3- Alexsandro Nascimento da Costa - Sentidos da humanização no processo ensino - aprendizagem da graduação em Medicina

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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
FACULDADE DE MEDICINA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENSINO NA
SAÚDE

ALEXSANDRO NASCIMENTO COSTA

Sentidos da humanização no processo ensino-aprendizagem da
graduação em Medicina

MACEIÓ/AL
2015

UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
FACULDADE DE MEDICINA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENSINO NA
SAÚDE

ALEXSANDRO NASCIMENTO COSTA

Sentidos da humanização no processo ensino-aprendizagem da
graduação em Medicina.

Trabalho Acadêmico de Conclusão de Curso
apresentado ao Programa de Mestrado
Profissional em Ensino na Saúde da
Universidade Federal de Alagoas, como
requisito para obtenção do grau de Mestre
em Ensino na Saúde.
Orientadora: Profª Drª Cristina Camelo de
Azevedo.

MACEIÓ/AL
2015

Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecária Responsável: Helena Cristina Pimentel do Vale
C837s

Costa, Alexsandro Nascimento.
Sentidos da humanização no processo ensino-aprendizagem da graduação em
medicina / Alexsandro Nascimento Costa. – 2015.
70, [58] f. : il.
Orientadora: Cristina Camelo de Azevedo.
Dissertação (Mestrado em Ciências da Saúde) – Universidade Federal de
Alagoas. Faculdade de Medicina. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde.
Maceió, 2015.
Inclui bibliografia e anexos.
1. Educação médica. 2. Estudantes de medicina. 3. Humanização da assistência.
I. Título.

CDU: 614.253

AGRADECIMENTOS

Ao meu companheiro e amigo Anselmo Luís Vieira Silva, meu maior incentivador.
Obrigado por você estar presente em todos os momentos da minha vida,
acreditando em mim mesmo quando nem eu acredito. Para você, meu amor eterno.

Meu filho Hiago Costa, minha vó Dila e minha mãe Clarete, meus maiores tesouros e
de onde vem a força de viver. A vocês dedico todas as minhas conquistas.

À minha orientadora e amiga prof. Drª Cristina Azevedo, obrigado pelo incentivo, por
ter entendido as minhas dificuldades e me ajudado a superá-las.

Às minhas irmãs queridas Katya Soraia e Alda Nery, vocês não poderiam estar fora
deste caminho e conquista.

Aos membros do curso de Medicina da UESB – Campus de Vitória da Conquista
(alunos, funcionários e professores), principalmente aos companheiros da área da
Saúde Coletiva pela disponibilidade, carinho e paciência em aceitar participar e
colaborar para a efetivação desse trabalho.

Aos amigos, colegas e funcionários do mestrado que deixaram essa jornada mais
enriquecedora, leve e tornaram os dias de lutas em dias mais agradáveis.

Aos colegas da jornada cotidiana nas Unidades de Saúde da Família, na auditoria e
nos hospitais que tornam os encontros momentos de partilha e aprendizagem.

Aos professores do MPES pela oportunidade de aprendizagem.

“Repara como o poeta humaniza as coisas:
dá hesitação às folhas, anseios ao vento.
Talvez seja assim que Deus dá alma aos
homens.”
(Mário Quintana)

RESUMO

Este trabalho apresenta a pesquisa realizada através do Programa de Mestrado
Profissional de Ensino na Saúde (MPES) da Faculdade de Medicina da Universidade
Federal de Alagoas, nos anos de 2013 e 2014, e financiada pela FAPEAL, bem
como explicita o produto de intervenção a ser desenvolvido no curso de Medicina da
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – Campus Vitória da Conquista Bahia. As justificativas e motivações pessoais para a realização deste trabalho foram
baseadas na prática em sala de aula, na experiência como enfermeiro militante da
Saúde Coletiva e na observação, bem como na investigação teórica, realizada sobre
a temática. A pesquisa teve como objetivo estudar as falas de estudantes de
Medicina da UESB – Vitória da Conquista em relação à humanização da saúde na
graduação. Para o seu desenvolvimento utilizou-se a abordagem qualitativa sob o
aporte metodológico das Práticas Discursivas de Spink (1999) e optou-se em
realizar entrevistas semiestruturadas como técnica de produção de informações.
Para a análise das informações, organizaram-se as falas em mapas dialógicos com
a formação de categorias analíticas. Os principais resultados da pesquisa apontaram
para os sentidos da humanização como uma tecnologia do cuidado voltada para a
relação médico-paciente e nos modos como os contextos profissionais fazem
sentido à aprendizagem de humanização em Medicina do curso em questão. Como
produto de intervenção foi proposta a implantação da Comunidade Ampliada de
Pesquisa cujo objetivo é promover um espaço de intervenção-formação fundado no
diálogo entre os diferentes trabalhadores e sujeitos da produção da saúde e no
encontro entre os distintos saberes.
Palavras-chave: Educação médica. Estudantes de Medicina. Humanização.

LISTA DE ABREVIATURAS

DCN

Diretrizes Curriculares Nacionais

CAP

Comunidade Ampliada de Pesquisa

CCA

Comunidade Cientifica Ampliada

ECSOTS

Estágio Curricular Supervisionado Obrigatório de Treinamento
em Serviço

ESF

Estratégia em Saúde da Família

GO

Ginecologia e Obstetrícia

GTH

Grupo de Trabalho de Humanização

HUMANIZASUS

Humanização no SUS

MPES

Mestrado Profissional Ensino na Saúde

PIESC

Práticas de Integração Ensino, Serviço e Comunidade

PNH

Política Nacional de Humanização

SUS

Sistema Único de Saúde

TCLE

Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

UESB

Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia

UTI

Unidade de Terapia Intensiva

SUMÁRIO

1

APRESENTAÇÃO ............................................................................................ 7

2
ARTIGO ORIGINAL ........................................................................................ 14
a.
Título: .............................................................................................................. 14
b.
Title: ................................................................................................................ 14
c.
Resumo: ......................................................................................................... 14
d.
Abstract:.......................................................................................................... 15
2.1. Introdução: ...................................................................................................... 15
2.2. Percurso metodológico: .................................................................................. 17
2.3. Resultados e Discussão: ................................................................................ 19
2.3.1. Eixo 1 - Humanização como uma tecnologia do cuidado ............................... 20
2.3.1.1. Humanização nas relações médico-paciente............................................ 20
2.3.1.2. Humanização na convivência institucional ................................................ 23
2.3.2. Eixo 2 - Contextos de Aprendizagem de humanização na formação médica . 27
2.3.2.1. Humanização em atividades curriculares na atenção básica.................... 27
2.3.2.2. Humanização em atividades curriculares na atenção especializada. ....... 31
2.3.2.3. Humanização na relação aluno-professor................................................. 40
2.4. Considerações Finais ..................................................................................... 42
2.5. Colaboradores ................................................................................................ 44
2.6. Agradecimentos .............................................................................................. 44
2.7. Conflito de interesse ....................................................................................... 45
3
3.1
3.2
3.3
3.4
3.5
3.6

PRODUTO DE INTERVENÇÃO ..................................................................... 49
Título ............................................................................................................... 49
Público alvo .................................................................................................... 49
Introdução ....................................................................................................... 49
Objetivo........................................................................................................... 53
Metodologia e conteúdo programático ............................................................ 53
Resultados Esperados .................................................................................... 53

4

CONCLUSÃO GERAL .................................................................................... 59

5

REFERÊNCIAS ..................................................................................................

6

ANEXO A – Aprovação no Comitê de Ética e Pesquisa .....................................

7

ANEXO B – Mapas dialógicos ............................................................................

7

1. APRESENTAÇÃO
Meu caminho no Mestrado Profissional em Ensino na Saúde (MPES) teve
seus contornos já definidos a partir de 2006 quando ingressei como docente de um
recém-criado curso de Medicina no interior da Bahia. Naquele momento, trabalhava
como enfermeiro na Estratégia em Saúde da Família e também em uma UTI
neonatal. A mudança ao caminho da docência era a possibilidade de trabalhar com
as transformações do cotidiano em saúde em outro campo de atuação: o da
formação de profissionais de saúde.
Todo o contexto de implantação daquele curso já era por si só desafio à tarefa
de ser professor. Minha formação e atuação enquanto enfermeiro me colocavam
numa posição potente para desenvolver posicionamentos e reflexões, sob diferentes
perspectivas, em relação à prática médica hegemônica vigente e em confronto com
uma boa parcela do conjunto de professores. Ao mesmo tempo, minha formação
trazia desafios de conhecimento e me colocava sob pressões e em limites de
atuação, levando-me a assumir, por muitas vezes, lugar de resistência com outros
profissionais não médicos do curso.
Essa resistência tornava-se mais evidente em espaços de decisão do curso e
na gestão curricular onde, por exemplo, prevalecia uma tendência de sobre valorizar
os componentes técnico-profissionalizantes e, nestes, o enfoque sobre a dimensão
biológica de um cuidado individual e voltado à doença, modelo que formalmente
estava contestado. Em outro aspecto, no exercício cotidiano da docência, observava
e me inquietava com a discrepância na atitude e no interesse dos alunos quanto à
humanização na saúde durante as atividades curriculares dos dois primeiros anos
em relação ao internato.
O contexto do curso em implantação, minha condição de enfermeiro como
professor em Medicina, meus posicionamentos enquanto sujeito político atuando na
área de Saúde Coletiva e o próprio cotidiano do processo ensino-aprendizagem
foram, assim, aproximando-me da temática da humanização na formação médica.
As leituras dos primeiros textos já apontavam que o estudo dessa temática
passava pelo enfrentamento de importantes desafios teóricos e metodológicos.
Nestas, por exemplo, me deparei com um importante acervo que articulava

8

humanização com a Medicina e estes ainda apresentavam lacunas, principalmente
no que se referia a cursos de Medicina que projetavam a formação de recursos
humanos para o SUS.
A partir desta imersão inicial, o esforço seguinte foi o de pontuar e refletir
sobre como avanços recentes da humanização na saúde, particularmente a Política
Nacional de Humanização (PNH), poderiam ser potentes e dar sentido à minha
realidade docente, constituindo-se, assim, em uma aposta coerente na minha prática
pedagógica e fundamentando minha postura política dentro do curso.
A partir da luta pela reforma sanitária brasileira, a humanização na saúde foi
se constituindo em uma demanda social e, assim, se atrelou à formação médica
como uma necessidade do SUS, em uma trajetória de formações discursivas
relacionadas à conquista de direitos e cidadania, a programas específicos e,
finalmente, de uma política pública. A construção da humanização foi e ainda é
marcada por resistências e disputas de projetos que dão conta de lutas cotidianas
materializadas, mais evidentemente, nas relações, nos discursos, nos sujeitos e
condições dos serviços de saúde e das instituições de ensino onde se desenvolvem
as práticas de produção em saúde e da profissionalização médica.
No sentido de nos situar sobre o desafio de se compreender o termo
humanização e refletindo-o como uma construção social e histórica, Barros e Passos
(2005) apresentam a humanização nos sentidos de conceito-sintoma e de conceitoexperiência.
Para estes autores, como conceito-sintoma, pensar-agir, a humanização está
limitada à busca pela estabilidade e à institucionalização de modos padronizados,
naturalizados e idealizados dos sujeitos e dos serviços de saúde, modos
reproduzidos de agir sema profundidade da problematização da realidade sentida e
vivida. Essa noção de humanização enquanto conceito-sintoma teve e tem como
efeito a produção de mudanças esporádicas, pontuais e desvinculadas das
necessidades de produção dos sujeitos e de necessidades da realidade local.
Nesse, as práticas de gestão e de atenção à saúde são colocadas geralmente como
dissociadas e as ações são fragmentadas.
De outra forma, humanização enquanto um conceito-experiência, está
vinculado à necessidade histórica de abordar criticamente os modelos de gestão e

9

de atenção instituídos na realidade dos serviços de saúde. A partir da valorização
dos sujeitos, a humanização se dá na perspectiva da construção de projetos
coletivos de produção de saúde implicados às necessidades locais, onde ideias e
interesses são postos em movimento de confronto, alinhamento, negociações e
pactos democraticamente experimentados. Nesta perspectiva, as práticas de gestão
e de atenção à saúde são pensadas de modo transversal, indissociável e o processo
de produção de saúde tem efeito sobre a produção dos sujeitos envolvidos e viceversa.
Paralelo a este aprofundamento teórico, senti o desafio sobre a forma de se
pesquisar e de se trabalhar com a temática da humanização na graduação médica.
Entre tantos outros, era importante reconhecer o método, a linguagem social mais
apropriada aos pressupostos da temática. Desafio, este, em função da minha pouca
prática de investigação dita científica e, sobretudo, ao confronto e reflexão às
diferentes tradições de pesquisa que encontrei no percurso do MPES.
Meu encontro com a abordagem das práticas discursivas e produção de
sentidos de Spink (1999) teve importância fundamental nas viradas que me
colocaram em movimento no processo de caminhar e aprender neste mestrado.
Destaco, por exemplo, a visão sobre a realidade que, compreendida como
construção social,deixa de ser naturalizada e retificada não sendo possível ou
suficiente de explicá-la através de generalizações, de definir sua essência, e/ou
ainda, capturá-la em sua totalidade e reapresentá-la.
Nesta perspectiva da realidade, as Práticas Discursivas são como expressão
de uma variedade de práticas sociais que tem lugar privilegiado na compreensão de
sentidos no cotidiano (SPINK; FREZZA, 2013). Sentidos estes que podem ser
entendidos como empreendimento coletivo por meio do qual as pessoas, na
dinâmica das relações sociais historicamente datadas e localizadas, constroem os
termos a partir dos quais compreendem e se posicionam em situações cotidianas
(SPINK, 2010).
Neste encontro com a abordagem das práticas discursivas o traçado do
caminho não se apresentou definido claramente e foi sendo feito ao caminhar, ainda
que pudesse aproveitar das experiências de pesquisa daqueles que, anteriormente,
se aventuraram nesta abordagem. Cada escolha, cada erro, cada descoberta teve
para mim uma apresentação particular, numa espécie de exercício de reflexividade

10

comum quando se busca compreender a relação entre sujeito e objeto como
visceral, indissociável. Esta reflexividade me acompanhou até a última linha escrita e
me colocou diante de um dos critérios metodológicos mais rigorosos: o ético-político.
A produção da pesquisa foi vinculada às necessidades de um tempo histórico
e de uma história vivenciada na interação entre os sujeitos da pesquisa,
considerando a compreensão e o posicionamento destes no campo-tema. O objetivo
central da pesquisa foi o de estudar as falas de estudantes de Medicina da UESB –
Vitória da Conquista em relação à humanização da saúde e buscou responder à
seguinte questão norteadora: a partir da formação médica, quais sentidos
produzidos são relacionados à humanização?
Foi escolhido o contexto de aprendizagem do internato para se desenvolver a
pesquisa por tratar-se de momento de especial interesse pelo aluno, tanto pela
intensidade de aproximação entre teoria e prática, quanto pela vivência das
condições reais semelhantes àquelas do futuro exercício profissional. No contexto
do curso de Medicina da UESB - Vitória da Conquista, o cotidiano dos internatos
encerra um ciclo de formação e nele há um entendimento cada vez mais ampliado
sobre a dinâmica dos espaços, das relações sociais e dos sujeitos em interação, há
uma incorporação crescente de responsabilidades.
Esse contexto também definiu a opção pelos sujeitos da pesquisa - os alunos
do sexto ano - pois se entendeu que eles poderiam ter uma compreensão mais
consolidada e certa autonomia para falar e refletir sobre o percurso formativo, bem
como sobre os modos de subjetivação, processos e práticas da produção de saúde
e as problematizações sobre a humanização.
Para a produção de informações foi feita a seleção dos sujeitos através de
sorteio de 02 alunos por cada área de estágio, perfazendo um total de 10 alunos do
6º ano, o que corresponde a um terço dos alunos daquela turma. Foram realizadas
entrevistas individuais, semiestruturadas, entre os meses de janeiro e abril de 2015,
em espaços destinados à universidade nos cinco campos de internato(quatro destes
se concentram no ambiente hospitalar e um se desenvolve,predominantemente,em
unidades básicas).
A entrevista individual foi feita após a leitura do termo de consentimento e da
concordância do estudante. O roteiro da entrevista teve como base duas questões

11

referentes ao tema: O que lhe vem à mente quando se fala em humanização?Como
é trabalhada a humanização no referido curso?
Utilizando-se do aporte das Práticas Discursivas, a entrevista deixa de ser
uma técnica de coleta de informações e é compreendida como uma ferramenta para
instaurar um processo de co-produção de informação(ARAGAKI et al., 2014). Sendo
assim, a dialogia entre pesquisador e entrevistado tem papel central à fluidez da
entrevista. Dialógica e fluída, a entrevista possibilita escutar outros interlocutores
através de vozes que atravessam aquela interanimação.
O processo seguinte foi o de transcrição das falas em dois procedimentos
distintos: a transcrição integral e a transcrição sequencial. A transcrição integral é a
transcrição das falas preservando o discurso original, enquanto a transcrição
sequencial é sobre o que versa cada fala e como ela acontece e organiza-se em um
quadro com três colunas:quem fala, sobre o que fala e o tema do fragmento da
fala(NASCIMENTO; TAVANTI; PEREIRA, 2014).
Após os procedimentos de transcrição de falas houve a produção dos mapas
dialógicos como parte do processo de análise. Os mapas dialógicos foram tomados
como recurso de visibilidade do processo de co-produção de informações e do
processo de análise (NASCIMENTO; TAVANTI; PEREIRA, 2014). No caso
específico da pesquisa apresentada, o mapa teve dois eixos temáticos relacionados
com as questões de base (tecnologias do cuidado e contextos de aprendizagem de
humanização), destacando-se destes eixos cinco categorias a partir das quais a
sequência das falas foi organizada.
Para o entendimento do mapa, é importante destacar que a disposição em
vertical possibilita a leitura de expressões características enquanto que na
disposição horizontal é possível perceber como ocorreu o processo de dialogia da
pesquisa (AZEVEDO; RIBEIRO; BATISTA, 2009).
A partir da construção dos mapas, sucessivas leituras foram realizadas para
reconhecer os sentidos neles expressos. Nesta etapa da análise, houve a
interpretação fundamentada em teorias e termos socialmente construídos da
humanização a partir do meu campo disciplinar – a Saúde Coletiva – e dos objetivos
do estudo, o que permite dizer que se tratou de um processo de produção de

12

conhecimento situado e implicado no contexto específico, no momento de produção,
nas motivações e nas minhas características como sujeito da pesquisa.
A pesquisa trouxe a possibilidade tanto de reflexão em torno da humanização,
do ponto de vista das elaborações teóricas, como ainda de avaliação do próprio
processo de produção pedagógica do curso de Medicina da UESB. Os resultados
apontaram para o sentido da humanização na dimensão da tecnologia do cuidado,
quer seja na relação médico-paciente, quer seja na convivência institucional. Sobre
o contexto de aprendizagem, a pesquisa mostrou que os internatos apresentam
limites e potencialidades para a humanização e que os professores têm papel de
destaque, tanto na teoria quanto na prática, dentre tantos outros sujeitos do
processo de aprendizagem.
O MPES exige que se apresente, ao final do curso, um produto de
intervenção como forma do mestrando contribuir com o avanço do SUS e da
formação em saúde no cenário de práticas profissionais em que está inserido.
Pensando na viabilidade de uma intervenção, nos aspectos pedagógicos que
favorecem a integração ensino-serviço e a geração de outros modos de subjetivação
na formação dos sujeitos da UESB, foi proposto, como produto de intervenção, a
formação de uma Comunidade Ampliada de Pesquisa.
O projeto dessa Comunidade Ampliada de Pesquisa (CAP) foi concebido na
convivência e diálogo com colegas professores da área de Saúde Coletiva, alunos
do Internato na mesma área e membros de Grupos de Trabalho de Humanização
(GTH) de hospitais que entenderam, a partir das informações da pesquisa, a
necessidade de torná-la uma ferramenta de sensibilização e mobilização da temática
da humanização no referido curso.
Desde a sua concepção, o cuidado foi para que o processo de implantação
da Comunidade Ampliada da Pesquisa fosse uma experiência de aprendizagem e
que sua metodologia contemplasse a participação ampliada de professores,
trabalhadores, usuários e gestores.
Portanto, a minha aposta na humanização tomou corpo através de uma
análise e crítica contextualizadas, bem como da possibilidade de intervenção sobre
a realidade, ainda que nos limites da graduação em Medicina, podendo, assim,

13

contribuir na realização progressiva da humanização da saúde e na formação de
profissionais qualificados às demandas sociais, cientificas e sanitárias vigentes.

14

2. ARTIGO ORIGINAL
a.

Título:

Sentidos da humanização no processo ensino-aprendizagem da graduação em
Medicina.
b.

Title:

Senses of humanization in the teaching-learning process of Medicine graduation.
c.

Resumo:

A humanização vem se configurando em diferentes contornos teóricos e
práticos no cotidiano de ensino na saúde. Em pesquisa realizada sob a égide do
Mestrado Profissional Ensino na Saúde de Faculdade de Medicina da UFAL e
financiada pela Fundação de Pesquisa do Estado de Alagoas, e tomando como
referência a polifonia e a heterogeneidade da humanização em saúde, objetivou-se
estudar as falas de estudantes de Medicina da UESB – Vitória da Conquista em
relação à humanização da saúde na graduação. Trata-se de um estudo de natureza
qualitativa, cuja produção das informações foi realizada através de entrevistas
individuais semiestruturadas com 10 alunos do 6º ano, selecionados através de
sorteio. O aporte metodológico consistiu na abordagem das Práticas Discursivas e
Produção de Sentidos de Spink (1999).Os resultados encontrados foram:
humanização com enfoque na relação médico-paciente, embora a dimensão
institucional fosse referida naquilo que se relacionava com as condições para sua
efetivação; os contextos de aprendizagem (cenários, sujeitos, circunstâncias, regras,
ações e métodos) são relevantes, potencializando ou limitando a experiência da
humanização na graduação médica; e a relevância da interação docente-discente à
vivência coerente da aprendizagem de humanização. Portanto, o sentido da
humanização no contexto estudado apresentou desafios que vão desde a reflexão
crítica sobre a temática, passando pela avaliação da interação aluno-professor, das
estratégias e práticas pedagógicas, até as melhorias da articulação e integração
ensino-serviço e comunidade.

15

Palavras-chave: Graduação médica. Humanização da atenção e da gestão em
saúde.Estudantes de Medicina.

d. Abstract:

Humanization has taking shape in different theoretical and practical aspects in
the day-by-day health and teaching practices in health area. On a research made
under the aegis of the Professional Masters on Health Teaching of the Faculdade de
Medicina of UFAL and funded by the Fundação de Pesquisa do Estado de Alagoas,
and referring to this polyphony and heterogeneity of humanization in health it was
intended to analyze the lines of medical students of UESB - Vitória da Conquista
about the humanization of health on the graduation. It is a qualitative study, wich
production of the informations was made by individual semi structured interviews with
tem students of the sixth grade, chosen by lots.The methodological approach uses
the Discursive Practices of Spink (1999). The technique of data collection was the
semi-structured interview. The results were: focus of the humanization of conceptions
in the doctor-patient relationship, although the institutional dimension was referred to
what was related to the conditions for its execution; learning contexts (scenarios,
subjects, conditions, rules, actions and methods) are relevant, enhancing or limiting
the experience of humanization in medical degree; and the relevance of teacherstudent interaction to coherent experience of humanization learning. Therefore, the
senses of humanization on the studied aspects have challenges ranging from critical
reflection on the subject, through evaluation of student-teacher interaction,strategies
and teaching practices, to improvements of the joint-integration of teaching-service
and the community.
Key words: Graduation medical. Humanization of are and health management.
Medicine students.

2.1.

Introdução:

O contexto da educação médica no Brasil passa por mais um ciclo de reflexão
em nível da graduação e que teve como produto mais recente a publicação das

16

Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para a formação médica (BRASIL, 2014). A
partir das circunstâncias, sujeitos e processos diferentes, a elaboração das DCN da
graduação em Medicina,de 2001 e de 2014, coloca questões em comum recorrentes
ao debate do ensino em Medicina e,dentre estas, se destaca a humanização na/da
saúde.
Embora a formação de Medicina apareça como um fator relevante na ordem
das causas de desumanização nos serviços de saúde[notadamente, desde 1972,
em Simpósio Americano intitulado Humanizando o Cuidado em Saúde e,pouco mais
tarde, em 1975, como parte de modelo explicativo proposto por Geiser
(DESLANDES, 2011)], a articulação entre a humanização e a formação na
graduação em saúde ainda tem um vasto campo de possibilidades de conhecimento
e de intervenção.
No Brasil, a aproximação entre formação em saúde e humanização se tornou
mais evidente, e também se transformou, com as lutas e contextos do SUS,
notadamente nos últimos quatorze anos, com destaque para a criação e a
consolidação dos primeiros programas oficiais de humanização e as propostas sobre
formação de recursos humanos para o SUS.
Com o tempo e as lutas, a humanização deixou de ser fragmentada em
programas e passou a assumir o status de política pública (BRASIL, 2004). O
HumanizaSUS nasce como radicalização da aposta na humanização (PASCHE et
al., 2011) e, em suas origens, já enfrentou o desafio conceitual relacionado ao
caráter polissêmico do termo central – humanização – implicando, assim, num leque
ampliado de sentidos, nas várias possibilidades de concretude de suas
ações/experiências em diferentes tipos de organizações, bem como na construção
do imaginário de aspirações que se renovam e que legitimam sua relevância
enquanto política, princípio e movimento, inclusive na formação dos profissionais de
saúde.
Tornou-se relevante também, correlacionar os sentidos da humanização aos
espaços e tempos da realidade de instituições que participam desta formação. Sobre
estas realidades, faz-se necessário conhecer a vitalidade, positividade e gargalos de
experiências, de práticas e de gestão relacionadas a uma aprendizagem de
humanização na/da saúde.
Tendo como pressuposto teórico que os fundamentos da humanização
(princípios, diretrizes e dispositivos) são potentes para a qualificação da graduação

17

em Medicina, este artigo é o produto de uma imersão no campo-tema que começou
a partir de 2006, durante a inserção do pesquisador, enquanto docente, em duas
atividades curriculares de integração serviço/ensino, a saber: a) Práticas de
Integração Ensino, Serviço e Comunidade (PIESC) – que ocorria no primeiro e
segundo ano do curso; b) Estágio Curricular Supervisionado Obrigatório de
Treinamento em Serviço (ECSOTS) em Medicina de Família e Comunidade no sexto
ano.
O curso de Medicina da UESB foi implantado no ano de 2004, em meio às
transformações e proposições deste período, adotou em seu projeto político
pedagógico, a orientação e a estruturação do processo de ensino-aprendizagem em
metodologias ativas e se alinhou formalmente com as novas políticas do SUS e às
DCN de 2001. Nesta realidade de atuação surgiram as inquietações dos estudantes
sobre as possibilidades de mudanças das questões relacionadas à ética e à
humanização durante o itinerário formativo.
A pesquisa de que trata este artigo teve como objetivo central estudar as falas
de estudantes de Medicina da UESB – Vitória da Conquista em relação à
humanização da saúde na graduação.

2.2.

Percurso metodológico:
A pesquisa insere-se na abordagem qualitativa etem como referencial

metodológico a abordagem das Práticas Discursivas e Produção de Sentidosde
Spink (1999).
Num primeiro aspecto, para a pesquisa tradicional, o campo, é o lugar onde o
pesquisador faz seus estudos, um lugar específico, um lugar pré-determinado. Para
Peter Spink (2003, p.35-36) “o campo é o método e não o lugar; o foco está na
compreensão da construção de sentidos no espaço de vida do indivíduo, grupo,
instituição ou comunidade”. Daí, o campo é aquilo do que se fala, é um tema.
Portanto, é o Campo-Tema.
O campo-tema se configurou a partir da imersão e mobilização da temática
humanização no Estágio Curricular Supervisionado Obrigatório de Treinamento em
Serviço (ECSOTS), também chamado de Internato.

18

Para a produção de informações foi feita a seleção dos sujeitos através de
sorteio de 02 alunos por cada área de estágio, perfazendo um total de 10 alunos do
6º ano, o que corresponde a um terço dos alunos daquela turma.
A técnica para a produção de informações foi a entrevista semiestruturada
com um roteiro contendo as seguintes questões: Quando se fala em humanização, o
que lhe vem à mente?Como as questões sobre humanização em saúde são
trabalhadas durante o curso?
Na perspectiva das Práticas Discursivas, o roteiro da entrevista não se
constitui em uma ordenação e repetição de questões sem a devida garantia da
fluidez discursiva. A dinâmica da entrevista semiestruturada com uso do roteiro
favorece liberdade tal de perguntar que propicia momentos de construção,
negociação e transformação de sentidos, colaborando na interanimação dialógica e
na manutenção do foco da entrevista. Portanto, a entrevista aqui possui,
principalmente, um caráter dialógico (ARAGAKI et al., 2014).
As entrevistas individuais ocorreram logo após os entrevistados concordarem
com os termos do TCLE aprovado em parecer de nº 37601714.9.0000.5013 do
Comitê de Ética na Pesquisa, sendo o áudio da entrevista gravado em aparelho
propício, mediante consentimento de cada entrevistado.
As falas foram inicialmente transcritas na íntegra e, depois, foi feita ainda uma
transcrição sequencial. Esta identifica o que versa a entrevista e como ela
acontece.Os participantes foram identificados através da letra “P” (inicial de
participante) seguida de numeração de acordo com a ordem das entrevistas indo de
P1 a P10.
O procedimento analítico centrou-se na produção dos Mapas Dialógicos das
falas e da ordenação e elaboração de categorias analíticas.
Quadro 1: Excerto de Mapa Dialógico
Categorias

Participante
P6

Humanização como Tecnologia do
cuidado
Relação médicoConvivência
paciente
Institucional

Contextos da Aprendizagem de humanização
Humanização em
atividades curriculares
na atenção básica

Humanização em
atividades
curriculares na
atenção especializada
Pesq.: Quando se fala em humanização em saúde, o que lhe vem à mente?
Penso em atender
o paciente, né? De
uma forma integral
assim,
de
uma
forma digna, né?
Dar
a
ele
os
recursos que tem
disponível
no
serviço, da melhor
forma pra assistir
ele,
assistir
o
paciente da melhor

Humanização na
relação
professor-aluno

19

P6

P6

forma possível.
Pesq.: Como a humanização em saúde são trabalhadas durante o curso?
Principalmente
pelo
método ABP, a gente,
como é introduzido logo
no inicio na saúde
coletiva [...] a gente passa
a vivenciar uma realidade
assim pra ver como que
é. A gente tem que
trabalhar em equipe, tem
que atender o paciente de
acordo
com
aquela
equipe, né? Então assim,
atender às necessidades
dele então, saber tudo,
saber
dos
anseios
daquela população. Então
assim, você fazer a
territorialização,
você
conhecer o ambiente de
trabalho[...]
A
gente
conhecer
a
realidade
do
paciente, saber
como
mora,
saber
as
condições dele,
a
realidade
social,
econômica
de
tudo isso, então
isso
é
uma
forma
de
humanização.

