14- A Prática da Atenção Integral em Saúde Bucal na Estratégia de Saúde da Família de Alagoas
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0
UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
FACULDADE DE MEDICINA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENSINO NA SAÚDE
MARCÍLIO OTÁVIO BRANDÃO PEIXOTO
A PRÁTICA DA ATENÇÃO INTEGRAL EM SAÚDE BUCAL NA ESTRATÉGIA DE
SAÚDE DA FAMÍLIA DE ALAGOAS
MACEIÓ/AL
2013
1
MARCÍLIO OTÁVIO BRANDÃO PEIXOTO
A PRÁTICA DA ATENÇÃO INTEGRAL EM SAÚDE BUCAL NA ESTRATÉGIA DE
SAÚDE DA FAMÍLIA DE ALAGOAS
Trabalho acadêmico de conclusão de
mestrado apresentado à Universidade
Federal de Alagoas, como parte das
exigências do Programa de PósGraduação em Ensino na Saúde, para
obtenção do título de Mestre em Ensino
na Saúde.
Orientador: Prof. Dr. Carlos Henrique
Falcão Tavares.
MACEIÓ/AL
2013
2
MARCÍLIO OTÁVIO BRANDÃO PEIXOTO
A PRÁTICA DA ATENÇÃO INTEGRAL EM SAÚDE BUCAL NA ESTRATÉGIA DE
SAÚDE DA FAMÍLIA DE ALAGOAS
Trabalho acadêmico de conclusão de
mestrado apresentado à Universidade
Federal de Alagoas, como parte das
exigências do Programa de PósGraduação em Ensino na Saúde, para
obtenção do título de Mestre em Ensino
na Saúde.
3
Dedico este trabalho à melhor família
que um homem poderia ter... a MINHA!
4
AGRADECIMENTOS
Não seria possível ter estímulo para continuar estudando, não fosse o
entusiasmo, colaboração, amor, dedicação e a doação dos meus pais José Soares
Peixoto (in memorian) e Neusa Brandão Peixoto, a quem serei grato eternamente.
À minha melhor companheira, amiga, amante, inspiração, colaboradora e
razão para sempre seguir em frente, Fernanda Braga Peixoto, mulher com quem
tenho o privilégio de dividir os melhores (e piores) momentos de minha vida.
Às razões de minha vida, a melhor obra que poderia ter sonhado e
conseguido fazer, minha filhas amadas Isabela Braga Peixoto e Letícia Braga
Peixoto.
Aos meus irmãos, Mércia de Fátima Brandão Peixoto, Márcio José Brandão
Peixoto, Marcel Brandão Peixoto, ClairtonHardy Soares, Marcos Antônio Leal
Ferreira e Roberta Costa Santos Ferreira, por terem permitido minha “presente
ausência” sem nunca terem deixado sentir-me sozinho.
Ao meu orientador, Prof. Dr. Carlos Henrique Falcão Tavares, que soube
conduzir com paciência e ampla disponibilidade esta árdua jornada no caminho do
conhecimento.
À Profa. Dra. Rosana Quintela Brandão Vilela, exemplo de mulher “guerreira”,
que sempre demonstrou com graça, simpatia e dedicação todo amor que
precisamos depositar em nossas ações.
Aos Cirurgiões-dentistas de Alagoas pela contribuição na coleta de dados
desta pesquisa e à credibilidade que normalmente me oferecem.
5
Ao CRO-AL, na figura do meu querido amigo e mentor Prof. Hildeberto
Cordeiro Lins, por ter contribuído decisivamente em várias etapas da consecução
deste trabalho.
À Profa. MSc. Roberta Alves Pinto Moura Penteado, por toda compreensão,
disponibilidade e contribuição como amiga de todas as horas.
Ao
aluno,
colaborador
frequente,
Ulysses
Bandeira,
por
toda
a
disponibilidade.
Aos meus professores, amigos e colegas do MPES, pelas maravilhosas horas
de convivência.
6
As pessoas felizes lembram o passado
com
gratidão,
alegram-se
com
o
presente e encaram o futuro semmedo.
Epicuro(341 - 270 a.C.)
7
RESUMO
A prática dos Cirurgiões-dentistas (CDs) na Estratégia de Saúde da Família (ESF)
precisa estar coerente com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS).
Objetivou-se analisar a atuação desses profissionais na ESF, tendo como base a
Atenção Integral em Saúde Bucal (AISB). Realizou-se estudo quantitativo, analítico,
observacional, de corte transversal, com 59 CDs da ESF de Alagoas, que
responderam a um questionário semiestruturado. Entre os participantes, 66,1%
informaram que não praticavam todas as ações da AISB, sendo as ações de
prevenção e promoção as únicas que todos referiram executar. As condições de
trabalho foram citadas como inadequadas por 40,5% e 64% não se sentiram
preparados pela graduação. Não foi encontrada diferença estatística significante
(p>0,05) para maior realização de AISB em relação ao gênero, idade, tempos de
graduação e de atuação profissional na ESF, realização de pós-graduação, tipo de
ingresso na ESF, satisfação no trabalho e preparo na graduação. Encontrou-se uma
tendência (p=0,06) para que a AISB fosse mais realizada quando relataram ter
melhores condições de trabalho e significância (p=0,01) para uma maior realização
de AISB quando trabalhavam em outros locais além da ESF. Estes dados foram
apresentados em reunião no intuito de sensibilizar pessoas no exercício de cargos
de representação da Odontologia, como produto de intervenção, no sentido de
aprimorar a prática profissional na ESF de forma cada vez mais próxima às diretrizes
e princípios do SUS e, consequentemente, a melhoria da saúde da população
alagoana. Conclui-se que a maioria dos CDs não está desenvolvendo AIBS e que
fatores ligados a condições de trabalho e formação acadêmica estão relacionadas a
possíveis melhorias nas suas práticas, necessitando-se reflexão/ação dos
representantes da classe odontológica neste sentido.
Palavras-chave: Sistema Único de Saúde. Programa Saúde da Família. Odontologia
Comunitária. Saúdebucal.AssistênciaOdontológica Integral.
8
ABSTRACT
The practice of dentists in the Family Health Strategy (FHS) needs to be consistent
with the principles of the Unified Health System (UHS). Aimed to analyze the
performance of these professionals in the FHS, acording integral atencion in oral
health (IAOH). It was performed a study quantitative, analytical, observational and
cross-sectional, with 59 dentists from FHS of Alagoas, who answered to a semistructured questionnaire. In the answers, 66.1% indicated that they did not do all the
actions IAOH. Prevention and promotion health was unique action reported by
everyone. The work conditions were cited inadequate by 40.5% and 64% not feel
prepared by university. It was not found significant statistical difference (p 0.05 >) for
greater realization of IAOH in relation to gender, age, time of undergraduate and
professional performance in FHS, postgraduate studies, the kind of the entry in the
FHS, satisfaction in the job and preparation in the graduation. There was a trend (p
= 0.06) to IAOH be more held when reported better working conditions and greater
significance (p = 0.01) for IAOH realization when worked in other places in addition to
the FHS. These data were presented at a meeting in order to sensitize people in the
performance of duties of representation of Dentistry, as a product of intervention, in
order to enhance the professional practice of the FHS way ever closer to the
guidelines and principles of the UHS and therefore improving Alagoas people’s
health. In conclusion, the most dentists is not developing IAOH and factors related to
working conditions and education are related to possible improvements in their
practices, necessitating reflection / action of the representatives of the dental
profession in this direction.
