DP)

Análise Estatística

X2 (p valor)
0,01 (0,90)

Teste t (p valor)

IC 95%
Limites
Inferior
Superior

Depressão Maior

N (%)
30(62,5)

Transtorno Bipolar

18(37,5)

2(40,0)

16(37,2)

0,01 (0,90)

Transt. Bipolar Tipo 1

13(27,1)

2(40,0)

11(25,6)

0,47 (0,49)

Transt. Bipolar Tipo 2

5(10,4)

0(0,0)

5(11,6)

0,65 (0,42)

Trauma Precoce
(CTQ)
Abuso Emocional

41(85,4)

58,1(19,1)

5(100,0)

51,4(12,5)

36(83,7)

58,9(19,7)

0,95 (0,33)

-0,83 (0,41)

-7,113

-2,936

38(79,2)

14,1(5,8)

4(80,0)

12,8(5,0)

34(79,1)

14,3(5,9)

0,00 (0,96)

-0,55 (0,59)

-7,027

4,022

Abuso Físico

30(62,5)

10,3(5,3)

3(60,0)

8,4(2,3)

27(62,8)

10,5(5,5)

0,01 (0,90)

-0,84 (0,41)

-7,113

2,936

Abuso Sexual

25(52,1)

8,1(4,4)

3(60,)

7,8(4,2)

22(51,2)

8,1(4,4)

0,14 (0,71)

-0,14 (0,89)

-4,496

3,910

Negligência Emocional

36(75,0)

14,6(5,9)

5(100,0)

14,8(3,4)

31(72,1)

14,6(6,2)

1,86 (0,17)

0,07 (0,94)

-5,503

5,893

Negligência Física

36(75,0)

11,2(4,6)

1(20,0)

7,6(3,6)

35(81,4)

11,7(4,6)

9,00 (0,00) *

-1,91 (0,06)

-8,357

0,208

BDI

26,4(13,4)

16,6(6,9)

27,9(13,4)

-2,18 (0,04)

-25,714

0,981

PAS

44,1(13,6)

35,4(13,3)

45,1(13,4)

-1,53 (0,13)

-22,434

3,048

Fonte: Dados da Pesquisa 2021.
CTQ- Childhood Trauma Questionnaire

BDI- Beck Depression Inventory

PAS – Psychache Scale

*Odds Ratio = 17,5 (IC 95%: 1,72 – 178,43)

30
5.3 – Associação entre Ideação Suicida Passiva, Trauma Precoce e Dor Psicológica
A amostra foi dividida com base nos tipos de comportamentos suicidas. O primeiro
grupo de comportamentos suicidas analisado foi o grupo de mulheres que possuíam ou não
ideação passiva de suicídio. A estatística descritiva demonstrou que 83,3% (n= 40) das
mulheres entrevistadas possuíam algum tipo de ideação passiva de suicídio, implicando no
desejo de morrer ou estar morta, nos últimos 30 dias.
Cerca de 65% (n= 26) das mulheres, com ideação passiva, apresentavam diagnóstico de
Depressão Maior e 35% (n= 14) apresentavam diagnóstico de Transtorno Bipolar. Com relação
ao histórico de trauma precoce, aproximadamente 85% (n= 34) das pacientes com ideação
passiva relataram ter sofrido algum tipo de trauma infanto-juvenil.
Entre as mulheres que relataram ideação suicida passiva, a negligência física foi a
experiência traumática mais relatada, presente em 82,5% (n= 33) das mulheres entrevistadas.
Sendo 7,9 (IC95%: 1,51 – 40,81) vezes mais frequente entre as mulheres desse grupo. O abuso
emocional foi o segundo tipo de experiência traumática mais relatado pelas mulheres, cerca de
80% (n= 32), seguido por negligência emocional com 72,5% (n= 29), abuso físico 62,5% (n=
25) e abuso sexual 52,5% (n= 21), porém nenhum deles foi significativamente diferente entre
os grupos.
As pacientes com ideação passiva, também, apresentaram sintomatologias depressivas
mais graves, com média igual a 29,4 (±12,6) para o BDI (p = 0,01). Além de expressarem dor
psicológica mais intensa, com média igual a 46,0(±12,8) para Escala de Dor Psicológica (PAS)
(p = 0,03), conforme pode ser observado na tabela 3.

31
Tabela 3. Associação entre Ideação Suicida Passiva, Trauma Precoce e Dor Psicológica em Mulheres com Episódios Depressivos.
Amostra Geral
N= 48
N (%)
Média (DP)

Sem Ideação Passiva
N=8
N (%)
Média (DP)

Com Ideação Passiva
N= 40
N (%)
Média (DP)

Análise Estatística

X2 (p valor)

Teste t (p valor)

IC 95%
Limites
Inferior
Superior

Depressão Maior

30(62,5)

4(50,0)

26(65,0)

0,64 (0,42)

Transtorno Bipolar

18(37,5)

4(50,0)

14(35,0)

0,64 (0,42)

Transt.Bipolar Tipo 1

13(27,1)

4(50,0)

9(22,5)

2,55 (0,11)

Transt.Bipolar Tipo 2

5(10,4)

0(0,0)

5(12,5)

1,11 (0,29)

Trauma Precoce (CTQ)

41(85,4)

58,1(19,1)

7(87,5)

53,7 (20,5)

34(85,0)

59,0 (19,0)

0,03 (0,85)

- 0,71 (0,48)

-20,261

9,711

Abuso Emocional

38(79,2)

14,1(5,8)

6(75,0)

13,6 (2,3)

32(80,0)

14,3 (5,7)

0,10 (0,75)

-0,28 (0,78)

-5,164

3,914

Abuso Físico

30(62,5)

10,3(5,3)

5(62,5)

9,9 (5,1)

25(62,5)

10,3 (5,4)

0,00 (1,00)

-0,23 (0,82)

-4,623

3,673

Abuso Sexual

25(52,1)

8,1(4,4)

4(50,0)

8,6 (5,7)

21(52,5)

8,0 (4,1)

0,02 (0,90)

0,40 (0,67)

-2,765

4,115

Negligência Emocional

36(75,0)

14,6(5,9)

7(87,5)

13,0 (4,3)

29(72,5)

15,0 (6,2)

0,80 (0,37)

-0,85 (0,40)

-6,585

2,685

Negligência Física

36(75,0)

11,2(4,6)

3(37,5)

8,6 (4,0)

33(82,5)

11,8 (4,6)

7,20 (0,01)*

-1,80 (0,08)

-6,676

0,376

BDI

26,4(13,4)

13,4 (8,5)

29,4 (12,6)

-3,40 (0,01)

-25,502

-2,491

PAS

44,1(13,6)

34,8 (14,6)

46,0 (12,8)

-2,18 (0,03)

-21,242

-0,858

Fonte: Dados da Pesquisa, 2021.
CTQ- Childhood Trauma Questionnaire

BDI- Beck Depression Inventory

PAS – Psychache Scale

*Odds Ratio = 7,9 (1,51 – 40,81 IC95%).