Estes mapas consistiram em estratégias de visibilização de toda a
interanimação dialógica estabelecida entre diferentes sujeitos (presentes ou não ao
ato da entrevista) organizando o diálogo em tabelas, de acordo com os objetivos
daquilo que se pretendeu conhecer.
O foco de análise das informações baseou-se nas orientações de Spink
(2000) sobre as práticas discursivas produzidas no cotidiano, práticas estas que não
ocorrem no vácuo, mas que são produtos e produtoras da linguagem ordinária,
práticas sociais que produzem efeitos, enfim, sentidos.

2.3.

Resultados e Discussão:
No decorrer da produção e analise das informações da pesquisa, observou-se

que a dialogia sobre a humanização na formação médica estava em torno das
questões norteadoras propostas, formando, a partir daí,dois eixos temáticos e suas
respectivas categorias no Mapa Dialógico.
No primeiro eixo temático ficaram as categorias que relacionam a
humanização como uma tecnologia do cuidado: nas relações médico-paciente e na
convivência institucional.

20

Num outro eixo ficaram as categorias que atribuem sentido dos contextos de
aprendizagem à humanização na formação médica: Humanização em atividades
curriculares na atenção básica; Humanização em atividades curriculares na atenção
especializada; Humanização na relação aluno-professor.

2.3.1. Eixo 1 - Humanização como uma tecnologia do cuidado

2.3.1.1.

Humanização nas relações médico-paciente

[...] a ideia que eu tenho de humanização durante o curso é principalmente
no internato, eu acredito que seja o cuidado com seu paciente [...] (P10)

Os pesquisados ao se referirem à humanização se voltaram para a dimensão
da atenção em saúde, sobretudo, naquilo que se refere às questões da relação
médico-paciente.
Assim sendo, um dos sentidos da humanização foi posto como o cuidado
na/da relação médico-paciente.
Entendendo cuidado como elemento existencial que permite a auto
compreensão e a reconstrução contínua e simultânea da condição humana, Ayres
(2011) apresenta a importância do cuidar para a relação médico-paciente que,
também, pode ser transposta aos contextos da produção pedagógica em saúde.
Para os alunos entrevistados, as condições para a realização da
humanização como uma tecnologia do cuidado da relação médico paciente foram
assim agrupadas: a tomada de consciência de si e do outro e as habilidades de
empatia e escuta.
[...] Então você tem que entender, você tem que se entender, entender a
pessoa e também ser entendido por ela. Então, é um processo de vai e
vem, né? (P3).
[..] porém, eu tenho um pensamento de que, para a humanização melhorar
um pouco, tem que partir da verdade de cada um, sabe? É da humanidade
que tem em cada um (P8).

Enquanto tecnologia do cuidado, a humanização na perspectiva da tomada de
consciência de si, e do outro, pressupõe uma relação entre os sujeitos em
longitudinalidade (aqui delimitada na consecução de interações) onde um exercício
da interpretação e reflexão se dá de modo contínuo e sob a influência de um sistema
de interações (CAPRARA; FRANCO, 2011).

21
[...] então, é uma questão de tanto o profissional se analisar quanto de olhar
para o outro, para o paciente (P7).

Como na educação do ser humano em geral, no processo formativo em
saúde o Outro exerce uma presença no Eu (AZEVEDO; RIBEIRO; BATISTA, 2009),
quer seja pela busca de uma necessidade/problema a ser resolvida- aspecto mais
pragmático,quer seja mobilizando e construindo significações baseadas em valores aspecto simbólico.
Isto posto, pode se pensar nos desafios que são apresentados a professores
e alunos durante a graduação em saúde, dentre os quais se destaca o
enfrentamento a uma racionalidade que coisifica o Outro.
[...] Acho que aqui enxerga muito a doença, não enxerga muito o paciente
como um todo. (P8)

Esta racionalidade está enraizada, sobretudo, no modelo biomédico de
práticas de saúde e tem, dentre outros potencializadores, a lógica de consumo e os
valores do individualismo da sociedade capitalista. Esta racionalidade é, de certo
modo, questionada em uma das falas identificadas na pesquisa:
[...] é pra você encarar aquela pessoa, não como uma doença, mas como
uma pessoa que precisa de cuidados em saúde. [...] E entender que
existem diversas outras questões envolvidas na saúde daquela pessoa, que
muitas vezes não são vistas por nós. (P1)

Neste caso, humanizar é tomar consciência do outro como diferente de si. É
importante destacar outras perspectivas de reconhecimento do paciente num
cuidado humanizado que aparecem nas falas dos pesquisados, tais como: pessoa,
ser integral (biopsicossocial), ser humano e portador de direito. Nesta interpretação,
estes termos se referem à noção da dignidade humana que é acionada como forma
de se comportar e como forma de sentir a condição de conviver com o outro e
consigo.
[...] eu sempre penso em entendimento do outro ser humano como um todo
e nesse processo, também, da comunicação com ele. (P3)
[...] ensinam a gente a ver o paciente como realmente... como uma pessoa
completa, não só ter uma parte só dela. (P4)
[...] a questão de tratar o outro como um ser humano, se colocar no lugar do
outro, é isso: aceitar a fragilidade e tratar o outro com respeito. (P7)

Ainda vale pontuar que o papel do cuidador também é refletido pelos
pesquisados e encontra correspondência com o que diz Ayres (2011) que a

22

presença do cuidador na frente do outro não se simplifica ao papel de simples
aplicador de conhecimentos.
[...] muitas vezes a gente até vê muitas condutas de algumas pessoas, né?
Simplesmente entrega um papel para o paciente e deixa que o paciente se
vire com aquilo, não explica, não chama o paciente junto, né... para o
tratamento, não faz o paciente ser um participante, apenas um cumpridor
daquele tratamento. (P2)

Reforçando esta elaboração de humanização como tecnologia do cuidado, os
pesquisados apontam o fazer da humanização que se viabiliza na habilidade de
empatia e escuta do profissional/aprendiz frente ao usuário:
[...] a humanização é você fazer o que é básico, o que você tem que fazer
em qualquer outra área, não só da saúde. Você ouvir a pessoa que você
está atendendo, ver as necessidades dele, ver as queixas, tentar resolver o
problema do paciente mesmo que você não resolva, mas pelo menos você
tentar mostrar como isso pode ser feito. [...] às vezes a própria conversa, a
própria consulta já e terapêutica, porque às vezes o paciente quer é isso, é
ouvir, é ser ouvido, né? É o paciente ser ouvido, poder contar com esse
apoio do médico (P2).

Especificamente, tanto quanto o saber apalpar, percutir, inspecionar e
auscultar, aprender a ouvir, acolher, gostar, cheirar e sentir, podem ser
contemplados e valorizados durante a formação do médico – uma experiência de
aprendizagem que assim pode ser estética, afetiva. Rios (2009) afirma que não
basta bom senso e paciência, é preciso que o profissional aprenda teorias e técnicas
relacionais. A autora sugere a necessidade de desenvolver nos profissionais o
interesse legítimo pelo paciente e sobre isso se tem a fala que coaduna:
Talvez você não consiga no final, mas você mostrar interesse, em fazer [...]
que você tem o interesse nele, de ver ele bem, porque ele é um ser humano
[...] ele tem o direito de ser atendido bem e de ter seu problema, se não
resolvido, mas pelo menos tentado resolver, ou chegar à melhor opção de
tratamento, de conduta para ele naquele momento (P2).

Autores como Ceccim e Merhy (2009) apontam outro importante desafio como
possibilidade trazida pelo movimento da humanização na saúde à produção
pedagógica, em produção da saúde, na dimensão da relação médico-paciente, que
é ressignificar o agir micropolítico que se dá no encontro dos sujeitos, permitindo a
invenção singularizada das práticas de atenção. Isto porque o raciocínio médico,
modelado em séculos, legitimou em seus rituais os meios de como se opera este
agir sob a ótica do controle e assujeitamento do outro, o que reduz a potência dos

23

encontros. Isto sem falar que este agir micropolítico é influenciado por contextos e
condições.

2.3.1.2.

Humanização na convivência institucional
[...] Humanização da saúde ela passa para além da relação médicopaciente. (P5)
Porque vai envolver, não somente o trato com o paciente, né? (P9)

As experimentações relatadas, as expectativas, limitações e ideias sobre a
humanização, também se apresentaram nesta pesquisa como parte de uma
comunidade: a comunidade de aprendizagem. A humanização está dimensionada
em uma polis e, assim, os alunos apresentam abordagens sobre as relações sociais
e as condições que situam a humanização com uma realidade construída
socialmente, especificamente na concretude das instituições. Nesse enfoque, a
humanização é entendida como um processo que vai além da melhoria da qualidade
da relação profissional-usuário: pressupõe o desenvolvimento do sentido de
cidadania e de participação crítica (TRAVERSO-YÉPEZ; MORAIS, 2004).
Ao destacar este sentido de humanização em uma extensão política para uma
convivência institucional, pôde se vislumbrar posicionamentos de avaliação dos
poderes instituídos e das resistências como instituintes.
Seria quase que algo institucional. Desde como o governo do estado trata o
governo municipal, como o governo federal trata os outros, desde as
exigências que são impostas, ou então das demandas que não são
atendidas, até chegar na condição de trabalho que propicia que o
profissional trate o paciente bem. (P5)

Para Rios (2009), este é um dos grandes desafios a este movimento: criar
uma nova cultura de funcionamento institucional e de relacionamentos na qual,
cotidianamente, se façam presente os valores da humanização.
[...] falar de humanização, é mais assim o serviço do dia a dia. [...] Não que
não tenha nada assim: “Ah, é tudo lindo, é tudo maravilhoso!”, não que seja
isso, mas que pelo menos tenha uma cultura ali naquele ambiente, cultuado
esse ambiente, essa ideia da humanização [...]. (P8)

Para Artmann e Rivera (2011), tal mudança cultural das organizações
depende da comunicação e da aprendizagem coletiva que se dá entre a tradição e
os novos discursos, entre os quais estão os discursos crescentes da humanização.

24

Pois é sobre o cotidiano e a cultura institucional que os alunos problematizam
a humanização na correspondência às dificuldades estruturais dos cenários de
aprendizagem e sua influência para a qualidade da atenção à saúde e para o próprio
processo de ensino-aprendizagem. Desta forma, reconhecem a humanização como
componente da estrutura e organização dos coletivos.
Mas, não só nesse aspecto, no aspecto também estrutural da coisa, né? A
humanização dos profissionais que estão ali envolvidos, ter uma
salubridade no ambiente de trabalho, né? Ter condições boas de
atendimento, né? Os recursos mínimos básicos pra poder atender de
maneira satisfatória. Então, passa desde a questão do atendimento
propriamente dito do paciente e de profissional quanto a questão estrutural
também, né? (P9)

Estes coletivos (professores, alunos, usuários, funcionários e gestores) estão
em relação no contexto do SUS, onde se desenvolvem as práticas de
aprendizagem. A discussão da humanização no campo da saúde não pode se fazer
sem que consideremos a maneira como o tema está intrinsecamente ligado ao
processo de constituição do SUS no Brasil (BARROS; PASSOS, 2005).
Para este contexto do SUS contraditório, de conflitos e avanços, é que a
Politica Nacional de Humanização se legitimou como demanda social e se projeta
através de seus princípios, diretrizes e dispositivos.
No conjunto deste arcabouço teórico da HumanizaSUS e a partir dos
discursos dos alunos avaliou-se que este elenco de elaborações e experiências da
humanização têm tido uma visibilidade (res)significada ainda na graduação médica,
sobretudo nos componentes curriculares da saúde coletiva.
Por exemplo, o principio da indissociabilidade da gestão e atenção da PNH,
que também fala de valorização da dimensão subjetiva e social da saúde (BRASIL,
2004), que propõe fortalecer compromissos e responsabilidades entre gestor,
trabalhador e usuário, ela está presente e destacada na convivência do Internato de
Saúde Coletiva, tendo as seguintes falas como exemplos:
[...] A gente conhecer a realidade do paciente, saber como mora, saber as
condições dele, a realidade social, econômica de tudo isso, então isso é
uma forma de humanização. (P6)
[...] Mas, a gente sempre discute, por exemplo, no internato de saúde
coletiva, por exemplo, a escolha do medicamento, a condição do paciente, a
gente conversa. Tem um dos professores nossos, por exemplo, que ele fala:
“quando você for atender o paciente, primeira coisa que você faz é deixar a
caneta na mesa e converse com ele, não escreva nada, converse com ele”,
então para mim aí também já está o início. (P3)

25

Neste

aspecto,

a

humanização

enquanto

resultante

da

convivência

institucional da qual se fala e que se vive, amplia os compromissos e
responsabilidades do fazer clínico. Estas responsabilidades vão além do
atendimento que se faz às demandas advindas da doença em si. Fala-se do
compromisso de situar as questões de cidadania no exercício da Medicina, que
assim integrada às questões sociais e subjetivas pode ser dita humanizada, porque
se faz a partir de uma lógica de se posicionar no mundo, de implicação com o
mundo real.
Neste sentido, parece oportuno refletir sobre a diretriz do HUMANIZASUS que
aposta

na

cogestão

como

a

oportunidade

do

encontro

e

partilha

de

responsabilidades (BRASIL, 2004), pois esta potencializaria o diálogo de saberes
diversos e sobre os conflitos, a ampliação das abordagens e de visão do mundo, as
negociações de

maneira

horizontalizada

e

a

participação

que

levaria

a

aprendizagem coletiva. Porém, esta diretriz se apresenta mais como um desafio do
que uma possibilidade real nas situações da humanização em um sentido de
convivência institucional na graduação médica e está problematizada em um
exemplo relatado, de modo resumido, e que aqui se toma como emblemático à
reflexão:
Foi na UTI. Um paciente que... ele teve um tumor [...] Mas ele, de um dia
para o outro, desmaiou, teve um desmaio. Ele era ativo, pai de família, teve
uma síncope e perdeu os movimentos de membros e ficou tetraplégico, né?
[...] Aí ele teve que ser traqueostomizado porque ele também não tinha os
movimentos respiratórios. [...] Ele era sempre sorridente, aí de uma hora pra
outra ele começou a ficar mais triste, já não queria comer. E aí, algum
profissional da UTI sugeriu que a gente desse um passeio com ele [...] levar
para tomar um sol, para ver se ele melhorava um pouco. E isso foi uma
enrola, todo dia era uma coisa, um problema [...] E ele foi ficando cada vez
mais triste. O psicólogo falou que ele não estava com depressão e ele
achava que não tinha que entrar com medicação antidepressiva, mas não vi
o psicólogo em momento nenhum, assim, se empenhar mesmo pra ir lá,
conversar: [...] Aí a gente e os profissionais, acreditávamos no que o
psicólogo estava falando, não dava nenhum remédio antidepressivo. [...]
(ele) só parava de comer e ninguém dava atenção, até que faleceu. E,
assim, ele tinha até a possibilidade de voltar a andar, uma possibilidade
remota, mas tinha. [...] Imagine você ficar numa cama sem movimento
nenhum, só conseguindo falar pouco e ninguém fazia nada, sabe? [...]
Estava tudo ali à disposição, entendeu? [...]essa situação me marcou
porque parecia que estava todo mundo preocupado em fazer o mínimo
possível. E tem isso também, a pessoa só acha que só tem que fazer a
obrigação dele e que isso não é obrigação, entendeu? [...] Então, essa
situação me deixou mal. (P4)

26

Apesar da riqueza de discussão que o relato traz, se faz o desafio da
interpretação de como este coletivo de profissionais se coloca numa dada ordem
institucional: quais os limites e as potencialidades desta realidade para que
efetivamente ocorra uma prática humanizada? Quais os canais de diálogo
estabelecidos e como os saberes daqueles profissionais interpretaram em conjunto
(e não separados) a vivência daquela pessoa? Como aquela grupalidade se sentiu
frente àquele desfecho? Como o estudante e o professor, fazendo parte deste
contexto de produção de saúde, produziram a experiência de aprendizagem de si
mesmos e para aquele grupo?
Neste empreendimento de entender o trabalho em equipe no sentido da
humanização da convivência institucional, alia-se o conceito de rede social,
especificamente trazido pelas reflexões de Braga (2011), de que a rede social está
estabelecida antes mesmo da interação do aluno e do professor, o que não significa
que não sofra a influência dos mesmos, mas se conforma pela natureza dos laços
(amizade, parentesco, mercantil, combinações, afinidades, de trocas, dentre outros)
e pela densidade de relações (frequência e expressão de contatos).
Neste sentido, as equipes de saúde nas quais os estudantes são inseridos
podem ser consideradas como redes sociais já estabelecidas com laços de
identificação e de diferenciação e, sendo assim, impõem-se limites a um universo
externo à rede (BRAGA, 2011).
Assim, os estudantes e professores também funcionam como rede, mas, para
aquela realidade institucional, como rede de suporte, que tem o enfoque em funções
predefinidas - guia cognitivo, ajuda material e de serviços, companhia social, partilha
de informações e conhecimentos(BRAGA, 2011).
A fala dos pesquisados permite aproximações da caracterização como rede
de suporte nesta convivência institucional como também dos limites de atuação
existentes:
[...] A gente até tenta, mas de uma maneira geral, que seja até efetivo,
porque se você faz com um e com outro, você está fazendo a sua parte e
não tem efetividade com relação ao hospital. (P1)
[...] acaba que, de certa forma, a gente se sente muitas vezes impotente de
não poder, de ter que aceitar, de ter que viver naquilo ali que a gente não
sente muito bem. Não tem muito poder, talvez, de mudança, mudar alguma
coisa. (P8)

Se por um lado estes limites são postos na realidade das práticas de
aprendizagem dos cursos de saúde em geral, parece que o desafio está colocá-los

27

sob tensão naquilo que pode ser potencial para a criação de uma aprendizagem
coletiva institucional.
Esta posição tem o respaldo naquilo que está preconizado como a
humanização enquanto politica pública: a criação de espaços para a construção e
troca de saberes, investindo nos modos de trabalhar em equipe. Isto considerando,
é claro, lidar com necessidades, desejos e interesses destes diferentes atores
(BARROS; PASSOS, 2005).
2.3.2. Eixo 2 - Contextos de Aprendizagem de humanização na formação
médica
2.3.2.1.

Humanização em atividades curriculares na atenção básica
Já em saúde coletiva, isso aí nem se fala, né? (P8)

De modo destacado, os participantes situaram o desenvolvimento das
temáticas da humanização nas atividades curriculares da área de Saúde Coletiva
(Práticas de Integração de Ensino, Serviço e Comunidade - PIESC - e Internato de
Saúde Coletiva). Apontaram características específicas destas atividades que
favorecem a aproximação e potencializam a aprendizagem de humanização na
formação médica, como: o contato precoce e contínuo com a comunidade, o
trabalho em equipe, o perfil dos profissionais que atuam na Estratégia em Saúde da
Família (ESF) e a atuação dos docentes.
A inserção dos estudantes desde o primeiro ano do curso de Medicina no
sistema de saúde local atende às recomendações das Diretrizes Curriculares
Nacionais (DCN) e é apontada por autores como Blank (2006),Silva et al., (2007) e
Alves et al. (2009), como medida de superação do modelo de fragmentação do
saber por meio do trabalho pedagógico em torno de problemas reais, o que exige
uma abordagem e prática interdisciplinares.
Saúde coletiva é bom porque a gente fica numa comunidade por quatro
anos, então a gente tem como ver também um pouco das respostas às
nossas tentativas de humanização do atendimento, né? [...] A gente
trabalhou muito com lixo, com essas questões humanas da pessoa, mas
que ultrapassam essas questões de saúde: pobreza, falta de higiene, até
mesmo a falta de escolaridade a gente tentou fazer algumas coisas nesse
sentido. (P5).
Assim, eu acho que uma iniciativa muito legal em relação a isso é a
inserção da gente no serviço de saúde pública, no PSF - o Programa de

28
Saúde da família, que é um dos ambientes que mais se fala em
humanização, que mais se tenta aplicar a humanização. (P8)

Entre outros aspectos, a longitudinalidade e a continuidade do processo de
ensino-aprendizagem, que se faz implicado em uma realidade social propiciada pelo
PIESC e Internato de Saúde Coletiva, permitem o vínculo com a comunidade e com
uma equipe de saúde além da formação de elos mais consistentes entre teoriaprática, ampliando possibilidades de uma compreensão integral do ser humano e do
processo saúde-doença.
Feuerwerker (2002) coloca que os “problemas de papel” não dão conta de
propiciar as experiências necessárias ao seu processo de formação nos primeiros
anos de graduação. A referida autora justifica que o contato humano, a construção
de vínculos pessoais e a apropriação da realidade que estas experiências propiciam
são fundamentais à formação humanística e ética dos futuros médicos.
Ainda como característica deste cenário de aprendizagem, pode-se discutir a
contribuição/participação que os profissionais de diferentes segmentos de atuação e
campos de saber podem trazer ao processo de formação profissional do médico por
meio da integração e partilha de interesses e intervenções.
[...] é as relações entre profissionais porque, como a equipe trabalha muito
com a mesma equipe, plantão tem muito de rodar a equipe, né? Mas, em
saúde coletiva na unidade é sempre a mesma equipe. (P5)
[...] A gente tem que trabalhar em equipe, tem que atender o paciente de
acordo com aquela equipe, né? [...] Então, todo aquele trabalho do primeiro
e segundo ano (territorialização e conhecer o ambiente da equipe). Isso, pra
mim, eu acho que foi apresentado de uma forma de humanização, tanto da
equipe como do paciente. (P6)

A equipe de Saúde da Família pode se tornar uma comunidade de práticas de
aprendizagem, não apenas porque expõe suas formas de atuar sobre o processo
saúde-doença e sobre as questões da população a ela adscritas, mas ainda ao
revelar sua dinâmica de interação em situações de confronto de posições, de
negociações e de conflito. Enfim, esta é uma realidade de convivência que, sendo
refletida adequadamente, possibilita a prática da grupalidade, um dispositivo da
Politica Nacional de Humanização (BRASIL, 2004).
Então tem esses conflitos dentro da própria equipe, né? Que a gente acaba
vivenciando e tentando fazer uma capacitação para os profissionais da
vacina que, às vezes, chegam novos, aí faz uma capacitação, o pessoal da
triagem, a gente trabalha muito com isso, mediando assim, tentando ajudar,
nem mediar conflitos, que a gente não tem nem alçada para isso. A gente
não entra muito nisso, mas tenta no que a gente pode ajudar. (P5)

29

Neste sentido, e em outros aspectos, os estudantes destacam a atuação
dos docentes nestas atividades curriculares do PIESC e do Internato de Saúde
Coletiva como relevante à aprendizagem de humanização na formação médica.
Características individuais como compromisso e responsabilidade, a formação do
professor (psicólogos,enfermeiros, médicos especialista em saúde da família), a
postura de coerência entre o que diz e a própria prática, bem como as formas de
pensar-agir no encontro com o usuário, configuram-se como um perfil docente de
referencial positivo à aprendizagem de humanização.
O meu coordenador do PIESC, que depois eu tive contato no meu quinto
ano em saúde coletiva (internato), ele é uma pessoa que fortalecia muito
esse conceito de humanização em saúde (P1).
[...]Um dia eu lembro que... quando a gente não fala o corpo fala. Então eu
estava no PIESC, complicado. Senti uma fraqueza enorme, fiquei branco,
suando e tal. Eu estava me sentindo numa situação acuada, não sei como
é... aí ele prontamente me atendeu, conversando. Conversei com ele, fez
todas as medidas biológicas em mim, descobriu que eu não tinha nada.
Glicemia normal, pressão normal, e me aliviou bastante assim [...] (P3)

Um dos entrevistados cita um professor que afirma que, ao atender o
paciente, é necessário dar a ele toda a atenção, olhando-o no rosto. Os alunos
exemplificam situações deste tipo,em que uma conversa, um apoio psicológico,
foram bem mais resolutivos do que um medicamento prescrito ou uma técnica, como
o exame físico.
No estudo de Alves (2009), os alunos também estabelecem uma relação
entre o perfil e a atuação docente e a formação para a humanização na saúde. Em
outro sentido, mais favorável, as situações de aprendizagem para os entrevistados
deste estudo, dentro do contexto dos serviços de atenção básica, foram expressões
de humanização focalizadas no universo das denominadas tecnologias das relações
(TRAD, 2011).
Já em saúde coletiva, isso aí nem se fala, né? Assim como no PIESC, é o
momento que a gente mais se discute, que mais bate nisso, na postura, na
abordagem que foge um pouco dessa parte biológica da doença. É muito
legal o de saúde coletiva, o aprendizado é absurdo por conta disso. É como
um professor da gente fala, que na verdade a gente não vê muita
diversidade de doenças, a gente não vê tantas, mas a gente vê uma
diversidade de situações, de experiências que a gente passa. (P8)

A valorização das experiências e das relações dialógicas, num ambiente
pautado por compromissos éticos, potencializa a formação de uma sensibilidade
cultural, tida como fundamental no contexto da humanização para autores como

30

Caprara e Franco (2011). O professor tem, neste sentido, um papel fundamental
naquilo que Gadotti (2008) chama de educar os sentimentos que, para ele, seria
educar para sentir e ser sentido, para cuidar e cuidar-se.
Diretrizes da própria Politica Nacional de Humanização e que fazem parte do
processo de trabalho das equipes de saúde da família, entre os quais o acolhimento,
são acionados e refletidos com potencial tanto na produção de saúde como na
produção de subjetividades dos atores envolvidos no processo de aprender a cuidar
de modo humanizado. Como se observa na fala:
Ele (o professor) tinha muito aquela coisa de acolhimento do paciente, que
muitas vezes era feito por nós, internos, e sempre tinha que dar um retorno
àquele paciente, ainda que não fosse uma consulta, só uma solicitação de
exame, por exemplo. Isso era uma coisa que ele batia muito e a gente fazia
muito. E quanto à questão do atendimento humanizado, muitas vezes era
até uma coisa que ele falava, que o paciente chega pra você com uma
queixa que não é a verdadeira queixa que o levou ate ali. (P3)

Trad (2011), ao estudar a humanização no âmbito da atenção básica a partir
do encontro do trabalhador da saúde e o usuário, destaca que, por meio da
avaliação do acolhimento, é possível apreender a qualidade da recepção das
demandas expressas pelo usuário como, também, os critérios e condições de
acesso destes aos serviços de saúde. Estes aspectos, se transpostos à produção
pedagógica na teoria-prática de humanização, tornam-se importantes pontos de
avaliação do processo de aprendizagem, bem como trazem elementos à reflexão
crítica do sistema de saúde. Reflexão crítica esta que permite o reconhecimento de
que, mesmo numa realidade favorável de aprendizagem de humanização, os
serviços de saúde da atenção básica apresentam problemas que influenciam no
desenvolvimento de uma vivência de humanização na relação com a qualidade do
atendimento ofertado, como se observa na fala a seguir:
[...] A questão (humanização) na saúde coletiva é importante a gente
observar que os postos de saúde ficam responsáveis por muito mais família
do que é preconizado pelas diretrizes do Ministério da Saúde,
sobrecarregando toda a equipe de saúde, né? Os agentes comunitários, os
enfermeiros, técnicos enfim, isso acaba prejudicando, perdendo um pouco
de qualidade, nos atendimentos. As filas são maiores, a insatisfação é
maior, então os pacientes ficam mais ansiosos, as consultas acabam
precisando ser mais rápidas, o que já tem uma dificuldade também na
questão de resolutividade, isso aí também interfere nos encaminhamentos e
acaba gerando mais encaminhamentos do que o necessário, então, de
certa forma, isso já é um custo maior para o Estado, né? (P9)

31

Feuerwerker (2002), também aponta a desestruturação do mundo real como
dificuldade encontrada na formação médica. Porém, pontua também que, no estudo
das experiências de formação médica de Marília e Londrina, a articulação docente
de estudantes com a ESF, a despeito das dificuldades na realidade dos serviços,
revelou-se mais satisfatória, produtiva e prazerosa.

2.3.2.2.

Humanização em atividades curriculares na atenção especializada.
[...] a questão de humanização em saúde ela vem crescendo, mas ela ainda
está muito deficiente nos setores que a gente faz estágio (P1).

