Caminhos da Saúde da Família no Nordeste
Caminhos da Saúde da Família no Nordeste
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CAMINHOS DA SAÚDE DA FAMÍLIA NO NORDESTE
Organização:
Michael Ferreira Machado
Josineide Francisco Sampaio
Maria das Graças Monte Mello Taveira
Editora Amplla
Campina Grande, agosto de 2023
2023 - Editora Amplla
Copyright da Edição © Editora Amplla
Copyright do Texto © Os autores
Editor Chefe: Leonardo Pereira Tavares
Design da Capa: Editora Amplla
Diagramação: Higor Brito
Revisão: Os autores
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direitos para esta edição foram cedidos à Editora Amplla.
ISBN: 978-65-5381-144-7
DOI: 10.51859/amplla.csf447.1123-0
Editora Amplla
Campina Grande – PB – Brasil
contato@ampllaeditora.com.br
www.ampllaeditora.com.br
2023
CONSELHO EDITORIAL
Alexander Josef Sá Tobias da Costa
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
–
Andréa Cátia Leal Badaró – Universidade
Tecnológica Federal do Paraná
Andréia Monique Lermen – Universidade Federal
do Rio Grande do Sul
Antoniele Silvana de Melo Souza – Universidade
Estadual do Ceará
Dylan Ávila Alves – Instituto Federal Goiano
Edson Lourenço da Silva – Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí
Elane da Silva Barbosa – Universidade Estadual
do Ceará
Érica Rios de Carvalho – Universidade Católica do
Salvador
Aryane de Azevedo Pinheiro – Universidade
Federal do Ceará
Fernanda Beatriz Pereira Cavalcanti –
Universidade Estadual Paulista “Júlio de
Mesquita Filho”
Bergson Rodrigo Siqueira de Melo – Universidade
Estadual do Ceará
Fredson Pereira da Silva – Universidade Estadual
do Ceará
Bruna Beatriz da Rocha – Instituto Federal do
Sudeste de Minas Gerais
Gabriel Gomes de Oliveira – Universidade
Estadual de Campinas
Bruno Ferreira – Universidade Federal da Bahia
Gilberto de Melo Junior – Instituto Federal do
Pará
Caio Augusto Martins Aires – Universidade
Federal Rural do Semi-Árido
Caio César Costa Santos – Universidade Federal
de Sergipe
Carina Alexandra
Estadual Paulista
Rondini
–
Universidade
Carla Caroline Alves Carvalho – Universidade
Federal de Campina Grande
Carlos Augusto Trojaner – Prefeitura de Venâncio
Aires
Carolina Carbonell Demori – Universidade
Federal de Pelotas
Cícero Batista do Nascimento
Universidade Federal do Ceará
Filho
–
Clécio Danilo Dias da Silva – Universidade Federal
do Rio Grande do Norte
Dandara Scarlet Sousa Gomes
Universidade Federal do Piauí
Bacelar
–
Daniela de Freitas Lima – Universidade Federal
de Campina Grande
Darlei Gutierrez Dantas Bernardo Oliveira –
Universidade Estadual da Paraíba
Denilson Paulo Souza dos Santos – Universidade
Estadual Paulista
Givanildo de Oliveira Santos – Instituto Brasileiro
de Educação e Cultura
Higor Costa de Brito – Universidade Federal de
Campina Grande
Hugo José Coelho Corrêa de Azevedo – Fundação
Oswaldo Cruz
Isabel Fontgalland – Universidade Federal de
Campina Grande
Isane Vera Karsburg – Universidade do Estado de
Mato Grosso
Israel Gondres Torné – Universidade do Estado
do Amazonas
Ivo Batista Conde – Universidade Estadual do
Ceará
Jaqueline Rocha Borges dos Santos
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
–
Jessica Wanderley Souza do Nascimento –
Instituto de Especialização do Amazonas
João Henriques de Sousa Júnior – Universidade
Federal de Santa Catarina
João Manoel Da Silva – Universidade Federal de
Alagoas
João Vitor Andrade – Universidade de São Paulo
Denise Barguil Nepomuceno – Universidade
Federal de Minas Gerais
Joilson Silva de Sousa – Instituto Federal do Rio
Grande do Norte
Dinara das Graças Carvalho Costa – Universidade
Estadual da Paraíba
José Cândido Rodrigues Neto – Universidade
Estadual da Paraíba
Diogo Lopes de Oliveira – Universidade Federal
de Campina Grande
Jose Henrique de Lacerda Furtado – Instituto
Federal do Rio de Janeiro
Josenita Luiz da Silva – Faculdade Frassinetti do
Recife
Milena Roberta Freire da Silva – Universidade
Federal de Pernambuco
Josiney Farias de Araújo – Universidade Federal
do Pará
Nadja Maria Mourão – Universidade do Estado de
Minas Gerais
Karina de Araújo Dias
Municipal de Florianópolis
Natan Galves Santana – Universidade Paranaense
–
SME/Prefeitura
Katia Fernanda Alves Moreira – Universidade
Federal de Rondônia
Nathalia Bezerra da Silva Ferreira – Universidade
do Estado do Rio Grande do Norte
–
Neide Kazue Sakugawa Shinohara – Universidade
Federal Rural de Pernambuco
Laíze Lantyer Luz – Universidade Católica do
Salvador
Neudson Johnson Martinho – Faculdade de
Medicina da Universidade Federal de Mato
Grosso
Lindon Johnson Pontes Portela – Universidade
Federal do Oeste do Pará
Patrícia Appelt – Universidade Tecnológica
Federal do Paraná
Lisiane Silva das Neves – Universidade Federal do
Rio Grande
Paula Milena Melo Casais – Universidade Federal
da Bahia
Lucas Araújo Ferreira – Universidade Federal do
Pará
Paulo Henrique Matos de Jesus – Universidade
Federal do Maranhão
Lucas Capita Quarto – Universidade Federal do
Oeste do Pará
Rafael Rodrigues Gomides – Faculdade de Quatro
Marcos
Lúcia Magnólia Albuquerque Soares de Camargo
– Unifacisa Centro Universitário
Reângela Cíntia Rodrigues de Oliveira Lima –
Universidade Federal do Ceará
Luciana de Jesus Botelho Sodré dos Santos –
Universidade Estadual do Maranhão
Rebeca Freitas Ivanicska – Universidade Federal
de Lavras
Luís Paulo Souza e Souza – Universidade Federal
do Amazonas
Renan Gustavo Pacheco Soares – Autarquia do
Ensino Superior de Garanhuns
Luiza Catarina Sobreira de Souza – Faculdade de
Ciências Humanas do Sertão Central
Renan Monteiro do Nascimento – Universidade
de Brasília
Manoel Mariano Neto da Silva – Universidade
Federal de Campina Grande
Ricardo Leoni Gonçalves Bastos – Universidade
Federal do Ceará
Marcelo Alves Pereira
Universitário Unifacisa
Rodrigo da Rosa Pereira – Universidade Federal
do Rio Grande
Laís Portugal Rios da Costa
Universidade Federal de São Carlos
Eufrasio
Marcelo Williams Oliveira
Universidade Federal do Pará
de
Pereira
–
Centro
Souza
–
Rubia Katia Azevedo Montenegro – Universidade
Estadual Vale do Acaraú
Marcos Pereira dos Santos – Faculdade Rachel de
Queiroz
Sabrynna Brito Oliveira – Universidade Federal
de Minas Gerais
Marcus Vinicius Peralva Santos – Universidade
Federal da Bahia
Samuel Miranda Mattos – Universidade Estadual
do Ceará
Maria Carolina da Silva Costa – Universidade
Federal do Piauí
Selma Maria da Silva Andrade – Universidade
Norte do Paraná
Maria José de Holanda Leite – Universidade
Federal de Alagoas
Shirley Santos Nascimento – Universidade
Estadual Do Sudoeste Da Bahia
Marina Magalhães de Morais – Universidade
Federal do Amazonas
Silvana Carloto Andres – Universidade Federal de
Santa Maria
Mário Cézar de Oliveira – Universidade Federal
de Uberlândia
Silvio de Almeida Junior – Universidade de Franca
Michele Antunes – Universidade Feevale
Tatiana Paschoalette R. Bachur – Universidade
Estadual do Ceará | Centro Universitário Christus
Michele Aparecida Cerqueira Rodrigues – Logos
University International
Telma Regina Stroparo – Universidade Estadual
do Centro-Oeste
Thayla Amorim Santino – Universidade Federal
do Rio Grande do Norte
Wanessa Dunga de Assis – Universidade Federal
de Campina Grande
Thiago Sebastião Reis Contarato – Universidade
Federal do Rio de Janeiro
Wellington Alves Silva – Universidade Estadual
de Roraima
Tiago Silveira Machado – Universidade de
Pernambuco
William Roslindo Paranhos – Universidade
Federal de Santa Catarina
Virgínia Maia de Araújo Oliveira – Instituto
Federal da Paraíba
Yáscara Maia Araújo de Brito – Universidade
Federal de Campina Grande
Virginia Tomaz Machado – Faculdade Santa Maria
de Cajazeiras
Yasmin da Silva Santos – Fundação Oswaldo Cruz
Walmir Fernandes Pereira – Miami University of
Science and Technology
Yuciara Barbosa Costa Ferreira – Universidade
Federal de Campina Grande
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Copyright do Texto © Os autores
Editor Chefe: Leonardo Pereira Tavares
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Catalogação na publicação
Elaborada por Bibliotecária Janaina Ramos – CRB-8/9166
C183
Caminhos da saúde da família no Nordeste / Organizadores Michael Ferreira
Machado, Josineide Francisco Sampaio, Maria das Graças Monte Mello Taveira
– Campina Grande/PB: Amplla, 2023.
Livro em PDF
ISBN 978-65-5381-144-7
DOI 10.51859/amplla.csf447.1123-0
1. Região Nordeste - Brasil. 2. Saúde da família. I. Machado, Michael Ferreira
(Organizador). II. Sampaio, Josineide Francisco (Organizadora). III. Taveira,
Maria das Graças Monte Mello (Organizadora). IV. Título.
CDD 918.13
Índice para catálogo sistemático
I. Região Nordeste - Brasil
Editora Amplla
Campina Grande – PB – Brasil
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2023
ORGANIZADORES
Michael Ferreira Machado
Sanitarista. Professor de Saúde Coletiva, no Curso de Medicina, da Universidade
Federal de Alagoas (UFAL). Doutor e Mestre pela Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE). Graduado pela Universidade Federal de Alagoas. Coordena o
Núcleo de Estudos em Medicina Social e Preventiva - CNPq/UFAL. Docente
permanente no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Saúde da Família
UFAL/FIOCRUZ/ABRASCO.
Josineide Francisco Sampaio
Doutorado em Saúde Pública (ENSP/FIOCRUZ). Professora Associada I – Faculdade
de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (FAMED/UFAL). Professora
Permanente do Programa de Mestrado Profissional em Ensino na Saúde (MPES).
Professora Permanente e Coordenadora do Programa de Mestrado Profissional em
Saúde da Família (PROFSAÚDE/UFAL).
Maria das Graças Monte Mello Taveira
Médica. Doutora em Ciências da Saúde (UFAL). Professora Adjunta da Faculdade de
Medicina da Universidade Federal de Alagoas (FAMED/UFAL) e Professora
Permanente do Mestrado Profissional em Saúde da Família (PROFSAÚDE/UFAL –
ABRASCO).
AUTORES
Adilson
José
da
Silva.
Mestre
em
Saúde
da
Família
(PROFSAÚDE/UFAL/FIOCRUZ/ABRASCO). Médico (ECMAL). Médico da Estratégia
de Saúde da Família, Secretaria Municipal de Saúde de São Sebastião- AL (SMS).
Adson Yvens de Holanda Agostinho. Acadêmico de Medicina da Universidade
Federal de Alagoas (UFAL), campus Arapiraca.
Bruna Stefany Rebouças França. Acadêmica de Medicina da Universidade Federal
de Alagoas (UFAL), campus Arapiraca.
Bruno Quintela Souza de Moraes. Acadêmico de Medicina da Universidade
Federal de Alagoas (UFAL), campus Arapiraca.
Cláudia Maria Freire Orestes. Mestra em Saúde da Família
(PROFSAÚDE/UFAL/FIOCRUZ/ABRASCO). Cirurgiã-Dentista (UFAL). Odontóloga
da Estratégia de Saúde da Família, Secretaria Municipal de Saúde de Maceió - AL
(SMS).
Cristina Camelo de Azevedo. Doutora em Saúde Pública (ENSP/FIOCRUZ).
Professora Associada do Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas
(IP/UFAL). Professora permanente do Mestrado Profissional em Saúde da Família –
PROFSAÚDE/UFAL/FIOCRUZ/ABRASCO– ABRASCO.
Divanise Suruagy Correia. Médica (UFAL). Mestra em Saúde da Criança (UFAL).
Doutora em Ciências da Saúde (UFRN). Professora Titular aposentada da Faculdade
de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (FAMED/UFAL). Professora
permanente do Mestrado Profissional em Saúde da Família –
PROFSAÚDE/UFAL/FIOCRUZ/ABRASCO.
Erica Thaisa Alcantara Lima. Mestra em Saúde da Família
(PROFSAÚDE/UFAL/FIOCRUZ/ABRASCO). Graduação em Enfermagem (UFS).
Enfermeira da Estratégia Saúde da Família, Secretaria Municipal de Saúde de
Neópolis -SE.
Hudson
Renan
Costa
Silva.
Mestre
em
Saúde
da
Família
(PROFSAÚDE/UFAL/FIOCRUZ/ABRASCO). Médico (UFAL). Médico da Estratégia de
Saúde da Família, Secretaria Municipal de Saúde de Arapiraca - AL (SMS).
Isa Carolina Gomes Félix. Acadêmica de Medicina da Universidade Federal de
Alagoas (UFAL), campus Arapiraca.
Jorge Luís de Souza Riscado. (IN MEMORIAM). Doutor em Saúde Pública
(ENSP/FIOCRUZ). Professor Associado da Faculdade de Medicina da Universidade
Federal de Alagoas (FAMED/UFAL). Professor permanente do Mestrado
Profissional em Saúde da Família – PROFSAÚDE/UFAL/FIOCRUZ/ABRASCO.
Luciana Rúbia Pereira Rodrigues. Professora do Curso de Medicina da
Universidade Federal de Alagoas/Arapiraca. Mestra em Saúde da Família
(PROFSAÚDE/UFAL/FIOCRUZ/ABRASCO). Médica (ECMAL). Médica da Estratégia
Saúde da Família, Secretaria Municipal de Saúde de Arapiraca -AL (SMS), Secretaria
Municipal de Saúde de Arapiraca - AL (SMS).
Luís Felipe Soares de Lima Silva. Mestre em Saúde da Família
(PROFSAÚDE/UFAL/FIOCRUZ/ABRASCO). Médico (UFAL). Médico da Estratégia de
Saúde da Família, Secretaria Municipal de Saúde de Piranhas - AL (SMS).
Mara Gabriela Brasileiro de Lucena Ferreira. Mestra em Saúde da Família
(PROFSAÚDE/UFAL/FIOCRUZ/ABRASCO). Graduação em Enfermagem (CESMAC).
Enfermeira da Estratégia Saúde da Família, Secretaria Municipal de Saúde de Atalaia
-AL.
Maria Cecília de Araújo Carvalho. Médica (UFF). Mestra em Psicologia Clínica
(PUC/RJ). Doutora em Psiquiatria e Saúde Mental (UFRJ). Professora da Escola
Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz
(EPSJV/FIOCRUZ/RJ). Docente permanente do Mestrado Profissional em Saúde da
Família – PROFSAÚDE/FIOCRUZ – ABRASCO
Maryanne Ferreira Soares. Acadêmica de Medicina da Universidade Federal de
Alagoas (UFAL), campus Arapiraca.
Matheus Santos Duarte. Acadêmico de Medicina da Universidade Federal de
Alagoas (UFAL), campus Arapiraca.
Vanessa Almeida do Nascimento. Mestra em Saúde da Família
(PROFSAÚDE/UFAL/FIOCRUZ/ABRASCO). Graduação em Enfermagem (UFAL).
Enfermeira da Estratégia Saúde da Família, Secretaria Municipal de Saúde de Maceió
-AL.
PREFÁCIO
O Mestrado Profissional em Saúde da Família (PROFSAÚDE) é um programa
de pós-graduação stricto sensu em Saúde da Família, apresentado à Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela Associação Brasileira
de Saúde Coletiva (ABRASCO) e aprovado em 2016. O mestrado é oferecido por uma
rede nacional constituída de 26 Instituições Públicas de Ensino Superior lideradas
pela FIOCRUZ.
O programa conta com a retaguarda da Universidade Aberta do Sistema
Único de Saúde (UNA-SUS) e com o apoio da Sociedade Brasileira de Medicina de
Família e da Comunidade (SBMFC) e da Associação Brasileira de Educação Médica
(ABEM). O Ministério da Saúde (MS) e o Ministério da Educação (MEC) são
instituições demandantes e financiadoras deste programa.
O PROFSAÚDE é uma estratégia de formação que visa atender à expansão da
graduação e da pós-graduação no país, bem como à educação permanente de
profissionais de saúde, com base na consolidação de conhecimentos relacionados à
Atenção Primária em Saúde (APS), à Gestão em Saúde e à Educação.
A Universidade Federal de Alagoas (UFAL) integra a rede do PROFSAÚDE
desde a sua primeira turma, em 2016, inicialmente sediando como colaboradora e,
posteriormente, a partir de 2019, nucleando um dos polos do mestrado e estando
sob sua responsabilidade os estados de Alagoas e Sergipe.
Face a essa estratégia que visa qualificar os processos de gestão, atenção e
educação em saúde, a presente obra reúne 10 capítulos nos quais são apresentados
reflexões e frutos das pesquisas e estudos desenvolvidos pelos egressos e hoje
Mestres e Mestras em Saúde da Família/PROFSAÚDE/ do polo UFAL.
Discorrendo um pouco mais no primeiro capítulo, “O estágio curricular
supervisionado em Odontologia sob a perspectiva dos profissionais de saúde de uma
unidade de saúde da família”, Orestes, Sampaio e Azevedo discutem a importância
do estágio curricular realizado no âmbito da atenção primária à saúde, como uma
estratégia capaz de alinhar a formação no e para o SUS, bem como fomentar a
discussão sobre a integração ensino-serviço, os processos de trabalho e organização
dos profissionais que atuam no âmbito da Estratégia Saúde da Família.
No segundo capítulo, intitulado “Acolhimento em uma unidade básica de
saúde de um município de Sergipe: percepções e organização no processo de
trabalho”, Lima, Taveira e Correia a partir da pesquisa de mestrado desenvolvida
pela primeira autora, apresentam a relevância do acolhimento em saúde e refletem
a potência dessa estratégia de cuidado em saúde, no contexto da atenção primária
no interior de Sergipe.
No terceiro capítulo, “Escuta qualificada como instrumento do acolhimento
do processo de trabalho dos profissionais de saúde na ESF”, Silva, Sampaio e
Azevedo discorrem sobre os resultados da pesquisa participativa realizada no
contexto da Estratégia Saúde da Família, o qual possibilitou destacar a importância
da escuta qualificada no cotidiano dos serviços de saúde, como importante
instrumento para qualificação do cuidado ofertado e produzido com e para à
população.
O quarto capítulo, “Mortalidade infantil por causas evitáveis em raça/cor
negra no nordeste brasileiro: tendência temporal 2012-2021”, desenvolvido na
linha de Vigilância em Saúde, apresenta os resultados de um estudo desenvolvido
por Agostinho, Félix, Soares, Nascimento e Machado, no qual são analisados os dados
dos sistemas de informação em saúde e no qual destaca-se a necessidade de discutir
a questão racial no âmbito da saúde e criar estratégias para combate ao racismo
institucional.
No quinto capítulo, “Cartilha sobre plano de parto para gestantes em uma
estratégia saúde da família”, Ferreira, Correia e Taveira discorrem sobre o processo
de elaboração de um produto educacional resultante da pesquisa de mestrado
desenvolvida pela primeira autora. Neste, identificou-se como objeto de estudo a
necessidade de qualificação da assistência materno-infantil.
O sexto capítulo, “Indicadores da sífilis na população masculina nos estados
da região nordeste, Brasil, 2010-2018”, Moares, Félix, Duarte, Nascimento e
Machado, discutem, com base nos dados epidemiológicos, a necessidade de ampliar
o olhar acerca da atenção à saúde masculina, na perspectiva de que existem outros
agravos precisam ser visibilizados e debatidos para além da próstata, especialmente
da complementaridade da saúde masculina e feminina.
No sétimo capítulo, “Percepção de gestantes sobre o cuidado no período prénatal em uma estratégia de saúde da família”, Ferreira, Correia e Taveira analisam a
percepção das gestantes acerca da atenção materno-infantil, especialmente do
cuidado pré-natal, e dos desafios presentes quando este é ofertado em uma unidade
básica de saúde em um contexto rural.
No oitavo capítulo, “Acolhimento e estratificação de risco em uma unidade de
saúde da família”, Silva, Correia e Taveira refletem sobre o processo de acolhimento
e classificação de risco em relação à demanda espontânea em uma Unidade de Saúde
da Família. Os resultados do estudo indicam que a classificação de risco não é
compreendida por todos os entrevistados e seu conceito demonstrou estar ligado
apenas ao processo de triagem, evidenciando necessidade de capacitação,
sensibilização e conscientização por parte dos profissionais.
No nono capítulo, “Direito à saúde da pessoa albina: histórias de vida e
itinerário terapêutico e busca por ações de ruptura das iniquidades em saúde em
um município do agreste alagoano”, Rodrigues, Riscado e Taveira ponderam acerca
da necessidade das políticas de equidade e da garantia do direito à saúde de
populações vulnerabilizadas e da importância da Atenção Primária à Saúde da
garantia dos direitos, face a sua capilaridade.
No décimo capítulo, “Matriciamento: ferramenta estratégica para a rede de
saúde mental”, Silva, Carvalho e Azevedo debatem a necessidade discussão acerca
da saúde mental no âmbito da atenção primária e a articulação dos dispositivos
presentes nos territórios adscritos com vistas à produção de cuidados em saúde
mental de maneira resolutiva, territorial e humanizada.
Assim, o conjunto de textos aqui reunidos não visa produzir leituras e
compreensões totalizantes, mas sim, apontamentos e reflexões desenvolvidas a
partir de estudos e pesquisas desenvolvidas no cotidiano dos serviços, no contexto
da pós-graduação stricto sensu em saúde da família, destacando a centralidade da
APS às propostas para enfrentar os problemas de saúde.
Dessa maneira, face aos novos desafios nacionais e do cenário sanitário atual,
faz-se importante visibilizar, com vistas à produção de novos (outros) diálogos no
contexto da produção científica implicada e aplicada ao SUS e na interface com os
gestores e trabalhadores de saúde, objetivar o fortalecimento e a qualificação da
atenção, gestão e educação em saúde no país.
Prof. Dr. Michael Ferreira Machado
Profa. Dra. Josineide Francisco Sampaio
Profa. Dra. Maria das Graças Monte Mello Taveira
SUMÁRIO
CAPÍTULO I
O ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO EM ODONTOLOGIA
SOB A PERSPECTIVA DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DE UMA
UNIDADE DE SAÚDE DA FAMÍLIA
DOI: 10.51859/amplla.csf447.1123-1
Cláudia Maria Freire Orestes
Josineide Francisco Sampaio
Cristina Camelo de Azevedo
1. INTRODUÇÃO
A formação acadêmica tradicionalmente desenvolvida nos cursos da área da saúde, em
especial na Odontologia, sempre teve como foco o desenvolvimento de habilidades técnicas
voltadas às doenças bucais e clínica privada (FORTE et al., 2015).
No Brasil, sucessivas mudanças significativas ocorreram no Ensino Superior em saúde
com a instituição das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), que vieram estabelecer os
princípios, os fundamentos e as finalidades para a formação nos cursos naquela área (BRASIL,
2021). As DCNs apontam o desafio de uma formação mais qualificada, voltada para a prática,
envolvendo os sujeitos, as famílias e a comunidade dentro de seu contexto socioeconômico e
cultural, respeitando valores, hábitos e costumes (CECCIM; FEUERWERKER, 2004).
Dentre as características esperadas de um egresso, segundo as DCNs, podemos citar: ser
generalista; humanístico e ético; apto à atuação em equipe, de forma interprofissional,
interdisciplinar e transdisciplinar; proativo e empreendedor, com atitude de liderança;
comunicativo; crítico, reflexivo e atuante na prática odontológica em todos os níveis de atenção
à saúde; consciente e participativo frente às políticas sociais, culturais, econômicas e
ambientais e às inovações tecnológicas (BRASIL, 2021).
Neste contexto, o Estágio Curricular Supervisionado (ECS) surge como estratégia de
implementação das diretrizes curriculares do curso de Odontologia, contribuindo com o
processo de formação através da conexão entre teoria e transformação da prática, efetivandose como política pública nas diferentes áreas que compõem o Ensino Superior Brasileiro,
reforçando o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) na formação em saúde, de acordo com a
Lei nº 8080/90 (BRASIL, 1990; FORTE et al., 2015; SANTOS, 2019).
14
Diante do exposto, e com finalidade de aprimorar o desenvolvimento do ECS em
odontologia em uma Unidade de Saúde da Família (USF), o presente estudo tem como objetivo
geral analisar a percepção dos profissionais de saúde sobre o Estágio Curricular Supervisionado
da área Odontologia, em uma Unidade de Estratégia de Saúde da Família.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O objetivo geral do ECS consiste no desenvolvimento de ações de atenção à saúde geral
e bucal no âmbito de instituições públicas, privadas e/ou filantrópicas, pautadas no
planejamento estratégico situacional aplicado no contexto da promoção e prevenção de saúde,
em parceria com gestores, equipes de saúde e comunidade (PEQUENO; MARQUES; MONTE,
2021).
O campo de estágio em Unidades Básicas de Saúde (UBS), especialmente da Estratégia
de Saúde da Família (ESF), contribui para o aprofundamento do conhecimento e,
consequentemente, para a qualificação da formação dos futuros profissionais de saúde, pois
estimula a responsabilidade, o olhar crítico, a capacidade de tomada de decisão e o domínio da
prática (WEBER et al., 2018; LUZ, TOASSI, 2016).
Para Finkler et al. (2019), essa aproximação da realidade e as novas ferramentas
pedagógicas alicerçadas em metodologias ativas exigem habilidades do docente na mediação
entre a problematização do cotidiano ― nas relações educando e trabalhadores da rede, e
educando e comunidade ―, tendo em vista que o trabalho na Atenção Básica é desenvolvido de
forma coletiva, multiprofissional e colaborativa, tornando os agentes envolvidos
interdependentes e suas relações essenciais à promoção do cuidado humano integrado
(MUNÕZ; FREITAS; SOUZA, 2020).
Percebe-se que, ultrapassando os muros da universidade e ampliando os cenários de
aprendizagem, surgirão outros atores importantes no desenvolvimento das habilidades e
competências: os trabalhadores da rede de saúde, os gestores dos serviços de saúde e a
comunidade. Essa nova dinâmica exigirá dos docentes o constante exercício de pactuações, de
mediação e de respeito à autonomia dos sujeitos, bem como respeito aos espaços de produção
do cuidado em saúde (FORTE et al., 2015).
3. MÉTODO
Este estudo, caracterizado como exploratório descritivo e de abordagem qualitativa, foi
desenvolvido no decorrer do Mestrado Profissional em Saúde da Família (ProfSaúde), da
15
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), polo Universidade Federa de Alagoas (Ufal). A escolha dessa
abordagem se deu em virtude de não buscarmos estudar o estágio em si, mas a opinião dos
profissionais de saúde envolvidos na sua realização e sua significação, individual ou coletiva, a
partir das vivências e experiências cotidianas (TURATO, 2005), visando ações transformadoras
da realidade em questão, na governabilidade local. O presente estudo foi aprovado pelo Comitê
de Ética em Pesquisa (CEP) da Ufal com CAAE de número 53416121.5.0000.5013.
Com o intuito de analisar a percepção dos profissionais de saúde sobre o ECS da área de
Odontologia, em uma USF, foi necessária a participação ativa dos profissionais de saúde que
dela fazem parte. Este estudo foi realizado em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) do
município de Maceió, Alagoas, que não será identificada a fim de evitar a quebra de sigilo.
Nesta UBS atua apenas uma Equipe de Saúde da Família. Participaram da pesquisa 9
profissionais, a saber: médica (n=1); enfermeira (n=1); técnica de enfermagem (n=2); agentes
comunitárias de saúde (n=4); e auxiliar de saúde bucal (n=1).
Foram estabelecidos como critérios de inclusão dos participantes da pesquisa: a)
profissionais atuantes na ESF; b) profissionais da ESF em exercício no período de
desenvolvimento da pesquisa; c) profissionais da ESF que acompanhassem ou já tivessem
acompanhado atividades realizadas nos ECS; d) profissionais atuantes há pelo menos 6 meses
na unidade de saúde e que tivessem, no momento da pesquisa ou anteriormente, contato com
os estagiários e com as atividades desenvolvidas nos ECS; e) os que voluntariamente optaram
por participar da pesquisa. Não foram incluídos os profissionais afastados do trabalho por
licença médica ou qualquer outro motivo ou os que faziam parte dos grupos de risco para Covid19.
Vale salientar que, no momento de realização da pesquisa, o contexto epidemiológico foi
marcado pela pandemia provocada pelo Sars-Cov-2, vírus responsável pela doença conhecida
como Covid-19. Sendo assim, em virtude da necessidade de contato e interação entre os
participantes, foram adotadas todas as medidas preconizadas pelas organizações sanitárias
para sua realização. As restrições impostas pelas autoridades sanitárias e governamentais
geraram a necessidade de adequação do estudo para a proteção de todos os participantes
voluntários.
A coleta de dados ocorreu em março de 2022. Foram realizadas entrevistas, por meio de
um roteiro semiestruturado, em que as perguntas que nortearam o estudo incluíram:
16
1. De quais atividades realizadas no Estágio Supervisionado em Odontologia você
participa/ou, acompanha/ou?
2. Existe alguma dificuldade na realização dessas atividades? Se sim, quais?
3. Do seu ponto de vista, considera que as ações contribuem com o serviço? Se não,
justifique. Se sim, de que forma?
4. Você enxerga dificuldades ou potencialidades nesse processo? Fale sobre elas.
5. Existe alguma ação que você observe como faltante, que possa ser desenvolvida
pelos estagiários ou preceptores, e considere importante para o serviço realizado
na Unidade?
6. Como é, para você, a presença do estagiário na Unidade?
7. Gostaria de acrescentar algo que não foi perguntado?
As entrevistas ocorreram individualmente e foram previamente agendadas, de acordo
com a disponibilidade de data, hora e local da preferência dos participantes, buscando zelar
pela qualidade do material a ser coletado, bem como garantir a privacidade e a
confidencialidade dos entrevistados. Foram obedecidos os critérios de proteção contra o
coronavírus, como o uso de máscara e álcool em gel. As entrevistas foram audiogravadas e
posteriormente transcritas na íntegra.
No processo de interpretação dos dados, provenientes da transcrição das entrevistas,
utilizou-se a técnica de Análise de Conteúdo de Bardin, caracterizada como conjunto de “[...]
técnicas de análise das comunicações” em que considera essencialmente as falas dos sujeitos
(BARDIN, 2011). Tal técnica de análise se divide em três polos cronológicos: pré-análise,
exploração do material e tratamento dos resultados obtidos (Figura 1).
17
Figura 1 – Identificação das categorias
Fonte: adaptado de Bardin (2011).
Ao final do processo de agrupamento, emergiram 4 categorias: “Ações desenvolvidas no
ECS”, “Dificuldades no ECS na visão dos profissionais”, “Sugestões oferecidas pelos
profissionais” e “Contribuições do ECS na visão dos profissionais”.
4. RESULTADOS
A partir do perfil dos entrevistados, foi possível estabelecer sua caracterização com base
nas seguintes variáveis: gênero, idade, profissão, tempo de atuação e escolaridade.
18
Quadro 1 – Caracterização dos participantes do estudo
Participante
Gênero
Idade
Profissão
P1
P2
P3
P4
P5
M
F
F
F
F
56
47
50
60
49
P6
F
52
P7
F
64
ACS
ACS
ACS
ACS
Técnica
enfermagem
Técnica
enfermagem
Enfermeira
P8
P9
M
F
36
70
ASB
Médica
Tempo de
atuação na
unidade
23 anos
14 anos
24 anos
24 anos
de 21 anos
de 24 anos
20 anos
13 anos
1 ano
Escolaridade
Ensino médio
Ensino superior
Ensino superior
Ensino superior
Ensino superior
Pós-graduação
(Especialização)
Pós-graduação
(Mestrado)
Ensino superior
Pós-graduação
(Especialização)
Fonte: elaborado pelas autoras com dados da pesquisa.
Atividades desenvolvidas no ECS
Sobre a primeira categoria, os resultados evidenciaram que as ações desenvolvidas no
ECS em Odontologia que contaram com a participação dos profissionais foram: visitas
domiciliares, aplicação de flúor em creches, escolas e nas microáreas, atividades educativas,
consulta compartilhada e atendimento clínico odontológico.
Cinco dos profissionais entrevistados mencionaram ter realizado/acompanhado visitas
domiciliares (ACS e ASB), três mencionaram aplicação de flúor em creches, escolas e nas
microáreas (ACS, ASB e Técnica de enfermagem), oito mencionaram atividades educativas
(Enfermeira, ACS, ASB e Técnicas de enfermagem), um mencionou consulta compartilhada
(Enfermeira) e um mencionou atendimento clínico odontológico (ASB).
Nos relatos dos entrevistados, foi possível perceber que as ações citadas relacionam-se
diretamente à função por eles exercida na estratégia, sendo mais comum as visitas domiciliares
serem acompanhadas pelos agentes comunitários de saúde, enquanto salas de espera e eventos
de promoção e educação em saúde pela maioria dos profissionais (ACS, ASB enfermeira,
técnicas de enfermagem), enquanto a consulta compartilhada é acompanhada apenas pela
enfermeira, e o atendimento clínico odontológico, pelo auxiliar de saúde bucal.
P7: aqui as atividades que a gente realiza junto com os alunos de Odontologia
tem sido quase 90%. Nós fazemos atividades com eles em educação em saúde,
em sala de espera, fazemos educação em saúde também em grupos operativos,
como os grupos de gestantes e de crianças, também fazemos as consultas
compartilhadas com a criança (Enfermeira).
19
A fala supracitada aponta a ampliação das práticas para além do foco na doença,
incluindo a prevenção e a promoção de saúde, sendo de grande importância para a reorientação
da formação em saúde e para a consolidação do SUS (ALBUQUERQUE et al., 2008).
Dos profissionais entrevistados, apenas um, mesmo tendo acompanhado o
desenvolvimento de algumas atividades dentro na UBS, não se envolveu diretamente com elas.
As atividades desenvolvidas pelos alunos decorreram de necessidades locais, tomando
por base as demandas do serviço e as ações em andamento ou planejadas pela equipe de saúde,
o que favorece a percepção a ser desenvolvida pelo estudante acerca do outro no cotidiano do
cuidado (ALBUQUERQUE et al., 2008).
Dificuldades no ECS na visão dos profissionais
No que concerne às dificuldades na realização das atividades junto aos estudantes, a
maioria dos entrevistados afirmou que não há dificuldades, pois são atividades já realizadas na
rotina do serviço.
P1: não, não existe dificuldade nenhuma porque a visita é feita constantemente
durante a semana e eles acompanham o agente de saúde justamente para
complementar a visita que é feita, porque basicamente a gente procura
hipertenso, diabético, a gestante, o idoso, e quando é acompanhado pelo aluno
de odontologia, ele complementa a visita vendo a saúde bucal dos pacientes
(ACS).
Entretanto, vale ressaltar que foram citadas limitações referentes à logística da visita
domiciliar e também ao número de estudantes.
P7: as dificuldades que a gente tem, uma das maiores, é quando a gente vai pra
área porque o transporte é pequeno, ele não comporta o número de pessoas
que precisam ir pra esse momento. Tem o pessoal de odontologia, tem os alunos
de outros cursos [...] (Enfermeira).
P4: a dificuldade é a questão do carro, a questão da casa do paciente que, às
vezes é muito pequena e são muitos alunos [...] (ACS).
Em um trabalho realizado com profissionais da ESF, a dificuldade mais citada em relação
às visitas domiciliares foi a falta de transporte (COTTA et al., 2006).
Outra dificuldade relatada com frequência nas entrevistas foi a quantidade de
estudantes, em virtude da infraestrutura deficiente do local onde o ECS é desenvolvido.
P6: por mais que a gente veja que o número de alunos é grande (refere-se aos
estagiários de Enfermagem, Medicina e Odontologia), que muitas vezes não
estão acomodados da forma ideal, pois a nossa unidade não comporta, já que é
menor que as demais unidades padrão (Técnica de Enfermagem).
20
A fala aponta para a deficiência na infraestrutura da unidade, em vista da quantidade de
alunos que recebe.
Segundo Ramos et al. (2022), os locais de estágio devem possibilitar experiências com
qualidade, sem prejuízo para o processo de trabalho dos profissionais atuantes nos serviços,
bem como para a assistência prestada em virtude do excesso de estagiários, a fim de não gerar
desmotivação e desresponsabilização na execução das atividades (MATTOS, CACCIA, 2004;
RONZANI, SILVA, 2008).
Outro ponto de destaque levantado nas entrevistas foi a motivação do discente como
determinante para o bom desenvolvimento das ações propostas.
P6: dificuldade não existe, mas isso vai depender da turma que esteja atuando
na unidade, tem turma que é mais atuante, aí dá para desenvolver melhor as
atividades, enquanto outras turmas são menos participativas, vamos assim
dizer, aí não tem como a gente nem ter aproximação para desenvolver as
atividades (Técnica de Enfermagem).
P3: e a proatividade do aluno, porque há alunos que vão, que conversam, eles
examinam a boca, eles orientam. Há outros que ficam parados, não fazem nada
e a gente fica sem saber se essa é a postura correta ou se é pra eles agirem de
uma forma mais atuante (ACS).
Peduzzi (2001) destaca que a motivação do discente é uma grande responsável por
impulsionar o desenvolvimento profissional tanto teórico como prático. Nesse sentido,
Canoletti (2008) afirma que a falta de motivação dos estudantes durante a execução das
atividades do ECS prejudica a aprendizagem e o desenvolvimento de reflexão crítica dos
assuntos abordados.
Para Garcia et al. (2018), a ausência de compromisso e responsabilidade durante o ECS
é uma situação delicada, visto que o discente está formando sua identidade profissional e,
consequentemente, tais características poderão compor sua futura prática profissional. Silva et
al. (2022) consideram que a experiência do estágio contribui para o exercício da proatividade
por parte dos estudantes, por estarem inseridos em um cenário distinto ao da universidade e
serem sujeitos ativos no processo ensino-aprendizagem.
Outra questão levantada quando questionados sobre as dificuldades foi a necessidade
do desenvolvimento de habilidades para melhor execução das atividades do ECS.
P4: eu acredito que se eles (alunos) falarem mais o nome deles… Eu percebo
que eles, na sala de espera, eles se preocupam muito com o tema abordado,
porém eles esquecem de se apresentar, de falar o nome deles, de perguntar o
nome daqueles pacientes, de dar um bom dia legal, um sorriso (ACS).
21
Segundo Silveira et al. (2020), a comunicação e a interação dos estudantes com a
comunidade são habilidades bem valorizadas pelos profissionais do SUS, que sugerem a
necessidade de melhoria destas. Carvalho et al. (2021) afirmam que a comunicação ainda é uma
habilidade pouco trabalhada no curso de Odontologia, algo considerado uma falha, tendo em
vista que a boa comunicação é uma ferramenta fundamental para o estabelecimento de uma
boa relação entre profissional e paciente, devendo ser treinada (FORTE et al., 2019).
Segundo Benito et al. (2012), o amadurecimento profissional ocorre como consequência
da vivência prática do estágio no contexto social e do trabalho quando os acadêmicos se
deparam com situações reais e diferenciadas, exigindo destes uma atenção com mais qualidade,
habilidade e segurança, ao articular o conhecimento teórico com o fato vivenciado.
Observações referentes ao relacionamento interpessoal com os estagiários também
foram suscitadas pelos profissionais, tendo em vista que este relacionamento é de extrema
importância, já que o trabalho é realizado de forma multi e interdisciplinar.
P2: os estagiários quando chegam aqui não procuram se aproximar da equipe,
eles não procuram os profissionais do posto, a não ser a dentista. (ACS).
P6: falta essa questão da socialização conosco. Muitos alunos chegam e fazem
aquela amizade, conversam conosco, então o processo de trabalho já fica
natural para gente, mas, às vezes, vem turmas que a gente não consegue uma
integração, a gente vai com eles, mas sem essa simpatia, vai porque tem que ir
(ACS).
Santos et al. (2022) destacam a importância da boa construção do vínculo e da interação
entre profissionais e estudantes para o desenvolvimento de um trabalho colaborativo. O
vínculo profissional é uma relação humana entre trabalhadores, reunidos para um trabalho em
conjunto, visando atingir as mesmas finalidades e objetivos (THOFEHRN, LEOPARDI, 2006;
BREHMER, RAMOS, 2014). Deve-se salientar, porém, que as pessoas são diferentes e que seus
pontos de vista devem ser respeitados (THOFEHRN; LEOPARDI, 2006).