32
5.4 – Associação entre Ideação Suicida Ativa, Trauma Precoce e Dor Psicológica
A ideação suicida ativa que corresponde à ideia de tirar a própria vida nos últimos 30
dias, foi observada em 62,5% (n= 30) das mulheres entrevistadas. Em relação ao quadro clínico
das pacientes, 63,3% (n= 19) dessas mulheres possuíam Depressão Maior e 36,7% (n= 11)
Transtorno Bipolar. O histórico de trauma precoce foi relatado por 83,3% (n= 25).
Entre as experiências de maus-tratos infanto-juvenis, a negligência física se destacou
como a mais frequente entre as mulheres desse grupo. Cerca de 86,7% (n= 26) das mulheres
relataram ter sofrido negligência física. Sendo 5,2 (IC95%: 1,28 – 21,18) vezes mais comum
entre as mulheres com ideação suicida ativa. O abuso emocional foi relatado por 80% (n= 24)
das pacientes, cerca de 76,7% (n= 23) relataram experiências de negligência emocional, o abuso
físico foi reportado por 66,7% (n= 20) das mulheres e o abuso sexual foi relatado por 50% (n=
15) daquelas com ideação suicida ativa, porém nenhum deles apresentou diferenças
significativas.
As pacientes com ideação suicida ativa apresentaram sintomas depressivos mais graves
(p < 0,01) e dor psicológica mais intensa (p = 0,02), quando comparadas às mulheres sem
ideação suicida ativa, conforme podemos observar na tabela 4.

33
Tabela 4. Associação entre Ideação Suicida Ativa, Trauma Precoce e Dor Psicológica em mulheres com Episódios Depressivos.
Amostra Geral
N= 48

Sem Ideação Ativa
N= 18

Média (DP)

N (%)
11(61,1)

Média (DP)

Com Ideação Ativa
N= 30

N (%)
19(63,3)

Média (DP)

Análise Estatística

X2 (p valor)
0,02 (0,88)

Teste t (p valor)

IC 95%
Limites
Inferior
Superior

Depressão Maior

N (%)
30(62,5)

Transtorno Bipolar

18(37,5)

7(38,9)

11(36,7)

0,02 (0,88)

Transt. Bipolar Tipo 1

13(27,1)

7(38,9)

6(20,0)

2,03 (0,15)

Transt. Bipolar Tipo 2

5(10,4)

0(0,0)

5(16,7)

3,35 (0,07)

Trauma Precoce (CTQ)

41(85,4)

58,1(19,1)

16(88,9)

53,4(19,1)

25(83,3)

61,0(18,9)

0,28 (0,60)

-1,35 (0,18)

-18,988

3,766

Abuso Emocional

38(79,2)

14,1(5,8)

14(77,8)

12,9(5,3)

24(80,0)

14,9(6,0)

0,03 (0,85)

-1,17 (0,25)

-5,457

1,435

Abuso Físico

30(62,5)

10,3(5,3)

10(55,6)

9,6(4,8)

20(66,7)

10,7(5,6)

0,60 (0,44)

-0,67 (0,51)

-4,235

2,124

Abuso Sexual

25(52,1)

8,1(4,4)

10(55,6)

8,4(4,7)

15(50,0)

7,8(4,2)

0,14 (0,71)

0,46 (0,64)

-2,035

3,258

Negligência Emocional

36(75,0)

14,6(5,9)

13(72,2)

13,5(5,8)

23(76,7)

15,3(6,0)

0,12 (0,73)

-1,02 (0,31)

-5,356

1,756

Negligência Física

36(75,0)

11,2(4,6)

10(55,6)

9,2(4,0)

26(86,7)

12,5(4,6)

5,81 (0,02)*

-2,48 (0,02)

-5,882

-0,607

BDI

26,4(13,4)

18,0(11,3)

31,4(12,2)

-3,57 (0,00)

-20,938

-5,802

PAS

44,1(13,6)

38,1(13,7)

47,7(12,4)

-2,51 (0,02)

-17,373

-1,916

Fonte: Dados da Pesquisa, 2021.
CTQ- Childhood Trauma Questionnaire

BDI- Beck Depression Inventory

PAS – Psychache Scale

*Odds Ratio: 5,2 (IC95%: 1,28 – 21,18).

34
5.5 – Associação entre Tentativa de Suicídio ao Longo da Vida, Trauma Precoce e Dor
Psicológica em Mulheres com Episódios Depressivos.
As tentativas de suicídio foram observadas em 62,5% (n= 30) das pacientes
entrevistadas. Cerca de 60% (n= 18) dessas, apresentavam diagnóstico de Depressão Maior e
40% (n= 12) diagnóstico de Transtorno Bipolar. O CTQ demonstrou que 86,7% (n=26) das
pacientes que haviam tentado suicídio ao longo da vida apresentavam histórico de trauma
precoce, que foi mais frequente do que entre as mulheres sem história de tentativa de suicídio
(p = 0,04).
A negligência física se mostrou o tipo de experiência traumática com maior prevalência
entre as entrevistadas, 83,3% (n=25). O Abuso emocional e a negligência emocional foram
relatados por 80% (n=24) das mulheres, seguidos pelo Abuso físico, relatado por 70% (n=21)
das participantes da pesquisa e Abuso sexual, relatado por 50% (n=15) das mulheres com
tentativas de suicídio ao longo da vida. De todos os subtipos de trauma, apenas o abuso físico
foi significativamente mais frequente entre as mulheres com histórico de tentativa de suicídio
(p =0,02).
No que se refere à gravidade dos sintomas depressivos e da dor psicológica, não se
observaram diferenças significativas entre os grupos, conforme apresentado na tabela 5.

