Saberes e fazeres em movimento: vivências do mestrado profissional em saúde da família (da UFAL) no cuidado, gestão e formação para o SUS
E-BOOK 2025 - Amplla Editora Copyright da Edição © Amplla Editora Copyright do Texto © Os autores Editor Chefe: Leonardo Tavares Design da Capa: Amplla Editora Revisão: Os autores ISBN: 978-65-5381-322-9 DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-0
SaberesFazeresMovimento - E-book.pdf
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Saberes e fazeres em movimento: vivências do mestrado profissional em saúde da família (da
UFAL) no cuidado, gestão e formação para o SUS está licenciado sob CC BY-NC 4.0.
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2025
Conselho Editorial
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para o Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí
Darlei Gutierrez Dantas Bernardo Oliveira –
Universidade Estadual da Paraíba
Alexander Josef Sá Tobias da Costa
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
–
Denilson Paulo Souza dos Santos – Universidade
Estadual Paulista
Andréa Cátia Leal Badaró – Universidade
Tecnológica Federal do Paraná
Denise Barguil Nepomuceno – Universidade
Federal de Minas Gerais
Andréia Monique Lermen – Universidade Federal
do Rio Grande do Sul
Dinara das Graças Carvalho Costa – Universidade
Estadual da Paraíba
Antoniele Silvana de Melo Souza – Universidade
Estadual do Ceará
Diogo Lopes de Oliveira – Universidade Federal
de Campina Grande
Aryane de Azevedo Pinheiro – Universidade
Federal do Ceará
Dylan Ávila Alves – Instituto Federal Goiano
Bergson Rodrigo Siqueira de Melo – Universidade
Estadual do Ceará
Bruna Beatriz da Rocha – Instituto Federal do
Sudeste de Minas Gerais
Edson Lourenço da Silva – Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí
Elane da Silva Barbosa – Universidade Estadual
do Ceará
Bruno Ferreira – Universidade Federal da Bahia
Érica Rios de Carvalho – Universidade Católica do
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Caio Augusto Martins Aires – Universidade
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Fábio Ronaldo da Silva – Universidade do Estado
da Bahia
Caio César Costa Santos – Universidade Federal
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Fernanda Beatriz Pereira Cavalcanti –
Universidade Estadual Paulista “Júlio de
Mesquita Filho”
Carina Alexandra
Estadual Paulista
Rondini
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Universidade
Carla Caroline Alves Carvalho – Universidade
Federal de Campina Grande
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Aires
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Caroline Barbosa Vieira – Universidade Estadual
do Rio Grande do Sul
Christiano Henrique Rezende – Universidade
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Cícero Batista do Nascimento
Universidade Federal do Ceará
Filho
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Clécio Danilo Dias da Silva – Universidade Federal
do Rio Grande do Norte
Dandara Scarlet Sousa Gomes
Universidade Federal do Piauí
Bacelar
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Daniela de Freitas Lima – Universidade Federal
de Campina Grande
Fredson Pereira da Silva – Universidade Estadual
do Ceará
Gabriel Gomes de Oliveira – Universidade
Estadual de Campinas
Gilberto de Melo Junior – Instituto Federal do
Pará
Givanildo de Oliveira Santos – Instituto Brasileiro
de Educação e Cultura
Glécia Morgana da Silva Marinho – Pontifícia
Universidad Católica Argentina Santa Maria de
Buenos Aires (UCA)
Higor Costa de Brito – Universidade Federal de
Campina Grande
Hugo José Coelho Corrêa de Azevedo – Fundação
Oswaldo Cruz
Igor Lima Soares – Universidade Federal do Ceará
Isabel Fontgalland – Universidade Federal de
Campina Grande
Isane Vera Karsburg – Universidade do Estado de
Mato Grosso
Israel Gondres Torné – Universidade do Estado
do Amazonas
Luiza Catarina Sobreira de Souza – Faculdade de
Ciências Humanas do Sertão Central
Ivo Batista Conde – Universidade Estadual do
Ceará
Manoel Mariano Neto da Silva – Universidade
Federal de Campina Grande
Jaqueline Rocha Borges dos Santos
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
Marcelo Alves Pereira
Universitário Unifacisa
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Eufrasio
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Centro
Jessica Wanderley Souza do Nascimento –
Instituto de Especialização do Amazonas
Marcelo Henrique Torres de Medeiros
Universidade Federal Rural do Semi-Árido
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João Henriques de Sousa Júnior – Universidade
Federal de Santa Catarina
Marcelo Williams Oliveira
Universidade Federal do Pará
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João Manoel Da Silva – Universidade Federal de
Alagoas
Marcos Pereira dos Santos – Faculdade Rachel de
Queiroz
João Vitor Andrade – Universidade de São Paulo
Marcus Vinicius Peralva Santos – Universidade
Federal da Bahia
Joilson Silva de Sousa – Universidade Regional do
Cariri
José Cândido Rodrigues Neto – Universidade
Estadual da Paraíba
Jose Henrique de Lacerda Furtado – Instituto
Federal do Rio de Janeiro
Josenita Luiz da Silva – Faculdade Frassinetti do
Recife
Josiney Farias de Araújo – Universidade Federal
do Pará
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Municipal de Florianópolis
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de
Souza
Maria Carolina da Silva Costa – Universidade
Federal do Piauí
Maria José de Holanda Leite – Universidade
Federal de Alagoas
Marina Magalhães de Morais – Universidade
Federal do Amazonas
Mário Cézar de Oliveira – Universidade Federal
de Uberlândia
Michele Antunes – Universidade Feevale
SME/Prefeitura
Michele Aparecida Cerqueira Rodrigues – Logos
University International
Katia Fernanda Alves Moreira – Universidade
Federal de Rondônia
Miguel Ysrrael Ramírez-Sánchez – Universidade
Autônoma do Estado do México
Laís Portugal Rios da Costa
Universidade Federal de São Carlos
–
Milena Roberta Freire da Silva – Universidade
Federal de Pernambuco
Laíze Lantyer Luz – Universidade Católica do
Salvador
Nadja Maria Mourão – Universidade do Estado de
Minas Gerais
Lara Luiza Oliveira Amaral – Universidade
Estadual de Campinas
Natan Galves Santana – Universidade Paranaense
Pereira
Lindon Johnson Pontes Portela – Universidade
Federal do Oeste do Pará
Lisiane Silva das Neves – Universidade Federal do
Rio Grande
Nathalia Bezerra da Silva Ferreira – Universidade
do Estado do Rio Grande do Norte
Neide Kazue Sakugawa Shinohara – Universidade
Federal Rural de Pernambuco
Lucas Araújo Ferreira – Universidade Federal do
Pará
Neudson Johnson Martinho – Faculdade de
Medicina da Universidade Federal de Mato
Grosso
Lucas Capita Quarto – Universidade Federal do
Oeste do Pará
Patrícia Appelt – Universidade Tecnológica
Federal do Paraná
Lúcia Magnólia Albuquerque Soares de Camargo
– Unifacisa Centro Universitário
Paula Milena Melo Casais – Universidade Federal
da Bahia
Luciana de Jesus Botelho Sodré dos Santos –
Universidade Estadual do Maranhão
Paulo Henrique Matos de Jesus – Universidade
Federal do Maranhão
Luís Miguel Silva Vieira – Universidade da
Madeira
Rafael Rodrigues Gomides – Faculdade de Quatro
Marcos
Luís Paulo Souza e Souza – Universidade Federal
do Amazonas
Ramôn da Silva Santos – Universidade Federal
Rural de Pernambuco
Reângela Cíntia Rodrigues de Oliveira Lima –
Universidade Federal do Ceará
Telma Regina Stroparo – Universidade Estadual
do Centro-Oeste
Rebeca Freitas Ivanicska – Universidade Federal
de Lavras
Thayla Amorim Santino – Universidade Federal
do Rio Grande do Norte
Regina Márcia Soares Cavalcante – Universidade
Federal do Piauí
Thiago Sebastião Reis Contarato – Universidade
Federal do Rio de Janeiro
Renan Gustavo Pacheco Soares – Autarquia do
Ensino Superior de Garanhuns
Tiago Silveira Machado – Universidade de
Pernambuco
Renan Monteiro do Nascimento – Universidade
de Brasília
Valvenarg Pereira da Silva – Universidade do
Estado de Mato Grosso
Ricardo Leoni Gonçalves Bastos – Universidade
Federal do Ceará
Vinícius Queiroz Oliveira – Universidade Federal
de Uberlândia
Rodrigo da Rosa Pereira – Universidade Federal
do Rio Grande
Virgínia Maia de Araújo Oliveira – Instituto
Federal da Paraíba
Rubia Katia Azevedo Montenegro – Universidade
Estadual Vale do Acaraú
Virginia Tomaz Machado – Faculdade Santa Maria
de Cajazeiras
Sabrynna Brito Oliveira – Universidade Federal
de Minas Gerais
Walmir Fernandes Pereira – Miami University of
Science and Technology
Samuel Miranda Mattos – Universidade Estadual
do Ceará
Wanessa Dunga de Assis – Universidade Federal
de Campina Grande
Selma Maria da Silva Andrade – Universidade
Norte do Paraná
Wellington Alves Silva – Universidade Estadual
de Roraima
Shirley Santos Nascimento – Universidade
Estadual Do Sudoeste Da Bahia
William Roslindo Paranhos – Universidade
Federal de Santa Catarina
Silvana Carloto Andres – Universidade Federal de
Santa Maria
Yáscara Maia Araújo de Brito – Universidade
Federal de Campina Grande
Silvio de Almeida Junior – Universidade de Franca
Yasmin da Silva Santos – Fundação Oswaldo Cruz
Tatiana Paschoalette R. Bachur – Universidade
Estadual do Ceará | Centro Universitário Christus
Yuciara Barbosa Costa Ferreira – Universidade
Federal de Campina Grande
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Catalogação na publicação
Elaborada por Bibliotecária Janaina Ramos – CRB-8/9166
S115
Saberes e fazeres em movimento: vivências do mestrado profissional em saúde
da família (da UFAL) no cuidado, gestão e formação para o SUS / Organização
de Josineide Francisco Sampaio, Diego Figueiredo Nóbrega, Maria das Graças
Monte Mello Taveira; Prefácio de Divanise Suruagy Correia; Apresentação de
Maria das Graças Monte Mello Taveira. – Campina Grande/PB: Amplla, 2025.
Livro em PDF
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DOI 10.51859/amplla.sfm229.1125-0
1. Educação em saúde. 2. Saúde da família. 3. Sistema Único de Saúde (Brasil). I.
Sampaio, Josineide Francisco (Organizadora). II. Nóbrega, Diego Figueiredo
(Organizador). III. Taveira, Maria das Graças Monte Mello (Organizadora). IV.
Correia, Divanise Suruagy (Prefácio). V. Taveira, Maria das Graças Monte Mello
(Apresentação). VI. Título.
CDD 613.07
Índice para catálogo sistemático
I. Educação em saúde
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2025
Organizadores
Josineide Francisco Sampaio
Especialista em Ciências Sociais (UFAL). Mestre em Sociologia (UFAL). Doutora em
Saúde Pública (ENSP/Fiocruz). Professora Associada II da Faculdade de Medicina
(FAMED/UFAL), coordenadora do Mestrado Profissional em Saúde da Família
(PROFSAÚDE-AL).
Diego Figueiredo Nóbrega
Especialista em Saúde Coletiva e da Família. Mestre e Doutor em Odontologia
(FOP/UNICAMP). Pós-doutor em Odontologia (UFPB). Professor da Faculdade de
Medicina (FAMED/UFAL) e do Mestrado Profissional em Saúde da Família
(PROFSAÚDE-AL).
Maria das Graças Monte Mello Taveira
Especialista em Saúde Pública (FIOCRUZ). Mestre em Ensino na Saúde (UFAL).
Doutora em Ciências da Saúde (UFAL). Professora da Faculdade de Medicina
(FAMED/UFAL), onde coordena o Núcleo de Saúde Pública (NUSP); vicecoordenadora do Mestrado Profissional em Saúde da Família (PROFSAÚDE-AL).
Lista dos Autores
Aldacy Pepese Oliveira
Agente Comunitária de Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió.
Especialista em Saúde Coletiva pela Gama Filho – RJ. Maceió (AL).
Ana Carolina Correia Serafim
Terapeuta Ocupacional da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió (AL). Mestranda
PROFSAÚDE/UFAL. Maceió (AL).
Andreza Dionisio Francelino Vilaplana
Médica de Família e Comunidade
PROFSAÚDE/UFAL. Maceió (AL).
pelo
HUPAA/UFAL,
Mestranda
do
Beatriz Trindade da Rocha Silva
Médica de Família e Comunidade; Mestranda PROFSAÚDE/UFAL, São Miguel dos
Campos (AL).
Carlos Antônio dos Santos Junior
Acadêmico do Curso de Medicina da Universidade Federal de Alagoas – Campus
Arapiraca. Arapiraca (AL).
Carlos Henrique Falcão Tavares
Doutor em Saúde da Criança e do adolescente (FMRP/USP). Docente do Mestrado
Profissional em Ensino na Saúde (MEPS/UFAL). Maceió (AL).
Celso Marcos da Silva
Médico de Família e Comunidade da Secretaria Municipal de Saúde de Arapiraca.
Docente da Universidade Federal de Alagoas – Campus Arapiraca. Egresso do
PROFSAÚDE/UFAL. Arapiraca (AL).
Claudia Cristina Rolim da Silva
Enfermeira (UFAL). Mestre em Ensino na Saúde e Tecnologia (MEST/UNCISAL).
Secretaria Municipal de Saúde de Arapiraca (AL).
Cristina Camelo de Azevedo
Doutora em Saúde Pública (ENSP/FIOCRUZ). Docente do Instituto de Psicologia da
(IP/UFAL). Maceió (AL).
Diego Figueiredo Nóbrega
Doutor em Odontologia (UNICAMP). Docente da Faculdade de Medicina
(FAMED/UFAL).
Divanise Suruagy Correia
Doutora em Ciências da Saúde (UFRN). Docente Permanente PROFSAÚDE/UFAL.
Maceió (AL).
Eliane Vieira dos Santos
Acadêmico do Curso de Medicina da Universidade Federal de Alagoas – Campus
Arapiraca. Arapiraca (AL).
Emmanuelle Maria da Costa Santos
Assistente Social Secretaria Municipal de Saúde de Arapiraca (AL). Mestranda
PROFSAÚDE/UFAL. Arapiraca (AL).
Eulina Maria da Conceição
Assistente Social da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió (AL). Maceió (AL).
Ewerton Amorim dos Santos
Doutor em Ciências da Saúde (UFS). Docente da Faculdade de Medicina
(FAMED/UFAL).
Flávia Nazareth Freitas Pimentel
Odontóloga, da Secretaria Municipal de Saúde de Arapiraca/AL. Maceió (AL).
Ianara Thayná Almeida Pinto
Graduanda em Medicina pela UNIMA. Maceió (AL).
Igor Fernando de Melo Cavalcante
Acadêmico do Curso de Medicina da Universidade Federal de Alagoas – Campus
Arapiraca. Arapiraca (AL).
Jefferson de Souza Bernardes
Doutor em Psicologia Social (PUCSP). Docente do Instituto de Psicologia da
Universidade Federal de Alagoas (IP/UFAL). Maceió (AL).
Jhon Victor Silva dos Santos
Residente do Programa de Medicina de Família e Comunidade do HUPAA/UFAL.
Maceió (AL)
Josineide Francisco Sampaio
Doutora em Saúde Pública (ENSP/FIOCRUZ). Docente da Faculdade de Medicina
(FAMED/UFAL).
Laíne Rocha Bezerra Barbosa
Acadêmica do Curso de Medicina. Centro Universitário CESMAC. Maceió (AL).
Laura Maria Pereira de Araújo Cantarelli
Graduanda em Enfermagem pelo CESMAC. Maceió (AL).
Letícia Maria Santiago Silvério
Acadêmica do Curso de Medicina. Centro Universitário CESMAC. Maceió (AL).
Lidianne Mércia Barbosa Malta Rocha
Odontóloga. Hospital Universitário Alberto Antunes. Egressa PROFSAÚDE/UFAL.
Maceió (AL).
Litieska Barros da Silva Santos
Enfermeira da Secretaria Municipal de Saúde de Arapiraca (AL). Egressa do
PROFSAÚDE/UFAL. Arapiraca (AL).
Lucas Fragoso Calheiros Lins
Médico da Secretaria Municipal de São Miguel dos Campos. Mestrando do
PROFSAÚDE/UFAL. São Miguel dos Campos (AL).
Luciana Rúbia Pereira Rodrigues
Médica de Saúde da Família e Comunidade da Secretaria Municipal de Saúde de
Arapiraca (AL). Arapiraca (AL).
Luiz Carnaúba Lima Júnior
Auxiliar de Enfermagem da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió (AL) (pelo
Metropolitana). Maceió (AL).
Manuela do Nascimento Lourenço
Mestra em Ensino da Saúde (MPES/UFAL). Arapiraca (AL).
Mara Gabriela Brasileiro de Lucena Ferreira
Enfermeira da Secretaria Municipal de Saúde de Palmeira dos Índios. Egressa do
PROFSAÚDE/UFAL. Maceió (AL).
Maria das Graças Monte Mello Taveira
Doutora em Ciências da Saúde (UFAL). Docente Permanente PROFSAÚDE/UFAL.
Maceió (AL).
Marianna Pugliesi Soares Novais
Médica de Saúde da Família e Comunidade da Secretaria Municipal de Pilar (AL).
Mestranda do PROFSAÚDE/UFAL. Maceió (AL).
Michael Ferreira Machado
Doutor em Saúde Coletiva (UFPE). Docente Permanente do PROFSAÚDE/UFAL.
Maceió (AL).
Paula Quitéria da Silva Ferreira
Psicóloga da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió (AL). Doutoranda em Gestão
Estratégica em Terapia Intensiva (DPATI/SOPECC/Faculdade Novo Horizonte).
Maceió (AL).
Pedro Afonso de Vasconcelos Brandão
Acadêmico do Curso de Medicina da Universidade Federal de Alagoas – Campus
Arapiraca. Arapiraca (AL).
Priscila Nunes de Vasconcelos
Doutora em Saúde Coletiva (UFPE). Docente PROFSAÚDE/UFAL. Maceió (AL).
Priscila Santos Vieira
Agente Comunitária de Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Arapiraca (AL).
Arapiraca (AL).
Rejaneide Ferreira da Silva
Mestranda no PROFSAÚDE/UFAL. Maceió (AL).
Renata Araújo de Souza Silva
Assistente Social da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió (AL). Mestranda
PROFSAÚDE/UFAL. Maceió (AL).
Ricardo Fontes Macedo
Doutor Docente PROFSAÚDE/UFAL. Maceió (AL).
Roberta de Albuquerque Wanderley
Médica de Família e Comunidade da Secretaria Municipal de Saúde de Arapiraca.
Docente da Universidade Federal de Alagoas – Campus Arapiraca. Egressa do
PROFSAÚDE/UFAL. Arapiraca (AL).
Rosa Maria Laurindo Avelino
Agente Comunitária de Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió.
Especialista em Saúde Pública/Univitória e Saúde da Família pela UNIFIP. Maceió
(AL).
Samuel Correia da Silva Morais
Enfermeiro do Núcleo de Saúde Pública da Universidade Federal de Alagoas
(NUSP/UFAL). Mestre em Ensino na Saúde (MPES/UFAL). Maceió (AL).
Shauanny de Souza Silva
Residente de Medicina da Família e Comunidade. Centro Universitário CESMAC.
Maceió (AL).
Simone Maria da Fonseca Vasconcelos
Odontóloga da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió. Egressa do
PROFSAÚDE/UFAL. Maceió (AL).
Stéphanie Dayane Lins Soares
Residente de Medicina da Família e Comunidade. Centro Universitário CESMAC.
Maceió (AL).
Stephany Julliana dos Santos Tôrres
Enfermeira da Secretaria Municipal de Saúde de Palmeira dos Índios/AL. Egressa do
PROFSAÚDE/UFAL. Maceió (AL).
Tatiana Farias de Oliveira
Residente do Programa de Medicina de Família e Comunidade do HUPAA/UFAL.
Maceió (AL).
Thallysson Hebert da Silva
Acadêmico do Curso de Medicina da Universidade Federal de Alagoas – Campus
Arapiraca. Arapiraca (AL).
Túlio Romério Lopes Quirino
Professor de Psicologia e Saúde Coletiva (FACISA/UFRN). Docente Permanente no
Programa de Pós-Graduação em Saúde da Família (RENASF/UFRN/FIOCRUZ).
Vanessa Almeida do Nascimento
Enfermeira da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió. Egressa do
PROFSAÚDE/UFAL. Maceió (AL).
Vinícius Matos Benjamim Leal
Odontólogo da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió. Mestre em Ensino na Saúde
(MPES/UFAL). Maceió (AL).
Dedico essa obra a todos os egressos que, com seus saberes e
fazeres, têm construído um trabalho notável de excelência no
registro de ações que através das vivências do Mestrado
Profissional em Saúde da Família (PROFSAÚDE/UFAL)
trazem qualidade no cuidado, gestão e formação para o SUS.
Apresentação
A presente obra, Saberes e Fazeres em Movimento: Vivências do Mestrado
Profissional em Saúde da Família (da UFAL) no cuidado, gestão e formação para o SUS,
retrata as experiências e aprendizados de discentes e egressos do Mestrado
Profissional em Saúde da Família (PROFSAÚDE), vinculado à Faculdade de Medicina
da Universidade Federal de Alagoas (FAMED/UFAL), que é ofertado em rede
nacional. Este mestrado constitui-se em um espaço privilegiado de atualização,
reflexão e construção de saberes sobre a Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil.
Os capítulos aqui reunidos são frutos de vivências concretas desses
protagonistas no cotidiano do Sistema Único de Saúde (SUS). Suas narrativas e
análises refletem o compromisso com o fortalecimento da Atenção Primária, ao
mesmo tempo em que buscam partilhar conhecimentos, despertar novas
curiosidades e subsidiar futuras pesquisas. Assim, o e-book contribui para a
ampliação do debate e da produção científica acerca da realidade da APS no Estado
de Alagoas.
A qualificação de profissionais, as estratégias de atuação, o uso de tecnologias
no cuidado e a reflexão sobre a rotina das unidades de saúde, abrangendo diferentes
ciclos de vida e contextos sociais, são aspectos amplamente discutidos neste volume.
Acreditamos que as reflexões e práticas aqui apresentadas as configuram como
importantes contribuições para os gestores, para os profissionais e os
pesquisadores envolvidos com a Estratégia de Saúde da Família (ESF).
Assim, desejamos que esta leitura inspire novas produções e ações
transformadoras no âmbito do SUS, principalmente no campo da Estratégia de
Saúde da Família.
Boa leitura!
Maria das Graças Monte Mello Taveira
Prefácio
A edificação do Sistema Único de Saúde (SUS) é uma história de movimento.
Movimento de pessoas, de ideias, de saberes, de práticas, e de afetos que se
entrelaçam no cotidiano do cuidado. É nesse caminhar vivo e coletivo que se insere
o Mestrado Profissional em Saúde da Família da Universidade Federal de Alagoas
(PROFSAÚDE/UFAL), local de produção de conhecimento com compromissado com
a transformação da realidade e com o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde
(APS).
O Mestrado Profissional em Saúde da Família (PROFSAÚDE), aprovado em
2016 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES),
foi proposto pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), conta com o
apoio dos Ministérios da Saúde (MS) e da Educação (MEC) e é coordenado pela
Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ). A oferta é feita em rede nacional, voltado para
a qualificação de profissionais que atuam na APS, na busca do fortalecimento do SUS,
contribuindo para a consolidação de práticas integrais, humanizadas e
interprofissionais de cuidado.
O PROFSAÚDE tem proposta pedagógica inovadora que se fundamenta na
problematização e na construção coletiva do conhecimento. O programa vem se
afirmando como espaço fértil de formação, diálogo e transformação. Médicos,
enfermeiros, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, assistentes
sociais e profissionais de tantas outras áreas se encontram para compartilhar
experiências, edificar saberes e repensar práticas. Docentes e discentes unidos por
um propósito comum, o de cuidar melhor das pessoas e comunidades, esses
profissionais trazem para o campo da pesquisa e da formação os desafios, as
conquistas e as realidades vividas no cotidiano do SUS.
É nesse contexto que nasce esta obra: “Saberes e Fazeres em Movimento:
Vivências do Mestrado Profissional em Saúde da Família (UFAL) no cuidado,
gestão e formação para o SUS”. O e-book reúne produções acadêmicas e narrativas
de experiências elaboradas por discentes, egressos e docentes do programa,
revelando um mosaico de saberes, práticas e afetos. Cada texto reflete um olhar
singular sobre o cuidado, a gestão e a formação em saúde, e, juntos, formam um
retrato coletivo da riqueza e diversidade que caracterizam o campo da Saúde
Coletiva.
As temáticas aqui abordadas percorrem os pilares da APS, a promoção da
saúde, a prevenção de agravos e o cuidado integral e discutem estratégias
inovadoras de trabalho, como as rodas de conversa, o uso de tecnologias de
informação, a ampliação das equipes multiprofissionais (eMulti) e a valorização da
interprofissionalidade. Esses relatos expressam o compromisso ético e social de
quem faz da prática cotidiana uma oportunidade de aprender e ensinar, cuidando
com ciência e com sensibilidade.
Além registrar resultados acadêmicos, este e-book explica caminhos
percorridos, vínculos e descobertas vividas nos territórios. Reflete também a força
de um processo formativo que não apenas ensina, mas transforma; que aquilata o
encontro entre pessoas e a importância das realidades locais como ponto inicial para
o aprendizado.
Ao agrupar essas vivências, a UFAL através do PROFSAÚDE reafirma seu
compromisso com a formação crítica, ética, interdisciplinar, transformadora e
comprometida dos profissionais do SUS, com seus princípios: universalidade,
integralidade e equidade. Trata-se de um convite à reflexão e ao movimento:
aprender e ensinar com o outro, construir com o território e seguir fortalecendo o
cuidado como expressão máxima do trabalho em saúde.
Que este e-book inspire o interesse, a reflexão e o encantamento do leitor a se
reconhecer também como parte desse movimento, de saberes, fazeres e de afetos,
que dá vida ao SUS e se renova diariamente, na esperança em um futuro mais
saudável, humano e solidário.
Divanise Suruagy Correia
Sumário
CAPÍTULO I. RODA DE CONVERSA COM CUIDADORES NA ATENÇÃO
PRIMÁRIA À SAÚDE: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA ...................................................... 19
CAPÍTULO II. A INTEGRALIDADE COMO ELO NOS NÍVEIS DE ATENÇÃO:
DESAFIOS DA CONTINUIDADE DO CUIDADO NA APS ................................................26
CAPÍTULO III. ATENÇÃO PRIMÁRIA E ENVELHECIMENTO ATIVO:
ESTRATÉGIAS DE PROMOÇÃO E PREVENÇÃO PARA A TERCEIRA IDADE ..... 32
CAPÍTULO IV. DESAFIOS DA INTERPROFISSIONALIDADE NA EDUCAÇÃO
PERMANENTE EM SAÚDE NO CONTEXTO DA APS: REVISÃO INTEGRATIVA
DA LITERATURA..................................................................................................................................... 43
CAPÍTULO V. SISTEMATIZAR SABERES, ORGANIZAR CUIDADOS ........................ 53
CAPÍTULO VI. QUALIFICAÇÃO DA COMUNICAÇÃO INTERPROFISSIONAL
NA ESF: UM PLANO DE AÇÃO CONSTRUÍDO EM EQUIPE .........................................59
CAPÍTULO VII. PRÁTICAS COLABORATIVAS EM SAÚDE: VÍDEO
EDUCATIVO .............................................................................................................................................. 67
CAPÍTULO VIII. HUMANIZA TECA: RODA DE CUIDADO COM
TRABALHADORES DA APS COMO ESTRATÉGIA DE FORTALECIMENTO DA
PNH E DA EDUCAÇÃO PERMANENTE ....................................................................................73
CAPÍTULO IX. QUALIFICAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA EQUIPE SAÚDE
DA FAMÍLIA PARA MELHORIAS NO ACOMPANHAMENTO PUERPERAL .... 79
CAPÍTULO X. CARTOGRAFIA SOCIAL E EDUCAÇÃO POPULAR:
MAPEANDO CUIDADO E PROMOVENDO SAÚDE EM UMA UNIDADE
BÁSICA DE SAÚDE ............................................................................................................................... 86
CAPÍTULO XI. CUIDAR DE SI E DO OUTRO: SABERES POPULARES E
SAÚDE NO TERRITÓRIO ................................................................................................................... 94
CAPÍTULO
XII.
ESTIMATIVA
RÁPIDA
PARTICIPATIVA
COMO
ORDENADORA DO PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO EM UMA UNIDADE
DE SAÚDE DA FAMÍLIA..................................................................................................................... 97
CAPÍTULO XIII. AÇÃO NA COMUNIDADE, UM RELATO DE EXPERIÊNCIA:
ULTRAPASSANDO OS MUROS, PROPORCIONANDO ACESSIBILIDADE E
EQUIDADE .............................................................................................................................................. 106
CAPÍTULO XIV. FORMAÇÃO PROFISSIONAL NA ATENÇÃO PRIMÁRIA:
EXPERIÊNCIAS VIVIDAS NO MESTRADO PROFSAÚDE/UFAL ................................. 115
CAPÍTULO XV. INCLUSÃO DE AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE NA
REALIZAÇÃO DE AÇÕES DE ENSINO NOS SERVIÇOS DE UMA UNIDADE
DOCENTE ASSISTENCIAL ............................................................................................................... 122
CAPÍTULO XVI. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E EDUCAÇÃO EM SAÚDE NA
APS: A EXPERIÊNCIA DE UM RECURSO AUDIOVISUAL EM UNIDADE
BÁSICA DE SAÚDE .............................................................................................................................. 128
CAPÍTULO XVII. INTEGRAÇÃO EM AÇÃO: RESPOSTA ARTICULADA DA
VIGILÂNCIA EM SAÚDE E DA APS EM UM CASO DE MENINGITE ........................ 135
CAPÍTULO XVIII. INTERVENÇÃO MULTIPROFISSIONAL NO CUIDADO À
CRIANÇA COM EPILEPSIA DE DIFÍCIL CONTROLE: DESAFIOS NA APS ...........142
CAPÍTULO XIX. A UTILIZAÇÃO DO PEC E-SUS NO COTIDIANO DOS
SERVIÇOS DA SAÚDE: ESTUDO BIBLIOMÉTRICO ......................................................... 144
Capítulo 1
RODA DE CONVERSA COM CUIDADORES NA
ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: UM RELATO DE
EXPERIÊNCIA
Andreza Dionisio Francelino Vilaplana
Tatiana Farias de Oliveira
Jhon Victor Silva dos Santos
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-1
1. INTRODUÇÃO
Atualmente, é cada vez mais comum identificar pessoas com sequelas decorrentes de
doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), condições degenerativas ou congênitas. Essas
condições frequentemente resultam em limitações de mobilidade que exigem cuidados
contínuos, geralmente assumidos por familiares ou eventualmente outras pessoas próximas.
Tais cuidados envolvem tarefas diárias essenciais, como higiene pessoal, alimentação,
administração de medicações, troca de curativos, entre outras (Melo et al., 2022, p. 2).
A rotina intensa pode gerar uma sobrecarga significativa aos cuidadores que precisam
conciliar essa responsabilidade com outras demandas da vida cotidiana — como o cuidado com
a casa, com outros membros da família, o trabalho e o próprio autocuidado. Como consequência,
é comum que apresentem sinais de esgotamento físico e emocional, redução da vida social,
isolamento afetivo e quadros de depressão, o que compromete diretamente sua qualidade de
vida (Melo et al., 2022, p. 2).
A relação de interdependência entre quem cuida e quem é cuidado já se encontra
formalmente reconhecida na Lei nº 15.069, de dezembro de 2024, que institui a Política
Nacional de Cuidados (PNC). Entre seus objetivos, destaca-se a promoção de políticas públicas
que assegurem o acesso a cuidados de qualidade tanto para a pessoa cuidadora quanto para a
pessoa cuidada. Além disso, a legislação reforça a importância de reconhecer e valorizar o
trabalho do cuidado, compreendendo-o como um direito e um bem social a ser compartilhado
de forma corresponsável entre Estado, sociedade, homens e mulheres, com atenção à
diversidade cultural dos povos brasileiros (Brasil, 2024).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 1
19
A presente atividade teve como público-alvo usuários do Sistema Único de Saúde (SUS),
cuidadores, responsáveis principais pelos cuidados diários de pessoas acamadas,
domiciliadas, portadoras de necessidades especiais congênitas ou outra condição adquirida de
saúde que curse com alguma redução da capacidade física ou mental; sem vínculo empregatício
formal ou remuneração do cuidado.
Com o objetivo de acolher os cuidadores inseridos na área de adscrição de uma Unidade
Básica de Saúde (UBS) no município de Arapiraca (AL), garantindo um ambiente seguro para
fortalecimento da individualidade, compartilhamento de experiências, necessidades e desafios
e para promover o autocuidado — individualmente ou coletivamente. Enquanto estratégia de
promoção à saúde no território, a roda de conversa foi a metodologia ativa que mais se adaptou
à essa proposta, uma vez que:
O espaço da roda de conversa intenciona a construção de novas possibilidades que se
abrem ao pensar, num movimento contínuo de perceber – refletir – agir – modificar, em
que os participantes podem se reconhecer como condutores de sua ação e da sua
própria possibilidade de “ser mais” (Sampaio et al., 2014, p. 1301).
Considerando que o público-alvo da intervenção é composto, em sua maioria, por
pessoas com múltiplas responsabilidades e sobrecarga decorrente do cuidado cotidiano, a roda
de conversa foi concebida como um espaço privilegiado de escuta, expressão e construção
coletiva. A proposta visou oportunizar aos cuidadores um momento no qual pudessem ser
vistos e ouvidos em sua integralidade, com liberdade para expressar sentimentos, contribuir
com opiniões e refletir sobre suas demandas e expectativas em relação ao cuidado que exercem
e às ações que desejam construir em conjunto com a equipe de saúde. A roda foi utilizada,
portanto, como dispositivo metodológico para o compartilhamento de vivências, experiências
e percepções, configurando-se, conforme Sampaio et al. (2014, p. 1305), em “um lugar para que
as pessoas possam expressar suas falas, questionamentos e angústias livremente”. Nesse
sentido, a escuta ativa e qualificada dos participantes foi compreendida como condição
essencial para o fortalecimento dos vínculos entre o grupo e a equipe da Estratégia Saúde da
Família (ESF), promovendo uma atuação conjunta e sinérgica voltada à promoção do bem-estar
e do autocuidado de cada cuidador.
2. MÉTODO
A intervenção foi desenvolvida na Unidade Básica de Saúde (UBS) Boa Vista, no
município de Arapiraca (AL), em 4 de junho de 2025. A atividade, intitulada: “Um olhar de
cuidado para quem cuida”, foi estruturada com base na metodologia de roda de conversa,
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 1
20
adotada como instrumento dialógico para promoção da escuta, acolhimento e construção
coletiva de saberes entre cuidadores de pessoas acamadas e/ou domiciliadas. O planejamento
da ação foi precedido por um levantamento situacional realizado em articulação com os
Agentes Comunitários de Saúde (ACS) das três equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) da
UBS, os quais identificaram 117 usuários acamados/domiciliados e seus respectivos cuidadores
principais. A partir desse mapeamento, os convites foram encaminhados pelos ACS aos
cuidadores por meio eletrônico, utilizando aplicativos de mensagens instantâneas, com
imagem-convite e mensagem de voz gravada pela proponente da ação.
A roda de conversa teve duração de uma hora e trinta minutos e ocorreu na sala de
reuniões da própria UBS, conduzida por duas profissionais médicas da unidade: uma na função
de facilitadora-mediadora e outra como sistematizadora do encontro. O momento foi
organizado com base em roteiro semiestruturado previamente elaborado, iniciando-se com a
recepção dos participantes que se posicionaram em formato circular, de modo a favorecer a
escuta horizontal. Na chegada, cada participante preencheu um formulário de registro
contendo dados iniciais. Em seguida, foi realizada a apresentação dos objetivos da atividade,
bem como a solicitação de autorização verbal para o registro audiovisual do encontro, mediante
assinatura em lista de consentimento conforme os preceitos éticos aplicáveis.