Outra dificuldade apontada nas entrevistas foi a falta de um planejamento e avaliação
em conjunto com as IES.
P7: o que eu acho que ainda que a gente ainda peca é no planejamento e na
avaliação. Por mais que a gente integre as ações dentro do serviço junto com o
aluno, mas a gente não teve ainda um planejamento integrado com a
universidade. Eles fazem o planejamento em março e já chegam aqui com a
pasta pronta para se integrar no serviço. Então se tivesse esse momento
ampliado, com certeza seria melhor, como também a avaliação de resultados
(Enfermeira).
22
O estudo de Kuabara et al. (2014) relatou dificuldades entre os atores envolvidos no
processo de Integração Ensino-Saúde-Serviço-Comunidade que impactam no processo de
trabalho e na aprendizagem do estudante, bem como no cuidado ao usuário.
Segundo Narvai e Noro (2022), a função estratégica do ECS apenas pode ser alcançada
através do planejamento participativo de todos os envolvidos. Assim, unidos por objetivos
comuns e respeitados os objetivos das partes, as limitações e dificuldades podem ser superadas
em um movimento de reciprocidade. Para tal, o diálogo é ferramenta fundamental e a base para
fortalecer a IESC (BREHMER; RAMOS, 2014).
Sugestões oferecidas pelos profissionais
Durante a realização das entrevistas, os profissionais se sentiram confortáveis para fazer
sugestões que, segundo estes, ajudariam no desenvolvimento das atividades e na própria
experiência do ECS, dentro da governabilidade local. No que se refere ao número de estudantes
por ACS, a sugestão foi de que seria interessante limitar o número de estudantes para cada ACS.
P6: acho que deveria ser definido um estagiário acompanhando um agente,
porque além de criar um vínculo na área que ele está atuando, ele vai ter mais
contato, mais espaço, mais facilidade para explicar o que ele foi desenvolver na
área (ACS).
Segundo a fala, a disposição de um estudante de Odontologia para um ACS possibilitaria
o estreitamento de relação entre estes profissionais, promovendo um vínculo maior com o ACS
e também com a comunidade. Para Silveira et al. (2020), a IESC potencializa a interação entre
os sujeitos envolvidos no ensino-aprendizagem e no cuidado. São valorizados aspectos como o
contato com a realidade da comunidade e mudanças comportamentais e éticas. O contato com
a realidade do sujeito e do território, bem como a vivência com a equipe e os usuários, promove
empatia e possibilita a compreensão do processo saúde-doença.
Foi sugerido ainda um momento de integração com todos os profissionais da equipe
antes do início das atividades do ECS.
P3: [...] uma coisa que eu sinto e que não sei se seria uma ação é que quando eles
chegassem na unidade, eles fossem apresentados a gente (os profissionais), não
individualmente, mas tivesse esse momento para a gente entender o que eles
vieram fazer. Eu sinto falta disso. A gente já vai para ação com eles, mas sem
entender muito o que eles teriam que fazer (ACS).
P4: eu acho que a gente deve sempre conversar com eles, mostrando a
importância que eles tem na unidade, porque muitas vezes, eles chegam, eles
23
não conhecem, nunca vieram para um posto de saúde, eles não conhecem essa
realidade, precisam de uma orientação mesmo (ACS).
A fala aponta a existência de um distanciamento de alguns envolvidos em relação às
atividades do ECS e a necessidade de se estabelecer um diálogo mais próximo. Henriques
(2005) afirma que isto se deve à ausência de canais adequados de expressão e ressalta a
necessidade de se estabelecer um diálogo que possibilite um fazer diferenciado, que assuma
concepções acerca do cuidado, dos processos e organização do trabalho, da gestão e da escuta
do usuário.
Portanto, no âmbito do estágio curricular, o planejamento deve receber a devida
importância na construção de um processo de ensino-aprendizagem. Para isso, o planejamento
deve ser fundamentado na dialogicidade, a partir da valorização dos conhecimentos
acadêmicos, do respeito à experiência concreta advinda do mundo do trabalho e atenção às
demandas dos usuários dos serviços de saúde (RODRIGUES; TAVARES, 2012).
Contribuições do ECS segundo os profissionais
As potencialidades do ECS foram citadas de diversas formas nas entrevistas, tanto na
ampliação da quantidade e diversidade de ações realizadas, quanto na logística para o
desenvolvimento de algumas ações.
P3: quando há o comprometimento do aluno na visita domiciliar mesmo, eles
conseguem sensibilizar o paciente para o autocuidado, pra frequência ao
serviço, porque a gente já tá, eu sou agente de saúde, a gente tá continuamente
na área e quando vai o profissional, o estudante, eles impressionam mais, eles
impactam mais (ACS).
P6: agora, quando eles se envolvem, eles fazem doações, às vezes o serviço não
ia nem funcionar e eles fazem, eles trazem doações e ajuda nessa questão do
atendimento clínico ao paciente (ACS).
Uma das falas sugere que, diante de situações adversas, os estudantes foram capazes de
desenvolver e fortalecer a autonomia e tomar decisões (SILVA et al., 2022; TOASSI et al., 2012),
estimulando a capacidade de adaptação e gerenciamento de situações adversas, que
dificilmente ocorreria no cenário acadêmico.
A IESC se configura como propiciadora de metodologias ativas caracterizadas pela
problematização, potencializando a autonomia intelectual. Inseridos no contexto, os estudantes
se deparam com os problemas da população e do serviço, desenvolvendo habilidades para
intervir nos cenários e tomar decisões (BRANDÃO; ROCHA; SILVA, 2013).
24
A troca de saberes também foi citada como potencialidade do ECS.
P8: [...] fora as informações novas que eles estão estudando agora na
universidade, então eles trazem informações vamos dizer assim: quentíssimas
(ASB).
P7: eu acho ótima, é uma troca de experiências, eles trazem informações novas
pra gente (Enfermeira).
Em estudo realizado com egressos do curso de Odontologia, a comunicação e o
compartilhamento de informações com a equipe e com os usuários foram bastante valorizados
no processo de aprendizagem e formação profissional (BUSATTO; TREIN; ROSSONI, 2021).
Essa troca mútua de conhecimento no ensino-serviço decorre do compartilhamento de saberes
através das práticas com os alunos e do trabalho em equipe. Estes também trazem informações
atualizadas sobre novos conceitos, novas terapêuticas e novos tipos de metodologias do
cuidado (SANTOS, MIRANDA, 2016; FORTE et al., 2015).
O ECS, portanto, vem contribuir para a melhoria da qualidade do serviço, tendo em vista
a necessidade de atividades de educação permanente, o que impacta indiretamente na
qualificação da atenção à saúde (NARVAI; NORO, 2022).
Outra potencialidade citada foi a ampliação do número de ações/atividades realizadas:
P8: o número de eventos que eles promovem que são muito maiores do que se
só tivesse eu e a dentista (ASB).
A fala aponta o estudante como alguém que colabora com o serviço e potencializa o
trabalho, ampliando a cobertura. Nesse sentido, estudo de revisão (MENDES et al., 2018)
identificou a ampliação de atividades diferenciadas nas unidades de saúde como consequência
positiva da IESC, bem como a melhoria da qualidade do serviço. Toassi et al. (2012) afirmam
ainda que o estágio propicia a mudança de olhar sobre a prática, favorecendo a realização de
um número maior de atividades clínicas no serviço e de atividades coletivas.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que o ECS em Odontologia necessita de análise e planejamento conjunto com
os preceptores dos outros estágios, gestão (coordenação de saúde bucal) e IES (coordenação
do ECS), bem como toda a equipe, para adequar a quantidade de estagiários na unidade em
questão. Apesar de os profissionais de saúde enxergarem as contribuições dos estudantes para
a ampliação das ações desenvolvidas, seja pelo engajamento ou pelas contribuições feitas por
eles, entendem que sua motivação é tida como fator primordial para o desenvolvimento das
25
atividades e estreitamento do vínculo com os profissionais e a ESF, interferindo diretamente na
aprendizagem e no desenvolvimento de reflexão crítica das questões práticas abordadas.
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28
CAPÍTULO II
ACOLHIMENTO EM UMA UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE DE UM
MUNICÍPIO DE SERGIPE: PERCEPÇÕES E ORGANIZAÇÃO NO
PROCESSO DE TRABALHO
DOI: 10.51859/amplla.csf447.1123-2
Erica Thaisa Alcantara Lima
Maria das Graças Monte Mello Taveira
Divanise Suruagy Correia
1. INTRODUÇÃO
Cuidados primários de saúde correspondem ao primeiro nível de contato com o sistema
nacional de saúde dos indivíduos, família e comunidade. Por meio deles, os cuidados em saúde
são direcionados ao mais próximo possível onde as pessoas vivem e trabalham (WHO, 1978).
Um dos atributos essenciais da Atenção Primária à Saúde (APS) é a sua constituição
como serviço de primeiro contato e para tanto é necessária eliminação de barreiras geográficas,
financeiras, organizacionais e culturais. Ou seja, o acesso deve ser garantido principalmente
através dos serviços de APS devido a sua proximidade com o usuário e facilitação do
desenvolvimento de vínculo longitudinal (STARFIELD, 2004).
Com a constituição de 1988 o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a oferecer a todo
cidadão brasileiro acesso integral, universal e equânime a serviços de saúde como um direito
de todos e dever do Estado (BRASIL, 2016). Várias políticas foram e são instituídas para a
viabilização dos princípios e diretrizes do SUS e, dentre elas, temos a Política Nacional de
Humanização (PNH), lançada em 2003. Essa política buscou produzir mudanças nos modos de
gerir e cuidar, promovendo a comunicação entre gestores, trabalhadores da saúde e usuários
na construção de processos coletivos de enfrentamento de relações de poder, trabalho e afeto
(BRASIL, 2013a).
O acolhimento está entre as diretrizes da PNH, em que se traduz uma escuta qualificada
às necessidades do usuário oferecida pelos trabalhadores, possibilitando a garantia do acesso
oportuno à tecnologia adequadas a essas necessidades, ampliando a efetividade das práticas de
saúde (BRASIL, 2013a). Vem sendo implantado progressivamente em unidades de
29
emergência/urgência, programas de extensão universitária, estágios curriculares e equipes de
Saúde da Família (eSF) (PAIM, 2012).
Segundo a Portaria nº 2436 de 23 de setembro de 2017, a Política Nacional de Atenção
Básica (PNAB) destaca a Atenção Básica como porta de entrada e centro de comunicação da
Rede de Atenção à Saúde (RAS). No princípio da universalidade, a Atenção Básica possibilita o
acesso universal e contínuo, sendo porta de entrada aberta e preferencial da RAS, acolhendo os
indivíduos e promovendo a vinculação e corresponsabilização (BRASIL, 2017).
Após contextualização realizada acerca do acolhimento como tecnologia estruturante
para prática profissional, a presente pesquisa tem como objetivo conhecer a compreensão dos
profissionais e usuários sobre a organização e realização do acolhimento no processo de
trabalho em uma unidade básica de saúde do município de Neópolis, Sergipe, Brasil.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Acolher é uma prática constitutiva das relações de cuidado. No processo de
implantação/reestruturação das práticas de acolhimento, é preciso levar em conta os
diferentes sentidos, como: mecanismo de ampliação/facilitação do acesso; postura, atitude e
tecnologia de cuidados; e dispositivo de (re)organização do processo de trabalho em equipe
(BRASIL, 2013a). Assim, é instituído para ampliar o acesso e efetivar a missão da APS como
principal porta de entrada do sistema. Busca o resgate da agilidade do acesso e o aumento da
equidade e da resolutividade do primeiro contato (BRASIL, 2013a; TESSER et al., 2018).
O acolhimento na eSF deverá ser de acordo com as necessidades locais, favorecer a
escuta qualificada dos usuários, disponibilizar espaços para efetivação do controle social,
articular membros da equipe, promover comunicação e mudanças no processo de trabalho e
estar interligado a todos os níveis de atenção à saúde, firmando parcerias entre comunidade,
equipe e gestão (OLIVEIRA et al., 2016).
Resultados de estudo realizado por Oliveira et al. (2019) em uma unidade de APS
localizada em uma cidade metropolitana da região sudeste do país, apontam o acolhimento
como ferramenta de qualidade do SUS, visto que pode levar a mudanças na relação estabelecida
entre profissionais e usuários. Deste modo, proporciona benefícios na corresponsabilização dos
sujeitos na saúde, fomentando também a ressignificação relacionada a produção do cuidado.
O acolhimento é indicado como uma forma de possibilitar ao usuário acesso a um
atendimento justo e integral de modo multiprofissional e intersetorial. Se realizado de modo
30
desarticulado e pontual, pode ficar reduzido a uma atividade de triagem, descaracterizando sua
principal função (COUTINHO et al., 2015).
Souza et al. (2021), ao analisarem o acesso à Atenção Básica no Brasil no período de
2012 a 2018, verificaram que, com relação ao acolhimento à demanda espontânea, a maioria
das equipes implantaram e/ou qualificaram, atentando-se à: inclusão de atendimento às
urgências, melhoria dos modos de organização da agenda e qualificação dos modos de
agendamento, diminuindo tempo de espera. Apesar desses resultados, ainda persistiam
problemas recorrentes que necessitam de enfrentamento para melhoria do acesso à Atenção
Básica no país.
A pesquisa ocorreu na Unidade Básica de Saúde Centro II, localizada na zona urbana do
município de Neópolis, Sergipe, Brasil. O município tem população de 18.506 pessoas, de
acordo com o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE,
2010), pertence à Regional de Saúde do município de Propriá e conta com 08 eSFs,
possibilitando cobertura de 100% da população (BRASIL, 2021). O município tem também 04
equipes de Saúde Bucal e um Centro de Atenção Psicossocial. A unidade lócus da pesquisa tem
01 eSF com 08 microáreas e não tem equipe de Saúde Bucal.
3. MÉTODO
Trata-se de um estudo qualitativo, descritivo, realizado com 13 profissionais de saúde e
10 usuários da Unidade Básica de Saúde Centro II da zona urbana do município de Neópolis,
Sergipe. Foi desenvolvido no decorrer do Mestrado Profissional em Saúde da Família –
PROFSAÚDE/FIOCRUZ/UFAL. A coleta de dados com os usuários iniciou-se em 22 de março de
2022 até o dia 05 de maio de 2022, e com os profissionais, entre os dias 01 e 18 de abril de
2022.
Os critérios de inclusão dos profissionais foram: ser profissional da UBS e atuar na
unidade de saúde por período igual ou maior que um ano. Como critérios de exclusão:
profissionais afastados no período da pesquisa por motivo de doença, férias ou algum outro
tipo de licença. Para seleção dos usuários, foram adotados os seguintes critérios: ser maior de
18 anos de idade e estar cadastrado na UBS há um período igual ou maior que um ano. Como
critérios de exclusão, teve-se: usuários acamados e com transtornos mentais.
A seleção dos profissionais de saúde foi de forma intencional, com todos os que
trabalham na referida unidade. Quanto aos usuários, foram selecionados por sorteio simples
aleatório, com representação das 08 microáreas que pertencem ao território de atuação da UBS.
31
Os dados foram coletados por meio de entrevistas com perguntas abertas mediadas por
roteiros elaborados pela pesquisadora, com 09 perguntas para os profissionais e 07 perguntas
para os usuários. Ocorreu a realização de pré-teste dos dois roteiros de entrevista com o
objetivo de identificação de possíveis ambiguidades e análise de nitidez dos termos e
expressões.
As entrevistas foram aplicadas de modo individual pela pesquisadora, uma vez que não
houve conflito de interesse, em local reservado na UBS, gravadas em áudio eletronicamente e
foram respeitadas as normas de biossegurança para enfrentamento da COVID-19. Os sujeitos
foram codificados para garantir o anonimato.
Foram realizadas com 13 profissionais que desenvolvem atividades na unidade básica
Centro 2, sendo 01 médico da eSF, 01 auxiliar de enfermagem da eSF, 01 auxiliar de
enfermagem de ambulatório, 01 auxiliar de serviços de saúde (administrativo), 08 agentes
comunitários de saúde (ACS) e 01 serviços gerais. Apenas 01 profissional é do sexo masculino
e 12 profissionais são do sexo feminino. A idade varia entre 35 e 63 anos. A maioria dos
profissionais faz parte do quadro de funcionários efetivos.
Quanto aos usuários, todas as entrevistadas foram mulheres. A idade variou entre 21 e
67 anos. Com relação à escolaridade, 06 com ensino médio, 01 nível superior e 03 ensino
fundamental incompleto.
A análise de dados foi embasada na teoria de análise de conteúdo, em quatro fases,
seguindo recomendação de Malheiros (2011). A primeira fase se constituiu na organização dos
dados, analisando as respostas e buscando as ideias que emergem delas. Foi realizada uma préanálise dos dados através de uma leitura aprofundada, objetivando identificação de categorias.
Na segunda fase houve elaboração de uma planilha para identificação dos sentidos, composta
pelas ideias explícitas (categorias provisórias) e ideias implícitas (focos). A terceira fase
compreendeu a procura da resposta à pergunta da pesquisa, por meio da identificação das
unidades de registro, relacionando a fala com o foco ou tema. A quarta fase envolveu duas
planilhas, em que, na primeira, houve a interpretação dos focos e suas unidades de registro, e a
segunda abrangeu a elaboração das categorias e suas respectivas subcategorias.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal de
Alagoas, sendo aprovada pelo Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE),
Processo nº 53407021.8.0000.5013. Todos os participantes assinaram Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
32
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
As entrevistas realizadas abordaram a percepção do acolhimento dos profissionais e
usuários e sua organização na Unidade Básica de Saúde. Em busca de responder à questão
norteadora deste artigo, a análise dos dados permitiu a organização em 02 categorias:
Percepção do acolhimento e Acolhimento no Processo de Trabalho. As categorias identificadas
estão representadas no Quadro 1, com suas respectivas subcategorias.
Quadro 1 – Categorias e subcategorias de análise
CATEGORIAS
Percepção do acolhimento
Acolhimento no Processo de trabalho
SUBCATEGORIAS
Nas relações
Na qualidade do atendimento
Na rotina de trabalho
Na qualificação profissional
Dificuldades e Barreiras de acesso
Fluxo dos usuários na Unidade Básica de Saúde
Fonte: elaborado pelas autoras.
Categoria 1:
Percepção do acolhimento
A percepção é vista como uma relação complexa e, segundo Smith (2014), é definida
como uma relação entre uma pessoa que percebe e um objeto/evento. Deste modo, não significa
apenas um estado subjetivo que uma pessoa passa, e sim, se refere a uma situação que a pessoa
tem alguma relação com um objeto/evento. Não se percebe o mundo de modo direto, uma vez
que a percepção é uma interpretação desse mundo (MATOS et al., 2016).
O acolhimento na Atenção Básica é um dispositivo reconhecido como basilar para
reorganização do serviço de saúde, promove modificações nas relações e nos modos de cuidar
(BRASIL, 2013a). É nesse contexto que se configura a importância de compreender a
perspectiva do acolhimento pelos profissionais e usuários como ponto de partida para sua
efetivação, uma vez que essa organização deve ser usuário-centrada.
Subcategorias:
a) Percepção do acolhimento nas relações
Os profissionais, quando solicitados a falar sobre acolhimento em saúde, trouxeram em
seus depoimentos as relações estabelecidas com os usuários, correlatando acolhimento a
receber bem, a ter boa educação, a dar suporte, a atenção, a ter empatia, a inclusão, a tratar o
33
outro como faria com um familiar, isto é, perpassando entre vínculo, escuta e sensibilidade do
profissional.
“Acolhimento em saúde, eu acho assim, como o SUS é porta aberta, o
acolhimento tem que ser sem preconceito, sem distinção de cor, de raça, você
acolher quem procura ser atendido, [...] dando atenção, procurando saber os
problemas familiares” (P8).
“Eu acho que acolhimento é quando você tenta resolver os problemas daquelas
pessoas que procuram o posto, da melhor forma. Com empatia, [...] pensando
no outro, como se fosse você. Aí eu acho que isso é acolher o outro, com
responsabilidade também, e respeito” (P9).
Entre os usuários também houve a mesma correlação, os quais associaram acolhimento
a atender/tratar bem, a boa escuta, a ser gentil, se colocar no lugar do outro e ajudar quando
alguém precisa.
“Acolhimento é receber bem, ser gentil, saber tratar, escutar o que a pessoa está
sentindo, está querendo falar para poder passar direitinho, saber [...] ouvir a
pessoa quando chegar e saber receber” (U10).
“Eu acho que acolhimento, assim, [...] quando você precisa de uma ajuda a
pessoa chega junto, eu acho que é isso” (U3).
Apenas uma usuária disse não saber o significado do termo, porém referiu se sentir
acolhida por ser atendida no que precisa.
“É porque eu me sinto acolhida aqui pelas pessoas, me acolhem muito bem. E
eu não tenho o que dizer não, elas me acolhem aqui, o que eu preciso e eu sou
bem acolhida aqui” (U1).
Para ambos, usuários e profissionais, a procura por uma unidade de saúde está
relacionada a doença/estar doente, e não ser bem acolhido pode prejudicar mais a situação,
piorando o quadro clínico e afetando o vínculo.
“Porque assim, o paciente já está com algum problema, já está doente e chegar
em um ambiente e ser tratado mal, não ser bem recebida, não ser bem acolhido,
dificulta mais ainda. Deixa o paciente mais para baixo, mais doente, ainda” (U9).
“Em questão de que, quando ele vem ao posto de saúde, ele já vem [...] com
algum tipo de doença, porque ninguém vem para o posto de saúde sem está
doente. Então ele já vem doente, ele já vem fragilizado [..] e por isso que ele
precisa ter um bom acolhimento, de uma boa recepção [...] para que ele se sinta
acolhido e que ele retorne mais vezes a unidade, sem ter medo [...] de se sentir
mal, de tratarem ele mal” (P13).
34
Durante as entrevistas, todos os usuários relataram se sentirem acolhidos na UBS.
Quando indagados o motivo, associam a serem bem atendidos/recebidos, por não haver
distinção, por sempre serem atendidos quando precisam e pelo fato de estar sempre de “portas
abertas”, mesmo com algumas falhas. As falhas relatadas foram relacionadas ao tempo de
duração das consultas.
Sim, sim. Assim, quando a gente precisa, está aqui de portas abertas, né?
Querendo, tendo às vezes algumas falhinhas, mas está aqui de portas abertas
né? (U5).
[...] eu me sinto acolhida sim, o atendimento até aqui eficiente. Porque elas nos
recebe bem, num tem aquele negócio de dizer “é por cara, hoje eu vou atender
primeiro você, depois... [...] (U6).
Dentre as dimensões constitutivas do acolhimento, encontramos o mesmo na esfera das
tecnologias leves, exercendo, inclusive, enorme influência no modo de agenciamento de
tecnologias leve-duras e duras. Nessa dimensão, o acolhimento é evidenciado como postura,
atitude, no modo de escutar, nos vínculos, na forma de lidar com o não previsto, na sensibilidade
e no posicionamento ético situacional (BRASIL, 2013a), pontos referidos tanto pelos usuários
como pelos profissionais, indicando a extrema importância desse aspecto.
Na literatura encontramos pesquisas em que os profissionais relacionam o acolhimento
com escuta, receber bem, ser atencioso, empático, valorização do outro, respeito às diferenças,
ajuda, ser resolutivo (NOBRE, et al., 2016; OLIVEIRA et al., 2019; RODRIGUES, et. al., 2020). Já
os usuários percebem o acolhimento como a busca pelo serviço e conseguir ser recebido sem
dificuldade, sendo uma via de mão dupla (MACIEL et al., 2019).
Acolher é realizar o reconhecimento do que o outro traz como necessidade de saúde
legítima e singular. Tem como objetivo construir relações de confiança, compromisso e vínculo
envolvendo equipes, serviços e usuários, devendo ser realizado com escuta qualificada
(BRASIL, 2013a). No estudo realizado por Rodrigues et al. (2020), a escuta foi considerada pelos
profissionais como circunstância favorável para distinguir fluxos de atendimento de acordo
com as demandas, assim como permite direcionamento externo para os casos que necessitam
de apoio de outros pontos da rede de assistência.
Em trabalho realizado por Protásio et al. (2017), quando o médico não deixa tempo
suficiente para a realização das consultas, diminui a chance de obter satisfação do usuário, por
diminuição ou ausência de consideração com suas preocupações e problemas. Os autores
argumentam sobre o fato de quando o usuário se sente acolhido e com suas necessidades
35
ouvidas, promove o favorecimento para estreitamento das relações e construção de plano
terapêutico relacionado a essas necessidades.
Nas entrevistas das usuárias, o fato de duas delas terem demonstrado insatisfação pelo
tempo das consultas foi relacionado à demora na sala de espera que isso pode acarretar para
quem vai aguardar a vez. Todos os usuários agendados chegam aproximadamente no mesmo
horário para realização da pré-consulta com a auxiliar de enfermagem e aguardar a vez de ser
atendido. A integralidade do cuidado é afetada quando o tempo de espera é grande e gera
impacto na satisfação do usuário (SILVA, et al., 2019). Sendo assim, outros aspectos devem ser
considerados e discutidos com os usuários, como agendamento por bloco de horário, por
exemplo, para os que serão atendidos mais para frente não tenham que esperar muitas horas
na unidade.
b) Percepção do acolhimento na qualidade do atendimento
Os usuários consideram, de modo geral, o atendimento na unidade bom. As queixas que
surgiram foram com relação ao tempo de duração das consultas e a falta de organização por
condição de saúde (ex.: dia para atendimento de hipertensos, renovação de prescrição de
psicotrópico, etc.). Na entrevista, 03 usuárias comentaram quanto à forma inoportuna a qual
são recebidas, porém justificam e demonstram compreensão.
“É ótimo o atendimento aqui, mas sempre às vezes a gente encontra uma
carinha feia ou outra, que isso é normal, que é muito ruim lidar com ser humano,
mas é assim mesmo. A gente releva e está tudo certo” (U8).
Para a maioria dos profissionais, o acolhimento é considerado bom, havendo apenas
duas referências como parcialmente bom, devendo ser melhorado ainda mais. Essa
parcialidade ocorre porque esses dois relatos informam a existência de profissional de nível
médio que trata mal os usuários e com distinção. Houve também profissional que não opinou
por não ver como o acolhimento ocorre.
“O acolhimento aqui no posto de saúde a gente tenta ao máximo para receber
eles bem [...] e resolver os problemas que eles tão precisando no dia a dia
[...]Aqui na UBS da gente eu acho que a gente faz o que pode. E até o que não
pode” [...] (P8).
“[...] porque tem pessoas que não sabem o que é acolhimento e trata da forma
que acha que tem que tratar, às vezes porque está com problema [...] em casa e
desconta às vezes no paciente [...]. É que algumas pessoas têm de aprender que,
para tratar o paciente, não tem que ter diferença de classe social, [...] todo
mundo é igual e tem que ser tratado do jeito que a gente quer ser tratada a gente
tem que tratar o paciente né” (P2).
36
Em pesquisa realizada a partir de dados do PMAQ por Souza et al. (2021), a proporção
aumentou em 20% de usuários que avaliaram positivamente a maneira como são acolhidos na
UBS, passando de 66,4% em 2012 para 85,8% em 2018. Entretanto, ao passo de haver avanço
na existência e qualidade do acolhimento, permanecem obstáculos e desafios para haver
acolhimento satisfatório. O acolhimento é destacado como ferramenta de qualidade no SUS,
podendo originar mudanças na relação profissional/usuário e refletir em benefícios na
corresponsabilização dos sujeitos e ressignificar a produção de cuidado (OLIVEIRA et al., 2019).
A falta de humanização enquanto postura por alguns profissionais também foi
registrado como um dos desafios para desenvolver o acolhimento realizado por Nobre et al.
(2016). Humanizar é construir relações e incluir as diferenças nos processos de gestão e de
cuidado (BRASIL, 2013a). Por mais que estejam disponíveis definições objetivas e
fundamentadas cientificamente sobre necessidades de saúde, o usuário também define quais
as necessidades de saúde para ele, com forma e graus variados. Nos momentos de sofrimento,
muitas vezes, há o estabelecimento e estreitamento de vínculos, e o fator de conhecer o usuário
facilita a identificação e acompanhamento do problema pelo profissional (BRASIL, 2013b). O
fato de as próprias usuárias buscarem justificativas pelo trato inadequado pode estar amparado
nesse vínculo e confiança estabelecido.
c) Percepção do acolhimento na rotina de trabalho
Quanto à rotina de trabalho, todos os profissionais percebem que desenvolvem
atividade ou prática relacionada ao acolhimento.
“Eu acho que o agente de saúde é o acolhimento, ele é o vínculo das pessoas com
o posto de saúde. Antes do paciente vim, ele já é atendido pela gente” (P9).
“De uma certa forma pratico, porque senão era só como balconista de farmácia,
“tome isso, vá embora” e já entra o próximo. Um atendimento assim eu
terminaria em que? Meia hora, quarenta minutos dava para atender todo
mundo, não é?” (P11).
A partir dos relatos supracitados, os profissionais da unidade percebem o acolhimento
diuturnamente na rotina de trabalho de cada um, sendo reconhecido em todos os espaços e
situações, já que a pesquisa envolveu todos os trabalhadores em suas diferentes funções. A base
do acolhimento é a escuta qualificada por permitir a tomada de decisões durante o “trabalho
vivo”, sendo, portanto, imprescindível, o conhecimento ampliado do território e suas
necessidades de saúde (RODRIGES, et al. 2020).
37
Nos depoimentos é possível identificar o acolher como um momento de troca e partilha
entre profissionais e usuários. Acolhimento não presume um horário ou profissional específico
ou espaço físico. É um momento de compartilhamento de saberes e angústias, não sendo uma
etapa de um processo, e sim, uma ação que ocorre em todos os locais e situações nos serviços
de saúde (BRASIL, 2010; BRASIL, 2013b; BRASIL, 2016).
“Sim, sim. Que eu atendo as pessoas, eu converso, eu procuro entender mais
elas e até chegar no ponto, eles chegam depressivas, eu deixo alegre, feliz,
graças à Deus” (P12).
“Ah sim, eu acho, porque nós somos agentes de saúde, nós somos também
“psicólogo”, “psiquiatra” e às vezes até “médico”, né...” (P4).
d) Percepção do acolhimento na qualificação profissional
O acolhimento tem a capacidade de promoção da equidade e universalidade da atenção
à saúde e, para ocorrer a sua efetivação, é indispensável o preparo e a capacitação dos
profissionais que irão operacionalizá-lo (BRASIL, 2013a; RODRIGUES, et al., 2020). Rodrigues
et al. (2020) identificaram que uma dificuldade de implantação pela equipe de Saúde da Família
se dá pela falta de perfil e de conhecimento por parte dos profissionais de saúde. Durante as
entrevistas realizadas nessa pesquisa, também emergiu essa problemática, com falas que
denotam a dificuldade de lidar com o estresse do usuário, a vontade de mais preparo para
acolher e o reconhecimento da necessidade de treinamento.
“[...] eu acho que deveria ter um treinamento de acolhimento para algumas
pessoas para poder a pessoa entender direito o que é um acolhimento. Porque
tem pessoas que não sabem o que é [...] e trata da forma que acha que tem que
tratar” (P2).
“[...] eu gostaria de estar mais preparada, mas no pouco que eu consigo eu tento
fazer da melhor maneira possível” (P3).
Como vimos, há evidências de tratamento inadequado advindo dos profissionais
apontados tanto por alguns profissionais como pelas usuárias e a falta de perfil e/ou
qualificação profissional podem indicar o embasamento para tal situação. Essa identificação da
necessidade de treinamento pode sugerir deficiência por parte da gestão da oferta de
capacitações desses trabalhadores sobre a temática. Para haver o acolhimento preconizado
pela PNH, é preciso integração entre cuidado e gestão, espaço para reflexão sobre práticas,
formação dos trabalhadores e maiores investimentos para implantação da PNH nos serviços de
Atenção Básica (BRASIL, 2013ª; NOBRE, et al. 2016). A prática do acolhimento remete à escuta
qualificada para identificação das necessidades de saúde, considerando riscos e
38
vulnerabilidades (BRASIL, 2013b) e o profissional deve se sentir preparado de acordo com a
sua competência clínica.
Também foi apontado nos depoimentos recolhidos com os trabalhadores a evidência de
tratamento ruim dos usuários com os profissionais. Na literatura, foi encontrada referência de
violência presente no dia a dia das equipes das unidades de saúde, trazendo desgaste ao
trabalhador. Deste modo, debates referentes ao manejo de situações como estas devem ser
consideradas, na ótica do cuidar de quem cuida (OLIVEIRA et al., 2019).
“[...] acontece situações que tira a gente do eixo, às vezes o paciente não está
legal, mas o paciente é paciente, a gente tem que entender isso, que às vezes ele
não está bem. E às vezes a gente fica chateado, com a forma dele se dirigir a nós,
[...] não é tudo flores, [...] trabalhar com pessoas não é fácil, é difícil!” (P3)
“[...] a depender do paciente, da forma como ele trata o profissional, ele é bem
recebido [...] nós funcionários também recebemos tratamentos ruins dos
pacientes [...] a depender do tratamento que nós recebemos, nós devolvemos.
Então, se o paciente chega bem, trata a gente bem, com certeza ele vai ter um
bom acolhimento. Mas se ele chegar aqui com ignorância, trata o funcionário
mal, então a gente vai falar na linguagem dele entendeu...” (P13).
Categoria 2:
Acolhimento no processo de trabalho
Acolhimento como diretriz necessita de transformações na organização e
funcionamento em um trabalho conjunto envolvendo os 03 atores: gestores, trabalhadores e
usuários. O debate para essas transformações inclui discussões sobre a definição do modo como
os diferentes trabalhadores da saúde irão atuar, mesmo que essas discussões sejam provisórias,
já que é algo dinâmico. O reflexo disso é o reconhecimento da importância da ampliação da
capacidade clínica da equipe para escuta ampliada, identificação de riscos e vulnerabilidade e
realização de ações/intervenções (BRASIL, 2013b).
De acordo com o exposto, nessa categoria encontra-se o conhecimento da dinâmica da
unidade e das práxis dos profissionais sob a ótica destes e dos usuários, resultando em duas
subcategorias: dificuldades e barreiras de acesso e fluxo dos usuários na UBS.
Subcategorias:
a) Dificuldades e Barreiras de acesso
O acolhimento como um recurso de ampliação/facilitação do acesso na prática aparece
como forma de inclusão dos usuários, sem distinção, contemplando tanto a agenda programada
quanto a demanda espontânea. A agenda dos profissionais neste contexto serve como garantia
39
da retaguarda do acolhimento e para continuidade do cuidado, programático ou não. A gestão
de agendas deve conter a agenda programada para grupos específicos, agenda de atendimentos
agudos e agenda de retorno/avaliação (BRASIL, 2013b).
As formas de agendamento identificadas e utilizadas pelos usuários foram: a maioria
realiza presencial ou por meio do ACS. Também teve quem referiu realizar por meio da auxiliar
de enfermagem. Durante a entrevista apenas uma usuária criticou o agendamento presencial,
pois acaba indo ao posto duas vezes. Por causa disso, referiu que preferia como era
anteriormente no antigo Sesp, por meio de distribuição de fichas no dia. Em seu depoimento
não demonstrou conhecer outras formas de agendamento.
“É... assim, porque a gente vem agenda, aí vem cedo para agendar, aí no outro
dia vem para consultar [...] quer dizer, perde dois dias, no caso, quem trabalha
como eu [...] acho que seria melhor que, se fosse assim, viesse, como antes lá no
Sesp, que recebia a ficha e consultava” (U10).
As formas de agendamento podem ser uma ferramenta para auxiliar na garantia do
acesso, porém, se for imposto condicionantes e/ou não houver recursos materiais/tecnológicos
suficientes, podem representar uma barreira. Na unidade de saúde pesquisada não há telefone
institucional. Trabalhar com usuários as diferentes formas de realização de agendamento, com
o comprometimento de todos os trabalhadores da unidade e o envolvimento do gestor para
solucionar a questão relacionada aos recursos materiais/tecnológicos, se faz urgente para
mitigar a problemática referida.
Para haver otimização da oferta de cuidados, diminuição do absenteísmo e melhor
gerenciamento da agenda, torna-se importante o debate para inclusão de formas mais ágeis
para o agendamento e cancelamento, considerando a popularização do acesso à internet e
aparelhos portáteis (SOUZA et al., 2021). Com a pandemia e a necessidade de seguir as
recomendações e normas de biossegurança, a amplificação desse debate deveria ser
primordial.
Na pesquisa realizada por Protásio et al. (2017) referente à satisfação dos usuários com
os serviços de Atenção Básica, no Nordeste, a distância de casa até a unidade de saúde, a
marcação de consultas quando não realizada todos os dias da semana e quando a marcação não
é no mesmo dia, levaram a diminuição da chance de obter essa satisfação. No caso da presente
pesquisa, não foi referida a distância, mas o fato de ir mais de uma vez na unidade para ter a
consulta realizada.
40
Com relação aos serviços que precisam de agendamento, pelos depoimentos dos
profissionais, todas as consultas médicas foram mencionadas e, para a enfermeira, as consultas
com as gestantes e citologia. Três referiram que a justificativa para esse agendamento se
encontra na Covid-19, com o objetivo de redução de fluxo excessivo de pessoas na unidade. A
pandemia da Covid-19 e o papel relevante da APS no enfrentamento resultaram em mudanças
nos processos de trabalho dos profissionais em atendimento à nova realidade imposta pela
emergência sanitária (GERALDO et al., 2020). Dentre as mudanças necessárias, englobaram
modificações do fluxo de atendimento, porém todos os usuários agendados são orientados a
chegar no mesmo horário, não condizendo com o argumento de redução de fluxo por conta da
pandemia.
“Agendamento: consulta médica, consulta com a enfermeira para gestante, e a
realização de exames de lâmina, são agendados” (P2).
“O serviço com o médico e com a enfermeira. Diante a pandemia, teve que fazer
esse processo, né, de agendamento. Para evitar o fluxo” (P8).
Quanto ao intervalo de tempo entre o agendamento e o dia do atendimento, os
profissionais consideram que não demora muito, sendo bastante rápido. Dois relatos
queixaram-se de identificar tratamento desigual para agendar e realização do agendamento
para o outro dia, mesmo tendo vaga. Em relação às usuárias, as que relataram sobre esse tempo
referiram que o agendamento não demora.
“Ah, bem rápido. Às vezes até no outro dia já consegue” (P10).
“Um absurdo, [...] porque tem vagas e o paciente tem que esperar ainda para
próxima vaga, para o outro dia. É isso aí que eu não concordo. Não, não é tão
demorado. Mas incomoda porque a pessoa procura um posto de saúde é porque
está doente, ninguém vem de brincadeira. Quem vem porque precisa” (P12).
“Não, no meu caso nunca demorou não. Porque sempre eu fui agendada rápido.
Só se tiver a agenda lotada mesmo, mas nunca ocorreu, ainda bem, comigo”
(U8).
Nos depoimentos dos profissionais da unidade, foram identificadas outras condutas que
também podem servir de barreira de acesso, como dizer para o usuário voltar se não tiver
máscara, condicionar atendimento à apresentação do cartão do SUS e não agendamento para o
dia solicitado pelo usuário, mesmo com vaga disponível na agenda.
Bom, depende como ele vem, se ele tiver de máscara ele entra, se ele não tiver
ele volta para colocar a máscara para ser atendido (P6).
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Não, às vezes bom e às vezes ruim. Porque tem gente que destrata paciente, pelo
cartão que não traz, pelo uma... tem vaga e não é marcada... (P12).
Quando os usuários chegam, mesmo com o agendamento prévio, eles são colocados na
ordem de chegada do dia para atendimento de consulta médica e/ou de enfermagem, com
respeito ao atendimento preferencial.
[...] ele é atendido pela recepcionista, colocado na ordem de chegada, sendo que
prioridade do idoso, gestante, crianças menores de 2 anos e a técnica de
enfermagem faz a pré-consulta para ser atendida pelo médico (P13).
A maior flexibilização nos processos organizativos nas rotinas das equipes pode
representar significativo elemento para modificação do acesso dos usuários aos serviços da
APS. Em diferentes estudos, ainda é possível verificar, mesmo diante de avanços de modo geral,
equipes que atuam impondo barreiras em como os usuários acessam consultas, com dias e
horários específicos para marcação, filas e entrega de fichas por exemplo (SILVA, et al., 2019;
SOUZA et al., 2021). Por conseguinte, obstáculos e barreiras de acesso podem representar
agravamento do quadro clínico do usuário, piora de anseios e frustações e perda de
oportunidade para identificação de outras necessidades de saúde.
b) Fluxo dos usuários na Unidade Básica de Saúde
A unidade deve ter diversificada a oferta de cuidados e ser capaz de realização de apoio
e acionamento de redes de cuidado comunitárias. A organização a partir do acolhimento
necessita de reflexão referente a essas ofertas de cuidados para lidar com as necessidades de
saúde (BRASIL, 2013b) e, para haver essa reflexão, o ponto de partida é a compreensão que
ofertas são essas na unidade de saúde.