35
Tabela 5. Associação entre Tentativa de Suicídio ao Longo da Vida, Trauma Precoce e Dor Psicológica em Mulheres com Episódios Depressivos.
Amostra Geral
N= 48

Média (DP)

Sem Tentativas
N= 18

N (%)
12(66,7)

Média (DP)

Com Tentativas
N= 30

N (%)
18(60,0)

Média (DP)

Análise Estatística

X2 (p valor)
0,21 (0,64)

Teste t (p valor)

IC 95%
Limites
Inferior
Superior

Depressão Maior

N (%)
30(62,5)

Transtorno Bipolar

18(37,5)

6(33,3)

12(40,0)

0,21 (0,64)

Transt. Bipolar Tipo 1

13(27,1)

4(22,2)

9(30,0)

0,34 (0,56)

Transt. Bipolar Tipo 2

5(10,4)

2(11,1)

3(10,0)

0,01 (0,90)

Trauma Precoce (CTQ)

41(85,4)

58,1 (19,1)

15(83,3)

50,9 (13,7)

26(86,7)

62,5(20,7)

0,10 (0,75)

-2,09(0,04)

-22,606

-0,439

Abuso Emocional

38(79,2)

14,1 (5,8)

14(77,8)

12,2 (4,7)

24(80,0)

15,3(6,1)

0,03 (0,85)

-1,83 (0,07)

-6,453

0,298

Abuso Físico

30(62,5)

10,3 (5,3)

9(50,0)

8,2 (3,7)

21(70,0)

11,50(5,7)

1,92 (0,17)

-2,41 (0,02)

-6,321

-0,235

Abuso Sexual

25(52,1)

8,1 (4,4)

10(55,6)

7,4 (3,4)

15(50,0)

8,4(4,9)

0,14 (0,71)

-0,75 (0,45)

-3,625

1,648

Negligência Emocional

36(75,0)

14,6 (5,9)

12(66,7)

13,6 (5,3)

24(80,0)

15,3(4,4)

1,07 (0,30)

-0,97 (0,34)

-5,271

1,848

Negligência Física

36(75,0)

11,2 (4,6)

11(61,1)

9,9 (4,8)

25(83,3)

12,1(4,4)

3,96 (0,08)

-1,74 (0,09)

-5,075

0,364

BDI

26,4 (13,4)

23,7 (13,4)

28,0(13,5)

0,99 (0,33)

-12,774

4,348

PAS

44,1 (13,6)

42,7 (14,0)

44,9(13,5)

0,53 (0,60)

-10,394

6,039

Fonte: Dados da Pesquisa, 2021.
CTQ- Childhood Trauma Questionnaire

BDI- Beck Depression Inventory

PAS – Psychache Scale.

36
5.6 – Associação entre Intenção de Suicídio, Trauma Precoce e Dor Psicológica em
Mulheres com Episódios Depressivos.

A intenção de suicidar-se nos próximos 3 meses, conforme o indicado no módulo B da
M.I.N.I 7.0.2, foi observada em 43,7% (n= 21) da amostra estudada. Cerca de 76,2% (n=16)
das pacientes com intenção suicida possuíam Depressão Maior e 23,8% (n= 5) Transtorno
Bipolar.
No que se refere às diferenças no quadro clínico das pacientes, cerca de 40,7 % (n= 11)
das pacientes sem intenção suicida apresentaram sintomas de transtorno bipolar tipo 1 e 9,5 %
(n= 2) das pacientes com intenção suicida apresentaram o mesmo diagnóstico. Observou-se
diferença significativa entre a prevalência de Transtorno Bipolar Tipo 1 no grupo de mulheres
que não tinham intenção suicida, quando comparadas ao grupo de mulheres que possuíam
intenção suicida (p = 0,02).
Experiências de Trauma Precoce foram relatadas por 85,7% (n= 18) das mulheres que
tinham intenção de suicidar-se pelos próximos 3 meses. Entre as três experiências traumáticas
mais prevalentes na amostra estavam o abuso emocional, a negligência emocional e a
negligência física, 81% (n=17) das pacientes relataram ter vivenciado essas experiências de
maus-tratos ao longo de seu desenvolvimento infanto-juvenil. O abuso físico foi vivenciado por
66,7% (n= 14) das mulheres e o abuso sexual foi relatado por 57,1% (n=12) das pacientes
entrevistadas.
As mulheres que apresentavam intenção suicida para os próximos 3 meses, também,
apresentavam experiências de trauma precoce mais graves do que mulheres sem intenção
suicida (p = 0,04), bem como relatos mais frequentes de negligência física (p = 0,04), sintomas
depressivos mais graves (p < 0,01) e dor psicológica mais intensa (p = 0,01).

37

Tabela 6. Associação entre Intenção de Suicídio, Trauma Precoce e Dor Psicológica em Mulheres com Episódios Depressivos.
Amostra Geral
N= 48

Média (DP)

Sem Intenção Suicida
N= 27

Média (DP)

N (%)
16(76,2)

Média (DP)

Análise Estatística

X2 (p valor)
2,99 (0,08)

Depressão Maior

N (%)
30(62,5)

Transtorno Bipolar

18(37,5)

13(48,1)

5(23,8)

2,99 (0,08)

Transtorno Bipolar Tipo 1

13(27,1)

11(40,7)

2(9,5)

5,83 (0,02)

2(7,4)

3(14,3)

0,60 (0,44)

Transtorno Bipolar Tipo 2

N (%)
14(51,9)

Com Intenção Suicida
N= 21

Teste t (p valor)

IC 95%
Limites
Inferior
Superior

Trauma Precoce (CTQ)

5(10,4)
41(85,4)

58,1(19,1)

23(85,2)

53,3(16,3)

18(85,7)

64,4(21,0)

0,00 (0,96)

-2,06 (0,04)

-21,916

-0,254

Abuso Emocional

38(79,2)

14,1(5,8)

21(77,8)

13,1(5,2)

17(81,0)

15,5(6,3)