Ao situar as atividades curriculares do PIESC e do Internato de Saúde
Coletiva em uma realidade com condições, ambientes, sujeitos e visões
predominantemente favoráveis ao exercício e aprendizagem de humanização, os
sujeitos da pesquisa fazem confrontos e explanações sobre as outras atividades
curriculares que permitiram observar as marcas impressas destas atividades no
posicionamento dos mesmos.
Na compreensão do objeto desta pesquisa, outro sentido bem marcante em
construção: no cenário hospitalar há importantes rupturas, condições e lógicas que
influenciam as práticas discursivas sobre a aprendizagem de humanização na
formação médica que, para serem entendidas, fazem-se necessárias breves
localizações.
Os Internatos de Clínica Médica, Clínica Cirúrgica, Ginecologia e Obstetrícia e
Pediatria ocorrem em rodízio de turmas de cinco a seis alunos e tem como cenário
privilegiado de atuação os hospitais, embora destine uma parcela de carga horária
às atividades complementares de ambulatório em serviços especializados.
Os internatos no âmbito hospitalar são para os estudantes o auge deste ciclo
de formação, em que as habilidades técnicas profissionais podem ser observadas,
experimentadas, sentidas, avaliadas em imersão às condições reais da vida. Para
Feuerwerker (2002), é na aprendizagem em serviço que o futuro profissional constrói
também, pelo menos em parte,a ética das relações com os pacientes, baseados no
exemplo e na experimentação.
Neste sentido, os estudantes explicitam as posições e vivências do processo
ensino-aprendizagem que fazem sentido à humanização e buscam a explicação na
análise de conjunturas da própria organização dos hospitais, na relação entre teoria

32

e prática que se dá neste ambiente, no perfil do professor e da sua área de atuação
e na interação com os outros profissionais do hospital.
Para a aprendizagem de humanização na formação do médico do curso
estudado, a passagem entre o ciclo dos primeiros quatro anos ao ciclo dos dois
últimos anos (que corresponde aos internatos) tem o sentido de ruptura, perda.
[...] eu acho que quando chega no quinto e sexto ano é que a gente tem
essa perda maior. Quando entra no hospital você acaba perdendo essa
questão da humanização, principalmente quando você se debate com
profissionais que não são seus professores e que você vê que são
profissionais antigos. Então você acaba perdendo... vendo essa perda
assim da humanização. (P6)
[...] aqui no hospital as coisas não são tão faladas. O que eu achava assim
é que não falava: “Não, você tem que tratar o paciente com humanidade”,
isso não era uma coisa assim... você tem que ser mais sensível, isso não.
(P7)
[...] é um ambiente (o hospital) que não tem tanto assim... tanto
investimento, que não é nem financeiro, mas investimento de pessoal
mesmo, assim... humano mesmo, de um sentido de humanizar o serviço.
Então a gente sente muita falta dessa iniciativa de nos inserir. (P8)

A entrada no hospital como campo de práticas faz sentido à humanização
pela forma como o aluno vivencia a nova realidade, como expressa ou não os seus
sentimentos e as suas impressões e como, a partir dali, vai acontecendo o processo
de sua inserção no contexto daquele serviço:
É uma coisa que causa um choque muito grande na gente, até porque a
gente é solto aqui. Por exemplo, quando a gente entrou no início do curso a
gente faz um tour, conhece os postos e tudo mais. Quando a gente é
inserido aqui no ambiente hospitalar a gente é inserido: “Olha, você começa
tal dia!” Então não tem ninguém pra receber a gente. Não tem ninguém pra
falar nada. A gente chega e é jogado no serviço e acompanha, continua
acompanhando o serviço, continua tocando o serviço do jeito que ele é e
por aí vai, mas causa um constrangimento muito grande na gente. (P8)
Assim, eu nunca vi professor numa aula específica: “Vai começar o
internato e hoje vamos falar sobre humanização na Medicina”. Isso ai eu
posso ter esquecido, mas seria até interessante. Na prática é de forma
indireta que a gente acaba aprendendo isso aí, sobre o lidar, sabe? (P10)

Ao discorrer sobre o complexo processo adaptativo dos profissionais diante
da exposição aos fatores de estresse Nogueira-Martins (2011) chama atenção para
a saúde do cuidador ou, nos termos desta pesquisa, aos futuros cuidadores,
alertando para as manifestações de uma adaptação inadequada com repercussões
para si e para os outros.
Dentre tantos desafios que a situação traz, uma que se destaca pelo caráter
central seria a de tornar a chegada do estudante ao hospital uma oportunidade
singular de dar sentido a uma formação para a compreensão, esta que Gadotti

33

(2008) descreve como educação de-em-para comunicação, ou ainda, uma formação
para a pesquisa como sugere Demo (2001): aquela que questiona, que busca
resposta, que problematiza a realidade e que cria outros problemas, a que promove
a implicação ética e se solidariza com a criação de realidades mais equânimes.
É sobre esta realidade do hospital como campo de estágio, descrita em suas
condições adversas a uma prática qualificada de exercício de Medicina, que os
estudantes produzem um sentido de humanização de resistência e contrária a uma
violência física, psicológica e simbólica.
Começa primeiro pela entrada, né? Pelo corredor, assim quando você já
chega aqui você já vê uma situação assim muito complicada, muito delicada
que não tem um ambiente para o paciente, um espaço para o paciente, ou o
paciente espera lá fora do hospital ou o paciente fica no corredor que é esse
caos. Aqui que a gente vê macas espalhadas pelo corredor, que é uma
coisa que não deveria existir. Então assim, tudo isso eu acho que
desestimula as pessoas a buscarem mais e aceitarem isso aqui do jeito que
é. Não pensam muito em humanização. Uma coisa é isso aqui mesmo, esse
corredor, as condições que o paciente fica e, não só no corredor, que é o
que mais choca, que é o que a gente mais vê, que a gente mais tem
acesso, mas muitas vezes a enfermaria também é nessa condição. Muitas
vezes, o paciente não tem um espaço pra ele, não tem uma privacidade,
tem que dar banho num paciente junto com os outros doentes assim, no
meio [...] (P8)
É uma coisa que você não pode banalizar, na verdade, não é uma coisa
banal, né? Então, tudo isso aí faz parte da humanização [...] (P9)

Considerando as circunstâncias reais de escassez qualitativa e quantitativa
dos recursos dos serviços públicos de saúde, inclusive os hospitalares, Minayo
(2011) comenta que soa como impropriedade absoluta falar de humanização das
relações e cuidados, ressaltando que existem pré-requisitos estruturais para a
efetivação da humanização.
É bom situarmos que a humanização no Brasil se constituiu em ações
programáticas de saúde pública a partir de enfoque sobre o atendimento hospitalar,
sobretudo com a Política Nacional de Humanização Hospitalar (BRASIL, 2001). É
daí o berço das demandas sociais que justificam sua institucionalização nos diversos
movimentos que as reivindicam.
Para Deslandes (2011), o enfrentamento da violência institucionalizada
hospitalar que justificou a adoção de tais ações por parte do setor público oficial está
relacionado à própria historicidade desta organização (o hospital) que, ao longo da
modernidade, se legitimou como espaço de reprodução e dominação social através
de medidas de isolamento dos pacientes do convívio familiar e social, da submissão
disciplinar de seus corpos, de manipulações e experimentações em nome de um

34

saber e prática científica que não reconhecia o ser humano como pessoa de direito.
Esta é uma construção histórica que não deve ser desvencilhada da compreensão
dos problemas deste cenário de aprendizagem.
É salutar destacar que, nas circunstâncias da entrevista em seu caráter de
interanimação dialógica, os estudantes se direcionavam a uma descrição avaliativa
dos rodízios de internatos (quase que um por um) sobre diferentes nuances.
O Internato em Pediatria, por exemplo, tem especificidades que, nas falas dos
estudantes, produzem um sentido de aproximação com a aprendizagem de
humanização, embora algumas falas também destaquem aspectos estruturais e
funcionais como empecilho. Entre estas especificidades destacam-se: o públicoalvo, a relação com a família e o perfil do professor-pediatra:
[...] Eu vejo muitos professores recorrendo a professores de outros serviços.
Eles se envolvem pra resolver o problema daquele paciente [...] eu acho
que a maior parte dos profissionais que tem essa característica são os
pediatras mas, assim... não são todos, mas é onde se encontra a maioria.
(P1)
[...] Isso eu percebo que é uma coisa que cultiva na gente muito no internato
de pediatria porque eu acho que tem uma relação muito com família, né? A
gente trata a criança, mas acaba com a família toda entrando no bolo: vó,
tio, tia, quem cuida, quem dá um pouco de assistência. Isso na pediatria é
muito forte. (P5)
[...] Talvez lidar com criança e tudo mais, que tem um pouco mais desse
cuidado com o paciente, essa preocupação. Não sei se por conta de
coincidência dos profissionais, dos professores que a gente tem, ou se por
conta dos profissionais que buscam a pediatria terem uma sensibilidade
maior. (P7)

A pediatria tem uma vasta produção científica nesta temática (VILA; ROSSI,
2002; PAULI; BOUSSO, 2003; HENNING et al., 2006; MITRE, 2011) e um capital
cultural que está relacionado à luta pela garantia dos direitos da criança e isto faz
com que esta área de atuação tenha em sua identidade, enquanto formação social,
uma referência importante em torno da humanização.
Por outro lado, ao citarem o Internato de Ginecologia e Obstetrícia, o
destaque nas falas dos pesquisados está relacionado com a dependência da
atuação docente em uma aprendizagem de práticas humanizadas de saúde, como
explicita a fala a seguir:
[...] Em ginecologia e obstetrícia eu vi a parte mais da humanização no
momento do parto mesmo, que a gente fez no Hospital X, e estamos
fazendo essa parte da humanização também. No Hospital X... alguns
professores consideram as questões dos indivíduos, outros não. (P3)

35

Vale ressaltar que as contribuições deste campo de saber e prática médica
também tem sido substanciais ao movimento de humanização na/da saúde, porém é
também nesta especialidade que as resistências estão mais visivelmente
escancaradas.
A saúde da mulher é um campo de disputas que envolve, entre outras
questões, duas posições principalmente: uma de medicalização da reprodução e
outra baseada nas perspectivas de cuidados emancipatórios da mulher. Inserido
neste mesmo domínio de disputas, um aspecto destacado é o de que este campo de
estágio permite experiências reais no entorno das questões da saúde da mulher que
fazem sentido com a aprendizagem de humanização na formação do médico.
Em GO é mais esse cuidado assim, mas é mais direto mesmo, mais a gente
com a paciente. A gente lida também com situações um pouco difíceis [...]
chegou num plantão meu que a paciente conversou muito comigo, uma mãe
com criança anencéfala querendo fazer o aborto, então assim, como dar
suporte pra essa mãe? Então, é todo um jogo de cintura. [...] às vezes a
mãe chega com o feto e não tem batimento, então, como falar essa notícia
de forma ética respeitando, mas também de forma humana, né? Que a
gente possa dar um amparo, que a situação ali não vai ser fácil. Muitas
vezes elas desabam na frente da gente, começa a chorar, a gente ter que
às vezes chamar a psicóloga, correr pra chamar a assistente social pra dar
um suporte. Em GO é mais isso que a gente vê, estupro eu nunca atendi
não, mas assim a gente tem esses casos. Os professores tentam sempre,
quando surge uma situação dessas, orientar como dizer, como não dizer,
né? (P5)

Barbosa (2011) faz uma convocação a se pensar estes dilemas éticos em
torno das mulheres, vivenciados nos serviços e na formação em saúde, numa
premissa filosófica de indissociabilidade entre a vida material e simbólica. Para a
autora, as tensas relações entre ciência médica e corpo feminino tem como cerne
um sistema social que explora o trabalho feminino reprodutivo e produtivo ou, em
outras palavras, naturaliza o feminino com base na maternidade, destituindo as
mulheres de suas questões e necessidades próprias e não lhes reconhecendo o
direito de decidir.
E que, portanto, pensar estes dilemas éticos pressupõe, também, a reflexão
para a compreensão de como se dá a construção e a reprodução das ideologias de
gênero que são forjadas para o funcionamento do sistema capitalista em sua face de
desumanização da saúde. Porém, este estudo não permite incursões sobre como a
questão dos direitos da mulher vem sendo abordada dentro curso, o que poderia
tornar relevante a compreensão da aprendizagem de humanização neste campo de
estágio.

36

Seguindo a avaliação descritiva dos internatos, que tem o hospital como palco
principal, têm-se os internatos na clínica médica e cirúrgica. Num primeiro momento
de análise chamou a atenção, a recorrência de situações relatadas que serviram de
exemplo/vivência

em

aproximação

ou

distanciamento

à

aprendizagem

de

humanização que pertencem a estes dois campos de estágio, principalmente
relacionadas aos setores da UTI, emergência e Centro Cirúrgico.
Daí, fez sentido refletir sobre estes espaços/momentos curriculares como
potentes para uma aprendizagem de produção de saúde voltada à humanização,
mas que, ao mesmo tempo, se mostram como campos de ausências referidas ou
como versões de uma realidade de incertezas e contradições vivenciadas e
observadas pelos alunos pesquisados.
É nos internatos de clínica médica e cirúrgica, por exemplo, que são
colocadas as situações de distanciamento teoria e prática que tem sentido na
aprendizagem de humanização para a formação médica em aspectos como:
comunicação da relação paciente-profissional e resolutividade/qualidade de
atendimento. Veja como se observa a questão da teoria/pratica na comunicação
com o paciente situado neste contexto de aprendizagem no relato a seguir:
Eu passei pelo estágio da UTI. Para mim era o pior momento, era o
momento mais difícil, muito mais difícil do que você determinar uma
conduta, do que você fazer um tratamento, era você falar para a família, por
exemplo, do prognóstico de um paciente. [...] Acho até que a gente foi
preparado pra isso [...] É tanto que a gente tem nos tutoriais esses objetivos
biopsicossociais, então isso é discutido no curso. Mas não para de ser difícil
e, no final, você fica sempre assim: poxa, eu não podia ter feito isso (P2).
A questão do câncer pode ser discutida: se for terminal, tem várias questões
pessoais a serem resolvidas e a gente nunca fala disso lá... “não, não tem
perspectiva de tratamento, vamos esperar morrer”. Ele usa até uma
expressão lá que é até forte: “se parar parou”. Conversar com o paciente
sobre prognóstico reservado é uma coisa que falta bastante no nosso curso,
eu acho. A gente discute muito comunicação na teoria, pelo menos... e na
pratica, às vezes fica até um pouco... (P3).
Eu sinceramente não fui preparada pra dar más notícias. O preparo que eu
tive foi observando alguns médicos dando essa notícia e vendo como: “ah,
não, eu acho que aquele ali deu de uma forma mais... acho... pô gostei”.
Então, outro: “de jeito nenhum, não posso fazer aquilo de jeito nenhum”.
Foi uma coisa muito mais minha, uma interpretação minha do que falar,
assim: “não gente, hoje não vamos falar sobre isso porque, pô isso é uma
coisa muito importante”. Eu acho também muito importante, mas não foi
uma coisa discutida na faculdade, não que eu me lembre, não foi uma coisa
discutida (P7).

Nogueira-Martins (2011) também constatou que o ensino da relação médicopaciente pode ser desvinculado de uma atividade prática se apenas for veiculado a
momentos iniciais da graduação. Porém, experiências que tentam superar este

37

problema já vêm sendo desenvolvidas a partir de estratégias em que o aluno vê os
pacientes e discute os casos com clínicos e cirurgiões junto com professores
psicólogos que observam os atendimentos realizados (PUCCINI et al., 2008).
Com maior ênfase nestes internatos, os alunos destacam aquilo que se
discute como negação do estatuto da pessoa: tratam pessoas como coisas, pessoas
como problemas, pessoas interagindo com icebergs e pessoas como recipientes de
cuidados subpadronizados (DESLANDES, 2011), respectivamente explicitados nas
falas que se seguem:
A maioria dos professores trata o paciente como alguém que deve ser
aberto, fechado, corrigida a lesão que for lá e pronto, sendo que tem a lesão
do paciente, tem uma história importante, porque que ele chegou àquele
ponto. E tem o adiante. Ele pode até voltar [...] (P3).
Clínica médica e cirurgia nem tanto, é mais patologia. Cirurgia,
principalmente, né? Que você vê a patologia e trata a patologia, tirou, pronto
e aí já não é mais cirúrgico, pronto (P6).
A gente não aprendeu a lidar com isso no “como fazer”, sabe? Essa
questão é muito negligenciada, eu acho a questão psicológica. Tanto,
nossa! Como a gente pode fazer pra se envolver sem ficar tão frio, sem ser
tão indiferente [...] com o sofrimento do outro, eu acho que desses dois
lados aí da gente não foram trabalhados de forma adequada (P7).
Foi no internato de cirurgia também, porque é comum entrar baleados,
esfaqueados, e alguns professores falam pejorativamente... da abordagem
a esses pacientes de maneira bem depreciativa mesmo. Por exemplo: “não
vou atender, deixa morrer” (P3).

Estas características de uma prática desumanizadora de cuidado são
evidências de uma lógica cientifica na qual a Medicina constrói seu objeto e sua
identidade como prática social (DESLANDES, 2011). O desafio posto a uma prática
pedagógica que se propõe desenvolver uma formação humanística é de dar partida,
colocar em movimento a reflexão crítica sobre os modos como a Medicina vem se
constituindo como uma construção social.
[...]cirurgia e clínica médica é uma coisa bem precária, não pára muito pra
pensar nos problemas. Talvez o indivíduo não é inserido naquele aspecto
biopsicossocial que a gente tanto discute, né? Só vê mais a parte biológica,
então o psicossocial do paciente muito pouco é discutido, é debatido, tanto
em cirurgia quanto em clínica médica. (P8)

Para apreender o biopsicossocial é preciso discutir, debater e refletir sobre a
prática instituída e também experimentar inovações e práticas clínicas baseadas em
projetos participativos com os usuários.
Ainda em consonância com a relação teoria/prática de humanização em
clínica médica e cirúrgica estão as questões de resolutividade, como assim se
expressam os alunos:

38
[...] a humanização entra assim. Por exemplo, a gente sempre é orientado a
pedir e fazer o melhor pelo paciente. Se é pra pedir uma tomografia, não
tem no hospital, seu dever é pedir. Eu peço. Aí, a gente é orientado a correr
atrás, ir lá, a coordenação deixar. A gente faz a solicitação e vai à
coordenação, então isso a gente é orientado. Só que, chega, você faz isso e
pronto, se não resolveu fica aí. Por isso mesmo acaba não fazendo mais
nada. (P6)
Em relação à humanização, eu acho que a gente está conseguindo fazer na
medida do possível. Foi uma paciente no Hospital YY, uma paciente até
jovem, que tinha uma doença que não estava fechado o diagnóstico. A
gente correu atrás de exames pra fechar, infelizmente não conseguimos,
mas na medida do possível a gente conseguiu estabilizar essa paciente.
Então, quando a pegamos estava toda descompensada e ela saiu de lá
bem informada. Talvez nós não mudamos o prognóstico, mas pelo menos a
qualidade de vida dela a gente modificou e isso eu achei legal. (P10)

Assim sendo, a humanização é vista como a capacidade de oferecer
atendimento de qualidade e resolutivo, articulando os avanços científicos e
tecnológicos com o bom relacionamento, como os propostos pelos discursos oficiais
analisados no estudo de Deslandes (2004).
A relação da teoria e da pratica da humanização que está atrelada à
qualidade e à resolutividade do atendimento funciona como uma saída, uma
resposta, uma justificativa à inquietante indagação de naturalização do termo
(Humanizar o que? Por acaso, não somos humanos?) que está presente em
questionamentos dos profissionais de saúde quando se fala do tema e que também
aparece nesta pesquisa:
Eu acho que às vezes é ate um contrassenso esse termo, a gente
humanizar a saúde, porque na verdade a saúde ela tem que ser humana
[...] (P2).
Acho que desumanização na palavra, no setor de saúde, é uma coisa que
não existe, porque você lida o tempo todo com essa questão de você ter
sensibilidade com o sofrimento alheio, né? Então, pra você ser assim... de
maneira adequada, eficiente e eficaz, a humanização é, sem dúvida, o
primeiro passo [...] (P9).

Barros e Passos (2005) apresentem importantes contribuições no sentido de
refletir a aprendizagem de humanização na formação médica e que podem ser úteis
ao

contexto

apresentado

por

esta

pesquisa

quando

considera

que

a

desnaturalização do conceito de humanização é também uma aposta na criação de
novos modos de fazer, à medida que ao “desnaturalizar” se aponta para o jogo de
forças, de conflitos e de poder que institui sentidos hegemonizados nas práticas
concretas de saúde.
Ainda sobre a articulação entre o técnico e o relacional que aproxima a
qualidade do atendimento com a humanização, os estudantes situam a

39

humanização como resultante das condições de trabalho e do cuidado ao
trabalhador em saúde, como explícito nas falas:
[...] quem trabalha aqui (no hospital) passa muito sufoco. Os nossos
professores tentam fazer muito, mas às vezes não está no alcance deles
(P5).
O que eu acho também que, assim: como eu estou praticamente formando
daqui a quinze dias, aí por exemplo, a realidade vai ser diferente [...] uma
coisa é você ser humano e chegar em um ambiente que não lhe dá
condições de trabalho. E ai você já está ali, óbvio que se você vai ser
humano você está se submetendo a isso. Mas assim: até quando eu vou
poder ser humano, chegando para um doente que está aqui na minha mão
com essas condições que eu tenho? (P6).
A gente percebe que os profissionais estão extremamente sobrecarregados
e muitos desenvolvem até transtornos com relação a isso, né? Desenvolve
processos alérgicos por uso de máscara, por uso demasiado de luvas
devido à exposição a esses derivados do látex, muitos desenvolvem
algumas fobias por conta da cobrança que é muito grande, tanto da auto
cobrança quanto da exigência do hospital, do acesso, de produtividade que
tem que se fazer, isso acaba gerando um problema muito grande [...]
porque dentro do próprio atendimento só a falta de estrutura acaba sendo
um pouco desmotivadora na prática diária, acaba trazendo muita frustação
e para lidar com essa questão da frustação, infelizmente no momento, só o
recurso mesmo é que seria fundamental, porque fora isso aí é um trabalho
muito mais de tentar apagar incêndio, né? (P9).

A situação de sobrecarga, adoecimento e pressões dos trabalhadores na
realidade das práticas destes internatos se presentificam na fala dos estudantes.
Mais uma vez temos como pano de fundo os fatores macroestruturais do SUS
influenciando sobre a produção de saúde. Desconsiderá-los é tratar a questão da
humanização como um conceito-sintoma ou um modismo com tendência de
simplificar conflitos e problemas estruturais do SUS e de desvalorizar o ser
humano.Para esta forma de concepção, o remédio é sintomático: a sensibilização
dos trabalhadores para desenvolver cuidados humanizados (CAMPOS, 2005) tendo
um efeito colateral mais deletério ainda.
No ensino médico, faz sentido se apostar na humanização como um conceitoexperiência de empoderamento para a construção de coletivos que elaboram suas
metas a partir de seus conflitos, negociações e escolhas.
Esta aposta no conceito-experiência de humanização também seria como
resistir de duas formas: uma é se opondo aos modos, valores, práticas e instituições
competitivas e violentas,a outra é resistir na criação de relações mais democráticas
(BARROS; PASSOS, 2005).
[...] mas, os professores, apesar das dificuldades, tentam motivar, mostrar e
dar uma perspectiva de que as coisas podem melhorar que a gente pode
resolver de alguma maneira, né? Tanto como profissional como cidadão,

40
também a gente dá uma resposta, a gente ser um pouco mais participativo
na questão das decisões, dos recursos públicos, a gente ter iniciativa em
pleitear cargos que envolvem cargos de chefia pra tentar modificar um
pouco a situação [...] (P9)

O que é trazido através da fala acima é a consideração da educação também
como um agir político, e é assim que se apresentam novas possibilidades da
aprendizagem de humanização na formação do médico.
Como diz Artmann e Rivera (2011), a despeito de uma forte cultura de
tradição instituída e presente nestes cenários, a evolução cultural se desenvolve na
emergência de práticas discursivas alternativas que buscam sua legitimação a partir
de um agir comunicativo de disputa e contradições.

2.3.2.3.

Humanização na relação aluno-professor
[...] A gente exige que o médico seja humano, mas a gente não exige que a
formação do aluno seja humana. [...] (P10)

Ao avaliar os contextos da aprendizagem de humanização na formação
médica, os alunos colocam claramente a atuação docente (professores e médicos
preceptores dos serviços) em posição de destaque. Em diversas falas, como
aquelas já apresentadas, o professor exerce papel de influência sobre como os
sentidos de humanização são (re)construídos ou descontruídos.
Outros estudos que também versam direta ou indiretamente em torno da
temática da formação médica na relação com a humanização apresentam e
analisam aspectos da relação discente-docente (CASSATE; CORRÊA, 2006;
HOTIMSKY; SCHRAIBER, 2005; GOULART; CHIARI, 2010; BINZ, 2008; AZEVEDO;
RIBEIRO; BATISTA, 2009; BINZ et al.,, 2010; RIOS; SCHRAIBER, 2012).
Nesta pesquisa, a relação professor aluno é referida em seu aspecto negativo
ao exercício do poder centralizado e autoritário do professor. O estudante afirma que
isso é um problema presente desde o inicio, pois considera o acompanhamento
dispensado pelo professor como inadequado e incompatível com seu estágio de
aprendizagem:
[...] Porque a gente está nesse processo de aprendizagem, a gente vai
errar, claro, a gente vai falhar com qualquer pessoa está passível de falhar.
Não tem ninguém no mundo que não possa falhar, ainda mais a gente que
está na Medicina e está aprendendo. [...] o primeiro momento que a gente
começa a atender de verdade, que começa a fazer anamnese, exame
físico... eles criticam de maneira, por exemplo, assim que “está um lixo”. A
gente já ouviu essa expressão: “isso aqui não presta, você não presta pra

41
nada”. Não ouvi para mim, mas eu ouvi na frente de muitos colegas.
Comentar a anamnese de um o colega nosso, na frente, de todo mundo,
dizer, humilhar o colega na frente de todo mundo (P3).

Como nesta pesquisa, o estudo de Rios e Schraiber (2012) também relata a
interação aluno-professor marcada por agressividade e intimidação. Para estas
autoras, reforça-se e imprime-se a marca de opressão ao encontro pedagógico, que
pode também ser dimensionado ao encontro clínico, onde ficam estabelecidas as
relações de poder assimétricas e o assujeitamento do outro, na contramão da
afirmação de princípios de humanização que hoje são enfatizados.
O estudante ainda identifica problemas nesta relação em virtude do alto nível
de rendimento exigido e a falta de compreensão e acolhimento às suas eventuais
necessidades fora do contexto do ensino-aprendizagem e que esta discrepância tem
repercussões no seu modo de ver o outro, no processo de trabalho, na sua própria
vida acadêmica ou ainda em sua saúde:
A gente não pode ter nossos problemas, não pode ter dificuldade em
algumas coisas. Quer dizer, alguns consideram a gente que tem que ser
especialistas em todas as áreas, saber tudo, ser infalível. Eu acho que isso
é até um problema quando a gente fala muito de humanização com o outro,
mas a gente não tem pro nosso lado. A gente fica até um pouco frio em
relação a dar atenção pra o outro: “ah, se não me dão...”. Eu [...] sempre
pensei nisso em relação a essa questão. (P3)
[...] o que eu vejo, o que eu já passei pela universidade, é que o nível de
exigência é muito alto e muitas vezes o aluno não tem o direito de perder
um familiar, ter um problema pessoal, psicológico, entre outros, porque ele
vai ser punido de alguma forma. Ou ele é mal visto quando ele retorna, ou
ele toma falta e perde, ou, se ele vai fazer segunda chamada de uma prova,
faz uma prova pra ele não passar mesmo [...] (P10)

Especificamente sobre a saúde do estudante, este aspecto pode ser motivo
de preocupação para a gestão do curso, haja vista a recorrência dos relatos que
associam determinadas condições e situações vivenciadas durante a trajetória do
curso, sem que haja, contudo, no atual momento, um suporte institucional que possa
servir como ponto de atenção e retaguarda às demandas acadêmicas e emocionais
do aluno:
[...] Então, toda essa carga me deixou mal. Eu estava tomando Rivotril pra ir
pra UTI, nessa época. Já estava assim sem aguentar mesmo ir. Mas acabei
indo, só que essa carga passa pra gente entendeu? Essa coisa de ver as
coisas e não poder fazer nada, eu tentava conversar com a menina do
suicídio, tentava sabe? E aí aconteceu um problema lá com a diálise dela,
ela faleceu também. Sei lá, é muita carga, como é que se diz... a gente
realmente precisa. [...] Então faço minha terapia por fora, pra lidar com
essas coisas e, mesmo assim, a gente não lida cem por cento. Aí eu
comecei a fazer ioga, tudo por fora pra ver se eu relaxava um pouquinho. E

42
isso tudo me ajudou, mas e quem não pode fazer, entendeu? Leva essa
carga toda sozinha. No meu curso tem, eu acho que assim, 70 por cento
dos alunos tomam alguma coisa, ou ansiolítico ou antidepressivo,
entendeu? E isso tudo eles iniciaram durante o curso porque não
aguentaram a carga. Se não for 70 é ate mais, viu? Estou falando das
pessoas que eu sei assim que começaram a tomar. Então, é muita carga,
entendeu? (P4)
[...] mas, eu acho que ainda existe muito. Tanto é que, quando você busca
ver as turmas, sempre tem algum aluno com algum problema emocional,
psicológico, tem muita dificuldade. E, às vezes, a gente não sabe: “Poxa,
será que tem que ser revista carga horária, será que tem que ser revista a
forma de cobrar o aluno?” Essas coisas que eu acho que na UESB existe.
Não sei se é a cobrança que é demais, não sei. Mas, eu sei que isso aí,
para o aluno, parece como se não existisse humanização para o aluno.
Você tem que ser perfeito. (P10)

Ao tempo que também é possível, na realidade estudada deste curso,
apreender lições de cuidado na relação professor-aluno. Estas são cultivadas com
muito afeto, principalmente quando relacionadas a uma superação que tenha sido
possível a partir de um momento de dificuldade:
[..] Eu acho que, felizmente não são todos os professores. Tanto é que, se
eu estou aqui hoje no sexto ano, é por causa de alguns professores que,
diferentes dos demais, eles não tiveram essa visão de: “Ah, você tá com
problema, você não tem...”. Pelo contrário, deram-me apoio e eu superei
mais o pessoal e continuei [...] (P10).
[...] então eles ajudam muito nessa questão de suporte psicológico. Além do
mais, como eles tem mais experiência, a gente se vale muito disso, mais da
experiência, né? Das orientações e dessa crença, na verdade, que é o que
motiva, né? De que as coisas podem mudar e que a gente precisa ser um
agente ativo, né? A gente precisa ser um autor e participar das decisões de
mudança (P9).