Quando questionados sobre os serviços na UBS, todos os profissionais demonstraram
ter noção das atividades diversificadas realizadas na unidade, não se atendo apenas as
consultas médicas e de enfermagem. As carências relatadas foram quanto à ausência de
dentista na UBS, pois não há Equipe de Saúde Bucal, e a falta de realização de curativo na
unidade por não haver sala adequada.
Nesse posto de saúde temos vacinação, exame de lâmina, consulta médica,
consulta com a enfermeira, verificação de pressão, de glicemia capilar, peso,
altura, [...] só, não tem UBS de dentista, é o que está faltando para nós para poder
ser completo (P2).
[...] O que falta só, é, curativo, que a gente não tem uma sala adequada para isso,
mas a gente tem verificação de pressão, verificação de glicemia, a gente tem
consulta de médico, de enfermeira, tem vacina... (P10).
42
Ao longo da história do SUS, a Saúde Bucal é um grande desafio, mesmo havendo vários
programas específicos, impactando na participação desses profissionais no sistema único
(CARVALHO, et al., 2016; MOYSÉS, 2012; VIACAVA, et al., 2018). Gurgel Filho et al. (2021), em
pesquisa realizada em 2019, concluem que, após 19 anos de integração da Saúde Bucal nas
equipes de Atenção Básicas, ainda há necessidade do aumento do número de equipes de Saúde
Bucal para que possam ir além das atividades curativas.
Os estados de Sergipe, Alagoas, Paraíba, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte
atingiram o desempenho alto-alto a respeito do indicador de cobertura de primeira consulta
odontológica programática (SOUZA, et al. 2022). Ainda assim, é alto a dificuldade de acesso aos
serviços odontológicos na Atenção Básica, com 45,1% dos usuários apresentando essa
dificuldade e existência de interrupção de continuidade de tratamento para aqueles que
conseguem, devido ao tempo de espera na especialidade (NEVES et al., 2019).
Como uma das diretrizes da PNH, a clínica ampliada integra os trabalhadores da saúde
de diferentes áreas, objetivando o cuidado e tratamento de acordo com cada situação. Organizar
o trabalho confluindo vários saberes, incluindo aqui os saberes dos usuários, fomenta
amplificação da capacidade de avaliação dos profissionais. Assim o cuidado não fica resumido
ao tripé queixa-conduta-medicação (BRASIL, 2013a; BRASIL, 2016; CAMPOS, et al., 2014).
Para realização do acolhimento e atenção, a UBS precisa ter estrutura física e ambiência
adequadas, além de materiais, equipamentos e insumos de acordo (BRASIL, 2013b). Em que
pese haver padrões de referência, diretrizes, metas e protocolos disponíveis, a organização dos
serviços de saúde, a gestão das equipes de saúde da família e a prática dos profissionais
enfrentam problemas ligados à oferta de ações e cuidados incompletos, problemas estruturais
e de provimento de pessoal (FACCHINI et al., 2018).
Ao serem questionados qual fluxo de atendimento rotineiro percorrido pelos usuários
na UBS, a maioria dos profissionais descreve conforme esquema a seguir (Figura 1):
Figura 1 – Fluxo dos usuários de acordo com os profissionais da Unidade Básica de Saúde
Usuário chega na
UBS
Usuário atendido
pela
Recepcionista
Pré-consulta do
usuário com
auxiliar de
enfermagem
Consulta do
usuário com
médico e/ou
enfermeira
Fonte: elaborado pelas autoras.
43
Já os usuários, quando questionados como e por quem são recebidos quando chegam na
unidade, a maioria identifica a Auxiliar de Enfermagem (AE) da eSF como primeiro contato. A
UBS passou muito tempo sem recepcionista. Depois a gestão designou algumas que foram
rotativas e no momento existe uma lotada com portaria municipal pertencente ao quadro
efetivo. Porém, a maioria dos usuários ainda identificam a AE como primeiro contato e isso
pode ser relacionado ao vínculo anterior estabelecido.
Mesmo havendo identificação das diferentes ofertas de cuidado na UBS, conforme Figura
1, visualiza-se uma configuração centrada na consulta, quando se menciona fluxo de
atendimento. Apenas uma profissional relatou que, ao chegar no posto, o usuário é direcionado
de acordo com a necessidade dele.
Então, chega aqui no posto, fala com a recepcionista [...] e de lá ela encaminha
para onde a pessoa quer ir. Tipo, [...] se for para o médico, passa pela auxiliar
[...] para fazer pré-consulta. Se vai para vacina, vai para vacinadora, e assim...
(P10).
No caso de situação aguda, o direcionamento dos usuários relatado pelos
profissionais ocorre da seguinte forma (Figura 2):
Figura 2 – Fluxo dos usuários em situação aguda de acordo com os profissionais da UBS
Usuário em
situação aguda
chega na UBS
Recepcionista
e/ou AE atende o
usuário
Encaminha-se o
usuário para
enfermeira e/ou
médico
Direcionamento
do usuário para
UPA, caso
necessário
Fonte: elaborado pelas autoras.
A situação aguda é considerada apenas em cenário de urgência/emergência pela maioria
dos profissionais. Nas entrevistas, foram identificados depoimentos referindo que o posto de
saúde não é “pronto socorro”, por isso o direcionamento é para a Unidade de Pronto
Atendimento (UPA). Também há relato que indica a falta de materiais e medicamentos para a
abordagem de urgência/emergência na unidade. Este mesmo relato também destaca que antes
da municipalização esse tipo de atendimento era realizado, porém não havia UPA no município.
[...] porque aqui é [...] um posto de saúde, não é um pronto socorro, aí se o
médico não tiver solução, é encaminhado para o hospital, que a gente tem o
transporte para levar... (P1).
Aí é encaminhado para o hospital, porque aqui não tem medicação de urgência.
Se tivesse se resolvia aqui. No tempo que tinha o Sesp, não era municipalizado,
44
a gente tinha no ambulatório medicação de urgência. Também naquela época
não tinha nem hospital, era a gente que fazia tudo né (P11).
Os usuários, quando questionados de como é a experiência em situação não agendada, a
maioria informou que a AE encaixou quando precisou de atendimento no dia. Três referiram
nunca terem precisado e apenas uma referiu ir para a UPA.
Quando eu não estou agendada que eu adoeço de um dia para outro, [...] num
sabia que ia adoecer assim nas carreira, ela pede para eu aguardar um pouco e
fala com o médico e [...] me atende... (U1).
Vou para o hospital [...] se a necessidade tiver que ser naquele momento e aqui
eu não tiver como ser atendida, eu tenho que procurar um hospital (U6).
O acolhimento às urgências de baixa gravidade e complexidade faz parte do escopo de
atribuições dos serviços da APS (RODRIGUES, et al., 2020). Uma forma de avaliação do
acolhimento é se os usuários procuram a UBS quando necessitam de urgência. A realização de
um bom acolhimento possibilita ao usuário o reconhecimento da UBS também como um local
para resolver seus problemas imediatos de saúde (SOUSA et al., 2021).
Situações que servem de embasamento para melhor compreensão da dificuldade na
oferta de serviços, entre outros, são a falta de insumos e de medicamentos imprescindíveis para
o processo de trabalho e as precariedades das unidades de saúde, sobretudo nos municípios de
pequeno porte. Impossibilitar atendimento às situações agudas e referenciar emergências para
outros níveis de atenção representam, dentre outros, obstáculos de acesso do usuário (PIRES
FILHO, et al., 2019; SOUZA, et al., 2022). Portanto, reflexões quanto ao fluxo dos usuários na
unidade devem ser realizadas, avaliando a prática profissional de modo articulado entre os
profissionais e envolvendo os gestores locais.
5. CONSIDERAÇÃO FINAIS
A pesquisa proporcionou a compreensão da perspectiva do acolhimento pelos
profissionais e pelos usuários, importante para servir como ponto de partida para sua avaliação
e efetivação. Tanto os profissionais como os usuários correlacionaram acolhimento ao campo
das relações estabelecidas entre ambos, perpassando entre vínculos, escuta e sensibilidade do
profissional. Não ser bem acolhido foi associado a piora do quadro clínico e maior fragilidade
do usuário, como também a prejuízo de vínculo.
Este estudo possibilitou também a realização da análise da organização do processo de
trabalho e identificação das dificuldades e barreiras de acesso. A despeito de os profissionais
45
perceberem o acolhimento em sua rotina de trabalho, com reconhecimento em todos os
espaços, na pesquisa houve identificação de falhas no acolhimento, com distorções dos modelos
de atenção e obstrução de ações para garantia de acesso. O treinamento dos profissionais é
destacado na literatura para efetivação do acolhimento e a necessidade de preparo dos
profissionais da unidade foi um ponto também observado nesta pesquisa.
O acolhimento é apresentado como ferramenta de qualidade no SUS, podendo
ressignificar a produção de cuidado. Ao acolher o usuário, o profissional reconhece suas
necessidades de saúde, considerando riscos e vulnerabilidades. Por conseguinte, garante o
acesso aos serviços de saúde como direito do usuário e possibilita melhor articulação da APS
com outros níveis de atenção para os casos que necessitam. Portanto, reflexões quanto ao
direcionamento dos usuários na unidade devem ser realizadas, avaliando a prática profissional
de modo articulado entre os profissionais e envolvendo os gestores locais, em uma integração
dos 03 atores para efetivação do acolhimento.
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49
CAPÍTULO III
ESCUTA QUALIFICADA COMO INSTRUMENTO DO
ACOLHIMENTO DO PROCESSO DE TRABALHO DOS
PROFISSIONAIS DE SAÚDE NA ESF
DOI: 10.51859/amplla.csf447.1123-3
Hudson Renan Costa Silva
Josineide Francisco Sampaio
Cristina Camelo de Azevedo
1. INTRODUÇÃO
A Atenção Primária à Saúde (APS) oferece a seus usuários uma diversidade de serviços
em saúde, baseados no problema da comunidade. É a porta de entrada para o acesso à saúde
do Sistema Único de Saúde (SUS), que trabalha a assistência, promoção e prevenção, com a
ajuda de programas e políticas públicas diretamente ligados aos indicadores ideais a serem
alcançados.
Em busca de um SUS humanizado e tendo a Atenção Básica como um espaço privilegiado,
em 2004 o Ministério da Saúde (MS) publicou a Política Nacional de Humanização (PNH),
conhecida como HumanizaSUS, desenvolvida de modo a qualificar o sistema e estabelecer na
prática, suas diretrizes. A PNH se interessa em fortalecer todos os princípios do SUS
(universalidade, integralidade e equidade), que envolve diversos atores — usuários,
trabalhadores e gestores — e procura valorizar esses diferentes sujeitos implicados no
processo de produção de saúde (BRASIL, 2006).
A PNH tem estimulado a comunicação entre gestores, trabalhadores e usuários para
construir processos coletivos de enfrentamento de relações de poder, trabalho e afeto que, na
maioria das vezes, produzem atitudes e práticas desumanizadoras que escondem a autonomia
e a corresponsabilidade dos envolvidos na área de saúde em seu trabalho e dos usuários no
cuidado de si (BRASIL, 2013).
Acolher envolve diversos fatores e agentes. Como valor das práticas de saúde, o
acolhimento é construído de forma coletiva, a partir da análise dos processos de trabalho e tem
como objetivo a construção de relações de confiança, compromisso e vínculo entre as
equipes/serviços, trabalhador/equipes e usuário com sua rede socioafetiva (BRASIL, 2013).
50
É no acolhimento que se fala sobre Escuta Qualificada como um instrumento essencial
para integralidade e resolutividade (DUARTE; MOREIRA; DUARTE, 2017). O acolhimento
pretende humanizar as relações entre trabalhadores e serviços de saúde com seus usuários,
através de escuta qualificada, formação de vínculo e respeito, sempre com uma resposta e com
a responsabilização pela solução do seu problema, mas cabe lembrar que este processo
relacional também recebe inúmeras influências (LOPES; VILAR; MELO, 2015).
Para Duarte, Moreira e Duarte (2017), a escuta qualificada cria a possibilidade de
oferecer uma assistência que transpasse o limite das demandas agendadas de acordo com os
programas do Ministério da Saúde.
Houve um grande avanço quanto à elaboração e a implantação de diversos instrumentos
legais, como leis, portarias, normas, políticas e resoluções que visam determinar a organização
dos atendimentos dispensados à população usuária dos serviços de saúde na Atenção Básica.
No entanto, nota-se que há pouco impacto e inovação referente à metodologia de organização
dos atendimentos, persistindo, em nossas práticas, o modelo hegemônico de atenção à saúde
centralizado no médico, o que se configura como entrave da humanização em saúde (OLIVEIRA
et al., 2008).
Através de um acolhimento com escuta qualificada oferecida pelos trabalhadores da
saúde às necessidades do usuário, é possível garantir o acesso oportuno e integral dos mesmos,
com tecnologias adequadas às suas demandas (BRASIL, 2015). Dessa forma, entender o
processo de implantação dessa ferramenta de acolhimento em um serviço de APS e seus
desafios, são fundamentais para organização dos processos de trabalho nos serviços de saúde.
Definir a base facilitadora da utilização da escuta qualificada relaciona-se a ampliar a
capacidade de intervenção e melhorar a qualidade de atendimento à demanda de usuários.
Entretanto, é preciso responder ao que preconiza as normatizações sobre a adequação
das funções no sentido de não gerar mais danos à saúde do servidor, atender as diretrizes de
programas de humanizações e ir além, visto que, sem acolhimento, escuta e atenção tal situação
pode ser agravada (SANTOS, 2014). É necessário apoderar-se da potencialidade que a escuta
qualificada proporciona, com o objetivo de identificar as demandas de saúde que estão
implícitas no contexto social dos sujeitos, que possibilite intervenções equânimes,
interdisciplinares e intersetoriais (DUARTE; MOREIRA; DUARTE, 2017).
Viana e Lima (2018) relataram a experiência da implantação do acolhimento e seus
instrumentos em uma equipe da Estratégia de Saúde da Família (ESF) de uma Unidade Básica
de Saúde (UBS) de um município do Sul do Brasil, e concluíram que houve maior sensibilidade
51
crítica aos problemas dos usuários. Outro estudo, bibliográfico, realizado por Duarte, Moreira
e Duarte (2017), indicou que é necessário o envolvimento dos gestores, a utilização de
ferramentas já existentes e debatidas que auxiliem na reorientação da execução do modelo
assistencial da atenção básica, bem como o investimento na preparação dos profissionais de
saúde, para que haja evoluções nas políticas públicas de saúde.
2. SABER ESCUTAR
A capacidade de ouvir, falar e ver, permite ao ser humano descobertas de enigmas e sua
evolução diante de problemas de conhecimento de mundo. É através destes recursos que
podemos compreender e ser compreendido, expondo julgamentos, pensamentos e atos. A
palavra escutar vem do latim escutare, refere-se à auscultação, que significa a escuta dos ruídos
de dentro do indivíduo, ou seja, uma troca entre ouvir e receber sons (FERNANDES, 2003).
Trata-se de uma palavra que abrange um amplo conceito, pois implica em sons a um
processo de interpretação. Camillo e Maiorino (2012) explicam que a origem do termo
auscutare faz relação a ouvir de maneira mais próxima, íntima; também é satisfazer e acolher o
que foi dito.
Escutar vai além de ouvir sons, é saber trabalhar toda captação do que se ouve e
interpretá-la. Escutar é oferecer algo a alguém, ou, ainda, receber a interioridade e que apenas
uma interpretação de um ouvido atento e prática nesse âmbito pode acolher (FERNANDES,
2003).
Para Santos et al. (2015), quando nos oferecemos a escutar o outro, ficamos ainda mais
experientes e práticos na arte de entender o que se passa, porque esta ação é tanto de quem
ouve quanto de quem escuta. A dificuldade de escutar pode ser explicada, em parte, pelo fato
de que todo indivíduo tem sua individualidade, suas características, valores, cultura,
significados, razões, projetos e objetivos próprios (CAMILLO; MAIORINO, 2012).
Não adianta apenas escutar “simplesmente”, é importante atentar-se aos detalhes do
que se escuta, e há sempre algo que é expresso em múltiplos fenômenos, produzidos pelos
conceitos do entendimento. Para escutar, é imprescindível ter plena doação, na intenção de se
colocar à disposição por completo para atentar ao que está sendo dito, pois é escutando que
deixamos abertura para o mundo e para os outros (CARDOSO, 2004).
Assim, trata-se de um dizer que nos remete a um olhar ampliado, e não apenas a um
mero falar (CARDOSO, 2004). A escuta e o diálogo são habilidades inatas dos seres humanos,
52
sendo comum a concepção da escuta, como apenas o ouvir, o que pode ser perigoso, levando a
acreditar que a escuta é instintiva (MAYNART et al., 2014).
Para Camillo e Maiorino (2012), as pessoas não estão acostumadas a evitar
interferências e colocações precipitadas, porque estão condicionadas a dar respostas imediatas
e impulsivas. Esses autores afirmam ainda que, diante disso, é preciso evitar nossas ideias préconcebidas. Para que possamos escutar com a finalidade de entender e enriquecer nosso
conhecimento de mundo, é preciso estar atento aos nossos anseios e pensamentos; assim,
ouviríamos o próximo de maneira intensa, conhecendo também o que pensam e sentem
(MORIN, 2003).
A abordagem sobre a ausência de preconceitos e julgamentos é muito frisada pelos
estudiosos desse tema. Julgar o que se ouve é algo subjetivo de interpretar, e ainda que se tenha
técnicas e teoria para qualificação da escuta, toda e qualquer interferência deve ser feita de
maneira assertiva e não pessoal. Para escutar, é necessário aprender a suspender nossos
pressupostos, tentando pontuar os nossos condicionamentos, para que não haja entendimento
de maneira precipitada (CAMILLO; MAIORINO, 2012).
Ouvir traz aprendizado a quem se ouve e até mesmo a quem fala, pois há uma reflexão
subconscientemente e que se faz identificação própria. Morin (2003) reflete que a compreensão
é um conhecimento empático das atitudes, sentimentos e opiniões das pessoas, considerando
que é resultado de uma condição psicológica que permite compreender e sentir o que estão
dizendo.
3. O ACOLHIMENTO
Com o surgimento do SUS, as pessoas puderam ter acesso à saúde de forma integral,
buscando atender às necessidades coletivas e individuais. Sabendo-se que o conceito de doença
é algo amplo e engloba diversos aspectos essenciais para a existência do ser humano, o SUS vem
desenvolvendo diversas estratégias para atender às demandas dos usuários. Assim, surgiram
maneiras inovadoras através de políticas públicas de saúde incluindo, em todas elas, maneiras
acolhedoras de cada usuário.
O acolhimento no trabalho da equipe de saúde ocorre sob a perspectiva da integralidade,
com abordagem ao usuário e na rede de serviços, buscando garantir a resolutividade das ações
de cuidado, na compreensão de que alguns limites e dificuldades encontram soluções no
cotidiano do trabalho (BRASIL, 2006). Nilson (2017) concorda que é impossível haver uma
atenção integral sem o acesso universal e equânime, sem a sensibilidade de maneira isolada ou
53
ampliada. Portanto, a integralidade se torna uma ferramenta que permite o conhecimento das
necessidades de cada indivíduo, e proporciona uma conexão com todo o contexto inserido.
O conceito fornecido pelo Política Nacional de Humanização (PNH) sobre humanização
busca frisar a importância do indivíduo e sua problematização, bem como o envolvimento de
todos os atores que o cercam para a prestação da assistência como produto (BRASIL, 2015).
Portanto, a humanização é a valorização dos usuários, trabalhadores e gestores no processo
de produção de saúde. Valorizar os sujeitos é oportunizar uma maior autonomia e aumentar
sua capacidade de transformar a realidade em que vivem através da responsabilidade
compartilhada, da criação de vínculos solidários, da participação coletiva nos processos de
gestão e de produção de saúde (BRASIL, 2006).
O acolhimento está relacionado à importância dada ao problema dos pacientes, de
maneira qualificada, envolvendo uma troca de informações e confiança que ajuda na solução do
problema e pode também traçar meios de resolução (LOPES; VILAR; MELO, 2015). Assim, é
instituído um vínculo entre o profissional e o usuário, o que permite aumentar e fortalecer a
autonomia e a cidadania, ajudando na desenvoltura de ambos no processo de acolhimento
(SCHIMITH; LIMA, 2004).
No âmbito do SUS, o acolhimento compreende a recepção do usuário nos serviços de
saúde, que se responsabiliza por ele, atrelada à escuta de suas queixas, demandas,
preocupações e anseios. Além de orientar o usuário e sua família, envolve a capacidade de
referenciá-lo quando necessário a outros serviços de saúde para continuidade da assistência
(BRASIL, 2006).
O acolhimento permite a Escuta Qualificada no serviço. Vale frisar que ambos se
diferenciam e nenhum se relaciona com a triagem do serviço, pois a escuta qualificada valoriza
as queixas do usuário e garante o encaminhamento necessário para o caso, o que se pode
traduzir em respostas resolvidas na própria unidade, e o que não for possível resolver,
direcionar de maneira ética e resolutiva, com segurança de acesso ao usuário (NILSON, 2017).
4. A ESCUTA QUALIFICADA
Escutar é um ato essencial para a realização da assistência. É comum que o usuário
deseje ser ouvido em relação às suas queixas e problemas. Geralmente, ao procurar o sistema
de saúde, provavelmente tratará algo ainda não solucionado. Para Santos (2014), quando as
pessoas se sentem ouvidas, elas tendem a ter outras atitudes em relação a si mesmas e aos
outros como uma forma de estimular mudanças necessárias.
54
A escuta no cuidado em saúde permite que os encontros envolvam subjetividade, indo
além dos aspectos clínicos da condição de saúde (MOURA, 2016). Coloca em vista a capacidade
profissional e humana, além de trabalhar o aspecto moral e ético. Deve-se trabalhar a ideia de
ofertas e possibilidades para que o usuário possa decidir conjuntamente e se responsabilizar
com os resultados a serem alcançados (LIRA, 2014).
A Escuta Qualificada tem por objetivo ouvir a queixa do paciente, estabelecendo
confiança para que expresse suas preocupações, angústias, ao mesmo tempo que coloca os
limites necessários (ZINN, 2016). O escutar qualificadamente pode ser definido como a
sensibilidade de estar atento ao que é dito, expresso através de comunicação verbal e/ou não
verbal (SANTOS, 2014). É uma ferramenta que deve ser praticada em todos os encontros nos
serviços de saúde, valorizando todos os discursos, com respeito às indiferenças e em condições
resolutivas (NILSON, 2017).
Com base na PNH, a gestão e os profissionais de saúde devem estar cientes da efetivação
da humanização através da escuta profissional com uma ampla observação e detecção de
soluções. Para Santos (2014), a Escuta Qualificada como um pressuposto da PNH é um caminho
para o acolhimento, na perspectiva de efetivação do SUS, em todos os seus níveis.
A Política Nacional de Atenção Básica define as características do processo de trabalho
das equipes de saúde e estabelece atribuições comuns a todos os profissionais, dentre elas,
participar do acolhimento aos usuários, realizando a Escuta Qualificada das necessidades de
saúde, procedendo a primeira avaliação e identificação das necessidades de intervenções de
cuidado, proporcionando atendimento humanizado, responsabilizando pela continuidade da
atenção e viabilizando o estabelecimento do vínculo (BRASIL, 2011).
A aplicação desta estratégia, proposta por um acolher humanizado, faz com que as
atividades da ESF sejam elaboradas de forma a aproximar o usuário e que os objetivos da
unidade sejam cumpridos, com a atenção necessária a cada caso. Juntamente à elaboração de
ações educativas, a população passa a ter respostas assertivas em relação aos seus problemas
e a ter disponível uma atenção à saúde qualificada (ZINN, 2016).
Neste sentido, a prática da Escuta Qualificada nas ações em serviços de saúde tem se
mostrado como uma importante ferramenta para a mudança do modelo assistencial de saúde
na Atenção Primária em Saúde (APS) em direção a um modelo com fundamentos na
integralidade, universalidade e equidade, princípios essenciais do SUS que, aliados à
resolutividade, são essenciais para a consolidação de um modelo de Atenção Primária forte e
de qualidade.
55
5. MÉTODO
De abordagem qualitativa, caracterizado como pesquisa-ação, o presente estudo foi
desenvolvido
no
decorrer
do
Mestrado
Profissional
em
Saúde
da
Família
(ProfSaúde/FIOCRUZ/Polo UFAL). A escolha desse método de pesquisa relacionou-se à sua
sensibilidade para gerar reflexões, problematizações e compreensões da complexidade da
problemática da saúde, visando ações transformadoras da realidade local, numa espiral cíclica
de reflexão – ação – reflexão dos atores envolvidos no processo que se pretende investigar
(THIOLLENT, 2011).
Com o intuito de analisar a implantação da Escuta Qualificada em uma UBS, foi
necessária a participação ativa dos profissionais de saúde que dela fazem parte e que irão
desenvolver os procedimentos dessa estratégia.
Este estudo foi realizado na Unidade Básica de Saúde Dr. Judá Fernandes Lima, também
conhecida como UBS de Cacimbas, situada no município de Arapiraca – Alagoas. Nesta UBS
atuam três equipes de Saúde da Família. Participaram da pesquisa um total de 21 profissionais,
a saber: 1 enfermeiro, 15 Agentes Comunitários de Saúde, 1 técnico de enfermagem, 2
cirurgiões dentistas e 2 Auxiliares de Saúde Bucal.
Foram estabelecidos como critérios de inclusão dos participantes da pesquisa: a)
profissionais efetivos com, no mínimo, 32 horas semanais de trabalho ativo na Unidade; b)
voluntariamente optarem por participar da pesquisa; c) que prestem serviços diretos aos
usuários. Não foram inclusos os profissionais que estavam afastados do trabalho por licença
médica ou que faziam parte das categorias de grupos de risco para o Covid-19.
Importante comentar sobre o contexto epidemiológico no momento de realização dessa
pesquisa, marcado pela pandemia provocada pelo Sars-Cov-2, vírus responsável pela doença
conhecida como Covid-19. Por se tratar de uma pesquisa que necessita de contato e interação
entre os participantes, sempre foram considerados requisitos preconizados pelas organizações
sanitárias para a sua realização. As restrições impostas pelas autoridades sanitárias e
governamentais geraram a necessidade de adequação do estudo para a proteção de todos os
participantes voluntários. Os profissionais de saúde com fatores de risco de complicação pelo
Covid-19, mesmo os que demonstraram interesses em participar da pesquisa, por questão de
segurança e proteção, foram recomendados a não participar das oficinas.
A coleta foi organizada em 2 etapas. A primeira etapa, por ter sido realizada
presencialmente, foi desdobrada em duas oficinas: a Oficina 1 e Oficina 2, sendo realizadas em
dois momentos, devido ao número de participantes da pesquisa, para atender às medidas de
56
segurança sanitária e de isolamento social vigentes, utilizando-se o mesmo roteiro e estratégia
metodológica. A segunda etapa, constituída pela Oficina 3: Temática Problematizando a
Escuta Qualificada, foi realizada de forma remota (on-line).
Ao todo, realizaram-se 03 oficinas que apresentaram os seguintes objetivos: Analisar a
compreensão dos profissionais sobre o tema Escuta Qualificada (Oficinas 01 e 02); Efetuar a
problematização do tema, identificando os desafios e benefícios para a implantação da Escuta
Qualificada (Oficina 03).
A composição dos participantes por Oficina foi definida por eles próprios e organizadas
da seguinte forma:
•
Oficina 1: formada por 13 Agentes Comunitários de Saúde. Estes profissionais
foram distribuídos por meio de sorteio em 3 grupos, denominados de Grupo
Amarelo (4), Grupo Laranja (4) e Grupo Cinza (5).
•
Oficina 2: formada por 8 profissionais de saúde, sendo 2 cirurgiões-dentistas, 1
enfermeira, 2 auxiliares de saúde bucal, 1 agente comunitário de saúde e 1
técnico de enfermagem, divididos em 2 grupos, denominados de Grupo 1 e Grupo
2, com 4 participantes por grupo.
•
Oficina 3: formada por 16 profissionais de saúde, sendo 1 enfermeiro, 1 cirurgiãodentista, 1 auxiliar de saúde bucal, 14 agentes comunitários de saúde, em grupo
único.
Para as Oficinas 1 e 2, fez-se a pergunta disparadora: “O que você entende sobre Escuta
Qualificada?”, havendo, inicialmente, trabalho individual, com finalidade de estimular a
reflexão, seguido pela organização de pequenos grupos, formados de maneira aleatória, através
de sorteio, os quais foram classificados em grupos com as cores amarelo, laranja e cinza, de
acordo com as cores das tarjetas recebidas, enquanto os grupos formados na Oficina 2 foram
classificados em GRUPO 1 e GRUPO 2.
Os registros ocorridos nos trabalhos individuais foram utilizados para a discussão nos
pequenos grupos, quando ocorreram as conversas e consensos das compreensões que os
participantes chegaram, registrando-se nas tarjetas recebidas as palavras-chave ou frases. Em
seguida, essas tarjetas foram utilizadas para a montagem dos painéis, com a fixação das tarjetas
em parede preparada para esta atividade, na ordem em que os participantes julgaram
adequada, por cada grupo e apresentadas a todos os participantes. Ao final, com mediação do
pesquisador, houve uma reorganização dos painéis apresentados pelos pequenos grupos, para
57
a formação de um painel único, com finalidade de consolidar a compreensão final que aquelas
Oficinas 1 e 2 expressaram.
Para a Oficina 3: Temática Problematizando a Escuta Qualificada, realizada através
do aplicativo Google Meet. O pesquisador retomou com uma exposição dialogada sobre a
síntese do que foi produzido durantes as Oficinas 1 e 2, seguido por discussão com os
participantes do que foi produzido com o que se encontra na literatura. Os participantes foram
estimulados a responderem questões subjetivas, cujas respostas apresentavam-se em
estratégia de nuvem, utilizando a plataforma mentimeter.com, numa interação dinâmica com
todos os participantes. Ao final de cada questão, abria-se para comentários e/ou discussões
sobre as respostas apresentadas.
As questões utilizadas na Oficina 03 foram:
1- Quais os profissionais que, na sua opinião, são os principais responsáveis em realizar
a Escuta Qualificada em seu ambiente de trabalho?
2- Quais os benefícios que você acredita que a implantação da Escuta Qualificada poderá
trazer para os usuários?
3- E para você, profissional de saúde?
4- Quais as possíveis dificuldades que a implantação da Escuta Qualificada poderá trazer
aos profissionais de saúde que estão realizando a escuta?
5- Como você avalia a prática da Escuta Qualificada hoje na sua UBS?
As informações produzidas nessas oficinas no período de outubro de 2020 a abril de
2021 foram analisadas a partir da literatura científica e da Política Nacional de Humanização,
que serviram de guia para o desenvolvimento desse estudo. Sabe-se que a saúde da Atenção
Primária no Brasil é regida pelos princípios e diretrizes do SUS, de modo que não poderíamos
fugir desse sentido.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal
de Alagoas (UFAL), sob CAAE de número 30773420.9.0000.5013.
6. RESULTADOS
Oficina 1: Temática Compreendendo a Escuta Qualificada, parte 1
Após a formação dos grupos Amarelo, Laranja e Cinza, ocorreu a discussão do que cada
participante refletiu durante os trabalhos individuais, registrando em tarjetas as palavras ou
expressões que o grupo considerou pertinente apresentar, como reflexo de sua compreensão
58
sobre o que entenderam sobre a Escuta Qualificada. Em seguida, houve a formação dos painéis
com a utilização dessas tarjetas, sendo apresentados a todos os demais participantes.
A atividade de formação e apresentação do painel foi iniciada pelo Grupo Amarelo, que
apresentou como resposta à pergunta disparadora “O que você compreende sobre Escuta
Qualificada?” as tarjetas: Acolhimento=ACS; Empatia; Desafios; Desabafos; Direcionamento;
Rede de Apoio Interprofissionalismo; Resolutividade; Escutar é mais que ouvir.
O grupo Amarelo trouxe entendimentos que abrangeram o ato de escutar, entendendo
que escutar é mais que ouvir, é ser empático, estar disposto a ouvir desabafos. Fernandes
(2003) traz essa compreensão de que o ato de escutar vai além de ouvir sons, é saber trabalhar
toda captação do que se ouve e interpretá-los. Trouxe também entendimentos de que a Escuta
Qualificada perpassa pelo tema do acolhimento, que, no trabalho da equipe de saúde
(interprofissionalismo), busca garantir a resolutividade das ações de cuidado. Neste momento,
a palavra resolutividade é expressa como a finalidade da Escuta Qualificada, que, quando ocorre
sob a perspectiva da integralidade, abordando o usuário, na compreensão de seus limites e
dificuldades, encontrando soluções no cotidiano do trabalho (BRASIL, 2006).
O grupo, por ser constituído por Agentes Comunitários de Saúde (ACS), reconhece que o
acolhimento começa com o ACS, precisa ter empatia e que são os que escutam os desabafos dos
usuários. Sabendo da demanda de seus usuários, o ACS direciona o paciente para uma
abordagem de equipe interprofissional que, dessa forma, proporcionará a “resolutividade” para
a demanda desse paciente.
O grupo Laranja utilizou as tarjetas: Processo dinâmico de avaliação; Atendimento
humanizado; Otimizar recursos na unidade; Escutar o indivíduo como um todo; Usar uma
linguagem simples; equidade; e Escutar/não ouvir. Esse grupo compreendeu que a Escuta
Qualificada vem de uma visão humanizada, destacando que usar esta significa ter um olhar mais
humanizado, levar mais tranquilidade aos usuários. Todos compartilharam da visão de que
muitos usuários querem e precisam ser ouvidos, sentirem que o profissional deu importância
a eles, mesmo que seus problemas não sejam resolvidos.
O grupo Cinza também trouxe a compreensão de que a Escuta Qualificada tem uma visão
humanizada, utilizando as seguintes tarjetas: Atender por igual; Ser um bom profissional; Se
colocar no lugar do outro; Ouvir com atenção, olhando nos olhos do paciente; Usuário quer ser
ouvido; e, Se colocar disponível. Dado mencionado pelo grupo que merece atenção foi a
preocupação com a condição do profissional de saúde, o seu momento psicológico para realizar
59
o procedimento de Escuta Qualificada. Contexto interessante para gerar uma reflexão de que a
escuta começa com e entre os próprios profissionais de saúde.
Entretanto, é importante comentar as concepções da Escuta Qualificada como o
processo de ouvir com atenção, exemplificados nas tarjetas “ouvir com atenção”, “escutar/não
ouvir” e “usuário quer ser ouvido”. Segundo Burley-Allen (1995), pode levar os profissionais de
saúde a entenderem como apenas o ato de ouvir pode ser perigoso, pois tendem a acreditar que
a escuta é instintiva.
Duarte, Moreira e Duarte (2017) mencionam ainda que muitos profissionais podem não
conseguir diferenciar o Acolhimento da Escuta Qualificada, criando, assim, confusão na
compreensão dos seus conceitos, talvez pelo termo “Acolhimento” apresentar um
entendimento mais amplo, englobando vários conceitos e subjetividades, enquanto a Escuta
Qualificada é mais restrita, sendo considerada uma das várias estratégias do acolhimento.
Após a discussão dos painéis apresentados pelos três grupos, as tarjetas foram
reorganizadas e assumiram outra configuração, em que a palavra “resolutividade” passou a ser
o elemento central da Escuta Qualificada a ser realizada pelo serviço de saúde, tendo à sua volta
04 blocos de tarjetas que indicavam o que seria necessário para se alcançar a resolutividade
(Figura 1).
Figura 1 – Oficina 1: Formação do painel final
Fonte: Pesquisador, 2021.
60
A escolha da resolutividade como ponto a ser alcançado pelo uso da Escuta Qualificada
vai de acordo com o que é preconizado pela Política Nacional de Humanização, considerada um
dos seus parâmetros de recomendações com finalidade de garantir a análise e
encaminhamentos das demandas apresentadas (BRASIL, 2010). Lopes, Vilar e Melo (2015)
reforçam que o acolhimento dos usuários, através da Escuta Qualificada, além de facilitar o
vínculo e o respeito entre usuários e trabalhados da saúde, busca sempre respostas aos
problemas apresentados pelos usuários.
Outro ponto a ser considerado pelos três grupos foi a importância do papel do Agente
Comunitário de Saúde nesse processo, sendo ele responsável pela primeira escuta dos usuários,
mesmo antes da chegada deles à UBS. Devido a esta turma ser majoritariamente constituída por
ACS, as informações e conceitos produzidos nesta Oficina 1 correspondem ao entendimento
dessa categoria profissional a respeito do tema Escuta Qualificada.
Assim, esta Oficina 1: Temática Compreendendo a Escuta Qualificada, parte 1
demonstrou que, para se conseguir a resolutividade, considerada um ponto central da Escuta
Qualificada, é necessário haver empatia, que foi vista como uma preocupação com os usuários,
com a necessidade de se colocar no lugar do outro; haver equidade, vista como atendimento de
forma igualitária a todos os que procuram o serviço de saúde; haver escuta com atenção, em
que foi entendido que, para se alcançar a efetividade da Escuta Qualificada, haveria necessidade
de uso de linguagem simples, ouvindo o usuário como um todo, nas suas demandas, nos seus
desabafos; e participação fundamental do ACS, com bom direcionamento entre os setores, com
interprofissionalismo, em processo dinâmico de interação, otimizando os recursos disponíveis
para se chegar ao objetivo de resolução da situação enfrentada.
Oficina 2: Temática Compreendendo a Escuta Qualificada, parte 2
Utilizando-se do mesmo roteiro e estratégia metodológica aplicados na Oficina 1:
Temática Compreendendo a Escuta Qualificada, parte 1, excetuando-se pela formação dos
pequenos grupos que, neste momento, foram formados em 2 grupos e denominados de Grupo
1 e Grupo 2, definidos pelos próprios participantes, com o objetivo de responder à pergunta
disparadora: “O que você compreende sobre Escuta Qualificada?”.
Após o momento de discussão nos pequenos grupos, o Grupo 1 escolheu os seguintes
termos: integralidade, atenção, escutar ≠ ouvir, empatia, garantir o direito à saúde, essência do
cuidado, direcionamento, instrumento indispensável a efetividade.
61
O Grupo 1 fez apontamentos procurando diferenciar o ouvir do escutar. A escuta no
cuidado em saúde permite que os encontros envolvam subjetividade, indo além dos aspectos
clínicos da condição de saúde (MOURA, 2016). O grupo também fez apontamentos do uso da
Escuta Qualificada, como instrumento no processo de trabalho, que, quando trabalhados com
integralidade e empatia, têm a capacidade de direcionar as demandas apresentadas. É uma
ferramenta que deve ser praticada em todos os encontros nos serviços de saúde, valorizando
todos os discursos, com respeitos às indiferenças e em condições resolutivas (NILSON, 2017).
Para a montagem do painel, os participantes do Grupo 2 escolheram as tarjetas:
Acolher/ouvir, Direcionar, Facilitar o SUS, Organização do serviço e Capacitar os profissionais.
O Grupo 2 apresentou a compreensão de que trabalhar a Escuta Qualificada como a capacidade
de acolher o usuário, seja qual for o problema, e que, para isso, seria necessário a capacitação
do profissional para poder realizá-la, melhorando a oferta e organização do serviço,
direcionando, assim, a demanda.
É importante entender que a Escuta Qualificada funciona como dispositivo da PNH com
arranjo de organização no processo de trabalho, com finalidade de fazer funcionar as práticas
recomendadas pela política, visando mudanças nos modelos de atenção e gestão, como
gerências de “porta aberta”, ouvidorias, grupos focais e pesquisas de satisfação etc. (BRASIL,
2010).
Após a apresentação dos painéis dos Grupos 1 e 2 e a discussão coletiva do material
exposto, as tarjetas foram reorganizadas para a construção do painel final, conforme a Figura
2.
Figura 2 – Oficina 2: Formação do painel final
Fonte: Pesquisador, 2021.
62
A exemplo do que ocorreu na Oficina 1: Temática Compreendendo a Escuta
Qualificada, parte 1, de modo geral, também se observaram compreensões de Escuta
Qualificada como instrumento do acolhimento a ser utilizado pelos profissionais de saúde, com
finalidade de organização do serviço, direcionamento das demandas e aumento da efetividade
do serviço prestado, garantindo a integralidade e o direito à saúde.
O entendimento sobre a Escuta Qualificada como um instrumento que possibilita a
organização do serviço e a efetividade do serviço de saúde pode ser encontrado na PNH. Esta
diz que o Acolhimento com Escuta Qualificada é um dispositivo para a organização do processo
de trabalho com a finalidade de fazer funcionar as práticas recomendadas pela Política, visando
mudanças nos modelos de atenção e gestão, eliminando filas, organizando os atendimentos com
base nos riscos/vulnerabilidade priorizados e buscando adequação da capacidade resolutiva
(BRASIL, 2010).