0,07 (0,79)

-1,48 (0,15)

-5,784

0,885

Abuso Físico

30(62,5)

10,3(5,3)

16(59,3)

9,3(4,3)

14(66,7)

11,6(6,3)

0,38 (0,54)

-1,46 (0,15)

-2,312

1,579

Abuso Sexual

25(52,1)

8,1(4,4)

13(48,1)

7,8(4,2)

12(57,1)

8,4(4,6)

0,28 (0,60)

-0,44 (0,66)

-3,150

2,017

Negligência Emocional

36(75,0)

14,6(5,9)

19(70,4)

13,3(5,5)

17(81,0)

16,4(6,1)

0,70 (0,40)

-1,86 (0,07)

-6,506

0,263

Negligência Física

36(75,0)

11,2(4,6)

19(70,4)

10,1(3,9)

17(81,0)

12,8(5,2)

0,70 (0,40)

-2,06 (0,04)

-5,309

-0,066

BDI

26,4(13,4)

19,2(11,5)

36,4(8,7)

-5,31 (0,00)

-23,721

-10,657

PAS

44,1(13,6)

39,9(13,9)

49,5(11,4)

-2,56 (0,01)

-17,110

-2,064

Fonte: Dados da Pesquisa, 2021.
CTQ- Childhood Trauma Questionnaire

BDI- Beck Depression Inventory

PAS – Psychache Scale

38

6 DISCUSSÃO
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2021), o suicídio é considerado
uma epidemia global, cerca de 700.000 pessoas morrem por ano por suicídio, assim, atitudes
que corroborem para sua prevenção tornam-se imperativas. A taxa global de mortes por suicídio
é de 12,6/100.000 habitantes para homens e 5,4/100.000 habitantes para mulheres, porém as
médias em países de média e baixa rendas são mais elevadas e a média para o sexo feminino é
de 7,1/100.000 habitantes, ultrapassando as 10 mortes por 100.000 habitantes nos países com
as taxas mais elevadas.
Ainda de acordo com a OMS (2021) cerca de 77% das mortes por suicídio no mundo
ocorrem em países de média e baixa rendas. As taxas de suicídio variam entre homens e
mulheres, entre regiões e países de acordo com a renda, política e cultura. Em países mais ricos,
estima-se que os homens se suicidem mais que as mulheres, numa relação maior que 3:1. No
entanto, em países de renda média-baixa a diferença entre os sexos se reduz, chegando a uma
relação de 1,8:1.
O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial. Didaticamente, os fatores que
contribuem para esse comportamento podem ser divididos entre fatores distais e fatores
proximais. Os fatores distais, também chamados de predisponentes, incluem características da
personalidade (como traços de impulsividade e agressividade), carga genética e história de
trauma precoce ou adversidades na infância. Os fatores proximais, também chamados de fatores
precipitantes, incluem a ocorrência de transtornos mentais, abuso de álcool e outras drogas e
eventos estressantes de vida (ROY & SARCHIAPONE, 2009).
A amostra estudada foi composta por 48 mulheres deprimidas, acompanhadas em
serviço público ambulatorial. Destas, 43 (89,6%) mulheres apresentaram algum indício de
comportamento suicida e pontuaram em média 27,9 pontos no Inventário de Depressão de
Beck, o que sugere um quadro depressivo moderado a grave. As 5 pacientes sem
comportamento suicida apresentaram uma média de 16,6 pontos no Inventário de Depressão de
Beck, sugerindo um quadro depressivo leve. Histórico de algum trauma precoce foi relatado
por 85,4% das mulheres.
O trauma precoce consiste em experiências adversas sustentadas ou repetidas durante a
infância e adolescência, em geral envolvendo quebra de confiança. As situações de trauma
precoce incluem adversidades como abuso físico e sexual, perda ou separação dos pais,
instabilidade familiar, violência doméstica, ausência de apoio social e desamparo. A influência
do trauma precoce no desenvolvimento de transtornos mentais na fase adulta, depende do

39

momento em que esse trauma ocorre, do tipo e da gravidade da exposição, além de ter efeito
cumulativo ao longo do tempo (DUARTE ET AL, 2020).
A ocorrência de eventos adversos na infância associa-se à morte prematura dos
indivíduos. O trauma precoce pode se associar a prejuízo no neurodesenvolvimento, que leva a
prejuízo emocional, cognitivo e social, adoção de um estilo de vida mais perigoso, maior
ocorrência de doenças e problemas sociais. Estudos reforçam tais afirmações ao associar o
trauma precoce a maior tabagismo, alcoolismo e abuso de drogas na fase adulta, maior risco de
sedentarismo, obesidade grave, problemas cardiovasculares, pulmonares e hepáticos
(TARGUM & NEMEROFF, 2019).
O trauma precoce pode levar a efeitos biológicos como a neuroinflamação, contribuindo
assim para o desenvolvimento de psicopatologias como a depressão e para neuroprogressão no
Transtorno Bipolar (DUARTE ET AL, 2020). O histórico de trauma precoce tem sido associado
a alterações epigenéticas em sistemas de transporte de serotonina, sistemas regulatórios do
estresse, como o eixo HPA (hipotálamo-pituitária-adrenal), a metilação do DNA do gene
FKBP5 e desregulação do sistema nervoso simpático, além de metilação do BDNF (fator
neurotrófico derivado do cérebro), fator decisivo para a plasticidade neuronal, culminando com
alteração de estrutura e função cerebrais de regiões como amígdala, hipocampo e áreas préfrontais, relacionados à maior suscetibilidade para o desenvolvimento de transtornos do humor,
como depressão e transtorno bipolar e envolvidas na regulação de comportamento suicida
(DUARTE ET AL, 2020; BROWN; FIORI; TURECKI, 2019; KRUGERS et al., 2017;
NEMEROFF, 2016; SAAVEDRA et al., 2016).
Indivíduos com transtornos mentais que sofreram maus-tratos durante a infância e
adolescência, tendem a apresentar sintomas mais intensos do que os pacientes que não
apresentam esse histórico (MARTINS-MONTEVERDE ET AL, 2019; SANVICENTEVIEIRA E GRASSI-OLIVEIRA, 2016 & BROWN, FIORI E TURECKI, 2019). Os pacientes
com depressão e histórico de trauma precoce tendem a apresentar mais sintomas atípicos como
hipersonia, hiperfagia e aumento da sensibilidade à rejeição e, comportamento suicida, com
pior resposta à psicoterapia e à psicofarmacoterapia (TARGUM & NEMEROFF, 2019).
Os resultados da presente pesquisa indicaram associações significativas entre diferentes
tipos de comportamento suicida com os diversos subtipos de trauma precoce tais como abuso
sexual, negligência e abuso emocional além de negligência e abuso físicos, como também maior
gravidade dos sintomas depressivos e dor psicológica mais intensa em mulheres adultas.
Fornecendo evidências que um desenvolvimento infanto-juvenil marcado por experiências
relacionadas à pobreza e violência doméstica pode contribuir para maior vulnerabilidade