A mediação da roda foi conduzida de modo a garantir a livre expressão dos participantes.
Cada um foi convidado a se apresentar, mencionar o nome da pessoa de quem cuida e expressar,
por meio de uma palavra, o sentimento predominante relacionado ao exercício do cuidado
naquele momento. As palavras foram registradas e, posteriormente, organizadas em uma
nuvem digital de palavras como forma de sistematização e representação visual dos afetos
emergentes. Esse momento inicial também abriu espaço para que os cuidadores
compartilhassem suas histórias, de forma breve, descrevendo o significado atribuído à palavra
escolhida, promovendo um ambiente de confiança e escuta ativa. A partir dessas narrativas,
foram introduzidas perguntas norteadoras voltadas à reflexão sobre os desafios, sentimentos
e aprendizados envolvidos no processo de cuidar. As facilitadoras intervieram apenas quando
necessário, visando manter a organização dos turnos de fala, acolher as manifestações e
preservar a espontaneidade e a horizontalidade do diálogo.
Ao final da discussão, foi compartilhada com o grupo uma parábola adaptada — “O cesto
de bambu” — utilizada como recurso simbólico para reforçar a importância do autocuidado e
da valorização dos cuidadores enquanto sujeitos de cuidado. Na etapa de encerramento, foi
aplicado um formulário opcional para registro do interesse dos participantes em dar
continuidade à atividade, incluindo sugestões quanto à frequência dos encontros, temas de
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 1
21
interesse e eventuais demandas em saúde, como a solicitação de exames de rastreio adequados
à faixa etária e comorbidades autorreferidas. O encontro foi concluído com um momento de
lanche coletivo, favorecendo a socialização, a descontração e o fortalecimento dos vínculos
entre os participantes e a equipe de saúde.
A metodologia buscou alinhar-se aos princípios da Educação Popular em Saúde (EPS) e
à Política Nacional de Humanização (PNH), promovendo um espaço horizontal de escuta, onde
as experiências, dores e potências das cuidadoras fossem legitimadas como saberes válidos e
norteadores de futuras ações no território.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A roda de conversa “Um olhar de cuidado para quem cuida” contou com a participação
de nove cuidadores, sendo oito mulheres e um homem. Embora o convite tenha sido estendido
a todos os responsáveis pelos 117 usuários acamados ou domiciliados cadastrados nas três
equipes da UBS, apenas nove pessoas compareceram. A presença reduzida dos convidados não
foi tratada como indicador de desinteresse, mas sim como evidência concreta da sobrecarga
vivida por esse grupo, cuja rotina extenuante dificulta o comparecimento até mesmo em
atividades voltadas ao seu próprio bem-estar. Segundo Melo et al. (2022, p. 5), “os cuidadores
informais frequentemente enfrentam limitações para participar de espaços de cuidado e escuta,
por estarem absorvidos em tarefas contínuas, sem apoio institucional ou rede social
fortalecida”. Soma-se a isso o fato de que o cuidado ainda é, muitas vezes, visto como uma
responsabilidade privada, maioritariamente feminina e invisibilizada, como aponta a Lei nº
15.069/2024 (Brasil, 2024), o que pode contribuir para a ausência de políticas públicas
efetivas de suporte e, consequentemente, dificultar a mobilização desses sujeitos.
A baixa adesão, portanto, reforça a importância de estratégias que respeitem o tempo,
as condições e a autonomia dos cuidadores. A escuta ativa e a flexibilização de horários, bem
como a criação de vínculos com os profissionais da equipe de saúde, podem favorecer a
continuidade e ampliação da participação, tal como destacam Sampaio et al. (2014, p. 1306), ao
evidenciar que “as rodas de conversa, quando integradas à lógica da escuta e da
corresponsabilização, podem se tornar espaços potentes de pertencimento e transformação”.
A predominância feminina entre os participantes reafirma o perfil de gênero que
historicamente recai sobre a função do cuidado informal no Brasil, frequentemente assumida
por mulheres em contexto de desigualdade social, sobrecarga emocional e invisibilidade
institucional (Brasil, 2024).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 1
22
Durante o encontro os participantes foram convidados a descrever, por meio de uma
palavra, como se sentiam em relação ao vínculo de cuidado que desempenham. As palavras mais
frequentes foram “cansaço” e “gratidão”, sinalizando tanto o desgaste físico e emocional quanto
o afeto envolvido nesse processo. A partir dessa dinâmica inicial, iniciou-se o diálogo mediado
com base em perguntas norteadoras, as quais favoreceram a identificação de desafios como
exaustão, sensação de adoecimento físico e mental, conflitos familiares, isolamento e abandono
do autocuidado.
As principais demandas levantadas pelos participantes foram o acompanhamento
profissional em saúde mental, a criação de espaços de escuta e desabafo e o fortalecimento de
redes de apoio no território. Todos os nove participantes manifestaram desejo pela
continuidade da atividade em formato de grupo fixo seguindo a mesma metodologia de roda de
conversa, com sete comprometendo-se a comparecer mensalmente e dois preferindo encontros
bimestrais. Além disso, um dos participantes sugeriu o tema “alimentação para idosos” como
pauta para futuros encontros.
Dentre os encaminhamentos possíveis, destacam-se: a solicitação de exames de
rastreamento adequados à faixa etária para duas participantes que ainda não haviam realizado
os acompanhamentos; a formalização da roda como atividade mensal da UBS, com inserção em
agenda institucional e comunicação à equipe em reunião administrativa e ao Conselho Local de
Saúde; a sensibilização contínua dos ACS para convidarem os cuidadores nas próximas
edições; e o início da articulação com o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) para possível
apoio matricial relacionado à saúde mental dos cuidadores.
A roda de conversa cumpriu seu papel enquanto espaço horizontal de escuta e
construção coletiva, permitindo que os cuidadores compartilhassem suas vivências e
necessidades. Conforme destaca Sampaio et al. (2014, p. 1304), “a roda de conversa, ao
priorizar a escuta qualificada e o vínculo, permite a criação de territórios subjetivos que
operam como dispositivos terapêuticos”. A escuta ativa dos profissionais, o reconhecimento do
trabalho de cuidado e a valorização do saber dos participantes contribuíram para que o grupo
expressasse o desejo de seguir construindo esse espaço em conjunto com a UBS. Trata-se de
uma ação que fortalece a rede viva do território e se alinha ao disposto na Política Nacional de
Cuidados (PNC), instituída pela Lei nº 15.069/2024 (Brasil, 2024), ao reconhecer o cuidado
como bem social e direito a ser compartilhado e promovido.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 1
23
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A roda de conversa: “Um olhar de cuidado para quem cuida” revelou-se uma importante
estratégia de escuta, acolhimento e construção de vínculos com os cuidadores de pessoas
acamadas e domiciliadas vinculadas à UBS Boa Vista. A experiência permitiu compreender, com
maior profundidade, os desafios enfrentados por esses sujeitos em seu cotidiano, marcados por
sobrecarga, isolamento, exaustão física e emocional, conforme descrito por Melo et al. (2022, p.
3), que apontam a sobrecarga como um fator central na perda da qualidade de vida dos
cuidadores informais.
Ainda que o número de participantes tenha sido reduzido, isso apenas evidenciou a
magnitude dos obstáculos que os impedem de acessar espaços de cuidado voltados a si
próprios. Essa constatação reforça a relevância de ações contínuas e sensíveis à realidade
desses sujeitos, respeitando seus tempos e limitações, conforme proposto por Sampaio et al.
(2014, p. 1306), ao defenderem o potencial das rodas de conversa como espaços de
pertencimento e expressão subjetiva.
A escuta qualificada e o reconhecimento do papel fundamental exercido pelos
cuidadores contribuíram para a criação de um ambiente acolhedor e de confiança, capaz de
fomentar a participação e o desejo de continuidade da atividade. A formalização da roda de
conversa como prática mensal na UBS, com planejamento participativo e articulação com
outros pontos da rede de atenção, configura-se como um desdobramento estratégico e coerente
com os princípios da atenção primária à saúde e com a Política Nacional de Cuidados (Brasil,
2024), que reconhece o cuidado como direito, dever compartilhado e necessidade coletiva.
Em síntese, esta experiência reforça a importância de iniciativas interprofissionais que
promovam o cuidado de quem cuida, fortalecendo os laços comunitários e ampliando o acesso
desses sujeitos ao sistema de saúde. Trata-se de um passo relevante na construção de uma APS
mais sensível, humana e comprometida com os princípios da integralidade e da equidade.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei nº15.069, de 23 de dezembro de 2024. Institui a Política Nacional de Cuidados.
Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 26 dez. 2024. Disponível em: https://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/lei/L15069.htm. Acesso em: 03 mai. 2025.
FRANCO, T. B.; MERHY, E. E. O reconhecimento da produção subjetiva do cuidado e a produção
de saúde. In: MERHY, E. E.; ONOCKO CAMPOS, R. (Org.). A clínica do sujeito: por uma clínica
ampliada. São Paulo: Hucitec, 2003. p. 17–40.
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Capítulo 1
24
MELO, M. S. A. et al. Sobrecarga e qualidade de vida dos cuidadores de pessoas acamadas em
domicílio. Acta Paulista de Enfermagem, São Paulo, v. 35, eAPE02087, 2022. Disponível em:
https://www.revenf.bvs.br/pdf/ape/v35/1982-0194-ape-35-eAPE02087.pdf. Acesso em: 3
mai. 2025.
SAMPAIO, J. et al. Limites e potencialidades das rodas de conversa no cuidado em saúde: uma
experiência com jovens no sertão pernambucano. Interface: Comunicação, Saúde,
Educação, Botucatu, v. 18, supl. 2, p. 1299–1311, 2014. Disponível em:
https://doi.org/10.1590/1807-57622013.0264. Acesso em: 19 abr. 2025.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 1
25
Capítulo 2
A INTEGRALIDADE COMO ELO NOS NÍVEIS DE
ATENÇÃO: DESAFIOS DA CONTINUIDADE DO
CUIDADO NA APS
Beatriz Trindade da Rocha Silva
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-2
1. INTRODUÇÃO
O Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado pela Constituição Federal de 1988,
representando uma conquista das lutas sociais por um modelo público e universal de
assistência à saúde no Brasil. Com base nos princípios da universalidade, integralidade e
equidade, o SUS define a saúde como um direito fundamental para todos e uma
responsabilidade do Estado, conforme estipulado no artigo 196 da Constituição. As Leis nº
8.080/1990 e nº 8.142/1990 regulamentaram seu funcionamento, estabelecendo uma
estrutura descentralizada, hierárquica e com participação social (Brasil, 1990a; Brasil, 1990b).
Além de assegurar o acesso universal à saúde, o SUS é guiado por princípios doutrinários
que garantem o direito à saúde em suas dimensões biológicas, psicológicas e sociais, visando
reduzir as desigualdades históricas no acesso. Adicionalmente, os princípios organizativos
incluem a descentralização político-administrativa sob uma liderança única em cada esfera
governamental, regionalização dos serviços conforme sua complexidade e a participação da
população através de conselhos e conferências de saúde (Brasil, 1990a). Esses fundamentos são
essenciais para estabelecer uma rede integrada de atenção que seja justa e centrada nas
necessidades reais da população.
Neste contexto, a Atenção Primária à Saúde (APS) emerge como a coordenadora do
sistema de saúde e do cuidado ao paciente. Devido à sua ampla capilaridade territorial e à
capacidade de construir vínculos com os usuários através de uma abordagem holística, a APS
desempenha um papel crucial na articulação entre os diferentes níveis de atendimento. No
entanto, sua eficácia depende da definição clara dos fluxos assistenciais, mecanismos eficientes
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 2
26
para referência e contrarreferência e uma rede organizada que favoreça a continuidade do
cuidado (Giovanella et al., 2021; Mendes, 2011).
A integralidade é um princípio fundamental do SUS que orienta a organização do cuidado
em rede ao considerar as diversas dimensões das necessidades dos usuários e promover a
conexão entre os diferentes níveis de atenção (Brasil, 2012). Contudo, na prática diária da APS
— especialmente em áreas rurais com menor densidade tecnológica — existem barreiras que
dificultam a implementação desse princípio. A falta de fluxos regionais estabelecidos e lentidão
nos processos regulatórios são exemplos dessas dificuldades. Tais fragilidades se tornam ainda
mais evidentes no acompanhamento de condições crônicas complexas como o câncer, cuja
gestão exige agilidade na resposta integrada entre os pontos da rede.
Nesse cenário desafiador, as Redes de Atenção à Saúde (RAS) constituem-se como
pilares estratégicos para assegurar a integralidade do cuidado dentro do SUS. As RAS são
organizadas horizontalmente para articular diferentes pontos de atenção através de fluxos
assistenciais bem definidos que visam garantir continuidade no cuidado. Elas buscam superar
a fragmentação dos serviços por meio da promoção de ações integradas focadas nas
necessidades dos usuários com base nos atributos da atenção primária e na responsabilização
sanitária das áreas atendidas (Mendes, 2011).
A efetividade na coordenação do cuidado pela APS está intimamente ligada à
comunicação interprofissional e interinstitucional. A troca constante de informações clínicas
entre equipes permite um acompanhamento contínuo entre diferentes níveis assistenciais. A
ausência ou fragilidade desses mecanismos pode comprometer tanto as referências oportunas
quanto as contrarreferências qualificadas.
Entretanto, apesar das diretrizes que orientam as redes assistenciais, os serviços
terciários frequentemente apresentam desafios significativos para garantir a integralidade do
cuidado devido às barreiras logísticas enfrentadas pelos pacientes — incluindo longos tempos
de espera — além da desorganização nas vias regulatórias.
Este relato descreve experiências vivenciadas por uma equipe da Estratégia Saúde da
Família (ESF) durante o acompanhamento clínico abrangente oferecido a um paciente com
câncer ginecológico ressaltando entraves críticos ao acesso adequado ao diagnóstico
especializado.
2. MÉTODO
Este relato é baseado na experiência direta vivenciada por médicos pertencentes à ESF
no município de São Miguel dos Campos, em Alagoas, durante o mês de julho de 2023. O
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 2
27
acompanhamento foi estruturado por meio de visitas domiciliares regulares complementadas
por registros clínicos hospitalares bem como reuniões estratégicas com serviços
especializados.
3. DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA E DISCUSSÃO
Paciente do sexo masculino, 94 anos, viúvo, residente com duas filhas, com histórico de
hiperplasia prostática benigna (HPB), acompanhado regularmente pela equipe da Estratégia
Saúde da Família (ESF) e por urologista do município.
Foi admitido inicialmente em Unidade de Pronto Atendimento (UPA) com quadro de
vômitos, diarreia, oligúria e mal-estar geral. Ao exame laboratorial, evidenciou-se distúrbio
hidroeletrolítico (hipercalemia) e insuficiência renal aguda, possivelmente secundária a
infecção do trato urinário associada à obstrução urinária por HPB.
Diante do quadro, foi transferido para unidade hospitalar com necessidade de cuidados
intensivos, sendo internado em leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde permaneceu
lúcido, orientado, e referia redução importante da diurese, relatando acompanhamento
urológico prévio. Foram instituídas medidas clínicas e terapêuticas hospitalares, com
estabilidade progressiva do quadro.
Após sete dias de internação (entre UTI e enfermaria), o paciente recebeu alta hospitalar
com encaminhamentos para continuidade do cuidado na rede ambulatorial, incluindo retorno
à Unidade Básica de Saúde (UBS) e ao ambulatório de urologia.
A equipe da ESF realizou visita domiciliar 48 horas após a alta hospitalar. De posse do
relatório de alta e dos encaminhamentos, a equipe organizou o plano de cuidado pós-alta,
garantindo o agendamento do paciente no ambulatório especializado de urologia, viabilizando
a continuidade do acompanhamento conjunto na APS e na atenção ambulatorial especializada.
O caso clínico apresentado destaca a função da Atenção Primária à Saúde (APS) como
facilitadora do cuidado, sobretudo durante a transição entre o ambiente hospitalar e a
comunidade. Segundo a Política Nacional de Atenção Básica, cabe à APS organizar as redes de
atenção à saúde, incluindo o monitoramento longitudinal dos pacientes e a articulação com
outros serviços disponíveis (Brasil, 2012). Nesse contexto, as visitas domiciliares realizadas
pela equipe da Estratégia Saúde da Família (ESF) após a alta hospitalar constituem uma
estratégia crucial para assegurar a continuidade do cuidado, mitigar o risco de reinternações e
acompanhar a adesão ao plano terapêutico.
A coordenação do cuidado é um dos atributos fundamentais da APS e envolve a
integração das ações e serviços em diferentes níveis de atendimento. No exemplo analisado,
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 2
28
uma comunicação eficiente entre a unidade hospitalar e a ESF — possibilitada pelo envio do
relatório de alta — permitiu que a equipe de saúde organizasse rapidamente o
acompanhamento clínico do paciente na comunidade, facilitando seu retorno ao ambulatório
de urologia. A literatura sugere que a falta de mecanismos bem definidos para referência e
contrarreferência compromete a integralidade do atendimento, especialmente em populações
vulneráveis, como idosos com múltiplas comorbidades (Giovanella et al., 2021; Mendes, 2011).
O envelhecimento da população brasileira tem tornado mais comum o surgimento de
condições agudas associadas a doenças crônicas, como demonstrado no caso de insuficiência
renal aguda causada por infecção urinária em um paciente com hiperplasia prostática benigna.
A APS possui um papel privilegiado ao manter um vínculo longitudinal com o paciente e sua
família, permitindo identificar precocemente sinais de descompensação clínica e garantir
encaminhamentos
adequados
para
serviços
especializados
quando
necessário.
Adicionalmente, as visitas domiciliares representam uma tecnologia leve e eficaz que
possibilita à equipe compreender aspectos sociais, emocionais e familiares do cuidado que vão
além do enfoque biomédico, alinhando-se ao princípio da integralidade (Kalichman; Ayres,
2016).
Outro aspecto importante é o trabalho interprofissional da equipe da ESF. A elaboração
de um plano de cuidado pós-alta requer comunicação efetiva entre os profissionais envolvidos,
responsabilidade compartilhada e conhecimento sobre as opções de cuidado disponíveis na
região. A literatura recomenda que essas transições entre os níveis de atenção sejam guiadas
por protocolos clínicos estabelecidos e fluxos regionais acordados para minimizar falhas na
continuidade assistencial e aumentar a segurança dos pacientes (Brasil, 2010).
Este caso também sublinha a necessidade de sistemas de saúde capazes de oferecer
respostas coordenadas em situações que envolvem alta complexidade clínica e risco elevado,
especialmente para pacientes idosos hospitalizados. A atuação integrada entre APS e serviços
especializados fortalece o potencial da rede assistencial em proporcionar cuidados oportunos,
humanizados e resolutivos.
A experiência relatada ilustra claramente os limites e desafios enfrentados pela APS na
promoção da integralidade do cuidado dentro do Sistema Único de Saúde (SUS),
particularmente diante das condições clínicas complexas que exigem articulação com níveis
assistenciais mais avançados tecnicamente, como os serviços terciários. Apesar de ser
reconhecida como coordenadora das redes assistenciais (Brasil, 2012), a APS ainda opera em
um cenário repleto de fragilidades estruturais, institucionais e comunicacionais que dificultam
um acesso resolutivo por parte dos usuários.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 2
29
A fragmentação das redes assistenciais junto à falta de fluxos acordados para casos
médios e altos compromete não só a continuidade do atendimento, mas também acentua
desigualdades no acesso aos cuidados necessários — violando assim o princípio da equidade
(Giovanella et al., 2021). Ademais, uma insuficiência no diálogo entre os diversos pontos da
rede aliada à carência na integração dos sistemas informacionais revela uma desarticulação
prejudicial que impede respostas rápidas e coordenadas por parte do sistema (Kalichman;
Ayres, 2016).
Diante desse contexto desafiador, é urgente fortalecer a APS não apenas como porta de
entrada no SUS, mas também como elemento central integrador nas Redes de Atenção à Saúde
(RAS). Isso requer investimentos voltados ao aumento tanto da capacidade clínica quanto
organizacional da APS. Além disso, são necessárias estratégias que promovam uma melhor
comunicação entre os distintos níveis assistenciais; institucionalização de protocolos
intersetoriais; valorização do trabalho colaborativo multidisciplinar; bem como adoção de
tecnologias que favoreçam uma gestão compartilhada do cuidado (Mendes, 2011).
Em conclusão, este relato reforça que a integralidade no cuidado vai além das diretrizes
normativas — ela se concretiza nas práticas diárias — exigindo comprometimento político
efetivo; planejamento territorial adequado; educação continuada; além de estruturações
institucionais capazes de reconhecerem e potencializarem o papel articulador da APS na
construção contínua e humanizada das trajetórias terapêuticas dos pacientes (Brasil, 2012;
Mendes, 2011).
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As experiências destacam desafios persistentes enfrentados pelas equipes ESF
particularmente quando lidam com condições clínicas complexas exigindo articulação eficiente
entre múltiplos níveis assistenciais dentro SUS visando garantir acesso equitativo aos cuidados
necessários reforçando assim necessidade urgente fortalecimento institucional capacitando
APS atuar plenamente suas funções estratégicas dentro Redes Atenção Saúde promovendo
ações inovadoras interprofissionais efetivas ampliando capacidades operacionais necessárias
frente crescente demanda populacional envelhecida complexa.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Básica. Brasília, DF: Ministério da
Saúde, 2012. (Série E. Legislação em Saúde).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 2
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BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 4.279, de 30 de dezembro de 2010. Estabelece
diretrizes para a organização da Rede de Atenção à Saúde no âmbito do Sistema Único de
Saúde (SUS). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 31 dez. 2010.
BRASIL. Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção,
proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços
correspondentes e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 20
set. 1990a.
BRASIL. Lei nº 8.142, de 28 de dezembro de 1990. Dispõe sobre a participação da comunidade
na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) e sobre as transferências intergovernamentais de
recursos financeiros na área da saúde. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 31 dez. 1990b.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União,
Brasília, DF, 5 out. 1988.
GIOVANELLA, L. et al. Panorama da Atenção Básica no Brasil: conquistas e desafios. Ciência &
Saúde Coletiva, v. 26, n. 6, p. 2541–2552, 2021.
KALICHMAN, A. O.; AYRES, J. R. C. M. Integralidade e tecnologias de atenção à saúde: uma
narrativa sobre contribuições conceituais à construção do princípio da integralidade no SUS.
Cadernos de Saúde Pública, v. 32, n. 8, p. e00183415, 2016.
MENDES, E. V. As redes de atenção à saúde. Brasília, DF: Organização Pan-Americana da
Saúde, 2011.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 2
31
Capítulo 3
ATENÇÃO PRIMÁRIA E ENVELHECIMENTO ATIVO:
ESTRATÉGIAS DE PROMOÇÃO E PREVENÇÃO PARA A
TERCEIRA IDADE
Roberta de Albuquerque Wanderley
Laíne Rocha Bezerra Barbosa
Letícia Maria Santiago Silvério
Shauanny de Souza Silva
Stéphanie Dayane Lins Soares
Carlos Antônio dos Santos Junior
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-3
1. INTRODUÇÃO
A população de idosos no mundo tem aumentado consideravelmente nas últimas
décadas. No Brasil, estima-se que, em 2070, cerca de 37,8% da população terá 60 anos ou mais,
totalizando aproximadamente 75,3 milhões de pessoas (IBGE, 2023). Diante desse cenário, é
fundamental que os profissionais da Atenção Primária à Saúde estejam preparados para
atender às demandas desse grupo, desenvolvendo ações que promovam autonomia,
independência e bem-estar, com foco na autogestão em saúde (Previato et al., 2019).
Diante disso, a Atenção Primária à Saúde (APS) tem um papel essencial como porta de
entrada do Sistema Único de Saúde (SUS). A Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) reforça
que a APS não se limita ao atendimento de demandas agudas, mas deve atuar fortemente na
promoção da saúde, na vigilância em saúde e na prevenção de agravos, assumindo o
compromisso com a melhoria da qualidade de vida das pessoas e das comunidades (Brasil,
2017).
A resolutividade na atenção básica é conquistada com auxílio de ações de saúde
individuais, familiares e coletivas desenvolvidas por meio de práticas de cuidado integrado e
gestão qualificada, realizada com equipe multiprofissional (Silva et al., 2021). Isso inclui a
atuação nos diferentes níveis de prevenção: prevenção primária (promoção da saúde e
prevenção de fatores de risco), secundária (diagnóstico precoce), terciária (reabilitação e
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 3
32
controle de complicações), quaternária (evitar intervenções desnecessárias e reduzir danos)
(Martins et al., 2022).
O objetivo deste capítulo de livro é contextualizar através de um relato de experiência
ações realizadas por profissionais de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) com o intuito de
melhorar a qualidade da assistência médica oferecida ao público idoso com suas estratégias de
educação em saúde, rastreio e grupos terapêuticos, além de mencionar produtos obtidos nestas
ações.
2. MÉTODO
Trata-se de um relato de experiência referente às vivências em um grupo de convivência
para idosos, organizado por profissionais de saúde de uma unidade de Atenção Primária à
Saúde (APS) com implementação da Estratégia de Saúde da Família (ESF) do município de
Arapiraca (AL), no Nordeste do Brasil. Destaca-se que a criação do grupo se deu a partir de uma
decisão coletiva dos profissionais de saúde da unidade perante as necessidades do público
idoso do território. Assim, a finalidade foi promover um espaço de escuta e orientação, na qual
os idosos pudessem criar um grupo de socialização e receber orientações em saúde que
auxiliassem na prevenção e controle de doenças crônicas. Os convites para a reunião mensal
foram realizados durante as visitas dos agentes comunitários em saúde (ACS), nas consultas
médicas ou de enfermagem e através das redes sociais da unidade.
Por se tratar de um Relato de experiência, não foi necessário submeter o estudo ao
Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). Nesse sentido, cabe ressaltar que foram seguidos os
preceitos éticos contidos na Resolução nº 510 de 07 de abril de 2016 do Conselho Nacional de
Saúde (CNS) que trata da ética em pesquisas científicas, tanto para a análise dos dados quanto
para a socialização dos resultados. O texto foi articulado referindo-se apenas à experiência
profissional dos próprios autores, os dados utilizados são públicos, anônimos e não permitem
identificação e o foco é descritivo e reflexivo sobre a prática executada.
Para o embasamento bibliográfico introdutório realizou-se uma pesquisa bibliográfica
na base de dados da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), a estratégia de pesquisa incluiu os
seguintes descritores em ciências da saúde: “Atenção Primária à Saúde”, “Promoção da Saúde”,
“Idoso”, “Saúde do Idoso”, “Educação em Saúde”, seus correspondentes em inglês e o operador
booleano AND. Foram incluídos estudos referentes à promoção de saúde na atenção primária à
saúde do sistema único de saúde do Brasil voltada ao idoso; e que foram publicados de 2017 a
2025, período que enfoca as publicações mais recentes na área, sem restrições de idioma.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 3
33
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
EDUCAÇÃO EM SAÚDE COM CRIAÇÃO DE INSTRUMENTOS PARA
EQUIPE UTILIZAR
O desafio para quem faz a Atenção Primária é como despertar uma construção em saúde
dialógica, sem o profissional de saúde ser um mero informador e sim um instrumento de
ensinagem (aprendo e ensino ao mesmo tempo). A Educação em Saúde ampla, crítica e
dialógica, que visa à construção coletiva do conhecimento em saúde, valorizando os saberes
populares e promovendo a autonomia das pessoas, com sujeitos ativos no autocuidado e no
cuidado comunitário (Silva et al., 2021). Nesse sentido, promove a reflexão sobre a realidade e
estimula práticas emancipatórias, alinhando-se às diretrizes da Promoção da Saúde da
Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, 2020).
Numa Unidade de Saúde em Arapiraca (AL), foi-se adotado a distribuição de cartilhas
acerca de temáticas diversas (hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, dores crônicas e
menopausa) articuladas com as atividades de rotina (consultas, atendimentos coletivos, grupos
educativos e visitas domiciliares), momento nos quais o material impresso atua como um
suporte de reforço as orientações verbalmente, servindo como recurso de consulta posterior
pelos usuários e suas famílias. A construção dos materiais foi fundamentada em uma revisão
bibliográfica realizada em bases científicas e em publicações oficiais, com foco nos temas
específicos, e diagramada por meio da plataforma do Canva, com recursos gráficos que
favorecem a leitura e a compreensão, como uso de linguagem simples, ilustrações e organização
em tópicos. Por fim, a experiência da unidades têm mostrado que, quando bem planejadas, as
cartilhas educativas podem alcançar bons resultados, como o aumento da adesão ao
tratamento, o entendimento sobre doenças crônicas e a promoção de práticas saudáveis no
cotidiano do paciente e seus familiares. Principalmente em momentos de pressão assistencial
com tempo de consulta reduzido onde conseguimos facilitar o entendimento de algumas
informações importantes em momento compartilhado com familiares, vizinhos e até com os
agentes comunitários de saúde que também são capacitados para explicar as cartilhas.
Segue a seguir exemplos de cartilhas educativas desenvolvidas para o público idoso da
nossa Unidade:
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 3
34
Imagem 1 – Cartilhas de educação em saúde para idosos (diabetes, pé diabético, dor e dor crônica)
desenvolvidas numa Unidade de Saúde em Arapiraca (AL)
Fonte: Autores, 2025.
4. EDUCAÇÃO EM SAÚDE REALIZADA EM GRUPOS TERAPÊUTICOS DE
IDOSOS
Aqui trazemos o relato de como uma Unidade de Saúde em Arapiraca (AL) realiza ações
de reuniões com os idosos do território para socialização dos idosos e proporcionar orientações
em saúde que auxiliam na prevenção e controle de doenças crônicas com periodicidade mensal.
O último encontro realizado, por exemplo, teve como objetivo orientar acerca da higiene do
sono e aproveitou-se a ida a unidade para registro dos idosos participantes, verificação da
pressão arterial e glicemia ao acaso.
Para tanto, o espaço de reuniões da unidade foi organizado, após as boas-vindas e
explicação dos objetivos do encontro como espaço de socialização e aprendizado. A queixa de
insônia é recorrente entre idosos e aproveitamos o momento para entender o que os pacientes
já tinham de consciência como hábitos colaboradores e prejudiciais à boa qualidade do sono. A
busca do pensamento crítico coletivo foi provocado através de gamificação com jogo de
memória com trabalho cooperativo em equipes.
O jogo da memória com imagens ilustrativas sobre fatores que auxiliam e dificultam a
higiene do sono no dia a dia foi iniciado e as equipes que acertavam os pares eram provocadas
a desvendar o que a imagem provocaria no nosso sono. A proposta do jogo além de trabalhar
a estimulação cognitiva relacionada à memória, atenção, concentração, e reconhecimento
visual, trabalhou também a promoção da socialização, visto que os mesmos foram divididos em
equipes e tiveram que dialogar entre si para se obter reflexão e opinião única. Dentre as
imagens haviam ilustrações de café, chá, cama, rotina, lua e sol, comida, som, fome, TV e oração/
meditação. No final, após opinião dos participantes construímos confirmação de informação ou
correção a depender da resposta do público.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 3
35
Imagem 1 e 2 – Tarde do grupo de idosos sobre higiene do sono
Fonte: Autores, 2025.
5. CLASSIFICAÇÃO DE VULNERABILIDADES
ÍNDICE DE VULNERABILIDADE CLÍNICO-FUNCIONAL – 20 (IVCF-20)
A avaliação da capacidade funcional em idosos é um componente essencial não apenas
no campo da geriatria, mas da atenção integral à saúde do idoso, permitindo o monitoramento
contínuo da saúde, a identificação precoce de limitações que possam vir a comprometer a
independência, autonomia e a qualidade de vida e permitindo a implementação de intervenções
preventivas e terapêuticas, ajustadas às necessidades específicas do paciente, que podem
retardar ou até reverter a progressão das incapacidades, promovendo um envelhecimento
ativo e saudável (De Souza Santos, 2024).
O índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional-20 (IVCF-20) é um instrumento de
rastreio rápido que foi desenvolvido e validado no Brasil, usado na população assistida na
Atenção Primária à Saúde (APS) e disponível no sistema de prontuário eletrônico usado pelo
Sistema Único de Saúde (SUS), com alta confiabilidade e que avalia em uma perspectiva
multidimensional. O teste aborda aspectos multidimensionais do estado de saúde da pessoa
idosa através de 20 perguntas, sendo estas divididas em oito seções: idade, autopercepção da
saúde, atividades de vida diária (AVD), cognição, humor/comportamento, mobilidade,
comunicação e presença de comorbidades múltiplas (Brasil, 2024). Esta ferramenta gera uma
pontuação máxima de 40 pontos e a depender do valor obtido total classifica os idosos em
três categorias: robustos ou baixo risco de vulnerabilidade clínico-funcional (pontuação
menor ou igual a 6), pré-frágeis ou risco moderado de vulnerabilidade (7 a 14 pontos) e
frágeis ou alto risco de vulnerabilidade (soma maior ou igual a 15 pontos) (Da Silva, 2024).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 3
36
Nesse sentido, o sistema virtual de prontuários eletrônicos usado na rede de assistência
da APS do SUS facilita a utilização da escala de IVCF-20 trazendo-a em seu prontuário e após
realização da avaliação e finalização da consulta o índice fica registrado em local de fácil
visualização no prontuário e permitindo nova avaliação, se necessário, a qualquer momento.
Como estratégia, nesta Unidade de Saúde, foi realizado consultas interprofissionais com
colaboração de médicos, enfermeiros e seus estudantes em estágio curricular para realização
de forma ampla e rápida da classificação de nossos idosos.
6. ESCALA DE RISCO FAMILIAR DE COELHO E SAVASSI
A Escala de Risco Familiar de Coelho e Savassi (ERF-CS) busca identificar e estratificar,
especialmente, as vulnerabilidades sociais e de saúde das famílias cadastradas na Atenção
Primária à Saúde (APS) a partir das 13 principais sentinelas de risco descritas no Sistema de
Informação da Atenção Básica (SIAB), entre elas individuais (pessoa acamada, pessoa com
deficiência física, pessoa com deficiência mental, pessoa com desnutrição grave, pessoa com
tuberculose, pessoa com hanseníase, pessoa com hipertensão arterial sistêmica, pessoa com
diabetes mellitus, gestante, criança menor de 5 anos, idoso com 60 anos ou mais) e familiares
(família com relação morador/cômodo maior que 1 e família com renda per capita inferior a
1/2 salário mínimo). Cada sentinela possui uma pontuação específica, e a soma dos pontos
determina o nível de risco da família, orientando as ações das equipes de saúde (Santana et al.,
2022).
A aplicação da estratificação de vulnerabilidade familiar ocorreu após incômodo da
equipe com a desorganização das visitas domiciliares, já que era necessário classificar a
prioridade das visitas. Por isso, foi estruturada uma planilha baseada na ERF-CS, que está sendo
utilizada pelas equipes de saúde da família numa Unidade de Saúde em Arapiraca (AL).
O instrumento é composto por uma Planilha de Atendimento Domiciliar (PAD),
desenvolvida na plataforma Google Sheets, com o intuito de sistematizar o acompanhamento
dos pacientes domiciliados e acamados. A ferramenta inclui campos para identificação do
paciente, agente comunitário de saúde (ACS) responsável e critérios de classificação de
vulnerabilidade social baseados na ERF-CS. A partir do preenchimento das informações gerais
e dados clínicos, a planilha calcula automaticamente a previsão da próxima visita, destaca
atendimentos em atraso e sugere ao profissional a possibilidade de acionar o Serviço de
Atenção Domiciliar (SAD) para as modalidades 2 e 3.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 3
37
Imagem 3 – Planilha de Atendimento Domiciliar, baseada na ERF-CS
Fonte: Autores, 2025.