A Política Nacional de Atenção Básica define as características do processo de trabalho
das equipes de saúde e estabelece atribuições comuns a todos os profissionais, dentre elas,
participar do acolhimento aos usuários, realizando a Escuta Qualificada das necessidades de
saúde, procedendo a primeira avaliação e identificação das necessidades de intervenções de
cuidado, proporcionando atendimento humanizado, se responsabilizando pela continuidade da
atenção e viabilizando o estabelecimento do vínculo (BRASIL, 2011).
Oficina 3: Temática Problematizando a Escuta Qualificada
Após conhecer os entendimentos que os participantes apresentaram nas Oficinas 1:
Temática Compreendendo a Escuta Qualificada, parte 1; e 2: Temática Compreendendo
a Escuta Qualificada, parte 2 sobre o tema proposto, foi desenvolvida a Oficina 3 com a
intenção de aprofundar a reflexão desse instrumento do acolhimento, problematizando-o.
As seguintes perguntas disparadoras foram realizadas aos participantes, de modo
sequencial: Quais os profissionais que, na sua opinião, são os principais responsáveis em
realizar a Escuta Qualificada em seu ambiente de trabalho? Quais os benefícios que você
acredita que a implantação da Escuta Qualificada poderá trazer para os usuários? E para você,
profissional de saúde? Quais as possíveis dificuldades que a implantação da Escuta Qualificada
poderá trazer aos profissionais de saúde que estão realizando a escuta? Como você avalia a
prática da Escuta Qualificada hoje na sua UBS? Quais os possíveis fatores vocês acreditam que
poderiam facilitar a implantação da Escuta Qualificada na UBS?
63
Para cada pergunta apresentada, houve espera de tempo previamente determinada,
possibilitando a todos os profissionais responderem com tranquilidade. As respostas dadas
foram ilustradas através do uso do recurso da formação da nuvem, o que possibilitou a todos
visualizarem os resultados em tempo real em que as respostam eram apresentadas e
discutindo-as ao final desse tempo.
Em relação à opinião dos profissionais de saúde sobre os principais responsáveis pela
realização da Escuta Qualificada onde trabalham, a maioria das respostas apresentadas
considera o ACS como um dos profissionais responsáveis para realizar a Escuta Qualificada,
seguido pelos arquivistas, enfermeiros e técnicos de enfermagem. Os profissionais médicos
foram tidos como os menos responsáveis para realizar esta ação. Houve também indicações de
toda a equipe de saúde. Vale ressaltar que, nesta Oficina 3, a maioria absoluta do grupo de
participantes foram compostos por Agentes Comunitários de Saúde.
Neste momento, é importante destacar que a palavra “arquivo”, utilizada como uma das
respostas pelos participantes, está se referindo aos funcionários que trabalham na
administração da Unidade Básica de Saúde, responsáveis pela marcação da consulta médica,
exames laboratoriais e informações gerais aos usuários que procuram este serviço de saúde.
Por considerarem que estes profissionais sejam, geralmente, os primeiros que os usuários se
comunicam na UBS, os participantes elencaram como um dos responsáveis também para a
realização da Escuta Qualificada no serviço.
Quando se pratica Acolhimento com Escuta Qualificada, Duarte, Moreira e Duarte (2017)
afirmam que não é todo profissional que é capacitado para realizar essa atividade. Para a sua
realização, precisa ter profissional adequado por tempo determinado dentro da Unidade Básica
de Saúde.
Em UBS com mais de uma equipe de saúde, como é o caso do local desse estudo (UBS
formada por 03 equipes de saúde) há a recomendação de que o enfermeiro e/ou técnico sejam
os responsáveis para a realização da linha de frente do acolhimento, atendendo aos usuários
que chegam de todas as áreas ou equipes de saúde, enquanto os médicos ficariam na retaguarda
dos atendimentos direcionados pela equipe que se encontra no acolhimento (BRASIL, 2013).
Esse entendimento distinto apresentado pelos participantes pode indicar o possível entrave em
sua adequada prática da Escuta Qualificada no seu ambiente de trabalho.
Quando se questionou sobre: “Quais os benefícios que a implantação da escuta
qualificada traria para os usuários”, a maioria dos profissionais respondeu que a resolutividade
64
seguida por satisfação foram os maiores benefícios que a Escuta Qualificada traz aos usuários,
seguidos por melhor ambiente para todos.
A resolutividade e a satisfação como os benefícios mais evidentes para os usuários
mostram consonância com o que diz Duarte, Moreira e Duarte (2017), quando esclarecem que
a Escuta Qualificada tem como um dos objetivos principais resolver as necessidades de saúde
dos usuários que procuram o serviço e contribuir para a integralidade. Franco, Bueno e Merhy
(1999) dizem que, no processo de Escuta Qualificada, há possibilidade de identificação de
problemas e intervenções resolutivas para seu enfrentamento.
Dentre alguns benefícios encontrados, destacam-se a acessibilidade, a otimização da
resolutividade da assistência, a redução da fragmentação dos atendimentos e satisfação dos
usuários, este considerado o principal benefício (SOARES, 2011), além de apresentar potencial
terapêutico, contribuindo para a atenção centrada na pessoa (MAYNART et al., 2014).
Tratando-se dos benefícios esperados para os profissionais de saúde, os participantes
responderam que a satisfação é o maior benefício para o profissional, seguidos por motivação
e dever comprido. A palavra resolutividade foi também apresentada, porém numa significância
para este grupo menor que a apresentada para os usuários.
No mesmo estudo citado anteriormente, Soares (2011) relata que, dentre outros
benefícios trazidos para os profissionais de saúde, destaca-se a valorização do trabalhar, a
criação do vínculo e a responsabilização com o usuário. Contudo, adverte que, para isso, é
necessário interesse, garantir qualificação dos profissionais de saúde, e, antes de acolher, ser
acolhido, cuidar de si, para que se torne capaz de cuidar do próximo.
Sobre os fatores que poderiam dificultar a implantação do acolhimento com Escuta
Qualificada no serviço onde os profissionais de saúde atuam, as respostas evidenciaram que há
falta de capacitação e diálogo, união e disposição dos profissionais de saúde. Outras respostas
apresentadas foram: RH insuficiente, impaciência da equipe e aceitação de todos.
Considerando que o profissional de saúde é um sujeito ativo e protagonista das ações de
saúde ofertadas na sua Unidade Básica de Saúde onde atua (BRASIL, 2006), realizar
capacitações com compartilhamento de informações e estímulo às reflexões das dificuldades
em seu processo de trabalho também tende a auxiliar no aprimoramento dos serviços
prestados e na mudança do processo de trabalho. No estudo realizado por Raimundo (2011),
mostrou-se que as capacitações são ferramentas imprescindíveis para o desenvolvimento das
Escutas Qualificadas como instrumento de ações de acolhimento sistematizadas.
65
Duarte, Moreira e Duarte (2017) relataram que as dificuldades para a implantação de
uma Escuta Qualificada eficiente são: ambiência inadequada, indefinição do profissional que
fará a escuta, dentre outros. Trabalhar a Escuta Qualificada exige local, profissional e hora
definidas.
De forma semelhante, Raimundo e Cadete (2012) discutem que, no processo de
realização da Escuta Qualificada, os atores responsáveis devem compreender que a equipe
precisa ter em mente que as soluções encontradas não competem somente a ela, mas são de
responsabilidade de toda a instituição.
Apesar de a Escuta Qualificada ser realizada por profissional determinado e capacitado,
há a necessidade do trabalho conjunto de todos os outros profissionais da Unidade Básica de
Saúde, para que o direcionamento e resolutividade da demanda do usuário seja efetivamente
alcançada. A falta de união e diálogo entre os atores da saúde, assim como a não aceitação de
todos da instituição, foram fatores dificultadores apontados nessa pesquisa no processo de
implantação.
A motivação demonstrada pelos profissionais da saúde em buscar qualificação é passo
fundamental para se conseguir um aprendizado significativo, levando a uma construção e
reconstrução de saberes (FREITAS; CUNHA, 2016) e, consequentemente, uma mudança em sua
atuação e interação com os usuários e com os outros profissionais de saúde, no seu ambiente
de trabalho, com a aquisição de novos conhecimentos e o aprendizado de novas formas de
intervir na realidade, para efetivar a implantação pretendida, no caso, a implantação da Escuta
Qualificada (MELO; MAIA FILHO; CHAVES, 2016).
Por fim, seguiu-se com o questionamento sobre a avaliação na prática da Escuta
Qualificada na Unidade Básica de Saúde onde atua no momento. Observou-se, neste momento,
que os participantes demonstraram opiniões diversificadas, até mesmo opiniões opostas entre
si, não havendo, portanto, um consenso.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A identificação conjunta de uma compreensão sobre a Escuta Qualificada evidenciou
para os participantes que, apesar de cognitivamente apresentarem uma boa compreensão da
Escuta Qualificada, suas dificuldades e benefícios evidenciaram que ainda não conseguem pôr
em prática, de maneira organizada e eficaz, essa ferramenta nos seus ambientes de trabalho. A
necessidade de capacitações mostrou-se necessária aos profissionais de saúde, qualificando-os
para a prática da Escuta Qualificada.
66
É preciso compromisso de todos os profissionais de saúde para que se consiga trabalhar
numa incorporação de um novo instrumento em seu processo de trabalho, com motivação,
união e diálogo frequentes entre si.
Estimular a criticidade dos profissionais sobre a realidade que vivenciam, as ações que
desenvolvem, buscando encontrar formas potenciais de exercitar que a Escuta Qualificada
possua, também reconhecendo as dificuldades para tudo isso acontecer, são peças
fundamentais para transformar em ações aquilo que está escrito nas orientações, diretrizes e
normas das políticas de saúde.
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69
CAPÍTULO IV
MORTALIDADE INFANTIL POR CAUSAS EVITÁVEIS EM
RAÇA/COR NEGRA NO NORDESTE BRASILEIRO: TENDÊNCIA
TEMPORAL 2012-2021
Doi: 10.51859/amplla.csf447.1123-4
Adson Yvens de Holanda Agostinho
Isa Carolina Gomes Félix
Maryanne Ferreira Soares
Vanessa Almeida do Nascimento
Michael Ferreira Machado
1. INTRODUÇÃO
Face ao fenômeno da mortalidade infantil, apreende-se que as iniquidades em saúde e
as vulnerabilidades sociais são importantes elementos na compreensão desse fenômeno.
Acerca dos indicadores socioeconômicos, a região Nordeste apresenta disparidades,
persistindo com uma taxa de mortalidade infantil de 19,1 mil por nascidos vivos, acima da
média nacional (16 a cada mil) (BRASIL, 2021).
A população negra, compreendida como pretos e pardos, engloba uma expressiva
porção dos brasileiros (47% pardos e 9,1% pretos). A fim de analisar a mortalidade segundo
raça/cor, estudos identificam que recém-nascidos de origem preta ou parda têm um quarto de
chance a mais de falecer antes do final do primeiro ano de vida (CALDAS et al., 2017; UNESCO,
2011). Esse fato relaciona-se ao mito da Democracia Racial, na tentativa de encobrir as
diferenças socioeconômicas atribuídas ao histórico de escravização dos povos africano e
indígena (PINTO, 2014). Nessa conjuntura, Almeida (2018, p. 82) afirma:
[...] a necessidade de unificação nacional e formação de mercado interno, em
virtude do processo de industrialização, dá origem a toda uma dinâmica
institucional para produção do discurso da democracia racial, em que a
desigualdade racial - que se reflete no plano econômico - é transformada em
diversidade cultural e, portanto, tornada parte da paisagem nacional.
No âmbito do Movimento de Reforma Sanitária durante as décadas de 1980 a 1990, os
primeiros modelos de Atenção à Saúde Materno-Infantil surgiram na década de 1970, visando
70
aprimorar os indicadores em saúde reprodutiva da mulher e de saúde da criança. Os
desdobramentos desse objetivo foram estruturados a partir da institucionalização do Programa
de Ação Integral à Saúde da Mulher (PAISM) e do Programa Nacional de Humanização do PréNatal e Nascimento (PNHPN) (GENOVESI et al., 2020).
Ainda no campo das políticas de saúde, a Atenção Primária à Saúde (APS) destaca-se na
realização de pré-natal e estratificação de risco das gestantes mediante a Rede de Atenção
Materna e Infantil (Rami), divulgada pelo Ministério da Saúde em 2022, em substituição à Rede
Cegonha (BRASIL, 2022). Essa ação só se tornou factível a partir da Estratégia Saúde da Família
(ESF), criada em 1994 e tornada nacional em 1998, como ferramenta de organização da APS
(PASCHE et al., 2021), e do fortalecimento de programas de redistribuição de renda, como o
Programa Bolsa Família, sendo determinantes na ampliação da cobertura de saúde da família,
melhoria de indicadores sociais e consequente redução de óbitos infantis (LOURENÇO et al.,
2014).
Assim, são evidenciados o pré-natal, a assistência ao parto e ao puerpério, a
humanização do parto e nascimento, visando promover dignidade em saúde às mulheres e
recém-nascidos. Logo, é objetivo deste estudo analisar as tendências de mortalidade infantil,
raça/cor negra, por causas evitáveis no Nordeste brasileiro entre os anos de 2012 e 2021.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A mortalidade infantil é definida como a quantidade de óbitos de nascidos vivos antes
do primeiro ano de vida. Portanto, é um indicador relevante sobre a qualidade de vida infantil,
efetividade de políticas públicas e desenvolvimento de um país (BRASIL, 2021).
As causas evitáveis são “eventos-sentinelas”, pois poderiam ser evitados caso houvesse
adequado funcionamento da rede de atenção à saúde ou tecnologia médica adequada. Logo, a
Organização das Nações Unidas estabelece a redução da mortalidade infantil para, no máximo,
cinco por mil nascidos vivos até 2030 como uma prioridade incluída nos Objetivos do
Desenvolvimento do Milênio (ODM) (ONU, 2013).
Para enfrentamento eficaz da problemática, a Classificação Estatística Internacional de
Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, 11ª revisão (CID 11) organiza por causa básica do
óbito em mortes evitáveis reduzíveis por 1.1 ações de imunoprevenção; 1.2 adequada atenção
à mulher na gestação e parto e ao recém-nascido; 1.2.1 adequada atenção à mulher na gestação;
1.2.2 adequada atenção à mulher no parto; 1.2.3 adequada atenção ao recém-nascido; 1.3 ações
71
adequadas de diagnóstico e tratamento; 1.4 ações adequadas de promoção à saúde, vinculadas
a ações adequadas de atenção à saúde (OMS, 2019).
O Ministério da Saúde preconiza a realização de, no mínimo, uma consulta no primeiro
trimestre de idade gestacional, duas consultas no segundo trimestre e três consultas no terceiro
trimestre (BRASIL, 2011). Evidencia-se, por estudos observacionais, que o número insuficiente
de consultas pré-natal é fator de risco para a mortalidade tanto fetal como neonatal, pois
impossibilita ou atrasa intervenções no momento apropriado da gravidez, podendo ocasionar
complicações e contribuir para que os desfechos perinatal e materno sejam desfavoráveis
(BALSELLS et al., 2018) (CUNHA et al., 2019).
Os desfechos perinatais são influenciados por macrodeterminantes, dentre os quais
temos o nível sócio-econômico-cultural, por determinantes intermediários, como o estado
nutricional da gestante durante a gravidez, pré-natal e parto adequados. Além destes,
enquadram-se os determinantes individuais, como possíveis complicações perinatais (BRITO
et al., 2022).
No Brasil, a identificação de raça/cor é realizada por meio da autoafirmação de
características étnico-culturais e categorizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) em branca, preta, parda, amarela e indígena. Neste estudo, considera-se
negra a população preta e parda, conforme previsto pelo IBGE (IBGE, 2022).
O Nordeste é a região brasileira com maior concentração de pessoas autodeclaradas
pretas (11,4%) e a terceira maior região de proporção de pardos (63,1%), segundo dados da
série histórica de 2012 a 2021 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua
(PNADC) — Características Gerais dos Moradores, do IBGE (IBGE, 2022).
Segundo o estudo “Nascer no Brasil”, o Nordeste é a segunda região com maior taxa de
inadequação do número de consultas pré-natal (34,4%), estando atrás apenas da região Norte
(42,7%). Contudo, percebe-se que o Nordeste lidera a taxa de peregrinação das mulheres no
momento da admissão para o parto (33,1%) em decorrência da inadequação de vínculo a uma
maternidade de referência, aumentando os riscos de complicação para a mulher e o neonato
(VIELLAS et al., 2014).
3. MÉTODO
Trata-se de um estudo observacional analítico retrospectivo, de abordagem
quantitativa, no qual foram analisados os dados referentes à mortalidade infantil por causas
evitáveis na população negra entre os estados do Nordeste e o Brasil no período de 2012 a 2021.
72
As informações foram obtidas por meio de dados secundários fornecidos pelo Sistema de
Informação de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde (MS).
A coleta de dados foi realizada nos dias 27 e 28 novembro de 2021, com tabulação em
planilhas eletrônicas do programa Microsoft Excel 2016. A população deste estudo é composta
por nascidos vivos da raça/cor negra que morreram < 01 ano de idade completos, totalizando
de 544.017 notificações junto ao SIM. O tratamento analítico dos dados foi realizado pelo
software Joinpoint Regression Program, versão 4.5.0.1, desenvolvido pelo National Cancer
Institute (NCI). Expecta-se a análise de tendências temporais dos coeficientes de mortalidade
infantil por causas evitáveis. A descrição da tendência foi realizada a partir de Variações
Percentuais Anuais (APC – Annual Percentage Change) e Variação Percentual Anual Média
(AAPC – Average Annual Percentage Change), considerando 95% como intervalo de confiança
(IC95%) e significância de 5% (valor de p). É considerado crescimento significativo quando APC
ou AAPC > 0 e p < 0,05; é redução significativa quando APC ou AAPC < 0 e 0 < 0,05; é tendência
estacionária quando APC ou AAPC = 0 e/ou p > 0,05.
Este estudo não necessitou de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme as
Resoluções nº 466/12, nº 522/16 e nº580/18 do Conselho Nacional de Saúde, por analisar
dados secundários de domínio público dos sistemas de informação em saúde, sendo esta uma
das limitações deste estudo.
4. RESULTADOS
A mortalidade infantil por causas evitáveis compreende as mortes daqueles nascidos
vivos até o 365º dia de vida. A evitabilidade da morte nessa faixa etária está associada à atenção
à gestação, ao parto, ao feto e ao recém-nascido. No período analisado, de 2012 a 2021, foram
notificados junto ao Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) um total de 544.017 mortes
infantis no Brasil, sendo destas 2,35% (n=12.805) por pretos e 49,61% (n=269.908) por
pardos. A região Nordeste foi responsável por quase metade do total de mortes nacionais,
correspondendo a 36,75% (n=199.923), sendo destes 1,84% (n=3.685) por pretos e 67,33%
(n=134.607) pardos.
73
Tabela 1 – Tendências das porcentagens de mortalidade infantil por causas evitáveis na região
Nordeste entre 2012 e 2021
Mortalidade por Causas Evitáveis
Região
Raça/Cor
Período
2012-2017
Preta
2017-2021
Brasil
Parda
2012-2021
2012-2015
Preta
2015-2021
Nordeste
2012-2016
Parda
2016-2021
2012-2016
Preta
Alagoas
2016-2021
Parda
2012-2021
2012-2015
Preta
2015-2021
Bahia
2012-2016
Parda
2016-2021
Preta
2012-2021
Parda
2012-2021
Ceará
2012-2016
Preta
2016-2021
Maranhão
APC (IC95%)
AAPC (IC95%)
Tendência
-1.3 (-4.6 a 2.1)
p=0.373
8.1 (2.7 a 13.8)
p=0.012
2.8 (0.5 a 5.1)
p=0.018
Crescente
1.1 (-1.3
p=0.312
1.1 (-1.3 a 3.6)
p=0.312
Estacionária
1.4 (-3.5 a 6.6)
p=0.575
Estacionária
1.7 (1.6 a 1.9)
p<0.001
Crescente
-0.8 (-16.0 a 17.2)
p=0.929
Estacionária
1.4 (0.4 a 2.4)
p=0.012
Crescente
5.5 (-1.7 a 13.2)
p=0.135
Estacionária
2.5 (1.5 a 3.6)
p=0.001
Crescente
-5.4 (-13.2 a 3.1)
p=0.177
Estacionária
2.6 (1.5 a 3.8)
p=0.001
Crescente
-11.4 (-22.5 a 1.4)
p=0.069
13.5 (3.8 a 24.2)
p=0.015
1.7 (-4.2 a 7.9)
p=0.576
Estacionária
a
3.6)
-14.6 (-27.9 a 1.1)
p=0.061
10.6 (5.1 a 16.3)
p=0.004
3.4(2.9
a
3.8)
p<0.001
0.5 (0.2 a 0.7)
p=0.006
-33.2 (-54.3 a -2.4)
p=0,041
36.2 (6.1 a 74.9)
p=0.024
1.4 (0.4 a 2.4)
p=0.012
-10.1 (-28.7 a 13.4)
p=0.291
14.3 (6.0 a 23.3)
p=0.006
6.0 (3.6 a 8.5)
p=0.001
-0.1 (-1.7 a 1.4)
p=0.823
-5.4 (-13.2 a 3.1)
p=0.177
2.6 (1.5
p=0.001
a
Parda
2012-2021
-0.1 (-1.0
p=0.863
0.9)
-0.1 (-1.0 a 0.9)
p=0.863
Estacionária
Preta
2012-2021
4.5 (-7.4 a 18.1)
p=0.424
4.5 (-7.4 a 18.1)
p=0.424
Estacionária
Parda
2012-2021
0.1 (-0.4
p=0.745
0.1 (-0.4 a 0.5)
p=0.745
Estacionária
Paraíba
a
3.8)
a
0.5)
74
Mortalidade por Causas Evitáveis
Região
Raça/Cor
Período
2012-2014
Preta
2014-2021
Pernambuco
Parda
2012-2021
Preta
2012-2021
Piauí
2012-2016
Parda
2016-2021
2012-2018
Preta
2018-2021
Rio Grande do
Norte
APC (IC95%)
AAPC (IC95%)
Tendência
-27.7 (-62.0 a 37.4)
p=0.251
2.2 (-3.1 a 7.8)
p=0.344
-5.4 (-15.5 a 6.0)
p=0.341
Estacionária
1.0 (0.7
p<0.001
1.4)
1.0 (0.7 a 1.4)
p<0.001
Crescente
4.0 (-7.1 a 16.5)
p=0.442
4.7 (2.7 a 6.7)
p=0.002
-2.1 (-3.3 a -0.8)
p=0.008
-25.6 (-33.7 a -16.5)
p=0.001
40.2 (-0.6 a 97.8)
p=0.053
4.0 (-7.1 a 16.5)
p=0.442
Estacionária
0.9 (0.1 a 1.7)
p=0.038
Crescente
-8.1 (-17.3 a 2.1)
p=0.115
Estacionária
a
Parda
2012-2021
4.5 (3.6
p<0.001
a
5.4)
4.5 (3.6 a 5.4)
p<0.001
Crescente
Preta
2012-2021
-5.0 (-10.4 a 0.8)
p=0.080
-5.0 (-10.4 a 0.8)
p=0.080
Estacionária
Parda
2012-2021
4.1 (2.3
p=0.001
4.1 (2.3 a 5.9)
p=0.001
Crescente
Sergipe
a
5.9)
Nota: APC (Annual Percentage Change – Variações percentuais anuais) e AAPC (Average Annual
Percentage Change – Variação percentual anual média) com IC (Intervalo de Confiança) 95%. N = 12.805
(pretos) 269.908 (pardos).
Fonte: Elaborada pelos autores.
Durante o período analisado, o Brasil apresentou aumento da tendência de mortalidade
da população preta (AAPC 2.8 (0.5 a 5.1) p=0.018), sendo notório entre os anos de 2017 e 2021
(APC 8.1 (2.7 a 13.8) p=0.012). Por outro lado, os pardos não apresentaram dados concretos
quanto a sua tendência, apesar do quantitativo absoluto ser elevado. Contudo, em estudo
ecológico de séries temporais da taxa de mortalidade por causas evitáveis e não evitáveis,
utilizando como bases uma análise entre os anos de 2000 e 2013, foi notado um declínio dos
índices de mortalidade infantil brasileiros (MALTA, 2019). Sendo assim, busca-se entender as
disparidades registradas que podem ser oriundas não só da diferença metodológica, mas
também da abordagem realizada, já que a pesquisa em torno do grupo negro é escassa e, assim,
75
sua análise individualizada escancara as condições nefastas que enfrentam, as quais são
esquecidas por pesquisas absolutas.
Assim como, no Nordeste brasileiro, a mortalidade da população parda foi maior que a
preta, aquela manteve uma tendência crescente (AAPC 1.7 (1.6 a 1.9) p<0.001), estando a
população preta em tendência estacionária. No entanto, apesar dos esforços já realizados em
torno da diminuição desses índices, além de outros estudos mostrarem tendências de declínio
em períodos diferentes, a exemplo de Carlos Souza entre os anos de 2001 e 2015 (SOUZA,
2021).
Em avaliação de preditivos de óbitos fetais frente a nascidos vivos, há ainda uma
progressão de indicadores de risco para mortalidade infantil, sendo esses, a saber: baixo peso
ao nascer; anóxia, prematuridade; cesariana; ausência de pré-natal; mãe adolescente;
analfabetismo e nenhum filho nascido vivo e morto. O aumento desses índices implica não só
em complicações pós-natais, mas também na não sobrevida desse recém-nascido, ou seja,
persistem um conjunto de fatores associados a problemas na gestação, atenção ao parto e a mãe
(VANDERLEI, 2010; VIDAL, 2005).
De forma diversa ao contexto nacional, o Nordeste não apresenta, dentre seus estados,
algum que revele tendências de aumento ou diminuição dos índices de mortalidade infantil dos
pretos. Contudo, o fato de não se traçar uma linha de tendência não implica que os dados são
menos importantes. De acordo com o último Censo de 2010 publicado pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE), a população preta e indígena foram as que registraram os
maiores índices de mortalidade infantil, porém esses dados não apresentaram a mesma
distribuição regional, estando a população preta mais sujeita em não sobreviver durante seu
primeiro ano de vida nas regiões Norte e Nordeste (CALDAS, 2017).
Quanto à parcela parda da amostra, apenas dois estados não demonstraram crescimento
de seus índices, estando, pois, estacionárias, sendo esses Maranhão e Paraíba. Por outro lado, o
Rio Grande do Norte (AAPC 4.5 (3.6 a 5.4) p<0.001) teve a maior tendência de crescimento dos
índices do período estudado, enquanto o Piauí (AAPC 4.1 (2.3 a 5.9) p=0.001) obteve o menor
crescimento.
Apesar de haver estudos com base na mortalidade neonatal precoce e tardia no estado
do Rio Grande do Norte que evidenciam uma queda da TMI (SOUZA, 2019), há não só uma
escassez na quantidade de pesquisas quanto à mortalidade infantil dessa região, mas também
quanto ao recorte de raça/cor negra. Estudos em torno dessa área são imprescindíveis para
76
reversão da tendência evidenciada e consequente melhora da qualidade de vida de sua
população.
Segundo dados do IBGE, o estado do Piauí apresenta um dos menores Índices de
Desenvolvimento Humano, fato que está estreitamente associado com os indicadores de
qualidade de vida do estado (IBGE, 2010). Ademais, segundo o IBGE, a Taxa de Mortalidade
Infantil (TMI) para o estado em 2016, foi de 19,1/1000 nascidos vivos, enquanto a do Brasil foi
de 13,3/1000 nascidos vivos no mesmo período (IBGE, 2020). Atrelado a isso, percebe-se que,
apesar de o estado representar um baixo crescimento de seus índices frente aos demais estados
nordestinos, isso não se revela como um fator de melhora, mas permanece como um sinal de
alerta, evidenciando um elo crítico da saúde pública e de assistência à gestação, parto, recémnascido e mulher durante a gestação (COSTA, 2020).
Um dos fatores que auxilia a entender as disparidades entre o presente estudo e os
demais repousa sobre as mudanças de classificação de raça/cor adotadas pelo Sistema de
Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC). Após o ano de 2011, a classificação da raça/cor dos
recém-nascidos foi pautada com base na raça/cor da mãe, enquanto o sistema de classificação
dos óbitos infantis do Sistema de Informação sobre Mortalidade não sofreu alterações.
Em estudo descritivo realizado por Caldas, percebeu-se que, após as mudanças, houve
uma diminuição das taxas de mortalidade infantil (TMI) em todas as etnias (CALDAS, 2022).
Por conseguinte, uma vez que o cálculo da TMI implica na ração entre o total de óbitos pela
quantidade de nascidos vivos, e, apesar dos dados utilizados sofrerem problemas de notificação
como a própria subnotificação, a forma como as informações são dispostas escancara não só as
iniquidades em saúde, mas também a violação de direitos de pretos, pardos e indígenas (CHOR,
2005).
Com o surgimento do novo século, houve diversos avanços tanto nas políticas públicas
que visam o fornecimento de um serviço de saúde mais amplo e eficaz, quanto melhorias nos
demais determinantes sociais, como moradia, educação, renda e saneamento (FRIAS, 2013;
SHEI, 2013). Contudo, seja pela implementação do Programa de Ação Integral à Saúde da
Mulher, do Programa Nacional de Humanização do Pré-Natal e Nascimento, da ampliação da
Atenção Primária à Saúde por meio da Rede de Atenção Materna e Infantil, ainda se observam
fragilidades que revelam a ineficiência em fazer frente a questões que poderiam ser preveníveis
total ou parcialmente por meio de ações de serviços de saúde mais efetivos.
77
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho conta com uma análise não só sob a perspectiva da mortalidade
infantil, mas também da raça/cor negra que, por muitos, passa despercebida e esconde um
abissal de iniquidades e lesão de direitos inerentes a todo e qualquer cidadão. Apesar dos
esforços governamentais em refrear esse avanço, são necessárias medidas mais efetivas e a
garantia de que o que está sendo proposto chegue a todos, uma vez que, sendo o Nordeste uma
região de grandes dimensões, é necessário garantir que todos tenham acesso à saúde pública,
gratuita e de qualidade.
Percebe-se que a forma como as variáveis são obtidas interfere na forma de visualização
da realidade cotidiana, logo, pelo fato de ser fruto de dados secundários, há a possibilidade de
esses conter erros de preenchimento das notificações, assim como subnotificação. Ademais, se
faz necessário mais estudos nesse campo como forma de tornar possível a tomada de decisões
com base em conhecimentos sólidos.
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80
CAPÍTULO V
CARTILHA SOBRE PLANO DE PARTO PARA GESTANTES EM
UMA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA
DOI: 10.51859/amplla.csf447.1123-5
Mara Gabriela Brasileiro de Lucena Ferreira
Divanise Suruagy Correia
Maria das Graças Monte Mello Taveira
1. INTRODUÇÃO
O Produto Educacional (PE) se configura como o resultado de uma atividade de pesquisa.
Assim, em sua produção, apresenta características, especificações e técnicas que permitem a
interação com o público-alvo. Dentre as diferentes tipologias de produtos educacionais, de
acordo com as categorias apresentadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior (Capes), selecionamos o material didático como opção de PE em formato de
folder. Elaboramos um plano de parto que possibilita a relação estabelecida entre a mulher
grávida e os profissionais de saúde que lhe darão suporte ao longo de todo o processo do parto
e nascimento, sobretudo nos aspectos sentimentais e comportamentais que tais gestantes
consideram prioritários ― seja para elas mesmas ou para o bebê em plena formação, em um
conjunto complexo de percepções (PICCININI et al., 2012).
O uso de um plano de parto é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS),
pois este é um documento que aborda as preferências e desejos individuais de parto e
nascimento por parte da gestante. Assim, é discutido com um profissional de saúde para facilitar
os cuidados profissionais em saúde oferecidos à gestante.
É sabido que expectativas distanciadas da realidade podem provocar forte insatisfação
com a experiência do parto, e nesse sentido, o plano também tem potencial amenizador, pois seu
uso clínico se torna um instrumento positivo de influência da construção de desfechos
favoráveis para os processos materno-fetais (MEDEIROS et al., 2019). Por esse motivo, convém
divulgar e incentivar a apropriação desse recurso sempre que conveniente para as gestantes
usuárias dos serviços de saúde. Nesse contexto, o papel do enfermeiro é fundamental para
garantir assistência integral e de qualidade para a gestante, justamente na oferta de
conhecimentos e orientações úteis para torná-las protagonistas cientes e participativas ao longo
81
de todo processo (BRANCO et al., 2022). Busca-se, portanto, limar a passividade danosa de um
comportamento materno sem informações nem esclarecimentos acerca de todos os
acontecimentos biológicos, sociais e comportamentais inerentes ao fenômeno da gestação
humana.
Até agora, os estudos sobre planos de parto relataram resultados mistos, fortalecendo a
necessidade de uma investigação mais atualizada e aprofundada sobre a situação dessa
ferramenta, enfatizando sua capacidade e suas potenciais utilidades. Alguns relatam que as
mulheres com plano de parto têm uma experiência melhorada e estão mais satisfeitas,
possivelmente correlacionando-se com o número de solicitações atendidas de plano de parto.
OBJETIVOS
OBJETIVO GERAL
Elaborar um plano de parto como instrumento de apoio e empoderamento às gestantes
para que possam expressar desejos pessoais e expectativas sobre seu parto de modo a atender
suas necessidades particulares.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
•
Investigar as possibilidades de acesso das gestantes em uma equipe de Estratégia
de Saúde da Família da zona rural de Atalaia/AL, Brasil, a conhecimentos
obstetrícios e gestacionais de interesse para um parto tranquilo e seguro;
•
Analisar as melhores formas de confeccionar um Produto Educacional que possa
ser simultaneamente simples, acessível, e informativo para as gestantes
atendidas em uma Estratégia Saúde da Família (ESF) da zona rural de Atalaia/AL,
Brasil.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O objetivo maior de qualquer atividade para todas as equipes de saúde deve ser o
benefício de seus usuários, especialmente quando se trata de pessoas em vulnerabilidade social
e exclusivamente dependentes dos sistemas públicos para serem atendidas e acompanhadas em
todas as suas demandas de saúde. Algo que torna a situação ainda mais complexa por incluir
determinantes sociais e até epidemiológicos (MACHADO; LIMA; BAPTISTA, 2011). É nesse
sentido que produtos e ferramentas auxiliadoras, como o plano de parto, devem ter sua
aplicação cada vez mais incentivada e estimulada sempre que possível e pertinente.
82
As mulheres têm um destaque peculiar em seus atendimentos, especialmente quando na
condição de gestante, visto que ,nesse período de suas vidas, complexos acontecimentos
biológicos e metabólicos são intensificados, além do fato de passarem por muitos episódios
reflexivos, pensamentos, sentimentos e planejamentos pessoais e coletivos sobre suas futuras
vidas e responsabilidades, bem como nas expressões de sua própria sexualidade e na do casal
(FIAMONCINI; DOS REIS, 2018). É também nesse período que a possibilidade de episódios de
ansiedade e depressão pode adquirir maior intensidade, especialmente se existirem fatores que
funcionem como gatilhos para tais situações. Isso mostra que os apoios familiar e profissional
são fundamentais para amparar essas mulheres e garantir uma gestação segura tanto para ela
quanto para o bebê (MARQUES; SOUZA; VERÍSSIMO, 2019).
Nesse contexto, mulheres com plano de parto sentem-se mais seguras durante o trabalho
de parto, têm mais partos vaginais e um processo de parto mais fisiológico, que seriam por elas
considerados mais naturais e seguros. Outros estudos não encontraram melhora na experiência
de parto em mulheres com plano de parto ou constataram que as mulheres com plano de parto
estão menos satisfeitas. Ainda assim, é possível afirmar que a construção do plano possui o
potencial de redução dos medos, anseios e dúvidas das gestantes, além de permitir sua
participação ativa no parto e na eventual identificação de violência obstétrica (DE OLIVEIRA;DE
REZENDE, [s.d.]). É importante salientar que mesmo o plano de parto se mostra uma potente
ferramenta de empoderamento no combate aos casos de violência obstétrica. Há ainda uma
notável resistência em sua utilização e no seu aproveitamento nos sistemas de saúde (MORAES;
YOSHIOKA; BONINI, 2020), tornando necessárias medidas que resolvam definitivamente a
questão.
Embora os planos de parto tenham sido estudados em muitos países e sejam
recomendados pela OMS, seu uso real no Brasil está entre as técnicas que devem ser
estimuladas durante a gestação (MEDEIROS et al. 2019). Ademais, a prevenção e o
enfrentamento da violência obstétrica devem estar entre as prioridades das gestões municipais,
independentemente dos níveis da rede de atenção básica, com respeito à integridade, à
autonomia e às singularidades das pessoas gestantes (FERREIRA, 2022). Sob o olhar dos
próprios obstetras, há uma subjetividade significativa, no que se refere às ocorrências de
episódios de violência obstétrica, de modo que, em muitos casos, eles mesmos se consideram
vítimas. Isso demonstra o fato de que a relação humana que se estabelece entre a gestante e o
profissional médico na ocorrência do parto é entrelaçada por complexos sentimentos, emoções
e julgamentos (SENS; STAMM, 2019).
83
3. METODOLOGIA
Inicialmente realizou-se uma pesquisa bibliográfica para conhecer as perspectivas
teóricas sobre aspectos positivos dos planos de parto. A partir desse mapeamento foi possível
estabelecer subsídios para a escolha do referencial que norteia a elaboração do folder.
Posteriormente, buscou-se na web vários planos de parto, que foram analisados e
contrastados com as atuais políticas de saúde sobre a questão, visando verificar a consistência
e viabilidade de sua aplicação, tomando como referência a realidade local. A partir desse
levantamento, pudemos observar questões mais recorrentes e mais importantes, que puderam
ser levadas em consideração no momento da elaboração do PE.
Cabe mencionar que a própria experiência e as vivências com gestantes no decorrer da
pesquisa permitiram ainda complementar informações mais específicas para a elaboração do
PE, também com base nas demandas expostas nas entrevistas. Assim, a adequação dos
conhecimentos acadêmicos amparados pelos diversos estudos publicados na literatura acerca
dessa temática é aplicada de maneira direcionada para a realidade observada ao longo do PE,
favorecendo a comunidade e tornando viáveis eventuais replicações em outras realidades, desde
que com os devidos ajustes locais.
A última fase foi a confecção da cartilha, elaborada e diagramada no software de design
Adobe Illustrator, da Adobe Inc. As ilustrações foram selecionadas no site Freepik, um banco
virtual de imagens, possibilitando a construção de um layout lúdico e acessível para as gestantes
que obtiverem acesso ao PE. O produto técnico pode ser visualizado a seguir.
84
Figura 1 – Plano de parto
Fonte: elaborado pela 1ª autora (2022).
Figura 2 – Plano de parto (continuação)
Fonte: elaborado pela 1ª autora (2022).
85
4. RESULTADOS
Esperamos que a construção do plano de parto permita fortalecer ainda mais o vínculo
entre gestante e equipe de Atenção Básica, no que se refere à certeza de suas escolhas,
possibilitando mais tranquilidade emocional e empoderamento para a gestante e a garantia de
uma assistência integral e de qualidade. Além disso, estimamos que a rotina das equipes de ESF
poderá incorporar, cada vez mais, a utilização dos planos de parto como parte essencial de suas
rotinas direcionadas às atividades com as gestantes durante o acompanhamento pré-natal.
Desse modo, tais profissionais também poderão ser sujeitos ativos e participantes de
ações de educação permanente das equipes da Atenção Primária à Saúde, contribuindo
continuamente com as melhorias nas ações de saúde pública e efetivando concretamente ações
humanizadas, respeitosas e inclusivas (EVANGELISTA, 2019). Atitudes que podem ser
multiplicadas para diferentes localidades e realidades, favorecendo um número significativo de
mulheres gestantesusuárias dos serviços de saúde e também de profissionais realizadores e
prestadores de tais serviços.
Almejamos que o plano de parto seja um instrumento efetivo na declaração das
intenções das gestantes sobre o atendimento que espera, para si e para seu bebê, durante o
processo de nascimento. Assim, esse instrumento denotará procedimentos médicos e
intervenções aos quais as mães aceitam ser submetidas, bem como refletirá suas expectativas
sobre como querem ser tratadas. Além disso, o plano de parto retrata o empoderamento
feminino, transformando-as em protagonistas do próprio parto.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O plano de parto se configura como um mecanismo através do qual a gestante declara o
atendimento esperado para si e, por conseguinte, para seu bebê durante o processo de parto. Ele
permite que as mulheres se empoderem e transformem-se em protagonistas de seu parto
humanizado. Assim, o plano é viável para assistência pré-natal, não só em relação às atividades
do profissional, mas também para a segurança da gestante no momento do parto, a fim de tornálo um acontecimento marcante, repleto de lembranças inesquecíveis e extremamente positivas
para a mulher e sua família. Nesse sentido, incluir tal recurso na rotina de consultas PN
promoverá um incremento concreto de qualidade no atendimento a partir de uma concepção
de cuidado com a paciente para além de sua condição de gestante.
Alcançar uma mudança na percepção das gestantes sobre as complexas transformações
em seus corpos e sobre suas novas experiências e responsabilidades, devidamente
86
compartilhadas com seus parceiros e familiares, é algo tangível com o acompanhamento
atencioso das equipes de saúde, que poderão adequar os recursos dos quais dispõem conforme
as distintas realidades de cada localidade e de seus habitantes. É essa a maior intervenção que
um produto técnico pode oferecer ao usuário receptor dos cuidados e à equipe provedora de tais
serviços.