Para Rego et al.,, (2008), a prática docente pode ser profundamente
formadora, transformadora e humanizadora, pois todos os professores deixam
marcas nos alunos, sejam positivas ou negativas. A lição advinda do apoio dado não
causa a temida perda de autoridade, ao contrário, vincula a sua autoridade à
responsabilidade com o aprendizado, ao interesse no ensino e nas pessoas
(RIOS;SCHRAIBER, 2012).

2.4.

Considerações Finais
A humanização na formação do médico está submersa em importantes

desafios que são, sobretudo, relacionados ao contexto de sociedade em que se vive,
do contexto do sistema público de saúde em que se trabalha, ensina e aprende e,
ainda, ao contexto específico da prática médica hegemônica.

43

Daí que parece oportuno a um curso como o de Medicina da UESB a
insistência na reflexão crítica e coletiva destas realidades, a resistência às formas de
manipulação e de opressão que instaura e mantem as violências nas instituições
que participam da formação, bem como a crença de que, a partir de uma
aprendizagem coletiva, a humanização possibilita a experiência de uma formação
médica mais rica e completa.
A despeito de um ensino e um sistema de saúde voltado fortemente ao
cuidado individual, a primeira reflexão trazida pela pesquisa é a de que humanização
faz parte da tecnologia do cuidado, centrada na relação médico-paciente. Neste
aspecto, o estudante questiona, contradiz e reflete a humanização nas atitudes que
coisifica o usuário e que estão muitas vezes justificadas ao clássico raciocínio
médico, ao êxito técnico, ao seguimento de protocolos, a impotência e adaptação
aos modos instituídos.
Este posicionamento dos estudantes da pesquisa me faz crer na potência de
ampliação da abordagem da humanização ainda na graduação médica. As
possibilidades se assentam em agir-refletir o cuidado centrado no usuário, e não na
doença. Nesta perspectiva de cuidado pode se aproveitar da discussão acumulada
acerca da clínica ampliada. Para tanto, faz-se necessário aproximar esta discussão
da realidade do curso e apostar na experiência do cotidiano de efetivação destes
outros novos modos de encontros entre usuário-aluno-professor. Parece-me
oportuno ainda que esta construção não se restrinja apenas ao curso de medicina,
mas como parte de um esforço coletivo de formação dos profissionais de saúde.
Sobre os contextos de aprendizagem, o hospital, ainda assume uma
centralidade na formação do médico. É neste espaço tradicionalmente organizado
em uma rígida hierarquia que a problematização da humanização deva ser
assumida enquanto um dos modos de resistir e de lutar pelo sistema público de
saúde. Pensar neste espaço como cenário de formação-intervenção da área de
Saúde Coletiva do curso em questão seria uma demanda a ser estudada haja vista
as contribuições que tem esta área têm experimentado com destaque à
aprendizagem de humanização no campo dos serviços da atenção básica. Contudo
isto só não basta, os desafios aí estão, sobretudo relacionados às formas de
relações de poder instituídas e instituintes.
O empoderamento dos sujeitos através da formação dos coletivos em
espaços de gestão democrática podem desestabilizar as formas e relações de poder

44

opressivas vigentes na realidade hospitalar. Neste caminho, é fundamental a
promoção dos encontros e dos fóruns de discussão e decisão. Mais do que as
críticas cotidianas comuns à convivência institucional é preciso fomentar a
grupalidade propositiva aquela que é capaz de questionar e lutar pelas condições de
qualificação e resolutivade dos serviços. Grupalidade esta que acredita e cria seus
próprios mecanismos de abordagem da realidade e que estabelece e efetiva,através
de processo contínuo e participativo,os compromissos e responsabilidades de
profissionais, usuários, gestores, professores e alunos.
Os docentes têm papel de destaque nos contextos da aprendizagem de
humanização, quer seja no exemplo do exercício da Medicina quer seja na
interrelação com o aluno. Os estudantes falam, refletem e aprendem ao se
decepcionarem com as atitudes desumanizadas de profissionais e, principalmente,
de professores frente a usuários e a eles. Também reconhecem a importância da
adequada relação interpessoal para produzir afeto, sentido e entendimento do
exercício humanizado da profissão médica. Neste sentido, os espaços e canais de
partilha e escuta devem ser instituídos também no meio acadêmico de maneira
ampla, acolhedora e participativa durante todo o itinerário formativo.
Assim como se avançou na experimentação das metodologias ativa de
aprendizagem é preciso ação-reflexão em processos de formação de médicos
enquanto sujeitos ativos na defesa e luta dos direitos dos usuários.

2.5.

Colaboradores

COSTA, AN trabalhou na concepção e delineamento da pesquisa, análise e
interpretação dos dados e redação do artigo; AZEVEDO, CC. trabalhou na
orientação da pesquisa e revisão crítica do artigo.

2.6.

Agradecimentos

Agradeço aos membros do curso de Medicina da UESB pela participação e
colaboração na pesquisa

45

2.7.

Conflito de interesse

O autor declara não haver nenhum conflito de interesse.

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49

3. PRODUTO DE INTERVENÇÃO
3.1.

Título
Comunidade Ampliada de Pesquisa: fomentando a formação de um coletivo

de humanização.
3.2.

Público alvo
Professores, servidores das universidades, trabalhadores das instituições

parceiras da formação e estudantes dos cursos da área de saúde.
3.3.

Introdução
Num sentido mais geral, o movimento de humanização éum empreendimento

do cotidiano em saúde. Tornar este empreendimento uma realidade visível, sentida
e vivenciada pelos sujeitos da saúde é um desafio. Isto porque a humanização
enquanto movimento aposta na aprendizagem coletiva e na geração de outros
modos

de

subjetivação

sem,

contudo,

contar

com

uma

receita

pronta,

homogeneidades e unanimidades.
A pesquisa intitulada “Sentidos da humanização no processo ensinoaprendizagem de graduação em Medicina” forneceu pistas e possibilidades de
potencializar avanços a luta de melhoria do SUS e da própria profissionalização em
saúde.
Especificamente, na atual conjuntura da formação em saúde no município de
Vitória da Conquista, faz sentido a abordagem da humanização como um conceitoexperiência (BARROS; PASSOS, 2005). Abordagem esta que aqui se refere às
condições particulares dos contextos de aprendizagem e sobre esta realidade a
humanização tem sentido de formação-intervenção (BRASIL, 2010).
Verdi et al., (2014) ao refletir sobre o processo de formação como
experimentação ético-estético-política, naquilo que propõe o movimento de
humanização na saúde, sugere que este deva se basear na problematização da
realidade e dos modos de subjetivação que nela aparecem.
A problematização, sobretudo relacionada ao contexto hospitalar, provocada
na produção da referida pesquisa, nos colocou diante da inquietude de criar as
estratégias de mobilização da humanização neste cenário de formação, tarefa esta
que envolve múltiplos saberes e mãos.

50

As experiências concretas sobre o trabalho da promoção da humanização na
saúde que se faz em coletivos e tem se acumulado ao longo destes anos de
HumanizaSUS. Vários formatos têm sido propostos e experimentados nos serviços e
na gestão em saúde. Os mais específicos, por exemplo, são: grupos de trabalho de
humanização (GTH), câmaras técnicas de humanização, colegiados de co-gestão,
comunidades de práticas, comunidade ampliada de pesquisa, entre outros.
Estes são exemplos práticos da humanização que se assentam num
dispositivo da Política Nacional de Humanização que é de fomento a grupalidade.
Nos termos deste trabalho, grupalidade é aproximado à noção de:
Experiência que não se reduz a um conjunto de indivíduos nem tampouco
pode ser tomada como uma unidade ou identidade imutável. É um coletivo
ou uma multiplicidade de termos (usuários, trabalhadores, gestores,
familiares, etc.) em agenciamento e transformação, compondo uma rede de
conexão na qual o processo de produção de saúde e de subjetividade se
realiza. (BRASIL, 2008, p.15-16).

A escolha entre estes vários modos de operar a grupalidade tem sido a partir
das necessidades reais dos serviços e dos arranjos organizacionais que se tem nas
instituições de saúde.Neste aspecto chama atenção que na realidade dos dois
hospitais que servem como campos de estágio aos internatos da graduação médica
em Vitória da Conquista há a iniciativa dos GTH (Grupo de Trabalho de
Humanização).
A aproximação a estes grupos pelos estudantes do Internato de Saúde
Coletiva – Gestão em Saúde (6º ano do curso) nos meses de julho e agosto do
corrente ano permitiu entender a dinâmica de funcionamento destes GTH bem como
suas demandas internas e externas. Em comum estes grupos relataram pautas
recorrentes durante suas reuniões, dentre as quais duas se destacavam: as
constantes queixas efetuadas pela direção das unidades referentes à relação
usuário-profissional e a pouca participação dos trabalhadores em momentos de
integração e educação permanente promovidos nas unidades.
Sob estas circunstâncias que envolvem o protagonismo e a valorização do
trabalhador e pensando na perspectiva dos limites e potencialidades da universidade
integrada àquela realidade foi proposta a formação de um coletivo nos moldes de
uma Comunidade Ampliada de Pesquisa (CAP). Além destes aspectos citados
anteriormente, características referenciadas às Comunidades Ampliadas de

51

Pesquisas justificam a sua escolha como intervenção potente para a dupla tarefa de
produção de saúde e de sujeitos (BARROS; PASSOS, 2005).
Uma destas características está ligada a história de formação deste tipo de
comunidade aqui no Brasil, que ganhou força, sobretudo, a partir de um programa
de formação de saúde e trabalho, onde o mundo do trabalho é o foco da atenção de
estudo e de atuação (BRASIL, 2008). O que muito se aproxima com a ideia de
promover uma integração formação-intervenção:
Este novo modelo de produção de conhecimento - relação entre saberes
"formais" dos pesquisadores (acadêmicos/científicos) e saberes "informais"
dos trabalhadores – aparece como uma nova forma de fazer pesquisa no
ambiente de trabalho e de interpretar o processo saúde e doença.
Denominado de Comunidade Científica Ampliada (CCA), ao invés de
ignorar ou desqualificar a experiência dos trabalhadores, o saber científico
dialoga com o saber operário, tendo, como ponto de partida, a pesquisa
sobre o local de trabalho. Buscava-se compreender as condições e as
dinâmicas que podem gerar o sofrimento e conduzir ao adoecimento, bem
como as estratégias que esses trabalhadores criam no seu dia-a-dia de
afirmação de saúde e de vida. (MORI; SILVA; BECK, 2009, p.722)

Trata-se da constituição de momentos, espaços de estudo, convivência e
conversa, pensados e organizados para um aprofundamento problematizador que
busca a ampliação da capacidade de análise, negociação e de pactuações em torno
do possível (BRASIL, 2008). A comunidade ampliada de pesquisa se torna uma
tentativa a mais de se estabelecer, através da pesquisa em ação, vínculo entre
gestão e clínica.
As comunidades ampliadas de pesquisa podem ter entre seus membros
consultores, pesquisadores, professores e estudantes em diferentes situações no
universo do processo saúde-doença, mas tem sobre o trabalhador o foco de sua
atuação. Estes membros podem ter uma atuação mais contínua ou apenas
esporádica, o que daria à comunidade uma modelagem plástica, flexível e
democrática. “Cada trabalhador, ao participar desse processo, é convocado a:
apropriar-se dos conceitos apresentados, realizar estudos sobre sua realidade,
socializar suas produções e debatê-las nos encontros da CAP” (MORI; SILVA;
BECK, 2009).
A promoção de encontros de uma comunidade ampliada de pesquisa é
sustentada pela convivência das diferenças o que pode enriquecer o diálogo e a
prática interdisciplinar e qualificar processos e as interações entre os seus membros.
Os conflitos e dissensos são tomados como elemento ao processo criativo de

52

refletir, propor e negociar soluções. Além disso, inserir os estudantes de Medicina
em uma CAP possibilitará que estes antecipem visões, observações e reflexões
sobre a complexidade de um mundo do trabalho plural que, na formação em saúde,
privilegia, na maioria das vezes, o aprendizado isolado e unilateral de uma área
profissional específica.
Mori, Silva e Beck (2009) chamam atenção para o fato de que a implantação
e o funcionamento da CAP podem se tornar modos de reproduzir queixas e
reclamações e, desta forma apenas, restringe os processos de mudanças e de cogestão. Estes autores apontam a importância do trabalho de apoiadores externos
(aqui, podem ser os professores e alunos) no enfrentamento dos impasses entre
trabalhadores e gestores pelo deslocamento necessário no exame destas situações.
Como o sentido da grupalidade não é assumir uma identidade imutável, neste
momento inicial, a Comunidade Ampliada de Pesquisa teria como papel dar suporte
as atividades dos GTH e teria seu caráter orgânico e de continuidade relacionado à
produção acadêmica no Internato de Saúde Coletiva – Gestão em Saúde - em que
as turmas têm como um dos objetivos de aprendizagem o desenvolvimento e/ou a
participação em projetos de intervenção nos serviços e na comunidade.
A estratégia de organizar a CAP seria agir por ciclos de demandas com início
e fim determinados, o que facilitaria processos de retroalimentação, divulgação,
avaliação e planejamento, bem como ajustes vinculados às mudanças constantes e
comuns aos contextos dos serviços de saúde.
Estes ciclos teriam objetivos e questões de investigação alinhados às
diretrizes do HumanizaSus e seriam referendados nos fóruns de discussão
existentes nas unidades hospitalares (comissões hospitalares e grupos de trabalho,
por exemplo). Os ciclos da CAP seriam fomentados pelas necessidades
identificadas diretamente no mundo do trabalho em saúde, valorizando e incluindo
neste processo o trabalhador do serviço como sujeito crítico-reflexivo da produção
de saúde e não apenas como pesquisado.
Ao final de cada ciclo haveria o momento de partilha das experiências, de
catalisar as vivências no enfrentamento dos problemas cotidianos e também de
avaliar o caminho percorrido, as mudanças e resistências enfrentadas e de definir
novos rumos.

53

Desta forma apresentaremos como produto de intervenção a proposta de um
primeiro ciclo da Comunidade Ampliada de Pesquisa que seria o da sua própria
formação em um dos dois hospitais que servem como campo de estágio,
acreditando

na

sua

potência

para

produzir

posteriormente

movimentos

desencadeadores de mais movimentos, estes comprometidos e afirmadores da vida,
ao contagiar e perturbar os processos instituídos, agindo como força de intervenção
(MATIAS, 2012).
3.4.

Objetivo
Fomentar a implantação de uma Comunidade Ampliada de Pesquisa

(CAP)em um dos hospitais que servem como campo de estágio aos internatos da
graduação em Medicina – UESB campus de Vitória da Conquista.
3.5.

Metodologia e conteúdo programático
Para fomentar a implantação desta CAP tomamos como pontos de partida os

seguintes aspectos: a integração da turma do Internato de Saúde Coletiva com o
GTH do hospital; desta integração, um tema: “Gestão e saúde-doença dos
trabalhadores” e; deste tema, uma questão desencadeante: “O que a gente vai olhar
no cotidiano de nosso trabalho e que pode estar causando sofrimento?”.
A constituição deste primeiro grupo da CAP deverá incorporar trabalhadores–
integrantes do corpo diretivo, gestores, especialistas, técnicos e auxiliares, sendo
estes membros das unidades de produção de saúde (emergência, centro cirúrgico,
Central de Material Esterilizado, UTI, unidade de internação pediátrica, alojamento
conjunto), todos com formações diferentes e de níveis também diferentes,
constituindo um olhar múltiplo e complementar.
A ideia que é que, a partir deste primeiro movimento, outras investigações
sejam objeto de estudo-intervenção-formação. Para tanto, neste primeiro ciclo de
demandas foi proposto um conjunto de atividades divididas em três momentos: de
concentração, de dispersão-multiplicação e de exposição-avaliação.
Com base no trabalho relatado no documento do Ministério da Saúde
(BRASIL, 2008) discutiu-se e adaptou as atividades para a nossa realidade, como
descrito a seguir:

54

MOMENTOS DE CONCENTRAÇÃO

Encontro 1 (1he 30 min.): Saúde, cadê você?
1. Apresentação dos participantes;
2. Estabelecimento do contrato – horário e funcionamento da dinâmica grupal;
3. Levantamento de expectativas dos participantes: abertura de espaço para
expressão das primeiras impressões dos participantes sobre o trabalho a ser
desenvolvido e a realidade de trabalho em que se encontram;
4. Problematização a partir do tema “Saúde do Trabalhador” e sua importância
para a concretização da PNH;
5. Leitura dos textos “O trabalho”; “Quando o trabalho apresenta um risco para a
saúde”; e “Gestão e saúde-doença dos trabalhadores” em subgrupos;
6. Debate

sobre

os

textos

no

grande

grupo

relacionando

ao

tema

“Trabalho/Gestão e Saúde do Trabalhador”;
7. Exposição dialogada sobre o tema CAP procurando esclarecer as dúvidas
sobre como se daria a efetivação das CAP no ambiente de trabalho;
8. Fechamento das atividades do dia, esclarecimentos sobre o funcionamento
dos demais encontros e lançamento do desafio para que cada participante
registre aspectos do ambiente de trabalho que estejam merecendo atenção
da CAP.

Encontro 2 (1h e 30 min.): Pesquisa-ação no cotidiano de trabalho

1. Resgate das atividades realizadas anteriormente, com definição do tema a
ser analisado pela CAP (delimitação do foco de análise): a partir da
consignação “O que vamos observar no cotidiano de nosso trabalho e que
possa estar causando sofrimento?”, solicita-se para que cada participante
registre, em uma tarjeta, um aspecto do ambiente de trabalho que esteja
merecendo atenção da CAP;
2. Construção coletiva de um “mapa de risco”, em formato de painel a ser
afixado em parede e mantido permanentemente atualizado. Ou seja, constrói-

55

se um painel em que possam ser anotadas e visualizadas as dificuldades do
ambiente de trabalho que causam desgaste e sofrimento no cotidiano
profissional;
3. Discussão sobre a demanda de análise do ambiente de trabalho e
encaminhamento para escolha de um tema, a partir da governabilidade do
grupo, para introduzir mudanças no ambiente de trabalho. Equalização da
compreensão do tema escolhido;
4. Desdobramento do tema escolhido, por meio da exploração de sua
significação para a equipe;
5. Ampliar a discussão para subtemas que deverão ser objeto de análise do
grupo;
6. Discussão do modo como seriam trabalhados estes subtemas: meios de
observação e definição dos recursos metodológicos mais adequados,
instrumentos (rodas de conversa, entrevistas, questionários com perguntas
fechadas e/ou abertas), uso de imagens (registros fotográficos), etc.
7. Fechamento das atividades do dia, esclarecimentos sobre o funcionamento
do momento de dispersão-multiplicação e o processo de acompanhamento da
produção da pesquisa.

MOMENTO DE DISPERSÃO-MULTIPLICAÇÃO

Este momento foi planejado para ser conduzido pelos trabalhadores
participantes, chamados de multiplicadores. Nas unidades de produção de saúde,
junto com os demais trabalhadores, os multiplicadores conduzem o processo de
produção das informações.
Nesse momento caberá aos alunos/professores e outros trabalhadores
consultores oferecerem o apoio ao desenvolvimento de métodos e a viabilização dos
recursos que serão utilizados na produção da pesquisa.
Inicialmente, duas reuniões intercaladas são previstas para sistematizar o
acompanhamento do processo de produção da pesquisa, acompanhamento este
que tem os seguintes objetivos:

56

1) Conhecer o processo de trabalho desenvolvido pelos multiplicadores (equipe da
CAP) nas unidades de produção de saúde: participação dos integrantes, nível de
envolvimento e responsabilização com o trabalho de pesquisa,conflitos e
acolhimento das propostas e encaminhamentos das sugestões;
2) Identificar se o tema escolhido como foco de análise está suficientemente
explorado nas discussões do grupo na divisão em subtemas;
3) Auxiliar nas dúvidas pertinentes ao processo de elaboração de instrumentos;
4) Analisar as propostas de registros e análises do processo de trabalho, elaboradas
pela equipe de trabalhadores de cada unidade de produção de saúde (métodos de
registros e de observação,recursos propostos, estratégias gerais e específicas para
os setores, etc.): solicitar que todos os multiplicadores falem de suas observações
no campo-tema;
4) Encaminhar o trabalho de maneira que a pesquisa de campo ocorra no intervalo
de um mês, para que seja realizada a análise das informações produzidas.
5) Identificar problemas enfrentados no estudo de campo e colocar em análise
alguma questão que pareça pertinente;
6) Organizar para que a análise do resultado da pesquisa seja apresentada para a
diretoria eque seja encaminhada reunião de apresentação dos trabalhos para todo o
serviço.

MOMENTO DE EXPOSIÇÃO-AVALIAÇÃO

Este momento começa pela convocação dos trabalhadores do serviço para
um evento de divulgação da produção cientifica da CAP.
O nome do evento será definido pelos membros da Comunidade. Realizado
em dois turnos, o evento tem sua estrutura organizacional e programação assim prédefinida: uma mesa redonda, exposições orais e apresentação de pôsteres.
A mesa redonda terá três convidados com até 30 minutos de preleção para
cada, seguida de discussão da plenária.

57

ATIVIDADES SUGERIDAS:
8:00 – 9:30h - Mesa redonda

(turno matutino):

Humanização e

Saúde do

trabalhador.
9:30h – 10:00h – Apresentação das propostas produzidas a partir dos resultados da
Comunidade Ampliada de Pesquisa.
10:00h – 11:30h – Discussão em Plenária.
12:00h – Intervalo para almoço.
13:30h – 15:30h – Exposições orais (20 min de cada trabalho).
16:00h - Plenária Final: avaliação do trabalho da CAP e a próxima etapa de
formação de nova equipe de multiplicadores nas unidades de trabalho.
LOCAL:
Auditório da unidade e dependência do hospital.
PREVISÃO DE PÚBLICO:
120 pessoas.
DIA E HORÁRIO
O dia e horário a ser definido
3.6.

Resultados Esperados
Espera-se como resultados:
1) Construir meios que assegurem melhor qualidade de vida e de trabalho,

evitando que o trabalhador adoeça;
2) Contribuir na atenção à saúde dos colegas;
3) Tornar o local de trabalho mais interessante e humanizado tanto para a
equipe de saúde quanto para os usuários;
4) Contribuir para as relações de trabalho e a valorização do trabalhador;
5) Sensibilização e mobilização de professores, alunos, trabalhadores e
gestores quanto a abordagem da temática da humanização.

58

REFERÊNCIAS
BARROS, Regina B.; PASSOS, Eduardo. A humanização como dimensão pública
das políticas de saúde. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro, v.10, n.3, p.561-571,
Set. 2005.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. HumanizaSUS:
documento base para gestores e trabalhadores do SUS. 4.ed. rev. Brasília:
Ministério da Saúde, 2008.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde.Política Nacional de
Humanização: Formação e intervenção– Série B. Textos Básicos de Saúde Cadernos HumanizaSUS; v. 1.Brasília: Ministério da Saúde, 2010.
MATIAS, Maria Claudia S. A dimensão ético-política da Humanização no
discurso de egressos da formação de apoiadores institucionais de Santa
Catarina. (Dissertação). Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva,
Universidade de Santa Catarina, Florianópolis. 2012.
MORI, Maria Elizabeth; SILVA, Fábio Hebert da; BECK, Fernanda Luz. Comunidade
Ampliada de Pesquisa (CAP) como dispositivo de cogestão: uma aposta no plano
coletivo. Interface (Botucatu), Botucatu , v. 13, supl. 1, p. 719-727, 2009 .
VERDI, Marta et al.,. Em foco a dimensão ético-estético-politica da Humanizacao do
SUS: efeitos dos processos de formação de apoiadores da PNH nos territórios do
Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Saúde Transform. Soc.,
Florianópolis, v.5, n.2, nov. 2014.

59

4. CONCLUSÃO GERAL

No mundo acadêmico da produção do conhecimento a teoria sem a prática se
torna vazia, insossa. Neste contexto, praticar o que se aprende nas salas de aula é
fundamental para consolidar e construir conhecimento. O aprendizado se torna
muito mais eficiente e motivador quando a prática está associada e esta tem sido a
proposta deste mestrado profissional, no qual procuro referências teóricas e práticas
para o meu trabalho docente.
Participar de pesquisa e elaborar um trabalho de intervenção com base
naquilo que foi debatido e refletido com alunos, trabalhadores, professores e colegas
do mestrado me permitiu assumir outras responsabilidades e ampliar ovigor dos
sonhos de mudanças para mim e de transformação social.
Na pesquisa da educação dos profissionais de saúde, por exemplo, em
virtude de uma natureza peculiar que envolve aprender e cuidar, precisamos fazer
do exercício da ação-reflexão, uma forma de cuidado. Desta forma, o andamento da
pesquisa me possibilitou conhecer, debater, questionar e entender como
construímos nossa realidade.
No caso da temática, a humanização durante a formação médica, de nada
vale sua teoria se ela não for posta em experiência de pesquisa-intervençãoformação e se esta não for tomada em suas desestabilizações e inquietações
capazes de construir e descontruir conhecimentos e de nos mobilizar na geração de
realizações mais dignamente humanas.
O caminho até aqui já proporcionou a vivência das dificuldades de lidar com a
organização

das ideias

e

os desafios

do

desenvolvimento

de

aspectos

metodológicos pensados a partir de minha implicação enquanto docente. As
dificuldades estão sendo superadas no dia a dia com o apoio de colegas e da
orientação.
Dito isto, me coloco como pesquisador-educador que precisa aprender e
vivenciar a transformação dentro da realidade de trabalho que também é a
transformação

da

realidade

subjetiva,

(re)fazendo

compromissos com a dignidade da vida humana.

sonhos e

(re)afirmando

60

5.

REFERÊNCIAS

ALVES, Antonia Núbia de O.et al., A humanização e a formação médica na
perspectiva dos estudantes de Medicina da UFRN - Natal - RN - Brasil. Rev. bras.
educ. med.,Rio de Janeiro, v.33,n.4, p.555-561, Dez.2009.
ARAGAKI, Sérgio S. et al., Entrevistas: negociando sentidos e coproduzindo versões
de realidade. In: SPINK, Mary Jane P. (org.); BRIGAGÃO, Jacqueline Isaac M. (org.);
NASCIMENTO, Vanda Lúcia V. do (org.); CORDEIRO,Mariana P. (org.).A produção
de informação na pesquisa social: compartilhando ferramentas. Rio de Janeiro:
Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2014 (publicação virtual).
ARTMANN, Elizabeth; RIVERA, Francisco J.U. Humanização no Atendimento em
Saúde e Gestão Comunicativa. In: DESLANDES, Suely F. (org.). Humanização dos
Cuidados em Saúde: conceitos, dilemas e práticas. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz,
2011. p. 205-234.
AYRES, José Ricardo de C. M.Cuidado e Humanização nas práticas de saúde. In:
DESLANDES, Suely F. (org.). Humanização dos Cuidados em Saúde: conceitos,
dilemas e práticas. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 2011. p. 49-84.
AZEVEDO, Cristina C. de; RIBEIRO, Maria Auxiliadora T.; BATISTA, Sylvia Helena
S. da S. O humanismo na perspectiva de estudantes de Medicina da UFAL. Rev.
bras. educ. med., Rio de Janeiro, v.33, n. 4, p. 586-594, Dez. 2009.
BARBOSA, Regina Helena S. Humanização da Assistência à Saúde das Mulheres:
uma abordagem crítica de gênero. In: DESLANDES, Suely F. (org.). Humanização
dos Cuidados em Saúde: conceitos, dilemas e práticas.Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz,
2011. p. 323-350.
BARROS, Regina B.; PASSOS, E. Humanização na saúde: um novo modismo?
Interface – Comunic., Saude, Educ., Botucatu,v.9, n.17, p. 389-394, 2005.
BARROS, Regina B.; PASSOS, Eduardo. A humanização como dimensão pública
das políticas de saúde. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro, v.10, n.3, p.561-571,
Set. 2005.
BINZ, Mara Cristina. Revitalização da Humanização no Ensino Médico.
Dissertação (Mestrado). Mestrado Profissional em Saúde da Família e Gestão do
Trabalho. Universidade do Vale do Itajaí, Itajaí, 2008.
BINZ, Mara Cristina; MENEZES FILHO, Eliezer Walter de; SAUPE, Rosita. Novas
tendências, velhas atitudes: as distâncias entre valores humanísticos e interrelações observadas em um espaço docente e assistencial. Rev. Bras. Educ. Med.,
Rio de Janeiro, v.34, n.1, p.28-42, Mar. 2010.
BLANK, Danilo. A propósito de cenários e atores: de que peça estamosfalando?
Uma luz diferente sobre o cenário da prática dos médicos em formação. Rev. bras.
educ. med., Rio de Janeiro, v.30, n.1, p.27-31, Abr.2006.