Além da planilha utilizada para organizar os atendimentos domiciliares, foi criada uma
Ficha de Atendimento Domiciliar na plataforma Google Docs, com a vantagem de poder ser
impressa e preenchida manualmente durante as visitas, facilitando o registro in loco das
informações. A ficha é baseada no modelo da anamnese clínica, adaptada às particularidades da
atenção domiciliar. Apresenta campos para a identificação do paciente, registro de queixas e
evolução clínica, além de campos específicos para informações referentes a pacientes
domiciliados e identificação dos cuidadores. A estrutura foi organizada de maneira semelhante
ao modelo SOAP (Subjetivo, Objetivo, Avaliação e Plano), a fim de simplificar o posterior
registro das informações no Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC).
7. RASTREIOS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
MAMOGRAFIA
A mamografia é um exame fundamental para o rastreamento precoce do câncer de
mama, tendo como o objetivo a redução da sua mortalidade e o diagnóstico precoce. Enquanto,
o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer (INCA) recomendam o exame bienal
apenas para mulheres de 50 a 69 anos, exceto casos de alto risco (INCA, 2023).
A U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF) recomenda que todas as mulheres
realizem o rastreamento do câncer de mama por meio de mamografia a cada dois anos,
iniciando aos 40 anos e continuando até os 74 anos, visando reduzir a mortalidade por essa
doença. Essa diretriz, atualizada em 2024, baseia-se em evidências que demonstram que o
rastreamento bienal nessa faixa etária proporciona um equilíbrio favorável entre benefícios
(redução de mortes) e riscos (falsos positivos, sobrediagnóstico). Apesar dessas evidências, o
Sistema Único de Saúde (SUS) mantém sua diretriz atual (Brasil, 2025), gerando discussões
sobre a necessidade de ampliação da idade de rastreio.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 3
38
Nosso público idoso de acompanhamento tem esta prevenção como um de seus focos de
acompanhamento e realizamos essa prevenção tanto na consulta de enfermagem, consulta
médica, educação em saúde e temos uma ação maior anual no mês de outubro, o chamado
Outubro Rosa, para aumentar o foco do tema.
8. COLPOCITOLOGIA
O Ministério da Saúde (MS), em conjunto com o INCA, atualizaram as diretrizes para o
rastreamento do câncer do colo do útero, estabelecendo a transição gradual da citologia
oncótica para o teste de DNA-HPV como método primário, mantendo como população-alvo
mulheres sexualmente ativas na faixa etária de 25 a 64 anos (Brasil, 2024).
Vale ressaltar que o projeto de mudança de rastreio por meio do nosso município ainda
está em construção e viabilidade financeira pelo SUS e, por isso, o rastreamento continua no
momento por meio da citologia oncótica para mulheres com vida sexual ativa, prioritariamente
entre 25 e 64 anos de forma anual. A cada 3 anos, após dois exames anuais consecutivos
normais. Com o encerramento do rastreamento aos 64 anos, nas mulheres, nas quais os últimos
dois exames foram normais nos últimos cinco anos e sem histórico de lesões pré-cancerosas.
Nosso público idoso sempre nos preocupamos com o momento de coleta, com a preocupação
de preparação prévia a citologia em mulheres com queixas de ressecamento vaginal, com
estrogenização tópica.
Além disso, nas mulheres com mais 64 anos de idade e que nunca se submeteram ao
exame citopatológico, deve-se realizar dois exames com intervalo de um a três anos. Se ambos
os exames forem negativos, essas mulheres podem ser dispensadas de exames adicionais
(INCA, 2016).
9. FRATURAS
O Ministério da Saúde (MS), recomenda o rastreamento de osteoporose para mulheres
a partir de 65 anos, mulheres na pós-menopausa com menos de 65 anos que apresentem fatores
de risco, homens com 70 anos ou mais e pacientes com histórico de fratura por fragilidade. O
método preferencial é a densitometria óssea, considerada padrão-ouro, complementada pela
ferramenta FRAX para avaliação de risco quando a densitometria óssea não estiver disponível
(Brasil, 2023).
A USPSTF, em 2025, recomenda a densitometria óssea como exame de rastreio de
osteoporose como objetivo de prevenir fraturas osteoporóticas,
recomendansdo o
rastreamento de osteoporose para mulheres a partir de 65 anos e para mulheres na
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 3
39
pós-menopausa com menos de 65 anos que apresentem fatores de risco aumentado para
fraturas. E menciona o uso da FRAX 2.0 em locais com dificuldade para acesso a densitometria
óssea como possibilidade de início de rastreio e colaborador na decisão de gestão da clínica em
locais com racionalidade do exame (U.S. Preventive Services Task Force, 2025).
Aqui mencionamos mais uma experiência realizada na Unidade que contempla o
atendimento do público idoso com construção de planilha com classificação de risco de
mulheres em idade de rastreio recomendada na literatura e planejamento de cuidados ligados
à prevenção considerando uma medicina centrada na pessoa e prevenção quaternária para
decisão em conjunto com o paciente na melhor forma de conduzir os casos em momento
posterior de consulta.
10.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O envelhecimento populacional é um fenômeno de extrema importância no Brasil, que
exige respostas estratégicas do sistema de saúde, especialmente na Atenção Primária à Saúde.
Neste capítulo, demonstramos a importância das práticas de ações voltadas à promoção da
saúde, prevenção de agravos e manejo das vulnerabilidades clínicas e sociais da população
idosa.
Estratégias como a criação de cartilhas educativas, grupos de convivência, aplicação do
IVCF-20 e estratificação de risco familiar são métodos válidos e essenciais no cuidado ao idoso
e na promoção da saúde comunitária. A educação em saúde é uma ferramenta transformadora
quando une saberes populares e evidências científicas, garantindo maior adesão e efetividade.
Exemplos como o jogo da memória sobre higiene do sono e as cartilhas temáticas ilustram como
estratégias lúdicas e informativas podem facilitar o aprendizado e a mudança de
comportamentos. Dessa forma, a combinação dessas práticas não só melhora a qualidade de
vida dos idosos, mas também fortalece vínculos comunitários e otimiza os recursos da saúde
pública, contribuindo para um envelhecimento ativo e saudável.
Ademais, os rastreamentos discutidos evidenciam a necessidade de políticas públicas
alinhadas à realidade epidemiológica nacional e às diretrizes internacionais, garantindo
equidade no acesso e a importância de decisões baseadas em evidências locais e na capacidade
operacional do SUS.
Por fim, as experiências descritas em UBS de Arapiraca-AL reforçam o papel da APS
como espaço privilegiado para inovações em saúde coletiva. A articulação entre educação,
rastreamento e gestão do risco clínico-funcional é essencial para promover um envelhecimento
saudável, em consonância com os princípios da APS e do SUS.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 3
40
REFERÊNCIAS
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Preliminar: Protocolos & Diretrizes: Rastreamento do Câncer do Colo do Útero no
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precoce do câncer de mama no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2023.
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https://docs.bvsalud.org/biblioref/2021/09/1291679/09-plano-de-dant-2022_2030.pdf.
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SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 3
41
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SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 3
42
Capítulo 4
DESAFIOS DA INTERPROFISSIONALIDADE NA
EDUCAÇÃO PERMANENTE EM SAÚDE NO CONTEXTO
DA APS: REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA
Renata Araújo de Souza Silva
Ana Carolina Correia Serafim
Túlio Romério Lopes Quirino
Michael Ferreira Machado
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-4
1. INTRODUÇÃO
A complexidade crescente das demandas de saúde da população tem evidenciado a
necessidade de formas mais integradas e colaborativas de atuação profissional nos sistemas de
saúde. Nesse contexto, a interprofissionalidade é compreendida como um modelo de prática
que visa à integração de diferentes profissionais na construção de um cuidado compartilhado e
centrado nas necessidades dos usuários. Essa abordagem pressupõe o reconhecimento e a
valorização dos diversos saberes e práticas que compõem o cuidado em saúde, promovendo a
articulação entre as áreas de conhecimento de modo horizontal e dialógico (Peduzzi, 2016;
WHO, 2010).
No âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS), no Brasil, esse modelo adquire relevância
ainda maior por se tratar do primeiro nível de atenção do Sistema Único de Saúde (SUS), onde
se busca resolver a maior parte dos problemas de saúde da população (Mendonça et al., 2023).
A Educação Permanente em Saúde (EPS), por sua vez, configura-se como um dos principais
lócus para o fortalecimento do efetivo trabalho em equipe e das práticas interprofissionais, pois
possibilita a formação no e para o trabalho, a partir das necessidades reais dos territórios
(Ceccim; Feuerwerker, 2004).
A implementação da interprofissionalidade, no entanto, exige transformações profundas
na cultura organizacional, nos processos de formação e nos arranjos institucionais do sistema
de saúde. No aspecto formativo, a educação interprofissional não é apenas uma diretriz
curricular, mas um compromisso ético-político com práticas colaborativas e integradas, que
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 4
43
pressupõem a superação de lógicas disciplinares e hierárquicas (Peduzzi, 2016; Mendes;
Silveira; Galvão, 2008; Ceccim; Feuerwerker, 2004). Esse compromisso demanda estratégias
pedagógicas participativas e a valorização do cotidiano dos serviços como espaço de produção
de saberes e práticas.
Além disso, a formação para o trabalho interprofissional precisa ser compreendida como
um processo contínuo, que articula ensino e serviço, e que envolve não apenas os profissionais
da saúde, mas também usuários e gestores. Essa articulação é fundamental para garantir que
as ações de EPS estejam sintonizadas com as necessidades do território e promovam mudanças
efetivas na organização do cuidado (Franco et al., 2023; Gomes et al., 2020).
Entretanto, a incorporação da perspectiva da interprofissionalidade fomentada nos
processos de EPS enfrenta diversos desafios, que vão desde barreiras estruturais até questões
culturais enraizadas no cotidiano das instituições de saúde. Faz-se necessário, portanto,
identificar tais barreiras, com vistas a vislumbrar estratégias que permitam superá-las na
efetivação do trabalho interprofissional. Diante disso, o presente artigo tem como objetivo
sistematizar e analisar os principais desafios encontrados na literatura recente sobre o tema,
contribuindo para a reflexão crítica e a formulação de propostas que visem o fortalecimento da
interprofissionalidade na APS.
2. MÉTODO
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, que permite a síntese de resultados de
pesquisas sobre um tema específico, possibilitando uma compreensão mais abrangente e
aprofundada do fenômeno estudado (Mendes; Silveira; Galvão, 2008). Foram seguidas as
seguintes etapas metodológicas: formulação da pergunta de pesquisa, definição dos critérios
de inclusão e exclusão, coleta dos dados, avaliação crítica dos estudos, análise e síntese dos
resultados e apresentação da revisão.
A pergunta norteadora foi: “Quais os desafios para a efetivação da interprofissionalidade
na Educação Permanente em Saúde no contexto da Atenção Primária à Saúde?”. Os descritores
em ciências da saúde e palavras-chave em linguagem natural utilizados foram:
“interprofissionalidade”, “educação permanente em saúde” e “atenção primária à saúde”.
A busca foi realizada nos meses de abril e maio de 2025, nas bases da Biblioteca Virtual
de Saúde, sendo localizados 37 artigos publicados entre 2019 e 2024. Foram incluídos artigos
publicados no recorte temporal analisado, escritos em língua portuguesa, que abordassem
diretamente a perspectiva da interprofissionalidade na EPS, no contexto da APS, e com
disponibilidade de texto na íntegra. Foram excluídos textos duplicados ou com temática
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 4
44
tangencial, artigos de opinião, editoriais e resenhas. A amostra final foi composta por nove
artigos científicos, os quais foram organizados em um quadro-síntese e analisados segundo
categorias temáticas emergentes.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos artigos permitiu a identificação de quatro grandes categorias de desafios
para a interprofissionalidade na EPS no contexto da APS: (a) desafios estruturais e políticos; (b)
desafios institucionais e organizacionais; (c) desafios formativos e pedagógicos; e, (d) desafios
culturais e relacionais. Cada uma dessas categorias é discutida a seguir, com base nas evidências
da literatura.
Quadro 1 – Síntese dos artigos analisados e categorias identificadas
Autor(es)/Ano
Lima et al. (2022)
Viana et al. (2020)
Oliveira et al.
(2021)
Batista
et
al.
(2023)
Silva et al. (2021)
Teixeira et al.
(2021)
Gomes
et
al.
(2020)
Souza et al. (2022)
Reis et al. (2023)
Tipo de Estudo
Estudo
qualitativo
Estudo de caso
Pesquisa
documental
Estudo
qualitativo
Estudo
descritivo
Pesquisa
de
campo
Estudo
transversal
Estudo
qualitativo
Revisão
narrativa
Desafios Identificados
Descontinuidade de políticas de EPS,
ausência de financiamento
Falta de articulação intersetorial e de gestão
participativa
Centralidade do modelo médico, relações
hierárquicas
Fragilidade na institucionalização da EPS
nas rotinas da APS
Baixa priorização da EPS na gestão, falta de
planejamento integrado
Formação
inicial
uniprofissional,
dificuldade com metodologias ativas
Falta de preparo dos facilitadores,
resistência a práticas colaborativas
Disputas de poder entre categorias,
comunicação ineficaz
Assimetrias entre os profissionais, ausência
de escuta ativa e empatia
Categoria
Estruturais e Políticos
Estruturais e Políticos
Estruturais e Culturais
Institucionais
e
Organizacionais
Institucionais
e
Organizacionais
Formativos
e
Pedagógicos
Formativos
e
Pedagógicos
Culturais e Relacionais
Culturais e Relacionais
Fonte: Os autores.
DESAFIOS ESTRUTURAIS E POLÍTICOS
Os desafios estruturais e políticos que limitam a incorporação da interprofissionalidade
na EPS decorrem da fragmentação das políticas públicas, do subfinanciamento da atenção
primária e da descontinuidade das ações formativas. Diversos estudos destacam que a ausência
de diretrizes integradas entre os diferentes níveis de gestão e entre os setores da educação e
saúde inviabiliza a consolidação de estratégias permanentes (Lima et al., 2022; Viana et al.,
2020). Associado a estes aspectos, a instabilidade das gestões municipais e estaduais
compromete a sustentabilidade de iniciativas voltadas à formação para o trabalho
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 4
45
interprofissional, uma vez que mudanças políticas resultam na descontinuidade de projetos e
na desmobilização de equipes (Lima et al., 2022).
O subfinanciamento crônico da APS aparece como um fator transversal, impactando
diretamente na capacidade de investimento em formação e na valorização de equipes com
práticas interprofissionais ativas. A dificuldade de destinar recursos específicos para ações de
EPS voltadas à colaboração entre categorias profissionais revela o descompasso entre as
diretrizes do SUS e as práticas de gestão orçamentária (Batista et al., 2023; Gomes et al., 2020).
Ainda, há um distanciamento entre os marcos normativos e a realidade vivida nos
territórios. A existência de documentos que estimulam a interprofissionalidade não garante,
por si só, sua efetivação, especialmente quando não se articulam a um contexto político
favorável e a uma estrutura administrativa sólida (Oliveira et al., 2021). Políticas de saúde
fragmentadas e ações formativas descontinuadas reduzem a potência transformadora da EPS
como estratégia de qualificação do trabalho e integração entre práticas e saberes (Reis; Silva,
2023).
Esses elementos evidenciam a necessidade de pactuações mais coerentes, que articulem
esforços entre os níveis de governo e promovam financiamento estável, gestão participativa e
planejamento intersetorial. Apenas com um compromisso político consistente será possível
consolidar a EPS como um dispositivo político permanente e efetivo de fortalecimento da
interprofissionalidade na APS (Ceccim; Feuerwerker, 2004; Franco et al., 2023).
A interprofissionalidade, nesse contexto, não pode ser reduzida a uma diretriz técnica,
mas deve ser concebida como um princípio estruturante das políticas de saúde e da formação
em serviço. O fortalecimento de redes regionais de colaboração, com ênfase na governança
participativa e na construção de projetos de saúde territorializados, pode representar um
caminho estratégico para superar os entraves estruturais e ampliar o alcance das práticas
interprofissionais (WHO, 2010; Peduzzi, 2016).
Nesse sentido, a intersetorialidade e a articulação entre políticas públicas são
indispensáveis à construção de estratégias eficazes e sustentáveis de educação permanente
voltada ao trabalho colaborativo. Superar os limites estruturais implica reconhecer que a
interprofissionalidade não se restringe ao campo da formação, mas deve estar articulada aos
processos de planejamento, gestão e avaliação em saúde (WHO, 2010; Ceccim; Feuerwerker,
2004).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 4
46
DESAFIOS INSTITUCIONAIS E ORGANIZACIONAIS
No plano institucional, observa-se o predomínio de modelos hierarquizados de gestão e
de organização do trabalho que dificultam a integração entre os profissionais de saúde. A
ausência de espaços protegidos para a formação em serviço, a sobrecarga dos profissionais e a
fragmentação das rotinas organizacionais impedem a criação de momentos sistemáticos de
aprendizagem colaborativa (Batista et al., 2023; Silva et al., 2021). Essas barreiras institucionais
contribuem para a manutenção de práticas centradas na especialização e na autonomia técnica,
em detrimento do cuidado compartilhado (Oliveira et al., 2021).
As estruturas institucionais da APS ainda operam, em muitos casos, com baixa
valorização da EPS como parte do processo de trabalho. A formação em serviço, quando ocorre,
é frequentemente desvinculada dos fluxos assistenciais e das demandas territoriais. Além disso,
há carência de lideranças que fomentem uma cultura de aprendizagem e que priorizem a
construção de estratégias formativas de caráter interprofissional (Gomes et al., 2020).
Outro aspecto recorrente é a falta de articulação entre os setores da gestão, da educação
na saúde e da assistência em saúde, o que gera ações formativas desconectadas das
necessidades reais dos territórios. A ausência de planejamento integrado entre serviços e
instituições formadoras, assim como a falta de agendas conjuntas entre os profissionais da APS,
reforça a fragmentação das práticas e compromete a construção de projetos coletivos de
cuidado (Teixeira et al., 2021; Reis; Silva, 2023).
Esses desafios indicam a necessidade premente de mudanças na cultura organizacional,
com foco na criação de dispositivos institucionais que promovam a integração entre formação,
ação profissional nos serviços e gestão em saúde. Iniciativas como núcleos de EPS, colegiados
gestores com participação multiprofissional e momentos regulares de formação em serviço são
fundamentais para sustentar práticas colaborativas e transformar o cotidiano das unidades de
saúde (Ceccim; Feuerwerker, 2004). Além disso, o reconhecimento institucional da
interprofissionalidade como eixo estruturante da APS deve se materializar na alocação de
tempo, recursos e apoio às equipes que buscam consolidar essas práticas (Franco et al., 2023).
DESAFIOS FORMATIVOS E PEDAGÓGICOS
Os desafios formativos e pedagógicos estão relacionados, principalmente, à organização
dos processos de formação profissional que ainda seguem modelos uniprofissionais,
fragmentados e desarticulados da realidade do trabalho na APS. A formação superior em saúde,
de modo geral, ainda privilegia conteúdos técnico-biológicos, com baixa ênfase nas práticas
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 4
47
colaborativas e nas competências relacionais necessárias ao efetivo trabalho em equipe e
interprofissional (Gomes et al., 2020; Teixeira et al., 2021).
A ausência de uma cultura pedagógica voltada à interprofissionalidade nas instituições
formadoras dificulta a construção de referenciais comuns entre as diferentes áreas da saúde.
Os currículos permanecem, na maioria das vezes, compartimentalizados, com disciplinas
isoladas e escassa articulação entre teoria e prática. Isso reduz significativamente a
possibilidade de os profissionais desenvolverem, desde a graduação, habilidades como a
comunicação interprofissional, o respeito à diversidade de saberes e o reconhecimento da
interdependência no cuidado (Teixeira et al., 2021; Ceccim; Feuerwerker, 2004). Fomentando
com que as ações de EPS muitas vezes reproduzam esse modelo fragmentado, com ênfase em
treinamentos pontuais, dissociados do cotidiano e das necessidades reais dos serviços. A
escassez de metodologias ativas, o baixo preparo dos facilitadores e a dificuldade de criar
espaços de aprendizagem coletiva e crítica são apontadas como obstáculos importantes (Gomes
et al., 2020; Silva et al., 2021). Ainda que exista um arcabouço normativo que sustente a EPS
como estratégia transformadora, na prática, ela muitas vezes é tratada como mera capacitação
técnica, perdendo seu potencial de articulação entre formação, gestão e produção do cuidado
(Reis; Silva, 2023).
A superação desses desafios requer mudanças estruturais nas políticas de formação e a
consolidação de parcerias entre serviços de saúde e instituições de ensino, para que os
processos pedagógicos sejam orientados por metodologias críticas, dialógicas e situadas nos
territórios. É fundamental também investir na formação de facilitadores e preceptores com
domínio da abordagem interprofissional, capazes de promover a problematização coletiva e o
desenvolvimento de competências colaborativas entre os trabalhadores da APS (Franco et al.,
2023; Ceccim; Feuerwerker, 2004).
DESAFIOS CULTURAIS E RELACIONAIS
A interprofissionalidade não se constrói apenas por meio de mudanças organizacionais
e curriculares, mas exige transformações profundas nos modos de se relacionar e produzir o
cuidado em saúde. Os desafios culturais e relacionais se expressam na resistência à mudança,
nas disputas de poder entre categorias profissionais, na fragmentação das identidades
profissionais e na dificuldade de construir confiança e corresponsabilidade entre os membros
da equipe (Souza et al., 2022; Batista et al., 2023).
A cultura profissional hegemônica em muitas categorias, especialmente nas profissões
que se ancoram em uma formação biomédica, historicamente tem reforçado posturas
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 4
48
individualistas e hierarquizadas que dificultam o reconhecimento da legitimidade dos outros
saberes. Isso se traduz em conflitos interpessoais, pouca escuta entre os profissionais,
dificuldades na gestão compartilhada dos casos e sobreposição de funções e ações (Oliveira et
al., 2021; Gomes et al., 2020). Tais aspectos comprometem não só a qualidade do cuidado, mas
também a saúde mental e a motivação das equipes.
Outro fator relevante é a invisibilização do trabalho de algumas categorias,
especialmente dos profissionais de nível técnico, agentes comunitários e profissionais de apoio,
que muitas vezes não são incluídos nas decisões clínicas e nos espaços de planejamento. A
ausência de escuta ativa e empatia contribui para o distanciamento entre os profissionais,
gerando desconfiança, baixa adesão às ações colaborativas e desvalorização do trabalho
coletivo (Reis; Silva, 2023; Souza et al., 2022).
A mudança desse cenário exige ações estratégicas permanentes, que promovam a
valorização do diálogo, o fortalecimento da identidade coletiva das equipes e o reconhecimento
da diversidade como uma riqueza para o cuidado. Estratégias como rodas de conversa,
supervisões coletivas, oficinas de sensibilização e outras formas de educação em serviço têm se
mostrado potentes para fomentar uma cultura interprofissional (Franco et al., 2023). É
necessário que essas ações sejam acompanhadas de suporte institucional e valorizadas como
parte do processo de trabalho na APS (Batista et al., 2023; Ceccim; Feuerwerker, 2004).
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise dos desafios para a efetivação da interprofissionalidade nos processos de
Educação Permanente em Saúde (EPS) no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS) evidencia
a complexidade dessa empreitada. Os obstáculos identificados transcendem aspectos
meramente técnicos, revelando implicações estruturais, institucionais, pedagógicas, políticas e
culturais que se inter-relacionam e se reforçam mutuamente.
Do ponto de vista estrutural e político, a fragmentação das políticas públicas, o
subfinanciamento da APS e a instabilidade das gestões locais impõem limites significativos à
continuidade e à efetividade das ações formativas de caráter interprofissional. Tais elementos
apontam para a necessidade de articulação intersetorial e de maior compromisso político com
a valorização do trabalho em equipe e com a institucionalização da EPS como dispositivo
estratégico do SUS.
No plano institucional e organizacional, a persistência de modelos centrados na
hierarquia e no saber biomédico, associada à ausência de espaços protegidos para a reflexão
coletiva, dificulta a construção de ambientes de aprendizagem colaborativos. Esses fatores
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 4
49
demandam a reconfiguração das práticas de gestão e a criação de dispositivos que favoreçam a
integração entre os diferentes atores do processo de cuidado.
Quanto à formação, os achados reforçam a urgência de superar currículos
uniprofissionais e práticas pedagógicas desarticuladas da realidade do trabalho em saúde. A
educação interprofissional exige metodologias ativas, facilitadores qualificados e processos que
valorizem o diálogo entre os saberes. Nesse sentido, a EPS pode ser um potente indutor de
mudanças, desde que orientada por princípios críticos e emancipatórios.
Por fim, os desafios culturais e relacionais se expressam na resistência à mudança, nos
conflitos entre categorias e na dificuldade de reconhecimento da interdependência entre os
profissionais. Enfrentar tais questões requer o investimento em iniciativas que promovam o
desenvolvimento de competências relacionais, como a comunicação, a empatia e o respeito
mútuo, elementos fundamentais para práticas verdadeiramente colaborativas.
Conclui-se, portanto, que a consolidação da interprofissionalidade na EPS demanda mais
do que ações pontuais ou iniciativas isoladas. Requer uma transformação profunda nas formas
de gerir, formar e se relacionar no cotidiano do SUS, o que implica reconhecer a
interprofissionalidade como elemento organizador do cuidado e da formação, e não apenas
como um recurso instrumental. Ao evidenciar os principais entraves para essa transformação,
esta revisão pretende contribuir com o debate e a formulação de práticas mais integradoras,
críticas e comprometidas com a construção de um sistema de saúde mais equânime e
resolutivo.
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SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 4
52
Capítulo 5
SISTEMATIZAR SABERES, ORGANIZAR CUIDADOS
Manuela do Nascimento Lourenço
Cristina Camelo de Azevedo
Jefferson de Souza Bernardes
Maria das Graças Monte Mello Taveira
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-5
1. INTRODUÇÃO
O fortalecimento do planejamento descentralizado em saúde tem sido um desafio
persistente para a efetivação dos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), sobretudo no
âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS). Ainda que o planejamento esteja previsto como
ferramenta estruturante da gestão em todos os níveis, observa-se que, na prática cotidiana das
Unidades Básicas de Saúde (UBS), esse processo muitas vezes se reduz ao cumprimento de
metas desarticuladas da realidade dos territórios, ou ao preenchimento de instrumentos
burocráticos pouco compreendidos pelas equipes locais (Feuerwerker, 2012; Brasil, 2016). Tal
cenário evidencia a urgência de dispositivos pedagógicos e metodológicos que consigam
aproximar os sujeitos da gestão do cotidiano e do pensamento crítico sobre suas práticas.
O planejamento em saúde no âmbito do SUS é concebido como um processo estratégico,
técnico e político, destinado à organização das ações e serviços de forma territorializada,
participativa e intersetorial. Conforme estabelecido pela Portaria nº 2.135/2013 do Ministério
da Saúde (MS), sua finalidade ultrapassa a mera definição de metas: trata-se de garantir que a
gestão pública da saúde responda às necessidades concretas dos territórios, valorizando o
protagonismo dos sujeitos envolvidos (Brasil, 2016). No entanto, a realidade ainda revela um
descompasso entre o planejamento como diretriz normativa e sua incorporação prática pelas
equipes das Unidades Básicas de Saúde (UBS). Frequentemente, o planejamento é vivido como
obrigação burocrática, reduzido ao preenchimento de formulários e desconectado da realidade
local.
A construção da proposta da ferramenta descomplicada surge como resposta ao desafio
de tornar o planejamento em saúde mais próximo da realidade das equipes. O processo buscou
resgatar o sentido pedagógico e transformador do ato de planejar, inspirando-se no
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 5
53
Planejamento Estratégico Situacional (PES), formulado por Carlos Matus e sistematizado no
Brasil por autores como Rocha et al. (2018). Com base na premissa de que planejar é pensar
antes de agir, o desenvolvimento da ferramenta partiu da escuta dos profissionais para
compreender a realidade, identificar os nós críticos da gestão e formular, coletivamente,
caminhos viáveis do ponto de vista operacional e político.
Essa concepção aproxima-se da pedagogia da problematização, fortemente ancorada em
Paulo Freire, na qual o planejamento se constitui como prática emancipatória. Nessa
perspectiva, o conhecimento não é imposto de cima para baixo, mas construído coletivamente
a partir das experiências e dos saberes situados de quem vive e atua nos territórios
(Feuerwerker, 2012). Planejar, assim, deixa de ser um ato técnico e passa a ser um exercício de
análise crítica e construção coletiva, que articula racionalidade técnica com compromisso ético
e político.
Ao valorizar a escuta, a análise situada e a linguagem acessível, a ferramenta propõe uma
ruptura com os modelos tradicionalmente burocráticos. Ao invés de impor metas descoladas
da realidade, ela parte da experiência cotidiana das equipes, promovendo o diálogo entre os
dados institucionais, os indicadores de saúde e os saberes do território. Nesse sentido, sua
lógica está profundamente alinhada às diretrizes da formação profissional no SUS, que
defendem a integração ensino-serviço-comunidade como eixo estruturante da educação
permanente e da gestão participativa (Ceccim; Feuerwerker, 2004; Brasil, 2018).
Portanto, descomplicar o planejamento não significa simplificá-lo de forma reducionista,
mas sim torná-lo compreensível, apropriável e aplicável por quem está na linha de frente da
atenção à saúde. A ferramenta, assim, propõe-se como tecnologia leve de gestão e formação,
que transforma o ato de planejar em uma prática situada, reflexiva e transformadora.
2. MÉTODO
O processo de construção da ferramenta descomplicada para o planejamento
descentralizado em saúde, apresentado neste relato de experiencia, foi concebido como
estratégia formativa para subsidiar e qualificar os processos de organização do trabalho nas
Unidades Básicas de Saúde (UBS). Combinando simplicidade de linguagem, aplicabilidade
prática e rigor teórico, sua elaboração ocorreu de forma dialógica junto a trabalhadores da
saúde e preceptores, em consonância com os princípios da integração ensino-serviçocomunidade e da participação ativa como base para a transformação das práticas em saúde
(Ceccim; Feuerwerker, 2004). Conforme defende Matus (apud Rocha et al., 2018), planejar é
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 5
54
antecipar a ação com método e análise crítica, reconhecendo o planejamento como prática
também política e educativa.
O processo de construção da ferramenta se apresenta, portanto, como uma estratégia
viável para estimular o planejamento no cotidiano das UBS e da gestão municipal, ao provocar
reflexões sobre os determinantes dos problemas enfrentados, fomentar a construção
compartilhada de metas e possibilitar o alinhamento com os indicadores pactuados no Plano
Municipal de Saúde e no financiamento da atenção básica. Mais do que elaborar um
instrumento técnico, o percurso adotado buscou consolidar uma experiência formativa, que
valoriza o planejamento como prática pedagógica, ética e política em saúde.
A metodologia de construção da ferramenta envolveu três etapas: diálogo inicial com
profissionais da Atenção Primária a Saúde (APS) e técnicos da Secretaria Municipal de Saúde
(SMS) para apresentação da proposta; realização de oficina com preceptores para análise de
situações-problema e testagem do instrumento; e validação teórico-prática, sem aplicação
efetiva nas unidades durante o estudo. A escolha por um formato descomplicado refletiu uma
decisão político-pedagógica voltada à apropriação crítica pelas equipes, reconhecendo o
cotidiano dos serviços como espaço de produção do cuidado e da gestão (Feuerwerker, 2012).
Ao articular teoria e prática, este trabalho mostra que para o aprimoramento dos
processos de planejamento nas unidades de saúde só será possível quando houver real
valorização das experiências dos trabalhadores e da escuta ativa das comunidades, traduzindo
o princípio da descentralização em práticas concretas. Para tanto, o fortalecimento do
planejamento local exige metodologias que dialoguem com a realidade dos territórios, que
estimulem o protagonismo das equipes e que contribuam para a superação da fragmentação
entre gestão, formação e cuidado.
RODAS DE CONVERSA COMO PRÁTICAS DE ESCUTA, ANÁLISE E
CONSTRUÇÃO COLETIVA
O método adotado para o desenvolvimento e aplicação da ferramenta descomplicada de
planejamento baseou-se em abordagem qualitativa, estruturada a partir de rodas de conversa
com os sujeitos envolvidos no cotidiano das Unidades de Saúde (US). Essa escolha metodológica
se ancora na perspectiva das práticas discursivas e produção de sentidos (Spink, 2013),
buscando compreender como os profissionais constroem significados sobre o planejamento em
saúde e sua integração com o ensino e a comunidade.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 5
55
O percurso metodológico foi dividido em três etapas interdependentes, concebidas
como um processo educativo e participativo com os profissionais da APS e os técnicos da
Secretaria Municipal de Saúde (SMS):
Etapa 1 – Reunião com as equipes de saúde e técnicos da SMS: realizada na sede da
SMS de Arapiraca (AL), teve como objetivo apresentar e discutir a proposta da ferramenta.
Durante o encontro, os participantes analisaram a coerência do instrumento com a realidade
das UBS, sugeriram ajustes e propuseram a realização de uma oficina formativa. Também foi
solicitado às equipes que elaborassem uma Análise da Situação de Saúde (ASS) de seus
territórios como subsídio para o uso da ferramenta.
Etapa 2 – Oficina com preceptores: com participação de 10 preceptores das áreas de
enfermagem e medicina, a oficina foi conduzida com base na legislação vigente (PMS, PAS,
Previne Brasil), orientações da ferramenta e debate sobre situações-problema vivenciadas nas
unidades. As análises de situação apresentadas subsidiaram a identificação de prioridades e a
simulação do preenchimento da ferramenta. Foram selecionadas duas situações reais: a baixa
cobertura do exame citopatológico e o aumento da gravidez na adolescência. Ambas as
temáticas foram analisadas à luz dos indicadores oficiais e discutidas coletivamente.
Etapa 3 – Validação e ajustes finais da ferramenta: com base nas discussões
realizadas na oficina, as equipes participantes contribuíram com sugestões que permitiram
aprimorar a ferramenta, incorporando elementos de apoio como cronogramas, metas,
instrumentos de monitoramento e textos de orientação. A aplicação prática nas UBS, prevista
como etapa posterior, ainda não havia sido realizada até o encerramento do estudo, ficando
como recomendação futura.
Esse percurso metodológico buscou promover o fortalecimento da escuta ativa, da
leitura crítica da realidade local e da construção coletiva de soluções. A utilização das rodas de
conversa permitiu não apenas a compreensão dos sentidos atribuídos ao planejamento, mas
também o engajamento dos profissionais em práticas mais participativas e articuladas ao
cotidiano das UBS.
3. RESULTADOS
A discussão coletiva das situações-problema, realizada durante a oficina com os
preceptores, demonstrou que, quando o planejamento é ressignificado como prática crítica e
participativa, ele adquire maior potencial de efetividade. A escolha das temáticas — baixa
cobertura de exames citopatológicos e gravidez na adolescência — evidenciou como os
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 5
56
profissionais, ao serem mobilizados em espaços formativos, são capazes de traduzir
indicadores abstratos em propostas de ações concretas e contextualizadas.
No caso da cobertura do exame de citologia, as análises das equipes suscitaram a
proposição de estratégias como mutirões, ações educativas e rodas de conversa com foco nas
mulheres em idade fértil. Essas propostas foram articuladas ao Indicador nº 4 do programa
Previne Brasil (Brasil, 2021), demonstrando a possibilidade de mobilizar os dados
epidemiológicos como disparadores de práticas mais efetivas de cuidado.
A abordagem da gravidez na adolescência, por sua vez, levou à construção de propostas
intersetoriais em consonância com as diretrizes do Programa Saúde na Escola (Brasil, 2018),
como a realização de oficinas educativas, criação de grupos de adolescentes e fortalecimento
do acolhimento nas unidades de saúde. A intersetorialidade foi ressaltada como um eixo
fundamental para o enfrentamento de determinantes sociais em saúde.