40

psicopatológica e desenvolvimento de comportamentos suicidas associados a quadros
depressivos na fase adulta.
Entre os subtipos de trauma precoce experienciados pelas participantes deste estudo, a
negligência física foi o mais frequente, ocorrendo em 81,4% das mulheres com comportamento
suicida, configurando um relato 17,5 vezes mais comum entre as mulheres deprimidas com
comportamento suicida que entre as pacientes deprimidas sem comportamento suicida. Esse
subtipo de trauma avaliado pelo CTQ, envolve situações de falta de alimento durante o
desenvolvimento, desamparo ou falta de proteção e cuidado, problemas familiares envolvendo
álcool e/ou outras substâncias, descuido da higiene e dificuldades para obter assistência médica
adequada.
Segundo a OMS (2021), situações de vulnerabilidade socioeconômicas, bem como,
situações de desemprego podem contribuir para o aumento do risco de suicídio. Sendo assim,
pesquisas envolvendo populações pobres ou de países em desenvolvimento são importantes e
devem levar em consideração a situação de maior vulnerabilidade, em que os participantes das
pesquisas podem estar inseridos. A pobreza pode levar à falta de recursos para alimentação e
vestimentas adequadas, bem como dificultar o acesso à assistência integral à saúde, colaborando
para que essas pessoas estejam em situação de risco para o desenvolvimento de transtornos
psiquiátricos e comportamento suicida.
Uma pesquisa realizada com 288 participantes, não clínicos, de aproximadamente 19,5
anos apresentou associação entre trauma precoce, sintomas depressivos, ideação suicida ativa
e dor psicológica. De acordo com os resultados, a exposição ao trauma precoce leva a uma
experiência psicológica de sofrimento, refletida na dor psicológica, necessidades interpessoais
não atendidas e sintomas depressivos. Diminuindo os pensamentos protetores em direção a
comportamentos suicidas mais letais (SPÍNOLA et al., 2020).
A revisão e meta-análise publicada por Angelakis, Austin e Gooding (2020),
considerada um dos estudos de revisão mais abrangentes sobre maus tratos na infância e risco
de suicídio até o momento, incorporando 79 estudos, mostrou que ideação suicida foi mais
associada a abuso físico e emocional na infância e adolescência e que o planejamento suicida
foi mais associado ao abuso sexual.
A ideação suicida passiva compreende o desejo de estar morta e a ideação suicida ativa
compreende a ideia de ser o próprio indivíduo aquele a precipitar sua morte (e assim envolve
aspectos do planejamento do suicídio, incluindo escolha do método, busca dos meios para
realizar, determinação de data e local para o suicídio). Na amostra estudada a negligência física
foi o subtipo de trauma precoce que se associou com vários aspectos do comportamento suicida,

41

seja a ideação suicida passiva (relatada em 83,3% das pacientes), ideação suicida ativa (indicada
por 62,5% das entrevistadas) e intenção suicida (relatada por 43,7% da amostra). Valorizando
este subtipo de trauma precoce como fator a ser investigado, quando da abordagem ao
comportamento suicida em pessoas que buscam serviços públicos de saúde em países
subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.
Uma metanálise recente sobre comportamento suicida e subtipos de trauma precoce em
pacientes com transtorno bipolar, indicou a negligência física como tendo uma menor
contribuição para o comportamento suicida em comparação a outros subtipos como abuso
emocional e sexual, e negligência emocional (DUARTE ET AL, 2020). Vale ressaltar que tal
estudo incluiu 13 pesquisas, 8 das quais realizadas em países desenvolvidos, o que pode reduzir
o impacto da negligência física nas vidas dos indivíduos estudados, podendo justificar as
divergências encontradas nos achados deste estudo.
Na revisão realizada por Angelakis, Austin e Gooding (2020), os autores evidenciam
que abuso sexual, físico e emocional na infância foram associados 2,5 vezes mais chances de
ideação suicida e que o abuso sexual foi associado a chances 4,0 vezes maiores de planos de
suicídio em pessoas jovens, a maioria mulheres (63,2% da amostra analisada). A maior parte
das pesquisas relatadas nesta revisão foi realizada na América do Norte (43 estudos [54,4%]),
seguida pela China ou outros países asiáticos (16 estudos [20,3%]), Europa (11 estudos
[13,9%]), Australásia (7 estudos [8,9%]), apenas, 1,3% (1 estudo) foi realizado na América do
Sul. Com relação à presente pesquisa, as mulheres com ideação passiva tinham 7,9 vezes mais
chances de histórico de negligência física e as com ideação ativa possuíam 5,2 vezes mais
chances de terem sofrido esse mesmo tipo de trauma. Esse achado reforça a sugestão de impacto
negativo de uma trajetória de desenvolvimento infanto-juvenil com baixa condição
socioeconômica na manutenção de uma boa saúde mental.
O fato de o presente estudo ter sido realizado em uma amostra atendida em serviço
público, de um país em desenvolvimento socioeconômico, pode ter contribuído para a
percepção da negligência física como principal fator de risco ligado ao comportamento suicida
na amostra estudada, principalmente, com relação à ideação ativa de suicídio quando
comparada com a revisão apresentada. Ampliando o olhar e chamando a atenção para as
diferenças existentes entre os tipos de eventos traumáticos na infância e adolescência e as
variações do comportamento suicida em regiões mais pobres.
Com relação às tentativas de suicídio, uma revisão e meta-análise, utilizando 68 estudos
(n = 261.660) realizados em comunidades e populações clínicas, publicada por Angelakis,
Gillespie e Panagioti (2019) demonstrou que as tentativas de suicídio foram significativamente