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BRAGA, Nina de A. Redes Sociais de Suporte e Humanização dos Cuidados em
Saúde. In: DESLANDES, Suely F. (org.). Humanização dos Cuidados em Saúde:
conceitos, dilemas e práticas. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 2011. p. 163-184.
BRASIL. Ministério da Saúde (MS). Política Nacional de Humanização: a
humanização como eixo norteador das práticas de atenção e gestão em todas as
instâncias do SUS. Brasília: Editora do Ministério da Saúde (MS), 2004.
BRASIL. Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar.Brasília:
Ministério da Saúde, 2001.
BRASIL. Resolução CNE/CES nº 3, de 20 de junho de 2014. Diretrizes
Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina. Diário Oficial da União,
Brasília, DF, 20 jun. 2014.
CAMPOS, Gastão W.S. Humanização na saúde: um projeto em defesa da vida?
Interface – Comunic., Saúde, Educ., Botucatu, v.9, n.17, p.398-400, 2005.
CAPRARA, Andrea; FRANCO, Anamélia L. S. Relação Médico-Paciente e
Humanização dos cuidados em Saúde: limites, possibilidades, falácias.
In:
DESLANDES, Suely F. (org.). Humanização dos Cuidados em Saúde: conceitos,
dilemas e práticas. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 2011. p. 85-108.
CASATE, Juliana Cristina; CORREA, Adriana Katia. A humanização do cuidado na
formação dos profissionais de saúde nos cursos de graduação. Rev. esc. enferm.
USP, São Paulo, v.46, n.1, p.219-226, Fev. 2012.
CECCIM, Ricardo Burg; MERHY, Emerson Elias. Um agir micropolítico e pedagógico
intenso: a humanização entre laços e perspectivas. Interface – Comunic., Saude,
Educ., Botucatu , v. 13, supl. 1, p. 531-542, 2009.
DEMO, Pedro. Pesquisa: princípio científico e educativo. São Paulo:Cortez, 2001.
DESLANDES, Sueli F. Análise do discurso oficial sobre a humanização da
assistência hospitalar. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro, v.9,n.1, p.7-14,
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DESLANDES, Suely F. Humanização, revisitando o conceito a partir das
contribuições da sociologia médica. In: DESLANDES, Suely F. (org.). Humanização
dos Cuidados em Saúde: conceitos, dilemas e práticas. Rio de Janeiro: Ed.
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FEUERWERKER, Laura. Além do discurso de mudança na educação médica:
processos e resultados. São Paulo: HUCITEC, 2002.
GADOTTI, Moacir. Boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido. São
Paulo: Instituto Paulo Freire, 2008.
GOULART, Bárbara Niegia Garcia de; CHIARI, Brasília Maria. Humanização das
práticas do profissional de saúde: contribuições para reflexão. Ciênc. saúde
coletiva, Rio de Janeiro, v.15, n.1, p.255-268, Jan. 2010.

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HENNIG, Marcia de Abreu e Silva; GOMES, Maria Auxiliadora de Souza Mendes;
GIANINI, Nicole Oliveira Mota. Conhecimentos e práticas dos profissionais de saúde
sobre a "atenção humanizada ao recém-nascido de baixo peso - método canguru".
Rev. Bras. Saúde Mater. Infant., Recife, v.6, n.4, p.427-436, 2006.
HOTIMSKY, Sonia Nussenzweig; SCHRAIBER, Lilia Blima. Humanização no
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MATIAS, Maria Claudia S. A dimensão ético-política da Humanização no
discurso de egressos da formação de apoiadores institucionais de Santa
Catarina. (Dissertação). Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva,
Universidade de Santa Catarina, Florianópolis. 2012.
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Cuidados Pediátricos. In: DESLANDES, Suely F. (org.). Humanização dos
Cuidados em Saúde: conceitos, dilemas e práticas. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz,
2011. p. 283-300.
NASCIMENTO, Vanda Lúcia V.; TAVANTI, Robert M.; PEREIRA, Camila Claudino
Q.; O uso de Mapas Dialógicos como recurso analítico em pesquisas científicas. In:
SPINK, Mary Jane P. (org.); BRIGAGÃO, Jacqueline Isaac M. (org.); NASCIMENTO,
Vanda Lúcia V. do (org.); CORDEIRO, Mariana P. (org.).A produção de informação
na pesquisa social: compartilhando ferramentas. Rio de Janeiro: Centro Edelstein
de Pesquisas Sociais, 2014 (publicação virtual).
NOGUEIRA-MARTINS, Maria C. F. Oficinas de Humanização: fundamentação
teórica e descrição de uma experiência com um grupo de profissionais de saúde. In:
DESLANDES, Suely F. (org.). Humanização dos Cuidados em Saúde: conceitos,
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PASCHE, Dário F.; PASSOS, Eduardo; HENNINGTON, Élida A. Cinco anos da
política nacional de humanização: trajetória de uma políticapública. Ciênc. saúde
coletiva, Rio de Janeiro, v. 16, n. 11, p. 4541-4548, Nov. 2011.
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assistência em unidade de terapia intensiva pediátrica. Revista Latino-Americana de
Enfermagem, 11(3): 280-286, 2003.
PUCCINI, Rosana F. et al. A formação médica na Unifesp: excelência e
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de saúde. Rev. bras. educ. med., Rio de Janeiro, v. 33, n. 2, p. 253-261, Jun 2009.

63

RIOS, Izabel Cristina; SCHRAIBER, Lilia Blima. A relação professor-aluno em
Medicina - um estudo sobre o encontro pedagógico. Rev. Bras. Educ. Med., Rio de
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Federal do Rio Grande do Norte na rede básica de saúde - Relato de experiência.
Revista Eletrônica Pesquisa Médica. Fortaleza, out. 2007. v.1 n.4 p. 27-34.
SPINK, Mary Jane; Práticas Discursivas e Produção de Sentidos no Cotidiano.
São Paulo, Editora Cortez, 1999.
SPINK, Mary Jane; Práticas Discursivas e Produção de Sentidos no Cotidiano.
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SPINK, Mary Jane. Linguagem e produção de sentidos no cotidiano. São Paulo:
Centro Edelstein, 2010.
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sentidos: a perspectiva da psicologia social. In: SPINK, M. J. (Org.). Práticas
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abordagem teórico-metodológica para análise das práticas discursivas. In: SPINK,
Mary Jane (Org.). Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano:
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subjetividade dos usuários da Rede Básica de Saúde: para uma humanização do
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VERDI, Marta et al., Em foco a dimensão ético-estético-politica da Humanização do
SUS: efeitos dos processos de formação de apoiadores da PNH nos territórios do
Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Saúde Transform. Soc.,
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VILA, Vanessa da Silva Carvalho; ROSSI, Lídia Aparecida. O significado cultural do
cuidado humanizado em unidade de terapia intensiva: "muito falado e pouco vivido".
Rev. Latino-Am. Enfermagem, Ribeirão Preto, v.10, n. 2, p.137-144, Abr. 2002.

64

65

6.

ANEXO A – Aprovação no Comitê de Ética e Pesquisa

66

67

7.

ANEXO B – Mapas dialógicos

Mapa Dialógico
Categorias

Contextos da Aprendizagem de humanização na formação médica

Humanização como tecnologia do cuidado
Na Relação médico-paciente

Na Convivência Institucional

Humanização em atividades curriculares na atenção
básica

Humanização em atividades curriculares
na atenção especializada

Participante
Pesq.: Quando se fala em humanização em saúde, o que lhe vem à mente?
P1

[...]
inclui
e
não
é
simplesmente
o
atendimento humanizado.
[...] mas, humanização em
saúde é você reconhecer
aquela pessoa que te
procura, não apenas aquelas
que te procuram, mas
aquelas
de
uma
comunidade, por exemplo, a
depender do contexto que
estão ali, cuja saúde, de uma
maneira geral, está sob sua
responsabilidade também,

P1

P1

P1

porque o trabalho na maioria das vezes
na saúde é em equipe. Se não é deve
ser.
Pesq.: Então você poderia explicar sua ideia de atendimento humanizado?
[...] é pra você encarar
aquela pessoa, não como
uma doença, mas como uma
pessoa que precisa de
cuidados em saúde, no
sentido de prevenção, de
cura, de reabilitação como a
gente aprende, né, durante a
faculdade, e entender que
existem
diversas
outras
questões
envolvidas
na
saúde daquela pessoa, que
muitas vezes não são vistas
por nós [...] não é apenas a
patologia do paciente, você
encarar aquela pessoa que
está ali pra que você a
favoreça no sentido da
saúde, os encarar como uma
pessoa.
Pesq.: Como as questões sobre humanização em saúde são trabalhadas durante o curso?
Eu acho assim... a questão de humanização em
saúde ela vem crescendo, mas ela ainda está muito
deficiente nos setores que a gente faz estágio. Eu,
particularmente, aprendi muito no rodízio de saúde
coletiva e no PIESC, só que no PIESC eu tinha outra
mentalidade. O meu coordenador do PIESC, que
depois eu tive contato no meu quinto ano em saúde

Humanização na relação aluno-professor.

Mapa Dialógico
Categorias

Humanização como tecnologia do cuidado
Na Relação médico-paciente

Na Convivência Institucional

Contextos da Aprendizagem de humanização na formação médica
Humanização em atividades curriculares na atenção
básica

Participante
coletiva (internato), ele é uma pessoa que fortalecia
muito esse conceito de humanização em saúde. [...]
eu acho que foi onde eu mais vi, é onde a UESB,
aqui também no ambulatório, chega a parecer um
pouco utópico porque eu peguei ambulatório de
outras faculdade,
P1

P1

[...] eu fiz eletiva em salvador, e os
ambulatórios, atendimentos, não estão
humanizados como aqui. Não sei se é
porque são serviços de referencia de um
especialista, mas o paciente chega, é
atendido por um interno, algumas vezes
residente, e o medico especialista ele
nem olha pra cara do paciente. Ele olha o
que a gente escreveu, trata a doença,
não conversa, não orienta se o interno
não tiver toda uma formação voltada para
humanização em saúde, o paciente vai
ali, vai levar uma receita e vai embora.
Então, eu acho que o ambulatório aqui é um lugar
que a gente consegue praticar um pouco dessa
atenção à saúde de maneira humanizada.
[...] o PIESC principalmente porque não envolve só o
lugar onde as pessoas te procuram com problema
em saúde, como acontece em outros setores, mas
você acaba enxergando o indivíduo como um todo.
[...] Então eu acho que foi aonde mais conseguiu se
aplicar. Ele (o professor) tinha muito aquela coisa de
acolhimento do paciente, que muitas vezes era feito
por nós, internos, e sempre tinha que dar um retorno
àquele paciente, ainda que não fosse uma consulta,
só uma solicitação de exame, por exemplo. Isso era
uma coisa que ele batia muito e a gente fazia muito.
E quanto à questão do atendimento humanizado,
muitas vezes era até uma coisa que ele falava, que o
paciente chega pra você com uma queixa que não é
a verdadeira queixa que o levou ate ali. Então, eu
tive algumas experiências durante o internato... de
uma paciente chegar com uma queixa de dispneia e
eu largar a caneta, conversar com ela e descobrir
que, na verdade, ela estava passando por um
momento horrível , estava num quadro depressivo e
estava fazendo pressão alta, e espasmo no trato
respiratório por uma questão emocional, não era de
fato um problema orgânico. E ela já tinha passado
várias vezes pela médica do posto e a médica do
posto falou: Você atende porque essa menina é

Humanização em atividades curriculares
na atenção especializada

Humanização na relação aluno-professor.

Mapa Dialógico
Categorias

Contextos da Aprendizagem de humanização na formação médica

Humanização como tecnologia do cuidado
Na Relação médico-paciente

Na Convivência Institucional

Humanização em atividades curriculares na atenção
básica

Humanização em atividades curriculares
na atenção especializada

Participante
super complicada, e não se resolve.
P1

E, de repente, numa
consulta com ela, não teve
nenhuma ciência, eu só fiz
ouvi-la e ela se sentiu à
vontade
pra
falar
do
problema que ela tinha. Foi
prescrita a medicação, a
gente
foi
fazendo
acompanhamento com ela
ao longo do tempo, ela
tinha outros problemas
como obesidade, que não
era a queixa, e a gente
acompanhou... então, de
certa
forma,
foi
uma
paciente que chegou no
posto de saúde e ela teve
uma atenção humanizada.
Eu considero.
Pesq.: E no hospital e nas demais atividades do curso como a humanização vêm sendo trabalhada?
Por internato eu falei de saúde coletiva, porque eu
acho que é o que mais se encaixa, talvez até porque
o ambiente de trabalho seja mais favorável a esse
tipo de atendimento.
No hospital, nos rodízios que a gente tem no
hospital, como em clínica médica, na cirurgia,
pediatria, é mais variável de acordo com o
profissional.
Pesq.: Profissional que você fala, é...
O professor. [...] A gente até tenta, mas
de uma maneira geral, que seja até
efetivo, porque se você faz com um e
com outro, você está fazendo a sua parte
e não tem efetividade com relação ao
hospital. É difícil porque a gente segue as
regras do hospital... as regras, a falta de
recurso, a falta de espaço físico, isso tudo
interfere.

P1

P1

P1

P1

Muitas vezes a gente
depende do profissional,
então tem professores e
preceptores da residência
que
são
pessoas
extremamente
humanizadas, que a gente
consegue até exercer essa

Humanização na relação aluno-professor.

Mapa Dialógico
Categorias

Humanização como tecnologia do cuidado
Na Relação médico-paciente

Na Convivência Institucional

Contextos da Aprendizagem de humanização na formação médica
Humanização em atividades curriculares na atenção
básica

Humanização em atividades curriculares
na atenção especializada

Humanização na relação aluno-professor.

Participante
humanização da saúde,
mas tem outros que não e a
gente fica meio de mãos
atadas, que a gente só
pode fazer a nossa parte.
Pesq.: Que características são essas que você nota no professor de que são “pessoas extremamente humanizadas”?
É aquilo que te falei, ele acolhe o paciente... o
paciente que vai ao hospital. [...] Eu vejo muitos
professores recorrendo a professores de outros
serviços. Eles se envolvem pra resolver o
problema daquele paciente, mesmo coisas que
eles não possam botar a mão e fazer, mas eles
recorrem a conhecidos e eu acho que a maior
parte dos profissionais que tem essa
característica são os pediatras mas, assim... não
são todos, mas é onde se encontra a maioria.
Mas assim... eu tenho alguns casos, alguns
pacientes que chegam no hospital, não pode
ser resolvido no hospital e o profissional
(professor/preceptor) que a gente acompanha,
ele dá um tempo pra ouvir o paciente, procurar
saber o que ele quer e tenta ajudar. Manda pra
cá (ambulatório) pra ser acompanhado aqui, às
vezes manda retornar para o hospital, que é
uma coisa tão inviável porque o hospital não é
lugar de você fazer consulta de retorno, mas
como não tem espaço físico.

P1

P1

P1

Eles (professor/preceptor)
encaram ali como ser
humano, mas não são
todos.
Pesq.: Você gostaria de complementar falando sobre o tema e sua formação?
[...] agora, eu acho que é uma coisa que
não existe em todos os serviços e nem
em todos os profissionais.

P1

P1

[...] Eu aprendi, mas também eu tenho outra
formação em casa. Minha cabeça é um pouco
diferente de alguns colegas. Acho que a
maioria dos meus colegas até se abriu para
aprender essa ideia da humanização em
saúde.
Só que alguns têm dificuldade. Eu acho
ate que são os mesmos que têm
problemas com funcionários do hospital,
então eles nunca vão encarar com bons
olhos a oportunidade que eles têm de
conhecer um professor que ensina [...]

Mapa Dialógico
Categorias

Contextos da Aprendizagem de humanização na formação médica

Humanização como tecnologia do cuidado
Na Relação médico-paciente

Na Convivência Institucional

Humanização em atividades curriculares na atenção
básica

Humanização em atividades curriculares
na atenção especializada

Humanização na relação aluno-professor.

Participante
P1

[...]
aquilo
que
é
extremamente importante
para a prática médica, uma
coisa que anda junto: a
humanização em saúde
anda junto com a prática do
profissional de saúde.
Pesq.: Como você avalia a pesquisa e sua participação nesta pesquisa?

P1

Se o curso, a partir do resultado dessa
pesquisa, conseguir bater mais na tecla da
humanização em saúde em todos os serviços
eu acho que vai ser importante para a
formação dos futuros médicos.

Pesq.: Quando se fala em humanização em saúde, o que lhe vem à mente?
P2

Eu acho que assim, não dá
para um homem não ser
humano, né? Eu acho que
às vezes é ate um
contrassenso esse termo, a
gente humanizar a saúde,
porque na verdade a saúde
ela tem que ser humana
porque é atendimento a
um homem e quem faz o
atendimento também
é
outro homem [...]

P2

P2

[...] o problema que a gente vê [...] são
as relações de poderes que, às vezes,
né... Atrapalham a relação na própria
conduta do tratamento e que, muitas
vezes, afasta o paciente do tratamento,
[...] a humanização é você
fazer o que é básico, o que
você tem que fazer em
qualquer outra área, não só
da saúde. Você ouvir a
pessoa que você está
atendendo,
ver
as
necessidades dele, ver as
queixas, tentar resolver o
problema
do
paciente

Mapa Dialógico
Categorias

Contextos da Aprendizagem de humanização na formação médica

Humanização como tecnologia do cuidado
Na Relação médico-paciente

Na Convivência Institucional

Humanização em atividades curriculares na atenção
básica

Humanização em atividades curriculares
na atenção especializada

Participante
mesmo que você não
resolva, mas pelo menos
você tentar mostrar como
isso pode ser feito. Talvez
você não consiga no final,
mas você mostrar interesse,
em fazer [...] que você tem
o interesse nele, de ver ele
bem, porque ele é um ser
humano [...] ele tem o
direito de ser atendido bem
e de ter seu problema, se
não resolvido, mas pelo
menos tentado resolver, ou
chegar na melhor opção de
tratamento, de conduta para
ele naquele momento... às
vezes a própria conversa, a
própria consulta já e
terapêutica,
porque
às
vezes o paciente quer é
isso, é ouvir, é ser ouvido,
né? É o paciente ser
ouvido, poder contar com
esse apoio do médico.
Pesq.: Como as questões sobre humanização em saúde são trabalhadas durante o curso?
Assim, a gente tem o contato desde o primeiro
semestre com o paciente, né? Então, acho que a gente
vai aprendendo as formas de lidar com o paciente,
como você saber abordar o paciente, saber ouvir o
paciente, saber às vezes extraí-lo daquele discurso
dele, que talvez seja um pouco prolixo, seja difícil de
entender, mas você extrair dali o que é importante [...]
o que a gente aprende a desenvolver aqui é isso, é
saber ouvir o paciente, tratar bem, né? [...]

P2

P2

[...] o que é básico pra
qualquer relação de ser
humano,
e
tentar
se
colocar a disposição pra...
e o mais claro possível ne,
pro paciente, acho que
também isso faz parte de
uma
humanização.
[...]
muitas vezes a gente até vê
muitas
condutas
de
algumas
pessoas,
né?
Simplesmente entrega um
papel para o paciente e

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básica

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na atenção especializada

Participante
deixa que o paciente se vire
com aquilo, não explica,
não chama o paciente junto,
né? Para o tratamento, não
faz o paciente ser um
participante, apenas um
cumpridor
daquele
tratamento.
P2

[...] enquanto a gente estava sob tutoria do
professor não, mas como a gente acaba
passando muitas vezes na emergência, né? Lá
que muitas não tem professores nossos, são
outros médicos que a gente acompanha, sim a
gente vê isso. Não é uma coisa difícil de ser
vista [...]

P2

[...] embora hoje eu ache
que a geração mais nova da
Medicina hoje ela é muito
mais voltada pra isso, você
tentar ser o mais humano
possível,
embora
ache
redundante, mas a gente é
levado para isso.

P2

Eu acredito assim, antes o
médico
era
um
ser
soberano, né? Um ser
supremo, intocável. O que
ele falava era a lei, e hoje
não.
As
pessoas
questionam, as pessoas
vem e falam: e ai, é isso
mesmo? E a gente percebe
que eles mesmos hoje são
muito mais propensos a
ouvir do que antes. Antes
era aquela coisa muito
distante, né? O que era
comum, não que todos
eram assim.

Pesq.: Em que sentido ocorre esta mudança na formação?

P2

Pesq.: E em outras atividades do curso, como a humanização vem sendo trabalhada?
Hoje mesmo a gente estava com um paciente, lá
no ambulatório, lá na enfermaria, aí foi dado
para o paciente o diagnóstico de tuberculose. Aí,
por exemplo, na hora o paciente se acabou de
chorar porque, para o idoso tuberculose era
igual morte.

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Participante
P2

Então você sentar, fazer o
paciente
compreender,
entender a doença, saber
que
existem
novos
tratamentos, novas formas
de se conduzir... aí a gente
percebe o inicio de quando
deu o diagnostico para ele e
como ele saiu no final, né?
Então, acho que isso é
humanização.

P2

P2
P2

Eupassei pelo estágio da UTI. Para mim era o
pior momento, era o momento mais difícil, muito
mais difícil do que você determinar uma
conduta, do que você fazer um tratamento, era
você falar para a família, por exemplo, do
prognóstico de um paciente. Eu acho que isso,
por mais que a gente passe uma vida inteira
fazendo isso, eu acho que é sempre difícil. Acho
até que a gente foi preparado pra isso [...] É
tanto que a gente tem nos tutoriais esses
objetivos biopsicossociais, então isso é discutido
no curso. Mas não para de ser difícil e, no final,
você fica sempre assim: poxa, eu não podia ter
feito isso. o bom do PBL é que você é
estimulado à auto avaliação e o peso da
avaliação qualitativa ele é bem expressiva,
então [...] entra um grande peso nisso, tanto é
que a gente é avaliada até, no tutorial, a nossa
relação com os colegas dentro do tutorial.
Então a gente já, desde o primeiro, quarto ano, a gente
é preparado para isso e a gente tem os PIESC [...]
[...] tem as enfermarias, que a gente acaba
sendo avaliado qualitativamente por isso, pela
nossa relação, o que a gente desenvolve com o
paciente, pela maneira que a gente conduz o
caso.
Pesq.: Como você avalia a pesquisa e sua participação nesta pesquisa?

P2

Embora a gente tenha, por diversas vezes,
passado por questões assim, teóricas e
práticas sobre humanização, na hora h fica
sempre um questionamento, as interrogações.

Pesq.: Quando se fala em humanização em saúde, o que lhe vem à mente?

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Participante
P3

[...] eu sempre penso em
entendimento do outro ser
humano como um todo e
nesse processo, também,
da comunicação com ele.
Eu
sempre
entendi
humanização em termo
desses dois conceitos. O
ser humano como um todo
e a comunicação. Então
você tem que entender,
você tem que se entender,
entender a pessoa e
também ser entendido por
ela. Então, é um processo
de vai e vem, né? Então,
em todas aquelas esferas
que
a
gente
está
acostumado a dizer do
biopsicossocial, um termo
comum em nosso curso.
Pesq.: Por que este termo é comum e se aplica a humanização?

P3

[...] nos tutoriais a gente sempre tem um
problema que a gente discute, e nesse
problema a gente tem as questões
sempre biológicas e referentes aos
assuntos que a gente tem que estudar no
livro e, sempre complementada com os
objetivos, a gente tem a questão social e
psicológica do paciente.
[...] por exemplo, no módulo de câncer, a
gente sempre discute a doença em si,
mas também a implicação do câncer na
vida do paciente, como ele lida com isso
e, assim, a maioria dos problemas
nossos. E no PIESC também a gente
sempre vê este termo, principalmente
quando a gente já começa a falar das
definições de saúde, da lei do SUS, a
gente já fala desse termo, então ele é um
termo já comum na mente do estudante
de Medicina desde o primeiro ano
embora ele não dê o peso que mereça.
Pesq.: E qual o peso que o estudante e professor de Medicina da UESB dá ao social e ao psicológico no tutorial?

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Participante
P3

Na verdade, o mínimo. Nunca é um peso
de verdade porque, primeiro, na lista dos
objetivos do tutorial, geralmente esse
objetivo psicossocial é o ultimo a ser
listado e no tutorial, quando vai ser
discutido, ele é o ultimo e, quando é o
ultimo, é aquele que todo mundo já tá
cansado do tutorial como um todo. Os
professores também um pouco cansados,
então, o mínimo de discussão que se
faz é durante essa questão do
psicossocial, né? Porque o biológico é
discutido o tempo todo, mas quando
chega no final do tutorial, todo mundo
cansado, fala-se o mínimo sobre essa
parte na verdade.
Pesq.: Você pensa em alguma forma de impacto disto na preparação do profissional?

P3

Sim. Talvez até de maneira inconsciente,
isto influencia, sei lá, porque sempre fica
relegada para o final e, na verdade, devia
ser o começo, né? Porque é o começo
da interação com o paciente [...]

P3

[...] a gente também
sempre fala nas aulas de
habilidade que a relação
médico paciente tem que
ser a primeira coisa a
ser estabelecida. Mas
acaba sendo que relegada
ao segundo plano.

P3

P3

[...] E aí no internato, que é onde a gente está de
fato no dia a dia, algumas vezes a questão vem à
tona, principalmente com alguns professores que
são mais preocupados com essa questão. Eles
sempre fazem, eles sempre trazem à tona [...]
[...] essa questão da
humanização, da relação
com o paciente, de
entender
o
paciente
como um todo.
Pesq.: Exemplifique aí essa questão do dia a dia do internato e a humanização

P3

[...] fica muito óbvio falar de humanização
em saúde coletiva. Vou falar de minha
estada na UTI, que para mim foi a mais
marcante de todas para mim, por causa

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Participante
dessa questão da humanização porque o
paciente da UTI geralmente está
entubado, a gente não consegue
conversar com ele. Mas lá, um dos
professores que trouxe a tona essa
questão de falar, que mesmo que a gente
não consiga conversar com o paciente, a
gente tente entender a história dele
através dos familiares, do que ele
gostava... inclusive essas coisas até
fazem parte do tratamento. Quando o
paciente está em delirium na UTI, tentar
localizar a pessoa com o máximo de
informações do dia a dia dela, o que ela
vivia. Isso faz o delírio ter menos tempo
de duração, por exemplo. Então, para
mim, eu acho que o exemplo mais
marcante para mim, de humanização, foi
quando eu estive na UTI. Mas, a gente
sempre discute, por exemplo, no internato
de saúde coletiva, por exemplo, a escolha
do medicamento, a condição do paciente,
a gente conversa. Tem um dos
professores nossos, por exemplo, que ele
fala: “quando você for atender o paciente,
primeira coisa que você faz é deixar a
caneta na mesa e converse com ele, não
escreva nada, converse com ele”, então
para mim aí também já está o início.
Então, acho que esses dois exemplos
simples: no dia a dia, um paciente
conversando e tal, e na UTI, que é uma
espécie diferente de interação.
Pesq.: Além das experiências citadas, e nas demais atividades do curso como são trabalhadas a humanização?
P3

P3

[...] eu já tenho essa tendência a me
importar com esse lado dos indivíduos.
Independente da doença que o paciente
tenha, eu gosto de perguntar como é que
ele lida com isso, como é que ele trata,
que impacto tem isso na vida dele, então,
de alguma maneira, eu tenho colocado
esse meu lado em todos os internatos
que eu faço e aí eu acho que depende
muito do professor.
Na cirurgia, a maioria dos professores trata os
pacientes como alguém que deve ser aberto,

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Participante
fechado, corrigida a lesão que for lá e pronto,
sendo que tem a lesão do paciente, tem uma
história importante, porque que ele chegou
àquele ponto. E tem o adiante. Ele pode até
voltar [...] os internatos é que eu menos gostei
por causa disso, que a relação com os pacientes
é muito pequena lá. Tratam a gente
praticamente como um órgão a ser costurado
[...]Em ginecologia e obstetrícia eu vi a parte
mais da humanização no momento do parto
mesmo, que a gente fez no Esaú, e estamos
fazendo essa parte da humanização também
[...]O Esaú... alguns professores consideram as
questões dos indivíduos, outros não. Outros
falam simplesmente da doença, de fazer isso e
aquilo, outros com bastante frieza inclusive.
“Tem câncer, vai acontecer isso e isso e ponto
final”. Mas tem tanta questão, né? A questão do
câncer pode ser discutida: se for terminal, tem
várias questões pessoais a serem resolvidas e a
gente nunca fala disso lá... “não, não tem
perspectiva de tratamento, vamos esperar
morrer”. Ele usa até uma expressão lá que é até
forte: “se parar parou”. Conversar com o
paciente sobre prognóstico reservado é uma
coisa que falta bastante no nosso curso, eu
acho. A gente discute muito comunicação na
teoria, pelo menos... e na pratica, às vezes fica
até um pouco... e aí, uma impressão minha que
eu tenho, é que a gente discute muito
humanização com o paciente, mas nós
estudantes a gente sofre um pouquinho de falta
de humanização. Os professores exigem da
gente capacidade, digamos, “sobre-humana” de
lidar com todas as coisas.
P3

A gente não pode ter nossos problemas, não
pode ter dificuldade em algumas coisas. Quer
dizer, alguns consideram a gente que tem que
ser especialistas em todas as áreas, saber tudo,
ser infalível. Eu acho que isso é ate um
problema quando a gente fala muito de
humanização com o outro, mas a gente não tem
pro nosso lado. A gente fica até um pouco frio
em relação a dar atenção pra o outro: “ah, se
não me dão...”. Eu [...] sempre pensei nisso em
relação a essa questão.
Pesq.: Alguma experiência neste sentido da relação professor-aluno?

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Participante
P3

[..] sei que no final do meu primeiro ano eu entrei
um pouco em crise, né? Por exemplo, a maioria
dos meus colegas tem condições financeiras para
ter as coisas à disposição. Eu já sou de uma
situação humilde, digamos assim, então tive
dificuldade de me encaixar, de estar a par das
situações. Tive esse problema, sofri muito no
primeiro ano, tanto que perdi um módulo, tive que
repetir esse módulo no ano seguinte mas, no
segundo ano aí eu consegui a ajuda de um dos
professores. [...] quando ela (a professora) era
tutora do segundo ano, ela compreendeu meu
sofrimento, ela entendeu que eu estava um pouco
perdido naquilo tudo, então ela me ajudou
bastante [...] Um dia eu lembro que... quando a
gente não fala o corpo fala. Então eu estava no
PIESC, complicado. Senti uma fraqueza enorme,
fiquei branco, suando e tal. Eu estava me sentindo
numa situação acuada, não sei como é... aí ele
prontamente me atendeu, conversando. Conversei
com ele, fez todas as medidas biológicas em mim,
descobriu que eu não tinha nada. Glicemia normal,
pressão normal, e me aliviou bastante assim [...]
Pesq.: São marcas positivas...