Para além das proposições específicas, a oficina revelou-se como espaço formativo,
potencializando o processo de educação permanente em saúde. Como discutem Ceccim e
Feuerwerker (2004), práticas que incorporam escuta, análise crítica do território e construção
compartilhada de soluções contribuem para o fortalecimento dos vínculos entre trabalhadores,
gestão e comunidade, consolidando a gestão local como espaço de formação e transformação.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência descrita neste relato demonstrou que a construção coletiva de uma
ferramenta descomplicada de planejamento em saúde, ancorada em metodologias
participativas como rodas de conversa e oficinas formativas, é uma estratégia viável para
fomentar a cultura do planejamento descentralizado nas unidades de atenção básica. Embora
não tenha sido implantada diretamente nas unidades durante o período da pesquisa, a
ferramenta foi amplamente discutida, testada em situações simuladas e validada por
profissionais de referência da APS.
Os resultados obtidos indicam que processos formativos que envolvem análise crítica da
realidade, escuta qualificada e construção conjunta de soluções podem fortalecer a integração
ensino-serviço-comunidade e estimular o protagonismo das equipes na gestão local. A
ferramenta elaborada se apresenta, portanto, como uma possibilidade concreta de apoio à
institucionalização do planejamento nas UBS, dialogando com os instrumentos do SUS e com os
desafios cotidianos enfrentados pelos trabalhadores da saúde.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 5
57
Espera-se que os aprendizados dessa experiência possam ser replicados e adaptados em
outros contextos, contribuindo para a construção de práticas mais democráticas, sensíveis ao
território e comprometidas com a qualificação do cuidado.
REFERÊNCIAS
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indicadores de desempenho da atenção primária. Brasília: MS, 2021.
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educação permanente em saúde. Rio de Janeiro: IMS/UERJ, 2018.
SPINK, M. J. (org.). Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano:
aproximações teóricas e metodológicas. São Paulo: Cortez, 2013.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 5
58
Capítulo 6
QUALIFICAÇÃO DA COMUNICAÇÃO
INTERPROFISSIONAL NA ESF: UM PLANO DE AÇÃO
CONSTRUÍDO EM EQUIPE
Marianna Pugliesi Soares Novais
Josineide Francisco Sampaio
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-6
1. INTRODUÇÃO
A Estratégia Saúde da Família (ESF), concebida como eixo estruturante da Atenção
Primária à Saúde (APS) no Brasil, representa uma aposta política e organizacional na superação
do modelo biomédico tradicional. Ao propor uma abordagem territorializada e centrada nas
necessidades dos sujeitos, a ESF desloca o foco da prática médica individual para o cuidado
compartilhado, sustentado por equipes multiprofissionais e pelo vínculo com o território
(Brasil, 2017, p. 6-8). Nesse cenário, a comunicação interprofissional emerge como
elemento-chave para o funcionamento das equipes e a efetivação do cuidado integral, sendo
reconhecida como tecnologia relacional indispensável à articulação entre os diferentes saberes
e à corresponsabilização pelas decisões clínicas (Souza, 2012, p. 22; Peduzzi et al., 2011, p. 634635).
No entanto, a realidade cotidiana dos serviços de saúde revela que a comunicação entre
os profissionais permanece permeada por tensões que podem estar relacionadas a hierarquias
implícitas, fragmentação das ações e ausência de espaços sistemáticos de escuta e pactuação
que configuram um ambiente propício ao isolamento técnico e à sobrecarga subjetiva dos
trabalhadores (Cecílio, 2006, p. 155; Castelo, 2022, p. 73). A ausência de processos
comunicacionais efetivos compromete não apenas a coordenação do cuidado, mas também a
coesão da equipe, enfraquecendo sua potência coletiva. Como defendem Rivera e Artmann
(2009, p. 40), a comunicação interprofissional deve ser compreendida como uma prática
política e pedagógica, essencial à produção de respostas articuladas às complexas demandas
dos territórios.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 6
59
Nesta perspectiva, o relato de experiência aqui proposto descreve o processo de
construção de um plano de qualificação da comunicação interprofissional na ESF José Manoel
dos Santos, localizada no município de Pilar, Alagoas. A proposta nasceu de um processo
formativo no âmbito da disciplina de Planejamento e Avaliação na Saúde da Família, vinculada
ao Programa em Rede do Mestrado Profissional em Saúde da Família da Universidade Federal
de Alagoas (PROFSAÚDE/UFAL), e resultou da análise crítica das dificuldades vivenciadas no
cotidiano da unidade – em especial, da desarticulação entre os membros da equipe, agravada
por limitações estruturais e escassez de espaços institucionais para o diálogo.
O ponto de partida foi um diagnóstico situacional construído de forma participativa, com
envolvimento ativo dos profissionais da equipe e de representantes da comunidade em rodas
de conversa. Essa escuta coletiva permitiu identificar a fragilidade da comunicação
interprofissional como o principal “nó crítico” a ser enfrentado, em consonância com a
literatura que aponta a comunicação como elemento fundante da colaboração entre
profissionais e da integralidade do cuidado (Castelo, 2022, p. 57).
A construção do plano de ação se deu por meio de metodologias dialógicas e respeitosas
dos saberes locais, valorizando a experiência dos trabalhadores e reconhecendo os limites
impostos pelo contexto. Longe de ser um plano idealizado ou imposto, a proposta emergiu do
chão da prática, sustentada por princípios de escuta qualificada, corresponsabilidade e trabalho
coletivo. O presente relato busca, portanto, contribuir para a reflexão crítica sobre a construção
de estratégias viáveis e potentes para o fortalecimento da comunicação interprofissional na
APS, especialmente em realidades desafiadoras, mas ricas em subjetividade, vínculos e desejo
de transformação. Nesse processo, a produção de espaços de fala e de escuta se revelou não
apenas como instrumento técnico, mas como gesto político de reconfiguração das relações de
trabalho e de cuidado.
2. MÉTODO
A construção do plano de qualificação da comunicação interprofissional apresentada
neste artigo constitui a etapa inicial de um processo mais amplo de pesquisa-ação em
desenvolvimento junto à Unidade de Saúde da Família José Manoel dos Santos, situada no
município de Pilar, Alagoas. A opção por essa abordagem metodológica vai além de um recurso
técnico: ela expressa um compromisso ético e político com a transformação das práticas e com
o fortalecimento da autonomia dos sujeitos implicados no processo de trabalho.
A proposta se ancora na concepção de pesquisa-ação como processo cíclico, conforme
delineado por Tripp (2005, p. 37), estruturando-se em quatro momentos interdependentes:
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 6
60
identificação do problema, planejamento da ação, implementação da ação e avaliação crítica
dos resultados. Esses momentos, ao se retroalimentarem, criam um movimento contínuo de
reflexão e mudança que rompe com o modelo tradicional de pesquisa que apenas descreve
fenômenos sem se comprometer com sua transformação.
Neste caso, o primeiro ciclo da pesquisa-ação, já iniciado e aqui descrito, contemplou a
realização de um diagnóstico situacional participativo e a construção coletiva de um plano de
ação, desenvolvidos entre os meses de outubro e novembro de 2024. A partir deste ponto, terá
início o segundo ciclo, cujo foco será a avaliação crítica da implementação do plano de ação com
base na escuta dos mesmos sujeitos envolvidos na etapa anterior. Espera-se, com isso,
compreender os efeitos concretos das ações realizadas na comunicação interprofissional da
unidade, identificar os avanços produzidos e os desafios ainda presentes, além de subsidiar a
reorientação do plano por meio de novas estratégias construídas coletivamente.
O percurso metodológico que compôs o primeiro ciclo foi desenvolvido por meio de
rodas de conversa que reuniram trabalhadores da unidade e representantes da comunidade
local. Nessas rodas foram compartilhadas experiências, percepções e inquietações do cotidiano
do serviço, compondo um mosaico crítico da realidade vivida. A precariedade dos espaços
físicos da unidade – que não dispõe de sala própria para reuniões – não impediu o encontro e a
escuta; pelo contrário, realçou a urgência de se pensar estratégias comunicacionais
sustentáveis e adaptadas às condições concretas do território.
As falas sistematizadas revelaram que a falta de comunicação entre os membros da
equipe constituía um dos principais entraves à produção de cuidado, afetando desde a
organização interna da unidade até o acolhimento e a condução dos casos (Castelo, 2022, p. 73;
Souza, 2012, p. 8). Esse reconhecimento coletivo deu origem a uma matriz de ações, elaborada
em nova roda de conversa, realizada em novembro de 2024. O plano foi construído com base
nos princípios do Planejamento Estratégico Situacional (PES), favorecendo a análise
compartilhada dos problemas e a pactuação de respostas viáveis, sensíveis ao contexto local
(Rivera; Artmann, 2009, p. 51).
A matriz Gravidade, Capacidade de enfrentamento e Urgência (GCU) foi utilizada como
ferramenta de priorização dos problemas levantados, permitindo que a equipe identificasse
coletivamente aquilo que exigia intervenção imediata e era passível de transformação no curto
prazo. Essa escolha metodológica se ancora na literatura da gestão em saúde, que reconhece o
potencial da matriz como dispositivo de racionalização crítica e democrática do planejamento
(Cecílio, 1997, p. 146; Brasil, 2016, p. 58).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 6
61
As ações pactuadas foram avaliadas também quanto à sua viabilidade decisória,
operacional e de permanência, buscando garantir a execução possível e sustentável das
propostas. Essa etapa implicou, ainda, o mapeamento de recursos críticos e a identificação de
atores-chave dentro da própria equipe – um exercício que expôs tensões, mas também
fortaleceu a corresponsabilização pelo plano construído.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A experiência conduzida na ESF José Manoel dos Santos revelou a potência das práticas
participativas como caminho viável e necessário para a reconfiguração dos modos de fazer
saúde na Atenção Primária. O processo teve início com a realização de um diagnóstico
situacional participativo, em outubro de 2024, quando profissionais da equipe e moradores do
território foram convidados a refletir coletivamente sobre os desafios vividos no cotidiano da
unidade e suas implicações no cuidado ofertado à população.
Como dispositivo metodológico central, foram realizadas duas rodas de conversa
presenciais, realizadas em espaços adaptados da própria unidade, devido à inexistência de sala
de reuniões formal. As rodas foram mediadas pela mestranda vinculada a esse estudo e
contaram com a participação de profissionais da ESF (médica, dentista, técnicas de
enfermagem, auxiliar de saúde bucal, agentes comunitários de saúde e recepcionistas), bem
como membros da comunidade.
A primeira roda de conversa, realizada em 31 de outubro de 2024, teve como objetivo
aprofundar o diagnóstico situacional e promover uma escuta crítica sobre os principais desafios
do processo de trabalho. As perguntas norteadoras utilizadas foram:
•
Quais os problemas a serem priorizados?
•
Quais as causas e efeitos desses problemas priorizados?
•
Quais os “nós-críticos” dessa rede de problemas?
O encontro favoreceu a análise coletiva dos entraves vivenciados pela equipe e pela
comunidade, culminando na identificação da fragilidade da comunicação interprofissional
como principal nó crítico, atravessando aspectos como a ausência de planejamento, os ruídos
nos fluxos de cuidado e a descontinuidade nas decisões clínicas.
A identificação desse problema não foi fruto do acaso ou de intuições individuais. Ao
contrário, ela foi respaldada por instrumentos analíticos como a matriz Gravidade, Capacidade
de enfrentamento e Urgência (GCU) e a árvore de problemas, que possibilitaram não apenas
elencar prioridades, mas compreender causalidades e efeitos que se reproduziam no cotidiano
da unidade (Cecílio, 1997, p. 146; Brasil, 2016, p. 58). O planejamento não se deu, portanto,
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 6
62
como mera formalidade, mas como prática crítica, enraizada na experiência dos sujeitos e
orientada pela transformação.
Com base nesse diagnóstico, foi convocada uma segunda roda de conversa, realizada em
25 de novembro de 2024, com o objetivo de construir coletivamente um plano de ação voltado
à qualificação da comunicação interprofissional. A reunião ocorreu em um dos consultórios da
unidade, adaptado para o encontro. As perguntas disparadoras utilizadas foram:
•
O que precisamos fazer para enfrentar a rede de problemas priorizados?
•
Quais os recursos/insumos críticos?
•
Como viabilizar o Plano?
A matriz de ações resultante foi construída por meio de uma lógica ascendente e
dialógica. Diferente de planos prescritos externamente, ela nasceu das vivências, tensões e
proposições da própria equipe. Conforme argumenta Franco (2006, p. 189), planejar de forma
participativa não é apenas utilizar ferramentas; é mobilizar sujeitos, provocar implicações e
possibilitar apropriação do processo. A matriz (Quadro 1) organizou-se em quatro eixos de
ação:
1. Reuniões mensais de planejamento e programação, com vistas à integração das
agendas e ao fortalecimento da corresponsabilidade;
2. Reuniões para discussão de casos clínicos e decisões compartilhadas,
promovendo a articulação de saberes e o cuidado integral;
3. Momentos de socialização e autocuidado entre os membros da equipe, como cafés
coletivos e celebrações simbólicas, para valorização dos vínculos interpessoais;
4. Encontros mensais de educação permanente, com foco na análise crítica do
processo de trabalho e no fortalecimento do diálogo interprofissional.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 6
63
Quadro 1 – Matriz de Ações e Metas/Problema da ESF José Manoel dos Santos, Pilar, Alagoas
Fonte: Elaboração da própria autora.
A literatura especializada tem enfatizado que planos de ação construídos coletivamente
não apenas expressam maior aderência e legitimidade por parte da equipe, como também
apresentam maior coerência com o contexto e com os recursos disponíveis (Rivera; Artmann,
2009, p. 51). Ao mobilizar os sujeitos para nomear os problemas, pactuar metas e propor
caminhos, o planejamento se reinventa como prática política e pedagógica.
Nesse processo, foi possível observar a emergência da equipe como sujeito coletivo, que
passou a reconhecer em si mesma a capacidade de produzir mudanças e redefinir trajetórias.
Como afirmam Peduzzi et al. (2011, p. 634-636) e Castelo (2022, p. 91), a comunicação
interprofissional qualificada não se reduz a uma ferramenta de gestão, mas constitui uma
prática ético-política, capaz de produzir cuidado integral, humano e territorializado.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 6
64
A construção do plano de qualificação da comunicação interprofissional na ESF José
Manoel dos Santos reafirma, assim, a centralidade da escuta como tecnologia de gestão e de
cuidado. Em tempos de fragmentação e sobrecarga, a criação de espaços institucionais para o
diálogo entre profissionais não é apenas desejável – é urgente e fundante. Ao escolher enfrentar
seus silêncios e construir um caminho coletivo, a equipe apostou na reconstrução dos vínculos,
na valorização do trabalho cotidiano e na possibilidade de produzir, juntos, novas formas de
cuidar.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência de construção coletiva de um plano de qualificação da comunicação
interprofissional na ESF José Manoel dos Santos reafirma a potência transformadora das
práticas participativas no cotidiano da Atenção Primária à Saúde (APS). Longe de ser uma ação
pontual ou protocolar, a elaboração do plano materializou um processo ético-político de
enfrentamento dos silêncios, tensões e invisibilidades que permeiam o trabalho em equipe.
Reconhecer a comunicação como um eixo estruturante – e não periférico – do cuidado e da
gestão foi, neste caso, o primeiro passo para a reconstrução de sentidos sobre o que é produzir
saúde no SUS.
Ao mobilizar os trabalhadores em torno de uma escuta horizontal e da pactuação de
metas viáveis, a experiência demonstrou que a qualificação do cuidado exige, antes de tudo, o
fortalecimento dos vínculos profissionais e a valorização dos saberes situados. A criação de
espaços regulares para o diálogo interprofissional – como reuniões de planejamento, discussão
de casos, momentos de socialização e educação permanente – configurou-se como estratégia
concreta para resgatar a intencionalidade e a potência do trabalho coletivo.
Contudo, o percurso também evidenciou limites que não podem ser ignorados. A
persistência de desigualdades estruturais, a sobrecarga cotidiana e a rotatividade de
profissionais colocam em risco a sustentabilidade de iniciativas como esta. Tais desafios exigem
o fortalecimento de políticas públicas que garantam condições dignas de trabalho, acesso à
formação crítica e apoio institucional contínuo para as equipes da APS. A interprofissionalidade,
como prática, não se consolida apenas pela vontade dos sujeitos, mas pela construção de
ambientes que favoreçam a corresponsabilização e o compartilhamento de decisões.
Mais do que relatar um processo técnico, este relato inscreve-se no campo da defesa
do SUS enquanto projeto de sociedade. Ele afirma que transformar o trabalho em saúde implica
deslocar centralidades, escutar os incômodos do cotidiano e apostar na coletividade como
método.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 6
65
Ao narrar esse percurso, espera-se contribuir com outras equipes da Estratégia Saúde
da Família (ESF) que, em diferentes contextos, também enfrentam a dureza do cotidiano, mas
seguem reinventando formas de cuidar. Que este relato possa inspirar a escuta ativa, o diálogo
constante e a construção coletiva como fundamentos inegociáveis de um SUS que resiste, cria e
transforma.
REFERÊNCIAS
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Saúde, 2017.
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IMS/UERJ; CEPESC; ABRASCO, 2006. p. 117–130.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. FRANCO, T. B.
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PEDUZZI , M. et al. Trabalho em equipe na perspectiva da gerência de serviços de saúde:
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RIVERA, F. S. U.; ARTMANN, E. Promoção da saúde e planejamento estratégico
situacional: intersetorialidade na busca de maior governabilidade. [S. l.], [2009?].
SOUZA, D. M. M. A importância da comunicação na equipe de saúde da família. 2012. 25 f.
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SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 6
66
Capítulo 7
PRÁTICAS COLABORATIVAS EM SAÚDE: VÍDEO
EDUCATIVO
Vinícius Matos Benjamim Leal
Carlos Henrique Falcão Tavares
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-7
1. INTRODUÇÃO
Há muitos desafios na realidade do trabalho em saúde (Azevedo et al., 2021). E o
trabalho na Estratégia de Saúde da Família (ESF) é um ambiente que revela claramente este
desafio no dia a dia. A Unidade Docente Assistencial (UDA), como unidade de prática dos cursos
de saúde da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), é um cenário onde o estudante deve
vivenciar o que aprendeu nos bancos universitários e precisa encontrar práticas que sejam
interprofissionais e colaborativas. Ali, também, os professores encontram campo fértil para
exercícios pedagógicos.
Práticas colaborativas são parte imprescindível do trabalho em equipe, elementos da
colaboração inseridos no dia a dia do trabalho (Peduzzi; Agreli, 2018). As parcerias entre
profissionais e organizações, grupos, famílias e comunidades também estão no conteúdo do
conceito (Barr; Low, 2013).
Segundo Silva et al. (2015), a colaboração é algo indispensável para o alcance dos
resultados esperados. Vivacqua e Garcia (2011) destacam que ela ocorre quando um indivíduo
busca o outro para dividir tarefas, facilitando o trabalho. Motivação, construção de objetivos
comuns e confiança mútua são elementos facilitadores da colaboração.
É preciso também haver efetiva comunicação entre os membros da equipe. O
compartilhamento dos saberes é importante para a construção dos objetivos em comum e para
que se estabeleçam relações de confiança. Para efetivos resultados no trabalho em saúde,
requere-se a formação de profissionais preparados e instrumentalizados para trabalhar de
forma colaborativa e interprofissional (Peduzzi et al., 2020).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 7
67
As Equipes de Saúde da Família que atuam no Sistema Único de Saúde (SUS) são
compostas por diferentes profissões que, juntas, prestam cuidados em saúde em território
adscrito e definido (Brasil, 2012). A formação, todavia, ainda não foi de toda propícia para o
trabalho interprofissional, devido ao seu formato clássico, mais uniprofissional e fragmentado.
É importante que os alunos possam aprender juntos para trabalhar juntos, segundo a
Organização Mundial de Saúde (OMS, 2010). A escolha de criar um vídeo para elaborar este
projeto foi feita por compreender que a principal finalidade desse tipo de produção audiovisual
é tornar público um conteúdo específico de maneira dinâmica, objetiva e sensorial, por meio de
uma mensagem clara, utilizando recursos como imagens e sons, a fim de capturar a atenção do
espectador. Além disso, é relevante optar por um formato mais acessível e rápido de ser
consumido, especialmente nos tempos atuais, em que a velocidade das informações e da vida
cotidiana das pessoas está em constante aceleração.
O recurso audiovisual utilizado para fins educativos é um facilitador no processo de
aprendizagem e permite que as pessoas, ao assistirem, se identifiquem com as situações do
cotidiano e se familiarizem com os conceitos apresentados (Dalmolin et al., 2017).
Assim este trabalho se propoe a descrever a criação de um video educativo a respeito
da importância da colaboração para a melhoria da efetividade do trabalho realizado.
2. MÉTODO
Trata-se de trabalho desenvolvido no período de fevereiro a março de 2021 como
atividade da disciplina de Produtos Educacionais 2, do Mestrado Profissional em Ensino na
Saúde (FAMED/UFAL), que aconteceu em duas etapas: elaboração do vídeo e validação por
juízes de conteúdo e técnicos.
A fase de elaboração do vídeo ocorreu em duas etapas. Primeiro, houve a busca pelo
tema na literatura, sob os descritores “Práticas colaborativas”, “Trabalho em equipe”,
“Colaboração” e “Saúde” e “vídeos educativos”. As bases de dados foram Google Acadêmico e
SciELO.
Depois, foi realizada a criação do roteiro, de acordo com o tema. A terceira etapa foi a
confecção do vídeo em três programas específicos: Adobe Premiere e Movavi Video Suite,
ambos para edição do vídeo. O áudio foi gerado pela inteligência artificial ElevenLabs, a partir de
um texto, transferido para o computador e agregado aos programas de edição de vídeo. Foram
incluídas imagens, no decorrer da narração, que ilustram as ideias nela contidas, em formato
.png e .jpg, de licença livre nos sites Pixabay e PNGwing. A música adicionada foi do programa
Movavi Suite, também de licença gratuita.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 7
68
Na etapa seguinte, foi feito o upload do vídeo na plataforma YouTube, com anexação nos
painéis de avaliação para análise e avaliação pelos próprios colegas de disciplina e pelas
professoras, perfazendo um total de 25 juízes. Foram construídos os Painéis de Validação
Eletrônica em três etapas. A primeira (PVE 1) foi o painel de apresentação do vídeo com as
sugestões de modificações por parte dos juízes. A segunda (PVE 2) foi a apresentação aos juízes
com as modificações feitas e a terceira (PVE 3) foi o resultado e a validação conforme critérios
de relevância, pertinência, clareza, linguagem acessível, atratividade, adequabilidade de
conteúdo e de ambiente sonoro.
O vídeo foi disponibilizado na Plataforma de Compartilhamento de vídeos YouTube.
O link para acesso é: https://youtu.be/qE2sSqS-DV0.
3. RESULTADOS ESPERADOS
Espera-se que, através do vídeo educacional, as práticas colaborativas possam ser vistas
como algo importante e desejado e que haja mais conscientização e reflexão de estudantes,
docentes e técnicos em relação ao tema, promovendo maior envolvimento institucional,
visto que o vídeo tem potencial para auxiliar em mediações de diálogos, reflexões e
aprendizados múltiplos e propiciar, portanto, mais facilidade para a execução das tarefas do
trabalho em equipe nos diversos setores da área de saúde, na medida em que produzir bemestar profissional, motivação, melhor comunicação, encaminhamentos oportunos, alta
qualidade na tomada de decisão e resolução de conflitos. Poderá também melhorar o
desempenho do sistema de saúde, produzindo mais eficiência, produtividade, satisfação do
usuário e qualidade do cuidado. Além de uma experiencia colaborativa rica, potente, capaz de
modificar o processo de trabalho, proporcionando a produção do cuidado mais qualificado.
A representação visual apresenta-se a seguir:
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 7
69
Figuras 1 a 13 – Representação do vídeo
Fonte: Elaboradas pelo autor, 2024.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 7
70
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este vídeo educativo foi criado a partir da reflexão e como um recurso diante do resultado
da pesquisa eleborado no Mestrado. Trata-se de um experiencia que dialoga com a necessidade de
instruir e oferecer conhecimentos para que os profissionais possam avaliar a si mesmos e
reconhecer seus pontos fracos e fortes. O tema é de alta relevância para o momento, em que há
um esforço da academia em investir na formação dos profissionais colaborativos que entrarão
no campo de trabalho.
Profissionais, docentes e discentes que frquentam a UDA precisam ser estimulados ao
aprendizado e ao trabalho integrado a fim refletir sobre seu papel na equipe de saude e no
processo de trabalho. Não existe interprofissionalidade sem colaboração e todas as tarefas
feitas pelas equipes docentes, discentes e profissionais têm nela um fator imprescindível para
a efetividade da atenção à saúde e à segurança dos pacientes.
Assim entende-se que a criação de um vídeo educativo pode servir como estratégia
incentivadora para a colaboração, à medida que serve de instrumento para suscitar reflexões e
conscientização daqueles que o assistirem. Podendo servir tambem como instrumento
mediador de diálogos sobre Práticas Colaborativas.
REFERÊNCIAS
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SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 7
71
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Básica sobre a integralidade na saúde. Revista Eletrônica Acervo Saúde, [S. l.], v. 12, n. 10,
e4608-e4608, 2020
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 7
72
Capítulo 8
HUMANIZA TECA: RODA DE CUIDADO COM
TRABALHADORES DA APS COMO ESTRATÉGIA DE
FORTALECIMENTO DA PNH E DA EDUCAÇÃO
PERMANENTE
Renata Araújo de Souza Silva
Paula Quitéria da Silva Ferreira
Eulina Maria da Conceição
Michael Ferreira Machado
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-8
1. INTRODUÇÃO
A Política Nacional de Humanização (PNH) surge no contexto de reconhecimento dos
avanços e contradições do Sistema Único de Saúde (SUS), propondo-se como uma política de
transformação das práticas de cuidado e gestão, ancorada na escuta das experiências exitosas
em saúde (Brasil, 2010). Lançada em 2003, a PNH institui princípios como a transversalidade,
a indissociabilidade entre atenção e gestão, e o protagonismo dos sujeitos implicados no
cuidado. Entre suas diretrizes, destacam-se o acolhimento, a gestão participativa, a ambiência,
a valorização dos trabalhadores da saúde, e a defesa dos direitos dos usuários (Pasche, 2009).
No ano de 2009, acompanhando os incentivos nacionais à consolidação da PNH, a
Unidade Básica de Saúde (UBS) Tereza Barbosa, na cidade de Maceió (AL), iniciou experiências
voltadas à humanização do serviço, priorizando o usuário como sujeito do cuidado. As ações da
época centravam-se na melhoria do acolhimento, da comunicação interpessoal, da ambientação
dos espaços, na qualificação dos atendimentos e na escuta dos usuários. Essas iniciativas,
embora importantes, mantinham foco quase exclusivo na experiência do usuário e não
abarcaram com a mesma intensidade a dimensão do cuidado de quem cuida.
Entre avanços e retrocessos, as ações de humanização na unidade vivenciaram um
percurso instável ao longo da década, com períodos de intensa mobilização seguidos por
descontinuidade. Somente em 2019, com base nas reflexões trazidas pela Política Nacional de
Educação Permanente em Saúde (PNEPS), que compreende o trabalho como ato educativo e
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 8
73
espaço de transformação (Brasil, 2004), o grupo de humanização passou por uma inflexão em
sua abordagem e o foco passou a ser o trabalhador do SUS.
Foi nesse contexto que surgiu o projeto Humaniza Teca, nome que sintetiza a identidade
institucional e afetiva do grupo: "Humaniza", por estar vinculado ao grupo de humanização da
UBS, e “Teca”, referência carinhosa ao nome da unidade, Tereza Barbosa. O grupo se
transformou em um espaço de escuta, acolhimento e cuidado voltado aos profissionais da
Atenção Primária à Saúde. Um espaço em que os trabalhadores puderam se reconhecer como
sujeitos do cuidado e expressar, por meio da palavra e da convivência, os conflitos, angústias e
desafios do cotidiano do trabalho.
Ao colocar o trabalhador como foco do cuidado, observou-se, com o tempo, uma
melhoria expressiva no ambiente institucional, nos vínculos de equipe e, consequentemente, na
qualidade do cuidado ofertado à população usuária. Essa experiência mostrou-se ainda mais
potente durante o período da pandemia da COVID-19, quando o grupo foi um dos principais
sustentáculos da equipe diante de uma conjuntura de instabilidade sanitária e emocional. O
hábito instituído de conversar, partilhar e refletir coletivamente sobre o trabalho permitiu à
equipe atravessar, de forma coesa e solidária, um dos momentos mais difíceis da história
recente da saúde pública.
Assim, o Humaniza Teca passou a ser reconhecido como uma estratégia concreta de
cuidado institucional e como ferramenta de fortalecimento dos princípios da PNH e da
Educação Permanente em Saúde, promovendo vínculos, bem-estar e a qualificação contínua
dos processos de trabalho na Atenção Primária.
2. MÉTODO
Esta experiência apresenta as estratégias e aprendizados desenvolvidos no projeto
Humaniza Teca, criado na Unidade Básica de Saúde (UBS) Tereza Barbosa, situada em
Maceió/AL, a partir de maio de 2019, com continuidade até o presente momento. Trata-se de
uma experiência ancorada nos referenciais da Educação Permanente em Saúde (EPS) e da
Política Nacional de Humanização (PNH), adotando uma abordagem participativa, afetiva e
reflexiva sobre o processo de trabalho em saúde.
A trajetória metodológica do grupo parte de um histórico anterior de ações de
humanização voltadas para o usuário, implantadas em 2009, que priorizavam o aprimoramento
do atendimento, do acolhimento, da ambientação e da comunicação no serviço. Contudo, essas
ações foram impactadas por descontinuidades ao longo dos anos. O marco de 2019 representou
uma virada conceitual e metodológica, com o redirecionamento do grupo de humanização para
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 8
74
o cuidado com os trabalhadores, entendendo-os como sujeitos centrais na produção do cuidado
e no funcionamento do SUS.
Os encontros foram estruturados como rodas de cuidado, mediados por profissionais da
própria unidade (psicologia e serviço social), por docentes e discentes da Universidade Federal
de Alagoas (UFAL), e por convidados voluntários do território, como artesãs e terapeutas
comunitários. A proposta metodológica valorizou a horizontalidade nas relações, a escuta
qualificada, a troca de saberes e a expressão dos sentimentos e vivências do cotidiano de
trabalho.
As atividades foram realizadas mensalmente, com duração média de duas horas,
utilizando metodologias ativas e Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), tais
como: rodas de conversa e grupos reflexivos; dinâmicas de grupo e trabalhos manuais; dança
circular, meditação guiada e aromaterapia; vivências artísticas e dramatizações temáticas.
Durante a pandemia da COVID-19, a metodologia foi adaptada para respeitar os
protocolos sanitários, sem interromper o vínculo estabelecido com trabalhadores. Foram
elaboradas estratégias de cuidado remoto e presencial controlado, como grupos menores,
encontros híbridos, mensagens motivacionais e rodas de conversa virtuais. A prática constante
de diálogo e corresponsabilidade favoreceu a construção de um plano de contingência coletivo,
que ajudou a manter o funcionamento da unidade e o bem-estar dos trabalhadores mesmo em
condições adversas.
O projeto é fundamentado no entendimento da Educação Permanente em Saúde como
um processo pedagógico em ato, que emerge do cotidiano de trabalho e da problematização das
práticas (Brasil, 2004; Ceccim; Feuerweker, 2004). Ao criar espaços de cuidado institucional, o
Humaniza Teca reafirma os princípios da humanização, ao considerar o trabalhador como
sujeito ativo da transformação da gestão e da atenção.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Desde a criação do projeto Humaniza Teca, em 2019, foram e são realizados encontros
mensais com os trabalhadores da UBS Tereza Barbosa, com atividades voltadas à escuta,
acolhimento e fortalecimento dos vínculos. Os primeiros encontros abordaram temas como
acolhimento, comunicação, escuta qualificada, relações interpessoais, autocuidado e saúde
mental, sempre articulando vivências com a problematização da realidade do trabalho em
saúde. As atividades foram conduzidas com base em metodologias ativas e nas Práticas
Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), que ampliaram a abordagem terapêutica e
pedagógica do grupo (Falkenberg et al., 2014).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 8
75
Ao colocar o trabalhador como foco do cuidado, o grupo favoreceu transformações
perceptíveis na dinâmica da unidade, promovendo maior coesão da equipe, escuta entre os
profissionais e melhoria na qualidade das relações de trabalho. Essa mudança de eixo — do
cuidado voltado exclusivamente ao usuário para a valorização de quem cuida — permitiu que
o grupo se tornasse uma estratégia de fortalecimento do próprio cuidado ofertado à população,
conforme os princípios da PNH (Brasil, 2010; Pasche, 2009).
Durante a pandemia da COVID-19, os vínculos construídos previamente foram decisivos
para a sustentação emocional e organizacional da equipe. A prática da escuta coletiva, instituída
antes da crise sanitária, fortaleceu a capacidade do grupo de enfrentar os desafios impostos
pela pandemia, como o medo, o luto, a escassez de recursos e a sobrecarga de trabalho. As
reuniões presenciais foram adaptadas para o formato híbrido, e novas estratégias foram
implementadas com foco em ações educativas, apoio psicológico e reorganização do trabalho
interno. Nesse momento crítico, a experiência evidenciou que cuidar do trabalhador é um dos
caminhos mais consistentes para qualificar o cuidado em saúde. A fim de partilhar experiências
exitosas, em 2021, em resposta a este momento pós-pandemia, foi realizado o Projeto
Conectando, desenvolvido como uma ação do Humaniza Teca, com a proposta de
fortalecimento das relações interpessoais e melhoria na qualidade do atendimento ao usuário,
como também promover a saúde mental do trabalhador. Foram realizados dez encontros com
duração de trinta minutos, estes aconteciam as segundas-feiras pela manhã na UBS, antes de
iniciar as atividades do serviço, todos os servidores eram convidados, sendo a participação
voluntária. Os temas dos encontros foram pré-definidos de acordo com os objetivos do grupo,
foram eles: gratidão, amizade, fale sobre seus sentimentos, seja resiliente, mantenha-se ativo,
não se isole, faça pausas, peça ajuda e crie limites entre trabalho e casa. Após cada encontro, era
realizado um momento de reflexão e avaliação, que ressaltavam a importância do
fortalecimento mútuo, mudança de práticas, respeito as individualidades e saúde mental.
Apesar dos avanços e da resistência da prática ao longo do tempo, o Humaniza Teca
ainda enfrenta desafios em sua consolidação enquanto política institucional da unidade. O
grupo permanece, em muitos momentos, personificado em algumas lideranças específicas, o
que fragiliza sua continuidade e autonomia. Embora recentemente tenha sido possível instituir
um rodízio entre os facilitadores dos encontros — envolvendo profissionais da própria unidade
e integrantes do grupo —, ainda há necessidade de ampliar a participação e o reconhecimento
coletivo da importância do projeto.
A experiência indica que, para além da criação de espaços de cuidado, é
fundamental que a equipe como um todo compreenda o valor dessas práticas para o bem-estar
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 8
76
coletivo, a qualidade do trabalho e o fortalecimento do SUS. A consolidação do grupo como uma
ação institucional depende da incorporação do Humaniza Teca como parte integrante da rotina
da UBS, e não apenas como uma atividade “de alguns”. Isso requer investimento em
sensibilização, apoio da gestão e construção de uma cultura organizacional que reconheça o
trabalhador como sujeito de direito ao cuidado e ao desenvolvimento contínuo.
Ao articular os princípios da PNH com os fundamentos da Educação Permanente em
Saúde, o projeto Humaniza Teca reforça que cuidar de quem cuida não é apenas um gesto ético,
mas uma estratégia política e técnica para qualificar a gestão, melhorar o ambiente de trabalho
e oferecer à população um cuidado mais humano, integral e resolutivo.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O projeto Humaniza Teca constitui uma estratégia concreta de cuidado aos
trabalhadores da Atenção Primária à Saúde, reafirmando a importância de espaços que
promovam escuta, acolhimento, partilha de experiências e fortalecimento dos vínculos
institucionais. A experiência acumulada ao longo dos anos demonstra que investir no cuidado
com quem cuida gera impactos diretos na qualidade do serviço ofertado à população,
contribuindo para um SUS mais sensível, potente e humanizado.