Key words: Unified Health System. Family Health Program.Community Dentistry.Oral
Health.Comprehensive Dental Care.
9
SUMÁRIO
1 APRESENTAÇÃO
10
2 ARTIGO ORIGINAL
12
2.1 Título/Title
12
2.2 Resumo/Abstract
12
2.3 Introdução
13
2.4 Métodos
15
2.5 Resultados e discussão
16
2.6 Considerações finais
26
2.7 Colaboradores
26
2.8 Agradecimentos
27
2.9 Conflito de interesse
27
2.10 Referências
27
3 PRODUTO DE INTERVENÇÃO
31
4 CONCLUSÕES GERAIS
36
REFERÊNCIAS
38
APÊNDICE A – Convites da reunião de construção do produto de 42
impacto
APÊNDICE B – Produto de impacto social
50
ANEXO A – Correio eletrônico justificando ausência na reunião
54
ANEXO B – Confirmação de recebimento de artigo
56
10
1 APRESENTAÇÃO
Este trabalho é fruto da minha trajetória como professor da área de saúde e
das minhas inquietações a respeito do que venho “produzindo” em prol da
sociedade, através do meu “fazer docente”, no que diz respeito à prática
odontológica voltada para o Sistema Único de Saúde (SUS). Como elemento ativo
na formação dos profissionais que vem sendo inseridos neste sistema, quis
compreender as multifaces que envolvem o trabalho do Cirurgião-dentista na
principal área de acesso da população ao sistema, qual seja a Estratégia de Saúde
da Família (ESF).
Considerando a importância deste profissional na manutenção da saúde e na
melhoria da qualidade de vida da população, interessou-me saber como este vem
exercendo sua prática, considerando a integralidade de suas ações em saúde bucal
como marco referencial em coerência para consecução dos princípios e diretrizes do
SUS. Neste sentido, aspectos legais que regem a ESF foram confrontados com as
atividades praticadas rotineiramente pelos Cirurgiões-dentistas, com o objetivo inicial
de identificar o que vem acontecendo, bem como, quais são os fatores capazes de
interferir com esta prática, principalmente no sentido de sua formação acadêmica.
Uma amostra de 59 Cirurgiões-dentistas participou da pesquisa intitulada
“Análise da prática odontológica na Estratégia de Saúde da Família em Alagoas”,
apresentada neste volume por meio do artigo original com título “A prática da
Atenção Integral em Saúde Bucal na Estratégia de Saúde da Família de alagoas”,
submetido a revista nacional com indexação também na área de Ensino na Saúde –
Revista Ciência & Saúde Coletiva – representando o principal recorte dos dados
encontrados.
Baseado nestes dados foi possível observar que parece estar havendo um
nivelamento “por baixo” das atividades do Cirurgião-dentista na ESF, independendo
de fatores como gênero, idade, tempos de graduação e de atuação profissional na
ESF, realização de pós-graduação, tipo de ingresso na ESF, satisfação no trabalho
e preparo na graduação. Também foi possível verificar que fatores ligados a
condições de trabalho e formação acadêmica estão relacionadas a possíveis
melhorias nas suas práticas.
11
De posse desses dados, do depoimento dos fatores que facilitaram ou
dificultaram a formação acadêmica destes profissionais e das sugestões que
emitiram para a melhoria da formação voltada à atuação na ESF, como cumprimento
das exigências do Programa de Pós-Graduação, realizou-se uma reunião que
esperava contar com o Coordenador de Saúde Bucal do Estado de Alagoas, os
Presidentes dos órgãos de classe (Conselho, Sindicato e Associação) e os
Coordenadores dos cursos de graduação oferecidos no Estado, no sentido de
compor um produto de intervenção na realidade prática dos cursos de formação e
nas condições para um melhor desempenho das atividades para os Cirurgiõesdentistas inseridos na Estratégia.
O produto de intervenção, que serviu inicialmente como elemento de
sensibilização, surtiu o efeito esperado, propiciando condições para que seja
possível continuar divulgando e discutindo os dados obtidos em jornais ou através
de reuniões oficialmente convocadas pelo Conselho Regional de Odontologia, no
sentido de aprimorar a prática profissional em Odontologia de forma cada vez mais
próxima das diretrizes e princípios do SUS e, consequentemente, a melhoria da
saúde da população alagoana.
12
2ARTIGO ORIGINAL
2.1 Título/Title
A prática da atenção integral em saúde bucal na Estratégia de Saúde da
Família de Alagoas.
The practice of integral care in oral health in Family Health Strategy in
Alagoas.
2.2 Resumo/Abstract
Objetivou-se analisar a atuação dos Cirurgiões-dentistas (CDs) na Estratégia de
Saúde da Família (ESF), tendo como base a Atenção Integral em Saúde Bucal
(AISB).
Realizou-se
estudo
quantitativo,
analítico,
observacional,
de
corte
transversal, com 59 CDs da ESF de Alagoas, que responderam a um questionário
semiestruturado. 66,1% informaram que não praticavam todas as ações da AISB,
sendo as ações de prevenção e promoção as únicas que todos referiram executar.
40,5% citaram que as condições de trabalho eram inadequadas e 64% que não se
sentiram preparados pela graduação. Não foi encontrada diferença estatística
significante (p>0,05) para maior realização de AISB em relação ao gênero, idade,
tempos de graduação e de atuação profissional na ESF, realização de pósgraduação, tipo de ingresso na ESF, satisfação no trabalho e preparo na graduação.
Encontrou-se uma tendência (p=0,06) para que a AISB fosse mais realizada quando
relataram ter melhores condições de trabalho e significância (p=0,01) para uma
maior realização de AISB quando trabalhavam em outros locais além da ESF.
Conclui-se que a maioria dos CDs não está desenvolvendo AISB e que fatores
ligados a condições de trabalho e formação acadêmica podem ser responsáveis
pela menor prática de AISB.
Palavras-chave: Programa Saúde da Família. Saúde bucal. Assistência
Odontológica Integral.
13
Aimed to analyze the performance of dentists in the Family Health Strategy (FHS),
acording integral atencion in oral health (IAOH). It was performed a study
quantitative, analytical, observational and cross-sectional, with 59 dentists from FHS
of Alagoas, who answered to a semi-structured questionnaire. In the answers, 66.1%
indicated that they did not do all the actions IAOH. Prevention and promotion health
was unique action reported by everyone. The work conditions were cited inadequate
by 40.5% and 64% not feel prepared by university. It was not found significant
statistical difference (p>0.05) for greater realization of IAOH in relation to gender,
age, time of undergraduate and professional performance in FHS, postgraduate
studies, the kind of the entry in the FHS, satisfaction in the job and preparation in the
graduation. There was a trend (p=0.06) to IAOH be more held when reported better
working conditions and greater significance (p=0.01) for IAOH realization when
worked in other places in addition to the FHS. In conclusion, the most dentists is not
developing IAOH and factors related to working conditions and education are related
to possible improvements in their practices.