42

mais expressas em pessoas com histórico de abuso sexual, com um risco 3 vezes maior de
tentativas de suicídio (OR 3,17, IC 95%: 2,76–3,64), enquanto os abusos físico e emocional
foram associados a riscos 2,5 vezes maiores para tentativas de suicídio (OR 2,52, IC 95% 2,09–
3,04; OR 2,49, IC 95% 1,64–3,77, respectivamente). A negligência emocional foi associada a
um risco 2,3 vezes maior de tentativas de suicídio, enquanto a negligência física não foi
significativamente associada a um risco aumentado de tentativas de suicídio (OR 2,29, IC 95%
1,79-2,94; OR 1,51, IC95% 0,87-2,62, respectivamente).
Na presente pesquisa as tentativas de suicídio, relatadas por 62,5% da amostra, foram
associadas ao histórico de abuso físico, diferente da maioria dos estudos na área, segundo
Angelakis, Gillespie e Panagioti (2019) e Angelakis, Austin e Gooding (2020), que apontam
para o abuso sexual como o subtipo de maus-tratos mais associado a tentativas de suicídio em
pessoas adultas.
O Abuso Físico é avaliado pelo CTQ por meio de questões que envolvam situações de
violência física onde a criança ou o adolescente obtenha como resultado ferimentos e/ou marcas
pelo corpo que sejam dignas de atendimento médico e/ou possam ser notadas por outras
pessoas. Esses ferimentos e/ou marcas podem ser feitos com cordas, varetas de pau, cigarros
acesos ou cintos (GRASSI-OLIVEIRA; STEIN; PEZZI, 2006).
De acordo com Carr et al. (2013) o abuso físico é associado aos transtornos do humor,
especialmente com depressão maior e mania, colaborando para a gravidade e persistência dos
quadros psicopatológicos. Na amostra de mulheres com tentativas de suicídio, 60%
apresentavam diagnóstico de Depressão Maior, 40% de Transtorno Bipolar e 86,7% haviam
sofrido trauma precoce geral, tendo sido esse e o abuso físico associados significativamente às
tentativas de suicídio nessas pacientes.
Os dados e as associações encontrados nesta pesquisa apontam para uma amostra clínica
complexa e grave. Demonstrando a necessidade de estudos que possam aprofundar as análises
entre situações que envolvam pobreza e violência doméstica e o desenvolvimento do
comportamento suicida em pessoas com diagnóstico de psicopatologias, principalmente,
transtornos do humor. Até onde podemos observar, a maioria dos estudos na área contempla
situações de trauma precoce com foco no abuso sexual. Na amostra estudada apesar de mais da
metade das mulheres com comportamento suicida apresentarem histórico de trauma precoce
causado por abuso sexual, cerca de 51,2%, esse subtipo de abuso não foi associado a nenhuma
diferença significativa com nenhum dos tipos de comportamento suicida analisados.
Um estudo que avaliou a dor psicológica em adultos com depressão aguda, dividindo a
amostra em 4 grupos (ideação e comportamento suicida atual e passado (n = 20); pacientes

43

deprimidos com ideação suicida atual (n = 22); pacientes deprimidos não suicidas (n = 20) e
controles saudáveis (n = 20)), demonstrou associação positiva entre tentativa de suicídio recente
(nas últimas 72 horas) e dor psicológica (CÁCEDA ET AL, 2014). O instrumento para avaliar
a dor psicológica da pesquisa citada foi o mesmo utilizado por nosso estudo, em ambas as
pesquisas os escores de dor psicológica nos grupos com ideação suicida e com tentativa de
suicídio foram superiores a 40 pontos, de modo semelhante os dois estudos indicaram escores
menores de 40 pontos, porém acima de 30 pontos entre os pacientes deprimidos sem ideação
suicida.
Na presente pesquisa, a avaliação da intensidade da dor psicológica apresentou
associação significativa com a ideação suicida passiva, ideação suicida ativa e intenção suicida
para os próximos 3 meses. A diferença entre os escores médios de cada grupo avaliado a partir
dos tipos de comportamento suicida chegou a quase 10 pontos para o aumento da intensidade
da dor psicológica. Em 2012, uma pesquisa apresentada por Troister e Holden demonstrou que
a variação na dor psicológica era um preditor relevante para mudanças em ideação suicida,
enfatizando que a relevância dessa variável psicológica como melhor preditora do risco de
suicídio que a depressão e a desesperança, como já conceituava Shneidman (1993).
O grupo com intenção suicida para os próximos 3 meses (n = 21), apesar de ser o menor
grupo dos compostos por mulheres com esses tipos de comportamento, foi o que apresentou
média geral mais alta na escala de dor psicológica, as pacientes tiveram média de 49,5 pontos.
Esse dado nos sugere que à medida que a dor psicológica se torna mais intensa o comportamento
suicida se torna mais grave.
Em relação ao quadro de sintomas depressivos, uma pesquisa realizada com 203 adultos
(100 homens e 103 mulheres), com média de idade de 38 anos, demonstrou uma relação de
mediação entre dor psicológica com a depressão e o risco de suicídio. De acordo com os autores
do estudo nem todos os indivíduos deprimidos apresentam ideação e comportamentos suicidas.
Provavelmente o potencial da depressão para induzir dor psicológica, isolamento e sentimentos
de ser um fardo é que eventualmente leva um indivíduo a se desenvolver comportamento
suicida (CAMPOS & HOLDEN, 2015).
No presente estudo observou-se associação entre ideação suicida passiva, ideação
suicida ativa e intenção suicida para os próximos 3 meses e a dor psicológica com aumento na
pontuação da gravidade dos sintomas depressivos das pacientes.