Durante a pandemia da COVID-19, o grupo mostrou-se fundamental para a sustentação
emocional e organizacional da equipe, provando que práticas estruturadas de escuta coletiva e
apoio mútuo não apenas resistem às crises, mas também fortalecem os sujeitos e os serviços. A
incorporação de metodologias ativas, práticas integrativas e vivências colaborativas ampliou o
alcance do projeto e consolidou seu caráter pedagógico, afetivo e transformador.
Apesar de sua evolução enquanto prática cotidiana e da resistência com que se manteve
ativo mesmo em contextos adversos, o Humaniza Teca ainda enfrenta o desafio de se consolidar
como política institucional da UBS. A participação no grupo ainda é, em parte, centrada em
iniciativas individuais e depende do envolvimento de pessoas específicas. Embora avanços
tenham sido conquistados — como o rodízio entre facilitadores —, é necessário aprofundar a
percepção coletiva sobre os benefícios do grupo, fomentando o pertencimento da equipe como
um todo.
Consolidar o Humaniza Teca como parte da cultura organizacional da unidade exige o
reconhecimento de que o cuidado com os trabalhadores é uma dimensão estrutural do cuidado
em saúde, e não um complemento opcional. Isso implica incluir o grupo nos planejamentos da
gestão, garantir tempo protegido para sua realização, estimular a participação de diferentes
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 8
77
categorias profissionais e reconhecer institucionalmente sua contribuição para o
fortalecimento da Política Nacional de Humanização (PNH) e da Educação Permanente.
Dessa forma, o projeto segue como uma experiência viva, em constante construção, que
reforça a potência do SUS que dá certo: aquele que reconhece os sujeitos em sua inteireza,
promove vínculos, valoriza saberes e aposta na transformação do cotidiano como caminho para
a construção de um cuidado mais justo, ético e integral.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Humanização da Atenção e Gestão do
SUS – HumanizaSUS. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2010.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria n.198 GM/MS, de 13 de fevereiro de 2004. Institui a
Política Nacional de Educação Permanente em Saúde como estratégia do Sistema Único de
Saúde para a formação e o desenvolvimento de trabalhadores para o setor e dá outras
providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 13 fev. 2004.
CECCIM, R. B.; FEUERWEKER, L. C. M. O quadrilátero da formação para a área da saúde:
ensino, gestão, atenção e controle social. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.
18, n. 4, p. 861-880, 2008. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/physis/a/zRD6qP4Tt6dY9BYw7XbWzbf. Acesso em: 13 mai. 2025.
FALKENBERG, M. B. M. et al. Educação em saúde e educação na saúde: conceitos e implicações
para a saúde coletiva. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 19, n. 3, p. 847-852, mar.
2014.
PASCHE, D. F. A Política Nacional de Humanização como dispositivo para mudanças nos
modos de produzir saúde. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 14, n. 5, p. 1591-1598,
2009.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 8
78
Capítulo 9
QUALIFICAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA EQUIPE
SAÚDE DA FAMÍLIA PARA MELHORIAS NO
ACOMPANHAMENTO PUERPERAL
Stephany Julliana dos Santos Tôrres
Divanise Suruagy Correia
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-9
1. INTRODUÇÃO
O puerpério é um período caracterizado por novas adaptações e desafios, de ordem
fisiológica e psicológica, em que a mulher passa a viver uma nova realidade, marcada por uma
rotina totalmente diferente, com outros hábitos, mudanças na autoestima, na vida pessoal, além
de muitas responsabilidades (Leite et al., 2022).
Durante o puerpério são necessários cuidados com a mãe e o bebê para evitar
complicações e garantir uma boa recuperação (Frediani; Andrade, 2023). Esta fase do ciclo
gravídico puerperal é marcada por várias alterações, frutos de fatores físicos, sociais e
psicológicos, os quais podem influenciar desde o desenvolvimento da gestação até o bem-estar
e saúde da mãe e do feto, durante o puerpério (Schiavo, 2018).
O puerpério tem início imediatamente após o parto e apresenta uma duração média de
06 semanas, sendo necessários cuidados específicos neste período, devido à complexidade do
processo vivido pelo binômio mãe-filho. O Ministério da Saúde (MS) brasileiro recomenda a
realização de uma consulta puerperal, a qual deve acontecer até 42 dias após o parto e, nesta
consulta, a puérpera deve ser orientada quanto aos cuidados materno-infantis, amamentação,
vida reprodutiva e sexualidade (Brasil, 2013).
Diante de tantos acontecimentos e modificações que acometem a mulher e a criança
neste período, percebe-se que apenas uma consulta puerperal não é suficiente para passar todas
as informações necessárias, sanar todas as dúvidas das puérperas e identificar os possíveis
problemas e dificuldades que possam surgir ao longo desse período puerperal. Sendo assim, se
faz necessário traçar estratégias para que essa mulher se sinta acolhida e inserida na assistência
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 9
79
pelo tempo que ela precisar, além de garantir uma rede de apoio profissional capacitada, a qual
possa assegurar um cuidado integral e de qualidade não só a puérpera, mas a este binômio
materno-infantil (Meirelles; Alevato; Antônio, 2022).
Olivindo et al. (2021) ressalta a importância de constantes capacitações e
aprimoramentos profissionais em se tratando do puerpério, uma vez que a assistência puerperal
vem deixando a desejar em algumas situações, principalmente no que diz respeito a educação
em saúde, uma vez que as mulheres permanecem com muitas dúvidas, assim como pode-se
observar também que há uma maior atenção aos cuidados com o recém-nascido e a puérpera
acaba ficando de lado.
Foi proposto o desenvolvimento de oficinas, voltadas para os profissionais que atuam
na Estratégia Saúde da Família, como médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes
comunitários de saúde, como proposta de produto técnico a qual compreende uma estratégia do
Mestrado Profissional em Saúde da Família a ser desenvolvida no âmbito profissional.
A ideia foi que as oficinas ocorressem com os profissionais da Unidade Básica de Saúde
Boa Sorte, localizada na zona rural do município de Palmeira dos Índios – AL, para que os
mesmos fossem capacitados e assim buscassem melhorias no serviço e na atenção à puérpera.
Podendo servir de piloto para as demais unidades do município, se os outros profissionais e os
gestores julgarem pertinentes.
Afonso (2018) define oficina como um trabalho estruturado com grupos, que tem como
foco um assunto central em que o grupo escolhe trabalhar, dentro de um contexto social. As
produções desenvolvidas nas oficinas envolvem os participantes de forma integral, com suas
diferentes formas de pensar, agir e sentir. Refere também, que as oficinas não possuem um
número determinado ou padrão de encontros, mas que acontecem de acordo com as
necessidades identificadas em cada situação.
O uso de oficinas desperta uma nova visão dos participantes envolvidos, uma vez que o
trabalho em equipe é visto como algo importante, pois o mesmo fortalece o desenvolvimento
de ações de forma harmônica, assim como o trabalho colaborativo, fato estes que otimizam a
qualidade do trabalho, transformando saberes em prática e agrega os vínculos e relações entre
os envolvidos (Rodrigues et al., 2020).
De acordo com Rodrigues et al. (2019) as oficinas estabelecem a democratização de um
espaço para que sejam realizadas reflexões, debates, construção de conhecimentos e trocas entre
diferentes visões para transformar as práticas em saúde, assim como também é considerada um
recurso importante para otimizar a qualidade do trabalho e fortalecer a relação entre os
profissionais envolvidos.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 9
80
Conforme ressalta Afonso (2018) o uso de oficinas nas áreas de saúde e educação podem
ser úteis, uma vez que utilizam informações e reflexões, além de trabalhar os significados
afetivos e as vivências relacionadas aos assuntos em debate. Ao passo que trabalha com
emoções e vivências dos participantes envolvidos, não quer dizer que pretende realizar uma
análise psíquica dos mesmos, já que se limita a um determinado foco.
Sendo assim, optou-se pelo uso das oficinas como estratégia, com o intuito de qualificar
os profissionais de saúde, para que prestem um serviço de acompanhamento puerperal de
excelência dentro da Unidade Básica de Saúde, estimulando o diálogo e atualizações acerca do
assunto numa perspectiva de construção coletiva.
2. MÉTODO
Etapa 1: Produção do conhecimento
Para que fosse possível determinar esse tipo de produto, foi realizado um estudo de
campo, que teve uma amostra de 09 puérperas que passaram pelo puerpério entre janeiro a
dezembro de 2023 em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), na zona rural do município de
Palmeira dos Índios (AL).
Inicialmente foram montados dois grupos de puérperas, que tinham o intuito de
conhecer a percepção das mulheres sobre o acompanhamento puerperal em uma Equipe de
Saúde da Família (ESF) de uma Unidade Básica de Saúde da Família (UBSF), provocando uma
reflexão sobre a vida da puérpera enquanto mãe, paciente/puérpera e mulher, além de discutir
suas necessidades para vivenciar esse período, sendo toda essa discussão norteada por um
roteiro de 09 perguntas sobre o tema estabelecido.
E, diante dos resultados obtidos, foi possível perceber a necessidade de sensibilizar os
profissionais de saúde quanto à necessidade de melhorias na atenção à puérpera, no que diz
respeito a uma assistência humanizada, a integralidade do cuidado, a promoção da saúde,
prevenção de doenças, capacitação e atualização profissional permanente, além de servir como
fonte de inspiração para novos projetos que visem a assistência integral da mulher/puérpera.
De acordo com Lima (2022), a educação permanente, por meio de atividades de
capacitação, como as oficinas por exemplo, impulsiona o trabalho em conjunto para construção
de novas práticas, através da problematização do processo de trabalho e com isso surge a
elaboração de produtos voltados para as necessidades dos usuários, num processo contínuo de
construção.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 9
81
Sendo assim, é notório que uma estratégia que pode ser adotada para melhoria do
acompanhamento puerperal e que consequentemente gera um impacto positivo nos
indicadores de
morbimortalidade
materno-infantil,
seria
através
da
capacitação
permanente dos profissionais de saúde envolvidos, visto que o conhecimento e atualização são
a chave para grandes avanços.
Etapa 2: Criação do produto
A proposta inicial envolve a realização de dois momentos, sob a forma de encontros
mensais, com os profissionais da Unidade Básica de Saúde Boa Sorte e teve como objetivo
qualificar os profissionais para melhorias no acompanhamento puerperal. Os encontros foram
realizados na própria Unidade Básica de Saúde Boa Sorte, situada na zona rural do município
de Palmeira dos Índios (AL).
Os critérios de inclusão foram os profissionais que trabalham na Unidade Básica de
Saúde Boa Sorte e os critérios de exclusão os profissionais que estavam de férias, atestado
médico ou apresentassem falta justificada no período da realização das oficinas. Os
profissionais que aceitaram participar das oficinas, assinaram um termo de autorização de uso
de imagem e voz, uma vez que estes momentos foram audiogravados e registados em diário de
campo, todavia os dados obtidos serão exclusivamente utilizados apenas para fins científicos e
educacionais.
Durante os encontros foram realizados dinâmicas e rodas de conversa, estimulando a
reflexão, debate e conscientização acerca da importância de identificar a percepção das
puérperas em relação ao acompanhamento puerperal e a partir disso foram traçadas
estratégias para serem implementadas no serviço para que possam sanar as lacunas
identificadas e assim melhorar a qualidade do serviço. As oficinas foram organizadas da
seguinte forma:
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 9
82
Quadro 1 – Sistematização das oficinas
Descrição das
atividades
Oficina 1
Oficina 2
•
•
Acolhimento;
Mostrar os objetivos da
pesquisa e das oficinas;
Apresentar os resultados
oriundos da pesquisa com as
puérperas;
•
•
Acolhimento;
Elaborar uma proposta de
intervenção no que concerne à
melhoria da qualidade no
acompanhamento puerperal pela
equipe de saúde da família;
Propor uma reflexão de acordo
com a realidade de cada
profissional, acerca do que foi
apresentado.
•
Trabalhar estudos de caso,
baseados na realidade;
Traçar estratégias para melhoria
do acompanhamento puerperal.
Sensibilizar os profissionais
sobre a importância de melhorias
no acompanhamento puerperal.
•
•
•
•
Objetivos
•
Estimular a reflexão e a elaboração
de estratégias que busquem
melhorias no serviço e
no acompanhamento puerperal.
Facilitador
Pesquisadora
Pesquisadora
Dinâmica
Roda de conversa
Roda de conversa
Avaliação do
momento
O que eu trouxe?
O que eu levo?
O que eu trouxe?
O que eu levo?
Materiais
Notebook, data show, papel A4,
cartolina, canetas.
Notebook, data show, papel A4,
cartolina, canetas.
Fonte: Elaborado pela autora (2024).
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A realização das oficinas representou uma oportunidade de interação e construção entre
os profissionais da equipe e possibilitou que os dados obtidos acerca da percepção das puérperas
sobre o acompanhamento puerperal fossem utilizados para construção de ferramentas voltadas
para a promoção da saúde puerperal e que as lacunas identificadas por elas fossem melhor
trabalhadas.
De acordo com Afonso (2206) a oficina pode trazer inúmeros benefícios nas áreas de
saúde, educação e ações comunitárias, pois utilizam a informação e a reflexão, para trabalhar
também com os significados afetivos e as vivências relacionadas ao tema abordado. Dessa
forma, esse movimento é visto como uma prática de intervenção psicossocial.
Durante a primeira oficina foi notório o quanto a apresentação dos resultados da
pesquisa foi importante, uma vez que aproximou a equipe da sua própria realidade, facilitando
assim o processo de sensibilização dos profissionais para as reflexões acerca do assunto.
Através da dinâmica realizada para avaliação do momento, nota-se que inicialmente os
profissionais não tinham noção do quanto aquele momento traria reflexão e aproximação com
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 9
83
a prática de cada um, refletidas nas falas de que traziam expectativas de aprendizado na maioria
das respostas e ao fim da oficina relatavam que levavam muito conhecimento e “um olhar
diferenciado” para a realidade das puérperas.
Já na segunda oficina observou-se que trazer estudos de caso para a reflexão foi um
momento que trouxe bastante envolvimento dos profissionais e gerou bastante discussão. Além
de conectar com a primeira oficina, esse momento trouxe muitos insigths acerca da realidade
da qualidade do serviço que estava sendo prestado e do quanto poderia ser melhorado. Na
dinâmica avaliação do momento foi visto que os objetivos foram alcançados uma vez que todos
os profissionais se mostraram entusiasmados com o assunto, relataram que já iniciaram
mudanças nos seus trabalhos com puérperas, além do comprometimento da equipe em traçar
estratégias para melhoria do cuidado, onde foi proposto a criação de um cartão da puérpera.
O cartão da puérpera tem o objetivo de aproximar essa mulher do serviço e fazer com
que ela se sinta acolhida no sistema, dando continuidade com qualidade ao seu puerpério, sendo
ouvida com mais empatia, tendo profissionais mais atentos ao seu momento e garantido um
cuidado de qualidade.
Sendo assim, estima-se que estas oficinas sejam um instrumento que possa ser
multiplicado para outros profissionais de saúde, de diferentes localidades, favorecendo um
número significativo de puérperas melhor assistidas. Em resumo, almeja-se melhorar a
qualidade dos serviços de saúde ofertado às puérperas.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenvolvimento de oficinas de capacitação para os profissionais de saúde da Atenção
Primária, visa melhorias no acompanhamento puerperal e mostra-se uma estratégia
apropriada, uma vez que provoca nos profissionais de saúde reflexões sobre a realidade
vivenciada pelas puérperas, favorecendo a discussão sobre os desafios e a elaboração de
medidas que visem melhorias no serviço e na qualidade do atendimento.
Além disso, as oficinas oferecem a oportunidades dos profissionais estreitarem seus
laços, pois oferecem um ambiente de discussão, troca de experiências, reflexões, atualização,
que somados as dinâmicas realizadas, trazem momentos de interação e um novo olhar para
diferentes situações, que dificilmente seria conseguido durante a rotina de trabalho diária.
Nesse sentido, espera-se que este produto possa despertar o interesse dos profissionais
de saúde, em busca de atualização profissional continuada, a fim de alcançar um impacto
positivo na qualidade do serviço ofertado à mulher/puérpera, pautado no atendimento
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 9
84
humanizado, individualizado, integral, com escuta qualificada e um olhar ampliado para um
acompanhamento puerperal de qualidade.
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eletrônico]/ Rafaela de Almeida Schiavo. Agudos: MaterOnline, 2018. Modo de acesso:
http://materonline.com.br/ebook.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 9
85
Capítulo 10
CARTOGRAFIA SOCIAL E EDUCAÇÃO POPULAR:
MAPEANDO CUIDADO E PROMOVENDO SAÚDE EM
UMA UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE
Emmanuelle Maria da Costa Santos
Ricardo Fontes Macedo
Luciana Rúbia Pereira Rodrigues
Flávia Nazareth Freitas Pimentel
Priscila Santos Vieira
Claudia Cristina Rolim da Silva
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-10
1. INTRODUÇÃO
A experiência aqui relatada foi desenvolvida no âmbito do Mestrado Profissional em
Saúde da Família (PROFSAÚDE/UFAL), no contexto da disciplina de Promoção da Saúde. A ação
teve como cenário a Unidade Básica de Saúde (UBS) Teotônio Vilela, situada no município de
Arapiraca, Alagoas. Essa UBS é composta por uma equipe de Saúde da Família (ESF), com
atuação em um território dividido em sete microáreas, abrangendo uma população de
aproximadamente 3.597 cidadãos ativos.
A proposta teve como objetivo utilizar a cartografia social, aliada aos princípios da
Educação Popular em Saúde (EPS), para mapear os pontos de cuidado presentes no território
e, a partir desse processo, construir coletivamente uma proposta de intervenção voltada à
promoção da saúde local. O mapeamento foi conduzido de forma participativa, envolvendo
tanto a equipe de saúde da UBS quanto representantes da comunidade, buscando identificar as
chamadas “redes vivas” do território — espaços, atores, relações e práticas que atuam direta
ou indiretamente na produção do cuidado.
Nesse contexto, a cartografia social se apresenta como uma estratégia eficaz para revelar
os diferentes espaços, atores e práticas relacionadas ao cuidado em saúde, considerando o
cotidiano dos territórios onde a população vive e atua. Esse olhar ampliado sobre o cuidado
permite reconhecer a complexidade do tecido social e as estratégias informais que, muitas
vezes, sustentam a saúde coletiva local.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 10
86
Conforme discutido por Merhy et al. (2014), as chamadas redes vivas correspondem a
formas de organização social que emergem das interações cotidianas, especialmente em
territórios com maior vulnerabilidade. Caracterizam-se por sua fluidez, diversidade e constante
renovação, estando inseridas em diferentes esferas da vida — como a cultura, a economia, os
afetos e as relações sociais. Essas redes seguem lógicas próprias, muitas vezes não reconhecidas
pelas estruturas formais dos serviços, o que contribui para a invisibilidade dos saberes e
práticas dos usuários, frequentemente reduzidos a papéis passivos no processo de cuidado.
Diante disso, torna-se essencial valorizar as expressões do cotidiano comunitário e
fomentar momentos de escuta e construção conjunta do cuidado, por meio de ações articuladas
entre diferentes áreas profissionais e setores públicos. Nesse processo, a Educação Popular em
Saúde desempenha papel central na dinamização e fortalecimento das redes locais de cuidado,
estimulando o protagonismo social, o engajamento comunitário e a construção da autonomia
coletiva. Como destaca Vasconcelos (2007), trata-se de um caminho que potencializa o poder
de decisão das populações sobre suas vidas e cuidados.
A partir da elaboração da cartografia do território da UBS Teotônio Vilela, foi possível
identificar e visibilizar essas redes vivas em atuação, revelando um campo fértil para a
promoção da saúde, construído a partir dos vínculos, saberes e práticas existentes no cotidiano
da população local.
2. MÉTODO
A metodologia adotada foi a partir de um enfoque participativo, organizada em três
etapas principais: construção da cartografia social, planejamento da proposta de intervenção e
da sua execução.
CONSTRUÇÃO DA CARTOGRAFIA SOCIAL
A primeira etapa da atividade consistiu na construção participativa da cartografia social
do território, com o propósito de identificar pontos e redes de cuidado presentes na área de
abrangência da UBS. O processo teve início com a elaboração de um roteiro de escuta,
estruturado a partir de perguntas disparadoras como: Quais grupos de cuidado existem na ESF;
Com que frequência ocorrem; Quais profissionais os conduzem; Considerando a realidade social,
cultural e epidemiológica do território, que grupos seriam relevantes; Quais os principais
obstáculos para seu desenvolvimento; Há outras iniciativas ou ações voltadas ao cuidado e à
promoção da saúde no território. Esse roteiro foi aplicado durante uma reunião previamente
agendada com a equipe da unidade, realizada em 2 de abril de 2025, contando com a
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 10
87
participação dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), da enfermeira, do médico, da gerente
da unidade e de dois usuários.
O encontro teve como foco estimular o diálogo sobre os grupos existentes, seus
responsáveis, periodicidade e dificuldades enfrentadas. Também buscou-se levantar
percepções sobre a necessidade de novos grupos, considerando o contexto epidemiológico e
sociocultural da população atendida. Durante a escuta, a equipe destacou limitações estruturais
significativas, como a precariedade do imóvel alugado, que apresenta espaços físicos
insuficientes para a realização de atividades coletivas.
Ao longo da escuta ativa com a equipe e os usuários da unidade, foi possível identificar
experiências significativas de cuidado desenvolvidas no território, denominadas redes vivas,
como o Centro de Cultura Afro-Brasileira Dandalunda, grupos de atividade física independentes
no “Bosque das Arapiracas”, uma associação de capoeira, um grupo de Alcoólicos Anônimos
(AA) e outros coletivos com atuação relevante no campo da promoção da saúde. A cartografia
social permitiu visualizar a articulação dessas redes com a vida cotidiana da população,
representando um campo fértil para a construção de ações intersetoriais de cuidado.
Figura 1 – Redes Vivas do Território identificadas
Fonte: Produção da autora (2025).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 10
88
APRESENTAÇÃO À EQUIPE E PLANEJAMENTO DA PROPOSTA DE
INTERVENÇÃO
A segunda etapa correspondeu à devolutiva da cartografia social para a equipe da UBS e
à construção coletiva da proposta de intervenção. Esta ação ocorreu em 16 de abril de 2025,
durante a Reunião Administrativa da Unidade, da qual participaram 19 profissionais de saúde.
A apresentação foi realizada com uma abordagem dialógica e participativa. O objetivo foi
socializar os achados da cartografia e mobilizar os profissionais para o planejamento da oficina
de promoção da saúde.
Durante o encontro, discutiram-se as possibilidades e limitações do território e da
unidade para a realização de atividades educativas. Diante disso, deliberou-se pela utilização
do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) como espaço para a realização da oficina,
considerando sua maior estrutura e acessibilidade. Também foi definido o envolvimento de
parcerias com o CRAS do território e com a coordenação da Promoção da Saúde da Secretaria
Municipal de Saúde (SMS).
Figura 2 – Apresentação da Cartografia Social do Território à Equipe
Fonte: Elaboração da autora (2025).
Ficou sob a responsabilidade da mestranda a sistematização da proposta final da
intervenção, o agendamento de nova reunião com a equipe para validação do plano de ação e a
articulação com os atores institucionais necessários à sua realização.
A referida reunião ocorreu no dia 13 de maio de 2025 com o intuito de validar e ajustar
os detalhes da proposta de intervenção prevista para o dia 21 de maio, com a participação da
equipe da ESF (gerente, enfermeira, médica, dentista), estudantes de medicina, ACS e técnicos
administrativos. Na ocasião, foram entregues convites personalizados para serem distribuídos
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 10
89
individualmente aos usuários, como estratégia de mobilização. Também foram definidas outras
ações de divulgação, como Salas de Espera, envio de mensagens em grupos de WhatsApp dos
ACS e publicações no Instagram da UBS. Por fim, a programação da Oficina foi construída de
forma coletiva, integrando diferentes ideias e sugestões da equipe.
EXECUÇÃO DA INTERVENÇÃO
A terceira etapa consistiu na execução da Oficina de Promoção da Saúde intitulada
“Cuidar Juntos”, realizada na tarde do dia 21 de maio de 2025, no CRAS Eva Pessoa. A atividade
teve como objetivo promover a construção coletiva de estratégias de cuidado e prevenção de
doenças crônicas, especialmente voltadas para o público idoso, hipertenso e diabético, a partir
de metodologias participativas e dialogadas.
A oficina contou com a presença de 39 participantes da comunidade. A recepção foi
organizada de forma acolhedora, com disposição em círculo e ambientação facilitadora da
interação. A atividade iniciou com uma dinâmica de apresentação simbólica, a qual foi
conduzida de forma leve, onde os participantes se apresentaram a partir da identificação com
um animal. Suas falas foram registradas em tarjetas e utilizadas para compor um mural,
fortalecendo o sentimento de pertencimento. Na sequência, realizou-se uma roda de conversa
a partir da pergunta norteadora: “O que é cuidado para você?”. As falas dos participantes foram
registradas em tarjetas pela equipe de facilitadores, que também ficou responsável por
organizar as contribuições em categorias temáticas. Como resultado, foi construído um mural
coletivo que expressou as diferentes percepções sobre o cuidado, valorizando a escuta e a
diversidade de sentidos atribuídos pelos participantes. Em seguida, profissionais da UBS
realizaram falas educativas sobre alimentação saudável, saúde mental, uso de medicamentos e
prevenção de doenças crônicas.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 10
90
Figura 3 – Oficina “Cuidar Juntos”
Fonte: elaboração da autora (2025).
Posteriormente, realizou-se uma vivência com Práticas Integrativas e Complementares
em Saúde (PICS), com destaque para o uso de chás medicinais e técnicas de automassagem. A
oficina também incluiu uma atividade de exercícios físicos conduzidos por profissional de
Educação Física, seguida de avaliação participativa com o instrumento “Semáforo do
Conhecimento”. Ao final, foi oferecido um lanche saudável e reforçada a importância da
continuidade da ação em parceria com o CRAS, com previsão de nova atividade no mês seguinte.
Figura 4 – Oficina “Cuidar Juntos”
Fonte: elaboração da autora (2025).
3. RESULTADOS
Nessa configuração territorial, foi possível identificar a presença de Redes Vivas, tanto
nas ações de saúde promovidas pela UBS Teotônio Vilela quanto nas iniciativas autônomas da
própria comunidade. Essas expressões revelam criatividade, resistência, solidariedade e a
capacidade de produzir cuidado de forma coletiva e em rede. Como destacam Feichas,
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 10
91
Schweickardt e Ferla (2020), reconhecer e dialogar com essas redes é essencial para fortalecer
as ações da UBS, pois elas operam como dispositivos vivos de cuidado e mobilização social.
Diante desse cenário, tornou-se essencial fortalecer essas conexões e reconhecer os múltiplos
sujeitos do cuidado, potencializando-o como uma prática compartilhada, transformadora e
enraizada no território.
A proposta desenvolvida resultou na realização de oficinas participativas voltadas à
promoção da qualidade de vida, utilizando metodologias ativas e diálogo entre saberes; na
criação de um grupo fixo de cuidado na UBS, com foco na prevenção das Doenças Crônicas Não
Transmissíveis (DCNT) e no incentivo ao autocuidado; e na valorização das redes vivas locais,
integrando saberes populares, práticas tradicionais e ações institucionais.
Esses resultados estão em consonância com Mendonça e Nunes (2014), que evidenciam
em seus estudos que atividades participativas em grupos de educação em saúde para pessoas
com doenças crônicas contribuem significativamente para a autonomia dos sujeitos,
favorecendo a troca de experiências e o fortalecimento de vínculos entre os participantes e os
profissionais de saúde.
Nesse sentido, ao promover a integração entre os pontos de cuidado mapeados, os
saberes da comunidade e as práticas de saúde da equipe da ESF, a intervenção reafirma o valor
dos grupos como espaços potentes de cuidado compartilhado, conforme discutido por
Mendonça e Nunes (2014). A experiência demonstrou que é possível construir estratégias
educativas mais eficazes, sensíveis às especificidades territoriais e comprometidas com a
produção de saúde como um bem comum.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência desenvolvida na UBS Teotônio Vilela, no município de Arapiraca (AL),
permitiu alcançar os objetivos propostos ao longo do processo formativo, em especial no
contexto da disciplina de Promoção da Saúde do Mestrado Profissional em Saúde da Família
(PROFSAÚDE/UFAL). A partir da construção participativa da cartografia social, foi possível
identificar pontos de cuidado formais e informais, valorizando as redes vivas que atuam no
território e que muitas vezes permanecem invisibilizadas pelas lógicas tradicionais dos
serviços de saúde.
O processo evidenciou o potencial das metodologias participativas e do diálogo com os
saberes populares como caminhos efetivos para fortalecer o vínculo entre a equipe de saúde e
a comunidade, favorecendo a corresponsabilidade no cuidado e a autonomia dos sujeitos. A
escuta qualificada e o envolvimento ativo da equipe da Estratégia Saúde da Família (ESF),
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 10
92
somados ao engajamento da comunidade, demonstraram que o cuidado em saúde se fortalece
quando sustentado por relações horizontais, respeito mútuo e reconhecimento das potências
do território.
A realização da oficina “Cuidar Juntos” constituiu-se como um marco na mobilização
comunitária em torno da promoção da saúde, especialmente entre os grupos prioritários para
o enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), como idosos, hipertensos
e diabéticos. A criação de um grupo fixo de cuidado na UBS, o incentivo ao autocuidado e a
articulação com o CRAS e com iniciativas comunitárias consolidaram uma proposta de
intervenção viável, sustentável e integrada ao cotidiano local, produzindo avanços importantes.
Além disso, os resultados da experiência apontam para a importância da Educação
Popular em Saúde como estratégia de fortalecimento da autonomia, da escuta e da participação
social. Nesse sentido, o projeto demonstrou que é possível construir intervenções efetivas
mesmo diante de limitações estruturais, quando se aposta na criatividade, no diálogo e na
articulação intersetorial como fundamentos do trabalho em saúde.
Por fim, a continuidade do grupo e o planejamento de novas ações sinalizam a potência
do trabalho coletivo e a relevância da abordagem territorial no fortalecimento do SUS.
REFERÊNCIAS
FEICHAS, N. M. L. C.; SCHWEICKARDT, J. C.; FERLA, A. A. Estratégia Saúde da Família e práticas
populares de saúde: diálogos entre redes vivas em um território de Manaus, AM, Brasil.
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MENDONÇA, F. F.; NUNES, E. F. P. A. Atividades participativas em grupos de educação em
saúde para doentes crônicos. Cadernos de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 22, n. 2, p. 200204, jun. 2014.
MERHY, E. E. et al. Redes vivas: multiplicidades girando as existências, sinais da rua.
Implicações para a produção do cuidado e a produção do conhecimento em saúde.
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VASCONCELOS, E. M. Educação popular: instrumento de gestão participativa dos serviços de
saúde. In: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa.
Departamento de Apoio à Gestão Participativa. Caderno de educação popular e saúde.
Brasília: Ministério da Saúde, 2007. 160 p. il. color. (Série B. Textos Básicos de Saúde).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 10
93
Capítulo 11
CUIDAR DE SI E DO OUTRO: SABERES POPULARES E
SAÚDE NO TERRITÓRIO
Rejaneide Ferreira da Silva
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-11
1. INTRODUÇÃO
A promoção da saúde, orientada pelos princípios da Educação Popular, busca fortalecer
o protagonismo social e valorizar os saberes e práticas populares como componentes essenciais
do cuidado em saúde. No território, tais práticas emergem como expressões legítimas e
fundamentais, carecendo de reconhecimento e potencialização pelas ações institucionais.
Conforme Lima, Silva e Tesser (2014), as práticas integrativas e complementares, quando
articuladas à promoção da saúde, “valorizam o conhecimento popular, a autonomia dos sujeitos
e a integralidade do cuidado” (Lima; Silva; Tesser, 2014, p. 356). Esta perspectiva reforça a
necessidade de construir espaços de diálogo horizontal, nos quais conhecimentos científicos e
populares se entrelaçam, promovendo o fortalecimento dos vínculos comunitários e a
ampliação da autonomia dos indivíduos e coletivos.
Deste modo, a proposta das Rodas de Conversa visa estimular a troca de saberes,
fomentar a construção coletiva de estratégias de cuidado e mobilizar socialmente para a
promoção da saúde, respeitando a diversidade cultural e a singularidade do território. Ademais,
essa iniciativa contribuirá diretamente para o fortalecimento e efetivação do processo de
implantação do matriciamento em saúde mental, aproximando a rede de atenção básica dos
serviços especializados, promovendo uma prática compartilhada e integradora do cuidado.
2. MÉTODO
A metodologia será pautada na realização de Rodas de Conversa, fundamentadas nos
princípios da Educação Popular em Saúde. Essas rodas constituirão espaços de diálogo
horizontal, promovendo a valorização dos saberes e experiências locais, bem como a
construção coletiva de propostas que fortaleçam a saúde no território. Cada encontro será
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 11
94
estruturado com momentos de acolhida, dinâmica de integração, debate temático e fechamento,
priorizando a construção coletiva de propostas.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A proposta foi organizada em três encontros principais, cada um com um objetivo
específico: o primeiro destinado ao levantamento dos saberes e das necessidades em saúde da
comunidade; o segundo para a troca de experiências sobre práticas de autocuidado e cuidado
coletivo; e o terceiro dedicado à construção de propostas comunitárias para a promoção da
saúde. Foram utilizadas dinâmicas participativas para favorecer o envolvimento dos
participantes: a dinâmica “Tecendo Saberes”, que conecta simbolicamente os participantes por
meio de fios de lã; a “Mala de Experiências”, que promove a partilha de saberes e vivências; e a
“Sementes do Futuro”, que estimula a criação coletiva de propostas, formando um “jardim de
ações” para o fortalecimento do cuidado no território. As atividades aconteceram no instituto
Amor ao Próximo e no CAPS AD, sempre às terças-feiras, às 9h, com possibilidade de ajustes
conforme as demandas locais. Foram utilizados recursos acessíveis como cadeiras dispostas em
círculo, materiais gráficos, músicas acolhedoras, lanche comunitário e registros fotográficos
autorizados. A mobilização foi realizada por meio de convites ativos, divulgação nos espaços
institucionais e articulação com a rede de assistência social e saúde. O protagonismo dos
usuários foi incentivado, promovendo ampla participação. A ação contou com a
corresponsabilidade da equipe do CAPS AD, estagiárias de Serviço Social, profissionais da rede
e lideranças comunitárias, com a participação ativa de usuários, familiares e membros da
comunidade do Conjunto Jarbas.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A realização das Rodas de Conversa, ancoradas na perspectiva da Educação Popular em
Saúde, configura-se como uma estratégia potente para impulsionar a promoção da saúde no
território. Tal ação fortalece o protagonismo comunitário e fomenta a construção
compartilhada do cuidado. Ao valorizar os saberes locais e estimular o diálogo horizontal entre
profissionais e usuários, esta proposta contribui significativamente para a criação de vínculos
solidários e para o reconhecimento das necessidades e potencialidades do território. Ademais,
a metodologia adotada favorece a consolidação do matriciamento em saúde mental,
promovendo a aproximação entre a Atenção Básica e os serviços especializados, e
potencializando uma prática de cuidado integrada, corresponsável e humanizada. Com essas
ações, busca-se não apenas a melhoria das condições de saúde da comunidade, mas também a
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 11
95
promoção da transformação social, pautada na autonomia e na valorização do direito à saúde
como uma conquista coletiva.
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valorização dos saberes locais e promoção da saúde. Revista Brasileira de Saúde Pública, v.
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Saúde Pública, v. 25, n. 2, p. 421-430, 2009.
SEKINE, L. M.; GOMES, R. A.; CORREIA, M. S. A Educação Popular em Saúde como estratégia
para a construção do cuidado integral. Revista da Associação Paulista de Medicina, v. 54, n.