P3

P3

E a gente tem uns professores que eles não tem
sensibilidade na crítica. Porque a gente está
nesse processo de aprendizagem, a gente vai
errar, claro, a gente vai falhar com qualquer
pessoa está passível de falhar. Não tem
ninguém no mundo que não possa falhar, ainda
mais a gente que está na Medicina e está
aprendendo. Então os professores do terceiro
ano, que é o primeiro momento que a gente
começa a atender de verdade, que começa a
fazer anamnese, exame físico... eles criticam de
maneira, por exemplo, assim que “está um lixo”.
A gente já ouviu essa expressão: “isso aqui não
presta, você não presta pra nada”. Não ouvi
para mim, mas eu ouvi na frente de muitos
colegas. Comentar a anamnese de um o colega
nosso, na frente, de todo mundo, dizer, humilhar
o colega na frente de todo mundo.
Ah, outra experiência, lembrei... da relação com
o usuário. Foi no internato de cirurgia também,
porque é comum entrar baleados, esfaqueados,
e alguns professores falam pejorativamente... da

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Participante
abordagem a esses pacientes de maneira bem
depreciativa mesmo. Por exemplo: “não vou
atender, deixa morrer”.
P3

O médico, quando ele recebe o diploma,
faz o juramento, ele está disposto a fazer
o bem ao individuo [...] inclusive, ele pode
ser enquadrado como negligência, está
no código de ética do médico: a
negligência é um erro médico. [...] mas a
gente acaba acostumando com... a
palavra é essa, a gente acostuma com o
que acontece.
Pesq.:Pronto, agora avalie aí um pouquinho a pesquisa e como se sentiu participando dessa pesquisa.

P3

[...] sempre me incomodou mesmo. A
gente sempre relega o biopsicossocial.
[...] apesar de estar na ementa do nosso
curso tornar o médico humanista, é uma
questão que fica sempre para segundo
plano. [...] acho proveitoso falar disso e
mostrar que a realidade está no papel,
está bonito, tutor ver no papel, vira
objetivo, mas quando vai à pratica, fica
faltando uma coisa ou outra.

Pesq.: Quando se fala em humanização em saúde, o que lhe vem à mente?
P4

É tratar o paciente, não como
apenas um objeto de trabalho,
uma doença, mas pensar nele
como um ser humano que tem
várias faces, assim, do ser
humano naquele momento,
porque a gente tende a ver o
paciente só na questão... a
gente, na verdade, raciocina em
cima do paciente pelas coisas
que a gente estudou. Raciocínio
médico clínico, às vezes,
esquece que ali é uma pessoa
que tem emoções, sentimentos,
que está apreensiva, que
precisa de acolhimento, que
precisa ser tratada de uma
forma que você preste atenção
nas reais necessidades dela. É
isso. É a questão de não tratar

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Participante
mesmo só como um objeto.
Pesq.: Você falou assim: - A gente esquece. O que? E por que se esquece?
[...] eu, na minha posição agora, né? É, a
gente esquece porque a gente está tão
preocupado em fazer certo, em ter um
raciocínio clinico certo, em minimizar o
máximo a chance de erro no nosso
raciocínio. [...] eu já me peguei algumas
vezes, por exemplo, chegando e sendo fria
com uma pessoa que estava precisando de
um acolhimento, mas porque eu estou ali e
a cabeça pensando, pensando, pensando,
raciocinando, e tentando não errar, aí acaba
acontecendo isso. Com o tempo, que você
relaxa um pouco, a Medicina fica mais fácil,
mais tranquila para você. Eu acho que você
consegue [...] dar atenção às outras partes,
né?
Pesq.: Como as questões sobre humanização em saúde são trabalhadas durante o curso?

P4

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P4

P4

É, todo eu não posso dizer, mas assim a
gente teve várias experiências com
humanização, vários professores nossos
olham por esse lado ensinam a gente a
ver o paciente como realmente... como
uma pessoa completa, não só ter uma
parte só dela.
[...] mas, a gente teve bastante reflexão
sobre isso. Só que aí chega no internato, às
vezes, a gente não dá muita atenção,
justamente por aquilo que eu falei, aquela
coisa de você estar ali preocupado. Eu vejo
que muitos profissionais também não têm
essa
preocupação,
não
tem
esse
pensamento,
mas
a
maioria
dos
professores, eles falam alguma coisa pra
gente de humanização.
[...] Mas alguns, por exemplo, tem uns
profissionais do centro cirúrgico aqui que são
sensacionais, entendeu? Outros que chegam lá
e não dão nem bom dia pros pacientes, não
falam nada com eles, já vão pegando uma veia,
entendeu? Já outros não... conversam,
perguntam se está tudo bem, se está precisando
de alguma coisa, se está com frio, com calor: “E
aí, está tenso? Fique tranquilo”. Acalmam o
paciente antes da cirurgia, que é uma coisa
assim, sabe... cirurgia a pessoa fica tensa antes,

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Participante
e você chegar lá e não falar nada? Já vai
começando, tirando a roupa e limpando,
lavando, sabe?
P4

Então, a gente vê aqui no hospital pouco,
mas vê. Tanto que, quando você vê chama
a sua atenção, fala assim “nossa, que
pessoa, né? Diferenciada e tal...” e alguns
professores também, mas eu acho que
poderia ser muito mais. A gente poderia ser
muito mais estimulada a ver realmente o
lado da humanização da saúde para não
esquecer.
Pesq.: Você disse “chega no internato e não dar muita atenção a humanização”. Você poderia falar mais sobre isto?
Assim, é porque antes do internato as
discussões são muito teóricas, então a
gente fala mais disso, sabe? Tem
professores que falam mais, psicólogos,
tem os psicólogos que falam mais
[...] Uma delas (psicóloga) fez uma vez uma
dinâmica com a gente, era como se a gente
estivesse na UTI, como se a gente fosse
bebê e estivesse na UTI, para fechar os
olhos e aí colocou aquele barulho da
maquininha da UTI. Aí vinha e beliscava,
sabe? Fazia tudo e a gente ia sentindo
como se fosse uma criança ali e via como
era estressante, entendeu? E aí passava a
se colocar no lugar.

P4

P4

P4

Hoje em dia eu me coloco no lugar de
uma pessoa que está ali no leito de UTI,
que tem aquele monte de estímulo,
aquela luz forte, toda hora chega uma
pessoa, pega uma veia, não sei o quê.
Você tenta minimizar ao máximo o
estresse que você tá causando na
pessoa.

P4

P4

[...] Mas, quando chega no internato assim,
aí você está muito preocupado em
desenvolver suas habilidades, tudo [...] vou
te confessar que, às vezes, a gente [...] já
chegou a você treinar no paciente. Isso eu
já acho difícil, mas a gente tem que
aprender, né??
Não é uma humanização porque você
está treinando ali com o paciente que
está sedado. E então, lá vamos nós
tentarmos fazer tal coisa, entendeu?

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Participante
P4

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E é diferente da discussão teórica, quando
chega na prática você vê que a
humanização ainda falta muita coisa para
melhorar. Eu acho que devia dar tanta
ênfase quanto a gente dar às discussões
cientificas, de procedimentos, de cirurgia,
de tudo. A mesma importância.
[...] Isso é científico também, né?
[...] e a gente ter sempre palestras, alguém
pra falar, pra relembrar isso à gente,
profissionais que se preocupam com a
humanização.
Ai você vê que aqueles profissionais
chegam ali, fazem tudo daquele jeito. É
como se você não visse que existe outra
forma de fazer, você só acha que existe
aquela forma ali de fazer, entendeu?
Se vier alguém e falar: “Não, você pode
fazer isso de outra forma!” Vai até abrir
assim a sua mente, você falar: “É,
realmente eu podia fazer de outra forma
isso”.

P4

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P4

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Só que você, na preocupação de fazer
igual, de seguir o que o outro está te
mostrando, você acha que é aquilo ali, é
assim e acabou, entendeu?
Se viesse alguém de fora para ensinar tanto
a esses professores nossos quanto a gente,
sabe? É abrir os olhos mesmo, mostrar
como fazer diferente, seria melhor!
[...] durante o internato, principalmente, e
não só na parte que não tem internato, não
no teórico. Mas no internato mesmo, na
prática. A gente, na verdade, vê diariamente
aqui a falta da humanização, sabe?
Pesq.: Alguma coisa te marcou neste sentido?
[...] acaba que nenhuma coisa assim marca
muito mais.
Pesq.: Você acha que naturaliza assim isso depois?
[...] você acaba achando que é uma coisa
normal, você não vê como outra forma de
fazer aquilo e acaba repetindo [...] eu acho
que alguns profissionais largam de mão.
Ah! Teve uma situação que me marcou,
agora lembrei. Foi na UTI. Um paciente
que... ele teve um tumor de... agora não
lembro exatamente onde era o tumor

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Participante
cerebral, é na região posterior, não sei se
era occipital ou de tronco. Mas ele, de um
dia para o outro, desmaiou, teve um
desmaio. Ele era ativo, pai de família, teve
uma síncope e perdeu os movimentos de
membros e ficou tetraplégico, né? Perdeu o
movimento de membros inferiores e
superiores.
Aí ele
teve
que
ser
traqueostomizado porque ele também não
tinha os movimentos respiratórios. E aí, ele
começou a definhar. Ele era um paciente
super animado e a gente até estranhava. A
gente falava: “Nossa! Um paciente que
passou por tudo isso, nessa animação,
nessa esperança de que tudo poderia
melhorar”. Ele era sempre sorridente, aí de
uma hora pra outra ele começou a ficar
mais triste, já não queria comer. E aí, algum
profissional da UTI sugeriu que a gente
desse um passeio com ele, que os
profissionais colocassem ele numa cadeira,
colocasse um respirador, porque tinha um
respirador de transporte, para dar uma volta
com ele pelo hospital, levar ele para tomar
um sol, para ver se ele melhorava um
pouco. E isso foi uma enrola, todo dia era
uma coisa, um problema: “Não posso, não
posso, não posso, não posso”. E ele foi
ficando cada vez mais triste. O psicólogo
falou que ele não estava com depressão e
ele achava que não tinha que entrar com
medicação antidepressiva, mas não vi o
psicólogo em momento nenhum, assim, se
empenhar mesmo pra ir lá, conversar: “Ah,
não! Eu acho que ele não tem depressão,
ele tem outra coisa”. Eu nem lembro mais o
que ele falou. Aí a gente e os profissionais,
acreditávamos no que o psicólogo estava
falando, não dava nenhum remédio
antidepressivo. Eu sei que ele foi
definhando cada vez mais, só parava de
comer e ninguém dava atenção, até que
faleceu. E, assim, ele tinha até a
possibilidade de voltar a andar, uma
possibilidade remota, mas tinha. Isso só
viria com o tempo, mas ele não resistiu.
Imagine você ficar numa cama sem
movimento nenhum, só conseguindo falar

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Participante
pouco e ninguém fazia nada, sabe? Aquela
coisa, só olhando, ia lá e olhava, vinha:
“Nossa, que triste!” e voltava e ia lá falava:
“Nossa, que triste” e voltava. Então, essa
vontade mesmo de fazer as coisas. Estava
tudo ali à disposição, entendeu? Mas a
vontade não tinha, a gente não podia
carregar ele, tirar ele do ventilador e botar
no outro, tinha que ter alguém pra fazer
isso. Pra gente então isso foi, sabe... essa
situação me marcou porque parecia que
estava todo mundo preocupado em fazer o
mínimo possível. E tem isso também, a
pessoa só acha que só tem que fazer a
obrigação dele e que isso não é obrigação,
entendeu? Que isso é coisa para psicólogo,
para outra pessoa resolver e não faz.
Então, essa situação me deixou mal.
Pesq.: Como você lidou com tudo isto?
P4

[...] eu na verdade absorvo um pouco
as coisas ainda. Eu estava com uma
paciente que tinha tentado suicídio,
outro acho que era traficante, que já
tinha ido lá com uns tiros, aí foi
espancado e estava lá com TCE grave
e tinha esse rapaz na UTI também.
Então, toda essa carga me deixou mal.
Eu estava tomando Rivotril pra ir pra
UTI, nessa época. Já estava assim
sem aguentar mesmo ir. Mas acabei
indo, só que essa carga passa pra
gente entendeu? Essa coisa de ver as
coisas e não poder fazer nada, eu
tentava conversar com a menina do
suicídio, tentava sabe? E aí aconteceu
um problema lá com a diálise dela, ela
faleceu também. Sei lá, é muita carga,
como é que se diz... a gente realmente
precisa.
Pesq.: Qual o suporte do curso para este tipo de situação?

P4

[

[...] acho que tem um órgão lá na
faculdade, que esqueci o nome, que
tem psicólogos pra ajudar nesse
quesito,
mas
geralmente
são
professores nossos. Não senti muita
firmeza nesse. Então faço minha
terapia por fora, pra lidar com essas
coisas e, mesmo assim, a gente não

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Contextos da Aprendizagem de humanização na formação médica
Humanização em atividades curriculares na atenção
básica

Humanização em atividades curriculares
na atenção especializada

Humanização na relação aluno-professor.

Participante
lida cem por cento. Aí eu comecei a
fazer ioga, tudo por fora pra ver se eu
relaxava um pouquinho. E isso tudo me
ajudou, mas e quem não pode fazer,
entendeu? Leva essa carga toda
sozinha. No meu curso tem, eu acho
que assim, 70 por cento dos alunos
tomam alguma coisa, ou ansiolítico ou
anti depressivo, entendeu? E isso tudo
eles iniciaram durante o curso porque
não aguentaram a carga. Se não for 70
é ate mais, viu? Estou falando das
pessoas que eu sei assim que
começaram a tomar. Então, é muita
carga, entendeu? Eu acho que a gente
precisa realmente de um suporte. Todo
aluno de Medicina e enfermagem, todo
mundo que lida com hospital, precisa
de um suporte porque eles vão ver
muita coisa forte. Além de ver coisas
ruins e não poder agir, sabe?
P4

P5

Pesq.: Como avalia a pesquisa e como você se sentiu participando dessa pesquisa?
[...] na verdade, a gente tem sempre
esperança de que uma pesquisa dessas vá
surtir, vá ter algum efeito né? E que traga
melhorias mesmo, tanto para os alunos
quanto para os pacientes.

Pesq.: Quando se fala em humanização em saúde, o que lhe vem à mente?
A gente conversa muito sobre isso entre
alunos e entre professores assim fora do
contexto da assistência, né? A gente
percebe que a humanização precisaria ser
dos dois lados. A gente fala muito de
humanização da saúde, humanizar o contato
com o paciente, com os profissionais disso,
os profissionais daquilo, é uma coisa que a
gente percebe muito como estudante. [...]
porque a gente tem contato com mais
classes profissionais, que a gente está muito
com o técnico, muito com o enfermeiro, a
gente fica muito tempo nos plantões, muito
tempo nesse outro lado da assistência [...] é
que a humanização vai além do contato só

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Participante
com o paciente. Humanização também tem
a ver com como os profissionais se tratam
[...] da pessoa da limpeza até o diretor do
hospital. Como funciona toda essa
hierarquia
então
hoje,
pra
mim?
Humanização da saúde ela passa para além
da relação médico-paciente. Seria quase
que algo institucional. Desde como o
governo do estado trata o governo
municipal, como o governo federal trata os
outros, desde as exigências que são
impostas, ou então das demandas que não
são atendidas, até chegar na condição de
trabalho que propicia que o profissional trate
o paciente bem. Então, pra mim, acho que
vai além um pouco disso [...]
P5

P5

P5

P5

[...] isso culmina, o ponto chave, o
fim disso, é como o paciente é
atendido, não necessariamente o
que é feito com ele, mas como é
feito.
Pesq.: Como as questões de humanização vem sendo trabalhadas no curso de Medicina da UESB?
[...] eu percebo que um diferencial da
faculdade que nós somos formados é que a
gente tem uma dedicação ao paciente
diferente.
A gente é ensinado desde do 1º ano que
nós somos responsáveis por aquela
pessoa. Às vezes a gente conversa com o
paciente sobre outras coisas, a gente sabe
quantos filhos o paciente tem, onde é que
ele mora, se é de zona rural ou se não é,
como é que ele faz pra vir para o médico,
como é que ele faz para chegar no hospital,
coisas
assim,
que
muitas
vezes
ultrapassam umas receitas, prescrição, os
exames que você vai pedir. Só que chega
uma hora que a gente sabe: “Olha, pra esse
medicamento ele tem o dinheiro, pra esse
não! Isso eu posso fazer, isso eu não
posso. Se eu passar um retorno pra dois
dias ele não vem, é melhor passar pra mais
perto ou espaçar mais as consultas”.
Isso eu percebo que é uma coisa que cultiva na
gente muito no internato de pediatria porque eu
acho que tem uma relação muito com família,
né? A gente trata a criança, mas acaba com a

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Participante
família toda entrando no bolo: vó, tio, tia, quem
cuida, quem dá um pouco de assistência. Isso
na pediatria é muito forte.
P5

Nos outros rodízios, por várias vezes, eu
ouvi o professor falando disso. Quando você
recebe um prontuário você recebe uma
responsabilidade. Você tem que ser
responsável por aquilo: se o paciente fez o
exame, se não fez, por que não fez, por que
não deu o remédio, por que não mediu a
pressão, por que está sem controle de
diurese... A gente não pode ficar parado:
“Está sem controle de diurese? Por que não
foi feito? Ah, porque não teve condições? A
gente tem que dar. E qual foi essa
condição? Ah, porque a equipe técnica de
enfermagem está com tal aparelho
quebrado, a balança está quebrada, por isso
que não está sendo, não está podendo
pesar as fraldas” pronto, essa é uma
resposta administrativa, mas que responde à
pergunta do professor. Mas simplesmente
está sem balanço hídrico, por que está sem
balanço hídrico? Então, eu acho que a gente
acaba levando isso pro nosso dia a dia, a
gente acaba não aceitando as respostas que
não são dadas em outros serviços: “Mas por
que não está sendo feito? Não tem alguma
forma da gente fazer?” Isso leva o aluno a
ter outras perguntas e talvez outras
respostas.

P5

P5

Agora mesmo, eu estou em cirurgia, que é o
rodízio que eu estou mais de perto, então assim,
o professor pergunta: “você explicou pra família
sobre essa cirurgia? Eles entenderam?” Às
vezes o paciente não quer operar, ai vem os
dilemas de respeitar a vontade do paciente, mas
dizer que aquilo ali é importante pra ele. O
paciente não quer a sonda: “Ele tem o direito de
querer ou não”, o professor fala isso. Ele tem o
direito de não querer, mas a gente tem o dever
de explicar que: “ela vai passar fome, assim ela
vai ficar desnutrida, por que ela não pode comer
pela boca e ela não quer a sonda”. Ela precisa
estar instruída disso.
[...] mas eu também não posso
chegar lá e forçar. Isso pra mim é
um tanto de humanização. [...] a

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Participante
gente fala disso muito também de
humanização o paciente que a
gente está vendo que está
caminhando para o óbito e não
tem o que a gente possa fazer.
Então assim, no conforto que
pode ser dado, quando é que a
gente pode introduzir a morfina
pra não deixar o paciente sentir
dor?
P5

P5

Em cirurgia é muito presente. Nesse fim de vida
também está presente, tentar orientar a família.
A gente também esbarra muito com o
componente de consciência... às vezes a gente
está dando uma informação que o paciente não
tem condição de assimilar, a gente dá porque a
gente está dando, mas às vezes ele não tem
condição de escolaridade para entender a
complexidade daquilo que ele está vivendo. Aí
vem também, né? A gente ter a paciência pra
explicar, às vezes todo dia a mesma coisa e
demora às vezes uma semana para a família
entender, isso eu já vi também, mas isso em
cirurgia assim é bem marcante. Em pediatria, é
mais questão assim, familiar mesmo. A gente
estar na família, ver os conflitos da família e não
se meter, tentar trazer para perto da gente quem
cuida mais da criança, que às vezes não é nem
o pai nem a mãe, às vezes é vó, às vezes é a
tia, às vezes é uma babá. Tentar trazer para
perto aquela pessoa que vai dar mais
informação pra gente tentar conciliar os outros
conflitos, né? Isso eu vivi no internato que eu fiz
de pediatria.
Saúde coletiva: é a comunidade mesmo, e
às vezes... é as relações entre profissionais
porque, como a equipe trabalha muito com
a mesma equipe, plantão tem muito de
rodar a equipe, né? Mas, em saúde coletiva
na unidade é sempre a mesma equipe.
Também na saúde do trabalhador é sempre
a mesma equipe, né? [...] Mas, às vezes
tem sempre aquela técnica que gosta mais
de criança e que vai pra sala de vacina e é
mais feliz ali. E tem aquela que se for para
sala de vacina não fica muito bem porque
não gosta daqueles meninos chorando. Isso
é personalidade, isso é normal, do mesmo

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Participante
jeito que tem aquela que gosta de fazer o
curativo e tem aquela que prefere ficar lá
medindo a pressão e atendendo todo
mundo. Então tem esses conflitos dentro da
própria equipe, né? Que a gente acaba
vivenciando e tentando fazer uma
capacitação para os profissionais da vacina
que, às vezes, chegam novos, aí faz uma
capacitação, o pessoal da triagem, a gente
trabalha muito com isso, mediando assim,
tentando ajudar, nem mediar conflitos, que
a gente não tem nem, nem alçada para
isso. A gente não entra muito nisso, mas
tentar no que a gente pode ajudar.
P5

P5

P5

[...] e a comunidade que aí é que onde tem
[...] mais dificuldade. Aquela comunidade
que aceita melhor eu nunca tive, mas tem
relato de comunidade que não aceita muito
a gente, né? Os estudantes em si. Eles não
querem ser atendidos, não aceita muito. As
comunidades que eu já participei nunca tive
nenhum problema, graças a Deus. Eu já fui
em três unidades e todas a gente foi muito
bem acolhido, mas eu sei que isso já
aconteceu [...] profissionais também, todos
os profissionais que eu tive contato fui muito
bem acolhida, assim... eu não tenho do que
me queixar, não me lembro de nenhum que
tenha falado: “Olha, não quero que você
acompanhe!” Eu não lembro, mas, assim...
eu sei que isso existe. Isso existe.
[...] só que a humanização do
atendimento ela passa também
por a gente lidar com isso, lidar
com o sim: a gente ser muito bem
acolhido pela comunidade no
atendimento, né?. E lidar com o
não. Também acho que é parte da
humanização [...]
[...] em saúde coletiva a gente tenta ver os
fatores que estão por fora, né? Que vão
interferir. A gente trabalhou muito com lixo,
com essas questões humanas da pessoa,
mas que ultrapassam essas questões de
saúde: pobreza, falta de higiene, até
mesmo a falta de escolaridade a gente
tentou fazer algumas coisas nesse sentido.
Saúde coletiva é bom porque a gente fica

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Participante
numa comunidade por quatro anos, então a
gente tem como ver também um pouco das
respostas às nossas tentativas de
humanização do atendimento, né?
P5

[...] Ginecologia e obstetrícia (GO) a
humanização é mesmo no atendimento com a
paciente, ajudar a respeitar o pudor, né? Que,
às vezes, tentar falar sobre assuntos com o
máximo de profissionalismo possível, “quantos
parceiros você teve? Tudo isso?”... O professor
fala muito isso pra a gente, né? Não se
surpreender com nenhuma pergunta nem com
nenhuma fala delas, que às vezes elas: “ah, eu
fiz isso, isso, isso, isso pra abortar”, tentar não
julgar mesmo, mas que a gente sabe: “nossa,
isso ai podia ter te prejudicado”, tentar orientar,
mas tentar não emitir juízo de valor, tentar
respeitar aquela opção, por mais estranhas que
elas pareçam pra gente. Em GO é mais esse
cuidado assim, mas é mais direto mesmo, mais
a gente com a paciente. A gente lida também
com situações um pouco difíceis [...] chegou
num plantão meu que a paciente conversou
muito comigo, uma mãe com criança anencéfala
querendo fazer o aborto, então assim, como dar
suporte pra essa mãe? Suporte psicológico, tal,
sem interferir na decisão dela, já que é dela a
decisão, né? Então, é todo um jogo de cintura.
Muita criança também, [...] às vezes a mãe
chega com o feto e não tem batimento, então,
como falar essa notícia de forma ética
respeitando, mas também de forma humana,
né? Que a gente possa dar um amparo, que a
situação ali não vai ser fácil. Muitas vezes elas
desabam na frente da gente, começa a chorar, a
gente ter que às vezes chamar a psicóloga,
correr pra chamar a assistente social pra dar um
suporte. Em pediatria também já aconteceu
comigo, no pronto socorro, ver assim... suspeita
de abuso. Aí, como ser humano nessa situação
mas também respeitar a ética e dar um suporte
pra família? É também uma situação
complicada. Em GO é mais isso que a gente vê,
estupro eu nunc atendi não, mas assim a gente
tem esses casos. Os professores tentam
sempre, quando surge uma situação dessas,
orientar como dizer, como não dizer, né? Tentar
amenizar, não a situação real do paciente, a

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Participante
gente tem que falar ela toda, mas tentar
amenizar a situação, não colocar mais fogo pra
que ela tenha tempo suficiente de lidar, assim:
dizer que o filho morreu, dizer que ela precisa
fazer uma curetagem agora. Mas não dá pra
esperar um pouco? Esperar ela se acalmar um
pouco, né? É o tempo que a gente prepara
também as coisas, né? E a gente vê isso muito
no Esaú [...] tentar achar uma psicóloga antes,
né? Antes de tirar o bebê, é o tempo que os
medicamentos também fazem efeito e a gente
tentar ir driblando as situações pra tentar deixar
um pouco mais humana. E a equipe ajuda muito,
às vezes tem uma técnica que chega pra gente
e fala: “Olha, fulana está chorando muito, foi a
que o neném morreu, a que foi um natimorto, ela
está chorando muito, e tal...” mas com a equipe
elas se abrem mais. E clínica médica? Que aqui
no hospital é difícil assim pra gente, porque
nossos pacientes normalmente são crônicos,
não são agudos. Diferente da cirurgia, que
normalmente a gente tem mais pacientes
agudos, a gente roda mais leito, tem mais
paciente bem e na clínica médica às vezes a
gente fica com um paciente por muito tempo. É
uma característica daqui, porque aqui os agudos
ficam muito no corredor, por questão de
insuficiência de vaga, mesmo... acho que isso
não é segredo pra ninguém. E por isso a gente
ficar muito tempo com o mesmo paciente [...]
P5

[...] às vezes a gente fica com pacientes
muito crônicos aí vem a outra fase da
humanização né? A gente continuar dando
essa assistência e ver o que a gente pode
fazer diante daquela situação. Tem época
que tem mais paciente agudo, que dá pra
gente dar uma resolutividade melhor pra ele
e tem época que não [...]aí quando não dá,
aí fica mais a humanização até do que a
assistência pura, né? E tinha paciente da
gente que ficava muito tempo com a gente,
chegava assim de rodar, entra num rodízio
aí passa pra outro rodízio e nisso vai. Eu
acho que, até agora, tem melhorado um
pouco porque tem tido mais um cuidado
assim... de colocar alguns pacientes pra
gente lá dentro, pra gente poder
acompanhar mais [...]

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Participante
P5

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P5

[...] e humanização na clínica médica é mais
isso: fornecer apoio para a família, para o
paciente. [...] uns cuidados paliativos às vezes
acontece também na enfermaria [...]
Pesq.: Você se lembra de alguma situação que foi emblemática nessa questão da humanização?
Eu presenciei por duas vezes em que dois
profissionais estavam discutindo porque não era
responsabilidade dele o paciente: “Ah, esse
paciente está assim, não é comigo”. Assim...
você chega pra outro profissional: “Ah, esse
paciente está assim, então também não é
comigo”. E ai? Fica com quem?
Pesq.: Outra questão da resolutividade?
[...] na hora eu falei assim: “gente eu não
quero ser desse jeito isso está errado!”. [...]
mas, depois que eu fui refletir: falta protocolo,
quem fica com quem. Por isso que eu falei
que chega um momento que a gente sai do
micro e vai pro macro, entendeu? A gente
está vendo, eu estou vendo o problema na
ponta, tá? Não tem ninguém pra assumir esse
paciente.
Vai
ficar
sozinho?
Ficar
abandonado? Que absurdo é esse? Como é
que eles têm coragem de fazer isso? Mas, aí
não é assim. Quem falou que quem vai ficar
com o paciente? Quem decide isso? Isso é
protocolo, isso é um serviço organizado que
se propõe a discutir um problema antes dele
aparecer: “Olha, o paciente com esse perfil,
ele acompanha, né?” E não vai sobrecarregar
ele porque esse profissional ele está sendo
contratado pra isso e aquele outro profissional
está sendo contratado pra aquilo. Isso é uma
coisa de protocolo de serviço, que precisa
acontecer em qualquer grande hospital. Eu
acho que o hospital cresceu tanto e não
teve... não sei se foi tempo, não sei o que
faltou nesse caminho, porque também não
teve tempo de experiência para saber onde
surgiu, o que foi, onde é que faltou [...]
[...] Estou aqui há dois anos, eu já vejo...
meus colegas até falam assim: “É, mas
realmente melhorou, melhorou muito, muito
mesmo, é visível, muitas coisas já existem
protocolo”. Então, vai pra oncologia se tiver
biopsia, vai para o HSG se não tiver infecção.
Já tem algumas coisas assim, bem definidas,
mas existem inúmeras outras que ainda não

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Participante
tem. Ai quando você chega com o paciente,
principalmente quando precisa de uma
transferência e aqui não tem recurso, a gente
fica com o paciente que não é nosso
esperando transferência. Até quando? Então
assim, não tem fluxogramas bem definidos.
P5

[...] já aconteceu isso com um paciente meu da
pediatria. Não era nem meu, mas estava na
enfermaria da pediatria e eu fiquei na hora
comovida com a situação. Falei: “Não, vou
ajudar resolver”. E um professor me ajudou,
falou assim: “Pode fazer, preparar tudo que eu,
eu te ajudo”. O paciente precisava ser
transferido para Salvador, só que faltava um
laudo, então assim essa coisa, né? Tem as
imagens, tem os exames, tem tudo, mas faltava
um laudo de um radiologista que eu acho que
ficou numa clínica nesse transporte todo.