44

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O trauma precoce se mostra uma variável relevante para avaliarmos o quadro clínico de
pacientes com transtornos de humor, apresentando-se como uma variável de risco para o
suicídio.
O presente estudo se propôs a investigar a associação entre comportamento suicida,
trauma precoce e dor psicológica em mulheres deprimidas. Os objetivos foram alcançados e
nos resultados foi apontado que os diversos tipos de comportamento suicida demonstraram
associações variadas em relação ao histórico de trauma precoce, dor psicológica e gravidade
sintomatológica.
Ideação suicida passiva, ideação suicida ativa e intenção suicida foram associadas
significativamente com o histórico de negligência física, o que sugere uma associação entre
infância e adolescência de vulnerabilidades socioeconômicas e risco de suicídio na mulher
adulta. As tentativas de suicídio apresentaram associação com o histórico de abuso físico,
indicando que uma infância e adolescência marcada por agressão física e intercorrências por
violência doméstica aumentam o risco de comportamento suicida em mulheres adultas.
Ideação suicida (tanto passiva quanto ativa) e intenção de cometer o suicídio num futuro
próximo, associaram-se com escores mais altos de dor psicológica, demonstrando que a variável
dor psicológica é um indicador de risco agudo de suicídio em mulheres deprimidas.

45

7 LIMITAÇÕES E PERSPECTIVAS

A presente pesquisa apresenta algumas limitações:
▪

O tamanho da amostra e o fato de ter sido realizado apenas com pacientes do sexo

feminino. Porém, embora não permita a generalização dos dados para a população em geral,
não impede que esse estudo possa ser replicado com amostras de maior dimensão.
▪

O tipo de estudo que, por ser transversal, não permite inferências de causa e efeito, já

que não foi possível acompanhar a variação da intensidade de variáveis psicológicas como a
dor psicológica, que pode sofrer alterações de acordo com a dinâmica de vida e de
funcionamento psíquico do indivíduo, o que pode nos ajudar a explicar a não apresentação de
significância da mesma, quando em associação com o histórico geral de trauma e alguns
subtipos de maus tratos na infância.
▪

Viés de memória é outra limitação que vale a pena ser mencionada, uma vez que,

conforme for a gravidade do quadro clínico dessas pacientes, pode haver dificuldades para
recordar fatos ou acontecimentos.
▪

Duração da entrevista, cada entrevista durou de 30-50 minutos, um tempo, relativamente

longo, para as pacientes que se encontravam à espera de suas consultas, o que ocasionava nas
pacientes preocupação e pressa para concluir a entrevista.
▪

Ausência de avaliação de psicose, que tradicionalmente associa-se com risco de suicídio

e poderia apresentar associações positivas com o histórico de trauma e dos subtipos de maus
tratos na infância.
▪

As limitações impostas pela pandemia COVID-19 que se configuraram em atrasos na

coleta; redução no número de pacientes disponíveis para entrevista e exposição à contaminação
por parte dos participantes e dos pesquisadores.
Contudo, apesar das limitações, este estudo caminha ao encontro de evidências
anteriores sobre a importância de considerar o histórico de trauma na infância e adolescência e
os subtipos de maus-tratos para compreensão de associações com transtornos psiquiátricos e o
comportamento suicida.
Este estudo possui como perspectiva futura a ampliação da amostra e o aprofundamento
das análises de associação e possíveis efeitos mediadores e/ou moderadores entre as variáveis
estudada.

46

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50

APÊNDICE
APÊNDICE A – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (T.C.L.E.)
(Em 2 vias, firmado por cada participante voluntário(a) da pesquisa e pelo responsável)
“O respeito devido à dignidade humana exige que toda pesquisa se processe após o
consentimento livre e esclarecido dos sujeitos, indivíduos ou grupos que por si e/ou por seus
representantes legais manifestem a sua anuência à participação na pesquisa”
1. A Senhora está sendo convidada a participar como voluntária do estudo “Estudo de
Associação entre dor psicológica e comportamento suicida em pacientes do ambulatório de
depressão”, que será realizada no Hospital Escola Portugal Ramalho (HEPR), Hospital
Universitário Prof. Alberto Nunes (HUPAA) e Unidades Básicas de Saúde (UBS) do Municipio
de Girau do Ponciano.
Eu, _______________________________________________, recebi do Prof. Dr. Valfrido
Leão de Melo Neto, professor da Uncisal, responsável por sua execução, as seguintes
informações que me fizeram entender sem dificuldades e sem dúvidas os seguintes aspectos:
2.Este estudo se destina a avaliar a associação entre dor psicológica e comportamento suicida
nas pacientes atendidas no ambulatório de depressão do Hospital Escola Portugal Ramalho, das
Unidades Básicas de Saúde (UBS) do Municipio de Girau do Ponciano e Hospital Universitário
Prof. Alberto Nunes (HUPAA), descrever o perfil sociodemográfico das pacientes com
depressão atendidas nessas instituições de saúde, quantificar os escores e gravidade dos
sintomas depressivos nessa amostra, investigar as características do comportamento suicida no
grupo estudado, identificar o padrão da qualidade do sono dos pacientes, determinar os níveis
de qualidade de vida dos participantes estudados, descrever a presença e a intensidade da dor
psicológica, e analisar a associação entre dor psicológica e comportamento suicida e a gravidade
dos sintomas depressivos na amostra analisada; considerando que a importância deste estudo é
estudar a dor psicológica, e sua relação com quadros depressivos e comportamento suicida, para
o entendimento desse complexo fenômeno; que os resultados que se desejam alcançar são
encontrar que as mulheres deprimidas com maiores pontuações na escala de dor psicológica
também apresentarão maior gravidade de comportamento suicida, maiores escores de
depressão, além de piores escores de qualidade de vida e de qualidade de sono, sendo que o
estudo minucioso da associação entre dor psicológica e as características do quadro depressivo
podem contribuir para um melhor entendimento do comportamento suicida, colaborando para
uma melhor prevenção do suicídio; tendo início planejado para começar em agosto de 2019,
após a aprovação pelo sistema CEP/CONEP e terminar em julho de 2021.
3. A Senhora participará do estudo da seguinte maneira: após a concordância e a assinatura do
termo de consentimento livre e esclarecido será iniciada a coleta de dados com o preenchimento
dos questionários. Primeiramente será aplicado um questionário sociodemográfico e depois os
descritos no projeto, na seguinte ordem: M.I.N.I. 7.0.2; Inventário de Depressão de Beck;
Escala de dor psicológica (Psychache Scale); Inventário de Pittsburgh de qualidade do sono e
o SF36 (questionário de qualidade de vida); CTQ (Questionário de Trauma na Infância); Escala
de Traços de Personalidade Borderline. Sabendo que os possíveis riscos à sua saúde física e
mental são, a curto prazo, o constrangimento da participante da pesquisa pela entrevista ou
aplicação dos questionários, podendo levar a um desconforto no momento. Com isso, pode