1, p. 22-27, 2010.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 11
96
Capítulo 12
ESTIMATIVA RÁPIDA PARTICIPATIVA COMO
ORDENADORA DO PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO
EM UMA UNIDADE DE SAÚDE DA FAMÍLIA
Simone Maria da Fonseca Vasconcelos
Josineide Francisco Sampaio
Priscila Nunes de Vasconcelos
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-12
1. INTRODUÇÃO
A efetividade das ações em Saúde Pública está diretamente relacionada a um
planejamento estratégico eficaz, que considere o contexto sociossanitário em que o território e
sua comunidade está inserido (Oliveira et al., 2020).
Nesse sentido, e buscando assegurar na prática os preceitos e diretrizes que norteiam o
Sistema Único de Saúde (SUS), faz-se necessário que se conheça o território de atuação e
consequente Determinantes Sociais de Saúde (DSS) para entender as problemáticas da
comunidade adscrita que interferem no processo saúde-doença. Desconsiderar estas
especificidades é aumentar as chances de incorrer em erro metodológico que pode resultar no
planejamento de ações malsucedidas (Trad, 2014).
No processo de territorialização, a escuta ativa da comunidade representa uma
ferramenta importante para conhecer as necessidades, anseios e demandas da população, e a
Estimativa Rápida Participativa (ERP) constitui um potente instrumento de abordagem
comunitária, favorecendo a composição de um processo decisório pautado nos modelos de
gestão compartilhada e cogestão (Brasil, 2010).
Para aproximar os profissionais de saúde da realidade do território, aprofundando seu
conhecimento sobre as particularidades locais e subsidiar o planejamento de ações em saúde
mais resolutivas, a ERP foi aplicada em uma Unidade de Saúde da Família (USF) de uma capital
nordestina, atuando como operacionalizador do processo de territorialização e ordenador do
serviço assistencial (Boitrago et al., 2024).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 12
97
No contexto da Saúde Pública, pode-se afirmar que o Planejamento Estratégico em Saúde
(PES) funciona como orientador de decisões, fortalecendo a Atenção Primária à Saúde (APS)
através da ampliação dos serviços e redução das desigualdades, baseando-se nos princípios
norteadores do SUS como a universalidade, integralidade e equidade, potencializando assim a
efetividade das ações em saúde de acordo com as necessidades da população (OPAS, 2009).
O PES configura-se como um processo contínuo e participativo, fundamentado na
análise de problemas e definição de prioridades, com vistas a aprimorar a capacidade de
resposta do sistema (Giovanella et al., 2020). Desse modo, destaca-se a importância da
realização de um diagnóstico situacional prévio, considerando o contexto sócio sanitário e
atentando a fatores como: Territorialização, Determinantes Sociais de Saúde (DSS) e escuta
ativa da população.
A territorialização, de acordo com o Plano Distrital de Saúde do Distrito Federal (20202023), é definido como um processo estratégico organizacional da Estratégia de Saúde da
Família (ESF) e APS do SUS, que possibilita identificar as prioridades e definir ações e serviços
de saúde com base nas especificidades de cada território, sendo essencial para o mapeamento
das necessidades de saúde (permitindo a identificação de vulnerabilidades e prioridades
particulares de cada local), planejamento de ações integradas e mais eficazes (propiciando
articular diferentes níveis de atenção à saúde) e o fortalecimento da APS (garantindo que o
cuidado seja prestado de forma equitativa e acessível à população, reduzindo as desigualdades
em saúde).
Os Determinantes Sociais da Saúde (DSS), segundo a Organização Mundial de Saúde
(OMS), através da sua Comissão sobre Determinantes Sociais da Saúde define os DSS como
sendo: “As condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem,
incluindo o sistema de saúde” (WHO, 2008), sustentando que o processo saúde-doença não
depende apenas de fatores biológicos ou individuais, sendo influenciados diretamente por
fatores externos como os sociais, econômicos, culturais, étnicos/raciais, psicológicos e
comportamentais.
Considerando os elementos acima indicados a serem observados na análise das
condições de saúde de determinada população e planejamento de promoção de saúde, a
Estimativa Rápida Participativa (ERP) constitui uma ferramenta potente de coleta e análise de
dados com participação ativa da comunidade e dos profissionais de saúde, auxiliando a
elaboração de um diagnóstico situacional rápido e eficiente, contextualizada com o território
(OPAS, 2009). E, ao ser realizada a partir da escuta qualificada dos sujeitos elencados
anteriormente, a ERP fornece dados importantes para a tomada de decisão, sendo capaz de
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 12
98
gerar equidade e aproximar profissionais e comunidade, permite a identificação dos problemas
prioritários, recursos e demandas específicas do território, servindo de apoio no processo
decisório.
Neste sentido, o processo decisório compartilhado traduz-se em um modelo de tomada
de decisão que se dispõe a quebra do modelo hegemônico e verticalizado, na medida que
possibilita a participação ativa dos profissionais de saúde e comunidade, onde a
corresponsabilização dos atores envolvidos promove a construção de vínculos, autonomia e
protagonismo na atenção e na gestão em saúde (Brasil, 2010), valorizando assim a participação
coletiva e colaborativa, garantindo que as ações planejadas estejam mais alinhadas às
necessidades de um determinado grupo populacional.
Diante do exposto, tem-se como objetivo discorrer sobre a utilização da Estimativa
Rápida Participativa (ERP) no planejamento de ações de promoção de saúde em uma Unidade
de Saúde da Família (USF), para atender as demandas identificadas no Diagnóstico Situacional
realizado durante o desenvolvimento das atividades disciplinares do Mestrado Profissional em
Saúde da Família (PROFSAÚDE/UFAL).
2. MÉTODO
Trata-se de um trabalho descritivo do tipo relato de experiência, cujo objetivo é
observar, descrever e documentar diferentes aspectos de uma situação (Pereira et al., 2025).
Versa sobre a utilização da ERP em uma USF, realizado no período de outubro a dezembro de
2022, através da coleta de dados primários, obtidos a partir da observação e aplicação de
entrevistas com informantes-chave e dados extraídos dos Sistemas de Informação PEC/e-SUS.
O primeiro passo foi a realização da territorialização, com reconhecimento da área,
condições sociossanitárias e dispositivos sociais com potencialidade para realização de
parcerias.
A ERP foi a estratégia apresentada e escolhida pela Equipe para operacionalizar o
processo de territorialização, visto que permite uma maior aproximação com a realidade local,
aprofundando o conhecimento das necessidades específicas da comunidade, nós críticos e
potencialidades do serviço, do ponto de vista dos usuários, subsidiando o planejamento de
ações interventivas que busquem minimizar as problemáticas identificadas (Giovanella et al.,
2020).
Para a ERP utilizou-se a aplicação de entrevistas com base em questionário
semiestruturado, com perguntas abertas, a fim de servir como orientador e estimular o diálogo
espontâneo com uma maior produção de sentidos e riqueza de informações (Maia, 2020). O
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 12
99
questionário continha questões sobre o perfil do entrevistado (idade, sexo, grau de instrução,
estado civil, profissão, tempo que reside na comunidade e papel que desempenha na mesma);
Perguntas sobre o território (como surgiu a comunidade, principais conquistas e problemas
percebidos, existência de grupos organizados etc.) e questões acerca das principais causas de
morbimortalidade da população nas diferentes fases da vida, o que contribui para ocorrência e
como a comunidade poderia se articular para modificar o cenário.
No tocantes aos serviços de saúde, foi questionado qual o principal local procurado pela
população quando adoecem, que serviços de saúde são ofertados na comunidade, a percepção
da comunidade acerca da assistência recebida na USF, dificuldade de acesso serviços e se
consideram os mesmos resolutivos.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
O estudo foi realizado na Unidade de Saúde da Família (USF) Rosane Collor, situada no
Bairro do Clima Bom, pertencente ao 7º Distrito Sanitário (DS) de Maceió (AL), a qual é
composta por 03 ESF. Para este estudo foi analisada a comunidade pertencente ao território
adscrito da Equipe 029, responsável pela comunidade do bairro Colina 2, da qual a presente
autora faz parte como odontóloga da Equipe e possui uma população de 4156 cadastrados.
O 7º DS é um dos mais populosos de Maceió (AL), localizado em área urbana, e marcado
pela vulnerabilidade social. Nas regiões urbanas, as áreas localizadas na periferia apresentam
características
específicas
advindas
da
vulnerabilidade
social
presente,
tornando
imprescindível que os profissionais de saúde que atuam neste território consigam perceber e
se adaptar às problemáticas locais (Oliveira; Rego Neto; Silva-Junior, 2024).
Durante a territorialização foram identificados dispositivos sociais tais como: igrejas,
associação de moradores e duas escolas particulares de pequeno porte. Nas imediações,
território adscrito de outras ESF da USF, situa-se uma escola municipal e outra associação
comunitária (maior e mais atuante).
ESTIMATIVA RÁPIDA PARTICIPATIVA
Os primeiros passos para realizar a ERP foi a identificação dos usuários com potencial
para serem entrevistados como informantes-chaves.
Foram entrevistados moradores membros da pastoral da igreja católica, da associação
da igreja evangélica, moradores mais antigos do bairro, usuários assíduos da USF e usuários
que residem em localidades mais distantes da USF.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 12
100
Durante a entrevista, a história da comunidade foi revisitada, constando que
inicialmente não tinha calçamento, coleta de lixo ou mesmo saneamento. As grandes conquistas
apontadas pela comunidade são recentes, pois datam de 2019, com a transferência da USF para
o bairro Colina 2, momento em que essa comunidade finalmente conseguiu acesso ao SUS
através da implantação da ESF. Meses depois a comunidade foi contemplada com saneamento
básico e calçamento, o que facilitou muito o deslocamento e permitiu a coleta de lixo (3x na
semana).
Porém, os moradores afirmam que a comunidade se apresenta apática, não buscando
reivindicar seus direitos, e necessitando de uma associação mais representativa ou mesmo de
um conselho gestor.
As causas de adoecimento apontadas na infância foram gripe e questões respiratórias,
na adolescência a maior preocupação é com álcool e drogas (inclusive a maior causa de mortes
na adolescência apontada foi por violência em decorrência ao uso dessas substâncias). Na idade
adulta observa-se que, embora os entrevistados percebam um número alto de hipertensos e
diabéticos, eles não conseguem entender como doença, a menos que esteja descompensado, e
apontaram a maior causa de morte entre adultos os problemas cardíacos. Quanto aos idosos,
informam que adoecem e morrem de “morte morrida”.
Os entrevistados relataram que a população adoecida procura, em primeiro lugar, a UPA
(quando entendem como algo emergencial); em seguida da USF, se mostram satisfeitos com o
atendimento e serviços ofertados, tendo as queixas concentradas na questão da referência,
principalmente com relação a demora na marcação de exames.
Duas das entrevistadas que moram mais distantes da unidade relatam dificuldade de
acesso, uma por ter um cadeirante na família, e o fato de que as lombadas terem sido
construídas pelos próprios moradores dificulta a passagem da cadeira de rodas. A outra relata
que ela não tem dificuldade, mas a mãe, domiciliada, deambula com dificuldade e, portanto, só
consegue chegar a USF quando tem “dinheiro pro carro”. Esta última enalteceu o atendimento
domiciliar que a mãe recebe pela ESF, e relata que morava em outro bairro onde, apesar de
cadastrada na ESF, nunca recebeu atendimento domiciliar.
REUNIÃO COM EQUIPE MULTIPROFISSIONAL
Após as entrevistas, o passo seguinte foi a reunião com a equipe multiprofissional, para
entender a visão que a equipe tem, das demandas e nós críticos da comunidade e confrontar os
achados obtidos através das entrevistas com os informantes-chave e os dados extraídos do PEC
e-SUS.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 12
101
O compartilhamento dessas informações por meio de reuniões de equipe se deu pelo
entendimento que essas reuniões representam um espaço propício para discussões dos
problemas e articulações de estratégias, devendo ser otimizadas de modo a permitir que todos
os profissionais envolvidos possam expor e/ou contrapor suas opiniões (Valentim, 2008).
Participaram deste momento, além de todos os profissionais de saúde da equipe
(composta por uma médica residente da UFAL, uma enfermeira, duas técnicas de enfermagem,
1 odontóloga, 1 Auxiliar de Saúde Bucal e 6 Agentes Comunitários de Saúde), 2 estagiários de
medicina da UFAL.
Nessa reunião, chegou-se ao consenso de três pontos-chave a serem priorizados:
1. Atenção à Saúde do Idoso, com foco nos dependentes (acamados e domiciliados):
Ao analisar a pirâmide etária da comunidade percebe-se o processo de
envelhecimento populacional, que acontece em consonância com o cenário
brasileiro. Na equipe 29, o total de idosos é de 462, ou seja, 11,11% da população,
sendo destes 47 octogenários. Os idosos dependentes representam 7,57% da
população de idosos do território (35 indivíduos), sendo importante ressaltar que
todos os idosos dependentes da área apresentam alguma comorbidade associada
(DIA, HA, cardiopatias, problemas respiratórios ou de ordem psíquica, além de
perdas da função motora e/ou cognitiva).
2. Saúde Mental: Devido ao número preocupante de pacientes com transtornos
psiquiátricos, desde ansiedade, depressão, ideação suicida e autolesão (estes últimos
principalmente em adolescentes), até casos mais graves de esquizofrenia e paranoia,
o que coincide com relatos trazidos pelos profissionais da Escola Zumbi dos
Palmares, que embora não se localize no território, muitos alunos são moradores da
comunidade estudada.
De acordo com dados do PEC, 126 pacientes são identificados como portadores de
algum transtorno psíquico. Esses dados chamaram atenção da Equipe, pois até então
os profissionais não se apercebiam da dimensão do impacto dos transtornos mentais
para o cotidiano da comunidade, só sendo revelado mediante os discursos trazidos
pelos usuários, destacando a importância da ERP e escuta comunitária para o
reconhecimento da realidade local (Kleba et al., 2015; Oliveira; Rego Neto; SilvaJunior, 2024).
3. Combate e prevenção de danos com relação ao tabagismo, uso de álcool e
drogas: Apontados pela comunidade e, também percebidos pelos ACS da Equipe,
principalmente em adolescentes e adultos jovens do sexo masculino, o que contribuí
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 12
102
para aumento de violência na comunidade. Embora no PEC a quantidade desses
fatores autorreferidos seja ínfima, é uma realidade vívida e que não pode ser
negligenciada.
Nesta mesma reunião surgiram propostas de intervenções passíveis de resolutividade
pela Equipe de Saúde da Família com apoio matricial da eMulti, culminando em ações voltadas
a atender os 03 eixos temáticos destacados.
AÇÕES IMPLEMENTADAS
Com relação a atenção à saúde do idoso foi realizada a reorganização dos atendimentos
domiciliares com vistas a ofertar um maior suporte aos idosos acamados e domiciliados além
de apoiar seus cuidadores garantindo o acesso e diminuindo as iniquidades em saúde. Também
foram elaboradas ações de Educação em Saúde relacionadas ao tema.
O eixo da Saúde Mental foi trabalhado a partir da Educação Permanente em Saúde (EPS)
com a qualificação acerca do matriciamento ofertado por profissionais do CAPS-AB e
formulação de Projeto Terapêutico Singular junto a usuários portadores de Esquizofrenia. A
questão do combate ao suicídio e autolesão foi trabalhado a partir da EPS (a fim de qualificar
os profissionais da USF quanto ao acolhimento e manejo desses usuários) e por ação no
Programa Saúde na Escola, na Escola Municipal Zumbi dos Palmares (formação de grupo de
adolescentes onde a temática foi tratada na intersetorialidade, em parceria na estabelecida
entre ESF – Escola – eMulti, evidenciando o papel da ERP em promover a intersetorialidade,
com a inclusão de outros setores do município (Kleba et al., 2015).
Houve ainda a formação de um projeto intitulado Estimular (sob o comando da eMulti,
a fim de melhorar o desenvolvimento cognitivo e motor das crianças com autismo e apoiar suas
famílias), realizados nas instalações da associação de moradores Zumbi dos Palmares.
Por fim, o eixo do combate e prevenção de danos com relação ao tabagismo, uso de álcool
e drogas foi contemplado a partir da criação de um grupo, tendo como público-alvo os usuários
e seus familiares, e teve como mediadores os profissionais do CAPS-AB.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A ERP mostrou ser eficaz para o processo de territorialização e análise situacional,
subsidiando o planejamento estratégico de ações em saúde com maior potencial de
resolutividade, voltadas para as necessidades especificas da comunidade.
A partir da aplicação da ERP, os profissionais de saúde se apropriaram das principais
demandas da comunidade, considerando o contexto sociossanitário, permitindo perceber como
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 12
103
alguns problemas impactam na população, mesmo quando não vislumbrados a partir dos dados
contidos nos sistemas de informação em saúde (tal qual a depressão e o abuso de álcool e
drogas).
A ERP propiciou a participação ativa dos profissionais de saúde e comunidade,
subsidiando
o
processo
decisório
compartilhado,
aumentando
o
sentido
de
corresponsabilização e comprometimento, o que resultou em ações mais robustas, elaboradas
na interprofissionalidade e intersetorialidade.
Fica evidente, portanto, a importância da ERP para o planejamento e organização do
serviço, melhorando a qualidade da assistência ofertada pela ESF.
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SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 12
104
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SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 12
105
Capítulo 13
AÇÃO NA COMUNIDADE, UM RELATO DE
EXPERIÊNCIA: ULTRAPASSANDO OS MUROS,
PROPORCIONANDO ACESSIBILIDADE E EQUIDADE
Vanessa Almeida do Nascimento
Rosa Maria Laurindo Avelino
Ianara Thayná Almeida Pinto
Laura Maria Pereira de Araújo Cantarelli
Aldacy Pepese Oliveira
Luiz Carnaúba Lima Júnior
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-13
1. INTRODUÇÃO
A imparcialidade e a justiça no tratamento das pessoas reconhecendo suas demandas e
atendimento adequado todos os serviços de saúde estão garantidos no princípio da equidade
do Sistema Único de Saúde (SUS), regulamentado pela lei 8080/90, com intuito de reduzir as
desigualdades e promover justiça social (Brasil, 1990).
O primeiro contato do indivíduo com esses serviços se dá na Atenção Primária à Saúde
(APS), que deve estar disponível o mais próximo possível de onde ele vive e trabalha e ser
resolutiva (Mendonça, 2021). Estudos apontam que uma APS forte beneficia a população ao
estabelecer acessibilidade e cuidado das suas condições de saúde e doença reduzindo o risco
de não serem tratadas (Soares, 2024).
Acessibilidade em saúde é um elemento crucial para garantir o direito à saúde de todos,
especialmente os mais fragilizados. A Estratégia de Saúde da Família (ESF) é um modelo que
vem aplicando uma abordagem eficaz, voltada para a promoção da saúde e prevenção de
doenças, ao oferecer um cuidado integral e ao facilitar o acesso a serviço de qualidade
integrando diferentes setores para atender às necessidades locais (Chávez, 2020).
As políticas de promoção da saúde, conforme preconizado pela Organização Mundial da
Saúde (OMS) na Carta de Otawa, enfatizam a importância de ambientes que favoreçam o bemestar e a qualidade de vida (Organização Mundial da Saúde, 1986). Nesse sentido, a ESF oferece
uma série de serviços para organizar APS em um modelo lógico de assistência, cuja as ações são
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 13
106
fundamentais para construir uma cultura que priorize conhecer a realidade local sob sua
responsabilidade em contexto familiar e vida comunitária (Martins, 2024).
Ao realizar as ações de promoção à saúde, a ESF deve levar em consideração os fatores
ambientais, sociopolíticos e socioeconômicos da comunidade estabelecida. Que além de
grandes desafios, afetam a saúde e geram impactos na prestação dos serviços (Ferreira;
Carvalho, 2021).
Vulnerabilidade e determinantes sócias estão estritamente ligados e externados no
cotidiano do sujeito. Barreiras geográficas, disparidades culturais e socioeconômicas que
perpetuam como a falta de informação e discriminação de determinados grupos sociais,
transpassa o acesso aos serviços e a qualidade do atendimento. É preciso um projeto
colaborativo para superar os obstáculos com a mobilização dos diversos atores envolvidos.
(Reis et al., 2024).
Acredita-se que a participação ativa e eficaz dos atores nas decisões relacionadas à
saúde, empodera a comunidade e gera um impacto positivo no capital social e na construção de
um sistema de saúde mais justo e equitativo (Silva; Oliveira, 2020). No entanto, ainda existem
muitos desafios na estrutura e na prática para a implementação bem sucedida. (Megan et al.,
2023)
Inovações tecnológicas como a implementação de teste rápido (TR) tem facilitado o
diagnóstico precoce e preciso de doenças infecciosas, possibilitando o tratamento imediato e a
quebra da cadeia de transmissão (Araújo; Souza, 2021).
Visitas domiciliares (VD), outro elemento ofertado pela ESF, possibilita o conhecimento
do indivíduo e família incentivando o auto cuidado que favorece o encorajamento na mudança
do estilo de vida e repercute em sua qualidade (Silva et al., 2023).
A experiência acumulada nessa ação e o envolvimento dos estudantes é um exemplo do
potencial transformador de ações inclusivas e integradas. As práticas bem sucedidas e o
aprendizado construído nesse processo contribuem para a discussão sobre como melhorarmos
a equidade em saúde para todos, com construção de comunidades mais saudáveis e acessíveis
e suas carências com um olhar atento as suas particularidades.
Na perspectiva de Barbosa e Queiroz (2022), a integração entre ensino e serviço não
apenas fortalece o conhecimento teórico, mas também fomenta o comprometimento dos
estudantes com as realidades sociais que os cercam. Através da participação em experiências
práticas, os alunos têm a oportunidade de aplicar seus conhecimentos em contextos reais,
promovendo um aprendizado crítico e reflexivo, como reforça as Diretrizes Curriculares
Nacionais (DNS). Ações que conectem a academia ao serviço ressaltam a relevância do
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 13
107
engajamento social e o impacto que as instituições de ensino podem ter na construção de uma
sociedade mais justa e solidária.
Teve como objetivo geral; Proporcionar acessibilidade e equidade aos serviços básicos
de saúde em uma microárea com grande vulnerabilidade visando resolutividade da assistência.
E Específicos: Levar serviços de saúde in loco em comunidade distante; Proporcionar ações
para controle de doença e melhoria dos indicadores de saúde; Incentivar e promover ações de
saúde integrando ensino serviço; Fortalecer o autocuidado e o usuário como coautor dos seus
processos.
2. MÉTODO
Trata-se de um relato de experiências a partir de ações de promoção e prevenção de
saúde, efetuadas pela equipe de saúde integrando alunos de graduação, em uma microárea de
muita vulnerabilidade e difícil acesso, da ESF Reginaldo do município de Maceió-Alagoas, no
período de março a novembro de 2024.
A microárea apresenta uma população predominantemente jovem, tendo as principais
condições ou situações de saúde: o uso de álcool, fumo, outras drogas, hipertensão, problema
de saúde mental, diabetes e hipertensão respectivamente. A raça/cor mais declarada foi a
parda. Alguns moradores ainda residem em casas construídas com materiais reaproveitados e
as precárias condições de vida e de saneamento básico são visíveis nesse território.
A ação foi elaborada baseada nas necessidades locais. Foram ofertados serviços básicos
de vacinação, teste rápido, visitas domiciliares, encaminhamentos de demandas como exames
e especialidades e procedimentos: aferição de pressão arterial, glicemia capilar e curativo. Além
de palestras sobre as infecções sexualmente transmissíveis, cuidados com diabetes e
hipertensão.
A execução aconteceu em uma casa ofertada por uma moradora como ponto de apoio,
onde a população já previamente informada se deslocava para o local. Outro recurso foi o
chamamento domiciliar no dia pela Agente Comunitária de Saúde. A prioridade para as visitas
domiciliares foram os acamados e domiciliados de conhecimento da equipe onde foram
ofertados assistência médica e de enfermagem.
O relato refere-se à ação de saúde em comunidade, sem necessidade de avaliação por
parte do Comitê de Ética em Pesquisa, conforme dispõe a Resolução nº 510/2016 do Conselho
Nacional de Saúde pois não foram utilizadas informações de participantes, além das dos
próprios autores. Para o relato foram utilizados os registros dos procedimentos e serviços
ofertados, e as descrições e reflexões dos envolvidos no processo, sem a utilização de
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 13
108
informações nem coleta de dados de participantes, sendo objetos de reflexão as próprias ações
dos envolvidos, que assim se posicionam como responsáveis pelas reflexões apresentadas,
como pontos de vista advindos da experiência particular. Desse modo, os autores declaram não
haver conflito de interesses por se tratar de oferta de serviços de saúde devidamente
estabelecidas pelo SUS. Por fim, há uma limitação deste relato no fato de não ter sido
desenvolvida nenhuma estratégia de avaliação sistemática da experiência a não ser a reflexão
pessoal dos autores.
3. RESULTADOS
As atividades de intervenção foram realizadas em três momentos distintos ao longo do
ano, com foco em ações de promoção à saúde e prevenção de agravos, nos mesmos serviços.
O primeiro momento, ocorrido no mês de março, vacinadas 14 pessoas com 20 doses
aplicadas de imunizantes para hepatite A, hepatite B, difteria e tétano (dT), DTP e HPV.
Aplicados 19 testes rápidos de sífilis, hepatite B, hepatite C e HIV em 8 homens e 11 mulheres,
nestas dois resultados reagentes para sífilis e dado o devido encaminhamento para
acompanhamento clínico. Dentre as 12 visitas domiciliares, 9 pessoas verificadas com pressão
arterial igual ou superior a 140 × 90 mmHg e 4 com glicemia capilar acima de 200 mg/dL.
Já o segundo momento no mês de maio, a vacinação em 48 pessoas totalizou 69 doses
dos imunizantes dengue, febre amarela, tríplice viral, difteria e tétano (dT), hepatite A, hepatite
B e influenza. 8 testes rápidos (1 homem e 7 mulheres) sem identificação de positividade. 15
visitas domiciliares com 2 casos de pressão arterial elevada (≥140 × 90 mmHg) e 1 de
hiperglicemia (glicemia >200 mg/dL).
Em dezembro no terceiro momento, 17 vacinados com 19 doses aplicadas dentre elas
dengue, difteria e tétano (dT), hepatite B, HPV e influenza. 5 testes rápidos (1 homem e 4
mulheres) todos não reagentes. 12 visitas domiciliares perpetuando os 2 casos de pressão
arterial elevada e 1 de hiperglicemia.
No geral, além das 79 pessoas vacinadas com 108 doses dos imunizantes, ocorreram
simultaneamente 15 avaliações da situação vacinal baseada na análise dos cartões
apresentados sem necessidade de vacinação. Quanto aos testes rápidos, 32 pessoas atendidas,
sendo 22 do sexo feminino com dois resultados reagente para sífilis, e 10 do sexo masculino.
Visitas domiciliares totalizaram 39 com 13 níveis pressóricos elevados e 8 glicémicos.
As visitas domiciliares impactaram na redução dos índices pressóricos de 78% e
glicêmicos de 50%, sugerindo positivo das orientações e acompanhamentos realizados. A
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 13
109
presença da equipe na comunidade a aumentou a busca pela vacinação de 17,7% do total
vacinados para 60,8% e 21,5% sucessivamente.
A vacinação é um dos pilares na promoção da saúde, e uma ferramenta eficazes na
prevenção de doenças. Em populações vulneráveis campanhas realizadas pela ESF são
essências para aumentar as coberturas vacinais. A integração de estudantes nesse processo não
só fortalece a equipe de saúde, como propicia uma formação prática valiosa. (Farias, 2025).
Os testes rápidos na APS tem facilitado o diagnóstico precoce das IST como sífilis e HIV,
por conseguinte o tratamento oportuno e a destruição da cadeia de transmissão. Em situações
de difícil acesso é possível a aplicação em ambientes convidativo associado a desconstrução da
estigmatização (Araújo; Souza, 2021).
A visita domiciliar é uma prática de cuidado da ESF essencial para identificar as
necessidades específicas e particulares de cada indivíduo. Nele é possível prestar uma
assistência voltada ao binômio sujeito e família, entendo o ser como único. Esse contato estreita
vínculos, facilita acesso, educação e empoderamento comunitário (Rocha et al., 2024).
Além das intervenções técnicas, os estudantes atuaram na aferição de pressão arterial,
testes de glicemia capilar e ativamente em todas as etapas, vivenciando diversas realidades.
Essa imersão prática favoreceu o desenvolvimento de habilidades clínicas e sensibilidade
social, fortalecendo a formação profissional a partir de uma abordagem integral e humanizada
do cuidado em saúde.
4. DISCUSSÃO
A realização das ações ao longo do ano permitiu não apenas a oferta de serviços
essenciais à comunidade, mas também a observação de impactos graduais nas condições de
saúde da população atendida. A redução progressiva dos casos de hipertensão arterial e
hiperglicemia verificada entre o primeiro e os demais momentos sugere que a presença
contínua da equipe de saúde e o reforço das orientações educativas podem ter contribuído
positivamente para o controle desses agravos.
A adesão expressiva da comunidade às ações de imunização, evidencia a importância de
estratégias de vacinação extramuros para ampliar a cobertura vacinal, especialmente em
populações de maior precariedade. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (2023), as
ações itinerantes de vacinação são fundamentais para atingir metas preconizadas pelos
programas nacionais de imunização, sobretudo frente ao aumento da hesitação vacinal nos
últimos anos.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 13
110
A testagem rápida para sífilis, hepatites B e C e HIV se mostrou um componente relevante
da intervenção. A detecção de dois casos reagentes para sífilis no primeiro momento demonstra
a importância da triagem em contextos comunitários, permitindo a identificação precoce e o
encaminhamento oportuno para tratamento. De acordo com a literatura, a ampliação da
testagem em campo, por meio da Atenção Primária à Saúde, é essencial para o enfrentamento
de infecções sexualmente transmissíveis (Petry; Padilha, 2021).
Outro aspecto relevante refere-se à realização das visitas domiciliares, que não apenas
possibilitaram a aferição de parâmetros clínicos, mas também a escuta qualificada e a
compreensão ampliada do contexto de vida das famílias. Como destaca Merhy (2020), o cuidado
em saúde territorializado permite uma abordagem mais integral, reforçando o vínculo entre a
equipe e a comunidade e proporcionando intervenções mais adequadas às necessidades reais
dos usuários.
A participação dos estudantes ao longo da experiência proporcionou uma formação
prática com base em situações reais de cuidado, contribuindo para o desenvolvimento de
competências clínicas e relacionais. A vivência direta com a população, em seus diversos
contextos, aproxima o discente da complexidade dos determinantes sociais da saúde, como
recomenda a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (Brasil, 2009). Nesse
sentido, a inserção dos futuros profissionais em cenários concretos amplia sua capacidade de
análise crítica, resolução de problemas e atuação ética e humanizada.
Ainda que os resultados obtidos tenham sido positivos, reconhece-se que a natureza
pontual das ações e a limitação de recursos são fatores que impactam a continuidade do
cuidado. Ressalta-se, portanto, a importância de estratégias intersetoriais e da articulação entre
ensino, serviço e comunidade para que experiências como esta tenham caráter contínuo e
sustentável.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência evidenciou a relevância em executar ações extramuros, pautadas em uma
atenção primária acessível e resolutiva, sensibilizada quanto a diversidade de fatores que
impedem ou dificultam acessos e geram impactos significativos nos processos de saúde.
Possibilitou não apenas o atendimento de demandas imediatas, mas também o fortalecimento
do vínculo entre equipe de saúde, estudantes e comunidade que repercutirão em melhoria dos
indicadores de saúde
Para os estudantes envolvidos, a vivência representou uma oportunidade enriquecedora
de formação prática, permitindo o desenvolvimento de competências técnicas, humanas e
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 13
111
éticas em consonância com os princípios do SUS, as diretrizes da Educação Permanente em
Saúde e das DCN. A imersão nesse contextos também favoreceu uma compreensão mais crítica
das desigualdades sociais e da complexidade do cuidado em saúde.
Por fim, ações como esta devem ser incentivadas e institucionalizadas como parte das
estratégias de articulação entre ensino, serviço e comunidade. A continuidade e o
fortalecimento dessas experiências são essenciais para a construção de práticas de saúde mais
acessíveis, resolutivas e humanizadas fortalecendo as políticas públicas de saúde.
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SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 13
112
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SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 13
114
Capítulo 14
FORMAÇÃO PROFISSIONAL NA ATENÇÃO PRIMÁRIA:
EXPERIÊNCIAS VIVIDAS NO MESTRADO
PROFSAÚDE/UFAL
Mara Gabriela Brasileiro de Lucena Ferreira
Divanise Suruagy Correia
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-14
1. INTRODUÇÃO
A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui-se como o cenário de orientação ao paciente,
sendo um espaço para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse cenário, a
formação profissional assume papel decisivo para qualificar o cuidado, fortalecer a
integralidade das ações e ampliar a resolutividade dos serviços ofertados. Estudos recentes têm
reforçado que a qualificação dos trabalhadores da APS exige abordagens que transcendam os
modelos tradicionais, priorizando metodologias ativas, práticas colaborativas e dispositivos de
educação permanente em saúde (EPS) como base estruturante do processo formativo
(Figueiredo et al., 2023; Ogata et al., 2021).
A formação profissional orientada para a realidade do SUS implica, portanto, repensar
os currículos, os dispositivos pedagógicos e as estratégias de desenvolvimento das
competências clínicas, éticas, políticas e interprofissionais. Nesse sentido, a EPS emerge como
política pública e ferramenta pedagógica essencial para o enfrentamento das complexidades
que atravessam o cotidiano da APS (Peduzzi; Silva, 2011). Soma-se a isso a necessidade de
promover uma formação que articule o saber técnico-científico à dimensão humana e territorial
do cuidado, considerando as necessidades reais das populações atendidas.
A formação tradicional, centrada na transmissão de conteúdos e em práticas
fragmentadas, tem se mostrado insuficiente para lidar com os desafios complexos e dinâmicos
da APS. Por isso, a transformação dos processos formativos vem ganhando força com a
incorporação da Educação Permanente em Saúde (EPS), que compreende a aprendizagem no
trabalho, com base na problematização das práticas, na reflexão crítica e no protagonismo dos
profissionais e coletivos de saúde (Medeiros et al., 2021).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 14
115
Ao mesmo tempo, cresce a valorização da educação interprofissional como caminho
para formar profissionais capazes de colaborar entre si, com foco no usuário, rompendo com
lógicas hierarquizadas e fragmentadas. Essa abordagem fortalece a articulação entre saberes,
promove a corresponsabilidade nas decisões clínicas e amplia a capacidade de resposta às
necessidades reais da população (Forte et al., 2024). Além disso, evidencia-se a importância do
vínculo entre a formação acadêmica e os cenários reais de prática, especialmente quando o
processo formativo está inserido em programas de pós-graduação profissional, como o
Mestrado em Saúde da Família (PROFSAÚDE).
Nesse contexto, a experiência apresentada neste capítulo foi construída a partir da
trajetória de uma profissional da saúde durante sua formação no PROFSAÚDE da Universidade
Federal de Alagoas (UFAL). O mestrado, ao adotar uma metodologia orientada por projetos de
intervenção nos serviços de saúde, proporcionou à discente o desenvolvimento de
competências críticas, investigativas e propositivas voltadas para a qualificação da APS. Por
meio de uma abordagem qualitativa e de base documental e reflexiva, buscou-se compreender
como o percurso no mestrado contribuiu para ressignificar saberes e práticas profissionais,
além de reforçar o compromisso com os princípios do SUS.
O presente relato tem como objetivo descrever a experiência de formação vivenciada no
Mestrado Profissional em Saúde da Família, destacando os principais aprendizados, desafios e
transformações percebidas na atuação profissional no âmbito da APS, a partir da articulação
entre teoria, prática e política pública.
A relevância deste relato reside em mostrar como programas de pós-graduação stricto
sensu voltados à realidade dos serviços podem potencializar transformações concretas na
atuação profissional e na organização do cuidado em saúde. Ao evidenciar o impacto da
formação interprofissional e da EPS na prática cotidiana da APS, espera-se contribuir para o
debate sobre a formação crítica, ética e transformadora de profissionais da saúde no Brasil.