É importante ressaltar que, muito embora essa ferramenta seja tão promissora em suas
diversas serventias, ela ainda tem pouca evidência e utilização quando comparada com sua
importância e simplicidade de aplicação. E é por isso que estudos que a contemplam como
elemento principal devem ser estimulados, com o objetivo de fomentar interesse de
investigação e implementação, atraindo cada vez mais a atenção acadêmica e o interesse de
profissionais atuantes na Atenção Primária à Saúde (APS), favorecendo o desenvolvimento de
mais pesquisas sobre o plano de parto, tendo em vista o reduzido quantitativo desse conteúdo
específico disponível na literatura.
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90
CAPÍTULO VI
INDICADORES DA SÍFILIS NA POPULAÇÃO MASCULINA NOS
ESTADOS DA REGIÃO NORDESTE, BRASIL, 2010-2018
DOI: 10.51859/amplla.csf447.1123-6
Bruno Quintela Souza de Moraes
Isa Carolina Gomes Félix
Matheus Santos Duarte
Vanessa Almeida do Nascimento
Michael Ferreira Machado
1. INTRODUÇÃO
A sífilis é caracterizada como uma doença infecciosa sistêmica causada pela bactéria
Gram negativa Treponema pallidum. Sua transmissão se dá por via sexual, principalmente nos
estágios iniciais da doença; vertical, quando passada da mãe para o feto, durante a gestação; ou
ainda por transplante de órgãos e transfusão sanguínea. Dentre as infecções sexualmente
transmissíveis (ISTs), a sífilis apresenta destaque, pois corresponde a uma doença curável, com
tratamento de baixo custo e, ainda, com altas taxas de incidência no Brasil (BRASIL, 2020).
Seu contexto epidemiológico se agrava diante da quantidade de casos assintomáticos da
doença, visto que suas manifestações iniciais podem ser leves e discretas, seguidas por períodos
de latência, o que faz com que muitas pessoas não sejam diagnosticadas, portanto, deem
continuidade à cadeia de transmissão (BRASIL, 2016; PINTO et al, 2018).
Os estágios da sífilis podem ser divididos em recente (primária, secundária e latente
recente), quando possui até um ano de evolução; e tardia (latente tardia e terciária), quando
tem mais de um ano de evolução. Inicialmente, a doença se manifesta por uma lesão no local de
inoculação da bactéria, a qual geralmente é única, indolor e rica em treponemas. Esta lesão pode
permanecer por duas a seis semanas e desaparece espontaneamente, o que faz com que a
doença passe despercebida em muitos casos (BRASIL, 2020; MAHMUD et al, 2019).
Após um período entre seis semanas e seis meses, outros sinais podem surgir,
manifestando a sífilis secundária, como erupções cutâneas distribuídas principalmente no
tronco, lesões eritemato-escamosas palmo-plantares, placas eritematosas branco-acinzentadas
nas mucosas, alopecia em clareira e madarose, febre, cefaleia, mal-estar e linfadenopatia,
91
gerando dúvida no momento do diagnóstico, pois não se trata de um quadro patognomônico
(BRASIL, 2016).
A doença é caracterizada por períodos de latência, em que não se manifestam sinais ou
sintomas. Quando não diagnosticada e tratada, pode voltar a se manifestar, repetindo o quadro
secundário ou até mesmo com acometimento do sistema nervoso e cardiovascular, surgimento
de gomas sifilíticas nos tecidos, configurando-se como sífilis terciária (BRASIL, 2016; MAHMUD
et al, 2019).
No Brasil, nota-se uma preocupação sanitária na saúde da mulher, com ênfase no
momento da gestação, quando é realizado o rastreio para algumas ISTs, incluindo a sífilis,
fazendo com que boa parte dos diagnósticos se deem neste período. Em razão deste contexto,
a maioria dos diagnósticos são realizados no público feminino, acrescido ao fato de que as
mulheres costumam frequentar mais os serviços de saúde (BOTTON; CÚNICO; STREY, 2017;
MORAES; MACHADO; SOUZA, 2020).
No intuito de incentivar a construção de ações em saúde voltadas ao público masculino,
foi instituída, em 2008, pelo Ministério da Saúde, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde
do Homem (PNAISH), de modo a aproximar os homens dos serviços de saúde. Além disso, em
2018, foi lançado o Guia do Pré-Natal do parceiro para profissionais de saúde, com vistas a
estimular o envolvimento do homem no momento da gestação e fortalecer o elo entre este e o
serviço de saúde (BRASIL, 2008; BRASIL, 2018).
Ao analisar a relação entre a infecção por sífilis e os homens, torna-se imperativo
associar questões socioculturais e históricas que perpetuam a cultura do machismo e se
refletem na saúde masculina. São vários os fatores desencadeantes da dificuldade do acesso dos
homens aos serviços de Atenção à Saúde, tais quais a incompatibilidade de horários de
funcionamento da Rede de Atenção à Saúde, em especial a Atenção Primária à Saúde, a reduzida
quantidade de ações estratégicas voltadas para atenção integral ao público masculino,
reforçada pela construção cultural do papel do masculino na sociedade, mantendo um ciclo de
restrições ao cuidado da saúde masculina (BOTTON; CÚNICO; STREY, 2017; CESARO; SANTOS;
SILVA, 2018).
Neste sentido, este estudo tem como objetivo analisar a taxa de detecção da sífilis em
homens, bem como a proporção da realização do tratamento do parceiro sexual, nos casos de
sífilis congênita, ocorridos na região Nordeste em seus nove estados e em nível nacional, entre
os anos de 2010 e 2018.
92
2. MÉTODO
Trata-se de um estudo observacional, descritivo e transversal, com o uso de dados
obtidos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde
(SINAN/MS). Foram selecionados, para este estudo, os dados referentes ao espaço temporal de
2010 a 2018 devido à inexistência de dados disponíveis em outros períodos.
Foram analisadas as taxas de detecção anuais de sífilis adquirida (casos/100.000
habitantes) de cada um dos estados do Nordeste brasileiro; desta região (integralmente); bem
como a taxa de detecção nacional. A taxa de detecção anual, para cada um dos estados e das
regiões selecionadas, foi multiplicada pela distribuição percentual de homens acometidos por
sífilis em relação ao total de casos. Assim, foi possível calcular a taxa de detecção de sífilis
adquirida em homens, por ano, a cada 100 mil habitantes nos recortes geográficos selecionados.
Além disso, a distribuição percentual da realização do tratamento do parceiro nos casos
de sífilis congênita, nos mesmos estados e mesmas regiões geográficas e para cada um dos anos
selecionados, foram calculadas a partir do software Joinpoint Regression v.4.9.0.0 (Statistical
Methodology and Applications Branch, Surveillance Research Program, National Cancer
Institute). Com isso, foi possível traçar linhas de tendência temporais e calcular a variação
percentual média por ano e dentro do período estudado, sendo o ano a variável independente
e consideradas significantes as tendências com p valor < 0,05.
O indicador relacionado ao tratamento do parceiro foi dividido em porcentagem de
casos que o parceiro foi tratado, não foi tratado ou em que este item foi “ignorado”. Tais divisões
foram avaliadas de forma independente, de modo que foi possível descrever tendências
temporais crescentes, decrescentes ou estacionárias. As tendências foram classificadas como
decrescente quando APC ou AAPC>0 e p<0,05, decrescente quando APC ou AAPC<0 e p<0,05 e
tendência temporal estacionária quando APC ou AAPC=0 e ou p>0,05.
Mesmo considerando todos os cuidados metodológicos, o presente estudo apresenta
limitações, a saber: 1) elevado número de variáveis sem o registro adequado; 2) uso de dados
secundários provenientes dos sistemas de informação em saúde, que pode não expressar
corretamente a realidade; 3) a qualidade das informações registradas nos sistemas de
informação em saúde, em razão da diversidade na capacidade organizativo-institucional, no
âmbito da gestão e da vigilância em saúde, nos diversos contextos brasileiros.
Esse estudo utilizou dados de domínio público e de livre acesso, sem a identificação de
pacientes. Portanto, dispensou a apreciação pelo Comitê de Ética em Pesquisa/Comissão
93
Nacional de Ética em Pesquisa, de acordo com as resoluções do Conselho Nacional de Saúde de
n. 466, de dezembro de 2012 e n. 580, de março de 2018.
3. RESULTADOS
O primeiro indicador analisado foi a taxa de detecção da sífilis entre os homens, que
cresceu em todos os recortes geográficos ao longo de todo o período estudado, com elevação
acentuada, principalmente, nos dois últimos anos. A Figura 1 compara a taxa de detecção da
sífilis em homens a cada 100 mil habitantes por cada localidade, ano a ano.
Figura 1 – Taxa de detecção de sífilis em homens entre 2010 e 2018, por ano de diagnóstico
(casos/por 100 mil habitantes)
Fonte: elaborado pelos autores.
O Ceará apresentou taxa de detecção maior que a da região Nordeste entre 2010 e 2013.
No ano seguinte, a Bahia obteve uma taxa maior que a regional. Ambos os estados não
ultrapassaram a taxa de detecção do Brasil. O estado do Rio Grande do Norte exibiu taxas acima
da que foi detectada no Nordeste, com exceção apenas em 2010. Sergipe também obteve marca
semelhante, ultrapassando inclusive a taxa de detecção brasileira em 2014.
Importante observar que, em 2018, a região Nordeste (27,6 casos/100 mil hab.)
apresentou uma taxa de detecção menor que a taxa nacional (45,1 casos/100 mil hab.);
enquanto o estado de Pernambuco (47,8 casos/100 mil hab.) foi o único a ultrapassar a taxa do
país, indicando a mais alta taxa dentre as localidades do estudo. Ainda, foram observados
94
estados com taxa de detecção maior que a da região que os circunscrevem: Bahia, Pernambuco
e Rio Grande do Norte.
Tabela 1 – Tendência do tratamento dos parceiros das gestantes com sífilis nos estados nordestinos e
no Brasil, 2010-2018
Estado/Região
Alagoas
Bahia
Indicador
Sim
Não
Ignorado
Sim
Não
Ignorado
Sim
Ceará
Não
Ignorado
Sim
Maranhão
Não
Ignorado
Sim
Paraíba
Não
Ignorado
Sim
Pernambuco
Não
Ignorado
Sim
Piauí
Não
Ignorado
Sim
Rio Grande do
Norte
Não
Ignorado
Sim
Sergipe
Não
Ignorado
Sim
Nordeste
Brasil
Não
Ignorado
Sim
Não
Ignorado
Período
2010-2018
2010-2016
2010-2018
2010-2018
2010-2018
2010-2018
2010-2016
2016-2018
2010-2018
2010-2012
2012-2018
2010-2018
2010-2014
2014-2018
2010-2014
2014-2018
2010-2018
2010-2012
2012-2018
2010-2012
2012-2018
2010-2018
2010-2016
2016-2018
2010-2018
2010-2012
2012-2018
2010-2018
2010-2015
2015-2018
2010-2018
2010-2016
2016-2018
2010-2014
2014-2018
2010-2018
2010-2016
2016-2018
2010-2018
2010-2016
2016-2018
2010-2016
2016-2018
2010-2018
2010-2018
2010-2018
2010-2018
APC (IC95%)
8.1 (0.4 a 16.4) p>0.00
-1.5 (-4.5 a 1.5) p>0.03
1.7 (-4.8 a 8.8) p<0.06
7,7 (4,7 a 10,7) p<0,05
2,1 (-1,0 a 5,2) p>0,05
-6,8 (-10,8 a -2,7) p<0,05
-3,2 (-8,9 a 2,9) p>0,05
57,7 (-6,4 a 165,7) p>0,05
-0,6 (-3,0 a 1,8) p>0,05
18,8 (-5,8 a 49,8) p>0,05
-9,7 (-11,5 a -7,8) p<0,05
14,5 (8,4 a 20,9) p<0,05
-14,8 (-18,4 a -11,1) p<0,05
4,7 (0,3 a 9,3) p<0,05
59,3 (15,4 a 120,0) p<0,05
-16,0 (-39, 2 a 15,9) p>0,05
1,8 (-6,4 a 10,6) p>0,05
36,7 (-27,6 a 158,2) p>0,05
-4,5 (-12,7 a 4,6) p>0,05
-44,1 (-90,4 a 224,4) p>0,05
9,1 (-10,5 a 33,0) p>0,05
10,6 (-0,2 a 22,6) p>0,05
-3,2 (-6,7 a 0,5) p>0,05
-16,0 (-41,2 a 20,1) p>0,05
5,8 (1,4 a 10,4) p<0,05
-29,9 (-75,5 a 101) p>0,05
15,4 (5,9 a 25,6) p<0,05
-0,4 (-7,5 a 7,2) p>0,05
-21,2 (-32,5 a -8,1) p<0,05
27,7 (-10,2 a 81,5) p>0,05
6,5 (0,5 a 12,8) p<0,05
-3,6 (-6,3 a -0,8) p<0,05
9,4 (-8,6 a 31,0) p>0,05
13,6 (5,5 a 22,4) p<0,05
-10,7 (-17,2 a -3,8) p<0,05
14,6 (3,2 a 27,2) p<0,05
1,2 (-1,7 a 4,2) p>0,05
-11,7 (-30,8 a 12,7) p>0,05
-10,7 (-18,8 a -1,8) p<0,05
3.3 (-2.4 a 9.4) p>0.2
33.9 (-16.0 a 113.5) p<0.2
-0.7 (-1.2 a -0.1) p>0.0
-9.1 (-12.2 a -5.9) p>0.0
0.6 (-0.4 a 1.6) p<0.2
7.9 (5.8 a 10.0) p<0.0
-2.1 (-3.0 a -1.1) p<0.0
0.8 (-1.0 a 2.6) p<0.4
AAPC (IC95%)
8.1 (0.4 a 16.4) p>0.00
-1.5 (-4.5 a 1.5) p>0.03
1.7 (-4.8 a 8.8) p<0.06
7,7 (4,7 a 10,7) p<0,05
2,1 (-1,0 a 5,2) p>0,05
-6,8 (-10,8 a -2,7) p<0,05
Tendência
Crescente
Decrescente
Crescente
Crescente
Estacionária
Decrescente
9,4 (-0,8 a 20,6) p>0,05
Estacionária
-0,6 (-3,0 a 1,8) p>0,05
Estacionária
-3,3 (-7,3 a 0,9) p>0,05
Estacionária
14,5 (8,4 a 20,9) p<0,05
Crescente
-5,6 (-7,6 a - 3,5) p>0,05
Estacionária
15,7 (-1,5 a 35,9) p>0,05
Estacionária
1,8 (-6,4 a 10,6) p>0,05
Estacionária
4,5 (-7,5 a 18,0) p>0,05
Estacionária
-7,7 (-33,5 a 28,1)p>0,05
Estacionária
10,6 (-0,2 a 22,6) p>0,05
Estacionária
-6,5 (-12,5 a -0,2) p<0,05
Decrescente
5,8 (1,4 a 10,4) p<0,05
Crescente
1,9 (-15,9 a 23,3) p>0,05
Estacionária
-0,4 (-7,5 a 7,2) p>0,05
Estacionária
-5,6 (-15,9 a 6,0 p>0,05
Estacionária
6,5 (0,5 a 12,8) p<0,05
Crescente
-0,5 (-3,9 a 3,1) p>0,05
Estacionária
0,7 (-3,0 a 4,5) p>0,05
Estacionária
14,6 (3,2 a 27,2) p<0,05
Crescente
-2,2 (-6,6 a 2,4) p>0,05
Estacionária
-10,7(-18,8 a -1,8)p<0,05
Decrescente
10.3 (1.0 a 20.4) p>0.0
Crescente
-2.8 (-3.5 a -2.2) p>0.0
Decrescente
0.6 (-0.4 a 1.6) p<0.2
7.9 (5.8 a 10.0) p<0.0
-2.1 (-3.0 a -1.1) p<0.0
0.8 (-1.0 a 2.6) p<0.4
Crescente
Crescente
Decrescente
Crescente
Fonte: Elaborados pelos autores.
Identificou-se que a proporção dos parceiros sexuais que realizaram tratamento da
sífilis (nos casos de SC) foi progressivamente maior com o passar dos anos deste estudo
95
(tendência crescente) nos estados de Sergipe (AAPC: 14,6; p<0,05), Rio Grande do Norte (AAPC:
6,5; p<0,05) Bahia (AAPC: 7,7; p<0,05) e Maranhão (AAPC= 14,5; AAPC<0,05). Os dados
agrupados de toda região Nordeste, bem como os dados nacionais, também mostraram o
mesmo comportamento quanto à realização do tratamento (AAPC: 10,3 e 7,9; p<0,05 e p<0,05,
respectivamente).
Concomitantemente, notou-se que a proporção daqueles que não realizaram o
tratamento diminuiu (tendência decrescente) na região Nordeste (AAPC:-2,8; p<0,05) e no
Brasil (AAPC: -2,1; p<0,05). Tendência semelhante só foi encontrada no estado de Pernambuco
(AAPC: -6,5; p<0,05). Por outro lado, a proporção de notificações em que esse aspecto foi
ignorado se mostrou crescente nos dados destas três áreas (PE: AAPC: 5,8; p<0,05; NE:
AAPC:0,6; p<0,05; BR: AAPC:0,8; p<0,5).
4. DISCUSSÃO
A persistência da sífilis na população masculina é resultante, dentre outros fatores, dos
históricos desafios de inserção do homem no cotidiano dos serviços de saúde do país. O papel
social idealizado para a masculinidade estabelece o homem como um ser forte, corajoso e que
não deve demonstrar fragilidades. Embora os avanços socioculturais tenham gerado reflexões
e mudanças neste cenário, este é um panorama ainda muito presente e um dos principais
fatores que culminam com o distanciamento do público masculino dos serviços de saúde,
principalmente a Atenção Primária à Saúde (OLIVEIRA, 2015).
As diferenças dos cuidados relacionados à saúde entre mulheres e homens surgem a
partir dos papéis de gênero estabelecidos socialmente, que tem como consequência maior
morbimortalidade masculina, principalmente em questões relacionadas às causas externas, tais
como violência, acidentes e em consequência de doenças crônicas, já que, enquanto as mulheres
costumam frequentar mais a atenção primária, os homens buscam os serviços de saúde de
emergência ou pronto atendimento, refletindo a busca de assistência apenas em quadros mais
agravados (BOTTON; CÚNICO; STREY, 2017; CESARO; SANTOS; SILVA, 2018).
A Atenção Primária à Saúde deve atuar como principal vínculo entre a população e a
Rede de Atenção à Saúde, sendo a porta de entrada prioritária do Sistema Único de Saúde (SUS).
Portanto, orienta-se por princípios, como a universalidade, acessibilidade, integralidade,
humanização, equidade e vínculo, de modo a garantir acesso a todos os indivíduos e suprir a
maior parte das necessidades em saúde da comunidade. Entretanto, a organização das
atividades na Atenção Primária à Saúde apresenta menor inclusão de homens quando
96
comparado às mulheres, sob influência da própria construção social do masculino, dificultando
o pertencimento dos homens em relação a estes espaços. Além disso, incluem-se problemas
estruturais e organizacionais do próprio sistema de saúde, como a limitação do horário de
funcionamento dos serviços de Atenção Primária e das políticas públicas de saúde voltadas para
este público (COUTO et al, 2010).
Neste sentido, foi instituída a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem
(PNAISH), através da Portaria GM/MS nº 1944, que visa orientar cuidados, ações e estratégias
para a prevenção, promoção e tratamento em saúde, de modo a facilitar o acesso deste grupo
aos serviços de saúde e fortalecer o elo entre os homens e a Atenção Primária à Saúde, por meio
da organização da assistência à saúde, capacitação dos profissionais e elaboração de ações de
educação em saúde (BRASIL, 2008; BRASIL, 2009).
Dentre os objetivos da PNAISH está a implantação da assistência em saúde sexual e
reprodutiva, englobando planejamento reprodutivo masculino, a participação do homem
durante a gestação, a paternidade responsável e, em união ao Programa Nacional de IST/AIDS,
estimular o cuidado relacionado às infecções sexualmente transmissíveis, através da prevenção
e promoção da saúde e tratamento dos casos já instalados (BRASIL, 2008; MIRANDA et al,
2021).
A PNAISH alinha-se à Política Nacional de Atenção Básica em estabelecer a primazia da
Estratégia Saúde da Família como espaço fundamental para o desenvolvimento deste tipo de
ações de saúde voltadas aos homens. Assim, tal política ganha um campo de atuação em
expansão em nosso país capaz de atuar na história natural da sífilis, da prevenção ao tratamento
(ARAÚJO et al, 2021).
Além da PNAISH, outras estratégias utilizadas para incentivar a procura dos homens aos
serviços de atenção primária foi a elaboração do Guia do Pré-Natal do parceiro para
profissionais de saúde e o Guia de saúde do homem para agentes comunitários de saúde. Todas
essas iniciativas visam “auxiliar em um dos principais objetivos da política [PNAISH]: ampliar
o acesso e o acolhimento dos homens aos serviços e programas de saúde e qualificar as práticas
de cuidado com sua saúde”, atuando como um momento favorável à avaliação da saúde do
homem (BRASIL, 2018).
Durante o período do pré-natal, a gestante passa por um rastreio para diversas ISTs,
como HIV, Sífilis e Hepatite C, o que gera uma oportunidade de diagnóstico e tratamento de seus
parceiros e contribui para a melhoria da detecção de casos de ISTs em homens. Dentre as ISTs,
97
destaca-se a sífilis, no sentido de ser uma doença passível de tratamento simples, de baixo custo
e eficaz, realizado na própria unidade de saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2016).
Além das estratégias já citadas, a proposta da Política Nacional de saúde integral de
lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais teve como um dos objetivos, reforçar as
medidas de atenção integral nas ISTs e, por conseguinte, da população masculina inserida nesse
público-alvo (BRASIL, 2013). Além disso, a expansão da Estratégia Saúde da Família e a maior
disponibilidade de testes rápidos resultaram no aumento da detecção dos casos de sífilis em
homens (OJIMA; LIMA; OLIVEIRA, 2020).
O aumento das taxas de detecção da sífilis em homens em todos os estados nordestinos,
na própria região Nordeste e no Brasil, pode demonstrar maior eficácia do sistema de saúde em
realizar o diagnóstico desta doença. Isso é importante, pois, uma vez diagnosticada, a sífilis
pode ser facilmente tratada ainda no âmbito da atenção primária prevenindo, assim, a
progressão para fases mais tardias (e graves) da doença, bem como sua transmissão a outros
indivíduos, dentre os quais as gestantes ganham destaque devido à possibilidade de
transmissão vertical da bactéria ao concepto (BRASIL, 2017; FIGUEIREDO et al, 2020).
Entretanto, a atual epidemia de sífilis, vivenciada nacionalmente, revela a distância entre
as propostas citadas e a sua aplicação e impacto na realidade brasileira. Fatores, como a baixa
escolaridade tem se mostrado determinante na detecção e tratamento dos casos de sífilis, tanto
em homens, quanto em mulheres, pois estabelece escassez de conhecimento acerca da doença
e a respeito da prevenção de ISTs de modo geral, através da limitação ao acesso a métodos de
prevenção e educação sexual (MORAES, 2019).
Assim, corroborando alguns estudos, o motivo para que a região nordestina e a maioria
de seus estados permaneçam com a taxa de detecção inferior a nacional, nos anos deste estudo,
são as históricas iniquidades sociais presentes ainda hoje nesta região. Tais iniquidades
vulnerabilizam a população e dificultam seu acesso aos serviços de saúde, local oportuno para
o diagnóstico e, por conseguinte, a notificação e tratamento da sífilis (MACHADO et al, 2021).
Apesar do aumento no tratamento dos parceiros na região Nordeste e no Brasil, a
proporção de parcerias sexuais tratadas ainda é baixa, por isso, continua a ser apontada por
diferentes pesquisas como o principal agravante da taxa de tratamento inadequado da gestante
com sífilis (HOLZTRATTNER et al., 2019). Isso denota uma falha na inclusão efetiva do parceiro
sexual da gestante nas políticas de saúde materno-infantil em vigor no Brasil (DALLÉ, 2017).
O tratamento do parceiro da gestante com sífilis é de grande importância, pois diminui
bastante a probabilidade que uma reinfecção aconteça, mesmo após um tratamento adequado
98
desta mulher. Uma reinfecção representa uma nova possibilidade de o feto adquirir a bactéria
e ser acometido de sífilis congênita, doença grave que pode causar sua morte ou importantes
sequelas (CAMPOS et al, 2012).
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora grandes avanços na promoção do (auto)cuidado à saúde do homem tenham
ocorrido ao longo dos últimos anos, com a implantação de políticas e estratégias voltadas a este
público, os resultados desejados apresentam desafios. Inclui-se neste cenário a atual epidemia
de sífilis, que nos mostra as dificuldades da aplicabilidade das propostas voltadas a esses
usuários.
Além disso, foi possível observar as diferenças e semelhanças em uma região tão
heterogênea quando se trata de acesso e busca da população masculina aos serviços de saúde.
Mesmo com a implantação do Pré-Natal do Parceiro, cada estado e/ou agrupamento geográfico
apresentou suas particularidades quanto à participação do homem na saúde individual e
familiar.
Sendo a sífilis congênita um dos principais indicadores da qualidade da assistência à
saúde materno-infantil, o parceiro da gestante tem um papel primordial. Por isso, a testagem e
o tratamento correto do parceiro são fundamentais para quebrar a cadeia de transmissão da T.
pallidum e para redução de desfechos desfavoráveis para o concepto.
Por fim, é importante destacar que os profissionais da Atenção Primária à Saúde devem
estar atentos para as oportunidades de inclusão dos usuários do sexo masculino no cotidiano
dos serviços de saúde, incorporando-os em espaços de participação social para construção de
um novo conceito de saúde para o homem.
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101
CAPÍTULO VII
PERCEPÇÃO DE GESTANTES SOBRE O CUIDADO NO PERÍODO
PRÉ-NATAL EM UMA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA
DOI: 10.51859/amplla.csf447.1123-7
Mara Gabriela Brasileiro de Lucena Ferreira
Divanise Suruagy Correia
Maria das Graças Monte Mello Taveira
1. INTRODUÇÃO
O período da gestação é marcado por diversas mudanças, especialmente naquelas que
estão a passar pela primeira experiência. Na condição de mãe, é possível observar uma série de
transformações que vão além do físico, são os impactos psicológicos e sociais que também
acontecem na vida das gestantes e da família que a cerca (LIVRAMENTO et al., 2019; ZANATTA;
PEREIRA; ALVES, 2017).
Quando essa gestação acontece em uma mulher com idade tardia, essas complexidades
comportamentais se tornam ainda mais desafiadoras e carentes de atenção e cuidados, o que
deve despertar o interesse de muitos profissionais de saúde para essa parcela crescente da
população feminina, que adquire conceptos após os 35 anos de vida; muito embora um
acompanhamento adequado invalide a inclusão da idade como um fator de risco isolado
(ALDRIGHI; WALL; SOUZA, 2018). A partir do entendimento da complexidade do momento e
da influência de uma gama de fatores internos e externos na situação de saúde da mãe e da
criança, sabe-se da importância da assistência adequada durante todo o processo
(LIVRAMENTO et al., 2019).
É visando amparar as famílias inseridas nesse contexto que surge a atenção pré-natal
(PN), um conjunto de ações voltadas à prevenção de doenças e agravos, promoção à saúde,
identificação, diagnóstico e tratamento precoce de enfermidades, com o intuito de garantir a
qualidade da assistência à saúde do binômio mãe-filho(a) durante a gestação e do pai, quando
possível (SEIBEL; CÂNDIDO; RODRIGUES, 2020).
É notável que a estimulação do profissional de saúde para a participação paterna no
acompanhamento pré-natal é fundamental para o processo de nascimento do bebê, com
destaque para o apoio social e emocional do companheiro para com a gestante, especialmente
102
durante o trabalho de parto, fortalecendo as habilidades paternas para fazer escolhas e ajudála durante o puerpério (MENDES; SANTOS,2019). A atenção PN de qualidade é responsável pela
redução da mortalidade infantil, materna e fetal, pois apresenta potencial e capacidade de
acompanhar a evolução da gestação, identificar possíveis problemas que possam impactar
na situação de saúde do binômio mãe-filho(a) (GONÇALVES et al., 2017).
Ao longo dos anos, inúmeras políticas públicas referentes à atenção PN foram instituídas
no Sistema Único de Saúde (SUS). Dentre elas o Programa de Humanização no Pré- natal e
Nascimento (PHPN), lançado em 2000; a Política Nacional de Atenção Integral à Saúdeda Mulher
(PNAISM), de 2004; a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH),
lançada em 2009; e também pela Rede Cegonha (RC), criada em 2011 (BRASIL, 2002; 2004;
2008; 2011).
Essas políticas visam orientar, qualificar e fortalecer o pré-natal e a atenção à saúde de
mulheres grávidas, objetivando a redução da mortalidade materno-infantil e fetal, casos de
violência obstétrica, identificação e tratamento de infecções sexualmente transmissíveis,
trabalhar a educação em saúde, orientar os cuidados com os recém-nascidos, contribuir com o
planejamento familiar, organizar a rede de atenção à gestação, parto e puerpério, a inclusão do
pré-natal masculino nos serviços, além de outras ações voltadas a esse público (SEIBEL;
CANDIDO; RODRIGUES, 2020; CLÍMACO et al., 2019).
Por essa razão, a Atenção Primária à Saúde (APS) é um lócus estratégico e fundamental
para esse cuidado com as gestantes devido à adscrição territorial e à possibilidade da
criação/fortalecimento do vínculo com a comunidade. Nesse sentido, a APS pode acompanhar
e incentivar as gestantes do território a realizarem o PN adequadamente, auxiliar no
planejamento familiar, cuidar da saúde dessas mulheres de maneira multi e interprofissional,
diagnosticar precocemente problemas prejudiciais à saúde do binômio e evitar desfechos
negativos da gestação (GUIMARÃES et al., 2018).
Ainda nesse contexto, o pré-natal não deve se limitar à realização de consultas e
solicitação de exames, pois “[...] precisa considerar também o acolhimento e o reconhecimento
das necessidades das gestantes, visando o estabelecimento de vínculos” (LIVRAMENTO et al.,
2019, p. 1). Demonstra-se que a satisfação é uma sensação perceptível que motiva as mulheres
a iniciarem o pré-natal e serem mais propensas à adesão a todo o esquema de cuidado
preconizado. Nessa direção, estudos conceituam a satisfação como uma resposta “positiva”, de
natureza avaliativa, que se relaciona tanto com a crença da paciente de que o cuidado tem
103
determinados atributos quanto se refere à avaliação da gestante sobre tais atributos (TOMASI;
FACCHINI; DILELIO, 2017).
Entender a importância do pré-natal a partir da perspectiva das gestantes é útil para
pensar não só a organização do serviço a elas oferecido, mas permite entender o significado
desse cuidado (BRASIL, 2006). Por conseguinte, fornecer subsídios para melhorar a assistência
prestada e fortalecer as ações de pré-natal, bem como o repensar da atenção à saúde maternoinfantil, sobretudo no que diz respeito aos processos de trabalho na construção da assistência
(BRASIL, 2006).
Outro aspecto relevante desse processo refere-se à relação entre as unidades de saúdee
as gestantes, centrado na garantia da dignidade da pessoa humana e amparado pelos princípios
filosóficos ― equidade, integralidade e universalidade ― norteadores das ações no âmbito do
SUS (SEIBEL; CÂNDIDO; RODRIGUES, 2020). Além desses, não se pode deixar de considerar
aqueles princípios de natureza organizativa: descentralização da atenção, coordenação do
cuidado, dentre outros estabelecidos na legislação vigente (SEIBEL; CÂNDIDO; RODRIGUES,
2020).
Tendo em vista que o cuidado oferecido no pré-natal é parte vital de uma gravidez
saudável, e que um pré-natal inadequado pode gerar efeitos adversos ao feto e à mãe,
compreender a percepção da gestante sobre a atenção que recebe, bem como os vários processos
e habilidades que influenciam o recebimento de cuidados com pouca atenção, pode contribuir
para melhorar a qualidade desse atendimento.
Assim, é pertinente questionar: quais as percepções das gestantes sobre a atenção ao
pré-natal em uma Estratégia Saúde da Família (ESF) da zona rural do município de
Atalaia/Alagoas (AL)? Daí emergiu a necessidade de compreender as percepções das gestantes
sobre a atenção pré-natal em uma ESF da zona rural do município de Atalaia/Alagoas, Brasil.
Tendo em vista a importância do PN para a gravidez e as consequências negativas aofeto
e à mãe caso não seja realizado, é importante pesquisar a percepção da gestante sobre a atenção
que recebe. Ao analisar opiniões a respeito do entendimento sobre o PN, especialmente as que
fazem referência à recepção de pouca atenção, é possível identificar pontos deficientes e
contribuir para melhora na qualidade dos futuros atendimentos (ANDRADE, 2019).
Ainda no panorama da análise sobre o tema da atenção ao PN, ressalta-se que a boa parte
da literatura a respeito do tema foca nos aspectos estruturais da atenção. Sendo assim, a
predileção pelo aspecto organizacional coloca as percepções subjetivas das gestantes sobre o
atendimento em segundo plano (TOMASI; FACCHINI; DILELIO, 2017) ― algo que deve ser
104
mudado, dada a relevância dos posicionamentos dessas mulheres na realização exitosa de
qualquer atividade promotora de saúde, tanto para ela mesma quanto para o feto, uma vez que
é a partir das atitudes adotadas pela futura mãe em sua rotina que toda a orientação fornecida
pelas equipes multiprofissionais poderá ser posta em prática.
Por último, a vivência profissional no âmbito da abordagem individual e a abordagem
familiar direcionada à assistência a gestantes foram importantes para despertar interesse
sobreo tema. Além disso, o conhecimento prático permite um melhor entendimento a respeito
do território que se pretende analisar e sobre as necessidades das gestantes, de acordo com os
determinantes sociais envolvidos no processo saúde-doença daquele ambiente (GADELHA,
2020).
OBJETIVOS
OBJETIVO GERAL
Conhecer o modo como as gestantes percebem a produção do cuidado durante o período
de pré-natal em uma equipe de Estratégia de Saúde da Família da zona rural de Atalaia/AL,
Brasil.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
•
Identificar o acesso das gestantes em uma equipe de Estratégia de Saúde da
Famíliada zona rural de Atalaia/AL, Brasil;
•
Investigar as dimensões do cuidado pré-natal em uma Estratégia de Saúde
da Família da zona rural de Atalaia/AL, Brasil;
•
Analisar a percepção das gestantes sobre o cuidado pré-natal oferecido por
umaEstratégia de Saúde da Família da zona rural de Atalaia/AL, Brasil.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
ASPECTOS BIOLÓGICOS E SOCIAIS DA GRAVIDEZ
Do ponto de vista biológico, a reprodução ― seja ela natural ou induzida ― tem como
finalidade precípua a manutenção vida na Terra e sua evolução ao longo dos milênios (LESSAet
al., 2014). Na espécie humana, a reprodução ocorre por meio da gravidez e consiste em um
evento resultante da fecundação do óvulo (ovócito) pelo espermatozoide. Habitualmente, o
processo de gestação ocorre dentro do útero e é responsável pela geração de um (ou mais de
um) novo ser humano (BRASIL, 2021). Há uma complexa rede de variáveis interconectadas e
105
em modificação contínua ao longo do processo de gestação humana ― é o caso das relações
entre a idade gestacional e o peso ao nascer, que possuem impacto direto na saúde do recémnascido, e das eventuais complicações que poderão se manifestar em suas primeiras horas ou
dias de vida, a partir de fenótipos com maiores ou menores riscos de óbito, segundo fenótipos
de vulnerabilidade biológica (MARQUES et al., 2022), tornando cada vez mais necessárias
pesquisas que observem esses aspectos da gestação humana.
Nesse contexto, diante dos avanços da biotecnologia e da sociedade, foram
desenvolvidas novas formas de desenvolvimento humano. Com vistas a superar questões
sociobiológicas de indivíduos ― tais como problemas reprodutivos, união entre indivíduos de
mesmo sexo, diferentes arranjos familiares ― que até então eram vistas como obstáculos
intransponíveis (SOUZA; ALVES, 2016).
O que pode gerar situações ainda passíveis de muita discussão, com o objetivo de
regulamentar e refletir seus aspectos éticos e jurídicos. É o caso da ocorrência de inseminações
artificiais caseiras, realizadas por casais sem condições financeiras de optar por uma
inseminação artificial convencional, que são vistas por alguns como um direito próprio da
mulher e por outros como um crime, sendo inclusive praticada, em sua maioria, em ambientes
não hospitalares e sem o acompanhamento de profissionais de saúde(LIMA; JÚNIOR, 2022).
Para além dos aspectos biológicos, a gestação humana tem um aspecto social,
geralmente vinculado às relações afetivas entre indivíduos e à ampliação da família. De certa
maneira, fatores culturais, crenças preconceituosas contribuíram para uma percepção de que a
gravidez só poderia ocorrer por intermédio de relações sexuais e em contexto heterossexual.
No entanto, a partir de avanços tecnológicos, tornou-se possível que um casal estéril gere
filhos; e essa possibilidade se amplia a casais homossexuais e/ou a demais interessados(as)em
processos como: inseminação intrauterina (IIU); fertilização in vitro (FIV); injeção
intracitoplasmática de espermatozoides (ICIS); transferência de embrião congelado (TEC)
(SOUZA; ALVES, 2016).
Além disso, procedimentos como a reprodução a partir da gestação por substituição, na
qual uma mulher assume o papel de doadora temporária de útero e gesta o bebê de terceiros;
estes, por sua vez, passarão a se chamar de pais intencionais, podendo ser casais
heterossexuais, homossexuais e mesmo pessoas solteiras com intenções de paternidade solo
(GRAZIUSO; DE CARLOS, 2021). Tal fato evidencia a importância de uma ampliação significativa
da abrangência de acompanhamentos gestacionais, como a atenção pré-natal no âmbito da
saúde pública como um todo.
106
Ao compreender a gestação como um período que afeta tanto a saúde da mãe quanto a
da criança, pois ambos estão ligados entre si, além do pai e demais entes familiares,
configurando a diversidade notável do núcleo familiar que compõe nossa sociedade atual, fazse necessária uma atenção a esses indivíduos. Uma atenção com um perfil diferenciado e que
enfatize a intervenção concreta e positiva na vida desses receptores dos cuidados da saúde
pública, com vistas à promoção da saúde, assim como detectar, diagnosticar e cuidar de
possíveis problemas e complicações durante esse período; o que pode ser consideravelmente
alcançado por meio de produtos oriundos da formação continuada dos profissionais de saúde,
como mestrados profissionais e especializações semelhantes.
ATENÇÃO PRÉ-NATAL E PERCEPÇÃO DAS GESTANTES
Conforme apresentado pelo Ministério da Saúde (MS) no Caderno de Atenção Básica n°
32 (2012) sobre “Atenção ao pré-natal de baixo risco”, o início precoce do pré-natal é essencial
para a adequada assistência; o número ideal de consultas permanece controverso. Segundo a
Organização Mundial da Saúde (OMS), o número adequado seria igual ou superior a 6 (seis)
(BRASIL, 2013).
É relevante ressaltar ainda que o MS considera ideal que a consulta seja efetuada pelos
enfermeiros e médicos de modo alternado e que o companheiro da gestante também esteja
presente em todos os momentos (DE MORAIS FREIRE et al., 2022). Tal cenário nem sempre é
alcançado em sua totalidade, seja por motivos esporádicos, que são sanados nas consultas
seguintes, ou por motivos de caráter mais permanente, como falta de recursos humanos em
quantidade suficiente para realizar as alternâncias ao longo dos atendimentos.
O PN para as gestantes acontece na relação profissional-usuária. Este é um processo que
tem como norte o alcance da qualidade dos cuidados em saúde para a mãe e o feto, com a
assistência sendo realizada através de diálogo e compartilhamento de informações
(LIVRAMENTO et al., 2019). A percepção é mais satisfatória, no que concerne ao acolhimento,
respeito e compromisso dos profissionais médicos e enfermeiros, quando compreendem as
orientações compartilhadas durante as consultas (ANDRADE, 2019).
É nesse contexto que as enfermeiras de práticas avançadas, ou seja, que possuem
formação continuada e experiência de trabalho, passam a ter condições de intervir
significativamente a partir de conhecimentos e habilidades que lhes permitem criar e aplicar
protocolos e processos de cuidados institucionais e de políticas públicas (MATTOS-PIMENTA
et al., 2020) que se convertem em produtos oriundos de suas formações continuadas, como
107
os programas de mestrado profissional, e que geram retornos concretos para os receptores
desses cuidados.