Key words: Family Health Program.Oral Health.Comprehensive Dental Care.
2.3 Introdução
Baseada nos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) a Estratégia de
Saúde da Família (ESF) surgiu como estratégia de transformação do modelo
assistencial, com a proposta de substituição das práticas tradicionais de
assistência1,2.
A inclusão definitiva do cirurgião-dentista (CD) na ESF vem sendo
considerada tentativa de romper os modelos assistenciais excludentes em saúde 3.
À busca do que se considera como atenção integral em saúde, a Portaria n.
2.488, de 21 de outubro de 20114, destaca em suas disposições gerais que
a atenção básica caracteriza-se por um conjunto de ações de saúde, no
âmbito individual e coletivo, que abrange a promoção e proteção da saúde,
a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação,
redução de danos e a manutenção da saúde com o objetivo de desenvolver
uma atenção integral.
Sendo atribuições específicas dos cirurgiões-dentistas (CDs), dentre outras:
14
I – realizar diagnóstico com a finalidade de obter o perfil epidemiológico
para o planejamento e a programação em saúde bucal; II – realizar a
atenção a saúde em saúde bucal (promoção e proteção da saúde,
prevenção de agravos, diagnóstico, tratamento, acompanhamento,
reabilitação e manutenção da saúde) individual e coletiva a todas as
famílias, a indivíduos e a grupos específicos, de acordo com planejamento
da equipe, com resolutividade; (grifo nosso).
No
entanto,
a
Odontologia
continua
sendo
considerada
alheia
às
necessidades epidemiológicas e à realidade social da população brasileira,
observando-se ainda uma supervalorização dos procedimentos técnicos 5, embora o
SUS tenha se tornado o mercado com maior absorção de mão deobra para a
Odontologia6.
O CD que trabalha na ESF vê-se diante de muitos desafios, sentindo-se em
alguns momentos inseguro e despreparado para exercer suas atividades,
principalmente porque sua formação – biologista, tecnicista e curativa – carece de
ênfase nos aspectos socioeconômicos e psicológicos do processo saúde-doença,
enfraquecendo o desenvolvimento de atividades que visem promover, manter e
recuperar a saúde7.
Com o objetivo de formar profissionais voltados para trabalhar neste sistema,
respeitando e aperfeiçoando tais princípios, foram instituídas em 2002, Diretrizes
Curriculares Nacionais (DCN)8 para os cursos de graduação e, dentre estes, para o
curso de Odontologia. Estas DCN procuram diminuir o atraso da Odontologia frente
à Reforma Sanitária Brasileira e suas repercussões estimulando a interação ensinoserviço, desconstruindo a ideologia individualista da promoção de saúde e tornando
as escolas de Odontologia próximas à realidade da população brasileira9,10.
Apesar dos muitos avanços da área de saúde brasileira11 percebe-se
necessidade de constante reflexão sobre o que está proposto nos princípios e
diretrizes da ESF e nas DCN para o curso de Odontologia.
Neste sentido, este trabalho visa subsidiar tais reflexões a partir do
conhecimento da atuação do profissional da Odontologia vinculado à ESF,
caracterizando suas dificuldades e facilidades na consecução da Atenção Integral
em Saúde Bucal (AISB), para relacionar, também, com sua formação acadêmica,
principalmente ao que se refere ao SUS, na intenção de estimular o (re)pensar na
organização dos currículos acadêmicos.
15
Partindo destes pressupostos, este trabalho teve como objetivo analisar
possíveis diferenças entre as bases teóricas dispostas nos princípios e diretrizes da
ESF e as atividades praticadas por CDs que trabalham em Equipes de Saúde Bucal
(EqSB) de Alagoas.
2.4 Métodos
Tratou-se de um estudo quantitativo, analítico, observacional, de corte
transversal. A pesquisa foi realizada com CDs inscritos no Conselho Regional de
Odontologia de Alagoas (CRO-AL) que atuavam na ESF de Alagoas, após a
aprovação no Comitê de Ética em Pesquisa e Ensino do Centro Universitário
Cesmac (protocolo nº 1247/12 COEPE/CESMAC).
A amostra foi calculada em 53 CDs, utilizando-se uma calculadora eletrônica
disponível em lia.uncisal.edu.br/ensino/pdf2/CTA_Proporcao_finita.xls, considerando
erro tipo 1 de 5%, variável reduzida 1,96, hipótese de 10% e erro tolerável de 5%, na
população total de CDs que assinaram o Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido (TCLE) após a realização de um curso patrocinado pelo CRO-AL, que
teve a participação de mais de 300, dos quais 108 estavam vinculados à ESF.
Dentre estes 108 CDs vinculados à ESF, 85 optaram em participar da
pesquisa após recrutamento, por convite verbal, realizado pelos pesquisadores,
recebendo envelopes que continham duas cópias do TCLE assinados pelo
pesquisador principal e um formulário de coleta de dados. Como marco de inclusão
para participação do sujeito na pesquisa e composição do cálculo amostral, uma das
cópias do TCLE assinadas pelos sujeitos foi recolhida para arquivo.
Para se minimizar respostas com pouca reflexão, comprometimento de
tempo, bem como a perda de parte do curso, foi combinado que a devolução dos
questionários dentro do envelope lacrado e sem identificação ocorreria após 7 dias
da data de realização do curso.
Os dados obtidos pelas respostas foram tabulados em planilha eletrônica
realizando-se duas entradas de dados independentes e cegas, com discordâncias
reavaliadas pelos pesquisadores.
16
Para análise e confrontação com a literatura foi utilizada estatística descritiva
e inferencial através dos testes qui-quadrado, correlação de Pearson ou análise de
variância (ANOVA), admitindo-se como nível de significância um valor de p<0,05.
2.5 Resultados e discussão
Dos 85 CDs que inicialmente assinaram o TCLE, 59 entregaram os
formulários de coleta de dados. Este número foi superior ao número mínimo exigido
pelo cálculo de tamanho da amostra, cujo valor seria de 53 participantes.
A maior parte dos participantes [39 CDs (66,1%)] assinalou que não
praticavam todas as atividades que representam a AISB (promoção, prevenção,
diagnóstico, tratamento, reabilitação e manutenção).
Analisando-se cada área de forma individualizada, as que obtiveram
respostas negativas em sua execução foram as de reabilitação, tratamento,
manutenção e diagnóstico (tabela 1), discordando em partes das observações de
Oliveira e Saliba12 que apesar de também terem observado que as ações em saúde
bucal não estavam totalmente de acordo com o que é proposto pelo Ministério da
Saúde (MS), encontraram que estas se limitavam, na maioria das vezes, ao
atendimento clínico ambulatorial básico.
Como se observa na tabela 1, todos os CDs garantiram executar ações de
prevenção e promoção da saúde. Assim é possível se inferir que as novas
organizações curriculares posteriores a publicação das DCN8, a pós-graduação
direcionada à atuação na ESF ou o aumento do vínculo empregatício obtido com a
aprovação em concurso público tenham melhorado o desenvolvimento de ações de
prevenção e promoção da saúde na atuação dos CDs. Uma vez que encontramos
uma amostra composta principalmente por adultos jovens (média de 33,6 anos),
com graduação posterior à efetiva entrada da Odontologia na composição das
equipes de saúde da ESF (máximo de 10 anos de formado), trabalhando nesta
estratégia, em média, há 5,6 anos, que cursaram pós-graduação em Saúde Pública
[entre os 47 CDs especialistas, 26 (55,3%) obtiveram título nesta área] e que
ingressaram no serviço público por concurso público (tabelas 2, 3 e 4).