2. MÉTODO
O presente capítulo é um relato de experiência baseado na trajetória formativa
vivenciada por uma das autoras durante sua formação no PROFSAÚDE da Faculdade de
Medicina (FAMED) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), entre os anos de 2020 e 2022.
A escolha dessa abordagem deve-se ao objetivo de compreender, em profundidade, os
significados atribuídos às práticas formativas e seus impactos sobre o exercício profissional na
Atenção Primária à Saúde (APS).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 14
116
A proposta de Trabalho Acadêmico de Conclusão do Mestrado (TACM), seguiu uma
metodologia inovadora, sendo estruturado como um Projeto de Intervenção, vinculado a uma
problemática real do território de atuação profissional da discente. Essa estratégia possibilitou
o alinhamento entre teoria e prática, ao propor soluções baseadas em evidências para desafios
concretos da gestão do cuidado na APS. Para a elaboração deste relato, foram utilizados dois
conjuntos principais de dados: 1) registros reflexivos construídos durante o processo formativo
(diários de campo, portfólios, relatórios do projeto de intervenção); e, 2) análise documental
do trabalho final de conclusão de curso. Esses documentos permitiram resgatar os principais
marcos metodológicos e pedagógicos vivenciados, além de subsidiar a identificação dos
resultados e aprendizados obtidos.
As metodologias adotadas durante o processo de formação no curso incluem o uso de
rodas de conversa, aulas dialogadas, oficinas interativas, trabalho em grupo
interdisciplinar e aprendizagem baseada em problemas (ABP), além do acompanhamento
constante dos docentes com orientação direta dos trabalhos. Tais estratégias contribuíram para
a formação crítica, ética e colaborativa, ao mesmo tempo em que valorizaram os saberes locais
e as práticas dos serviços de saúde. As ações foram desenvolvidas em articulação com os
princípios da Educação Permanente em Saúde (EPS), conforme preconiza a Política Nacional de
EPS (Brasil, 2007), e inspiradas em pressupostos da pedagogia freireana, priorizando o
protagonismo dos sujeitos.
Adicionalmente, o processo metodológico valorizou o uso de tecnologias educacionais,
como ambientes virtuais de aprendizagem e fóruns interativos, possibilitando a construção
coletiva do conhecimento, mesmo em tempos de restrição presencial durante a pandemia de
COVID-19. Essa dimensão tecnológica contribuiu para o desenvolvimento de competências
digitais, bem como para a continuidade dos vínculos formativos.
Em síntese, a metodologia empregada fundamenta-se na integração entre o trabalho, o
ensino e a pesquisa, reconhecendo os trabalhadores como sujeitos ativos do processo formativo
e os territórios como espaços privilegiados de aprendizagem transformadora.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
FORMAÇÃO PROFISSIONAL: TRANSFORMAÇÃO DA PRÁTICA NA
ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
A experiência vivenciada durante o Mestrado Profissional em Saúde da Família revelou
que a formação orientada por projetos de intervenção e baseada em metodologias ativas pode
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 14
117
representar um importante ponto de inflexão na trajetória de profissionais que atuam na
Atenção Primária à Saúde (APS). A proposta pedagógica do PROFSAÚDE, ao articular teoria,
prática e contexto territorial, favoreceu uma profunda ressignificação do papel do trabalhador
da saúde, resultando em mudanças concretas no modo de atuar e pensar o cuidado em saúde.
Um dos principais resultados observados foi o fortalecimento das competências
interprofissionais, essenciais para a efetivação do trabalho em equipe na APS. Ao longo do
processo formativo, a aluna passou a desenvolver habilidades como escuta ativa, planejamento
coletivo de ações, compartilhamento de saberes e corresponsabilidade nas decisões clínicas.
Isso está em consonância com estudos que apontam a educação interprofissional como
estratégica para superar a fragmentação das práticas de cuidado e fortalecer a
integralidade no SUS (Peduzzi; Orchard, 2015; Ogata et al., 2021).
Além disso, o projeto de intervenção desenvolvido pela discente teve como foco a
reorganização do processo de trabalho da equipe de saúde no território, por meio da criação de
espaços sistemáticos de educação permanente e revisão crítica dos fluxos de atendimento. A
implementação de encontros mensais com os profissionais da unidade possibilitou o
reconhecimento coletivo de fragilidades no cuidado e a elaboração de estratégias colaborativas
para qualificação das ações, especialmente nas áreas de saúde mental e doenças crônicas. Essa
experiência dialoga com a literatura que valoriza a educação permanente como prática
transformadora inserida nos cotidianos do trabalho e capaz de produzir mudanças
estruturantes nos serviços (Figueiredo et al., 2023; Brasil, 2007).
Outro aspecto relevante foi a mudança percebida na postura da discente diante dos
desafios do serviço. Ao adotar uma perspectiva crítica e reflexiva, ela passou a exercer maior
protagonismo na construção das ações de saúde, contribuindo para a elaboração de projetos
terapêuticos singulares, planejamento territorial e articulação com outros pontos da rede de
atenção. A formação, nesse sentido, funcionou como um dispositivo de fortalecimento da
autonomia profissional e do compromisso ético-político com os princípios do SUS (Freire
Filho et al., 2019).
Por fim, destaca-se a valorização da produção de conhecimento a partir da prática. O
processo de elaboração da dissertação e o uso de ferramentas de pesquisa contribuíram para
estimular a cultura da investigação no serviço e a apropriação de evidências científicas para
embasar decisões clínicas e organizacionais. Isso reforça a importância de formar profissionais
que produzam ciência a partir dos problemas reais do território, como preconiza a
abordagem dos mestrados profissionais (Forte et al., 2024).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 14
118
Portanto, os resultados apresentados demonstram que o percurso formativo no
PROFSAÚDE não apenas promoveu uma qualificação técnica da profissional, mas também
gerou impactos concretos na organização do cuidado, nas relações interprofissionais e na
cultura institucional do serviço, reafirmando o papel da APS como espaço estratégico para o
fortalecimento do SUS.
Figura 1 – Premiação UFAL de Dissertação e Tese no âmbito da pós-graduação em 2022 e 2023
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Nota de Reconhecimento
A dissertação que originou este capítulo foi reconhecida com o 2º Prêmio UFAL de
Dissertação e Tese, concedido pela Pró-Reitoria de Pós-graduação da Universidade Federal de
Alagoas (UFAL), na categoria Mestrado Profissional. Essa premiação representa o
reconhecimento institucional da relevância científica, ética e social do trabalho desenvolvido
no âmbito do PROFSAÚDE, reforçando a importância de pesquisas alinhadas às necessidades
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 14
119
do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Atenção Primária. O prêmio simboliza não apenas uma
conquista pessoal e acadêmica, mas também a valorização da prática profissional
comprometida com o cuidado qualificado e a transformação dos territórios.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência vivenciada no Mestrado Profissional em Saúde da Família
(PROFSAÚDE/UFAL) demonstrou o potencial transformador de uma formação orientada pelas
necessidades reais do SUS, ancorada em metodologias ativas e no compromisso ético-político
com a Atenção Primária à Saúde (APS). Ao longo do processo formativo, foi possível perceber o
fortalecimento de competências interprofissionais, a ampliação da autonomia técnica e crítica
da profissional, e a consolidação de estratégias inovadoras para reorganizar o processo de
trabalho em saúde.
A construção do projeto de intervenção representou não apenas um exercício
acadêmico, mas uma ação concreta de enfrentamento dos desafios vividos no território, com
impacto direto sobre o serviço e a população atendida. A sistematização dessa trajetória
permitiu refletir sobre os caminhos possíveis para articular teoria e prática, produzir
conhecimento a partir da experiência e impulsionar mudanças nos modos de cuidar, educar e
gerir em saúde.
Os resultados obtidos confirmam a relevância dos mestrados profissionais como
espaços formativos comprometidos com a transformação das práticas e com o fortalecimento
da APS como base estruturante do sistema de saúde. Ao mesmo tempo, as recomendações
propostas sinalizam para a importância de uma constante qualificação da proposta pedagógica,
da valorização da interprofissionalidade, do vínculo com os serviços e da cultura da educação
permanente.
Conclui-se que o percurso formativo no PROFSAÚDE ampliou significativamente a
capacidade de intervenção crítica da profissional sobre sua realidade de trabalho, reafirmando
o papel do mestrado como estratégia potente para o aprimoramento do cuidado, da gestão e da
formação em saúde no Brasil. Trata-se de uma experiência que reafirma a indissociabilidade
entre educação, serviço e comunidade, pilares fundamentais para a consolidação de um SUS
público, universal e de qualidade.
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SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 14
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SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 14
121
Capítulo 15
INCLUSÃO DE AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE
NA REALIZAÇÃO DE AÇÕES DE ENSINO NOS
SERVIÇOS DE UMA UNIDADE DOCENTE
ASSISTENCIAL
Samuel Correia da Silva Morais
Cristina Camelo de Azevedo
Maria das Graças Monte Mello Taveira
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-15
1. INTRODUÇÃO
Os mestrados profissionalizantes apresentam como proposta a realização de um
produto que deve dar resposta aos resultados das pesquisas realizadas como Trabalho de
Conclusão do Mestrado (TCM). Neste capítulo apresentamos o relato de experiência que
resultou da oficina da pesquisa (TCM) intitulada: Participação de agentes comunitários de
saúde na graduação em Medicina, realizada na Unidade Docente Assistencial (UDA) da
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
A Oficina de sensibilização ocorreu com gestores do ensino e do serviço, com os Agentes
Comunitário de Saúde (ACS) com a finalidade de discutir sobre as ações de ensino que envolvem
os ACS e apresentar os resultados da pesquisa acima citada. O evento foi baseado no vácuo da
integração entre ensino e serviço visualizado através da pesquisa desenvolvida na referida
UDA, em 2022.
Foi evidenciado, durante a pesquisa, a ausência dos ACS em momentos que antecedem a
ida dos estudantes de medicina à UDA/UFAL e à comunidade, sob a responsabilidade dessa
Unidade, que possam servir como um planejamento ou uma preparação, por parte do curso,
sobre o que é necessário ser observado e oferecido pelos ACS aos estudantes, a exemplo de
cenários e situações de aprendizagem, dentre outras questões.
Sendo assim, a oficina teve um duplo objetivo:
(1) Apresentar o resultado da pesquisa intitulada já desenvolvida na UDA em 2022; e,
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 15
122
(2) Sensibilizar sobre a importância da inclusão dos ACS que recebem estudantes de
medicina, em momentos em que planejem e discutam, junto com representantes do ensino, as
necessidades da formação e as possibilidades da Unidade em atendê-las.
Para Falkenberg et al. (2014), o traço original da educação do séc. XXI é a inserção e
posicionamento do indivíduo nos contextos social, político e ético-ideológico, pois a educação
não é neutra; é engajada e não há idade para se educar. Para a formação em saúde, os espaços
dos serviços de saúde são fundamentais para o desenvolvimento das capacidades profissionais
do estudante aprendiz e do profissional estudante, posto que estes últimos também necessitem
se atualizar, permanentemente.
No transcorrer dos estudos decorrentes da pesquisa empreendida, verificou-se a
proximidade dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) com a população que assistem,
percebendo a realidade vivida, suas dificuldades e necessidades de saúde, tornando-se, assim,
um importante elo entre a comunidade e a unidade de saúde.
Porém, foi identificada uma lacuna quando esses profissionais são convocados pela
universidade para participar das ações que envolvem o estudante aprendiz. É possível
preencher essa lacuna e incluir os ACS como parceiros do ensino na saúde? É possível definir
junto com o ensino, o que é esperado dos ACS quando eles estão junto com os estudantes do
curso de medicina em ações na comunidade?
Mesmo que ainda não esteja claro o papel do ACS nas práticas de ensino da UDA/UFAL,
a literatura brasileira já reconhece, há algum tempo, que os profissionais de saúde que
acompanham o estudante nos cenários de prática ajudam a construir o conhecimento e ações
de saúde e é necessário que esses profissionais estejam preparados para executar atividades
educacionais (Siqueira et al., 2022). Também precisam, ainda, “serem reconhecidos no
processo de formação profissional como preceptores do SUS no território.
A realização dessa oficina de sensibilização, em que se discutiu sobre a inclusão dos ACS
na construção, esclarecimento e proposições de ações para o desenvolvimento do ensino nos
serviços da UDA, pode contribuir para a melhoria da integração Ensino, Serviço e Comunidade.
A definição de realizar uma oficina de sensibilização como produto de intervenção desta
pesquisa foi fruto da reflexão sobre como colaborar para a melhoria das rotinas de trabalho dos
ACS e para inclusão destes na construção das ações para integração ensino e serviço no curso
de Medicina.
Considerando que a efetivação da oficina seria autossustentável, tendo em vista que os
atores envolvidos conhecem a dinâmica do serviço e teriam melhor condição de traçar
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 15
123
estratégias mais eficazes e adequadas à realidade vivida, planejando conjuntamente suas
rotinas e fazeres.
2. MÉTODO
A oficina foi realizada na UDA/UFAL de forma presencial, no dia 17/03/2023, às 10h30.
A data e horário foram previamente definidas com os gestores da unidade. Foram convidados
a participar desta todos os ACS, o coordenador acadêmico e a coordenadora de gestão de
pessoas da Unidade.
O convite aos 12 ACS e à direção da unidade foi articulado, intermediado e transmitido
pelo diretor acadêmico da UDA e um colaborador da pesquisa, funcionário da Unidade. Além
disso, nos dias anteriores foi enviada uma mensagem eletrônica via aplicativo WhatsApp, para
todos os convidados, conforme réplica do texto a seguir.
A oficina foi composta de dois momentos: no primeiro, ocorreu a apresentação da
pesquisa realizada, seus resultados e considerações finais, assim como a ideia do produto de
intervenção; no segundo momento, por sua vez, foram realizadas perguntas, observações e
sugestões sobre o tema central da pesquisa e problema-destaque. As técnicas utilizadas foram:
a exposição dialogada (1º momento) e a roda de conversa para a produção das informações (2º
momento). A oficina teve a duração de 1h30.
A condução e facilitação da oficina foram realizadas pelo pesquisador principal do
estudo e um colaborador. A conversa foi registrada através de gravação autorizada
previamente pelos participantes e, posteriormente, foi efetuada a transcrição literal e integral
para compor a estruturação dos resultados da oficina.
Foi estimulada a conversa entre os participantes sobre as possibilidades e modos de
inclusão dos ACS na construção das ações de Ensino e Serviço, explorando alternativas para
melhorias no contexto do trabalho e do ensino, apresentando a realidade vivida e refletindo
sobre necessidades da comunidade, com enfoque na prestação de um serviço humanizado e de
qualidade.
As conversas decorreram da apresentação da pesquisa e das perguntas-base que foram
feitas aos participantes.
As perguntas-base foram:
1. O que acharam da pesquisa e seus resultados?
2. É possível haver encontros sistemáticos para esclarecer, construir e avaliar junto com
os ACS, as atividades que envolvem a participação de estudantes na comunidade?
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 15
124
3. RESULTADOS
Do total de 12 Agentes Comunitários de Saúde (ACS), compareceram apenas 04. A
ausência dos demais foi justificada pela adesão à greve dessa categoria profissional, fato que
interferiu na frequência à oficina. Ainda cogitou-se remarcar o evento e aguardar a finalização
da greve, porém, essa possibilidade foi avaliada como prejudicial para o alcance dos prazos para
conclusão do mestrado. Além dos ACS, estiveram presentes um profissional colaborador e
também mestrando do MPES e os representantes da gestão acadêmica e administrativa da UDA
e técnicos do Núcleo de Saúde Pública (NUSP) da FAMED/UFAL.
Após a apresentação dos resultados da pesquisa e do produto de intervenção, foi iniciada
a roda de conversa, por meio de uma pergunta disparadora. À medida que a conversa foi
acontecendo, outras perguntas foram realizadas.
4. RELATO DE EXPERIÊNCIA
Deve-se destacar que a presença da gestão acadêmica e administrativa garantiu o
enriquecimento da proposta e permitiu que todos participassem do diálogo de forma
colaborativa e democrática.
Observou-se que a pesquisa trouxe algumas soluções para os problemas apresentados
pelos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), mesmo antes do desenvolvimento dessa oficina,
como demonstrado em uma das falas a seguir:
Desde aquele dia do início da roda de conversa, a gente sentiu a necessidade de
realmente ter uma escala e começamos a cobrar deles, os diretores, e foi feito. A questão
dos alunos também, a quantidade já diminuiu (P1).
[...] alguns percalços foram corrigidos, principalmente essa questão que a gente não era
avisada e ter um aviso prévio, também a quantidade de alunos diminuiu bastante (P4).
Dentre as falas registradas, destacou-se a disponibilidade da nova gestão administrativa
em construir, de forma coletiva, um novo processo de trabalho em parceria com a gestão
acadêmica e os ACS, fato que ainda não foi efetivado pela adesão da categoria à greve municipal.
[...] nós teríamos um momento de construção para este processo de trabalho, de
construção junto com eles que iriam apresentar essas demandas e as necessidades [...]
[...] para essa construção, sendo que aí, nesse dia, os agentes resolveram aderir à greve
e essa ideia de construir juntos, acabou adiando [...] (P3).
O fato de a gestão acadêmica ter planejado e produzido um cronograma expondo datas,
objetivos do acompanhamento, alunos, professor responsável, além de distribuir esse
cronograma de forma antecipada, da direção administrativa facilitar a distribuição dos alunos
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 15
125
por ACS, ocasionou uma melhoria do processo de trabalho e o acompanhamento dos alunos
como ficou explicitado nas falas que seguem:
[...] está dando muito certo apesar da adesão de greve deles, e está fluindo muito bem
esse mês, mas foi trazida a data do semestre inteiro e aí nesse cronograma a gente diz:
quais as disciplinas, qual o professor responsável, qual o objetivo, quantos alunos, ele é
bem detalhado e a gente conseguiu nesse mês, já definiu quantos alunos seriam e
distribuímos no WhatsApp individual de cada um, os detalhes das visitas (P3).
Agora tem um planejamento [...] então foi melhorado esse processo (P4).
Um dos pontos que foi solucionado após a pesquisa, somado à nova forma de
gerenciamento, foi a preocupação com a marcação do ponto às 11h, que atrapalhava a
continuidade da assistência à comunidade e do acompanhamento dos alunos.
Isso era questão de gestão, tinha comunidade que a gente não tinha esse problema,
porque eles eram muito rigorosos em relação ao ponto, na verdade nós éramos
escravos do ponto (P7).
[...] é estranho eu ter um agente de saúde que bate o ponto todos os dias as 11h. [...] O
normal do agente de saúde que atua é de fato ter várias justificativas no ponto porque
estava área trabalhando, existe justificativa para isso [...] (P3).
Tendo em vista que alguns dos problemas apresentados foram resolvidos de forma
imediata, os gestores demonstraram interesse em manter a viabilidade da construção coletiva
do planejamento com a participação efetivas do ACS.
[...] no momento assim olhe, todo dia temos 04 Agentes de saúde, e quem não aderiu a
greve, o que acaba sobrecarregando muito esses dias, então a gente está tendo menos
contato e estamos tentando conversar com alguns; aí este mês a gente fez, vamos ver o
próximo mês, se a greve vai continuar, se as demandas forem atendidas a gente vai se
ajustando, enquanto estiverem de greve vai ser uma questão de ajuste mesmo, mas o
planejamento é uma ideia que seja uma construção coletiva, agora ter uma vez por
semestre, o semestre já com as datas todas planejadas (P3).
No decorrer da oficina, a gestora administrativa apontou a importância da pesquisa para
a construção coletiva, organizando antecipadamente os problemas apresentados para buscar
soluções no processo de trabalho na UDA. Em outro momento, foi relatada a importância da
pesquisa desenvolvida sobre os ACS, dando visibilidade à categoria profissional, além de trazer
possibilidades de construção de ações que irão gerar melhorias para o desenvolvimento do
trabalho.
Por fim, a gestão acadêmica se colocou à disposição para participar da construção
coletiva do planejamento, com vistas a facilitar o recebimento dos alunos e, consequentemente,
a assistência à comunidade e, caso aconteça alguma sobrecarga ou interrupção dos fluxos
operacionais, a possibilidade de retomar as conversas para que o trabalho na UDA flua da
melhor forma.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
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5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A oficina como produto de intervenção se mostrou relevante ao trazer o resultado da
pesquisa realizada para unidade, criando um espaço de discussão democrática, aproximando
ainda mais a gestão aos trabalhadores e, conjuntamente, apresentando as dificuldades vividas
e as possíveis soluções, cumprindo assim com os objetivos apresentados. Ademais, além da
sensibilização, foi garantida a participação dos ACS na construção coletiva das ações que
requerem seu trabalho.
O estudo mostrou sua importância para conscientização de que é necessário efetuar
pactos coletivos entre ensino e serviço, para que o processo de trabalho seja mais eficaz e com
condições de responder às diversas demandas acadêmicas, administrativas e da comunidade,
reforçando a importância do trabalho desenvolvido pelos ACS junto aos alunos de medicina e à
comunidade que assiste, garantindo, ainda, a melhoria contínua da integração entre o Ensino,
Serviço e Comunidade.
REFERÊNCIAS
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estratégia metodológica. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 71, n. 6, p. 3121-3126, 2018.
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preceptoria. Research, Society and Development, [S. l.], v. 11, n. 13, p. e559111335840,
2022. DOI: 10.33448/rsd-v11i13.35840. Disponível em:
https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/35840. Acesso em: 21 fev. 2023.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 15
127
Capítulo 16
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E EDUCAÇÃO EM SAÚDE
NA APS: A EXPERIÊNCIA DE UM RECURSO
AUDIOVISUAL EM UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE
Eliane Vieira dos Santos
Igor Fernando de Melo Cavalcante
Pedro Afonso de Vasconcelos Brandão
Thallysson Hebert da Silva
Roberta de Albuquerque Wanderley
Celso Marcos da Silva
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-16
1. INTRODUÇÃO
O Sistema Único de Saúde (SUS), fundamentado nos princípios da universalidade,
equidade e integralidade, busca garantir acesso igualitário e cuidado contínuo a toda a
população brasileira. Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde (APS) é a porta preferencial
para o primeiro contato do cidadão com o sistema, sendo responsável pelo cuidado longitudinal,
pela coordenação da rede e pela resolutividade da maioria dos problemas de saúde (Oliveira et
al., 2013). Para cumprir essa missão, é essencial que os serviços de saúde estejam preparados
para acolher de forma humanizada e eficaz um público cada vez mais diversificado (culturas,
identidades, condições sociais e necessidades específicas).
O acolhimento segue sendo um desafio na APS, envolve escuta, orientação,
reconhecimento da singularidade de cada pessoa para assim facilitar o percurso do usuário
dentro da unidade. Um dos desafios citados como recorrentes nas Unidades Básicas de Saúde
(UBS) está relacionado à organização do acesso, especialmente no que diz respeito à
necessidade de agendamento prévio de consultas e no perfil da demanda espontânea, o que
muitas vezes gera dúvidas e frustrações nos usuários (Gonçalves et al., 2017). Por isso,
estratégias de comunicação mais claras, empáticas e acessíveis tornam-se fundamentais para
qualificar o atendimento e fortalecer o vínculo com a comunidade.
Este capítulo apresenta uma experiência desenvolvida na Unidade Básica de Saúde
(UBS) João Paulo II, no município de Arapiraca (AL), onde foi produzido um material
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 16
128
audiovisual animado sobre o funcionamento da unidade, utilizando tecnologias de inteligência
artificial (IA). A proposta teve como objetivo criar uma ferramenta lúdica e inclusiva para
orientar os usuários quanto ao fluxo de atendimento, reforçando o acolhimento e facilitando o
acesso aos serviços ofertados.
2. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, APS E EDUCAÇÃO EM SAÚDE
O uso da inteligência artificial (IA) na saúde tem crescido rapidamente, transformando
tanto a prática clínica quanto a formação dos profissionais e a forma como se constrói a relação
entre médico e paciente. Como observa Rodrigues (2015), a medicina atual está passando por
uma transição importante: deixa-se de lado a análise isolada de dados clínicos para adotar
abordagens que utilizam grandes volumes de informações (big data), algoritmos preditivos e
sistemas inteligentes de apoio à decisão. Esse novo cenário impõe à educação médica o desafio
de formar profissionais capazes de lidar com tecnologias avançadas, mas também de manter a
escuta sensível, a comunicação efetiva, o trabalho em equipe e a gestão responsável dos riscos
envolvidos no cuidado.
A qualidade do ensino médico no Brasil é uma das grandes discussões do ensino superior
atualmente. De modo que, está em discussão no Conselho Nacional de Educação (CNE) a
atualização do perfil e das competências necessárias para a formação dos médicos no País. A
última atualização das chamadas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) de Medicina havia sido
em 2014. Sobre tecnologia, ela mencionava apenas que o conteúdo dos cursos deveria incluir
“compreensão e domínio das novas tecnologias da comunicação para acesso a base remota de
dados” (Brasil, 2014). No entanto, atualmente está em debate pelo Conselho Nacional de
Educação (CNE) que as novas diretrizes curriculares para os cursos de Medicina ampliem o
estudo e domínio de novas tecnologias na formação médica para cerca de 10% da carga horária
(Brasil, 2023).
Na APS, experiências internacionais demonstram o potencial da IA como apoio ao
rastreamento e à triagem de agravos. Um estudo conduzido na Índia com 1.378 pacientes, por
exemplo, mostrou que o uso de um software de IA em retinógrafos portáteis operados por
profissionais não médicos atingiu sensibilidade de 100% na detecção de retinopatia diabética
com necessidade de encaminhamento, otimizando o cuidado na linha de base (Schneider et al.,
023).
No Brasil, a adoção de IA na saúde pública ainda é incipiente, mas experiências
relevantes já estão em curso. Destacam-se algoritmos integrados ao Prontuário Eletrônico do
Cidadão (PEC-SUS) para estratificação de risco, vigilância epidemiológica e apoio à tomada de
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 16
129
decisão clínica (Pessoa et al., 2020). Além disso, tecnologias de linguagem natural e
personalização de conteúdo têm sido exploradas para a criação de materiais educativos
acessíveis, o que é crucial em contextos de baixa escolaridade e diversidade sociocultural,
tornando-se aliados para as Equipes de Saúde da Família (eSF) na promoção de saúde à
população adscrita (Topol, 2019; Marcelo et al., 2021).
3. MÉTODO DA EXPERIÊNCIA
A APS, especialmente por meio da Estratégia Saúde da Família (ESF), enfrenta inúmeros
desafios no cotidiano ao lidar com a população adscrita. Inserida em contextos territoriais
marcados por vulnerabilidades sociais, econômicas e políticas, muitas vezes a APS vê suas
potencialidades comprometidas por limitações estruturais, ausência de recursos, alta
rotatividade de profissionais e dificuldades na articulação intersetorial. Essas condições tornam
complexa a construção de vínculos com a comunidade e a efetivação de ações integrais e
resolutivas (Arantes; Shimizu; Merchán-Hamann, 2016). Diante disso e diante da observação
da realidade da UBS João Paulo II, surgiu a necessidade da criação de um produto audiovisual
para auxiliar o processo de trabalho da unidade.
O trabalho teve caráter descritivo e exploratório, com base em levantamento
bibliográfico, observação direta da rotina da UBS João Paulo II e análise de documentos
institucionais. A unidade, conforme a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), oferece
atendimentos médicos, de enfermagem, odontológicos, pré-natal, vacinação, testes rápidos,
curativos e dentre outros, funcionando por agendamento e demanda espontânea, com
classificação de risco como critério de priorização.
Como intervenção educativa, foi produzido um vídeo explicativo sobre o funcionamento
da UBS, abordando os serviços disponíveis, formas de acesso, o papel da classificação de risco e
os fluxos de encaminhamento para níveis secundários e terciários (UPAs e hospitais). O vídeo foi
elaborado com o uso de tecnologias de inteligência artificial (para síntese de voz, geração de
legendas e revisão linguística), além de softwares de edição e animação com uso de IA no
modelo Disney e Pixar. Vale destacar que todos os recursos de IA foram usados em suas versões
gratuitas.
Diversos estudos e campanhas mostram como o uso de animações no formato Disney e
Pixar pode ser uma estratégia poderosa no marketing. Personagens carismáticos e estilos visuais
marcantes, que já fazem parte do imaginário coletivo, ajudam a capturar a atenção do público
de forma rápida e eficaz. Essa familiaridade com os personagens transmite uma sensação de
confiança e acolhimento, tornando a comunicação mais envolvente (Dias et al., 1998). O
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 16
130
resultado é um engajamento maior e uma conexão emocional mais forte com a mensagem
transmitida, propriedades exploradas para maior entendimento e envolvimento do público alvo.
O produto final está em exibição na televisão da recepção da UBS, redes sociais institucionais e
reuniões administrativas, para maior compreensão da equipe e adesão ao instrumento de
trabalho.
4. RESULTADOS
Espera-se que o vídeo contribua para que os usuários compreendam melhor os serviços
oferecidos pela UBS, diferenciando com mais clareza as situações que exigem agendamento
prévio daquelas que podem ser atendidas por demanda espontânea. A proposta de utilizar uma
animação com estética inspirada em produções como as da Disney e Pixar visa tornar a
comunicação mais atrativa e envolvente, especialmente para públicos de diferentes faixas
etárias, favorecendo o entendimento da lógica do acolhimento e da classificação de risco. Com
isso, acredita-se que haja redução de conflitos relacionados ao tempo de espera e maior
confiança no processo de atendimento. Do ponto de vista dos profissionais de saúde, a iniciativa
pode facilitar o acolhimento, reduzir questionamentos recorrentes e tornar os fluxos de trabalho
mais leves e organizados, promovendo um ambiente mais harmonioso para todos os envolvidos.
Além dos benefícios operacionais, a estratégia tem como objetivo proporcionar um
maior fortalecimento da comunicação entre a equipe de saúde e a população adscrita,
aproximando os usuários dos princípios do SUS e promovendo o uso mais adequado e
consciente dos recursos disponíveis. Observações iniciais da equipe da UBS e relatos
espontâneos de usuários têm sugerido uma recepção positiva ao vídeo, com menções à maior
clareza quanto ao funcionamento da unidade e elogios ao formato acessível da comunicação.
Esses sinais reforçam o potencial da intervenção com o uso de IAs para contribuir com a
humanização do cuidado e o fortalecimento da APS como ordenadora da rede de atenção.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 16
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Imagem 1 – Trechos do material audiovisual desenvolvido
Fonte: Autores, 2025.
Imagem 2 – População adscrita da UBS João Paulo II assistindo ao vídeo
Fonte: Autores, 2025.
Imagem 3 – Equipes da ESF e funcionários da UBS João Paulo II assistindo ao vídeo
Fonte: Autores, 2025.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 16
132
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência apresentada evidencia como a IA, integrada a estratégias de comunicação
visual, pode ser aplicada de forma criativa e efetiva na APS. Em vez de soluções sofisticadas e
onerosas, trata-se de aproveitar tecnologias acessíveis para resolver um problema recorrente:
a desinformação dos usuários sobre o funcionamento dos serviços de saúde. O uso de vídeos
animados com apoio de IA para produção de conteúdo é um caminho viável, replicável e
alinhado aos princípios do SUS.
Os primeiros retornos da comunidade local indicam que essa estratégia tem sido bem
recebida e compreendida pelo público-alvo, o que reforça sua aplicabilidade em outras
unidades. Recomenda-se que outras UBSs explorem recursos semelhantes, adaptando os
conteúdos à sua realidade local e ampliando o alcance por meio de mídias comunitárias e
digitais. Para que a IA cumpra seu potencial transformador, é necessário incorporá-la de forma
ética, contextualizada e centrada nas pessoas, como ferramenta a serviço do cuidado, da
equidade e da cidadania em saúde.
REFERÊNCIAS
ARANTES, L. J.; SHIMIZU, H. E.; MERCHÁN-HAMANN, E. Contribuições e desafios da Estratégia
Saúde da Família na Atenção Primária à Saúde no Brasil: revisão da literatura. Ciência &
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Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Medicina. 2023. Disponível em:
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Objetivos, Metas e Indicadores: 2020-2023. Brasília: Ministério da Saúde, 2020. Disponível
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DIAS, J. M. P. et al. A importância dos insetos vetores na transmissão das tripanossomíases
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SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 16
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GIROTO, C. R. M.; LIMA, M. C. S. A atenção básica e a integração entre os níveis de atenção à
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TOPOL, E. Deep medicine: how artificial intelligence can make healthcare human again.
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SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 16
134
Capítulo 17
INTEGRAÇÃO EM AÇÃO: RESPOSTA ARTICULADA DA
VIGILÂNCIA EM SAÚDE E DA APS EM UM CASO DE
MENINGITE
Litieska Barros da Silva Santos
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-17
1. INTRODUÇÃO
A Atenção Primária à Saúde (APS) é a porta de entrada preferencial nos serviços de
saúde e desempenha um papel crucial no desenvolvimento de ações e planejamento de
Vigilância em Saúde (VS), envolvendo a população em todo processo. A APS é ordenadora do
cuidado e responsável pela integralidade da assistência, promovendo a formação de redes de
atenção à saúde (Brasil, 2018).
A construção dessa integralidade do cuidado depende da integração entre a Vigilância
em Saúde e a Atenção Primária à Saúde precisa considerar alguns fatores como o território em
que ocorre o processo de saúde-doença, as especificidades de cada local, a reestruturação do
processo de trabalho da equipe, o planejamento de ações individuais e coletivas e a educação
permanente (Brasil, 2018).
Segundo a Política Nacional da Atenção Básica (PNAB) (Brasil, 2017), a integração entre
atenção primária e a vigilância em saúde é muito necessária para que resultados efetivos sejam
alcançados, com a melhoria da qualidade de vida da população, garantindo a integralidade da
saúde e considerando seus determinantes e condicionantes.
A vigilância em saúde possui algumas características, como intervenção nos problemas
de saúde; ênfase naqueles que exigem mais atenção e acompanhamento, articulação entre
promoção, prevenção e reabilitação; ações no território; atuação intersetorial; e
operacionalização do conceito de risco (Teixeira, 2002), sendo de sua responsabilidade a
vigilância dos fatores de risco e a análise de situação de saúde de toda a população (Brasil,
2017).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 17
135
A descentralização da vigilância e sua implementação na assistência à saúde podem
fortalecer a Estratégia Saúde da Família (ESF), contribuindo para a mudança das práticas e
realização de ações intersetoriais no território adscrito à unidade de saúde, através da
formulação e incorporação de políticas públicas direcionadas à melhoria da qualidade de vida
da população (Teixeira, 2006).
No entanto, um dos desafios do Sistema Único de Saúde (SUS) é justamente a integração
entre a vigilância em saúde e a atenção primária à saúde. Apesar de estratégias e esforços
institucionais, pouco evoluiu nesse sentido. Como resultado dessa falta de integração há a
dificuldade em se identificar os determinantes do processo saúde-doença e atuar
efetivamente na resolução dos problemas de saúde da população (Brasil, 2018).
Historicamente, observa-se uma fragmentação entre os serviços de saúde e os setores de
vigilância, resultado de modelos centrados na biomedicina e na compartimentalização das
ações de saúde (Mendes, 2010).
A construção de um modelo de vigilância em saúde baseado na prevenção e promoção
da saúde, na participação social, articulação das redes de saúde, no levantamento de problemas,
produção e disseminação de informações para os profissionais e usuários requer integração
com a atenção primária (Faria; Bertollozi, 2010).
Há muita mudança ainda a ser realizada no que se trata da atuação da vigilância em
saúde na atenção primária, principalmente no que refere às práticas das equipes de saúde
voltadas às necessidades da população, ao controle dos determinantes da saúde e à prevenção
de riscos e danos (Teixeira, 2006).
É essencial a integração entre APS e VS para que o SUS possa se concretizar de forma
realmente eficaz no enfrentamento de eventos agudos e situações de risco à coletividade. A falta
dessa integração compromete a capacidade do SUS em oferecer respostas rápidas e
coordenadas, principalmente diante de agravos de alta gravidade e elevada transmissibilidade,
como é o caso da doença meningocócica. Esta, causada pela bactéria Neisseria meningitidis, é
uma doença de notificação compulsória imediata, considerada uma emergência em saúde
pública devido à sua elevada letalidade, disseminação rápida, altas taxas de sequelas e
capacidade de gerar surtos (OPAS, 2024).