P5

[...] quer dizer, se isso tivesse um protocolo
dizendo que o paciente para transferência
para Salvador precisa de dois pontos e a
gente fizesse um checklist e marcasse: “Está
tudo ok pra transferência?” E o paciente fica
aqui perdendo muito tempo. Às vezes, quando
o internato assume a coisa parece que flui,
mas até o internato assumir. [...] a pediatria é
um pouco diferente, porque elas (pediatras)
tem uma divisão melhor, mas isso acontece
no corredor, acontece em vários setores. [...]
acho que, talvez se a gente pudesse ajudar
nesses protocolos, talvez o hospital ficasse
mais... a coisa fluísse, melhor porque o
paciente tinha um caminho a percorrer não
definido.
Pesq.: Como as melhorias das questões de humanização se viabilizariam na formação médica?
Precisaria de mais... talvez da discussão e
da prática, talvez, não sei. Acho que a
discussão a gente tem os temas, né? A
gente discute a humanização no SUS
dentro de saúde coletiva, a discussão
existe.
[...] mas, por exemplo, aqui no hospital a gente,
discute humanização nos conflitos do dia a dia,
igual estava explicando, surge um problema a
gente discute. Mas não é assim, talvez
intervenções que pudessem... Acho que o
problema é esse, a gente identifica algumas

P5

P5

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Participante
coisas que a gente discute mas a gente não
propõe estratégias pra tentar solucionar. E acho
que muitas coisas também passam, e muito das
nossas possibilidades de resolução.
P5

.

A discussão da relação entre professores e
alunos,
que
entraria
também
como
humanização, e talvez os alunos com os
profissionais. [...] mas precisaria de mais
discussão, com certeza. A gente estava
conversando entre nós, né? [...] muitas vezes,
a forma como o professor lida com a gente,
né? Seria uma dessas discussões. [...] e
tentar estratégias assim de trabalhar essas
questões.
Pesq.: Sobre a relação entre professor e alunos, o que chama sua atenção neste sentido com a humanização?

P5

Acho que conflitos todo mundo tem.
Quaisquer duas pessoas que você for juntar
num mesmo lugar pra fazer um trabalho vai
ter conflito. [...] acho que talvez um espaço pra
gente discutir isso [...]eu acho que muitas
vezes isso acontece assim, não oficialmente,
né? Mas, as pessoas conversam e acabam
vendo: “Olha, isso aqui poderia ter sido
resolvido dessa forma” e tentam desenvolver
outra estratégia. [...] um mecanismo pra que
isso pudesse ser orientado era bom. [...] uma
coisa que tinha era uma proposta, acho que o
nome era Nusbe, que atendia, né? Tinha um
psicólogo, acho que era um psiquiatra, que
atendia os alunos quando eles estavam
passando por uma dificuldade. [...] porque às
vezes eu acho que as coisas acontecem e os
alunos ficam como relapsos, né? E é difícil
para o professor que está naquele dia a dia
com não sei quantos alunos. Vai ser problema
para ele em ajudar o aluno pontualmente. É
complicado. [...] talvez um núcleo que
pudesse humanizar nesse sentido. Dar uma
assistência e dar um suporte que pudesse
identificar: “Olha, esse aluno está passando
por isso e tal, vai precisar se ausentar por
causa disso, disso e disso”. E só o fato disso
ser oficial e ter sido comprovado pelo Nusbe,
não é? Porque também tem aluno de todo
jeito, né? Tem aquele que está com
dificuldade de falta e tem aquele que falta e
não está com dificuldade e está dizendo que
está. Se pudesse isso ser comprovado

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Participante
mesmo, talvez isso não gerasse conflito. [...]
Talvez isso amenizasse porque o professor
fala: “Não, realmente esse daqui a gente vai
ter que ver o que vai fazer com ele, porque
está vivendo isso, né?” E a gente precisa
entender o que ele está vivendo, e talvez
também, se a gente não pode ajudar, tentar
arrumar formas de ele continuar na faculdade
como bom aluno dentro do que ele está
vivendo. Da mesma forma que identificar
também aqueles que estão usando a
justificativa e que não está embasada. Acho
que o núcleo (Nusbe) era uma boa opção
nisso.
Pesq.: Como você avalia essa pesquisa e a sua participação?
Ah, eu queria muito que melhorasse essas
coisas assim... que pudesse ter um ambiente,
talvez um ambiente de discussão disso, talvez
estratégias pra ajudar que a gente pudesse
melhorar um pouco esse hospital [...] [...]
quem trabalha aqui (no hospital) passa muito
sufoco. Os nossos professores tentam fazer
muito, mas às vezes não está no alcance
deles. [...] Eu acho que a humanização pode
trazer um frescor pra esse trabalho [...][ que já
é tão difícil que às vezes contamina a gente
também, às vezes a gente também cansa.
Pesq.: Naturaliza? Condiciona?
Às vezes, sim... Se a gente deixar naturaliza e
condiciona, e os professores falam isso.
Quando eles veem alguma atitude da gente,
eles tão vendo que está indo nesse rumo, eles
falam: “isso ai está errado”. Eu sei que isso ai
é feito, eles falam isso pra gente, eu já ouvi, já
falaram muito pra mim, eu sei que isso ai é
feito, você não pode agir, pensar que isso é
natural, entendeu? Às vezes assim, aceitar
uma resposta, tipo um “não”, [...] “você não
pode parar nisso não, isso está errado”, sabe
assim? Isso condiciona, porque se todo
mundo aceita ninguém muda.

P5

P5

Pesq.: Quando se fala em humanização em saúde, o que lhe vem à mente?
P6

Penso em atender o
paciente, né? De uma

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Participante
forma integral assim, de
uma forma digna, né? Dar a
ele os recursos que tem
disponível no serviço, da
melhor forma pra assistir
ele, assistir o paciente da
melhor forma possível.
P6

P6

P6

P6

Pesq.: Como as questões sobre humanização em saúde são trabalhadas durante o curso?
Principalmente pelo método ABP, a gente, como é
introduzido logo no inicio na saúde coletiva [...] a
gente passa a vivenciar uma realidade assim pra
ver como que é. A gente tem que trabalhar em
equipe, tem que atender o paciente de acordo com
aquela equipe, né? Então assim, atender às
necessidades dele então, saber tudo, saber dos
anseios daquela população. Então assim, você
fazer a territorialização, você conhecer o ambiente
de trabalho... Então, todo aquele trabalho do
primeiro e segundo ano... Isso, pra mim, eu acho
que foi apresentado de uma forma: da
humanização, tanto da equipe como do paciente.
A gente conhecer a realidade do
paciente, saber como mora, saber as
condições dele, a realidade social,
econômica de tudo isso, então isso é
uma forma de humanização.
[...] eu acho que quando chega no quinto e sexto
ano é que a gente tem essa perda maior.
Quando entra no hospital você acaba perdendo
essa questão da humanização, principalmente
quando você se debate com profissionais que
não são seus professores e que você vê que
são profissionais antigos. Então você acaba
perdendo... vendo essa perda assim da
humanização.
Pesq.: Voce poderia explicar e exemplificar esta “perda da humanização”?
[...] a humanização entra assim. Por exemplo, a
gente sempre é orientado a pedir e fazer o
melhor pelo paciente. Se é pra pedir uma
tomografia, não tem no hospital, seu dever é
pedir. Eu peço. Aí, a gente é orientado a correr
atrás, ir lá, a coordenação deixar. A gente faz a
solicitação e vai à coordenação, então isso a
gente é orientado. Só que, chega, você faz isso
e pronto, se não resolveu fica aí. Por isso
mesmo acaba não fazendo mais nada.
[...] dos internatos eu acho que saúde coletiva, por

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Participante
ser mais a cara do PIESC, tem isso. E os
profissionais que estão lá eles são bastante
empenhados nisso. Então assim, são profissionais
que já trabalham com saúde coletiva, que gostam e
que estão lá fazendo isso. E até a equipe também é
muito boa. Então assim, recebe a gente muito bem,
tem essa troca e você então conhece um pouco da
população, você vê e sabe um pouco da realidade.
P6

Em pediatria, que eu acho também que é mais
humano. Clínica médica e cirurgia nem tanto, é
mais patologia. Cirurgia, principalmente, né?
Que você vê a patologia e trata a patologia,
tirou, pronto e aí já não é mais cirúrgico, pronto.
Mas assim, tem profissionais, principalmente
alguns professores que trabalham isso. Falam:
“Olha, você tem que ver tal medicamento, você
não pode passar, você tem que ver a condição
do paciente”.
[...] Então, tem os profissionais, mas de
um modo geral, não. Acho que tem a ver
também com o preparo dos professores.
Pesq.: Com o preparo dos professores? Por que acha isto?

P6

P6

Eu acho que os professores mais novos
que assim... tem uma formação mais
nova, eles não tiveram nem a formação
ABP, mas que teve uma formação mais
nova, eles visam a humanização de uma
forma diferente.
[...] eles já encaram o
paciente de uma forma
humana como ser humano,
está ali pra dar um suporte
entendeu?
[...]
estão
valorizando muito a questão
do
psicossocial,
do
psicológico
mesmo
do
paciente que, às vezes, o
paciente está em busca só
de amparo, não é nem uma
dor real, é uma dor irreal.
[...] os mais velhos, acho
que por ser dele mesmo,
ser inato do profissional, e
tem outros que eu acho que
aprendeu na faculdade.
Aprendeu a ser naquela
tradição médica e pronto:

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resolveu
o
problema,
passou o remédio e só.
P6

P6

P6

P6

O que eu acho também que, assim: como eu
estou praticamente formando daqui a quinze
dias, aí por exemplo, a realidade vai ser
diferente [...] uma coisa é você ser humano e
chegar em um ambiente que não lhe dá
condições de trabalho. E ai você já está ali,
óbvio que se você vai ser humano você está se
submetendo a isso. Mas assim: até quando eu
vou poder ser humano, chegando para um
doente que está aqui na minha mão com essas
condições que eu tenho? Então assim... eu acho
que o “como eu sou” vai influenciar sim, só que
existem outras coisas externas, outros fatores
externos que também influenciam você a se
desumanizar.
Pesq.: Você se desumanizar? Como assim?
Eu acho que assim: você, às vezes,
pode passar batido por alguma coisa e
alguém vir e falar: “Olha, não faz assim
não!” Entendeu? Ás vezes é um “bom
dia” que você não deu e que, quando
alguém der um “bom dia”, já muda a sua
relação com o paciente. Então, não é
nem que você é mais humano ou
menos humano, é só um bom dia... às
vezes, muda a relação.
Pesq.: Como você avalia a pesquisa e sua participação nesta pesquisa?
Eu vou para uma área dita dura: ortopedia. Mas
é isso que acho, essa coisa de ser duro... existe
ser humano, existe uma realidade, existe tudo,
um todo, não é só você botar um osso no lugar e
pronto, né? Assim... diz que você aprende na
residência, pelo menos o que fala é que você
será duro, mas aí é você que vai saber: vai ficar
humano ou não, né? Desumanizar-se, se é que
existe.
[...] essa pesquisa, né? Serve para estar
conscientizando sempre, né? Cada vez mais eu
acho que você não se torna mais humano, mas
eu acho que você se conscientiza com o outro.
Às vezes você passa batido. Aí, como falei, se
você aprender a fazer assim você vai fazer
assim e se alguém falar: “Não faz assim”, então
eu acho que é bom que você vai tomando
conscientização da importância e da relevância

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com o tempo.

Pesq.: Quando se fala em humanização em saúde, o que lhe vem à mente?
P7

A questão de tratar o ser
humano, principalmente num
momento de fragilidade, né?
Que, na questão da saúde,
esse meio de hospital, de
posto de saúde, que também
pode estar incluído, é você
tratar a pessoa com respeito,
com o carinho necessário
que a pessoa precisa nessa
fase. E é exatamente isso, é
um momento de muita
fragilidade, que as pessoas,
que os pacientes, geralmente
apresentam nessa fase.

P7

P7

P7

E o que a gente vê é que muitas vezes
isso não está presente. É um tema,
inclusive, muito importante porque isso é
uma coisa que realmente assim... por
mais que se fale é uma coisa que você vê
pouco [...]
[...] a questão de tratar o
outro como um ser humano,
se colocar no lugar do outro,
é isso: aceitar a fragilidade e
tratar o outro com respeito
porque, como você está ali
trabalhando naquela área,
você pode estar numa
relação de superioridade,
digamos assim, com relação
ao outro [...] mas isso não
deve influenciar na sua forma
de
tratar
o
outro,
principalmente nessa fase
onde a pessoa realmente
esta mais fragilizada.
Pesq.: Pouco se vê na realidade da formação do médico? Por que?
Sim. Porque as pessoas não são tão
humanas nessa área, muitas vezes! Eu
acho assim... que não acontece porque,
primeiro as pessoas, muitas vezes, elas

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P7

P7

não têm a capacidade de se colocar no
lugar do outro. Eu acho que isso é uma
coisa,
porque
se
tivesse
essa
capacidade, muitas coisas que eu vejo
não aconteceriam. Segundo porque eu
acho que as pessoas realmente ficam
muito frias. No começo algumas pessoas
se abalam mais do que outras, com
certeza, mas acho que no começo
ninguém é tão frio quanto fica com o
tempo. Eu acho que as pessoas não se
trabalham e aquilo vai se tornando uma
coisa muito mecânica realmente e ai essa
pessoa, na maioria das vezes, não tem a
capacidade mesmo de se colocar no
lugar do outro, não sente a dor do outro,
não imaginam também, não querem
imaginar também, não querem sofrer, não
querem se abalar e aí passa por cima
daquilo. E também é um meio que eu
vejo... uma área de muito ego e de muita
vaidade. E aí isso também eu acho que
influencia. Então, a pessoa, ela quer se
colocar num certo ar de superioridade,
então ela não se permite se envolver no
problema do outro. É o que eu realmente
mais vejo, assim... eu acho esse o
principal motivo que não permite que
consiga tratar o outro, porque eu acho
que se fosse um parente, se fosse
alguém mais próximo, um amigo, eu
acho, não... eu tenho certeza de que o
tratamento seria diferente.
Pesq.: Como as questões sobre humanização em saúde são trabalhadas durante o curso de Medicina da UESB?
[...] onde a gente viu mais essa questão de
humanização dentro da faculdade foi mais na
questão do próprio PIESC. Era uma coisa que se
falava muito [...] Sara falava muito, Danilo falava
muito dessa questão, a gente teve também
algumas coisas com relação à psicologia com
Monalisa, que ela falava também de algumas
coisas assim, sabe... a forma que você deveria
tratar, o impacto que isso trazia no paciente. Então
é basicamente ali.
[...] aqui no hospital as coisas não são tão
faladas. O que eu achava assim é que não
falava: “Não, você tem que tratar o paciente com
humanidade”, isso não era uma coisa assim...

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você tem que ser mais sensível, isso não.
P7

[...] eu acho que, na verdade, como no PIESC não.
A gente tem ao longo dos 4 anos do curso e foi
uma coisa que agente acabou falando bastante.
Monalisa (a psicóloga), a gente teve mais nos dois
primeiros anos, principalmente no segundo ano,
mas como no PIESC a gente teve 4 anos na
faculdade, acho que quando a gente entrou no
hospital a gente teve mais capacidade de ter
aquele discernimento: esse professor não, esse é
humano, esse trata o paciente, sabe como uma
pessoa de fato, respeita a dor dele, esse não.
Acho que a gente aprendeu esse discernimento ao
longo desses 4 anos, mas aqui não era uma coisa
falada, mas a gente observava, falava: “Esse não
é!” mas aqui, nos dois anos últimos do internato,
era mais essa questão de você ver e analisar, pelo
menos eu. Isto porque eu, por exemplo, tenho
essa dificuldade de não me envolver, inclusive no
começo meu primeiro paciente da Clínica Médica
faleceu e eu, tipo... já era aquela pessoa que
chorava. Então, eu era muito mole e ai povo
descia de pau em mim assim, mas eu tinha essa
dificuldade. Hoje eu ainda tenho essa dificuldade,
mas é menos, porque eu venho me trabalhando,
mas isso não significa nem que eu fiquei fria, na
verdade é porque, senão, eu não consigo
trabalhar. Mas assim, o que mais eu vi dentro da
faculdade mesmo foi ao longo desses 4 anos no
PIESC. Dentro do PIESC se falava essas coisas e
aqui (no hospital) a gente mais observava do que...
eu pelo menos, né? Posso falar mais de mim, eu
observava mais e interpretava a atitude de um e
de outro professor do que isso era falado
abertamente: “Não, aquele professor é assim”. Eu
ficava muito prestando atenção, eu nem sei se eu
sou a regra, eu acho até que sou meio que a
exceção, porque eu gosto dessas coisas, sabe?
Eu quero fazer psiquiatria, eu faço terapia, então
eu analiso essas atitudes das pessoas. Então, eu
não sei se isso é uma coisa que serve para os
outros, mas eu estou falando comigo. Foi
realmente o que mais aconteceu assim. Eu refletia.
Tem uns assim, que é inacreditável... profissionais
que te impactam tanto positivamente quanto
negativamente. Eu acho que isso não. E, no
tutorial também tinha aquele negócio do
biopsicossocial do paciente, do profissional.

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P7

Pesq.: Como eram estes objetivos biopsicossociais no tutorial?
É, exatamente, daqueles objetivos eles
sempre tentavam
encaixar
aquele
biopsicossocial, mas sempre foi visto
como objetivo “besta”, entendeu? Sempre
foi visto como aquele objetivo: “Sim
gente, mas é isso então, vamos aqui falar
esse negócio do biopsicossocial”. Era um
objetivo
como
se
fosse
menos
importante, menos valorizado, com
certeza.
Pesq.: Você falou dos profissionais que te impactam positivamente ou negativamente na questão da humanização. Um exemplo?
[...] eu tive um paciente especificamente assim,
que ele foi um paciente até da cirurgia. [...] que
tinha uma mãe, ele ficou como meu paciente,
mas a mãe dele estava, tipo, desesperada
porque ele tinha inicialmente sido operado por
uma possível apendicite. Acreditava-se que era
uma apendicite. Estava com abdômen agudo e
foi operar achando que era apendicite.
Chegando lá, ele tinha uma tumoração, mas que
os próprios médicos não achavam que era um
câncer, não era nada maligno, achavam que era
uma doença inflamatória intestinal, mas a forma
com que isso foi dito pra mãe desse rapaz foi
uma coisa que me marcou. A mulher estava
completamente desesperada, porque se falou
assim: “Olha, o que ele tem não é apendicite, o
que ele tem é um tumor e a gente vai ter que
aguardar pra ver o que é”. E foi dito de uma
forma muito seca e ela ficou muito desesperada.
O filho ainda estava no centro cirúrgico e ela
ainda nem tinha visto ele. Ela estava no cantinho
assim, chorando e desesperada e eu fui,
conversei com ela e fiz até um negócio que não
se pode fazer, tipo assim: dei até uma espiada
lá, abri a porta, deixei ela ver ele e falei: “Bora
entrar aqui, não sei o que”. Entrei, ela ficou com
ele um pouquinho. Conversei, eu falei: “Olha,
realmente tinha isso (a tumoração) mas eles não
estão achando que não é nada maligno, só não
estou dizendo que não é”. Ainda falei pra ela:
“Mas, a gente acredita que não seja, a gente
tem que aguardar, vamos rezar pra que dê tudo
certo”. E eu conversei com ela assim, eu senti
que ela ficou melhor, entendeu? Depois ele foi
internado lá dentro e eu fiquei com ele. E depois
ele levou o resultado da biopsia lá pra mim no

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ambulatório, foi eu que atendi. Não veio com
nada maligno, acreditava-se que era Crohn e
assim... foi um paciente que tive uma relação e
depois ele até voltou, suspeitou de fístula de
novo mas não teve nada. Mas assim, eu senti
que ajudei aquela família num momento que pra
ela estava sendo muito difícil, e que eu pude
acompanhar e ver que não era nada. Ele fez um
desenho pra mim que eu tenho guardado ate
hoje, sabe? Então, foi uma coisa que me
marcou, esse paciente foi um paciente que me
marcou assim, tanto da forma como foi dito,
tanto da forma como eu tentei dar uma
melhorada naquilo, porque eu acho que a
depender, tudo depende muito, lógico que tem
noticias que é sempre horrível, que não tem
como, mas você pode falar aquilo de várias
formas e aquilo doer mais ou doer menos.
Aquilo foi realmente uma experiência que
marcou.
Pesq.: Você tocou aí na preparação do aluno de Medicina em dar más notícias, né? Como é?
Ah, é péssima. Eu sinceramente não fui
preparada pra dar más notícias. O preparo que
eu tive foi observando alguns médicos dando
essa notícia e vendo como: “ah, não, eu acho
que aquele ali deu de uma forma mais... acho...
pô gostei”. Então, outro: “de jeito nenhum, não
posso fazer aquilo de jeito nenhum”. Foi uma
coisa muito mais minha, uma interpretação
minha do que falar, assim: “não gente, hoje não
vamos falar sobre isso porque, pô isso é uma
coisa muito importante”. Eu acho também muito
importante, mas não foi uma coisa discutida na
faculdade, não que eu me lembre, não foi uma
coisa discutida. A gente não aprendeu a lidar
com isso no “como fazer”, sabe? Essa questão é
muito negligenciada, eu acho a questão
psicológica. Tanto, nossa! Como a gente pode
fazer pra se envolver sem ficar tão frio, sem ser
tão indiferente [...] com o sofrimento do outro, eu
acho que desses dois lados aí da gente não
foram trabalhados de forma adequada. Eu não
sei como são os outros cursos, até em Medicina
que é a gente que tem que dar diretamente a
notícias... eu não sei como é em Ilhéus, Feira de
Santana, na UFBA em Salvador, mas aqui é
uma coisa realmente deficiente, com certeza.
Pesq.: Quais as sugestões de melhoria para as questões de humanização na formação do médico?

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Participante
P7

[...] eu acho que isso poderia ser mais
debatido de fato, como a gente tem várias
palestras sobre várias coisas. [...] acho
que falta na verdade, não sei como é que
isso pode ser feito, sinceramente, mas eu
acho que faltam profissionais que
realmente se importem com essa
característica do médico. Porque, por
exemplo, se você fala que vai fazer
psiquiatria uns falam: “Ah, mas isso não é
Medicina”. Entendeu? Como se a questão
psicológica da pessoa não fosse
importante. Então, se as próprias
pessoas que estão ali dentro, não vou
dizer que são todos, com certeza não são
todos, mas se assim... os próprios
professores não tem essa sensibilidade,
não tem essa visão, como isso ser
passado para o aluno? Eles não acham
isso importante. Os próprios tutores vêm
o biopsicossocial como um objetivo
menos importante, porque se o tutor
falasse: “Não, vamos valorizar”. E ai
cobrasse, o aluno ia atrás, ele ia procurar
saber, ele ia pesquisar mais porque isso
é ser valorizado. Nem que fosse por
conta de uma nota no final das contas,
mas aquilo seria mais valorizado dentro
da universidade. Eu não sei se a gente
deveria ter um contato maior com
professores
psicólogos
durante
a
graduação. Então, se a gente tivesse com
mais profissionais, porque acho que
profissional médico em si, na grande
maioria das vezes, a gente não pode
muito cobrar deles não, porque acho que
eles não tem muito pra dar, entendeu?
Então, se ficar nas mãos deles realmente
fazer essa parte eu acho que o negócio
não dá pé porque, a maioria das vezes,
eles não dão importância mesmo, eles
não acham importante, então não tem
como. Eles vão falar o que? Pra tratar de
qualquer forma? Então eu acho que o
psicólogo, por estar mais focado nessa
questão, porque o próprio profissional
médico às vezes também é muito doente,
entendeu?

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Participante
P7

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P7

[...] então, é uma questão de
tanto o profissional se
analisar quanto do olhar para
o outro, para o paciente.
[...] até tentou colocar um núcleo de apoio
psicológico ao estudante de Medicina lá,
mas não foi pra frente. Inclusive eu fui
uma das primeiras a ir. Eu fui, tinha uma
pesquisa lá que ela (psicóloga) estava
fazendo, eu preenchi, fiz tudo, porque eu
gosto dessa parte, mas foi uma coisa que
não foi valorizada. Acabou, virou uma
sala de aula agora.
Pesq.: Como você avalia a pesquisa e sua participação nesta pesquisa?
[...] eu tenho esperança que isso de
alguma forma se transforme, melhore.
Pelo que eu estou vendo como foi
comigo, com minha turma, meus amigos
que estão se formando agora comigo.
Pelo que eu estou vendo assim, ainda
não vai ser agora que vão ter
profissionais tão mais humanos assim
[...]mas, eu espero que, em longo prazo,
isso consiga ser transformado desde lá
do primeiro ano mesmo, sabe? Não sei
como, sinceramente, não sei como. É
uma coisa difícil, sabe? Porque isso está
nas mãos dos médicos. A maioria dos
médicos não são, então fica meio
complicado.

Pesq.: Quando se fala em humanização em saúde, o que lhe vem à mente?
P8

Humanização, eu acho que por mais que
possa ser, assim... redundante, eu acho
que é tratar mais a pessoa, o paciente, o
usuário do serviço, seja ele particular ou
público,
como
humano
mesmo.
Entendendo ele como uma pessoa que
requer cuidados, que requer atenção.
Tentar tratar de uma maneira mais
cuidadosa, assim... dar uma atenção
maior para o indivíduo e reconhecer ele
né, como um indivíduo que tem
sentimentos, necessidades e que deseja.
Inclusive, quando ele (o paciente) nos

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busca, os profissionais de saúde de uma
maneira em geral, geralmente traz
alguma demanda e traz algum problema,
por mais que seja só atenção, seja um
momento de conversa, alguma coisa.
Então, quando fala em humanização me
vem isso assim: Tratar o paciente/usuário
mais como ser humano mesmo.
P8

P8

P8

P8

Pesq.: Como as questões sobre humanização em saúde são trabalhadas durante o curso de Medicina da UESB?
Assim, eu acho que uma iniciativa
muito legal em relação a isso é a
inserção da gente no serviço de saúde
pública, no PSF - o Programa de
Saúde da família, que é um dos
ambientes que mais se fala em
humanização, que mais se tenta aplicar
a humanização. Então assim, desde o
inicio da faculdade a gente é inserido
nesses serviços pra gente ver como é
esse processo de humanização,
inclusive viver isso na pele, viver essas
experiências de humanização no dia a
dia, então acho que esse é o aspecto
mais interessante [...] inclusive é uma
das coisas que muitas vezes a gente
sente falta quando a gente sai daquele
ambiente, por exemplo.
Assim, quando a gente vem pra um ambiente
hospitalar, por mais que seja um ambiente que
necessita de uma humanização maior é um
ambiente (o hospital) que não tem tanto assim...
tanto investimento, que não é nem financeiro,
mas investimento de pessoal mesmo, assim...
humano mesmo, de um sentido de humanizar o
serviço. Então a gente sente muita falta dessa
iniciativa de nos inserir. [...]
No programa de saúde da família
durante o PIESC, eu acho que é uma
iniciativa muito legal, muito interessante
a gente viver esse processo.
Pesq.: Explique esse “sentir falta disso” que você disse aí dentro do ambiente hospitalar?
Começa primeiro pela entrada, né? Pelo
corredor, assim quando você já chega aqui você
já vê uma situação assim muito complicada,
muito delicada que não tem um ambiente pro
paciente, um espaço para o paciente, ou o
paciente espera lá fora do hospital ou o paciente

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fica no corredor que é esse caos. Aqui que a
gente vê macas espalhadas pelo corredor, que é
uma coisa que não deveria existir. Então assim,
tudo isso eu acho que desestimula as pessoas a
buscarem mais e aceitarem isso aqui do jeito
que é. Não pensam muito em humanização.
Uma coisa é isso aqui mesmo, esse corredor, as
condições que o paciente fica e, não só no
corredor, que é o que mais choca, que é o que a
gente mais vê, que a gente mais tem acesso,
mas muitas vezes a enfermaria também é nessa
condição. Muitas vezes, o paciente não tem um
espaço pra ele, não tem uma privacidade, tem
que dar banho num paciente junto com os outros
doentes assim, no meio [...]
P8

[...] então não tem um cuidado assim...
maior com o paciente, mas muitas vezes
enxerga muito a doença, não enxerga
muito a pessoa, então eu acho que no
hospital é isso.

P8

P8

P8

P8

[...] que é bem diferente assim, não que
seja ideal também no posto de saúde,
mas acho que é uma coisa que pelo
menos se tenta fazer, tenta humanizar
o máximo que pode.
[...] para o paciente, isso aqui falta muito.
Acho que aqui enxerga muito a doença,
não enxerga muito o paciente como um
todo.
Pesq.: Como vocês lidam com estas necessidades relacionadas ao exercício de uma prática mais humanizada?
[...] por isso que é o que eu disse, é super
importante essa formação prévia da
gente porque, senão, talvez a gente
enxergasse isso como normal, como se
fosse o jeito que tem que ser as coisas.
Eu acho que é isso que torna a gente,
pelo menos a minha turma, por exemplo,
a fazer um olhar muito crítico em relação
a essa coisas, a esses detalhes que
talvez assim... não se discuta muito. [...]
como as pessoas muitas vezes vivem
nesse ambiente de profissionais, às
vezes professores, a gente sente que
eles já acham que isso é normal. Eles
aceitam mais isso, talvez por estar há
mais tempo no serviço não sei.
Mas a gente, por vir dessa formação de

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passar no posto, de ver como é que é
um pouco mais da humanização, como
é que funciona isso na saúde coletiva,
a gente aqui questiona muito essas
questões.
P8

[...] acaba que, de certa forma, a gente se
sente muitas vezes impotente de não
poder, de ter que aceitar, de ter que viver
naquilo ali que a gente não sente muito
bem. Não tem muito poder, talvez, de
mudança, mudar alguma coisa. A gente
se sente muito impotente nesse sentido.