51

ocorrer uma negativa ou desistência da voluntária de pesquisa em continuar respondendo os
questionários. Tais riscos serão minimizados da seguinte forma: caso a voluntária da pesquisa
mostre-se desconfortável, terá total liberdade para abandonar o estudo e os pesquisadores
oferecerão auxilio para assistência e tratamento psicológico e psiquiátrico à participante, a fim
de reduzir seu desconforto. A senhora poderá contar com a assistência do Dr. Valfrido Leão de
Melo Neto, que oferecerá consulta psiquiátrica e, se for de preferência da paciente, será
contatado o médico que já a acompanha no ambulatório para discutir e manejar o
constrangimento, desconforto emocional e psicológico. Em caso de desistências, para não haver
prejuízos nos resultados, ampliaríamos o número de sujeitos no estudo a fim de obter a amostra
pretendida, através do recrutamento ativo de novas pacientes no ambulatório de depressão do
HEPR, nas Unidades Básicas de Saúde do Município de Girau do Ponciano e no HUPAA.
4. Os benefícios previstos com a sua participação são conseguir observar a relação entre
transtorno depressivo, dor psicológica e comportamento suicida em pacientes da instituição
pesquisada e conhecer o papel da dor psicológica em pacientes com comportamento suicida,
podendo, assim, estudar mais formas de prevenção do suicídio, conseguidos através da coleta
e divulgação posterior dos dados e da detecção precoce de fatores de risco por vezes não
investigados, como a dor psicológica. Além disso, as participantes da pesquisa em que seja
identificado risco de suicídio se beneficiarão de um diagnóstico preciso e intervenção precoce,
assim que se defina esse risco, o que será feito a partir da aplicação e análise dos questionários
preenchidos. O pesquisador principal, Dr. Valfrido Leão de Melo Neto, oferecerá consulta
psiquiátrica ou contato com o psiquiatra, a fim de fazer essa intervenção precoce e manejar a
dor psicológica e o comportamento suicida da participante da pesquisa da melhor forma
possível e reduzir seu sofrimento.
5. Durante todo o estudo, a qualquer momento que se faça necessário, serão fornecidos
esclarecimentos sobre cada uma das etapas do estudo.
6. A qualquer momento, a Senhora poderá recusar a continuar participando do estudo e, retirar
o seu consentimento, sem que isso lhe traga qualquer penalidade ou prejuízo. As informações
conseguidas através da sua participação não permitirão a identificação da sua pessoa, exceto
aos responsáveis pelo estudo. A divulgação dos resultados será realizada somente entre
profissionais e no meio científico pertinente.
7. A Senhora deverá ser ressarcida por qualquer despesa que venha a ter com a sua participação
nesse estudo e, também, indenizada por todos os danos que venha a sofrer pela mesma razão,
sendo que, para estas despesas é garantida a existência de recursos.
8. A Senhora tendo compreendido o que lhe foi informado sobre a sua participação voluntária
no estudo “Estudo de Associação entre dor psicológica e comportamento suicida em pacientes
com depressão ”, consciente dos seus direitos, das suas responsabilidades, dos riscos e dos
benefícios que terá com a sua participação, concordará em participar da pesquisa mediante a
sua assinatura deste Termo de Consentimento.
Ciente, ______________________________________________________DOU O MEU
CONSENTIMENTO SEM QUE PARA ISSO EU TENHA SIDO FORÇADA OU
OBRIGADA.
Endereço do(a) participante voluntário(a):
Residência: (rua).........................................................................................Bloco: .........
Nº:
.............,
complemento:
.........................................................................Bairro:
......................

52

Cidade:
..................................................CEP.:......................................Telefone:
..........................
Ponto
de
referência:
.......................................................................................................................
Nome e Endereço do Pesquisador Responsável:
Valfrido Leão de Melo Neto, Tel: (82) 99101-9100, Rua Dr. José Afonso de Mello, n. 68. Sala
514. Edf. Harmony Relações Médicas, Jatiúca, Maceió. CEP: 57036-510.
Instituição: Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas. Rua Dr. Jorge de Lima,
113. Trapiche da Barra, Maceió – Alagoas. CEP: 57010-300. TEL: 82-3315-6809
ATENÇÃO: Para informar ocorrências irregulares ou danosas, dirija-se ao Comitê de Ética em Pesquisa,
pertencente UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CIÊNCIAS DA SAÚDE - UNCISAL: Rua Dr Jorge de Lima, 113.
Trapiche da Barra, CEP.: 57010-382. Sala 203, segundo andar, Prédio Sede. Telefone: 3315 6787. Correio
eletrônico: comitedeeticaucisal@gmail.com . Website: https://cep.uncisal.edu.br/ Horário de
funcionamento: diariamente no horário de 13:00 as 19:00 horas.

Maceió, _________ de ______________________ de _________

53

ANEXO
ANEXO A – Questionário sócio demográfico.

Questionário Sócio Demográfico
1. Gênero: ( ) M ( ) F
2. Idade: _______
3. Nacionalidade: ____________________
4. Endereço: __________________________________________________
5. Estado Civil:
( ) Casada/Amasiada ( ) Solteira ( ) Divorciada ( ) Viúva
6. Número de Filhos: ___________
7. Escolaridade:
( ) Analfabeta ( ) Sabe ler e escrever ( ) Ensino primário
( ) Ensino secundário ( ) Curso Superior
8. Profissão: ___________________________________________________
9. Como classifica a sua situação econômica:
( ) Ruim ( ) Média ( ) Boa

54

ANEXO B- Mini Entrevista Neuropsiquiátrica Internacional (M.I.N.I 7.0.2)

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56

57

58

59

60

61

62

ANEXO C- Inventário de Depressão de Beck (BDI)

63

64

ANEXO D- Escala de dor psicológica (PAS)

65

ANEXO E- Questionário de Trauma na Infância (CTQ)

66