Apesar da importância da integração, ela ainda é um dos desafios enfrentados pelos
profissionais da ESF, o que pode ser agravado pelo distanciamento entre os profissionais da
atenção primária e aqueles que atuam no nível central. Assim, este relato de experiência busca
demonstrar como a vigilância em saúde pode se integrar à atenção primária de forma efetiva.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 17
136
2. MÉTODO
Trata-se de um estudo qualitativo com uma abordagem descritiva, do tipo relato de
experiência. Este é considerado um recurso enriquecedor baseado na própria vivência
profissional. O relato de experiência contribui de forma importante para a ampliação de
discussões e fortalecimento de teorias baseadas na realidade (Antunes et al., 2024) e relaciona
os achados reais com bases teóricas relevantes (Macêdo; Monteiro, 2006).
O relato refere-se a um caso confirmado de meningite causada por Neisseria meningitidis
do genogrupo W ocorrido no município de Arapiraca (AL), em abril de 2025. O caso foi
acompanhado pela equipe da ESF e pela equipe da Vigilância em Saúde do município.
As informações foram organizadas a partir dos registros dos profissionais de saúde,
observação e do alerta epidemiológico nº 04/2025 divulgado (Secretaria Municipal de Saúde de
Arapiraca, 2025). A descrição do caso inclui desde o contato inicial feito pela Vigilância em
Saúde com a equipe da ESF até a divulgação do caso.
Para realização desse estudo, não foi necessária a aprovação no Comitê de Ética e
Pesquisa em Seres Humanos (CEP), pois se trata de um relato de experiência com dados
secundários. A dispensa está em conformidade com a Resolução nº 510, de 7 de abril de 2016,
do Conselho Nacional de Saúde, que regula as normas aplicáveis às pesquisas em Ciências
Humanas e Sociais, desde que não envolvam diretamente seres humanos ou dados sensíveis
identificáveis.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A detecção precoce de casos e a comunicação imediata entre a VS e a APS são cruciais
para o controle de doenças infecciosas como a meningite. Neste caso, a Vigilância em Saúde do
município fez contato direto com a equipe da ESF de referência do paciente logo após a
identificação de uma internação por meningite bacteriana causada por Neisseria meningitidis
do genogrupo W.
Essa ação está consoante com as diretrizes do Ministério da Saúde, que preconizam a
notificação compulsória de doenças e agravos de casos suspeitos e confirmados, sendo a
meningite uma delas, reforçando a importância da rápida identificação e resposta (Brasil,
2014). Além disso, estudos mostram que uma comunicação eficaz entre os diferentes níveis de
atenção à saúde é um fator determinante para a resposta oportuna a emergências de saúde
pública (Silva et al., 2021; OMS, 2018; OPAS, 2020).
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 17
137
No que se trata da meningite, a comunicação tem um papel imprescindível na resposta
a essa doença, desde a prevenção até o diagnóstico precoce, o tratamento correto e a prevenção
de surtos. É uma estratégia fundamental para a conscientização, educação e mobilização da
população diante desse grave problema de saúde pública. Atrasos ou falhas na comunicação
entre serviços de saúde podem levar a falhas na identificação e no manejo de contatos,
aumentando o risco de disseminação da doença (Brasil, 2024).
Em seguida, foi realizada uma reunião imediata com a equipe da ESF e a equipe técnica
da Vigilância em Saúde na própria unidade de saúde para discussão do caso, construção de
estratégias para investigação dos contatos próximos ao paciente e as medidas profiláticas que
seriam aplicadas. Essa ação multidisciplinar permitiu a troca de informações, alinhamento de
condutas e divisão de tarefas, o que é essencial para uma resposta coordenada (Almeida et al.,
2018).
A participação da equipe técnica foi fundamental para o respaldo técnico e para o
esclarecimento de dúvidas, garantindo que as ações realizadas estivessem baseadas nas
melhores evidências e nos protocolos vigentes. A integração das redes de atenção à saúde
garante um atendimento coordenado e eficiente no SUS e requer articulação de diferentes
saberes e a construção de espaços de diálogo entre os profissionais (Mendes, 2011), o que foi
evidenciado nesse caso.
A partir dessa reunião, a equipe organizou-se para realizar ações de busca ativa dos
contatos familiares e outros, organizou-se uma agenda emergencial para atendimento
exclusivo desses contatos, visitas no local de trabalho e igreja frequentada, intensificação de
atualização do calendário vacinal, salas de espera para a população e educação continuada com
os agentes comunitários de saúde. A busca ativa de contatos é uma estratégia indispensável
para interromper a cadeia de transmissão de doenças, sendo o agente comunitário de saúde o
protagonista nessa atividade devido ao seu vínculo com o território (Brasil, 2025).
A equipe então se organizou em frentes de ação para identificação e orientação dos
contatos, com o agente comunitário de saúde (ACS) contatando os familiares do paciente;
enfermeiro e médico fazendo visitas locais de convivência do paciente e educação continuada;
a enfermeira fazendo a busca dos cartões de vacina para atualização do calendário vacinal; e
toda a equipe fazendo salas de espera para a população. Essa abordagem multidisciplinar
demonstra a importância da atuação de diferentes profissionais para o sucesso das ações e a
resolutividade da APS (Almeida et al., 2018).
Destaca-se a importância da realização da atualização do calendário vacinal como
principal forma de prevenção contra a meningite (OPAS, 2024; Brasil, 2024). Todos os contatos
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 17
138
que tiveram contato direto e prolongado com o paciente foram convocados para consulta
médica na unidade de saúde para avaliação e, nos casos indicados, receberam a profilaxia
imediata, conforme o protocolo do Ministério da Saúde (Brasil, 2024b).
A atuação intersetorial entre a Vigilância em Saúde e a APS foi decisiva para garantir a
resposta rápida necessária nesse caso. Assim como a comunicação efetiva e direta entre os
níveis de atenção mostrou-se de extrema importância, evidenciou-se que a vigilância e a APS
não devem atuar isoladamente, mas sim fortalecendo a integralidade e a resolutividade.
A atuação em conjunto da rede de saúde promove o cuidado da população, facilitando o
acesso, a adesão ao tratamento e o acompanhamento dos contatos (Brasil, 2023). Essa atuação
é necessária para o enfrentamento de agravos complexos como a meningite, pois envolve a
articulação de diferentes setores, como a saúde (Faria; Bertollozi, 2010).
A literatura corrobora essa experiência ao mostrar que a proximidade da APS à
comunidade tem maior capacidade de realizar ações em tempo oportuno de forma territorial e
integral. A articulação em redes de atenção à saúde permite que situações de emergência
sejam enfrentadas com agilidade, diminuindo riscos de novos casos ou surtos (OPAS, 2025). A
territorialização da APS permite que as equipes de saúde conheçam as particularidades da
comunidade, identifiquem os grupos de risco e implementem ações mais eficazes. A articulação
em redes de atenção à saúde garante a continuidade do cuidado e a troca de informações entre
as redes de atenção à saúde.
As ações foram conduzidas pela equipe da ESF com suporte técnico da Vigilância em
Saúde, demonstrando a capacidade de resposta rápida e integrada do sistema de saúde. Essa
experiência reforça o papel da ESF na vigilância ativa de agravos e na proteção coletiva da saúde
no território. O episódio evidenciou o papel ativo da ESF na investigação e resposta imediata,
sendo estratégica no manejo de doenças infecciosas, bem como coordenadora do cuidado,
demonstrando a efetividade do trabalho articulado em rede e importância da territorialidade
característica da ESF.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O relato da experiência vivida por uma equipe da ESF evidenciou como a integração
entre a Vigilância em Saúde e a Atenção Primária à Saúde pode ser determinante para o controle
de doenças e como a atuação coordenada, proativa e territorializada é capaz de proteger a
saúde da população.
Também demostra a efetivação da integração entre a VS e APS como estratégia de
resposta oportuna a agravos de elevada transmissibilidade com a meningite. A resposta
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 17
139
articulada nesse caso permitiu não apenas a contenção da doença, mas reforçou a capacidade
das equipes de saúde de agir de forma coordenada e com prontidão.
A presença da gestão próxima à equipe de saúde fortaleceu a confiança entre os
profissionais, a atuação no território e conferiu legitimidade às ações realizadas, demonstrando
que este modelo de resposta, baseado no compartilhamento e colaboração mútua, deve ser
incentivado e institucionalizado nos serviços de saúde.
A atuação conjunta entre APS, VS e a gestão municipal fortaleceu a resposta do SUS,
sendo uma das estratégias fundamentais para o fortalecimento do cuidado no SUS,
principalmente frente a agravos de notificação compulsória. Diante do caso apresentado, vê-se
que a integração entre a vigilância em saúde e a atenção primária é essencial no enfrentamento
de agravos e situações de risco à população, atuando de modo efetivo e responsivo.
A partir dessas situações em que há a superação da fragmentação entre as ações da
vigilância e as práticas assistenciais pode-se promover um trabalho interdisciplinar,
territorializado e centrado nas reais necessidades da população.
É imprescindível que ações como essa sejam valorizadas e intensificadas, com
investimento contínuo em formação dos profissionais das equipes de saúde, construção de
protocolos integrados e fortalecimento dos fluxos de comunicação entre os níveis de atenção e
vigilância. Tais estratégias não só reiteram o reconhecimento da APS como parte integrante da
vigilância tornando-a ainda mais resolutiva e estratégica no SUS, como também fortalecem o
SUS como sistema público.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, P. F. et al. Coordenação do cuidado e Atenção Primária à Saúde no Sistema Único de
Saúde. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 42, n. spe1, p. 306-320, set. 2018.
ANTUNES, J. et al. Como escrever um relato de experiência de forma sistematizada?
Contribuições metodológicas. Práticas Educativas, Memórias e Oralidades, Canoas, v. 6,
e12517, 2024.
BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes para enfrentamento das meningites até 2030.
Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em:
https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-emanuais/2024/diretr izes-para-enfrentamento-das-meningites-ate-2030.pdf . Acesso em: 23
mai. 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde: volume 1, 6. ed. rev. Brasília, DF:
Ministério da Saúde, 2024.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 17
140
BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 154/2024-DPNI/SVSA/MS. Brasília,
DF: Ministério da Saúde, 2024b. Disponível em:
https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notastecnicas/2024/nota-te cnica-conjunta-no-154-2024-dpni-svsa-ms.pdf. Acesso em: 23 mai.
2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Básica. Brasília, DF: Ministério da
Saúde, 2017.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 1.271, de 6 de junho de 2014. Define a Lista Nacional
de Notificação Compulsória de doenças, agravos e eventos de saúde pública nos serviços de
saúde públicos e privados em todo o território nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF,
2014.
BRASIL. Ministério da Saúde. Manual e-SUS APS: busca ativa. Disponível em: https://sapsms.github.io/Manual-eSUS_APS/docs/PEC/PEC_11_busca_ativa/. Acesso em: 23 mai. 2025.
FARIA, L. S.; BERTOLOZZI, M. R. A vigilância na Atenção Básica à Saúde: perspectivas para o
alcance da Vigilância à Saúde. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 44, n.
3, p. 811-817, set. 2010.
MENDES, E. V. As redes de atenção à saúde. 2. ed. Brasília, DF: Organização Pan-Americana
da Saúde, 2011.
OMS. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Comunicação de riscos em emergências de
saúde pública: um guia da OMS para políticas e práticas em comunicação de risco de
emergência. Genebra: OMS, 2018. Disponível em:
https://iris.who.int/bitstream/handle/10665/259807/9789248550201-por.pdf. Acesso em:
23 mai. 2025.
OPAS. ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Atenção primária à saúde. [S. l.]:
OPAS/OMS, 2025. Disponível em:
https://www.paho.org/pt/topicos/atencao-primaria-saude. Acesso em: 22 mai. 2025.
OPAS. ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Comunicação de risco e engajamento
comunitário (CREC): prontidão e resposta ao novo coronavírus de 2019 (2019-nCoV).
Brasília, DF: OPAS, 2020. Disponível em:
https://iris.paho.org/bitstream/handle/10665.2/51935/OPASBRANCOV20010_por.pdf?seque
n ce=5&isAllowed=y. Acesso em: 23 mai. 2025.
OPAS. ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Derrotar a meningite até 2030 – Um
Roteiro Mundial. Brasília, DF: OPAS, 2024. Disponível em:
https://doi.org/10.37774/9789275728604. Acesso em: 22 mai. 2025.
SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE ARAPIRACA. Alerta epidemiológico nº 04/2025.
Arapiraca: Secretaria Municipal de Saúde, 2025.
SILVA, C. R. D. V. et al. Comunicação de risco no enfrentamento da COVID-19 no Brasil: uma
análise retórica. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 31, n. 2, 2021.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 17
141
Capítulo 18
INTERVENÇÃO MULTIPROFISSIONAL NO CUIDADO À
CRIANÇA COM EPILEPSIA DE DIFÍCIL CONTROLE:
DESAFIOS NA APS
Lucas Fragoso Calheiros Lins
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-18
1. INTRODUÇÃO
Este relato apresenta a experiência de acompanhamento de uma criança com epilepsia
refratária à terapêutica convencional, realizado no contexto da Atenção Primária à Saúde (APS),
no município de São Miguel dos Campos (AL). A experiência destaca a importância do cuidado
longitudinal, da articulação com a rede de atenção à saúde e da atuação clínica do médico da
família diante das limitações do sistema, considerando os princípios da integralidade, equidade
e resolutividade do Sistema Único de Saúde (SUS).
2. MÉTODO
Trata-se de um relato de experiência de abordagem clínica e intersetorial com base em
práticas de cuidado desenvolvidas em equipe multiprofissional. Foram realizados
atendimentos clínicos, articulações com especialistas e tentativas de acesso a recursos
diagnósticos e terapêuticos indisponíveis na rede local.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A criança apresentava crises convulsivas diárias, com risco aumentado de morte súbita
e impactos na qualidade de vida e no convívio escolar, sendo necessário o uso de capacete.
Devido à dificuldade de acesso regular a especialistas e exames (como o eletroencefalograma
(EEG), inviabilizado por hipersensibilidade sensorial), a equipe da APS iniciou ajustes
terapêuticos de forma compartilhada com neurologistas.
Após 40 dias, observou-se redução na frequência e intensidade das crises. Com a
chegada de uma neuropediatra ao município, foi possível agendar nova avaliação. No entanto,
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 18
142
desafios persistem: a realização de EEG depende da sedação da criança, que apresenta alta
tolerância a medicamentos indutores do sono. A equipe buscou ainda a avaliação com
geneticista, aguardando encaminhamento para teste genético específico, que pode direcionar
melhor a conduta terapêutica.
Diante da complexidade do caso, a equipe da APS decidiu introduzir o canabidiol e
solicitar judicialmente um anticonvulsivante não disponível no Brasil. Contudo, esbarrou na
limitação burocrática de que o pedido precisa partir de um especialista da área neurológica.
Isso reforçou a importância da articulação entre os níveis de atenção e o fortalecimento da rede.
A atuação pautou-se nos princípios da integralidade e da equidade, buscando assegurar
à criança o acesso a tecnologias de cuidado compatíveis com sua condição. O caso evidencia a
importância da longitudinalidade e da clínica ampliada como estratégia para enfrentar a
judicialização da saúde, a carência de profissionais especializados e os entraves institucionais.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante da plasticidade cerebral na infância, intervenções precoces e eficazes são
fundamentais para melhorar o prognóstico, sendo assim, o papel estratégico do médico da APS
como articulador do cuidado em contextos de vulnerabilidade, especialmente em situações em
que há escassez de recursos é fundamental para melhor efetividade no tratamento. A
experiência reforça a importância da escuta qualificada, da autonomia clínica respaldada por
evidências e da articulação com outros pontos da rede para garantir atenção integral.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Básica. Brasília: Ministério da
Saúde, 2017.
BRASIL. Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção,
proteção e recuperação da saúde. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 20 set. 1990.
FREIDSON, E. Profissão médica: um estudo de sociologia do conhecimento. São Paulo: UNESP,
2009.
STARFIELD, B. Atenção Primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e
tecnologia. Brasília: UNESCO, Ministério da Saúde, 2002.
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 18
143
Capítulo 19
A UTILIZAÇÃO DO PEC E-SUS NO COTIDIANO DOS
SERVIÇOS DA SAÚDE: ESTUDO BIBLIOMÉTRICO
Lidianne Mércia Barbosa Malta Rocha
Ricardo Fontes Macedo
Ewerton Amorim dos Santos
Diego Figueiredo Nóbrega
DOI: 10.51859/amplla.sfm229.1125-19
1. INTRODUÇÃO
O desenvolvimento das produções científicas teoricamente embasadas por meio de
pesquisas originais (primárias) alimenta-se de informações obtidas de levantamento
rigorosamente referenciado, a partir de buscas estrategicamente direcionadas a bases de
conteúdos completos e acessíveis. Diante disso, o conhecimento científico e técnico em saúde
tem nos periódicos o seu principal meio de publicação, com controle de qualidade exercido,
entre outros, pela sua indexação em bases de dados bibliográficos que registram, por meio de
artigos científicos e outros tipos de textos (editoriais, cartas, etc.), o conhecimento público
atualizado e acumulado ao longo dos anos (Packer; Tardelli; Castro, 2007).
Nessa vertente, a indexação é o conjunto de atividades que consiste em identificar nos
documentos a sua essência, visando extrair os indicadores de seu conteúdo para serem
recuperados posteriormente (Ferreira et al., 2010). Para tal, tem na Bibliometria uma
ferramenta estatística que permite mapear e gerar diferentes indicadores de tratamento e
gestão da informação e do conhecimento, especialmente em sistemas de informação e de
comunicação científicos e tecnológicos, de produtividade, necessários ao planejamento,
avaliação e gestão da ciência e da tecnologia, de um determinado país ou comunidade científica
(Guedes; Borschiver, 2005).
Nessa perspectiva, a ciência e a tecnologia se unem para contribuir na produção e na
ampla disseminação do conhecimento, inclusive na saúde, instrumentalizando as bases de
dados eletrônicas como promotoras da troca de conhecimentos entre os pesquisadores, de
modo a proporcionar novas possibilidades de desenvolvimento científico e tecnológico (Ravelli
et al., 2009). Essas bases atendem às demandas da ciência permitindo não apenas o controle e
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 19
144
a disseminação da informação, mas também a produção de indicadores que subsidiarão os
estudos bibliométricos (Santos et al., 2008). E isso desperta a importância dos periódicos na
comunicação científica, sendo essa relevãncia reforçada pela criação e utilização das bases de
dados, que se tornaram disponíveis eletronicamente, com amplo potencial de uso pelos
pesquisadores, por meio da internet (Mugnaini, 2006).
No Brasil, temos várias bases de dados disponíveis para o estudo bibliométrico na
saúde, especialmente elaboradas para responder às necessidades da comunicação científica,
oportunizando o acesso a textos integrais, artigos e periódicos completos com visibilidade
nacional e internacional. Dentre elas é possível citar: Biblioteca Virtual de Saúde (BVS),
Periódicos Capes, SciELO Brasil e Scopus.
Dessa maneira, a bibliometria traz na sua essência o desenvolvimento de indicadores
cada vez mais confiáveis (Santos, 2003), a partir da indexação de informações que podem
analisar e avaliar a produção científica de interesse ao pesquisador, a partir, segundo Mugnaini
(2006), da produtividade e da qualidade do tema investigado, permitindo a detecção de
modelos e padrões de comportamento de citações, em dada produção científica.
De acordo com Carvalho et al. (2005) tais modelos e padrões de comportamento
auxiliam na compreensão da forma como o conhecimento científico é difundido e incorporado,
inclusive no que tange aos trabalhos sobre os sistemas de informação nos mais diversos setores,
a exemplo dos sistemas utilizados na saúde como o mais especificamente Prontuário Eletrônico
do Cidadão do Sistema Único de Saúde (PEC e-SUS), o que torna, para tais eventos, a
bibliometria cada vez mais requisitada na inspeção de produções científicas e acadêmicas.
Nesse sentido, o presente estudo se propôs a mapear o que está sendo produzido e
publicado a respeito do uso do Prontuário Eletrônico do Cidadão no Sistema Único de Saúde
(PEC e-SUS) nos serviços de saúde, lançando mão do estudo bibliométrico para isso, com o
objetivo de mapear os artigos originais sobre o uso do PEC e-SUS, publicados no período de
2013 a 2023 nas bases de dados BVS, Periódicos Capes, SciELO Brasil e Scopus.
2. MÉTODO
Trata-se de um estudo quantitativo, tipo bibliométrico e descritivo, em que se utilizou
(04) quatro bases de dados para a pesquisa bibliométrica: Biblioteca Virtual da Saúde (BVS),
Periódicos Capes, SciELO Brasil e Scopus.
A BVS é um portal que integra temáticas nacionais e institucionais sobre abordagens da
área da saúde. Já o portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do
Nível Superior (CAPES) representa uma das maiores bibliotecas virtuais do mundo, contribui
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 19
145
de maneira significativa, desde novembro de 2000, disponibilizando conteúdo de alto nível
científico, no âmbito acadêmico nacional. O portal SciELO Brasil contempla uma coleção
selecionada de periódicos científicos ibero-americanos. E a base Scopus combina um banco de
dados abrangente em uma grande variedade de disciplinas, com resumos e citações, organizado
por especialistas e composto por dados associados à literatura acadêmica.
Nesta pesquisa, a seleção das publicações foi feita a partir de critérios de elegibilidade,
apropriando-se das publicações de artigos originais utilizando o descritor prontuário
eletrônico, associado aos termos “saúde” e “sistema de informação”, advindos dos Descritores
em Ciência da Saúde (DeCS) sob consulta. No campo de pesquisa de cada base, os termos foram
articulados com operadores booleanos – aspas e AND – ficando da seguinte maneira:
“prontuário eletrônico AND saúde AND sistema de informação”, compreendendo os artigos
publicados no período de janeiro de 2013 a março de 2023. A coleta dos dados foi realizada
entre março e abril de 2023.
Os artigos selecionados foram analisados conforme dados bibliométricos relativos a:
título do artigo (verificar os palavras e termos presentes nos títulos dos trabalhos destinados a
servir de vocábulos finalizadores dos resumos), ano de publicação (observar o número de
artigos publicados a cada ano por periódico), periódico (analisar o número de número de
publicações por periódico), descritores/palavras-chave (analisar a frequência dos descritores,
também identificados como palavras-chave, na amostra dos artigos selecionada), objetivo
(averiguar os verbos utilizados nos artigos selecionados) e conclusão (verificar a que
conclusões os trabalhos selecionados chegaram). Os dados foram obtidos a partir do acesso a
cada um dos artigos e, simultaneamente, organizados em um instrumento no formato de tabela,
com os respectivos campos.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram identificados 81 artigos a partir dos descritores selecionados e dos critérios de
elegibilidade, sendo eliminados 39 artigos. Desse modo, a amostra do estudo contou com 42
artigos para análise, com trâmite suscinto dos procedimentos para a seleção dos artigos,
conforme Figura 1, a seguir:
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 19
146
Figura 1 – Seleção dos artigos
Fonte: A autora (2023).
No que diz respeito aos periódicos em que os artigos foram publicados no período de
2013 a 2023, pode-se verificar sua distribuição na Tabela abaixo, em que exibe também o
número de artigos publicados a cada ano por periódico. Os anos de 2013, 2014 e 2015 não
resultaram em artigos, conforme os critérios de elegibilidade exigidos.
Tabela 1 – Número de artigos publicados anualmente por periódico, no período de 2013 a 2023
Periódico
2016 2017 2018 2019 2020 2021 2022 2023 TOTAL
Arch Health Invest
------1
--------1
Brazilian Journal of Development
----------1
----1
Cadernos ESP
1
--------------1
Cadernos Saúde Coletiva
----------1
----1
Cad. Saúde Pública
------1
--2
----3
Ciência & Saúde Coletiva
----------1
1
--2
Cogitare Enfermagem
----2
----------2
Contemporânea – Revista de Ética e
--------------1
1
Filosofia Política
ESTIMA - Brazilian Journal of Enterostomal
----------1
----1
Therapy
Research, Society and Development
----------1
1
--2
Rev. APS
--1
------------1
Revista Brasileira de Ciências da Saúde
------1
1
------2
Revista Brasileira de Enfermagem (REBEn) ----1
1
--1
----3
Revista Científica de Enfermagem
------------1
--1
Revista de Saúde Coletiva da UEFS
--1
------------1
Revista de Saúde da AJES SAJES
--------1
------1
Revista de Saúde Pública
----------1
2
--3
Revista Eletrônica Acervo Enfermagem
----------1
1
--2
Revista Eletrônica Científica Ensino
----------1
----1
Interdisciplinar
REVISTA ELETRÔNICA ESTÁCIO
--1
------------1
Revista Humanidades e Inovação
--------1
------1
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 19
147
Periódico
Revista Interdisciplinar em Saúde
Revista Latino-Americana de Enfermagem
REME • Rev Min Enferm
Revista online de pesquisa
Revista Saúde.com
Revista Sustinere
SAÚDE DEBATE
Saúde Sociedade
Sem a informação
Texto e Contexto Enfermagem
TOTAL
2016
--------------1
1
--3
2017
--------------------3
2018
--------------------3
2019
------1
----1
------6
2020
----------1
--------4
2021
1
1
1
------------1
15
2022
--------1
----------7
2023
--------------------1
TOTAL
1
1
1
1
1
1
1
1
1
1
42
Fonte: A autora (2023).
Cabe ressalvar que os periódicos com maior número de publicações – Cadernos Saúde
Pública, Revista Brasileira de Enfermagem REBEn e Revista de Saúde Pública, com 03 (três)
publicações cada – apresentam em seu escopo de apresentação a proposta de lançar números
temáticos, o que justifica a predominância na abordagem pretendida nessa pesquisa.
Outra informação que aqui cabe mencionar é sobre a falta de publicações nos anos de
2013, 2014 e 2015. Para os autores isso tem pertinência em virtude do tema investigado – uso
do PEC e-SUS – ter sido recente nesses anos, apresentando maior interesse dos pesquisadores
a partir da determinação por parte do MS que recomenda a implantação imediata dessa
ferramenta nas unidades de saúde do país. Desse modo, a Portaria ministerial nº 1.707, de 23
de setembro de 2016, que redefine as regras e os critérios referentes aos incentivos financeiros
de investimento para construção de polos, unifica o repasse do incentivo financeiro de custeio
por meio do Piso Variável da Atenção Básica (PAB Variável) recomenda no capítulo VI, art. 32
que o Distrito Federal (DF) e os municípios observarão o prazo que consta na Portaria nº
1.412/GM/MS, de 10 de julho de 2013, e suas alterações, para a operacionalização da estratégia
e-SUSAB, por meio da utilização dos sistemas Coleta de Dados Simplificados (e- SUS CDS) e
Prontuário Eletrônico do Cidadão (e-SUSAB PEC) e do Sistema de Informação em Saúde para a
Atenção Básica (SISAB), para fins de financiamento e de adesão aos programas e estratégias da
Política Nacional de Atenção Básica (PNAB).
Tendo em vista a estratégia de busca dos artigos nas bases acessadas, a partir de
descritores do DeCS relacionados à informação, ao prontuário eletrônico e aos sistemas da
saúde, os quais constituíram um dos principais critérios de elegibilidade neste estudo
bibliométrico, optou-se por analisar também a frequência desses descritores, também
identificados como palavras-chave, na amostra de artigos selecionada.
Dessa maneira, em relação à frequência das palavras-chave e/ou dos descritores
encontrados nos trabalhos investigados percebe-se que 16 trabalhos apresentaram 04 (quatro)
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 19
148
termos indexadores, 15 mostraram 03 (três) termos, 10 (dez) estudos exibiram 05 (cinco)
palavras-chave e 01 (um) pesquisas apontaram 06 (seis) termos. Fato é que a disponibilidade
com a qual as palavras-chave se encontram, seja nos sistemas de busca, seja na literatura
relativa ao tema abordado, facilita ao pesquisador poder acessar um grande número de termos
descritos, importantes à indexação científica do estudo realizado.
Das 165 palavras-chave contidas nos trabalhos analisados e presentes na Figura a seguir,
o politermo “sistemas de informação na saúde” apareceu 28 vezes, além do seu similar
“sistemas de informação” que foi utilizado 06 (seis) vezes. As palavras-chave, também
identificadas como descritores, são termos de grande relevância para a recuperação dos
trabalhos nos quais estão inseridos, assim como os resumos e os títulos, pois expressam o
conteúdo do documento, intermediam a linguagem entre o leitor e a comunicação e orientação
quanto ao assunto tratado frente às indexações cruzadas do resumo (Rosas, 2001). Desta
maneira, a escolha dessas palavras facilita a localização das informações desejadas e do próprio
artigo pesquisado (Gonçalves, 2008). Para uma escolha eficaz das palavras-chave é necessário
avaliar sua coerência com a temática, evitando vocábulos regionais e específicos que possam
ocasionar ruído na comunicação, bem como termos que não estejam coerentes com a temática,
pois muitas vezes os autores colocam palavras-chave que passam uma ideia diferente de seu
verdadeiro conteúdo (Ferreira et al., 2010). Curiosamente, foi possível averiguar os verbos
utilizados nos artigos selecionados nesse estudo e percebe-se uma referência pelo vocábulo
“analisar”. Este se fez presente em 19 dos 42 estudos pesquisados, representando um
percentual de 45,23%.
De acordo com Bartelmebs (2013), primeiro movimento que o pesquisador precisa
fazer, ao organizar o material coletado, é justamente analisá-los, pois considerando que o verbo
“analisar” em pesquisa faz referência ao trabalho feito em todo o apanhado obtido na pesquisa,
é possível afirmar que durante todo o curso da pesquisa ocorre a análise dos dados obtidos.
Segundo Furtado e Gasparini (2019, p. 2936) ‟avaliação” e “análise” se distinguem pela maior
vinculação com a prática e atributos prévios da primeira e pela intenção em se distanciar e
abstrair do objeto considerado por via de teorias pré-estabelecidas, pela segunda”. Ainda,
outros verbos também adotados nos artigos buscados foram “descrever”, presente em
05 (cinco) trabalhos e já mencionado “avaliar” encontrado em 03 (três) manuscritos, o que
corresponde respectivamente a 11,90% e 7,14% do total de artigos investigados. Para a
literatura, sob a óptica da epistemologia, a “descrição” remete-se à observação com
consequente detalhamento dos fatos, ao passo que a “avaliação” é o julgamento do mérito de
algo que se está investigando. Contudo, mesmo considerando tentar não distinguir esses
SABERES E FAZERES EM MOVIMENTO
Capítulo 19
149
termos, evitando exclusões que podem desmerecer a adoção adequada dos mesmos,
especialmente em relação à diferença entre “analisar” e “avaliar”, Furtado e Gasparini (2019)
afirmam que a possibilidade de colaborações possíveis entre os verbos, sob diversas
combinações possíveis, principalmente em relação aos vocábulos “analisar” e “avaliar”, pois a
depender do interesse dos pesquisadores, do objeto e do objetivo investigado, tende-se a
observar, ao mesmo tempo, tanto o equilíbrio entre ambos como também o eventual
predomínio de um termo sobre o outro.
Ainda, na inspeção dos 42 trabalhos obtidos na varredura das bases acessadas,
observou-se que nas 42 conclusões estudadas houve na seção conclusão ou considerações
finais o reconhecimento do avanço nos processos de trabalho a partir da adoção dos sistemas
de informação nos serviços desenvolvidos nas unidades de saúde. Entretanto, essas pesquisas
também mostraram haver problemas após a adoção das tecnologias digitais e seus dispositivos,
seja em relação ao uso dos dispositivos, seja no tocante à infraestrutura apropriada para tal
tarefa. Para Schönholzer et al. (2021), essas lacunas despertam entraves que podem ser de
ordem humana, passíveis de ser identificados, mas que inicialmente precisam ser
compreendidos para então serem superados diante do uso das tecnologias disponíveis nos
serviços, para só então distinguir entre o que é comportamental do que é institucional.
Por fim, foi interessante perceber na seção título dos 42 trabalhos acessados, que na sua
totalidade, essa parte dos artigos apresentou os termos necessários a uma recuperação eficaz
da informação, considerando o título de um estudo precisa em sua escrita representar o assunto
abordado. Essa constatação também foi defendida no trabalho de Ravelli et al. (2009) em que
também fez essa averiguação e constatou que na maioria das pesquisas encontradas seus
respectivos temas não eram identificados pelo fato do título não apresentar termos que se
remetessem às abordagens estudadas.
Nessa perspectiva, os títulos se comportam como indexadores de grande impacto, pois
permitem que o trabalho acadêmico seja localizado futuramente pelas informações que
constam, isso porque expressa a ideia geral do tema estudado e representa o primeiro
indexador bibliográfico duma publicação, revestindo-se de grande importância na
comunicação científica (Ferreira et al., 2010). Por isso, tanto as palavras-chave quanto os
resumos e os títulos das pesquisas representam elementos de recuperação da informação a
partir da indexação sistematizada dos documentos nos quais estão presentes. Sua importância
também se faz presente no âmbito da comunicação científica (Gonçalves, 2008).
Sendo assim, ao se captar palavras e termos presentes nos títulos dos trabalhos
destinados a servir de vocábulos finalizadores dos resumos, o pesquisador estará reduzindo
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suas chances de oferecer à comunidade científica um espectro mais amplo de fontes
bibliográficas de acesso para referenciar sua pesquisa. Para Ravelli et al. (2009) o intenso uso
de tecnologias na organização e recuperação de informações, “há a necessidade de que o título
de artigo de periódico científico, na área de saúde e nas demais áreas especializadas, seja claro,
conciso e preciso”, compreendendo que os termos presentes nessa seção podem servir de modo
significativo e facilitador no processo de indexação das publicações e no resgate de trabalhos
futuros.
Diante dos achados alcançados, percebe-se que todos os resultados aqui encontrados
demonstram que a comunidade científica vem se empenhando em trazer à sociedade novas
nuances do tema, visto que apesar de conhecido, falar sobre os sistemas de informação na saúde
e sobre o PEC e-SUS ainda é uma abordagem em construção, considerando que falar das
tecnologias é proporcionar de modo contínuo uma nova visão sobre a realidade já existente.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo bibliométrico representa uma análise metodológica importante, frente à
tendência cada vez mais pertinente de inserção das tecnologias nos processos e trabalho da
saúde, pois desvela pontos de vistas diferentes em padrões de pesquisa distintos sobre a
abordagem pretendida na área. Em consequência, ao oportunizar varredura em bases de
buscas relevantes ao estudo investigado, a análise bibliométrica sugere novas averiguações,
instrumentalizando a ciência com perspectivas inovadoras no campo da saúde.
Além disso, ao pesquisar o que está sendo produzido no uso das tecnologias na saúde e,
mais precisamente, sobre o uso do PEC e-SUS, as bases acessadas fornecem informações
referentes também à disponibilidade de recursos, dispositivos e demais artefatos que podem
ser interessantes na viabilidade diária dos processos de trabalho das unidades de saúde,
despertando a necessidade de descobrir novas ferramentas para a otimização dos serviços
assistenciais da atenção primária a partir da investigação de novos indicadores.
Dessa forma, o presente estudo aponta a intenção de desenvolvimento de novas
pesquisas sobre o uso das tecnologias na saúde e do prontuário eletrônico atualmente
utilizado, estimulando a publicação em periódicos de destaque na produção do conhecimento
dessa abordagem, tendo em vista a transposição dessas informações para além da fronteira
nacional para os atentos ao tema.
Por fim, a pesquisa sugere ampliar a varredura por artigos que se referem à utilização
do PEC e-SUS e dos demais sistemas de informação em saúde, abrangendo outras bases de
busca com vistas ao incentivo da construção de um novo perfil bibliométrico sobre a temática,
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compreendendo que o advento das tecnologias no cotidiano da sociedade provoca
conhecimento científico inovado, bem como a continuidade das discussões sobre a significância
do prontuário eletrônico para o planejamento das ações em saúde e a tomada de decisão nesse
cenário.
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