17
Tabela 1 – Frequênciae porcentagem de execução ou não de ações em cada uma das
áreas que compõem a Atenção Integral em Saúde Bucal realizadas na ESF
pelos Cirurgiões-dentistas participantes
Promoção da saúde e Prevenção de agravos
Frequência
Porcentagem
Sim
59
100%
Não
00
00%
Sim
56
94,9%
Não
03
05,1%
Sim
36
61%
Não
23
39%
Sim
27
45,8%
Não
32
54,2%
Sim
55
93,2%
Não
04
06,8%
Diagnóstico de risco
Tratamento de problemas orais
Reabilitação oral
Manutenção da saúde oral
Fonte: M.O.B Peixoto, 2013.
Tabela 2 – Descriçãoda amostra, em frequência e porcentagem, de acordo com o
Gênero, Faixa etária, Tempo de graduação e Tempo de atuação na ESF
Gênero
Frequência
Porcentagem
Masculino
15
25,4%
Feminino
44
74,6%
21 a 25
04
06,8%
26 a 30
17
28,9%
31 a 35
18
30,6%
36 a 40
09
15,3%
41 a 45
10
17,0%
46 a 50
01
01,7%
Faixa etária (em anos)
Média de idade = 33,6; Desvio Padrão = 6,13
Tempo de graduação (em anos)
< 05 anos
10
17,0%
18
05 a 10 anos
27
45,9%
11 a 15 anos
11
18,7%
16 a 20 anos
06
10,2%
21 a 25 anos
05
08,5%
Média de tempo de formação = 9,8; Desvio Padrão = 6,21
Tempo de atuação na ESF (em anos)
< 05 anos
24
40,7%
05 a 10 anos
31
52,7%
11 a 15 anos
04
06,8%
Média de tempo de atuação na ESF = 5,6; Desvio Padrão = 3,27
Total
59
100%
Fonte: M.O.B Peixoto, 2013.
Tabela 3 – Descriçãoda amostra, em frequência e porcentagem, de acordo com a
realização e o tipo de pós-graduação cursada
Tipo de pós-graduação
Frequência
Porcentagem
Não fez pós-graduação
08
13,6%
Atualização/Aperfeiçoamento
02
03,4%
Especialização
47
79,7%
Mestrado*
02
03,4%
Total
59
100%
Fonte: M.O.B Peixoto, 2013. NOTA: *Uma pessoa escreveu que ainda estava em curso
Tabela 4 – Descriçãoda amostra, em frequência e porcentagem, de acordo com a
forma de ingresso para atuação na ESF
Forma de ingresso
Frequência
Porcentagem
para
42
71,2%
Seleção
04
06,8%
Transferência interna
01
01,7%
Indicação política (cargo comissionado)
12
20,3%
Total
59
100%
Aprovação
em
concurso
público
em
Processo
de
efetivos
Aprovação
Simplificado
Fonte: M.O.B Peixoto, 2013.
19
É também possível considerar que participantes desta pesquisa estejam
tendo suas atribuições minimizadas apenas ao exercício destas ações, por falta de
condições de trabalho como demonstra a resposta de um dos participantes que
afirmou sequer dispor de equipamento odontológico na Unidade de Saúde da
Família (USF) na qual estava vinculado.
Quando solicitados a escreverem as ações e estratégias que praticavam em
cada uma das áreas que compõem a AISB, 27 CDs (45,76%) incluíram ações
incoerentes em algumas destas, evidenciando um provável desconhecimento sobre
a definição de cada um destes termos.
Para analisar se algumas das variáveis disponíveis neste estudo poderiam
interferir com a prática constante da AISB realizaram-se cálculos estatísticos
inferenciais. No entanto, não foram identificadas diferenças estatisticamente
significativas entre os gêneros (p=0,4694), idade (p=0,3556), tempo de graduação
(p=0,1181) ou tempo de atuação profissional na ESF (p=0,5770) quando
relacionadas à maior consecução de todos os princípios da AISB.
Também não foi observada diferença estatisticamente significante quando foi
comparada a realização de AISB com o fato dos profissionais terem cursado alguma
pós-graduação (p=0,3270), mesmo quando foram analisados apenas aqueles que
cursaram especialização em Saúde Pública ou em ESF (p=3,1159).
A literatura13,14,15 aponta que a realização de pós-graduação voltada à Saúde
Pública representa uma enorme potencialidade para efetivação da ESF resultando
em mudanças na práxis curativista tradicional do CD e favorecendo seu trabalho nas
EqSB.
Os resultados da presente pesquisa ratificam estas mudanças quando se
analisam as ações de saúde bucal de forma isolada e percebe-se que todos os
participantes afirmaram realizar como prática constante as ações de prevenção de
agravos e promoção da saúde. No entanto, mais uma vez destaca-se que é provável
que em algumas USF o papel do CD, mesmo o pós-graduado, esteja sendo
minimizado apenas a tal atuação.
O tipo de ingresso para atuação na ESF também não evidenciou diferença
estatisticamente significativa quando comparada à realização ou não de AISB
(p=0,7177).
20
Apesar de não existir diferença estatística significante para a realização de
AISB e a presença de condições satisfatórias de consecução do trabalho em
odontologia (p=0,0698), percebeu-se uma tendência para que esta atenção integral
fosse mais realizada quando os CDs afirmaram ter melhores condições de trabalho.
Um grave fator relacionado às condições de trabalho citado pelos
participantes desta pesquisa como elemento capaz de interferir com a AISB,
corroborando com o observado por Gonçalves e Ramos14, foi a falta de uma
adequada rede de referência [22 CDs (37,28%)].
De forma muito peculiar ao que era esperado, houve diferença estatística
quando se comparou a realização de AISB com o fato de trabalhar em outro local
fora da ESF (p=0,0192), evidenciando-se que é mais comum a realização da
atenção integral quando os profissionais apresentam outro vínculo fora da ESF, indo
de encontro ao que se espera de uma melhor atuação para aqueles que têm vínculo
exclusivo com esta estratégia16.
Isto pode apontar que, apesar da sobrecarga de trabalho, estes CDs
conseguem desenvolver as ações que se esperam para AISB, provavelmente por
estarem mais aptos a dividirem as tarefas em suas rotinas de trabalho ou que,
mesmo com as garantias de sigilo aplicadas para realização desta pesquisa, os
profissionais que têm outro vínculo tenham tido medo de responder suas fragilidades
e tenham assinalado que atuavam no conjunto de ações da atenção integral.
Há indício para esta segunda possibilidade, pois quando foram questionados
sobre o tipo de vínculo empregatício que mantinham com a ESF (dedicação
exclusiva, 40h ou 20h semanais) muitos não responderam ou o fizeram de forma
confusa, impossibilitando a adequada tabulação deste dado. Apontando possível
fragilidade nas relações de serviço ou receio para declarar o real tipo de contrato e a
carga horária efetivamente trabalhada.