O fortalecimento mútuo dos saberes é imprescindível para o processo, visto que aspectos
relacionados ao não conhecimento sobre o processo de gravidez, por exemplo, atuam como
obstáculos para o preparo do parto (LIVRAMENTO et al., 2019). Logo, a assistência PN deve ser
ampla a ponto de abranger o acolhimento e reconhecimento das necessidades da gestante e não
restrita à realização de consultas e solicitação de exames (LIVRAMENTO et al., 2019). Além de
serem habilitados para acompanhar gestações de baixo risco por meio das consultas PN,
profissionais enfermeiros também preparam a família para a percepção de eventuais riscos à
mãe e ao bebê ao longo do processo gestacional.
Essa preparação se dá por meio do ensino da identificação de sinais e sintomas que
podem antecipar complicações, embora mesmo com essa aprendizagem ainda seja notória a
necessidade do repasse de mais informações por meio da ampliação do número de atividades
educacionais ou mesmo pelo aperfeiçoamento da divulgação e organização dessas ações (DE
OLIVEIRA; DE SOUSA BRITO; GIOTTO, 2018), expondo a carência do serviço público por
produtos acadêmicos que favoreçam a melhoria dessa realidade.
O acompanhamento pré-natal busca assegurar o desenvolvimento saudável da gestação
e possibilitar o nascimento de um bebê saudável, com preservação da sua saúde e da saúde de
sua mãe, por meio de ações preventivas. Estudos têm demonstrado que o pré-natal qualificado
se associa à redução de desfechos perinatais negativos, como baixo-peso e prematuridade, além
de reduzir as chances de complicações obstétricas ― como eclâmpsia, diabetes gestacional e
mortes maternas (MARQUES et al., 2021).
Nesse contexto, observa-se que o aperfeiçoamentoprofissional e reflexivo do enfermeiro
pode ser de expressiva relevância para o acompanhamento dessas gestantes dentro de uma
metodologia multidisciplinar, com potencialde obter o bem-estar e equilíbrio da gestante e do
bebê ao longo dos perecimentos terapêuticos, implementando abordagens educativas e de
conscientização sobre os riscos da hipertensão e suas implicações negativas para a gestação
(QUEIROZ, 2020).
A situação torna-se complexa ao considerar as dificuldades inerentes ao exercício
concreto da atenção básica à população gestante. Muitas das dificuldades estão relacionadas
com a região de moradia das usuárias, condições de deslocamento, assiduidade dos
profissionais ao trabalho, estrutura adequada da unidade, características importantes na
108
perspectiva das gestantes, uma vez que em zonas rurais são diminuídas ou mesmo inexistentes
em pequenos municípios (UCHOA et al., 2011).
Nesse sentido, o profissional atuando como agente comunitário de saúde (ACS) ganha
importante destaque, à medida que a visita domiciliar aparece como uma possibilidade que visa
mitigar as dificuldades inerentes ao perfilde usuários da zona rural. A visita é a ligação concreta
entre a população e os serviços de saúde,bem como uma forte abertura de tais serviços à parcela
da população assistida pelas equipes (COSTA, 2014).
É importante ressaltar que todo este processo é mais eficaz a partir da interação
harmoniosa entre gestante, sistema de saúde, família e profissionais de saúde atuantes no âmbito
da atenção primária. Infelizmente, a realidade de muitas gestantes ainda envolve a realização
do pré-natal sem acompanhamento, com pouco ou nenhum amparo dos demais membros da
família ou pessoas com vínculos de outra natureza que possam orientá-las (MEDEIROS et al.,
2020). Essa realidade pode ser incluída na pauta das discussões e reuniões internas das próprias
equipes de Estratégia de Saúde da Família, com o foco de intervir concretamente na eliminação
de eventuais obstáculos que possam manter os membros familiares distante do processo de
gestação da futura mãe.
Cabe aos profissionais de saúde comunicarem-se de forma clara, objetiva e
compreensível, no intuito de sempre averiguar se as gestantes estão sendo compreendidas,
através de questionamentos diretos. Observa-se com destaque a inclusão de tecnologias digitais,
como aplicativos para celulares desenvolvidos especialmente para a atenção PN, visando ao
estreitamento de contato entre as receptoras dos cuidados em saúde e os profissionais
promotores de tais serviços (QUEIROZ et al., 2021). Essa interação é um ponto-chave para que
as gestantes compreendam sobre os cuidados durante e após a gestação e também a
importância da atenção ao PN regular. Assim, facilitará o acontecimento de uma gestação
saudável, diminuindo fatores de riscos e agravos no período gravídico e puerperal
(LIVRAMENTO et al., 2019).
A atenção pré-natal apresenta um componente de educação em saúde que precisa ser
fortalecido e qualificado quanto à sua operacionalização, visto que o foco está mais direcionado
aos problemas e não nas formas de evitá-los, e tais orientações, muitas vezes, só ocorrem
mediante questionamentos de gestantes (CAMPOS et al., 2016). É por esse motivo que
proporcionar ambientes favoráveis às reuniões e conversas entre elas mesmas e também entre
elas e os profissionais é tão importante, à medida que permite que as opiniões acerca de suas
próprias situações de saúde durante a gestação sejam ouvidas, muito embora os próprios
109
profissionais enfermeiros aleguem seguir um roteiro mecanizado e inicial de consulta, que
possui pouco questionamento sobre os desejos, medos e ansiedades dessa nova etapa da vida
das usuárias dos serviços de saúde que se encontram grávidas (CAMPAGNOLI; DA SILVA;
RESENDE, 2019). Isso torna necessário que diminuam a distância entre a realidade e o ideal a
ser praticado.
De acordo com Piccinini et al. (2012, p. 30) é importante
Avaliar sistematicamente a assistência pré-natal às gestantes. Isto pode ser feito
abrindo-se um espaço para escutar essas gestantes e também osprofissionais
envolvidos na assistência. Estas informações são muito importantes para que se
aprimore o pré-natal, se possa conhecer as motivações das gestantes que não
aderem a ele, e se consiga oferecer um pré-natal de qualidade em termos
médicos e psicológicos, para todas as gestantes. Compreender este período, não
só é de extrema relevância para as questões imediatas de saúde da própria
gestante e do bebê, mas também para a própria maternidade, paternidade e
desenvolvimento do bebê.
A percepção da gestante precisa ser contextualizada em uma nova realidade, visto que
muitas mulheres não entendem a importância do processo de PN adequado, mesmo com a
preconização do Ministério da Saúde. Dessa forma, se faz necessário instruí-las sobre o que é
a atenção pré-natal por meio de estratégias de educação em saúde (ANDRADE, 2019, p. 60).
Convém ressaltar que o baixo índice de escolaridade apresentado pela maioria das gestantes
usuárias de serviços de saúde pública, como os oferecidos pelas ESF, não é um fator limitante
no que se refere às capacidades de compreensão e convicção de tais gestantes de que o
acompanhamento de sua gravidez, por meio da atenção pré-natal, é extremamente importante
(DA SILVA et al., 2021), o que fortalece a ideia de que a conscientização dessas pacientes se
torna poderosa ferramenta de promoção de saúde e qualidade de vida.
Para que a gestante se sinta segura, é fundamental incluir no planejamento de cuidados
à mulher elementos que considerem aspectos voltados não apenas às suas necessidades, mas
especialmente às suas expectativas e que o profissional tenha um olhar sensível a tais demandas,
com vistas a não omitir nenhum elemento importante para ofertar o cuidado (GUERREIRO et
al., 2012).
Tal atitude pode contribuir com os processos de educação em saúde e percepção das
gestantes. Assim, fica evidente que a participação dos profissionais de saúde no processo de
esclarecimento e educação em saúde não deve se concentrar apenas no repasse de informações
e conhecimentos regulares, mas também ir ao encontro dos anseios e necessidades concretas
que, muitas vezes, possuem prioridades bem maiores nas vidas dessas gestantes em relação aos
110
demais conteúdos, estabelecendo condições plenas de promoção de saúde a partir de uma ação
humanizada e compatível com a realidade local.
A participação em grupos de gestantes, por exemplo, fornece espaço de partilhas entre
pessoas em situações semelhantes, nas quais podem aprender juntas, relatar suas experiências
e também ser orientadas por profissionais (LIVRAMENTO et al., 2019). Gestantes que
frequentam grupos podem receber mais informações ― acerca, por exemplo, dos cuidados, da
amamentação, do parto e dos sinais de parto ― que aquelas que não os frequentam, sentindose mais empoderadas e seguras com o processo (LIVRAMENTO et al., 2019).
Visando amplificar a participação dos órgãos competentes em projetos que aproximem
as políticas públicas das comunidades, alguns instrumentos apresentados pelas autoridades e
membros de saúde, como a caderneta da gestante, podem ser bastante úteis para o
acompanhamento das futuras mães e de suas famílias, embora tais instrumentos não estejam
imunes a alterações nem sempre bem-vistas pela totalidade de especialistas no assunto. Tido
como um instrumento de acompanhamento pré-natal destinado inicialmente aos profissionais
de saúde e às mulheres gestantes que realizam consultas na rede pública de saúde e usam os
serviços do SUS, atualmente a caderneta da gestante tem uma carência de estudos sobre suas
influências concretas na assistência dessas gestantes, bem como de gestação como um todo (DA
COSTA et al., 2020).
Além disso, observa-se uma significativa onda de críticas aos novos aspectos
acrescentados na versão mais atualizada da caderneta, que contempla pontos controversos e
dignos de discussão, como a menção à manobra de Kristeller, método que foi banido pela OMS,
por ser considerada uma violência obstétrica (NASCIMENTO et al., 2021) e categorizada como
uma ferramenta danosa para as eventuais usuárias que porventura sejam atendidas com base
nela (FLAESCHEN, 2022). Nesse sentido, elaborar instrumentos com uma apreciação ampla das
especialidades, de modo que se tornem concretamente elementos beneficiadores, tanto das
usuárias quanto das equipes de saúde que as atenderão, é primordial.
Uma observação detalhada dos fatores determinantes de impacto direto nos
instrumentos e programas desenvolvidos para benefício da saúde coletiva é fundamental, visto
que, além de instrumentos como a caderneta das gestantes, outras estratégias, como a rede
cegonha, criada para 2011, para o enfrentamento à mortalidade das gestantes (GIOVANNI,
2014), estão constantemente expostas às modificações arbitrárias e nem sempre benéficas para
a população, a depender das gestões em vigor.
111
É nesse contexto que se inserem as Unidades de Saúde. Luz, Aquino e Medina (2018), em
sua investigação sobre as características da estrutura das unidades de saúde e dos processos
gerenciais e assistenciais da atenção pré-natal (APN) no âmbito da APS no Brasil, observaram
um panorama abrangente em relação aos municípios que aderiram ao Programa Nacional de
Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ-AB).
A estrutura das unidades básicas e as ações prestadas pelas equipes não obedeciam à
maioria dos padrões. Nesse sentido, a pesquisa mencionada revela a existência de barreiras e
problemáticas na oferta de ações assistenciais que garantam atenção integral e de qualidade no
ciclo gravídico-puerperal, repercutindo na melhoria dos indicadores de saúde materno-infantil
(LUZ; AQUINO; MEDINA, 2018).
Além disso, através da descrição de indicadores da qualidade da atenção PN no Brasil,
no âmbito do PMAQ-AB, estudos observam que as desigualdades sociais presentes nas vidas
das gestantes interferem na qualidade e no acesso à atenção pré-natal (TOMASI; FACCHINI;
DILELIO, 2017). Apesar disso, a maioria dos trabalhos relacionados ao tema trata
principalmente dos fatores estruturais da atenção, e não da percepção das gestantes sobre o
atendimento, reiterando a importância dessa investigação.
Ademais, no ano de 2019, foi estabelecido um novo modelo de financiamento da APS, o
“Previne Brasil”, no qual o pagamento se dá por desempenho da equipe de saúde com base em
sete indicadores que envolvem as ações saúde da mulher, pré-natal, saúde da criança e doenças
crônicas (hipertensão arterial e diabetes melittus) (BRASIL, 2019). Os indicadores
estabelecidos relacionados ao PN são:
I - Proporção de gestantes com pelo menos 6 (seis) consultas pré-natal
realizadas, sendo a 1ª até a 20ª semana de gestação; II - Proporção de gestantes
com realização de exames para sífilis e HIV; III - Proporção de gestantes com
atendimento odontológico realizado (BRASIL, 2019, p. 172).
É conveniente salientar que uma análise sobre os indicadores de PN com base no
Programa Previne Brasil é algo complexo, visto que a procura das gestantes por atendimento e
acompanhamento PN em 2020 foi alterada por medo de contaminação, tendo em vista que o
Ministério da Saúde considerou as gestantes um grupo de risco de infecção pelo novo
coronavírus (DA SILVA1; DA SILVA; DE ANDRADE, 2022). Até mesmo indicadores com
resultados positivos, como a redução da contaminação de sífilis pelas gestantes, pode ter sido
influenciado pelas medidas de confinamento estabelecidas pelas autoridades sanitárias
112
durante a pandemia e não necessariamente serem frutos da implementação do programa
(OLIVEIRA, 2022).
Seta, Ocké-Reis e Ramos (2021) apontam a preocupação com a possibilidade de
desfinanciamento da APS diante do contexto de repasse financeiro no Previne Brasil, mediante
cadastramento de indivíduos nos serviços e não através do piso fixo da atenção básica e outros
incentivos financeiros destinados à APS. Os autores alertam ainda para a possibilidade de
rompimento com o ideário central da APS, que é o vínculo com a comunidade e a atuação
integrada e cooperativa entre a equipe de saúde.
Soma-se a este cenário o fato de que, uma vez que as políticas de saúde pública são parte
dos serviços governamentais integrantes das obrigações do Estado, elas sofrem influências
significativas no que se refere aos conflitos internos das diversas hierarquias da administração
pública que priorizam a perpetuação da exploração das classes desfavorecidas, além da própria
organização da sociedade (MACHADO; ZANETTI, 2022); que não possui, por si só, condições de
reivindicar plenamente seus direitos de modo direto, podendo gerar um cenário em que a
privatização da saúde a nível nacional seja um ponto iminente.
O acolhimento da gestante na Atenção Primária à Saúde pressupõe a integralidade do
cuidado, através da recepção, da escuta qualificada e da formação de vínculo (CAMPOS et al.,
2016). Visto isso, esse contato acolhedor é imprescindível para o estabelecimento e/ou a
potencialização do vínculo das gestantes com o serviço de saúde e seus profissionais e, assim,
para possibilitar uma atenção pré-natal de qualidade à gestante e ao bebê (LIVRAMENTO et al.,
2019). Além de todo o benefício gerado pelo processo, o fortalecimento do vínculo com a
gestante através de atitudes de relacionamento não demanda gastos adicionais, do ponto de vista
financeiro.
Atitudes como acolhimento e escuta qualificada são as ações que as gestantes
esperam dos profissionais que atendem o pré-natal. Tais elementos,conhecidos
como tecnologias leves, fazem a diferença no cuidado. As tecnologias leves são
conhecidas como as tecnologias das relações e não demandam avanços
tecnológicos no processo de cuidar. Elas são importantespara o fortalecimento
das relações interpessoais e ainda são recomendadas pelo MS. É necessário que
a equipe de saúde esteja sensibilizada para a importância da orientação junto à
gestante, permitindo que as mesmas não desistam do acompanhamento
durante o pré-natal. Possibilita ainda, esclarecer aspectos como aleitamento,
sinais de trabalho de parto, alimentaçãosaudável, norteando as mulheres sobre
os cuidados que devem ter com sua saúde e com o recém-nascido durante esse
período (ORTIGA, 2015, p. 618).
Dessa forma, percebe-se como o cuidado no acompanhamento da gestação transcende o
aspecto meramente técnico ― embora este não deixe de ser relevante, mas entende-se que, na
113
garantia de uma assistência qualificada, é importante sua realização em consonância com o
acolhimento, a comunicação e a promoção à saúde para reunir as dimensões preconizadas para
uma atenção integral.
Dar voz às gestantes permite que elas se expressem de modo diretoe autêntico, indicando
o que consideram pontos positivos no atendimento ― como o acolhimento, os esclarecimentos
de questionamentos e o reforço de laços sociais para com as equipes de enfermagem; assim
como os pontos negativos, a exemplo de eventuais demoras para realização das consultas ou
salas de esperas inadequadas (RAMOS et al., 2018), mostrando com clareza que a temática da
observação do posicionamento dessas mulheres é merecedora de permanente evidência entre
os estudos científicos da área de saúde.
3. METODOLOGIA
TIPO DE ESTUDO/ DELINEAMENTO
O delineamento do estudo é do tipo qualitativo descritivo, tendo como participantes da
pesquisa gestantes assistidas por uma equipe de ESF da UBS Branca II, pertencente à zona rural
do município de Atalaia, Alagoas, Brasil. A interpretação dos fatos será apresentada pela
pesquisadora tendo como fontes de dados as percepções das participantes a partir de um
enfoqueindutivo, contando com diversas técnicas de apreensão de dados.
LOCAL E PERÍODO DO ESTUDO
O estudo foi realizado na UBS Branca II, localizada no distrito de Branca de Atalaia, que
pertence à zona rural do município Atalaia/AL, durante o ano de 2022. A UBS conta com 01
equipe da ESF, com o total de 2.244 habitantes adscritos sendo distribuídos em um total de 06
microáreas, das quais 02 compostas por áreas de fazendas. Atalaia é um município localizado
no leste de Alagoas (Figura 1), pertencente à microrregião da Mata Alagoana, com população
estimada de 47,3 mil pessoas em 2020 (IBGE, 2021).
Convém ressaltar que a atenção primária do município possui condições de atendimento
às gestantes com risco habitual com o acompanhamento PN sem intercorrências significativas,
ficando reservado ao PN de alto risco a transferência para os hospitais de referência da capital
Maceió para atendimento de média e alta complexidade, com os especialistas em obstetrícia e
demais especialidades que se fizerem necessárias.
114
A população do munícipio é composta por aproximadamente 49% de habitantes da zona
rural e 51% residentes da área urbana, com uma proporção de pessoas com trabalho formal em
2020 de aproximadamente 9% e com percentual de 50,5% da população com rendimento
nominal mensal per capita de até 1/2 salários-mínimos em 2010, perfil que inclui o município
na zona metropolitana de Alagoas (IBGE, 2022).
Além disso, Atalaia possui projeção de salário médio de 1.8 salários-mínimos; com
expressivos destaques para admissões em setores como lojas de materiais de construção e
estabelecimentos de reparação de máquinas e equipamentos (CARAVELA DADOS E
ESTATÍSTICAS, [s.d.]). Com uma área de 533km², Atalaia dispõe de uma considerável
necessidade de transportes e meios que favoreçam o deslocamento dapopulação, sobretudo da
região rural para a urbana e intermunicipal, chegando a apresentar deslocamentos entre as
residências e o local das unidades de saúde com distância superior a 10quilômetros. Em relação
ao perfil dos profissionais de saúde alocados nas equipes ESF, tais trabalhadores são compostos
por médicos predominantemente contratados, favorecendo a inconstância da permanência de
tais profissionais na unidade, e também por enfermeiros efetivados mediante concurso público,
que, por sua vez, têm mais condições de estabeleceruma constância significativa em seus postos
de trabalho.
Figura 1 – Localização do município de Atalaia, Alagoas, Brasil, 2021
Fonte: Marcos Elias de Oliveira Júnior (2021).
PARTICIPANTES DO ESTUDO
Foi usada amostra por conveniência, composta por 09 gestantes assistidas pela equipe
de ESF Branca II, que foram selecionadas por terem idade igual ou superior a 18 anos;
115
acompanhadas no pré-natal de baixo risco; com idade gestacional mínima de 28 semanas; e por
terem realizado no mínimo 03 consultas de pré-natal com a equipe ESF em questão.
CRITÉRIOS DE INCLUSÃO
Foram adotados os seguintes critérios de inclusão: gestantes com idade igual ou
superior a 18 anos; acompanhadas no pré-natal de baixo risco; com idade gestacional mínima
de 28 semanas; e que tenham realizado, no mínimo, 03 consultas de pré-natal com a equipe da
ESF emquestão.
CRIÉRIOS DE EXCLUSÃO
Gestantes que fazem acompanhamento de pré-natal com outras equipes de ESF.
PROCEDIMENTOS PARA COLETA DE DADOS
As gestantes foram abordadas durante as visitas à UBS. Durante o contato foi explicado
sobre a pesquisa, sempre reiterando a não obrigatoriedade de sua participação. Das que
aceitaram participar, foi solicitada a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
(TCLE), mediante aceitação de todos os itens constantes no documento.
A princípio, os dados foram coletados por intermédio da caderneta da gestante, de onde
foram obtidas informações para a caracterização delas. Em seguida, procedeu-se uma
entrevista aberta, versando sobre a estrutura física da unidade de saúde, processos de trabalho,
resultados, percepções e expectativas das gestantes (Figura 2), conforme descrito no roteiro de
entrevista individual para gestante participante da pesquisa.
Figura 2 – Fluxograma da sequência do procedimento de coleta de dados
Fonte: elaborado pela autora com dados da pesquisa (2021).
116
As entrevistas foram realizadas obedecendo as orientações sanitárias exigidas em
decorrência da pandemia de Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) e agendadas a partir de
contatos prévios, em dias e horários específicos, de forma individual, com as participantes.
Foram realizadas em uma das salas da ESF em questão, tendo em vista a garantia da privacidade
e do sigilo.
Cada entrevista durou em média 20 minutos; todas foram audiogravadas, de modo que
os depoimentos foram registrados na íntegra e posteriormente transcritos, conforme seu
consentimento.
Para evitar viés e constrangimento no recebimento das informações através das
entrevistas, optou-se que elas fossem realizadas por uma pessoa que não trabalhasse na
unidade de saúde.
ANÁLISE DE DADOS
A análise dos dados foi composta de quatro fases, subdivididas em algumas etapas
analíticas. Na primeira foi realizada a identificação da unidade de contexto, na qual foi feita a
transcrição literal dos depoimentos para uma planilha (CORREIA, 2020). A segunda fase
consistiu na elaboração de uma segunda planilha, na qual foram armazenadas as ideias
explícitas (categorias provisórias) e implícitas (focos) com a identificação dos sentidos,
considerando os três princípios do método de Malheiros (2011).
O princípio um refere-se à exclusão, ou seja, quando um dado ou um conjunto de dados
pertencer a uma categoria, será automaticamente excluído das demais (CORREIA, 2020). O
princípio dois está relacionado à pertinência: nesse caso, quando um dado não pode ser
integrado a uma categoria por falta de escolha, é necessário que ele seja pertinente à categoria
na qual foi enquadrado (CORREIA, 2020). Por fim, o princípio três diz respeito à objetividade:
quando se liga um dado a uma categoria, é imprescindível que ele esteja claro para evitar
influência da subjetividade na organização dos resultados da pesquisa (CORREIA, 2020).
Na terceira fase foi construída uma terceira planilha, com o intuito de responder à
pergunta da pesquisa por meio das unidades de registro, em que se relaciona a fala com o foco
ou tema. Essa fase teve como objetivo identificar se a inferência obtida fez sentido (CORREIA,
2020). Nesse momento, exemplifica-se no texto como se chegou ao resultado, sendo a unidade
de registro uma palavra ou frase.
Na quarta fase foram elaboradas duas planilhas (CORREIA, 2020): em uma foram
interpretados os focos e suas unidades de registros, finalizando com a elaboração de síntese
117
para cada foco; na outra constou a elaboração de ideias que correspondem às categorias e
respectivas subcategorias (CORREIA, 2020).
ASPECTOS ÉTICOS
O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal
de Alagoas (UFAL), sendo aprovado sob o processo de número 53063121.1.0000.5013.
4. RESULTADOS
Os resultados do trabalho foram estes: a idade das entrevistadas variou de 18 a 35 anos.
55,6% destas não chegaram a concluir o ensino fundamental, duas estudaram até a 6º e 5ª série
do Ensino Fundamental e afirmaram não saber ler. O que implica dizer que muitas delas só têm
informação sobre prevenção e concepção ou pré-natal a partir do posto de saúde.
Ainda, 94,5% das gestantes pesquisadas se declaram desempregadas. No que se refere
à renda familiar, 11,1% das gestantes declaram não possuir renda; 44,4% declararam ter renda
de R$ 150 a R$ 600; e 44,4% declararam possuir renda maior que R$ 1.000.
No que se refere à cor autorreferida, 94,5% das gestantes se declaram negras ou
morenas. Sobre o planejamento da gestação, 88,8% não a planejaram, sendo que 22,2% das
gestantes são primigestas, 44,4% são secundigestas e 33,3% são multigestas, não constando
nenhum relato de aborto. 66,6% das gestantes relataram que tiveram partos normais e apenas
uma relatou partocesáreo, dessas 77,7% realizaram a primeira consulta de pré-natal dentro do
1º trimestre da gestação entre a 6ª e a 12ª semana gestacional e 22,2% das gestantes com 15
semanas gestacionais.
Até a data das entrevistas, as gestantes tinham realizado 51 consultas, sendo 42 delas
pela enfermeira e 09 pelo profissional médico, com uma média individual por gestante que
variou de 4 a 8 consultas, cuja idade gestacional (IG) variou entre 29 semanas (33,3% das
gestantes)e 66,6% das gestantes com IG entre 30-36 semanas gestacional. 66,6% das gestantes
apresentavam alterações no Índice de Massa Corporal (IMC) ― sendo 33,3% baixo peso, 11,1%
sobrepeso, 22,2% com obesidade, apenas 33,3% das gestantes estavam com peso adequado
para a IG.
As narrativas foram organizadas em categorias e subcategorias, a saber:
118
Quadro 1 – Categorias e subcategorias de análise
Categoria
Subcategoria
Atendimento
1. Acesso à UBS
Acolhimento
2. Cuidado recebido na UBS
3. O parto
Satisfação do cuidado
Importância do pré-natal
Expectativa do parto
Fonte: elaborado pelas autoras com dados da pesquisa (2022).
Entendemos o acesso à UBS como uma prática essencial e diretamente relacionada à
questão do acolhimento nos serviços de saúde. Sobre o atendimento oferecido pela UBS
analisada, em geral foi relatado que o atendimento do posto é bom, apesar de algumas
divergências de opinião sobre a percepção do atendimento recebido. Todavia, algumas queixas
foram relatadas quanto ao atendimento do agente de saúde, demonstrando que este não tem
agido de acordo com os pressupostos de suas funções. Outros aspectos relacionados ao acesso
referem-se ao acolhimento na recepção às gestantes, à rotatividade de funcionários e à
organização na ordem dos atendimentos às demandas. Há divergência de percepções quanto a
essa organização, pois na UBS é utilizado o sistema de classificação de risco para priorização
dos atendimentos, além de estratégias para evitar a abstenção das consultas semanais,
priorizando os atendimentos das gestantes que estão mais perto de parir.
No que se refere à marcação das consultas como forma de atendimento, em resumo, as
gestantes consideram fácil marcá-las, principalmente por conta do grupo de WhatsApp criado
pela enfermeira, que trata de assuntos inerentes ao pré-natal. Tendo em vista que o cuidado
oferecido pelo pré-natal é parte vital de uma gravidez saudável, e que um pré-natal inadequado
pode gerar efeitos adversos ao feto e à mãe, ressalta-se que boa parte da literatura a respeito
do tema foca nos aspectos estruturais da atenção. A percepção da gestante precisa ser
contextualizada em uma nova realidade, visto que muitas mulheres não entendem a importância
do adequado processo de PN, mesmo com a preconização do Ministério da Saúde.
Outro aspecto significativo na dimensão da satisfação do cuidado é o uso da caderneta,
pois os acompanhamentos da gestação e do bebê são apresentados como função da caderneta
pelas gestantes. Algumas delas colocam que a caderneta/cartão da gestante é um documento
importante, que serve para levar para a maternidade e tem sua importância na construção do
conhecimento acerca dos assuntos inerentes ao PN.
119
Na UBS analisada foi observado como ponto importante para subsidiar essas falas o fato
de que a enfermeira prescreve páginas da caderneta da gestante durante as consultas para que
elas possam ler e discutir na próxima consulta. A literatura científica que discute os efeitos
positivos da caderneta da gestante demonstra como esse documento possui informações
completas e de fácil acesso sobre a gestação. Nesse sentido, a caderneta é fundamental para
registrar procedimentos e exames realizados, sendo, portanto, essencial no monitoramento da
evolução da gestação.
No que se refere à importância do pré-natal em relação ao cuidado, fora elencado que os
exames e consultas são essenciais nesse processo. Das gestantes estudadas, 44,4% relataram ter
dificuldade de compreender o que foi dito, tendo em vista a quantidade de informações
passadas. As demais conseguem entender e aplicar esses ensinamentos.
No que se refere ao parto, tem-se como questões mais evidentes: o acompanhamento
recebido durante o pré-natal, como elemento de segurança, um suporte informacional de
preparação para o momento do parto em si; o medo da demora de parir; a percepção sobre parto
normal e sobre a cesariana. Algumas gestantes demonstraram optar pela cesárea como forma
de realizar a laqueadura tubária. Os resultados indicam que, no geral, a expectativa do parto é
de que ocorra tudo bem, que seja tranquilo, já que estão sendo bem acompanhadas na UBS.
Todavia, existem sentimentos e emoções contraditórios, como o medo de ser encaminhada para
outros locais de atendimento ao parto e serem submetidas a situações de sofrimento.
A maioria delas deseja que seu parto seja normal. Na UBS estudada, gestantes com mais
de 36 semanas gestacionais são convidadas, com o acompanhante de sua escolha, para uma
visita à maternidade. Assim, o presente estudo demonstrou a importância do pré-natal e de um
acolhimento multiprofissional para as gestantes, bem como para sua rede de apoio. Portanto,
facilitar o acesso à informação sobre o pré-natal torna-se primordial para um bom
desenvolvimento da gravidez, do parto e do nascimento.
Pode-se mencionar, diante dos relatos das gestantes que aceitaram participar do estudo,
que o pré-natal foi reconhecido como um momento de acolhimento, por possibilitar o diálogo
e permitir a livre expressão de dúvidas, de sentimentos e de experiências. Foi possível perceber
que a empatia das gestantes com os profissionais da UBS interfere na forma como elas
percebem a assistência recebida. Assim, o fornecimento de apoio e a escuta ativa realizada pelos
funcionários da UBS é entendida como algo que qualifica o atendimento recebido.
O estudo salientou ainda a necessidade de compreensão, por parte dos profissionais da
área da saúde atuantes neste serviço, de um atendimento mais afetuoso na UBS. Outro aspecto
120
evidenciado diz respeito às informações que devem ser repassadas às gestantes como forma de
qualificar a assistência em qualquer nível de atenção à saúde.
O estudo possibilitou, em certa medida, avaliar o serviço e demonstrar aspectos que
necessitam de reorganização e melhorias, além de explicitar itens sintonizados com as
expectativas das gestantes. As demandas apresentadas exigem dos profissionais envolvidos a
busca por referenciais éticos e humanísticos alinhados às expectativas e necessidades das
gestantes.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A atenção pré-natal dispõe de um componente de educação em saúde que precisa ser
fortalecido e qualificado em sua operacionalização, visto que o foco está mais direcionado aos
problemas, nas formas de evitá-los, e que tais orientações, muitas vezes, só ocorrem mediante
os questionamentos de gestantes.
O PN para as gestantes acontece na relação profissional-usuária. Este é um processo que
tem como norte o alcance da qualidade dos cuidados em saúde para a mãe e o feto, assistência
que é feita através do diálogo e do compartilhamento de informações. A percepção é mais
satisfatória, no que concerne ao acolhimento, respeito e compromisso dos profissionais médicos
e enfermeiros, quando compreende as orientações compartilhadas durante as consultas.
O fortalecimento mútuo dos saberes é imprescindível para o processo, visto que aspectos
relacionados ao desconhecimento sobre o processo de gravidez atuam como obstáculos, por
exemplo, para o preparo do parto. Logo, a assistência PN deve ser ampla a ponto de abranger o
acolhimento e reconhecimento das necessidades da gestante e não restrita à realização de
consultas e solicitação de exames.
O acompanhamento pré-natal, por meio de ações preventivas, busca assegurar o
desenvolvimento saudável da gestação e possibilitar o nascimento de um bebê saudável, com
preservação de sua própria saúde, bem como a de sua mãe. Os achados da pesquisa têm
concordado com outros estudos que abordaram a mesma perspectiva, principalmente no que
serefere ao atendimento durante as consultas de pré-natal.
Em sua maioria, as entrevistadas comentam que receberam uma boa assistência dos
profissionais envolvidos. Ainda em relação à qualidade da assistência, verificou-se que algumas
delas expressaram insatisfação com o pré-natal, em relação ao cuidado médico oferecido na
unidade básica, pela baixa quantidade de consultas realizadas.
121
Nesse sentido, adquire relevância o proposto no produto técnico apresentado,
auxiliando na configuração de instrumento para o planejamento de todo o atendimento
envolvido no parto e no pós-parto, de modo a considerar as necessidades e os interesses de cada
gestante atendida. Constitui ainda uma estratégia de empoderamento e participação mais
horizontal da mulher nos processos de cuidado postos pela condição de parturiente, além de
reforçar o caráter humanizado necessário nesse processo.
Isso porque a aproximação das necessidades mais específicas da grávida, garantindo
as condições necessárias para tornar a experiência do parto mais leve e sadia, é de suma
relevância. Assim, incluir tal recurso na rotina de consultas PN promoverá um incremento
concreto de qualidade no atendimento a partir de uma concepção decuidado com a paciente
para além de sua condição de gestante.
Desse modo, melhorias são necessárias nas ações de educação em saúde, nas orientações
e na divulgação de informações nos encontros entre gestantes e profissionais de saúde, pois um
dos fatores que influenciam as gestantes para a não adesão ao pré-natal é o acolhimento
realizado de forma inadequada. Daí a importância de estudar a percepção que as gestantes têm
sobre o pré-natal.
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122
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126
CAPÍTULO VIII
ACOLHIMENTO E ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO EM UMA
UNIDADE DE SAÚDE DA FAMÍLIA
DOI: 10.51859/amplla.csf447.1123-8
Luís Felipe Soares de Lima Silva
Divanise Suruagy Correia
Maria das Graças Monte Mello Taveira
1. INTRODUÇÃO
A Atenção Primária à Saúde (APS) se constitui como porta de entrada do Sistema Único
de Saúde (SUS), momento no qual devem ocorrer os primeiros contatos de usuários e da
comunidade com profissionais de saúde. Por isso, é fundamental que todos os trabalhadores
que atuam na Atenção Primária sejam capacitados e treinados para oferecer um serviço de
qualidade e excelência, sendo o acolhimento parte importante desse processo (BRASIL, 2017).
De acordo com os princípios do SUS, bem como sua Política Nacional de Humanização
(PNH), o acolhimento é uma diretriz do modelo técnico assistencial, cuja proposta é reorganizar
e reorientar a assistência nos serviços de saúde para garantir o atendimento humanizado, a
resolubilidade das questões do usuário e assegurar o acesso universal. Não se restringe à
recepção do usuário, pois engloba todo o contexto da atenção assim que este adentra ao sistema
de saúde (COUTINHO; BARBIERI; SANTOS, 2015; FRANCO; BUENO; MERHY, 1999; SILVA;
DAVID; ROMANO, 2020).
O processo de trabalho na APS se inicia com o acolhimento, escuta e resposta para
grande parte dos problemas de saúde da população4. É um modo de atuar composto por ações
desenvolvidas por equipe multiprofissional, responsável por determinada população inserida
em um território.
A avaliação ou classificação de risco é definida como a estratificação, por meio de
protocolos, do potencial risco ou agravo à saúde do usuário. Nela é definida a prioridade do
atendimento, baseada na necessidade apresentada pelo usuário. Essa ferramenta é uma
maneira de fortalecimento do princípio da equidade, no qual a maior atenção deverá ser
dispensada a quem mais necessitar naquele momento (BRASIL 2013).
127
A demanda espontânea é um dos modos de um usuário procurar uma unidade básica de
saúde. Esse modo contempla quem não tem consulta agendada para aquele dia, mas necessita
de uma avaliação da equipe de saúde. Está geralmente relacionado às condições ou agravos de
natureza agudas na saúde, bem como às eventualidades de um tratamento iniciado na UBS
(BRASIL, 2011).
Assim, o acolhimento e classificação de risco da demanda espontânea pode ser uma
maneira de favorecer o cuidado integral, por meio de fortalecimento de vínculo do usuário com
a equipe, e, por conseguinte, contribuir para a adesão ao tratamento e continuidade da
assistência.
Este artigo tem como objetivo responder a seguinte pergunta: como ocorre o processo
de acolhimento e classificação de risco, em relação à demanda espontânea, em uma Unidade de
Saúde da Família de uma cidade do interior de Alagoas?
2. MÉTODO
Trata-se de um estudo exploratório, descritivo de análise qualitativa, realizado em uma
Unidade Básica de Saúde (UBS) situada em uma cidade do interior do estado de Alagoas,
Nordeste brasileiro. Participaram do estudo todos os dez profissionais que trabalhavam na
equipe da ESF na UBS e que estavam em atividade no período da pesquisa. Os dados foram
coletados em dezembro de 2020, por meio de entrevista presencial e individual, observados os
padrões sanitários vigentes, considerando-se a pandemia de COVID-19, sendo efetuadas por
uma pessoa capacitada para tal, não participante da pesquisa, para que não houvesse viés.
O instrumento utilizado foi a entrevista livre cujo roteiro, elaborado pelos
pesquisadores, continha questões sobre o processo de acolhimento na UBS como: razões da
procura da UBS pela população, como as pessoas eram recebidas, como era o acolhimento,
problemas identificados na execução do acolhimento, sugestões para solução dos problemas,
qual o fluxo do paciente na UBS, o que é classificação de risco, como deve ser feita e como
acontece na unidade pesquisada. As entrevistas foram gravadas e transcritas para análise dos
dados.
Cada entrevistado foi codificado segundo sua função exercida na UBS, sem identificação,
para que não houvesse quebra de sigilo. Os ACS foram codificados pelas siglas de AC1 a AC7, as
enfermeiras como ENF1 e ENF2 e a técnica de enfermagem como T1; a numeração não
correspondeu à ordem em que foram entrevistados. O médico na equipe é um dos
pesquisadores, por isso não consta sua categoria entre os profissionais.
128
A análise dos dados ocorreu de forma manual e conforme as orientações (MALHEIROS,
2011), seguindo quatro fases para elaboração das categorias.
A primeira fase consistiu na organização dos dados, quando foram identificadas as ideias
emergidas das respostas à questão norteadora. Nessa fase também foi realizada uma préanálise, por meio de leitura aprofundada, visando criar as categorias – que não foram
previamente elaboradas. A fase em questão corresponde à identificação da unidade de
contexto, para a qual todos os dados foram transcritos em um quadro para transcrição das
respostas, processada em ipsis literis.
A fase seguinte correspondeu à criação do segundo quadro, em que foram descritas as
ideias explícitas (categorias provisórias) e implícitas (focos) e a posterior identificação dos
sentidos, considerando os três princípios (MALHEIROS, 2011). O primeiro princípio
corresponde à exclusão, de forma que, quando um dado ou conjunto de dados for pertinente a
uma categoria, será excluído automaticamente das demais. O segundo princípio é o da
pertinência, que consiste no fato de que, quando não pode ser adicionado a uma categoria por
falta de escolha, é fundamental que o dado seja pertinente à categoria selecionada. O terceiro
princípio é o da objetividade: quando um dado é ligado a uma categoria, é fundamental que
esteja claro para que não haja influência da subjetividade na organização dos resultados da
pesquisa.
A terceira fase procurou responder à pergunta da pesquisa por meio das unidades de
registro, relacionando a fala com o foco ou o tema. Nessa fase foi verificado o sentido da
inferência obtida, bem como foram buscados no texto exemplos que confirmem como se chegou
ao resultado que é a unidade de registro (palavra ou frase).
A quarta fase consistiu na elaboração de outros dois quadros. O primeiro contendo a
interpretação dos focos e suas unidades de registros, com posterior elaboração de síntese para
cada foco, e o segundo correspondendo à elaboração de ideias pertencentes às categorias e suas
respectivas subcategorias.
O projeto de pesquisa foi encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e aprovado
inicialmente sob o parecer de número 3.976.586 e CAAE 30523720.6.0000.5013. Em razão da
pandemia da COVID-19, houve sugestão de alteração do procedimento de coleta de dados, feita
emenda com as alterações recomendadas, com nova aprovação sob o parecer de número
4.198.138.
129
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Após análise dos dados, emergiram duas categorias: Acolhimento e Conhecimento da
Classificação de Risco, sendo a primeira categoria composta por quatro subcategorias que estão
descritas no quadro 1.
Quadro 1 – Categorias e subcategorias encontradas
Categorias
ACOLHIMENTO
Subcategorias
No processo de trabalho
Fluxo de acolhimento na UBS
Educação em Saúde como ferramenta
Dificuldades de realização
CONHECIMENTO DA CLASSIFICAÇÃO DE RISCO
Fonte: Elaborado pelos autores (2021).
3.1 Categoria 1: Acolhimento
Enquanto diretriz operacional baseada nos princípios do SUS, o acolhimento foi descrito
de forma pioneira (FRANCO; BUENO; MERHY, 1999), e nessa publicação, houve o enfoque na
universalidade do acesso, a reorganização dos processos de trabalho com o deslocamento do
eixo centrado no médico para uma equipe interdisciplinar e multiprofissional. Como
consequência dessa mudança, haveria uma escuta mais qualificada, melhoria do vínculo entre
profissionais e usuários e resolubilidade das questões do usuário, com um olhar mais humano,
solidário e empático (MITRE; ANDRADE; COTTA, 2012).