P8

É uma coisa que causa um choque muito grande
na gente, até porque a gente é solto aqui. Por
exemplo, quando a gente entrou no início do
curso a gente faz um tour, conhece os postos e
tudo mais. Quando a gente é inserido aqui no
ambiente hospitalar a gente é inserido: “Olha,
você começa tal dia!” Então não tem ninguém
pra receber a gente. Não tem ninguém pra falar
nada. A gente chega e é jogado no serviço e
acompanha, continua acompanhando o serviço,
continua tocando o serviço do jeito que ele é e
por aí vai, mas causa um constrangimento muito
grande na gente.
Pesq.: Uma situação que você se lembra que ilustra a humanização vivenciada durante formação?
[...] na verdade o que eu me lembro é
assim de situações do dia a dia, de
pacientes que muitas vezes chegam
não tem uma queixa biológica, de
doença, alguma coisa que se teve e aí
o paciente é recebido no acolhimento.
Muitas vezes conversa-se com ele no
acolhimento [...] pra poder aliviar de
alguma forma com o sofrimento
daquele paciente.
[...] falar de humanização, é mais assim o
serviço do dia a dia, a interação da
equipe com os pacientes. Não que não
tenha nada assim: “Ah, é tudo lindo, é
tudo maravilhoso!”, não que seja isso,
mas que pelo menos tenha uma cultura
ali naquele ambiente, cultuado esse
ambiente, essa ideia da humanização
[...].
Pesq.: E como você avalia a humanização nos estágios?
É assim, de uma maneira geral, dos estágios só

P8

P8

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aqui no hospital, clínica cirúrgica e clínica
médica são bem parecidas em relação à
humanização. A ideia é bem parecida. Acho
bem precária nesse ponto, nesses é muito
discutida a doença. Dos que tem aqui no
hospital, talvez o que mais seja... que mais se
discuta isso, não sei se por conta dos pacientes,
talvez numa sensibilidade maior do pediatra.
Talvez lidar com criança e tudo mais, que tem
um pouco mais desse cuidado com o paciente,
essa preocupação. Não sei se por conta de
coincidência dos profissionais, dos professores
que a gente tem, ou se por conta dos
profissionais que buscam a pediatria terem uma
sensibilidade maior. [...] cirurgia e clínica médica
é uma coisa bem precária, não pára muito pra
pensar nos problemas. Talvez o indivíduo não é
inserido naquele aspecto biopsicossocial que a
gente tanto discute, né? Só vê mais a parte
biológica, então o psicossocial do paciente muito
pouco é discutido, é debatido, tanto em cirurgia
quanto em clínica médica.
P8

Já em saúde coletiva, isso aí nem se
fala, né? Assim como no PIESC, é o
momento que a gente mais se discute,
que mais bate nisso, na postura, na
abordagem que foge um pouco dessa
parte biológica da doença. É muito
legal o de saúde coletiva, o
aprendizado é absurdo por conta disso.
É como um professor da gente fala,
que na verdade a gente não vê muita
diversidade de doenças, a gente não
vê tantas, mas a gente vê uma
diversidade
de
situações,
de
experiências que a gente passa. Então
assim, foge muito dessa abordagem só
biológica, desde as oficinas de contato
com a comunidade até o projeto que a
gente faz. Então, dos rodízios, dos
daqui do hospital, é como eu falei,
talvez o de pediatria tem sido melhor,
tenha essa sensibilidade maior.
Pesq.: E como neste aspecto da humanização as coisas poderiam melhorar na formação médica?
o que pode ser feito na verdade é inserir
a gente nos serviços[..]

P8
P8

porém, eu tenho um pensamento de que,
para a humanização melhorar um pouco,

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Participante
tem que partir na verdade de cada um,
sabe? É da humanidade que tem de cada
um.
P8

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P8

[...] escuta muito humanização, mas acho
que, se o próprio indivíduo não for
humanizado, não tiver uma criação
humanizada, eu acho que ele nunca vai
se humanizar, nunca vai absorver isto
aqui e tentar reproduzir.
Pesq.: Torna-se uma aprendizagem a partir de experiências pessoais e história de vida de cada um?
[...] esse tipo de comportamento
humanizado ou desumano na verdade eu
acho que é um comportamento muito
pessoal, das experiências que a pessoa
teve e da criação que a pessoa teve. O
que acontece muito na Medicina é assim,
talvez não a desumanização, mas a
frustação que muitas vezes você vê,
situações que não tem jeito e você acaba
desistindo daquilo, perdendo energia e
levando as coisas com a barriga. Porque
eu conheço muitas pessoas que são
assim, por fora assim do ambiente são
pessoas
extremamente
cuidadosas,
carinhosas e que, quando são inseridos
em determinados serviços, parece que
mudam completamente, parece que
desumanizam na verdade quando estão
assim num trabalho, exercendo sua
profissão. Talvez por conta disso, da
frustação, da desilusão que se tem com o
sistema, com tudo, e acaba que ela não
tem mais energia. Então, muitas vezes
vai para o serviço, vai para o emprego
desestimulado. [...] acaba muitas vezes
descontando no paciente. O paciente
chega com o sofrimento, aí como ele já tá
com o saco cheio de tudo, desconta no
paciente. Então, eu acho que acontece
mais isso, mas não que ele se
desumanize na verdade, que ele se torne
uma pessoa ruim.
Pesq.: Como você avalia esta pesquisa e sua participação nesta pesquisa?
[...] existem pessoas ainda que se
preocupam em relação à humanização,
que tem energia e faça um investimento
pra poder investigar, coletar dados e

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Participante
melhorar a partir dali. [...] que tudo
começa a partir disso, a partir de
desmitificar o problema, que é o que a
gente aprende, inclusive no PIESC. Você
desmitifica um problema. Aí, desmitifica
uma demanda e, a partir dali, você busca
uma solução, busca criar alguma coisa
que você possa fazer pra poder melhorar
aquela condição [...]

Pesq.: Quando se fala em humanização em saúde, o que lhe vem à mente?
P9

[...] no sentido amplo da
palavra, a gente pode até
entender
como
trazer
características
humanas,
né?
Para
determinado
segmento. Dentro da saúde,
essa parte de humanização
ganha até uma conotação
mais
importante,
né?
Porque vai envolver, não
somente o trato com o
paciente,
né?
A
humanização
no
atendimento,
isso
é
importante, né? O paciente
ele precisa ter essa questão
da percepção humana, que
a
gente
deve
compreender, de entender
que
as
pessoas
têm
ansiedades, têm medos,
têm inseguranças e que tá
trazendo algum problema.
Você ter a sensibilidade de
lidar com isso passa por
essa
questão
da
humanização. Mas, não só
nesse aspecto, no aspecto
também estrutural da coisa,
né? A humanização dos
profissionais que estão ali
envolvidos,
ter
uma
salubridade no ambiente de
trabalho, né? Ter condições
boas de atendimento, né?

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Participante
Os
recursos
mínimos
básicos pra poder atender
de maneira satisfatória.
Então, passa desde a
questão do atendimento
propriamente
dito
do
paciente e de profissional
quanto a questão estrutural
também, né?

P9

P9

Pesq.: Como a humanização vem sendo trabalhada durante o curso de Medicina da UESB?
[...] as atividades de humanização tem
sido muito pautadas na questão do que o
profissional
pode
oferecer,
nessa
condição de profissional, né? O que ele
pode fazer pra trazer essa humanização
pra o serviço de saúde. Então, envolve
muito mais essa questão da postura, de
como você encara as diversas situações,
né?
Não se preocupar apenas em identificar o problema,
mas tentar resolver, trazer maior resolubilidade ao
longo do percurso do paciente no serviço de saúde.
Trabalhar com essa parte de prevenção dos agravos,
que seria mais a parte de orientação. Orientar os
pacientes pra que eles fiquem cientes do processo
de saúde/doença, dos fatores de riscos que estão
relacionados com a doença, pra que eles sejam
instrumentos, sejam, na verdade, reprodutores desse
conhecimento, né? Consigam orientar as pessoas
em casa, nos bairros e alertar do que pode ser como
risco pra saúde. Então eles vão multiplicar essas
informações e isso, no final das contas, melhora a
saúde mais geral e inserir esse doente. O que tem
sido feito dentro do nosso curso é a orientação. É
basicamente isso que a gente faz.
[...] essa questão estrutural que envolve a
parte de humanização também é uma
coisa que vai um pouco além do que a
universidade
pode
oferecer
pro
estudantes, né? Porque aí já vai envolver
mais a questão da iniciativa pública, dos
setores públicos, prefeitura, secretaria de
saúde, então é uma coisa que foge um
pouco desse domínio da universidade o
que tem sido feito pra suplantar esses
problemas de infraestrutura que existem,
que na verdade a gente consegue

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Participante
perceber nos rodízios. É a questão do
trato humano mesmo, que, na verdade,
não vai substituir, mas chega a amenizar,
né?
P9

P9

Então a gente precisa melhorar um pouco nesse
aspecto. Durante esses rodízios a gente pode
perceber que essa questão estrutural é
determinante. Ás vezes, nos hospitais, faltam
macas, os pacientes tentam se acomodar de
alguma maneira nos corredores, né? Então,
faltam medicações, básicas, às vezes, até
analgésicos faltam, no pronto socorro falta o kit
de sutura. Então, coisas que a gente não pode
oferecer para o paciente por questão estrutural
mesmo [...] os partos eles são feitos em locais
meio que improvisados, né? São feitos no préparto, não são feitos numa sala de parto
adequada porque existe uma falta de estrutura.
Mas, apesar disso, é toda a questão de suporte
psicológico que é dado. A gente acaba sendo
um pouquinho de cada coisa, né? Suporte
psicológico e tenta conversar, tenta tranquilizar
um pouco mais, principalmente, aquelas que são
primíparas, né? E que, às vezes, sentem muita
dor. Então, o controle de dor, a analgesia é
muito importante pra poder dar qualidade de
atendimento, né? E você tentar entender
também que aquilo não é só uma questão de
tentar amenizar.É uma coisa que você não pode
banalizar, na verdade, não é uma coisa banal,
né? Então, tudo isso aí faz parte da
humanização [...]
.

[...] nos diversos setores a gente pode pontuar, né?
A questão na saúde coletiva é importante a gente
observar: os postos de saúde ficam responsáveis por
muito mais família do que é preconizado pelas
diretrizes do Ministério da Saúde, sobrecarregando
toda a equipe de saúde, né? Os agentes
comunitários, os enfermeiros, técnicos enfim, isso
acaba prejudicando, perdendo um pouco de
qualidade, nos atendimentos. As filas são maiores, a
insatisfação é maior, então os pacientes ficam mais
ansiosos, as consultas acabam precisando ser mais
rápidas, o que já tem uma dificuldade também na
questão de resolutividade, isso aí também interfere
nos encaminhamentos e acaba gerando mais
encaminhamentos do que o necessário, então, de
certa forma, isso já é um custo maior para o Estado,

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Participante
né? Então, precisa ser feito um pouco mais de
planejamento, nessa parte.
P9

A gente encontra na pediatria em questão de
estrutura: a falta de leitos de UTI, são poucos
ainda em todo o Brasil, né? Principalmente na
Bahia, ainda é pouco e acaba não se tendo
acesso, né? No rodízio de cirurgia é a questão
mais de leito também, muitos pacientes que
fazem as operações acabam perdendo um
pouco de privacidade porque é muita cirurgia de
emergência, então como não tem leitos, os
pacientes vão para o corredor mesmo, né? E às
vezes tem cirurgias que são suspensas por falta
de material: falta de fio de aço, às vezes, porque
a autoclave está quebrada... Na clínica médica
não é diferente, às vezes, entra paciente com
câncer e os tomógrafos estão quebrados. Em
hospitais que são referência de trauma [...]
coisas básicas como hemograma e raios-X, às
vezes não funcionam. Aí dificulta um pouco o
trabalho, então tudo isso interfere na questão da
humanização, né? [...] aumenta o nível de stress
dos profissionais que acabam ficando de mãos
atadas. A gente vê que a equipe de
enfermagem, pelo menos no Hospital de Base, é
uma equipe que se doa bastante, né? Mas que
existe uma sobrecarga de trabalho muito
grande[...] acho que a humanização tem que
passar por aí também, porque às vezes a gente
fica muito com foco nos direitos dos pacientes,
mas a gente não observa os profissionais. A
gente percebe que os profissionais estão
extremamente sobrecarregados e muitos
desenvolvem até transtornos com relação a isso,
né? Desenvolve processos alérgicos por uso de
máscara, por uso demasiado de luvas devido à
exposição a esses derivados do látex, muitos
desenvolvem algumas fobias por conta da
cobrança que é muito grande, tanto da auto
cobrança quanto da exigência do hospital, do
acesso, de produtividade que tem que se fazer,
isso acaba gerando um problema muito grande.
[...] eu acho que a gente precisa ainda aprender
muito com essa questão de humanização da
saúde, tem muito que se explorar ainda, porque
a gente não conseguiu ter o discernimento pra
entender que o que, em linhas gerais, isso
envolve.

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Participante
P9

P9

P9

[...] uma palavra que tem
uma dimensão enorme, né?
Então, a gente tem que
trazer um pouco isso mais
para dentro da nossa
prática.
[...]
Então
envolve
isso,
responsabilidade dos profissionais,
envolve reponsabilidade dos próprios
pacientes em entender como é o
processo de funcionamento dos
serviços de saúde, envolve as questão
também dos setores públicos, dos órgãos
gestores, que é importante (tanto
municipais, estaduais, federais) para
poder dar esse recurso, dar esse subsídio
e dar essa informação nessa educação,
perpetuar essa educação, aí a gente vai
conseguir melhorar um pouco, né?
Também a questão da educação
continuada, né? Isso é uma queixa até
frequente de alguns usuários do próprio
serviço, eles falam que não são bem
tratados, que às vezes os profissionais
são até um pouco mais ríspidos, não
tratam bem, não olham no rosto, né? A
gente vê isso, e muito disso é uma coisa
mesmo pessoal, né? A gente precisa
insistir na questão da educação e tentar
conscientizar da importância de você
atender de uma maneira adequada, né?
Mesmo que isso não passe muito pelo
perfil da pessoa, mas atender de uma
maneira que o paciente ele se sinta bem,
né? Se sinta bem atendido e acabe
seguindo as recomendações. Isso
também é importante, né? Essa parte de
educação continuada.
Pesq.: Como a humanização se viabiliza nesta realidade da formação do médico? Como professores e alunos atuam nesta realidade?
Na verdade, não existe um contentamento com
o serviço atual de saúde, o serviço público, né?
Então, é o que gera na verdade um pouco de
frustação dentro do serviço, né? [...] mas, os
professores, apesar das dificuldades, tentam
motivar, mostrar e dar uma perspectiva de que
as coisas podem melhorar, que a gente pode
resolver de alguma maneira, né? Tanto como
profissional como cidadão, também a gente dá

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Participante
uma resposta, a gente ser um pouco mais
participativo na questão das decisões, dos
recursos públicos, a gente ter iniciativa em
pleitear cargos que envolvem cargos de chefia
pra tentar modificar um pouco a situação porque
dentro do próprio atendimento só a falta de
estrutura acaba sendo um pouco desmotivadora
na prática diária, acaba trazendo muita frustação
e para lidar com essa questão da frustação,
infelizmente no momento, só o recurso mesmo é
que seria fundamental, porque fora isso aí é um
trabalho muito mais de tentar apagar incêndio,
né?
P9

P9

P9

[...] então eles ajudam muito nessa questão de
suporte psicológico. Além do mais, como eles
tem mais experiência, a gente se vale muito
disso, mais da experiência, né? Das
orientações e dessa crença, na verdade, que
é o que motiva, né? De que as coisas podem
mudar e que a gente precisa ser um agente
ativo, né? A gente precisa ser um autor e
participar das decisões de mudança.
Pesq.: Você gostaria de complementar falando algo mais sobre o tema (humanização/desumanização na saúde) e sua formação?
[...] eu acho que é muito complicado se falar em
desumanização. Acho que desumanização na
palavra, no setor de saúde, é uma coisa que não
existe, porque você lida o tempo todo com essa
questão de você ter sensibilidade com o
sofrimento alheio, né? Então, pra você ser
assim... de maneira adequada, eficiente e eficaz,
a humanização é, sem dúvida, o primeiro passo.
É você se colocar no lugar do outro, é você
conseguir entender os problemas do outro, né?
Então você consegue refletir a partir disso aí.
[...] o curso é um curso muito puxado, é
um curso que exige muito de você. A
cobrança é muito grande, a dedicação é
grande. Então, muitas vezes, existe essa
questão das pessoas acharem que ser
um pouco mais tecnicistas do que mais
humanos, mas isso na verdade, eu acho
que não existe uma desumanização. [...]
eu acho que existe uma questão de perfil,
né? Muitas vezes as pessoas não tem
muito
perfil
ou
não
tem
uma
personalidade que permita lidar com os
problemas alheios de maneira adequada
e resolutiva. Então, muitas vezes, elas

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Participante

P9

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acabam
tentando
fugir
disso,
enveredando por outras áreas médicas
[...] radiologia que não tem tanto contato
com o paciente, enveredam mais para o
lado de patologia, de Medicina nuclear,
né? Então a Medicina oferece ainda isso,
oportunidades pra perfis de pessoas
diferentes. [...] mas, independente de
qualquer coisa, a parte humana ela deve
sempre prevalecer, porque a gente vai
trabalhar com decisões voltadas pra um
estado de saúde de uma pessoa, né? E,
não só daquilo que a gente olha na
lâmina, daquilo que a gente vê no raio x,
porque um parecer médico pra você
estabelecer uma conduta vai ter uma
importância muito grande.
Pesq.: Como você avalia a pesquisa e sua participação nesta pesquisa?
[...] um momento que a gente tem pra
refletir um pouco do que a gente traz na
cabeça, muito do que a gente já
experimentou, do que a gente vivenciou,
do que a gente aprendeu, né? A gente
consegue refletir isso. [...] Tentar até
observar, ter uma autocrítica de como é
que a gente tá atuando, né? Se esse
atendimento é um atendimento que a
gente gostaria de ter pra gente, né? Isso
é importante também, fazer essa
comparação e procurar sempre melhorar
essa questão de humanização, né?.
[...] É um tema, um alvo de
discussão muito grande
ainda, vai continuar sendo
por muito tempo porque é
um tema extremamente
complexo
que
envolve
comportamento,
envolve
estrutura, envolve uma série
de coisas, então a gente
tem que ter essa visão, né?
Essa visão de tentar se
inserir nesse modelo de
humanização
que
é
importante.
E aí eu me senti muito feliz, lisonjeado
até de ser convidado pra participar, né?
Porque eu acho que tem muita coisa a

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Participante
ser discutida nesse sentido ainda e tem
muita coisa pra avançar.

P10

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P10

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Pesq.: Quando se fala em humanização em saúde, o que lhe vem à mente?
[...] a imagem que eu tenho
de humanização na saúde,
na verdade eu não sei se
seria
a
imagem
da
humanização ou do que não
seria humanização. Quando
vem (à mente) é do que não
seria humanização, que é
aquela imagem que a gente
tem
de
paciente
no
corredor,
paciente
desassistido, tanto do ponto
de vista de saúde pública
quanto,
mais
especificamente, do médico
que, por exemplo, num
diagnóstico mais sombrio
fala de qualquer forma.
Pesq.: Como as questões sobre humanização em saúde são trabalhadas durante o curso de Medicina da UESB?
[...] a ideia que eu tenho de
humanização durante o
curso é principalmente no
internato, eu acredito que
seja o cuidado com seu
paciente [...]
[...] apesar de todas as dificuldades que
existem no curso, os professores cobram
da gente que você se dedique ao seu
paciente, desde buscar exames que no
hospital possa não fazer [...] até
medicamentos.
Então, eu acho que, pelo
menos do meu ponto de
vista, a humanização que
eu vejo mais forte seria a de
você sair daqui com o
diferencial
de
ser
responsável
pelo
seu
paciente, isso tudo.
Eu acredito que os professores batem
muito nisso, do internato principalmente.

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Participante
Eu acho que, até em sinal de respeito aos
professores, eu pretendo tentar seguir a
linha que eles nos ensinaram [...] eu não
sou utópico de pensar que o tempo que o
estudante tem vai ser o tempo que o
médico vai ter pra fazer tudo isso, mas eu
vou querer sim: saber conversar com o
meu paciente, contar o diagnóstico,
orientar, falar na linguagem dele porque
eu acho que isso também passa pela
humanização, não adianta falar bonito e o
paciente não entender nada. [...] buscar
em relação a exames dele (paciente), eu
vou tentar manter isso aí sim. Agora, por
outro lado, eu tenho um pouco a vida real
em termo assim, de frustração, porque
quando a gente tá no internato a gente
tem um professor responsável por a
gente. Muitas vezes já pensei isso na
vida prática: “Poxa, você está com o seu
paciente, o paciente é seu e você vê que
não resolve. Ah, frustração!” Eu fico
pensando se isso poderia, no futuro, me
levar a escolher uma boa parte da
Medicina onde eu não visse tanto isso,
essa frustração de depender de mim e
não resolver, né?
Pesq.: Você se lembra de alguma situação durante a formação que lhe remeta a questão da humanização?
[...] uma coisa marcante foi uma aula que a gente teve
com Monalisa. [...] Ela tentou simular como os bebês
da UTI do Esaú Matos se sentem ou então, pelo
menos, uma possibilidade de como seria a sensação
deles em serem manipulados na UTI. Aí, ela vedou o
olho da gente, chegava e furava um pouquinho, botava
algodão molhado assim na boca [...] Eu achei muito
legal essa atividade porque mostrou o outro lado né?

P10

P10

A gente, o médico, ele tem
às vezes o poder de fazer
com o paciente o que ele
acha necessário, mas às
vezes ele se esquece de
como é que o paciente
sente né? Como que é o
outro lado. Eu acho que

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Participante
isso é uma coisa marcante
professor, pra mim, eu
achei bem legal.
P10

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Teve outra atividade, com Monalisa também, que a
gente entrevistou e conversou sobre pacientes com
doenças de prognóstico sombrio. E aí realmente foi
uma coisa. Teve colegas que se emocionaram e foi
bem legal ver e escutar deles, né? O que eles sentem.
Achei legal isso também.
Em relação à humanização, eu acho que a
gente está conseguindo fazer na medida do
possível. Foi uma paciente no Hospital de
Base, uma paciente até jovem, que tinha uma
doença que não estava fechado o diagnóstico.
A gente correu atrás de exames pra fechar,
infelizmente não conseguimos, mas na
medida do possível a gente conseguiu
estabilizar essa paciente. Então, quando a
pegamos estava toda descompensada e ela
saiu de lá bem informada. Talvez nós não
mudamos o prognóstico, mas pelo menos a
qualidade de vida dela a gente modificou e
isso eu achei legal. Isso foi uma coisa que
marcou, o agradecimento dela no final, achei
legal.
Pesq.: E quanto aos momentos tipicamente teóricos, alguma referência?
[...] na formação nossa a humanização,
eu acredito, que ela tem mais sentido na
prática. [...] por que nos tutoriais, mesmo
quando a gente discutia e tinha aqueles
objetivos biopsicossociais, às vezes,
acabava sendo colocado num segundo
plano. Tanto que era o último objetivo a
ser discutido. Aliás, nem se dava tanta
importância, pra ser sincero. [...] Eu acho
que, por exemplo, se ao invés de botar
esses objetivos, incentivassem mais... ao
invés de vocês discutirem aspectos
éticos,
aspectos
psicológicos
de
pacientes
oncológicos,
seria
mais
interessante visitar a casa do câncer, que
eu acho que o impacto seria maior. [...]
convidar algum palestrante acostumado a
lidar com isso ou então convidar algum
paciente mesmo pra dar o depoimento
dele sobre a doença e sobre o que ele
sente, eu acho que isso iria atrair mais
atenção, iria ter impacto maior do que

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Participante
você discutir no aspecto teórico. Eu
acredito que seria mais interessantes,
né?
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Pesq.: Sim, sim. Uma sugestão?
[...] seria levado mais a sério até porque
realmente tem impacto. Por mais que a
pessoa não tenha o perfil de lidar com
paciente [...] pois o paciente está
anestesiado, mesmo assim, quando ela
recebe um discurso do paciente, aquilo
tem um impacto. A gente percebe nos
olhos dos colegas, todo mundo se sente
assim, então eu acho que na prática a
gente sente mais.
Pesq.: Um exemplo, durante o curso, em que você já se sentiu assim sensibilizado?
[...] já senti assim. [...] teve um módulo de
envelhecimento com a professora Welma e nesse
módulo a gente fez uma visita à casa do idoso, lá no
centro. Foi muito interessante, foi muito bom aquilo ali.
Você vê o relato dos idosos no final, de como foi bom
pra eles estarem com a gente... aquilo ali realmente foi
impactante.
Pesq.: Você acredita que se aprende a humanização mais no sentido prático, é isso?
[...] pra mim acho que foi assim, não sei
os outros colegas, até por que eu acho
difícil nivelar e garantir que todos vão sair
com bom grau de humanização porque
isso passa um pouco pelo caráter da
pessoa, pela sensibilidade dela, mas eu
acredito que é possível sim professor. [...]
desde o ambulatório, você respeitar seu
paciente, saber conversar, se preocupar
com ele... até o internato, que seria o
auge da cobrança mesmo. Eu acho que é
possível sim agora, você está ali
subordinado ao seu professor então você,
de certa forma, é obrigado a cuidar de
seu paciente. Como é que vai ser lá fora?
Aí vai ser a consciência de cada um.
Aí, eu acho que, por mais que a
universidade, nesse sentido, tente
melhorar e oferecer essa discussão,
depende muito da consciência do
aluno, do que ele quer para a vida dele,
do que ele quer seguir, porque dali em
diante é com ele.
Pesq.: Você destaca alguns professores nas suas colocações. Explane sobre a atuação dos professores na, na questão da humanização do curso.

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Participante
P10

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[...] pelo menos eu visualizo mais essa
humanização, mais uma vez, na prática
do que na teoria.
Eu vejo que nos ambulatórios existe essa
preocupação de como você tratar o paciente,
de respeitar o pudor, toda essa questão do
paciente. Acho que isso desde o ambulatório
é ensinado: você saber como se dirigir ao
paciente e saber como perguntar pra ele a
sua história. [...] o terceiro ano foi quando eu
comecei mais a ver isso nesse sentido. Os
professores eles estimulam sim. Assim, eu
nunca vi professor numa aula específica: “Vai
começar o internato e hoje vamos falar sobre
humanização na Medicina”. Isso ai eu posso
ter esquecido, mas seria até interessante. Na
prática é de forma indireta que a gente acaba
aprendendo isso aí, sobre o lidar, sabe? Isso
eu acho que sim. Quando o paciente está no
corredor, como é que seria dada a assistência
ao paciente? Os professores se colocam de
maneira diferente, alguns não aceitam que a
UESB assuma o paciente que esteja no
corredor, acham que isso aí não tem um
mínimo de respeito. [...] mas, por outro lado, a
gente acaba algumas vezes passando os
pacientes no corredor. Por exemplo, a gente
não conseguiu a vaga, mas a gente já está de
olho nesse paciente. Aí a gente acaba dando
alguma assistência. Assim professor, essa
vivência de assistência no corredor eu
também acho muito dura, parece que tudo
que a gente aprende na universidade ali você
não pode aplicar, porque você não tem um
local pra conversar com o seu paciente, você
não tem quem assista seu paciente, quem
possa vir te chamar se ele passar mal. Ele
está ali, muitas vezes descoberto, todo mundo
está vendo. Às vezes, o paciente quer ir ao
banheiro, não tem banheiro ou o banheiro tá
interditado, o familiar do paciente é muito
complicado, o familiar do paciente já está
tenso com toda a situação, você tem que ter
cuidado porque, senão, entra em atrito com
você e, de quebra, às vezes você chega à
noite e o familiar está lá, dormindo no chão.
Então é difícil você cobrar do paciente a
paciência quando ele lida com isso [...]

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Participante
Pesq.: Como você avalia a pesquisa e sua participação nesta pesquisa?
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[...] eu gosto desta visão da Medicina nova, sabe?
Porque a gente está acostumado na Medicina que é
só técnica: estudar doença, diagnóstico, tratamento e
prognóstico. Eu acho interessante quando você
lança um novo olhar sobre humanização e, vou ser
até ousado aqui, sugiro que lance essa
humanização, não só em relação ao paciente, mas
em relação à formação médica sim - o aluno, porque
eu acho que ainda é um pouco desumano nesse
ponto assim... [...] o aluno adoece e ele é
questionado sobre o compromisso com a faculdade
[...] eu acho um tema polêmico e bem interessante,
todo mundo fala isso: campanha pela humanização!
Pesq.: Você acha que na escola de Medicina não há humanização na relação com o aluno?

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Não. [...] A gente exige que o médico seja humano,
mas a gente não exige que a formação do aluno seja
humana. [...] o que eu vejo, o que eu já passei pela
universidade, é que o nível de exigência é muito alto
e muitas vezes o aluno não tem o direito de perder
um familiar, ter um problema pessoal, psicológico,
entre outros, porque ele vai ser punido de alguma
forma. Ou ele é mal visto quando ele retorna, ou ele
toma falta e perde, ou, se ele vai fazer segunda
chamada de uma prova, faz uma prova pra ele não
passar mesmo [...]Eu acho que, felizmente não são
todos os professores. Tanto é que, se eu estou aqui
hoje no sexto ano, é por causa de alguns
professores que, diferentes dos demais, eles não
tiveram essa visão de: “Ah, você tá com problema,
você não tem...”. Pelo contrário, deram-me apoio e
eu superei mais o pessoal e continuei [...]mas, eu
acho que ainda existe muito. Tanto é que, quando
você busca ver as turmas, sempre tem algum aluno
com algum problema emocional, psicológico, tem
muita dificuldade. E, às vezes, a gente não sabe:
“Poxa, será que tem que ser revista carga horária,
será que tem que ser revista a forma de cobrar o
aluno?” Essas coisas que eu acho que na UESB
existe. Não sei se é a cobrança que é demais, não
sei. Mas, eu sei que isso aí, para o aluno, parece
como se não existisse humanização para o aluno.
Você tem que ser perfeito.