Além da AISB, as diretrizes e normas de atuação profissional na ESF
preconizam que as atividades não sejam exclusivamente realizadas no ambiente
restrito da USF2,4. Ao serem questionados se as ações de saúde bucal eram
diversificadas para além do consultório odontológico a maioria dos participantes
referiu que sim [40 CDs (67,8%)], porém não é possível destacar estes valores
meramente como positivos uma vez que 19 CDs (32,2%) ainda vêm persistindo com
21
ações isoladas em suas USF, provavelmente de forma exclusiva nos seus
consultórios.
Assim como observado por Rodrigues et al13 as ações de educação em saúde
foram as mais comumente citadas por esta amostra pesquisada [43 CDs (72,88%)].
O trabalho do CD para além do consultório odontológico promove a efetivação
do acesso do usuário à atenção em saúde e representa uma das maiores mudanças
do modelo odontológico anterior à inclusão das EqSB na ESF 17.
Questionados se as ações desenvolvidas, sejam na Unidade ou fora desta,
eram planejadas conjuntamente com os outros profissionais constituintes da equipe
de saúde, como médicos e enfermeiros, a maioria [35 CDs (59%)] assinalou que
não. Portanto, neste item, o trabalho multiprofissional e interdisciplinar preconizado
na legislação2,4,18 não vem sendo satisfatoriamente cumprido, sugerindo uma
desarmonia na relação de trabalho entre as classes e a possível realização de
ações pontuais, isoladas e dissociadas da visão holística de saúde.
Talvez por conta desta desarmonia nas relações com as equipes de saúde,
não foram observadas diferença estatística significante quando se compararam o
fato de realizar atividades fora das USF e a prática ou não da AISB (p=0,8424).
Este ponto crucial de desarmonia nas relações entre a equipe de saúde da
ESF, além de representar descumprimento aos princípios e diretrizes que norteiam o
trabalho em USF, pode favorecer a lutas individuais das categorias profissionais
envolvidas, acarretando, como apontam Erdmannet al19, problemas na isonomia
salarial e desinteresse nas práticas integrais de saúde.
A ênfase na equipe interdisciplinar, uníssona em seus princípios e ações é
uma das ferramentas com maior potencial para a mudança nos processos de
trabalho em saúde com vistas ao objetivo da atenção integral em saúde20.
Um dos maiores responsáveis por este prejuízo na integração dos
profissionais co-relacionados foi a tardia inclusão da odontologia como participante
das equipes mínimas que compõem a ESF, bem como ao problema destes
profissionais terem que atender, pelo menos no início da sua inclusão, a demanda
de duas equipes, contribuindo para a indeterminação do seu papel e indispondo
condições entre os conhecimentos específicos da profissão e os aspectos
estruturais e funcionais na composição de novas práticas de saúde17,20, 21,22.
22
Os CDs consideram sua atuação satisfatória na maior parte das áreas que
compõem a AISB, com exceção da área de reabilitação oral, onde a maioria [31 CDs
(52,5%)] considerou insatisfatória (tabela 5). Provavelmente, a ideia conceitual
equivocada de que só poderia compor esta resposta situações de reabilitação
protética possa ter contribuído para esta pior autoavaliação. Além disso, a
precariedade do adequado sistema de referência e contra-referência também pode
ter influenciado este padrão de resposta.
Tabela 5 – Descrição da autoavaliação, satisfatória ou insatisfatória, dos Cirurgiõesdentistas sobre sua atuação nas diversas áreas de atenção à saúde bucal,
em frequência e porcentagem(n=59)
Satisfatória
Insatisfatória
Promoção da saúde e
Frequência
Porcentagem
Frequência
Porcentagem
prevenção de agravos
56
94,9%
03
05,1%
Diagnóstico dos problemas
54
91,5%
05
08,5%
34
57,6%
25
42,4%
Reabilitação oral
28
47,5%
31
52,5%
Manutenção da saúde
51
86,4%
08
13,6%
bucais
Tratamento dos problemas
orais
Fonte: M.O.B Peixoto, 2013.
Merece destaque o grande percentual de CDs que se avaliaram
insatisfatoriamente na área de tratamento dos problemas orais [25 CDs (42,2%)].
Neste item, supõe-se que ao menos parte das percepções insatisfatórias possa
estar relacionada ao equívoco de só estarem incluídas neste item alterações
estomatológicas, reforçando mais uma vez o desconhecimento de alguns sobre as
definições, e principalmente ações, que configuram o que se espera de uma AISB.
Em decorrência disto, mesmo aqueles que consideraram uma autoavaliação
satisfatória em critérios individuais que compõem a AISB não apresentaram
diferença estatisticamente significante daqueles que a consideraram insatisfatória
com relação à plena consecução ou não da atenção integral.
23
São comuns os obstáculos na resolutividade das práticas em saúde bucal, em
decorrência das limitações no elenco de procedimentos de especialidades
ofertados23. Muito provavelmente essa limitação no elenco de procedimentos, bem
como a falta de estrutura evidenciada na forma de condições precárias de trabalho,
possam ter corroborado para uma autoavaliação insatisfatória da atuação
profissional entre os participantes desta pesquisa.
Concorda-se com Gonçalves e Ramos14 que uma estratégia efetiva de
autoavaliação deveria ser sistematizada para o redirecionamento das ações e
melhor desempenho da equipe.
Diante das reflexões anteriormente propostas aos CDs, solicitou-se que
expressassem opinião sobre sua satisfação com relação ao desenvolvimento de
suas funções na ESF. Neste sentido, a maioria [39 CDs (66,1%)] afirmou que estava
satisfeito. Vale destacar que quando solicitados a escrever o por quê da sua (ou da
falta de) satisfação, a grande maioria [31 CDs (52,54%)] destacou que poderia fazer
melhor, sendo os fatores de condições desfavoráveis de trabalho (infraestrutura e
sistema de referência e contra-referência falhos), falta de integração com a equipe
de saúde e os baixos salários os aspectos mais citados para a insatisfação.
Além dos baixos rendimentos, um distinto ponto referido constantemente
como responsável pela insatisfação de exercício profissional na ESF, talvez ainda
mais aviltante, são os rendimentos discrepantes entre os constituintes das equipes
de saúde22, evidenciando que são necessários movimentos nacionais para o
fortalecimento e reconhecimento, inclusive financeiro, da Odontologia.
O fato de considerar-se satisfeito com sua atuação nas EqSB não promoveu
diferença estatisticamente significativa daqueles insatisfeitos quando confrontados
com a realização ou não de AISB (p=1,6642), discordando em partes das
percepções de Coelho et al24 e Gonçalves e Ramos14 quando afirmam que o relato
de satisfação represente um achado importantíssimo, pois este aspecto repercute
diretamente, de forma positiva, na melhoria de qualidade do serviço prestado,
enquanto diminui os limites impostos ao correto exercício profissional, e melhor
qualidade de vida no trabalho.
24
Quando solicitados a assinalar sobre sua percepção de preparo para atuar na
ESF adquirido a partir de sua formação acadêmica na graduação, apenas uma
minoria [21 CDs (35,6%)] destacou que se sentiu satisfatoriamente preparado.