Mais tarde, em 2003, com o surgimento da Política Nacional de Humanização (PNH) da
Atenção e Gestão do SUS – Humaniza SUS, o acolhimento é fortalecido oficialmente pelo
Ministério da Saúde. Na PNH o acolhimento é uma diretriz de grande relevância para o pleno
funcionamento do SUS, no qual todos os atores envolvidos no processo de produção de saúde
são protagonistas e os serviços de saúde são reorganizados com base na problematização dos
processos de trabalho (MITRE; ANDRADE; COTTA, 2012).
Ainda na PNH, o acolhimento deve ser realizado em todos os níveis de atenção à saúde.
No caso estudado, a Atenção Primária, sua prática visa promover a ampliação ao acesso,
buscando a eliminação de lista de esperas e filas, com uma atenção embasada na classificação
de riscos e adequação da capacidade resolutiva (BRASIL, 2013b; MORELATO et al., 2021).
130
Nesse sentido, a organização da APS a partir do acolhimento requer que os profissionais
ponderem sobre quais serviços a UBS tem ofertado para atender às demandas de saúde da
população daquele território (SILVA; DAVID, 2021). Devem ser definidos quais profissionais da
equipe irão receber o usuário, como eles serão avaliados em vulnerabilidade e risco, quais
fluxos e protocolos serão utilizados para encaminhamento e a maneira como será organizada a
agenda dos profissionais.
Componente indispensável para a assistência em saúde, o acolhimento também
contribui para o fortalecimento do vínculo entre profissional e usuário e favorece a adesão ao
tratamento, aspectos importantes para a relação de cuidado e para a continuidade da
assistência (BRASIL, 2013; COUTINHO; BARBIERI; SANTOS, 2015; MITRE; ANDRADE; COTTA,
2012).
A seguir, apresenta-se o detalhamento sobre acolhimento nas quatro subcategorias:
Acolhimento no processo de trabalho
Esta subcategoria traz a questão do Acolhimento no Processo de Trabalho da UBS
estudada. As falas a seguir exemplificam a subcategoria:
Então o meu acolhimento eu sempre pergunto; Como você está? como tem
passado os dias? como é que está a família? Tudo para depois tentar saber qual
é o problema, seja físico, o que é que levou a procurar a Unidade de Saúde de
fato? [...] às vezes é preocupação, alguma situação familiar. E se a gente não
acolher, não tiver o cuidado de ter esse olhar, esse olhar como um todo, de a
gente ver uma pessoa como um todo. (ENF1)
O paciente quando chega na UBS quando eu estou aqui na UBS, sempre eu dou
atenção a ele. Por conta que, querendo ou não, se não tem uma atenção de outro
profissional, eu como Agente de Saúde daquele paciente, eu vou lá acolho
aquele paciente. (ACS2)
A PNH enfatiza o preparo e qualificação dos trabalhadores como fundamental no
processo de acolhimento dos usuários na UBS. Nesse aspecto, é essencial a qualificação
contínua e apropriação de conteúdos no dia a dia em uma UBS, seja do cotidiano da prática
clínica, de gerenciamento ou de educação (BRASIL, 2013b; MORELATO et al., 2021).
Na mesma direção, o acolhimento deve pôr em evidência os profissionais ACS e os
Agentes de Vigilância em Saúde (AVS), fundamentais para a criação e fortalecimento do vínculo
profissional com a comunidade. Os ACS são fundamentais na identificação e diagnóstico na
situação de saúde, bem como no planejamento baseado na realidade local, além de serem
importantes para a integralidade da atenção, principalmente em serviços cujo foco recai no
indivíduo, na família e na comunidade (SILVA; DAVID, 2021).
131
Neste estudo houve destaque para os tipos de patologias acolhidas pelos profissionais e
a procura dos usuários pela UBS, quando prioritariamente para um acolhimento relacionado à
saúde mental. Foi recorrente nas falas a afirmação da busca, por parte dos usuários, pelo
atendimento médico sem aparente queixa física, mas com necessidade de acolhimento por um
profissional, e que isso lhes traria diminuição de seu sofrimento mental:
“Tenho percebido que eles procuram porque simplesmente quer conversar [...]
às vezes é uma carência de ter uma conversa, às vezes é um problema em casa,
com a família, e só quer sair dali e quer alguém para conversar”. (T1)
Na verdade, elas procuram quando elas se sentem assim, [...] e está passando
por um problema em casa. Não tem com quem se expresse na maioria das vezes.
As pessoas não buscam uma consulta médica e sim uma pessoa para conversar
e eu já vi acontecer muito isso. Aí vem para conversar com o médico, se acalmar
mais. (ACS5)
Cerca de 25% da população mundial é acometida de algum transtorno mental em alguma
fase da vida, e tal situação pode corresponder a 20% de toda a demanda da APS. Dessa forma,
deve-se oferecer acolhimento integral, entendendo o ser humano como um ser indissociável de
seu contexto social, político, histórico, familiar e ambiental (PEREIRA; AMORIM; GONDIM,
2020).
É importante ressaltar que a pandemia de COVID-19 demandou a reorganização das
agendas dos profissionais, bem como da maneira como as atividades são realizadas, tendo
impacto direto em todas as ações rotineiras de uma UBS, incluindo o acolhimento (ENGSTROM,
et al., 2020) Além de provocar na comunidade, e na população em geral, alterações relacionadas
à saúde mental.
A sobrecarga de trabalho, a escassez de equipamentos de proteção individual e a
disponibilidade de drogas específicas para combater a COVID-19 são fatores que podem
contribuir para o esgotamento mental dos trabalhadores da saúde (LAI et al., 2020) , além de
transtornos como: depressão, ansiedade, insônia e estresse nesses profissionais (AKINTUNDE
et al., 2021).
Um estudo de Brooks et al. (2020) definiu quarentena como a separação e restrição do
movimento de pessoas expostas a uma doença contagiosa para verificar se elas adoecem e, por
conseguinte, reduzir o risco de infecção de outras pessoas. Ainda de acordo com o referido
estudo, os principais agentes estressores em relação à população ligados à quarentena são:
duração incerta; o medo da infecção (de se contaminar e de contaminar os outros); a frustração
e o sentimento de isolamento do resto do mundo; recursos insuficientes (financeiros,
132
alimentares ou de vestuário) e informação inadequada, confusa ou insuficiente (por parte das
autoridades públicas).
Além do descrito, foi evidenciada, neste estudo, a importância do papel da UBS no
acolhimento de pacientes com outras condições de adoecimento, principalmente as doenças
crônicas (grupos prioritários), que podem ter o quadro agravado na ausência de assistência
devida. Essa evidência surgiu por meio das seguintes falas:
O pessoal está procurando mais questão de gestante, realização do pré-natal e
mulheres, muita procura de mulher, aumentou de um jeito, em questão de
saúde sexual e reprodutiva. Tem muita gente procurando para a citologia, para
vários fatores. E acho que mais principalmente, a questão de hipertenso e
diabético. Eu acho que é assim. (ENF1)
“A maioria procura porque elas precisam de atendimento por conta de
problemas de saúde, mesmo como hipertenso, diabético e as gestante”. (T1)
O paciente também procura a Unidade para ser ouvido e acolhido em todas as suas dores
(físicas, psicológicas e sociais), uma vez que todos os problemas de saúde derivam de um
ambiente que pode predispor ou causar enfermidades (STARFIELD, 2002). Esse fato evidencia
a necessidade de que seja acolhido por meio da atenção integral e o papel da UBS como
ordenadora da Rede de Atenção à Saúde (RAS) para dar resposta adequada, contínua e eficaz
às necessidades dos usuários (BELFORT; COSTA; MONTEIRO, 2021; CABRAL et al., 2020).
A Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) reafirma o papel fundamental da APS
como centralizadora das ações da RAS. Acolher o usuário integralmente pode significar o
envolvimento de outro setor ou dispositivo não pertencente ao quadro das secretarias de saúde
(BRASIL, 2017; PEREIRA; AMORIM; GONDIM, 2020).
A variedade de questões, pretextos e propriedades dos indivíduos que buscam o
acolhimento demanda respostas diferentes da equipe. Para os profissionais, o acolhimento é
tido como componente importante para organização da demanda e do processo de trabalho,
que requer empenho e atenção deles (SOUZA et al., 2008).
Subcategoria: Fluxo do acolhimento na UBS
Observa-se nas falas dos profissionais que o fluxo do acolhimento na UBS ocorre, na
maioria das vezes, em um primeiro momento, na recepção, seguindo o fluxo com o usuário
encaminhado para a triagem e depois ao profissional médico, enfermeiro ou cirurgião dentista:
“O primeiro acolhimento dele é na recepção, a recepção é o coração, né? Começa
por lá, depois a triagem. Depois vai para a sala do médico, da enfermeira, do
dentista”. (ACS1)
133
De início vem através do Agente de Saúde, que marca a consulta do paciente,
principalmente nesse período de COVID-19 né? O ACS marca a consulta do
paciente na visita na casa dele, o paciente quando chega na Unidade passa pela
recepção, depois vai para triagem se for atendido pelo médico ou pela
enfermeira ou por outro profissional qualquer, da triagem vai para profissional.
É um procedimento muito simples, não é dificultoso para paciente entender e
eu acredito que é uma forma bem favorável para o atendimento do paciente.
(ACS2)
Há um fluxograma padrão definido para os usuários assistidos na Atenção Primária.
Parte-se do pressuposto de que o primeiro contato do usuário acontece com a recepção e que,
caso aconteçam situações imprevistas, deve-se dispor de local adequado para investigação,
percepção e posterior tomada de decisão (acolhimento). Destaca-se, ainda, a necessidade de
um contexto envolvendo: tipo da equipe envolvida nesse acolhimento, número de equipes de
AB na Unidade e capacitação técnica do profissional envolvido (BRASIL, 2011).
O profissional ligado ao fluxo de acolhimento deve ter a capacidade de escutar e analisar
todas as demandas, compreender a oferta de serviços da UBS e dialogar com outros
profissionais da Unidade. Deve sempre levar em consideração a necessidade do usuário e
acolhê-lo naquele momento (BRASIL, 2011).
Esse acolhimento pode acontecer em diversos locais, e na UBS pesquisada, por exemplo,
inicia-se na recepção. Contudo, encontramos citação da realização também em outro local,
como na visita domiciliar, conforme observado na fala do ACS 2.
Nesse sentido, o acolhimento não é atividade exclusiva de uma profissão determinada.
Todos os profissionais devem estar capacitados e comprometidos com a população, seja qual
for sua área de atuação (COUTINHO; BARBIERI; SANTOS, 2015). Da mesma forma, não deve ser
feito apenas na entrada do serviço de saúde, corroborando as falas mencionadas.
Assim, o acolhimento não deve se limitar a um espaço físico ou a uma mudança na
postura profissional, pois engloba organização multidisciplinar, análise aprofundada para
refletir e problematizar os processos de trabalho, tempo e remuneração adequados para as
intervenções, além de infraestrutura apropriada para garantir o êxito da intervenção clínica.
É interessante que os profissionais conversem e definam a forma como os diversos
profissionais deverão participar do processo de acolhimento como quem vai receber o usuário,
como aferir o risco e a vulnerabilidade, qual o tempo de agendar consulta médica, sendo
imperativo aumentar a competência clínica da equipe para escutar de forma ampliada,
distinguir riscos e vulnerabilidades (BRASIL, 2011; SILVA; DAVID, 2021).
134
Educação em saúde como ferramenta de acolhimento
Os entrevistados apontaram a necessidade de a população ser orientada e informada a
respeito do que é acolhimento, reconhecendo que surgem, nos espaços da Atenção Básica,
oportunidades para que seja realizada a educação em saúde como ferramenta de acolhimento:
[Devemos] explicar [...] como deve ser feito o acolhimento. Eu acho que vai ter
muita gente que não vai saber [...] não tem nenhuma luz, um início de que
caminho se deve tomar para isso, para esse acolhimento, porque eu acho que é
muito abrangente, envolve muitas coisas. Então acho que a primeira
necessidade é explicar, eles terem o conhecimento do que é que é. Eu acho que
a maior necessidade é essa. (ENF1)
O que é que tem? [...] como podemos aprender? como são as demandas? e assim
a gente vai trabalhando de forma que deixe claro a todo mundo porque muitas
vezes o paciente vem aqui [...]. E não sabe como funciona [...]. Mas quando a
gente faz uma sala de espera que explica que tem essa demanda que tem aquela
outra [...]. Vai ter uma resposta, já acalma mais as pessoas e sabe que existe uma
atenção, apesar de não poder fazer tudo naquele momento, mas existe uma
atenção ali que vai chegar ao seu atendimento. Ele [o paciente] não se sente
meio esquecido. (ACS7)
O conceito de educação em saúde foi pauta de debates internacionais e nacionais desde
as Conferências de Alma-Ata (1978) e Ottawa (1986), ambas enfatizando a promoção da saúde
e assistência primária. No Brasil, a partir da Reforma Sanitária nos anos 1980 do século
passado, surgiu uma nova perspectiva da educação em saúde, com um olhar voltado para a
melhoria da qualidade de vida das pessoas por meio do compartilhamento de saberes entre os
profissionais de saúde e a população (OLIVEIRA; WENDHAUSEN, 2014).
Essa aproximação entre profissionais de saúde e população é materializada pela
Estratégia de Saúde da Família (ESF), responsável pela execução, organização e fortalecimento
da APS. Seu eixo norteador é a PNAB, cujas diretrizes envolvem práticas orientadas por
necessidades locais e regionais, pelos determinantes sociais em saúde, considerando o
indivíduo inserido em seu contexto familiar e comunitário (CABRAL et al., 2020).
A educação em saúde é um meio de trabalho que auxilia a reflexão sobre a realidade,
ações necessárias para obter uma vida saudável e sobre si mesmo, principalmente no contexto
da ESF. A literatura apoia a fala dos entrevistados, evidenciando a participação dos
profissionais nas atividades de educação em saúde como forma de acolhimento aos usuários:
Fazemos também sempre sala de espera na unidade para esclarecer a todos
como é que funciona o acolhimento naquela unidade. O que é que tem? o que é
que... como podemos aprender? como são as demandas? e assim a gente vai
trabalhando de forma que deixe claro a todo mundo porque muitas vezes o
paciente vem aqui [...] e não sabe como funciona (ACS7).
135
“[Os profissionais] são bem participativos. Tem um ou outro que é mais
[participativo] [...]. Mas no geral, sempre quando tem alguma coisa na unidade,
eu vejo todos eles engajados”. (ENF1)
Dificuldades na realização do acolhimento
Nesta subcategoria identificamos vários fatores citados pelos pesquisados que
interferem ou dificultam a realização do acolhimento. Foram citados como entraves na
realização na UBS: o número escasso de funcionários, dificuldade de parceria e relacionamento
entre os componentes da equipe, dificuldade em passar informação para os usuários pelos
pesquisados, além da ausência de educação continuada que possibilitasse a qualificação dos
profissionais. Alguns exemplos:
O problema é muitos usuários e poucos profissionais para acolherem. E às vezes
o profissional não consegue separar problemas pessoais e acaba interferindo
diretamente no usuário. Uma coisa que eu aprendi é que o usuário está sempre
certo, desde que eu tenho que me preocupar em mostrar para ele para ele
identificar que ele pode até estar equivocado, mas eu acho que o maior
problema é esse: é a comunicação entre o profissional que acolhe e o usuário.
(ENF2)
Há necessidade de aumentar o número de funcionários. Porque um técnico eu
acho pouco. Porque no acolhimento quem mais fica na verdade é a categoria de
enfermagem que mais acolhe. Para o profissional médico, o paciente já vai feito
todo o pré-acolhimento. Então hoje nossos profissionais apesar de um número
reduzido acolhem muito bem, mas nós necessitamos de melhorias. (ENF2)
Apesar do acolhimento ser algo inerente ao ser humano, ainda não é possível defini-lo
com clareza. Seu conceito está ligado mais à prática concreta do que apenas ao discurso
(BRASIL, 2011). Deve ser compreendido, acima de tudo, como um processo de trabalho e
garantir a escuta de todos os usuários com atenção e responsabilização, o estabelecimento de
uma relação de vínculo com estes, bem como deslocar o eixo centrado no médico para o de uma
equipe multiprofissional. É fundamental que seja pautado por princípios de solidariedade,
ética, humanização e empatia (COUTINHO; BARBIERI; SANTOS, 2015; LACERDA, A. S. B. et al.,
2019).
Importante destacar que a enfermagem tem se mostrado essencial para a ampliação e
concretização da ESF, em sua proposta de reorganização do modelo de atenção à saúde no
Brasil. Esses profissionais apresentam atribuições que vão desde a organização das atividades
de acompanhamento do usuário até a execução da assistência ao indivíduo, família e
comunidade. Devem, fundamentalmente, buscar essa atuação de forma acolhedora (LACERDA
et al., 2021; MORELATO et al., 2021).
136
Outro aspecto de possível identificação nas falas é que a dificuldade de parceria entre
os componentes da equipe é um dos fatores que dificultam a realização do acolhimento
adequado pela equipe da ESF. Essa dificuldade na parceria se manifesta quando não há a
cooperação dos profissionais nos momentos em que o cargo e/ou função não são determinantes
na escuta. Um trabalho em equipe exige que todos os profissionais de saúde se auxiliem em suas
atribuições em uma UBS.
“Para ser uma boa equipe, todos tem que trabalhar unidos, né? Independente
de qualquer situação. Mais compreensão, mas parceria. Isso que faz uma equipe
andar uma equipe fazer um bom trabalho é a parceria, a união, a força”. (ACS3)
Um ambiente de trabalho em saúde contempla várias atividades diferentes. A associação
de saberes, a parceria e harmonia no ambiente de trabalho são fundamentais para a prática
dessas atividades, visando sempre a cooperação interprofissional para potencializar as ações
de promoção de saúde (ARRUDA et al., 2018).
Para que essas ações obtenham êxito, elas demandam articulação intra e intersetorial
em um ambiente saudável e foco na equidade. Esse estímulo à cooperação visa ampliar a
atuação da equipe de saúde sobre os determinantes condicionantes de saúde e estão de acordo
com as diretrizes da Política Nacional de Promoção da Saúde (BRASIL, 2014).
A falta de informação e consequente dificuldade de relacionamento com os usuários
surgiu no estudo como fator impeditivo da realização de um bom acolhimento. Essa afirmação
é corroborada pela seguinte fala:
Eu acho que precisa muito de uma boa atenção, precisa mais de atenção, de mais
informações, de estar transmitindo aquelas informações aos pacientes para eles
[se] sentirem mais à vontade. Seja na demora, seja na questão da entrega de
uma medicação, na questão da parte do curativo, na parte da triagem. Estar
sempre passando informação porque assim não é um bom acolhimento, não
temos isso. (ACS6)
A comunicação é apontada como instrumento essencial para o cuidado em saúde, pois
gera impacto nas relações interpessoais, tanto entre profissionais quanto com os usuários.
Ruídos e falhas na comunicação podem ocasionar situações de conflito, insatisfação com o
atendimento e baixa adesão ao tratamento. Por outro lado, a comunicação eficaz promove
fortalecimento de vínculo e confiança repercutindo na qualidade da assistência (COUTINHO;
BARBIERI; SANTOS, 2015; DECETY, 2020).
Na percepção dos entrevistados, a qualificação profissional é um fator preponderante
em relação ao acolhimento em uma UBS. Esse fato pode denotar uma deficiência da gestão na
137
oferta de qualificação com relação ao processo de acolhimento para os profissionais ora
pesquisados:
Eu acho que a capacitação é um pilar muito importante porque nós sabemos
principalmente quem está diretamente na área da saúde que o talvez hoje fosse
o certo amanhã já isso já pode ter uma outra visão e precisasse mudar. A gente
necessita capacitação para os profissionais. (ENF2)
Eu sinto a necessidade de uma capacitação para os recepcionistas que estão
recepcionando as pessoas. [...] no meu ponto de vista um profissional para
trabalhar na recepção ele tem que estar bem qualificado porque está lidando
com muitas opiniões, pessoas diferentes, pessoas que vem realmente porque
estão necessitando. (ENF2)
A qualificação profissional possibilita uma atuação adequada em qualquer assistência, o
que demonstra sua importância na área da saúde (COUTINHO; BARBIERI; SANTOS, 2015). Por
sua vez, o acolhimento se destaca na qualificação do atendimento ofertado na área da saúde. A
multiprofissionalidade e intersetorialidade andam juntas para possibilitar ao usuário um
atendimento integral e justo.
A integralidade deve ser sempre incluída na qualificação das práticas na APS. Por meio
dela, amplia-se o olhar para o indivíduo além da prática curativa, por considerar o usuário
inserido em um contexto social, familiar e comunitário. É fundamental a articulação integrada
entre todos os dispositivos de produção de saúde do território para contemplar as necessidades
dos usuários (STARFIELD, 2002).
Assim, os dados demonstram a necessidade de educação permanente para todos os
profissionais, particularmente aqui, no tocante ao processo de acolhimento nas UBS. A
padronização da informação e o uso de uma linguagem adequada a cada usuário é fundamental
para que haja melhoria nas condições do atendimento e acolhimento fornecidos, bem como
para tornar o ambiente de trabalho seguro para o profissional de saúde com a adoção de
protocolos assistenciais (DECETY, 2020).
Apesar de toda literatura sobre o tema, ainda é dito que o processo de acolhimento não
está definido integralmente nos modelos de atenção à saúde (COUTINHO; BARBIERI; SANTOS,
2015); sendo essa uma provável justificativa para as dificuldades encontradas em sua execução.
Categoria 2: Conhecimento sobre a classificação de risco
A classificação de risco surge como uma categoria que se evidencia desconhecida em
seus princípios, até mesmo sua ausência foi citada por parte de alguns entrevistados, como
vemos nas falas a seguir:
138
Então o que é que eu percebo? não tem essa classificação de risco, tem a questão
de prioridades. Por exemplo: se tiver uma gestante, ela vai primeiro, se tiver um
idoso, ele vai primeiro. Se alguém tiver com uma dor muito forte ele vai
primeiro. Mas eu vejo que é questão de preferências [preferencial] e não de
classificação de risco. (ENF1)
“Na verdade, pelo meu conhecimento e pelo que eu vejo aqui na unidade aqui
não é feito nenhuma classificação de risco”. (ACS2)
“Na reunião de equipe nunca foi falado de classificação de risco não. É aquele
azul, vermelho, não é isso? Não tem classificação de risco aqui não”. (ACS5)
Foram descritos alguns procedimentos que são aplicados, considerando-se situações de
maior vulnerabilidade, no direcionamento do fluxo a ser seguido pelo usuário, não sendo
considerados os princípios da classificação e risco estabelecidos pela PNH:
Eu atendo por ordem. Mas no caso, se alguém chegar a passar mal, tem alguma
coisa que eu observe que está mais precisado eu peço para vir na frente. E se
realmente precisar passar no médico antes, eu explico para as outras pessoas
perguntam se pode. Porque eu não tenho esse direito de colocar, mas assim eu
pergunto essa pessoa está assim, está precisando, vocês permitem? Permitem,
beleza, tudo bem! (T1)
Quando o usuário chega e ele tem situações de saúde diferenciadas quando
alguém chega com dor, desconforto e outra pessoa chega com outro problema,
manchas. Como fica a organização desse atendimento? Se é um idoso, gestante,
há alguma classificação sobre quem precisa de uma atenção mais imediata ou
não. A assistência é mais rápida. (ACS6)
A classificação de risco é uma ferramenta que garante o acolhimento do cuidado
imediato do usuário com grau de risco elevado; fomenta informações sobre a condição de saúde
e o tempo de espera; propicia trabalho em equipe; melhora as condições de trabalho por meio
de discussão e implantação do cuidado horizontalizado; aumenta o contentamento dos
usuários e promove acordo entre os serviços da rede assistencial (BRASIL, 2013b). Conceito
desconhecido pela maioria dos entrevistados, considerando suas colocações.
Nesse mesmo sentido, a classificação de risco é um dispositivo de fortalecimento da
equidade. Por meio de treinamento e protocolo estabelecido, a ordem do atendimento deve ser
definida pela condição clínica ou agravo que demande prioridade – ou seja, deve priorizar a
atenção a quem mais precisar naquele momento. Parte integrante do acolhimento constitui elo
fundamental da assistência à saúde (COSTA et al., 2018; MORELATO et al., 2021).
A classificação de risco é primordial para a reorganização do modelo de atenção
burocrático e baseado apenas na ordem de chegada dos usuários nas UBS. Por meio da
classificação de risco, pode-se contemplar as especificidades e definir prioridades de
139
atendimento, garantindo a efetividade do atendimento, melhoria da rede assistencial e inclusão
do usuário na entrada do sistema de saúde (MORELATO et al., 2021).
Não foi observada essa compreensão nas falas da maioria dos profissionais
entrevistados, com apenas um demonstrando compreender o real motivo da aplicação da
classificação de risco em uma UBS – um indicativo da necessidade de revisão do processo de
aprendizagem sobre classificação de risco.
Já existe uma classificação disponível que relaciona a avaliação do risco e
vulnerabilidades. Nela são descritos os modos de intervenção necessários e as situações são
classificadas em não agudas e agudas, sendo aplicadas as condutas correspondentes. Nos casos
de não agudas, devem-se proceder orientações e agendamento de intervenções. O atendimento
deve ser imediato nos casos de alto risco de morte. Para os casos de risco moderado, o
atendimento deve ser feito com prioridade e no mesmo dia; em casos de vulnerabilidade ou
risco biológico aumentados, a atenção deve ser priorizada (BRASIL, 2011).
O entendimento do fluxo de acolhimento com classificação de risco é limitado para os
profissionais entrevistados. Foi explicitado apenas o passo a passo do usuário na UBS, iniciando
com sua chegada, acesso à recepção e encaminhamento ao atendimento pelo profissional de
saúde; indicando haver desconhecimento de um fluxograma estabelecido pelo Ministério da
Saúde desde 2011.
Para operar na classificação de risco, o profissional de saúde precisa ter capacitação
específica e aplicar o protocolo preestabelecido. A falta de treinamento pode levar a erros na
classificação dos usuários, provocando falsas classificações e pondo em risco a saúde da
população que procura esse tipo de atendimento. Os entrevistados parecem desconhecer a
existência desta portaria.
Pode-se inferir que a classificação de risco se conforma como uma etapa fundamental do
acolhimento, mas que é necessário apoiar e qualificar os profissionais para que se concretize
essa estratégia, que colabora na organização das redes de cuidado e possibilita que os usuários
sejam acolhidos com resolutividade e humanização.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados mostram que alguns protocolos precisam ser revistos na unidade
estudada em relação ao acolhimento e classificação de risco. Urge oferecer educação
continuada aos profissionais envolvidos para que seja ofertado um serviço mais qualificado aos
140
usuários. Os conceitos sobre o tema pesquisado não são devidamente compreendidos por todos
os entrevistados.
Percebe-se, por meio das falas, o empenho dos profissionais em acolher os usuários, cada
um à sua maneira, a respeito da falta de treinamento específico em acolhimento. Houve ainda a
descrição de procedimentos envolvendo priorização de atendimento aos agravos de grande
vulnerabilidade, direcionando o fluxo de atendimento dos usuários.
Este estudo mostra-se relevante por apresentar uma análise sobre o acolhimento e
classificação de risco em uma UBS na percepção dos profissionais – uma vez que há pouca
literatura disponível sobre essa temática –, o que pode trazer contribuições para a melhoria da
qualidade da assistência ao usuário, promovendo e potencializando uma atenção integral e
mais resolutiva, considerando-se a semelhança de realidades nas UBS da região estudada.
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143
CAPÍTULO IX
DIREITO À SAÚDE DA PESSOA ALBINA: HISTÓRIAS DE VIDA E
ITINERÁRIO TERAPÊUTICO E BUSCA POR AÇÕES DE RUPTURA
DE INIQUIDADES EM SAÚDE EM UM MUNICÍPIO DO AGRESTE
ALAGOANO
DOI: 10.51859/amplla.csf447.1123-9
Luciana Rúbia Pereira Rodrigues
Jorge Luís de Souza Riscado
Maria das Graças Monte Mello Taveira
1. INTRODUÇÃO
O albinismo é uma condição rara, não contagiosa e geneticamente herdada, que ocorre
em todo o mundo, independentemente de etnia ou sexo (OHCR, [s.d.]). Trata-se de um grupo de
anomalias genéticas do sistema de pigmentação melânica que afeta pele, folículos pilosos e
olhos, causando vulnerabilidade à exposição ao sol e se apresentando como estereótipo de pele
extremamente clara, exigindo cuidados delicados e permanentes para não ocasionar doenças
agravantes (BOCARDI, SEVERINO, [s.d.]; BISCARO, 2012).
Há discrições de 19 genes relacionados às diferentes apresentações clínicas do
albinismo, incluindo 7 para o albinismo oculocutâneo (AOC) (MARÇOM; MAIA, 2019),
entretanto, existe um importante número de casos de albinismo ainda sem identificação
molecular, sugerindo que outros genes podem estar envolvidos.
Com o albinismo podem surgir vários problemas de saúde, sendo o principal deles a
baixa visão, além de problemas de pele causados pelo sol, como eritema solar,
fotoenvelhecimento e o câncer de pele, considerado um dos principais problemas enfrentados
pelos albinos. Em algumas situações, é tido como uma deficiência, com a pessoa acometida
sendo julgada incapaz; noutras, é vista sob um olhar místico, pondo os albinos como detentores
de poderes mágicos ou portadores de boa sorte, se oferecidos em sacrifício. Eles chegam a ser
relacionados com algo que traz o mal consigo, devendo, por este motivo, ser eliminados da
convivência social (SOARES; GUIMARÃES, 2014).
144
Os dados estatísticos acerca dos albinos no Brasil são escassos, bem como são tímidos
no país os estudos específicos para o conhecimento das pessoas com albinismo. Os albinos
sequer constam no Censo demográfico do país, o que os torna uma parcela da população
invisível aos olhos do poder público quanto à criação de políticas públicas específicas para sua
condição (BOCARDT, SEVERINO, [s.d.]; BÍSCARO, 2012; CAVALCANTE, 2012; MAIA, VOLPINI,
SANTOS, RUJULA, 2015; SANTOS, PEREIRA, MOREIRA, SILVA, p. 2017).
Estima-se que, para cada grupo de 40.000 nascimentos no Brasil, 01 pessoa nasce com
albinismo, e para a população afrodescendente, a incidência é de 01 para cada 10 nascidos vivos
(RISCADO; OLIVEIRA, 2011). Pressupõe‐se que a incidência seja maior nas regiões com
prevalência da população negra, como é o caso do Nordeste, com destaque para a Ilha de Maré,
na Bahia, e o município de Lençóis, no norte do Maranhão (MARÇON; MAIA, 2019). Existe, em
Alagoas (AL), no município de Santana do Mundaú, uma comunidade quilombola denominada
Filus, constituída de 30 famílias, dentre as quais encontram-se 12 pessoas albinas (RISCADO,
OLIVEIRA, 2011).
As pessoas com albinismo apresentam fragilidades em alguns aspectos da saúde, o que
lhes gera ônus, pois muitas vezes não podem arcar com os custos de um tratamento. Além disso,
como o clima do Brasil é tropical, torna-se ainda mais perigoso para essa população, que, por
ser castigada diariamente pelo forte sol, se enquadra em um grupo de risco pela total
desproteção dos efeitos nocivos da radiação solar (CAVALCANTE, 2012).
Dessa maneira, ao compreendermos, através do itinerário terapêutico, os processos de
busca por cuidado da pessoa com albinismo, podemos apreender com maior precisão os limites
e as dificuldades das linhas de cuidado, além de analisar as redes sociais de cuidado e atenção
à saúde, deslindando o pluralismo terapêutico das intervenções e a diversidade das demandas
por cuidado (GERHARDT, 2006).
Este estudo, por sua vez, descreve o perfil das pessoas com albinismo, os sujeitos da
pesquisa e seus itinerários terapêuticos, para lidar com a saúde e identificar as redes de cuidado
em saúde e sua efetividade.
2. MÉTODO
Este é um estudo do tipo transversal, exploratório, com abordagem qualitativa, que
considera como sujeito a pessoa albina. A pesquisa exploratória pode ser definida como o
estudo preliminar realizado com a finalidade de melhor adequar o instrumento de medida à
realidade que se pretende conhecer (PIOVESAN; TEMPORINI, 1995).
145
O estudo foi realizado no 3º Distrito Sanitário do município de Arapiraca,
compreendendo as áreas de abrangência das Unidades de Estratégia Saúde da Família (USF)
localizadas nas comunidades da zona rural (Sítio Carrasco, Sítio Poção, Vila São José, Vila
Aparecida, Sítios Bom Jardim e Pé Leve Novo) e na zona urbana (Teotônio Vilela, Daniel Houly,
3º Centro de saúde, 4º Centro de Saúde, Arnon de Melo, Planalto e Bom Sucesso), na qual está
inserida a equipe onde a pesquisadora desenvolve as atividades como médica de família e
comunidade.
Foi realizado contato telefônico com gerentes e enfermeiros das USF elegíveis,
solicitando que reunissem as equipes para localizar pessoas com características de albinismo
em suas áreas de abrangência. Após retorno dos gerentes, as pessoas identificadas pelos agentes
comunitários de saúde (ACS) foram contatadas por telefone e, aceito o convite para a pesquisa,
procedeu-se a marcação da data de entrevista, cuja realização foi acompanhada pelo ACS de
referência.
Para a produção de dados, aplicou-se a técnica da entrevista individual, cujo responsável
pela aplicação foi a pesquisadora. Os sujeitos da pesquisa a receberam em seus domicílios,
momento no qual foram informados a respeito dos objetivos da pesquisa, convidados a
participar do estudo e a assinar Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A amostra
foi constituída por conveniência, sendo estimado um quantitativo de 10 pessoas albinas, na
faixa etária de 18 anos e mais, pertencentes ao 3º Distrito Sanitário do município de Arapiraca.
Foi utilizado como instrumento um questionário sociodemográfico, com o propósito de
caracterizar os sujeitos da pesquisa, seguido de um roteiro de questões discursivas, sob a forma
de entrevista semiestruturada, objetivando conhecer a história de vida e o itinerário terapêutico
percorrido pelo sujeito em busca do cuidado em saúde.
Os critérios de inclusão foram: pessoas albinas, de ambos os sexos, que aceitaram
participar da pesquisa e que se encontravam em condições físicas e emocionais para participar,
desde que pertencentes à área de abrangência da Estratégia de Saúde da Família (ESF) do 3º
Distrito Sanitário do município de Arapiraca/AL. Os critérios de exclusão foram: pessoas
albinas que não estivessem em condições físicas, emocionais ou cognitivas para participar.
A análise dos dados seguiu a perspectiva de Bardin, na qual a análise de conteúdo,
enquanto método, torna-se um conjunto de técnicas de análise das comunicações que utiliza
procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens (BARDIN,
2009). Conforme o autor, as diferentes fases da análise de conteúdo organizam-se em torno de
146
três polos: 1. A pré-análise; 2. A exploração do material; e 3. O tratamento dos resultados
corresponde à inferência e interpretação (BARDIN, 2009).
Esta pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) com Seres Humanos da
Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e obteve parecer favorável para sua execução, tendo
seguido todas as recomendações da Declaração de Helsinki e da Resolução da Comissão
Nacional de Ética em Pesquisa (CONEPE) n˚ 466/2012 e 510/16.
3. RESULTADOS
Caracterização da população estudada
Neste primeiro momento foi construído o Quadro 1, que caracteriza os 04 participantes
da pesquisa. Para preservar suas identidades, utilizaram-se os codinomes Gérbera, Rosa, Cravo
e Margarida.
Quadro 1 – Caracterização dos entrevistados
Codinome
Idade
Sexo
Raça
Gérbera
1
Feminino
Branca
Rosa
3
Feminino
Negra
Cravo
5
Masculino
Pardo
Margarida
7
Feminino
Branca
Escolaridade
Nível médio
completo
Nível médio
incompleto
Fundamental
completo
Sem escolaridade
Estado
civil
Idade do
diagnóstico de
albinismo
Solteira
10 anos
Solteira
27 anos
Solteiro
14 anos
Viúva
8 anos
Fonte: elaborado pela 1ª autora.
Na área estudada, pertencente ao 3º distrito, a população estimada é de 55.723 pessoas,
tendo sido identificadas apenas 04 consideradas albinas. Isso corresponde a 0,7% dessa
população, indicando que a condição de albinismo é considerada rara e que nossa estimativa
foi superestimada. No que diz respeito à faixa etária, os pesquisados encontram-se entre 31 e
51 anos. Dentre as pessoas caracterizadas como portadoras de albinismo, 03 são do sexo
feminino e 01 do sexo masculino.
Quanto ao quesito raça/cor das pessoas envolvidas, 01 se considerou negra, 01 parda e
02 brancas. Em relação ao grau de escolaridade, 02 tinham nível médio incompleto, 01 tinha
nível médio completo e 01 não conseguiu se alfabetizar. Sobre o estado civil dos entrevistados,
03 eram solteiros e 01 viúva. Em relação à idade em que tomaram conhecimentode sua condição
147
albina, 01 pessoa recebeu o diagnóstico aos 08 anos de idade, 01 pessoa tomou conhecimento
aos 10 anos de idade, 01 aos 14 anos de idade 01 aos 27 anos de idade.
As entrevistas, por outro lado, contribuíram na tentativa de aproximação das histórias
de vida de algumas pessoas albinas e sua trajetória pela busca de diagnóstico robusto e firme,
para além do quanto o desconhecimento sobre a temática do albinismo reverbera no
afastamento do sítio escolar, promovendo o diagnóstico tardio, bem como a inviabilidade de
um protocolo de referência para assistência e tratamento desde o nascimento.
Desse modo, a partir da análise das narrativas de nossos interlocutores sobre suas
histórias de vida e trajetórias, foram identificadas as seguintes categorias temáticas: (1)
Estigmatização e preconceito; (2) Do acesso à informação aos serviços de saúde; e (3)
[In]visibilidade do sofrimento psíquico.
Estigmatização e preconceito
Esta categoria desvela como a convivência social da pessoa albina requer
conscientização por parte da sociedade, que desconsidera a caracterização desse sujeito que lhe
parece incomum, produzindo estigma devido à cor de sua pele, conforme descrevem as falas
dos entrevistados.
Às vezes me sinto incomodada com a minha cor. Eu me sentia assim porque
todo mundo moreninho né, tudo numas corzinhas, só eu diferente, aí eu me
sentia diferente né, me sentia vergonhosa [...] os meninos me maltratavam,
ficavam me gritando às vezes davam em mim (MARGARIDA, 51 anos).
[...] as pessoas têm preconceito com a minha cor... (GÉRBERA, 31 anos).
[...] às vezes alguns arengava, dizia coisa, dizia que sou branca (ROSA, 47 anos).
[...] era discriminado de vez em quando por alguém né ... por não ter uma pele
que aguenta sol [...] (CRAVO, 45 anos).
Em todas as falas, é possível notar situações geradoras de desconforto com a própria
pele, principalmente por olhares incomodados de quem percebe que neles existe pouca ou
nenhuma melanina e os consideram motivo de repulsa.
É perceptível que os indivíduos tomaram conhecimento do diagnóstico de albinismo
tardiamente, que perceberam ainda muito jovens as restrições às quais estariam expostos,
principalmente em relação à pele, diante da condição albina. Restrições que lhes ditariam a
perspectiva de vida e os transtornos que poderiam desenvolver perante a sociedade, diante do
estigma e do preconceito. Algo que nos remete à importância de um diagnóstico desde o
148
nascimento, ainda na maternidade, e da promoção de aconselhamento aos pais, além de
assistência e tratamento precoces. Isso é reforçado pela seguinte consideração quanto à
perspectiva de vida das pessoas albinas:
Embora a falta de melanina forneça maior suscetibilidade ao câncer de pele
para pessoas com albinismo a seleção natural não age contra o gene do
albinismo a um nível severo. Avanços na saúde pública, aliados à maior atenção
ao albinismo, são fatores que podem contribuir para reduzir asconsequências
deletérias deste distúrbio (MOREIRA; BORGES; PINHEIRO;CECÍLIA, 2019).
Neste contexto, a pessoa albina é, muitas vezes, rotulada diante da sua cor de pele ou de
características físicas incomuns, carregando consigo estigmas que interferem diretamente em
seus relacionamentos e qualidade de vida (SANTOS; PEREIRA; MOREIRA; SILVA, 2017).
Situações como as narradas acima demostram que os aspectos interrelacionais
reverberam em rechaços, atos de violências física e psicológica, podendo, em muitos casos, levar
à deterioração do próprio ser humano enquanto identidade, reconhecendo-se a condição de
vulnerabilidade da pessoa com albinismo em suas relações sociais.
Do acesso à informação aos serviços de saúde
A terceira categoria analítica do estudo traz a discussão da assistência em saúde aos
albinos, a partir da qual pode-se pontuar alguns desafios para a oferta de uma atenção integral
à população com albinismo.