Este dado é bastante diferente do encontrado por Coelho et al 24, pois estes
observaram que a maioria dos seus entrevistados sentiram-se preparados por sua
formação para atuarem no SUS.
Não houve diferença estatisticamente significativa entre aqueles que se
consideraram ou não preparados academicamente para atuação na ESF e a
realização ou não da prática de AISB (p=0,6720).
O tempo de formação também não foi capaz de afetar diretamente a
percepção do CD em se considerar ou não preparado satisfatoriamente para atuar
na ESF. Portanto, ter-se formado antes, durante a efetiva implantação da
Odontologia na ESF ou mais recentemente não apresenta diferença estatística
significante com relação a esta percepção de preparo (p=0,4642).
Isto aponta que ainda há um longo caminho para que sejam postas
plenamente em prática as determinações estabelecidas pelas DCN 8, lei de criação
do SUS18 e Diretrizes da Política Nacional de Saúde Bucal2, pois este baixo nível de
percepção de preparo evidencia que a maior parte destes profissionais deva ter sido
formada dentro da lógica liberalizante, com valorização excessiva da cura individual,
que, em muitas vezes, desconsidera as ações coletivas em saúde17.
Neste aspecto, é possível que apesar do novo paradigma de uma formação
voltada para a realidade social já esteja presente no discurso acadêmico de algumas
Instituições de Ensino Superior (IES) falta operacionalizá-lo25.
A efetiva implantação da ESF e o fortalecimento dos princípios de
municipalização da saúde acarretaram um novo norteamento na formação
profissional, para ampla capacidade de atuação na atenção básica, não sendo mais
aceito o distanciamento entre as políticas de formação e a política de saúde21. Neste
sentido, as DCN8 representam o elo dessas políticas e deve ser capaz de minorar as
dificuldades na definição do adequado perfil profissional esperado dos egressos da
odontologia.
Pelo fato dos dados não terem apontado praticamente nenhum fator como
elemento capaz de influenciar estatisticamente a prática da AISB (realização de pós-
25
graduação, condições de trabalho, satisfação e a formação acadêmica) considera-se
que possa estar existindo um nivelamento “por baixo” das atribuições dos CDs na
ESF, resultando em mais atividades de prevenção e promoção do que atividades
curativas e reabilitadoras.
Desta forma, pode estar acontecendo uma inversão, incorreta no sentido da
AISB, das atividades curativas para as atividades preventivas, o que com o tempo
poderá agravar a condição de saúde bucal da população, já que nesta ainda persiste
grande necessidade de tratamentos curativos e reabilitadores, principalmente no
nordeste brasileiro26.
Ao incorporar e consolidar os princípios e diretrizes do SUS, a ESF deve
oferecer saúde de forma integral (prevenção, promoção e recuperação) e contínua,
atendendo do recém-nascido ao idoso, do sadio ao doente20,23.
Espera-se, que na ESF o CD realize seu trabalho equilibrando prevenção e
cura, atuando fundamentado em sólidas bases científicas e com alto padrão de
qualidade27, indo sua atuação muito além do trabalho clínico17. Para tanto, é
fundamental para o seu correto funcionamento que a ESF esteja bem inserida no
sistema, primando por funcionalidade, resolutividade e hierarquização20, atingindo a
AISB como princípio fundamental da ESF23,28.
Só adequações na formação acadêmica não serão suficientes para resolução
de todos os problemas presentes no sistema de saúde do Brasil, pois se deve
combater e modificar a desmotivação profissional, aumentar o compromisso dos
gestores e promover uma melhora na credibilidade da Odontologia junto à
sociedade21, pois é comum que os próprios estudantes adotem posturas que se
traduzam em preferência pelo tecnicismo, priorizando a cura em detrimento da
prevenção e que requeiram alta densidade tecnológica29.
É necessária a discussão em torno da formação de recursos humanos para o
SUS sem que se esqueça como fundamental a criação de alternativas para enfrentar
a situação dos profissionais já inseridos no sistema6. Tais esforços que, em nossa
opinião, deverão envolver além dos gestores em saúde, as entidades de classe e as
IES, necessitarão de um perfil criativo, atrativo e atual sendo, de preferência,
ofertados o mais próximo possível dos serviços que os CDs estão vinculados.
26
Espera-se que este trabalho possa oferecer subsídios para a sensibilização
dos gestores, das IES, das entidades de classe e dos CDs em relação à importância
de temas como a formação, condições de trabalho, vínculo e formação continuada e
o pleno exercício profissional na ESF. Neste sentido, nossos resultados apontam a
necessidade de outros estudos, inclusive qualitativos, para que novas respostas
corroborem aos nossos achados.
2.6 Considerações finais
Mudanças na práxis do CD no serviço público de saúde vêm ocorrendo, mas
ainda são necessários esforços para continuar contribuindo que estas possam
favorecer, cada vez mais e melhor, toda a sociedade brasileira, pois se percebe que
situações organizacionais importantes precisam ser apreciadas pelos gestores,
profissionais, entidades de classe e usuários.
A AISB ainda não é exercida de forma completa pela maioria dos CDs, mas
aparentemente os fatores causais estejam relacionados à formação acadêmica e à
motivação do profissional no exercício de suas atividades como membro das
equipes de saúde.
A falta de conhecimento e prática dos princípios e diretrizes da ESF pode ser
um fator limitante para uma adequada atuação dentro da integralidade das ações de
saúde bucal.
Na adequada consecução dos princípios da Política Nacional de Saúde Bucal
e no fortalecimento do SUS faz-se mister que os órgãos de classe assumam papel
promotor e/ou facilitador neste processo, bem como seu papel de fiscalizador das
ações das Secretarias Municipais, favorecendo um melhor desenvolvimento das
diretrizes preconizadas pelo SUS.
A oferta de melhores condições de trabalho para os CDs, bem como uma
formação acadêmica mais condizente com os princípios e diretrizes do SUS,
deverãofavorecer a efetivação das mudanças esperadas para os serviços de saúde
no sentido da prática da atenção integral.
27
2.7 Colaboradores
MOB Peixoto trabalhou na concepção e delineamento da pesquisa, análise e
interpretação dos dados e redação do artigo; FB Peixoto trabalho na análise e
interpretação dos dados e revisão crítica do artigo; JC Cavalcante trabalhou na
análise e interpretação dos dados; CHF Tavares trabalhou no delineamento da
pesquisa, análise e interpretação dos dados e revisão crítica do artigo.
2.8 Agradecimentos
Agradecemos a diretoria do CRO-AL pelo apoio na coleta dos dados da
pesquisa.
2.9 Conflito de interesse
Os autores declaram não haver nenhum conflito de interesse.
2.10 Referências
1
ESCOLA POLITÉCNICA DE SAÚDE JOAQUIM VENÂNCIO. Textos de apoio em
políticas de saúde. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2005.
2
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atenção básica. Coordenação nacional de saúde bucal. Diretrizes da política
nacional de saúde bucal. Brasília (DF), 2004.
3
SOUZA, T.M.S.;RONCALLI, A.G. Saúde bucal no programa saúde da família: uma
avaliação do modelo assistencial. Cad. Saúde Pública, v.23, n.11, p. 2727-2739.
2007.
28
4
BRASIL. Portaria nº 2.488, de 21 de outubro de 2011. Aprova a Política Nacional de
Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes e normas para a organização
da Atenção Básica, para a Estratégia Saúde da Família (ESF) e o Programa de
Agentes Comunitários de Saúde (PACS). Diário Oficial da União, Poder Executivo,
Brasília, DF, 24 out.2011.
5
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6
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perspectivas. Cad. Saúde Pública, v.21, n.2, p. 490-98. 2005.
7
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n.1, p. 219-27. 2006.
8
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Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Odontologia. Diário Oficial da
União, Poder Executivo, Brasília, DF, 04 mar.2002.
9
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o SUS. Rev. da ABENO, v.4, n.1, p. 17-21. 2003.
10
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em odontologia no Brasil: algumas reflexões. Rev. da ABENO,v.5, n.1, p.80-85.
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29
13
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cidade de Feira de Santana (BA): o perfil do cirurgião-dentista. Rev. Baiana Saúde
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14
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16
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17
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Saúde da Família. Rev. Saúde Pública, v.42, n.3, p.464-70. 2008.
18
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para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o
funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Diário
Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF,19 set.1990.
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Único de Saúde/Programa de Saúde da Família (SUS/PSF) no município de Nossa
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22
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Montes Claros, Minas Gerais, Brasil. Arq. Odontol., v.47, n.2, p. 65-72.2011.
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atenção básica. Coordenação Geral de Saúde Bucal. Resultados principais da
Pesquisa Nacional de Saúde Bucal SBBrasil 2010. Brasília (DF), 2011.
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bucalidade. Rev. Saúde Pública, v.40, n.esp., p.141-7. 2006.
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29
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percepção de formandos de dois modelos de formação acadêmica em odontologia.
Ciên Saúde Colet., v.13, n.2, p. 523-31. 2008.
31
3 PRODUTO DE INTERVENÇÃO
No dia 09 de abril de 2013, na nova sede do Conselho Regional de
Odontologia de Alagoas (CRO-AL), ocorreu uma reunião na intenção de sensibilizar
o Coordenador de Saúde Bucal do Estado de Alagoas, os Presidentes das entidades
de classe da profissão (Conselho, Sindicato e Associação) e os Coordenadores dos
cursos de graduação em Odontologia existente no Estado, em relação aos dados
obtidos através da pesquisa de mestrado intitulada “Análise da prática odontológica
na Estratégia de Saúde da Família em Alagoas”.
Cada um destes gestores foi convidado através de documento escrito,
entregue sob protocolo, com antecedência suficiente para participação na reunião ou
envio de um representante, caso fosse necessário (apêndice 1).
No entanto, no dia da reunião, estavam presentes entre os convidados: o
Presidente do Conselho Regional de Odontologia de Alagoas, Dr. Hildeberto
Cordeiro Lins; o Presidente da Associação Brasileira de Odontologia seção Alagoas,
Dr. Tayguara Cerqueira Cavalcanti; a Coordenadora do curso de Odontologia do
Centro Universitário Cesmac, Profa. Roberta Alves Pinto Moura Penteado. Fizeramse presentes também nesta reunião, por convite verbal do pesquisador, o Prof. Dr.
Carlos Henrique Falcão Tavares, orientador desta pesquisa, a Profa. Fernanda
Braga Peixoto, assessora da coordenação do curso de Odontologia do Centro
Universitário Cesmac e colaboradora desta pesquisa, o estudante Ulysses Bandeira
de Queiroz, aluno do 8º Período do curso de Odontologia do Centro Universitário
Cesmac e monitor da pesquisa.
Entre os que não compareceram à reunião, apenas a Profa. Maria José
Lorena de Menezes, Coordenadora do curso de Odontologia da Universidade
Federal de Alagoas, justificou ausência por meio de correio eletrônico (anexo 1).
A reunião iniciou às 10h, horário local, com os presentes descritos assistindo
à exposição dos dados destacados nos artigo original intitulado “A prática da
Atenção Integral em Saúde Bucal na Estratégia de Saúde da Família de Alagoas”
por meio de equipamentos multimídia. Após esta apresentação inicial foram
distribuídas pastas para cada um dos presentes, cujo conteúdo era composto por
tabelas que apresentavam os fatores que durante a formação acadêmica facilitaram
32
e/ou dificultaram a atuação dos Cirurgiões-dentistas (CDs) na ESF e as sugestões
emitidas por estes profissionais para melhoria da formação voltada à atuação nesta
estratégia (apêndice 2).
Aberta a fala a todos os participantes o debate ocorreu de forma muito
interessante, com cada um apresentando dúvidas, sugestões ou considerações, em
aproximadamente uma hora e meia de discussão. Os principais trechos,
considerações e conclusões foram agrupados a seguir, em áreas que surgiram ao
longo da reunião.
a. O PERFIL ESPERADO DO CIRURGIÃO-DENTISTA NA ESF
Espera-se do Cirurgião-dentista (CD) vinculado à Estratégia de Saúde da
Família (ESF) o exercício profissional dentro do que se espera de um clínico geral.
Mas esta aparentemente inversão das atividades deste profissional para execução
apenas de atividades de prevenção, como mostrado nos dados expostos no artigo
desta dissertação, merece grande destaque, uma vez que pode refletir medo de
praticar atividades clínicas, por falta de condições adequadas de trabalho ou
formação acadêmica insuficiente para o serviço.
Ratificou-se que alguns profissionais vão trabalhar na ESF sem nenhum perfil
para o serviço, apenas para não ficar parado, para juntar dinheiro e cursar uma pósgraduação ou abrir um consultório particular, não sendo a ESF uma opção para
atuação para o resto de suas vidas.
Não deve existir uma formação diferente para o Sistema Único de Saúde
(SUS) e para o particular, pois o sistema é o todo, é universal. Faz-se imprescindível
a seleção adequada do profissional, como elemento mais engajado com as causas
sociais e melhor formado, como sendo ponto chave para a evolução do sistema.
Já vem sendo percebida melhora na visão dos estudantes com relação ao
SUS após adaptações curriculares baseadas nas Diretrizes Curriculares Nacionais
(DCN).
33
b. FORMAÇÃO ATUAL versus FORMAÇÃO IDEAL
O maior problema da atual formação dos CDs está relacionado à
fragmentação das áreas, distanciando o futuro profissional da necessária visão
holística para adequada atuação no SUS. Neste sentido, considera-se que a
disciplina de Saúde Coletiva precisa estar melhor integrada com as demais e todas
entre si. Também é necessário que esta disciplina favoreça melhores possibilidades
para o estudante enxergar o seu futuro profissional inserido no SUS.
Os professores têm papel considerado imprescindível no processo de
mudança de concepções acadêmicas. O entendimento do sistema, sua motivação e
seus exemplos pessoais podem modificar a formação acadêmica para melhor
atuação dos futuros profissionais na prestação dos seus serviços.
Talvez uma melhor adequação das matrizes curriculares para um currículo
integrado, organizado por linhas do cuidado, seja uma maneira mais profícua ao
desenvolvimento do estudante dentro da visão holística necessária a atuação no
SUS.