[...] exame de vista, era pra eu ter, marquei tá com dois anos nunca saiu aí eutive
que pagar pra fazer o exame de vista... Às vezes vou de manhazinha marcar
consulta... umas duas vezes que eu fui, marcou pra tarde, mas nunca disseram o
horário de ir mode sol e esperava normal que nem as outras pessoas mesmo,
ficava na fila do mesmo jeito (MARGARIDA, 51 anos).
[...] a assistente da doutora colocou os aparelhos lá no meu olho e disse: pareo
olho, pare o olho! ...eu respondi não consigo parar não, é problema da minhavista,
não é porque eu quero não (CRAVO, 45 anos).
Diante das falas de alguns dos participantes, pode-se pensar como a busca de cuidados
de saúde pelas pessoas albinas constitui mais um desafio para estas, principalmente por se tratar
de uma população dependente do Sistema Único de Saúde (SUS), assim como para os serviços
de saúde, nem sempre preparados para ofertar atenção adequada, integral e equânime.
Tem-se então que a condição de vida e saúde da pessoa albina envolve características
socioeconômicas e de conhecimento sobre o autocuidado, características que classificam essa
população em situação de vulnerabilidade (SANTOS; PEREIRA; MOREIRA; SILVA, 2017).
149
Estudiosos consideram a vulnerabilidade social como um desafio permanente e de longo
prazo que busca dialogar com as políticas públicas e ações em saúde, por parte dos órgãos em
saúde, e as principais dificuldades vivenciadas diante do atendimento à comunidade (RISCADO,
2013). Considerando a vulnerabilidade individual, esta deve englobar a todos para que cada um
possa proteger-se efetivamente do adoecimento ou do fator doença.
Por estar inserida em um contexto de vulnerabilidade, a pessoa portadora de albinismo
deve ser vista como alguém com condições especiais para o acesso aos serviços, em especial os
de saúde pública, considerando o princípio de equidade disposto nas diretrizes do SUS. O que
não foi vivenciado por Gérbera, enquanto criança, segundo a narrativa a seguir:
[...] tinha problema do sol porque quando eu era pequena o meu rosto, braço
tudo era cheio de ferida por causa do sol quente nas minhas costas, porque
naquele tempo não tinha condição de ficar se tratando direto, de estar usando
protetor, pois não tinha no posto onde eu morava ... tenho também problema
de vista, não consigo abrir o olho direito, o exame de vista eu faço particular
porque se for esperar, passa ano porque é pouca vaga (GÉRBERA, 31 anos).
[...] minha mãe fez um empréstimo, não tinha dinheiro a mãe tira mais pra fazer
compra né pra tudo, comprar leite, pagar bujão, pagar energia, mas mesmo
assim ela fez um empréstimo e pagou uma consulta com doutor de pele, foi ele
que fez a queimagem (ROSA, 45 anos).
Os cremes que a doutora passou pra mim é muito caro, não pude comprar ainda
(ROSA, 45).
Nesse contexto, os depoimentos revelam barreiras encontradas pelas pessoas albinas em
seu dia a dia, desde a infância, com relação à obtenção de protetor solar para não queimar a pele
e cuidados com a visão, o que demonstra ainda a dificuldade de acesso às especialidades
médicas necessárias.
O acesso e as informações sobre saúde devem acontecer inicialmente nas Unidades
Básicas de Saúde (UBS) — ou seja, nos territórios onde as pessoas vivem —, de modo que a
busca por tal serviço não ocorra somente quando da apresentação de alguma necessidade ou
complicação, como no caso a seguir.
[...] a atendente veio colocar o aparelho nos olhos e não deu certo e depois a
doutora veio e examinou, e me deu um encaminhamento de vista para ir fazer
um tratamento em Maceió, aí passei por uma avaliação médica (CRAVO, 45
anos).
Conforme o relato de Cravo, observa-se que este só procurou a UBS quando a situação
estava agravada e exigia acessar o serviço especializado, daí a importância da informação
precoce sobre as necessidades de cuidados em saúde referentes à condição de albinismo.
150
Quando não recebem informação sobre o autocuidado, os indivíduos ficam expostos a agravos
como o câncer de pele, por exemplo.
O primeiro médico aqui de Arapiraca eu tava com 27 anos, primeiro médico de
pele era de Maceió aí foi ele que me disse que era albinismo [...] (ROSA, 47 anos).
[...] que eu não usei, se eu tivesse usado (protetor solar) tivesse cuidado da
minha pele não tava assim. Faltou orientação, informação então foi isso tudo
pra mim, que eu nova não sabia de nada, ninguém sabia, ninguém orientou
nada, aí minha pele ficou assim” (MARGARIDA, 51 anos).
É visto que a pessoa albina tem diversas necessidades, pois a ausência da melanina as
torna vulneráveis à radiação ultravioleta A (UVA) e ultravioleta B (UVB). Sendo o Brasil um país
tropical, o albinismo é condição favorável para a ocorrência de câncer de pele — fato este
determinante da necessidade de consultas médicas, do uso de protetor solar fator 30 ou mais
elevado e de que se busque evitar a exposição ao sol em horários mais quentes (SOARES;
GUIMARÃES, 2014). Diante disso, o apoio através de políticas públicas, sejam de intervenção
social e/ou em saúde, é de extrema importância para que a pessoa albina tenha qualidade e
perspectiva de vida (SANTOS; PEREIRA; MOREIRA; SILVA, 2017).
Nota-se, portanto, fragilidades no acesso ampliado aos serviços de saúde no município
para as pessoas albinas, o que se traduz em uma das falas, que descreve o conhecimento da
condição albina como diagnóstico tardio, algo que de fato prejudica o diagnóstico de outras
doenças ou sua prevenção.
Nesse contexto, o fator prevenção é pormenorizado diante da dificuldade de acesso aos
serviços de saúde, mesmo sendo importante para a manutenção da saúde da pessoa albina, bem
como são percebidas as fragilidades no cuidado contínuo ao longo da vida.
As pessoas entrevistadas consideram a possibilidade de avanços no sentido da
acessibilidade e integralidade nos serviços em que se inserem ou a possibilidade de extensão
para outros espaços territoriais além das UBS.
Tá bom, mas não tem prioridade por ser albino. Conseguir protetor solar pela
defensoria duas vezes (CRAVO, 45).
[...] a pessoa pede encaminhamento para dermatologista, aí deixa lá pra marcar,
lá no posto demora, são poucas vagas, deveria ter mais vaga...prioridade pra
pessoa com albinismo (GÉRBERA, 31).
Nas falas dos interlocutores, é possível observar o sentimento de insatisfação, quanto ao
acesso aos insumos e serviços em saúde, entendendo que eles mesmos, enquanto portadores
151
da condição albina, compreendem que se trata de uma prioridade, de forma que Cravo
considerou buscar o protetor solar com auxílio judicial.
A integralidade é um meio de concretizar a saúde como uma questão de cidadania que
envolve compreender sua operacionalização a partir de dois movimentos recíprocos, a serem
desenvolvidos pelos sujeitos implicados nos processos organizativos em saúde: a superação de
obstáculos e a implantação de inovações no cotidiano dos serviços de saúde, nas relações entre
os níveis de gestão do SUS e nas relações destes com a sociedade (PINHEIRO, [s.d.]). Desse
modo, para que os serviços de saúde promovam atenção integral, precisam atender às demandas
e necessidades da pessoa com albinismo desde a prevenção até a assistência curativa, e do
mesmo modo nos demais níveis de complexidade.
As pessoas albinas têm o direito de usufruir dos serviços de saúde disposto atravésdo
SUS, direito cujo conhecimento deve ser difundido através de informação e qualificação
profissional daqueles que recebem a população albina no serviço primário de saúde e demais
serviços.
Com relação aos serviços de saúde, as falas dos interlocutores expressam algumas
recomendações para a assistência às suas necessidades de saúde, enquanto pessoas albinas.
Assim, na minha opinião acho que deveria ter mais acompanhamento de
dermatologista... as pessoas assim, que tem albinismo, deveriam ter mais
cuidado (GÉRBERA, 31 anos).
Eu queria assim... que depois tivesse um tratamento, uma coisa que passasse
pra poder tirar as manchas do meu corpo (MARGARIDA, 51 anos).
[...] que cuidasse desse problema da gente, de pele, que liberasse os protetores,e
sobre a visão também já que não fica bom, que dê o descanso né? (CRAVO, 45
anos).
[...] cuidar muito cedo, eu me cuidei depois que eu vi o câncer de pele (ROSA, 47
anos).
Pelas narrativas, pode-se considerar que a equidade em saúde parece negligenciada no
que se refere às pessoas com albinismo, retratando que muitos profissionais da saúde têm pouco
conhecimento acerca do albinismo, impactando diretamente na acessibilidade e integralidade
do cuidado para as pessoas albinas (BÍSCARO, 2012).
(In)visibilização do sofrimento psíquico
As diferenças apresentadas pelas pessoas portadoras de albinismo e suas necessidades
especiais provocam situações de adaptação social que, por vezes, não são aceitas, levando ao
152
desgaste emocional e psíquico desses indivíduos. Em virtude disso, eles se tornam pessoas que
buscam a igualdade de direitos, incluindo aqueles relativos à saúde.
Era muito ruim ser discriminado pelos outros... entrei em depressão, foi quando
comecei a beber com força... aí veio o problema né? Cheguei até de modo a
querer me matar (CRAVO, 45 anos).
[...] sofri esses bullying na escola, me apelidava, me sentia magoada né? (ROSA,
47 anos).
[...] o povo falava que era doença... não me conformei, eu queria ser moreninha
que nem todo mundo (MARGARIDA, 51 anos).
Parece-nos que a necessidade de atenção à saúde mental também é revelada frente aos
percalços vivenciados pela pessoa albina, pois quando não encontra respaldo diante das
dificuldades que lhes são impostas, o albino tem sua condição de vida comprometida, como
discorrido nas narrativas anteriores.
As fragilidades pela possível discriminação e bullying emergentes nas falas dos
interlocutores impactam na saúde mental deles. Como revela estudo no contexto da expectativa
de vida (MARÇON; MAIA, 2019), pessoas albinas costumam evitar o convívio social, sentindose rejeitadas e parecendo mais emocionalmente instáveis, com personalidade menos assertiva,
por considerarem a sociedade menos sensível diante de seu modo de ser.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Através dos diálogos estabelecidos, percebe-se que as pessoas com albinismo vivenciam
diversos obstáculos ao longo de suas vidas para alcançar o direito à saúde no sentido amplo,
demonstrando a fragilidade do conhecimento da temática pelos serviços de saúde utilizados
pelos entrevistados.
A condição de saúde da pessoa albina reflete uma condição socialmente determinada
quando observado que seus direitos se tornam alheios, caracterizando sua invisibilidade social.
Evidencia-se, portanto, a falta de conhecimento teórico e habilidades técnicas de profissionais
de saúde, provocando um diagnóstico tardio, tanto da condição genética quanto das possíveis
complicações que o albinismo pode provocar. Foi possível identificar que os albinos do 3º
distrito de Arapiraca contam com pouco, seja diante da precariedade de políticas públicas que
abordam sua condição de saúde ou mesmo quanto à ineficácia de ações públicas que apoiem a
pessoa albina frente à sua qualidade de vida. Nesse contexto, os itinerários apresentados
apontam fragilidades, colocando-se como parte de uma problemática que os transcende.
153
Diante do exposto, é necessário dar visibilidade à pessoa albina como ser humano que
necessita de oportunidades em condições especiais, permitindo que tal população seja amparada
em suas necessidades básicas através da assistência em saúde, garantindo-lhe melhor
qualidade de vida.
Sendo assim, o presente estudo reconheceu as desigualdades em saúde produzidas pela
falta de políticas públicas direcionadas a esse grupo populacional e que atendam suas
necessidades. Podemos concluir que o resultado do estudo serve para fomentar intervenções
necessárias na área da saúde, com ênfase nas pessoas na condição de albinismo no município
de Arapiraca/AL.
Por fim, deve-se salientar que este estudo apresenta como limitação inicial a escassez da
literatura sobre a temática do albinismo; outra limitação importante se refere à amostra, quese
apresenta reduzida, além da restrição a apenas um distrito sanitário. Entretanto, destaca-se a
importância de realização de novas pesquisas, ampliando para a perspectiva dos trabalhadores
de saúde e gestores de serviços de saúde locais envolvidos na temática, com o propósito de
maior aprofundamento sobre o albinismo.
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154
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155
CAPÍTULO X
MATRICIAMENTO: FERRAMENTA ESTRATÉGICA PARA A REDE
DE SAÚDE MENTAL
DOI: 10.51859/amplla.csf447.1123-10
Adilson José da Silva
Maria Cecília de Araújo Carvalho
Cristina Camelo de Azevedo
1. INTRODUÇÃO
O modelo de atenção primária orienta o cuidado em saúde no Brasil desde a década de
1990. No Sistema Único de Saúde (SUS), as equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF)
funcionam como equipes de referência interdisciplinares, atuando com uma responsabilidade
sanitária que inclui o cuidado longitudinal, além do atendimento especializado que realizam
concomitantemente. A Unidade de Saúde da Família (USF) trabalha em equipe
multiprofissional e é responsável por um território definido, cujos princípios fundamentais são:
integralidade, universalidade, equidade e participação social. [1]
O engajamento a esses princípios nos cenários das diversas realidades brasileiras é
desafiador. Ao falar sobre saúde mental (SM) na Atenção Primária à Saúde (APS), o modo de
enfrentamento do sofrimento psíquico estabelecido nos serviços de atenção à saúde exige dos
profissionais o respeito aos princípios da humanização e a compreensão do modelo assistencial
no contexto da reforma psiquiátrica
As avaliações mundiais apontam a necessidade de desenvolvimento dos sistemas de
saúde para proverem cuidado aos portadores de transtornos mentais, pois a taxa de pessoas
que não estão em tratamento é elevada, sobretudo nos países em desenvolvimento. [2] A
Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Mundial dos Médicos de família
(WONCA), alinhadas às ideias da reforma psiquiátrica, preconizam que o enfrentamento das
questões relacionadas ao sofrimento mental deva ser prioritariamente realizado em serviços
de base comunitária. [3]
A integração da rede de SM com a APS, assim como a qualificação de suas equipes para
o trabalho integrado, são desafios prioritários para o alcance do cuidado integral em saúde, em
156
que a gestão compartilhada desse cuidado potencializa as forças resolutivas e de seguimento
(longitudinalidade) das equipes e da rede.
Os princípios do SUS passaram a ser a matriz de orientação para as práticas assistenciais,
contemplando o acesso universal e igualitário, a regionalização, a hierarquização e a
descentralização dos serviços de saúde, o atendimento na perspectiva da integralidade e na
participação popular [4]. Esses princípios direcionam as estratégias e ações dos profissionais,
permitindo que o serviço desenvolva uma visão holística do usuário. Por isso, o modelo de APS
integral, como o concebido na declaração de Alma-Ata é o modelo preconizado pelo SUS e que
pode resolver 80% dos agravos, provendo atenção longitudinal, organizando o cuidado e
ampliando a oferta de acesso à saúde [5] [6].
A APS é palco de um embate entre diferentes concepções no modo de fazer saúde,
podendo-se identificar dois paradigmas em confronto: o biomédico, cujo diagnóstico pressupõe
regularidade, repetição e o paradigma da ampliação da clínica/clínica ampliada, em que há uma
busca para além das repetições, na qual se procura o que o sujeito tem de singular, diferente [7].
A esfera da saúde mental ingressa no delineamento de competências atribuídas à APS,
sendo crescente a demanda do sofrimento psíquico. A Organização Mundial de Saúde (OMS)
postula, em seu relatório de 2005[8], que, no mundo em geral e nos países de média e baixa
renda em particular, ao se considerar o impacto sobre a perda de anos de vida saudáveis, os
três principais problemas de saúde, em ordem decrescente, são: doença mental, trauma e
doença cardiovascular.
Segundo Fortes et al. [9], a integração entre saúde mental e APS busca melhorar a
integração entre o especialista e a APS. Com a atuação da ESF na resolução, prevenção e
reabilitação em saúde mental, faz-se necessária uma nova forma de articulação entre os dois
níveis, a exemplo do Núcleos Ampliados de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF -AB).
Nessa linha de mudança de paradigma, começa a ser articulada uma nova rede de
cuidados e uma política de saúde mental no Brasil e a proposta de matriciamento em saúde
mental se configura como uma ferramenta essencial na condução desse processo. Para Campos
[10], o Matriciamento ou Apoio Matricial (AM) é um modo de realizar a atenção em saúde de
forma compartilhada, com vistas à integralidade e à resolubilidade da atenção, por meio do
trabalho interdisciplinar.
157
Apoio matricial
O Apoio Matricial (AM) ou matriciamento em saúde mental é uma forma de cuidado
colaborativo que tem sua origem definidora no Brasil em discussões sobre a organização do
trabalho em saúde no final dos anos 1990[11]. Desde quando foi primeiramente idealizado até
os dias atuais, o matriciamento vem passando por transformação em seu significado,
apresentando diversas polifonias conceituais. Alguns o entendem como um arranjo, outros
como uma tecnologia/dispositivo de gestão, como um método ou como um modelo de cuidados
colaborativos.
Então, sucessivamente, durante o decorrer dos anos 2000, a concepção de AM vai se
desdobrando, conservando sempre seu formato de atuação em rede, valorização de uma
concepção ampliada do processo saúde-doença, interdisciplinaridade, diálogo, interação entre
profissionais que trabalham em equipes ou em redes e sistemas de saúde [12], promoção de
relações horizontais nas quais o apoiador e a equipe de referência trabalham na construção de
visões multi e transdisciplinares [13].
Por sua vez, o MS [14] [15] refere-se ao apoio matricial como uma tecnologia de gestão
utilizada em conjunto com o arranjo organizacional de equipes de referência. Para o guia
prático de matriciamento em SM do MS [15], matriciamento ou apoio matricial é um novo modo
de produzir saúde, em que duas ou mais equipes, num processo de construção compartilhada,
criam uma proposta de intervenção pedagógico-terapêutica, lembram que o processo de saúdeenfermidade-intervenção não é monopólio nem ferramenta exclusiva de nenhuma
especialidade, pertencendo a todo o campo da saúde, ou seja, podem ser matriciadores em
saúde mental na APS: psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos,
assistentes sociais ou enfermeiros. Esse guia também traz como instrumentos do processo de
matriciamento: o Projeto Terapêutico Singular (PTS), a interconsulta, a consulta conjunta, a
visita domiciliar conjunta; o genograma e o ecomapa.
Este trabalho, decorrente de uma pesquisa do mestrado profissional em saúde da
família da Fiocruz – Polo Alagoas, representado pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL),
teve como objetivo geral discutir o cenário de integração da saúde mental (SM) na APS, com
ênfase no matriciamento, no município de São Sebastião, Alagoas, Brasil. Procurou-se
compreender o desenho da rede de SM do município e identificar as particularidades do
matriciamento desenvolvido na realidade local.
158
2. METODOLOGIA
Este é um estudo transversal exploratório, numa perspectiva qualitativa, para o qual foi
utilizado o método de estudo de caso. A produção do material foi feita com profissionais de PSF,
NASF, CAPS, coordenadores da APS e da SM no município de São Sebastião-AL, através de
entrevistas semiestruturadas. O roteiro de entrevista utilizado foi baseado em Oliveira [16].
As entrevistas coletadas foram gravadas e transcritas para melhor tratamento dos
dados e informações colhidos. Também foram efetuadas análises de documentos oficiais do
Ministério da Saúde e da Secretaria Municipal de Saúde.
As entrevistas foram analisadas através da Análise do Conteúdo. Os dados tratados
permitiram a análise das representações dos sujeitos e tem por objetivo compreender os
significados manifestos na comunicação, indo além da compreensão imediata e espontânea [17].
A pesquisa obteve aprovação pelo comitê de ética com certificação de apresentação para
apreciação ética (CAAE) sob o número 97120518.4.0000.5013.
Identificação e descrição do município
São Sebastião é um município do estado de Alagoas, localizado no agreste e ao sul do
estado, a 100 km de Maceió e 27km de Arapiraca. Sua área é de 307 km². O município tinha
32010 habitantes no último Censo de 2010. Isso coloca o município na posição 18 dentre 102
do mesmo estado. Em comparação com outros municípios do Brasil, fica na posição 973 dentre
5570. Sua densidade demográfica é de 104.25 habitantes por quilômetro quadrado, colocandoo na posição 27 de 102 do mesmo estado [18].
O município está inserido numa região sanitária que conta com um hospital psiquiátrico,
o Instituto Teodora Albuquerque (ITA), sendo um ponto da rede de saúde mental junto ao
Hospital Escola Portugal Ramalho (HEPR) localizado em Maceió-AL. Desse modo, o apoio da
rede estadual (intermunicipal) tem hospitais psiquiátricos como referência.
Participantes do estudo
No total, foram entrevistados sete profissionais. Devido à carência de profissionais
médicos, foi difícil encontrar profissionais dessa categoria que atendessem aos critérios de
inclusão e exclusão. A maioria dos profissionais tinha mais de cinco anos de formado, eram pósgraduados e estava há pouco mais de dois anos na ESF ou na SM. Eram matriciadores, o
enfermeiro de SM que trabalhava no CAPS; a psicóloga que trabalhava no NASF e a enfermeira
coordenadora da APS. Os quatro restantes eram médicos e enfermeiros da ESF.
159
Análise e sistematização dos dados
Com intuito de ordenar os dados apresentados, foram criados os seguintes subgrupos:
Gestores; Equipes Matriciadas (Equipes de Referência); Equipes Não Matriciadas e
Profissionais Matriciadores. No município não existe uma separação entre equipes matriciadas
pelo CAPS e as matriciadas pelo NASF, pois eles realizam atividades conjuntas. É preciso
considerar também que existem equipes que nunca tiveram ações de matriciamento. Entre os
profissionais matriciadores, existem os que são do CAPS e os que são do NASF. As falas
apresentadas no texto fazem referência a três grupos de profissionais: profissional da ESF,
profissional de SM e profissional gestor.
A leitura repetida dos textos (leitura flutuante) permitiu a classificação dos dados,
objetivando a apreensão de estruturas de relevância nas falas dos participantes da pesquisa e
a reunião de ideias centrais dos entrevistados sobre os pontos destacados nas entrevistas.
Dessas últimas se construiu as categorias empíricas.
Realizou-se em seguida, uma leitura dos dados de cada subconjunto e da totalidade do
conjunto, dando origem às áreas temáticas, o que possibilitou um reagrupamento em torno de
categorias centrais, apresentadas e discutidas a seguir. Verificou-se que o significado das falas
e sua relação com o material teórico em um movimento incessante entre a teoria e o empírico
buscou discutir e emergir temas relevantes sobre a inserção das ações de SM na ESF, tendo as
atividades de apoio matricial (matriciamento) como fio condutor desse processo.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram discriminadas categorias relacionadas a temas como início e planejamento das
ações; tipos de intervenções e ações compartilhadas, bem como a participação das equipes no
processo de matriciamento, discutidas à luz dos depoimentos dos entrevistados.
Categoria 1: Desenvolvimento
matriciamento
e
organização
das
ações
de
Segundo informações colhidas nas entrevistas e em consulta ao livro de atividades de
matriciamento da coordenação de SM, tais atividades começaram há pouco mais de dois anos
(início de 2017), quando a coordenação estadual de SM convocou algumas pessoas do serviço
de SM do município, incluindo a coordenadora de SM, para uma qualificação em apoio matricial.
Lá, foram apresentados à proposta de matriciamento em SM e, partindo de alguns diagnósticos
situacionais, construíram um plano de ação para o município. Esse plano contemplou a
160
qualificação de toda a equipe municipal de SM e foi realizada pelos que participaram da
qualificação estadual. A organização/agrupamento dos profissionais que fariam o apoio
matricial e iniciariam as atividades de matriciamento nas UBS e uma programação anual foi
construída. Foi relatada por alguns uma dificuldade inicial para se compreender o
matriciamento.
Foi um pouco difícil, por questão de compreensão, por conta que [...]
praticamente, às vezes, as esferas de governo maior determinam, tem que fazer
e tal [...] Só que a gente necessita de qualificação para desenvolver, aí no começo
teve essa dificuldade de entendimento pra gente poder entender, pra poder
realizar (Profissional de SM).
Verificando o livro de registro das atividades de matriciamento no município,
disponibilizado pela coordenação de SM, observamos que as ações de matriciamento eram
feitas de forma conjunta pelos profissionais do NASF- AB e do CAPS. Em janeiro de 2019, o CAPS
dispunha de um psiquiatra, um psicólogo, um assistente social, dois enfermeiros de saúde
mental, um terapeuta ocupacional e um farmacêutico. Já o NASF, dispunha de um psicólogo, um
nutricionista, um fisioterapeuta e um educador físico. Atualmente, das quinze ESF que o
município possui, são feitas algumas atividades de matriciamento em onze delas.
As atividades realizadas foram, inicialmente, de educação continuada sobre o que é o
matriciamento, seguidas da identificação dos pacientes que fazem acompanhamento no
CAPS/NASF- AB e as respectivas ESF a qual pertencem (ESF de referência), assim como as
microáreas e o ACS que os acompanham. Atualmente, os espaços formais para realização das
ações de matriciamento são reuniões para discussão e acompanhamento de casos complexos,
além de visitas domiciliares conjuntas para esses casos. Já os espaços informais de apoio
matricial são efetivados por contatos telefônicos e por WhatsApp.
Os profissionais do CAPS e NASF- AB definem apoio matricial como um apoio em SM aos
profissionais da AB, um trabalho conjunto para a melhoria da rede de cuidados.
Seria uma equipe, como nós do NASF, trabalhando em conjunto com as ESF,
dando apoio em SM (Profissional de SM).
Esses profissionais também acreditam que o matriciamento é uma ferramenta
importante para se considerar outros aspectos da saúde do usuário que não apenas a SM.
Uma ferramenta de apoio pra gente fazer um atendimento contínuo, integral,
pra tanto eles (ESF) saberem o que a gente realiza aqui com o usuário como a
gente saber também sobre as outras patologias do usuário, pra gente
161
monitorar, principalmente a gente da enfermagem que fica com essa parte de
monitoramento e acompanhamento das doenças crônicas (Profissional de SM).
Para os profissionais da ESF, o matriciamento é uma ferramenta importante da rede de
cuidados que dá suporte às equipes de saúde (ESF) e sua utilização possibilita a melhoria da
comunicação entre os níveis de assistência de uma rede de cuidados.
É um paciente que precisa dos pontos da rede, como AB, NASF, CAPS ou outros
serviços de média complexidade. Para dar suporte à AB fazemos uso do
matriciamento (Profissional da ESF).
Como se fosse uma rede que liga vários níveis de atenção em SM, onde a
ferramenta de comunicação é o matriciamento (Profissional da ESF).
A organização da rede de SM do município de São Sebastião-AL parece corresponder
bem ao modelo de SM que se pratica no município, ou seja, uma mistura do modelo psicossocial
com o modelo asilar, por utilizar, como um dos recursos, o hospital psiquiátrico.
A estratégia de matriciamento é planejada de forma diferente entre o CAPS e o NASFAB. Observou-se uma parceira maior entre os profissionais do NASF- AB e da ESF que entre o
CAPS e a ESF. Mesmo assim, muitas atividades de matriciamento são executadas de forma
conjunta pelo NASF- AB e CAPS.
A coordenadora do NASF se reúne mensalmente com as enfermeiras, discutem
as demandas e faz uma programação mensal. Essa programação é passada para
as equipes da ESF e do NASF; além disso, disponibilizamos o telefone celular
para, havendo demandas fora da programação, as ESF nos acionarem. Quando
preciso fazer atendimento de ambulatório, eu faço; caso eu perceba que precisa
usar alguma medicação, encaminho ao psiquiatra. A partir da demanda,
elaboramos estratégia de prevenção: palestra, sala de espera, roda de conversa
(Profissional de SM).
A gente tem um cronograma que a coordenadora de SM está finalizando,
definindo as unidades a serem atendidas, isso este ano (2019). Mas, ano
passado já tinha essa programação, denominando tal profissional para
determinada unidade, todos os profissionais participam da realização, é
multidisciplinar [...] A gente tá tentando fazer o município todo, já fizemos uma
boa parte; é que algumas unidades tem a sede e os polos. Houve outras ações
que vieram, como o apoio do NASF (Profissional de SM).
Categoria 2: Abordagem do sofrimento psíquico na atenção primária
e a integralidade do cuidado
A APS é a porta de entrada preferencial do SUS. Por esse motivo, são diversos os tipos de
sofrimento psíquico demandados para esse nível de atenção. Pensar em SM também passa pela
compreensão dos profissionais de saúde de que qualquer doença ou agravo que acometa o
162
usuário do serviço, bem como exige que tais profissionais sempre considerem aspectos da
saúde mental como implicadores para o enfrentamento da demanda.
O cenário socioeconômico e a violência também são geradores e desencadeadores de
sofrimento psíquico. Esses elementos fazem parte da vida de qualquer pessoa, porém, quando
se tem precárias condições de vida, o impacto parece ser mais profundo.
Os pacientes de SM não têm perspectivas. Mais uma vez a gente esbarra na
questão social. Não existe melhoria das condições de saúde, principalmente de
SM, separadas do contexto social (Profissional da ESF).
Além disso, os profissionais citam a depressão como um transtorno muito frequente,
seguido por transtorno de ansiedade e problemas com álcool e outras drogas.
A campeã é a depressão, temos bastantes casos, aí vem a ansiedade, estresse...
Problemas com álcool e outras drogas também, só que essa parte é bem difícil,
são mais adolescentes e eles não procuram a UBS (Profissional da ESF).
A percepção dos matriciadores dialoga com a dos matriciados, reforçando,
possivelmente, uma leitura alinhada dos pontos de cuidado oferecidos na rede do município.
Depressão e ansiedade em todas as idades; depressão leve, moderada e grave;
transtorno do pânico, transtorno de ansiedade generalizada. Mas, na base
desses problemas estão as questões sociais, como violência e desemprego. Além
de casos relacionados ao álcool e outras drogas (Profissional de SM).
O contexto socioeconômico e a desagregação familiar foram entraves muito presentes
nos relatos dos profissionais, agravando e obstaculizando o manejo dos pacientes de SM.
Grande parte de transtorno depressivo; a maioria por problemas familiares
(separação; conflito de gerações). Problemas relacionados ao álcool e outras
drogas também (Profissional Gestor).
As falhas na rede assistencial e na integralidade do cuidado, aliados aos problemas de
ordem social e familiar, fazem com que as pessoas utilizem os recursos que estão disponíveis,
desde um psicotrópico utilizado pelo vizinho até a compra ilegal dessas medicações em
farmácias.
Um problema sério que enfrentamos é o uso inadequado de psicotrópico, é
como se as pessoas quisessem medicalizar os problemas sociais: a mulher se
medica para suportar o marido que ela não tem coragem de mandar ir embora.
Outra coisa, as pessoas não querem sentir as emoções, briga com o namorado
quer um remédio (Profissional de SM).
163
Ainda de maneira incipiente, os profissionais já reconhecem alguns impactos positivos
nos cenários assistenciais das ações de matriciamento. Os usuários são assistidos de forma mais
contínua e os profissionais da ESF podem interferir no curso terapêutico dentro das limitações
técnicas e do serviço, deixando a ESF mais resolutiva.
Segundo os entrevistados, o matriciamento permitiu que os profissionais enxergassem
o território e o paciente de SM de forma diferente, contribuindo para uma mudança recíproca
de usuários e profissionais. Além disso, a comunicação entre os pontos assistenciais do cuidado
em SM se tornou mais efetiva.
O matriciamento permitiu conhecer todos os pacientes de SM [...] identificar o
local do território que esses pacientes estão (Profissional da ESF).
Houve uma melhoria no acompanhamento do usuário na questão
patológica/clínica, alguns usuários deixaram de ter recaídas. Houve uma
melhora da visão do usuário sobre o serviço e da gente sobre o usuário e o
território (Profissional de SM).
As dificuldades elencadas ao se tentar realizar o matriciamento no município de São
Sebastião, nas condições de recursos humanos e materiais que se tem atualmente, são muitas.
A seguir, nota-se quais as consequências disso nas falas dos pesquisados:
A questão da compreensão (do que é matriciamento) que ainda é um pouco
difícil, a questão de deslocamento (transporte), a gente ainda tem dificuldade
para ir até a unidade e tudo; as visitas também ainda têm problemas
(Profissional de SM).
Só existe o encontro para planejar o matriciamento e, realmente, o que é
colocado no papel pode ser que não seja executado de fato, porque não é
cobrado (Profissional Gestor).
Um dos maiores desafios é dar conta das quantidades de atribuições da ESF e
do CAPS [...] Para o CAPS, por exemplo, pra fazer o matriciamento os
profissionais terão que se deslocar até as 13 UBS, sem considerar que algumas
ainda se dividem em 3 polos por conta do território que é grande (Profissional
da ESF).
Alguns profissionais referiram escassez de ações de matriciamento, o que se justifica, em
parte, pela quantidade de atribuições para os dispositivos da rede (ESF, CAPS E NASF- AB) e
pela pouca quantidade de profissionais para uma demanda alta, principalmente no CAPS e
NASF- AB. Outros referiram não haver continuidade das ações e pouca efetividade para a
consolidação do matriciamento.
A proposta é de haver comunicação entre os serviços, mas, infelizmente, não
vejo muito isso. Por que ele (o paciente) tem assistência do CAPS, do NASF e da
164
ESF, fazemos inclusive a visita domiciliar, mas tem que haver mais interação
entre esses pontos; a AB faz exames e avaliações, mas o psiquiatra do CAPS não
tem acesso a isso [...] Como te falei existiu uma vez só (Profissional da ESF).
Um dos grandes desafios seria tempo suficiente para dar conta de tantas
atribuições, tanto nós do NASF, que somos poucos, como o pessoal da ESF
(Profissional de SM).
A dificuldade hoje é a continuidade, não só das ações em SM dos profissionais
da AB, as dos profissionais do CAPS também, entendeu? [...] Não é só planejar,
tem que ser executado; do que adianta eu fazer um projeto e não executar. Qual
o poder isso tem? Não tem poder algum (Profissional Gestor).
Categoria 3: Formação e qualificação
Não existe, na agenda da gestão municipal e estadual, atividades formativas que tenham
incluído os profissionais da APS, NASF- AB e CAPS, principalmente no que se refere ao
matriciamento.
Nunca participei de educação continuada em SM, nem de ações conjuntas e de
manejos de pacientes de SM (Profissional da ESF).
Fui apresentada a esse tipo de abordagem no final de 2017; a coordenadora da
SM esteve aqui pra eu saber o que era matriciamento, pois a reunião estadual
para qualificar sobre o tema, eu não fui convocada (Profissional Gestor).
Mesmo diante das dificuldades, a equipe de SM (CAPS e NASF) consegue fazer algumas
reuniões de qualificação e troca de experiências, tanto na própria equipe como junto à ESF.
Houve uma reunião com o pessoal do CAPS e discutimos algumas situações de
alguns pacientes que são atendidos no CAPS, foi muito proveitoso, aprendemos
a lidar com algumas situações (Profissional da ESF).
Nas reuniões com os profissionais da ESF, eles foram bastante colaborativos; no
começo, muitos não sabiam o que era (matriciamento), principalmente os ACS.
Na reunião, a gente apresenta o projeto a todo mundo e explica como tem que
ser, aí o pessoal, às vezes, tem até uma ideia de como é matriciamento
(Profissional de SM).
Observou-se nas entrevistas que os profissionais procuraram se qualificar, fazendo
cursos por conta própria e, através da leitura e da interação interprofissional, melhoraram sua
compreensão do processo de matriciamento em SM. Embora a discussão de caso ainda não seja
uma conduta frequente, os profissionais acionaram o aprendizado colaborativo nos cenários de
práticas.
165
Para concluir essa análise, com base nos dados obtidos sobre o matriciamento, que
destacam a desintegração na rede de assistência à saúde mental do município pesquisado e,
diante dos problemas elencados pelos profissionais entrevistados, o pesquisador dispôs-se a
fazer uma recomendação aos serviços do município pesquisado, que consistiu na elaboração de
uma Matriz individual de ações para o apoio ao matriciamento, a seguir detalhada. Essa matriz
foi inspirada teoricamente em algumas ferramentas de matriciamento, bem como em outras
ferramentas de abordagem comunitária e familiar.
Recomendação aos serviços do município pesquisado
A partir da Matriz individual de ações para o apoio ao matriciamento (Fig. 1), chamada
de individual, porque cada paciente terá a sua. O serviço que acolher o paciente poderá
encontrar as potencialidades para a resolução dos problemas vislumbradas pelos profissionais
que o atenderam anteriormente. Para cada serviço acionado, a matriz construída será
disponibilizada.
Na descrição da Matriz, as linhas horizontais representam os canais existenciais do
paciente de SM, canais que eles constroem e modificam (família, suporte afetivo, história de
vida, apoio socioeconômico, contexto cultural etc.). As linhas verticais são os equipamentos de
saúde (CAPS, NASF- AB, ESF etc.), bem como os equipamentos intersetoriais (igreja, escolas,
associações, clubes recreativos etc.) existentes na rede de cuidados, os quais também podem
ser considerados canais institucionais que os profissionais de saúde e outros profissionais
poderão acionar, modificar e oferecer ao paciente de SM, para o enfrentamento de seu
transtorno. A cor da intersecção entre um determinado equipamento da rede de cuidados e um
canal existencial do paciente indicará a atividade da rede de cuidados, podendo ser verde,
quando o equipamento da rede já estiver atuando, ou vermelho, quando o equipamento da rede
se faz necessário, mas que ainda não foi acionado.
166
Figura 1 – Matriz individual de ações para o apoio ao matriciamento
Fonte (autor): JOSÉ-SILVA, A.,2019.
Essa matriz permitirá uma visão panorâmica do itinerário seguido e/ou proposto
pelo/para o usuário na rede de cuidados, possibilitando um planejamento terapêutico e
indicando os equipamentos da rede de cuidados que ele poderá utilizar: as intersecções não
coloridas (equipamentos que poderão ser úteis); as que já estão sendo utilizadas por ele (verde)
e as que são urgentes, mas que por algum motivo ainda não foram acionados (vermelhas), de
acordo com suas necessidades específicas, seguindo o plano terapêutico proposto pelo
equipamento de saúde que foi a porta de entrada na rede; seguido e reformulado, caso
necessário, por outros equipamentos contidos na matriz ou por alguma necessidade nova do
usuário.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenho da rede de SM de São Sebastião-AL contemplou poucos serviços substitutivos
previstos no modelo psicossocial, existindo no município somente um CAPS e um NASF- AB com
167
a quantidade e a escassez de profissionais (sem psiquiatra, por exemplo) que se apresentaram
com uma sobrecarga de atribuições que não conseguem dar conta. Há fragmentação e pouca
efetividade no processo de apoio matricial, mesmo havendo sucesso em algumas ações e boa
vontade dos profissionais, e não existe uma rede de especialistas dando suporte às equipes de
referência. O que existe é uma tentativa de consolidação do apoio matricial por alguns
profissionais não especialistas, muitas vezes recém-formados, que tentam pôr em prática um
projeto de matriciamento que ainda não compreenderam bem, faltando, muitas vezes,
propriedade para falar sobre o tema em sua realidade de atuação. Apesar de ter equipamentos
de SM (CAPS e NASF- AB), o município não dispõe de um médico psiquiatra e o médico que faz
atendimento no CAPS é um clínico que atende pacientes da psiquiatria.
A atenção à saúde no município segue o modelo de organização hierárquica, o modus
operandi e a cultura de fazer saúde de boa parte dos profissionais ainda considera a existência
de níveis de complexidade. Os profissionais desenvolvem suas atividades numa lógica em que
o curso terapêutico do paciente de SM segue o nível básico (ESF), nível intermediário
(Especialista, CAPS, NASF- AB) e alta complexidade (Hospital Psiquiátrico).
Observa-se que o NASF- AB faz uma cobertura mais efetiva, pois pratica a busca ativa
das demandas no território; o CAPS ocupa um lugar de ambulatório de SM e, quando os
profissionais de lá tentam realizar atividades com as equipes (ESF), apenas avisam que irão em
tal data. Acontece que os profissionais acabam não se comprometendo com a visita agendada,
preferem manter suas atividades rotineiras e os desencontros de ideias e ações acontecem com
frequência. Ainda não existe no município um alinhamento de todos os pontos assistenciais
para o mesmo propósito.
Percebe-se que os profissionais entrevistados, do NASF- AB, CAPS e ESF, não
conseguiram falar de um paciente em comum, que ajudaram em algum momento, no
enfrentamento do sofrimento psíquico, utilizando os equipamentos de cuidados. E nem sabiam
identificar se um determinado paciente estava ou não tendo suporte intersetorial, concluindose que o serviço tem um baixo nível de integração.
Diante da precariedade de integração dos serviços responsáveis pelo cuidado à saúde
mental, o pesquisador propõe a utilização da matriz individual de ações para o apoio ao
matriciamento, com vistas à melhoria da integralidade dos cuidados oferecidos ao usuário de
SM, potencializando a abordagem integral, resolutiva e centrada na pessoa, com os recursos
que estão disponíveis para os profissionais de saúde e usuários.
168
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