Saber sobre os princípios que regem o SUS é fundamental para trabalhar em
qualquer lugar onde seja possível a inserção do CD, seja no serviço público ou no
privado.
O fato de terem sido percebidos muito mais fatores dificultadores do que
facilitadores na formação acadêmica dos profissionais participantes da pesquisa
demonstra a necessidade de ações urgentes e conjuntas de todas as instituições
representativas da classe.
O estudante deve estar inserido no serviço, mas são raras as ações que
estimulam a ida destes à campo. Além disso, a violência nas áreas periféricas da
cidade começa a dificultar estas ações, pois existem alunos que optam por não ir
com medo de se expor a áreas onde o tráfico de drogas possa ocasionar problemas
ligados à violência.
Ações rurais podem facilitar a ida do estudante a campo. Além disso,
estratégias de campanhas podem favorecer este tipo de inserção do estudante,
como ir nos dias de feiras livres. Mas neste caso, só trabalhar por campanha já
mostra a falta de continuidade do trabalho e também pode resultar em problemas
aos gestores em disponibilizar os profissionais da região durante o final de semana.
34
c. CARGA HORÁRIA DE TRABALHO
Muitas indagações surgiram a respeito da carga horária ideal para o exercício
profissional do CD, principalmente se não seria mais eficaz a contratação de
profissionais com apenas 20h semanais de trabalho, no sentido deste profissional
poder exercer atividades em consultório particular sem ter que ser no turno da noite.
Esta discussão surgiu pelas considerações da necessidade de complementação de
renda pelo profissional, bem como por conta do “ego” do profissional em ter seu
consultório particular e poder atender pacientes diferenciados financeiramente.
Após ampla discussão sobre o tema, chegou-se ao consenso de que a melhor
condição de trabalho, a remuneração justa e isonômica são possíveis fatores
capazes de transformar a realidade em que vivemos, fidelizando o profissional no
serviço e fazendo com que esse trabalhe mais satisfeito e melhor, sentido-se
prestigiado em sua atuação, promovendo acesso a toda população, inclusive aos
mais abastados. Porém, ficou claro que são necessários estabelecimentos de
metas, pois ainda existem muitos que optam a não exercer bem sua atividade. Desta
forma, todos concordaram que optar para um contrato de 20h semanais iria
prejudicar ainda mais o sistema, pela falta do vínculo.
d. A ATUAÇÃO POLÍTICA-SOCIAL DO CIRURGIÃO-DENTISTA
Considerou-se que o dado de trabalhar fora e fazer mais Atenção Integral em
Saúde Bucal (AISB) chamou muita atenção. A possibilidade do profissional ter tido
medo em ter respondido adequadamente esta questão foi relacionada à falta de
respaldo nas instituições que representam os CDs.
Neste sentido, destacou-se a falta da visão político-social do CD, que resulta
em comodismo e apatia para o enfrentamento de questões fundamentais
relacionadas à profissão, resultando em um profissional que não é capaz de se
enxergar como agente social capaz de mudar o sistema.
Foi consensual que todas as instituições precisam se mobilizar diante do que
foi apresentado, e só ter tido a participação de menos de 50% dos convidados para
esta reunião representou o desinteresse destas em melhorar de verdade a saúde
bucal. Ficou clara a necessidade de mudanças na graduação e pós-graduação, bem
como do aumento das fiscalizações do CRO-AL e Sindicato dos Odontologistas do
35
Estado de Alagoas (SOEAL) para o cumprimento de adequadas condições de
trabalho.
e. CONTINUIDADE DESTA SENSIBILIZAÇÃO.
Foi unânime que estes dados devem ser mais amplamente divulgados, no
sentido de democratizar estas informações, propiciando uma reflexão/ação para
melhoria das práticas. O CRO-AL, a Associação Brasileira de Odontologia seção
Alagoas (ABO-AL) e o Centro Universitário Cesmac já se prontificaram em tentar
facilitar estas ações, inclusive na forma de convocações oficiais, disponibilização de
espaço para publicação no jornal da entidade e oferta de apoio para realização do
evento com este objetivo. A Coordenação do curso do Cesmac também solicitou
apresentação ao Núcleo Docente Estruturante (NDE) e Colegiado do curso.
Todos foram sensibilizados a (re)pensar suas ações com base no que foi
exposto.
36
4 CONCLUSÕES GERAIS
A AISB ainda não é exercida de forma completa pela maioria dos CDs, mas
aparentemente os fatores causais estejam relacionados à formação acadêmica e à
motivação do profissional no exercício de suas atividades como membro das
equipes de saúde.
Mudanças na práxis do CD no serviço público de saúde vêm ocorrendo, mas
ainda são necessários esforços para continuar contribuindo para que estas possam
favorecer, cada vez mais e melhor, toda a sociedade brasileira, pois se percebe que
situações organizacionais importantes precisam ser apreciadas pelos gestores,
profissionais, entidades de classe e usuários.
A falta de conhecimento e prática dos princípios e diretrizes da ESF pode ser
um fator limitante para uma adequada atuação dentro da integralidade das ações de
saúde bucal.
Os resultados mostram que um dos principais elementos para efetivação de
mudanças nos serviços de saúde é o recurso humano bem formado, bem
selecionado, com educação permanente, adequadas condições de trabalho e
conhecedor de sua importância social.
Um aspecto fundamental para cumprimento das diretrizes da ESF é a
adequada seleção de profissionais com perfil adequado para atuação como clínico
geral. A formação adequada que não deve ser diferenciada para atuação no SUS já
vem melhorando após as adaptações curriculares baseadas nas DCN.
O maior problema da atual formação dos CDs está relacionado à
fragmentação das áreas, distanciando o futuro profissional da necessária visão
holística para adequada atuação no SUS. A disciplina de Saúde Coletiva, a
motivação dos professores universitários, adequações nas matrizes curriculares para
um currículo integrado, organizado por linhas do cuidado e a inserção precoce dos
estudantes no serviço são pontos estruturantes para uma melhor formação na área
de saúde.
A melhor condição de trabalho, a remuneração justa e isonômica são
possíveis fatores capazes de transformar a realidade em que vivemos, fidelizando o
37
profissional no serviço e fazendo com que esse trabalhe mais satisfeito e melhor,
sentido-se prestigiado em seu serviço, promovendo acesso a toda população,
inclusive aos mais abastados.
Ainda falta visão político-social do CD, que resulta em comodismo e apatia
para o enfrentamento de questões fundamentais relacionadas à profissão,
resultando em um profissional que não é capaz de se enxergar como agente social
capaz de mudar o sistema.
Esta pesquisa parece ter sensibilizado os gestores da Odontologia a
(re)pensar suas ações/atribuições para o fortalecimento do SUS e melhora da saúde
da população.
A evolução do SUS real para o ideal precisa da participação ativa da
academia em diálogo constante com a sociedade. Já não há mais tempo para que
persista as fronteiras de isolamento entre o ensino e o serviço.
38
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APÊNDICE A – Convites da reunião de construção do produto de impacto
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APÊNDICE B – Produto de impacto social
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ANEXO A – Correio eletrônico justificando ausência na reunião
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ANEXO B – Confirmação de recebimento de artigo
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