O olhar do preceptor sobre interdisciplinaridade

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                    DOI: 10.1590/1807-57622013.0158

Interdisciplinaridade no ensino em saúde:
o olhar do preceptor na Saúde da Família

Emanuella Pinheiro de Farias Bispo(a)
Carlos Henrique Falcão Tavares(b)
Jerzuí Mendes Tôrrez Tomaz(c)

Bispo EPF, Tavares CHF, Tomaz JMT. Interdisciplinarity in healthcare education: the
preceptor’s view of family health. Interface (Botucatu).

Evidence of inadequacy regarding family
health strategy preceptors’ actions in
relation to interdisciplinarity led to a
proposal to examine how these
professionals are working. This was a
descriptive study with a qualitative
approach that was developed in the
Second Health District of Maceió,
Alagoas, Brazil, among a population of
nine subjects. Open or in-depth
interviews were conducted from the
perspective of content analysis. From this
analysis, the registry units were: activities
developed in day-to-day work within the
family health strategy; experience from
daily professional practice; meaning of
interdisciplinarity; professional/academic
education in relation to interdisciplinary
practice; benefits of interdisciplinary
practice for students’ teaching-learning
process. The data pointed towards the
need for continuing health education as a
powerful strategy for improvement of
interdisciplinary practice.

Keywords: Healthcare education.
Preceptor. Interdisciplinaridade. Estratégia
da Saúde da Família.

Indícios de inadequação na atuação dos
preceptores da Estratégia da Saúde da
Família (ESF) no que concerne à
interdisciplinaridade, levaram à proposta
de analisar como esses profissionais estão
atuando. Trata-se de estudo descritivo de
abordagem qualitativa, desenvolvida no II
Distrito Sanitário de Maceió-AL, Brasil,
com um universo de nove sujeitos.
Utilizou-se a “entrevista aberta ou em
profundidade”, sob a perspectiva da
análise de conteúdo. Após análise, as
unidades de registro foram: atividades
que desenvolve no dia a dia de trabalho
na ESF; vivência na prática diária
profissional; significado de
interdisciplinaridade; formação
acadêmica/profissional no que se refere à
prática interdisciplinar; benefícios das
práticas interdisciplinares no processo
ensino-aprendizagem dos alunos. Os
dados apontam para a necessidade de
Educação Permanente em Saúde como
estratégia potente para o
aperfeiçoamento da prática
interdisciplinar.

Palavras-chave: Educação em Saúde.
Preceptor. Interdisciplinaridade.
Estratégia da Saúde da Família.

COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO

(a)
Núcleo de Ciências
Humanas e Sociais e de
Políticas Públicas,
Universidade Estadual de
Ciências da Saúde de
Alagoas. Rua Jorge de
Lima, 113, Trapiche da
Barra. Maceió, AL,
Brasil. 57010-300.
emanuellapinheirofbispo
@gmail.com
(b,c)
Faculdade de
Medicina, Universidade
Federal de Alagoas.
Maceió, AL, Brasil.
carloshenri@
rocketmail.com;
jerzuitomaz@hotmail.com

INTERDISCIPLINARIDADE NO ENSINO EM SAÚDE: ...

Introdução
O modelo pedagógico tradicional de ensino em saúde incentiva a especialização precoce, com uma
formação voltada para uma abordagem biologicista e medicalizante1. A interdisciplinaridade se
apresenta, então, como uma possibilidade para uma nova postura, visto que o aprofundamento dos
conhecimentos científicos e os avanços técnicos não são suficientes para satisfazer a amplitude de
possibilidades que a área da saúde necessita2.
Para se entender o sentido de “interdisciplinar”, é preciso saber o que vem a ser “disciplina”. Para
este autor, falar de interdisciplinaridade é falar de interação de disciplinas3. Uma disciplina tem o mesmo
sentido de “ciência”, de “disciplinaridade”, que se caracteriza pelo domínio dos objetos de estudo dos
quais se ocupa, pelas especificidades e pela forma como prevê e explica os fenômenos3.
Desse modo, a interdisciplinaridade é o encontro de diferentes disciplinas, seja na perspectiva
pedagógica ou epistemológica, para a construção de um novo saber. Este saber, por sua vez, é
produzido pela intersecção dos diferentes saberes/disciplinas. Uma visão interdisciplinar deve estar
presente tanto no campo da teoria como no da prática, seja essa prática de intervenção social,
pedagógica ou de pesquisa4,5.
Para a prática da interdisciplinaridade, vale refletir sobre o conceito de “integralidade”, esta que é
uma das diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), instituído pela Constituição de 1988. O SUS está
organizado em torno de três diretrizes: a descentralização; o atendimento integral; e a participação da
comunidade. Dessa forma, para a execução da integralidade (atendimento integral) ocorre, de forma
efetiva, a necessidade de uma prática interdisciplinar6-8.
Na perspectiva do Ensino em Saúde/SUS, as novas Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de
graduação em saúde afirmam que a formação do profissional desta área deve contemplar o sistema de
saúde vigente no país, o trabalho em equipe e a atenção integral à saúde, reafirmando a prática de
orientação ao SUS9-12. E a universidade, nesta perspectiva do Ensino em Saúde, passa a ser responsável
por formar profissionais que estabeleçam uma relação de reciprocidade com a sociedade13-15.
No campo do Ensino na Saúde com enfoque no SUS, utilizando como ferramenta a Estratégia de
Saúde da Família (ESF), algumas formas específicas de ensinar e aprender devem ser priorizadas. A ESF é
fundamental na operacionalização da Política da Atenção Básica16, pois possui um olhar voltado para a
família, em que a saúde é vista não apenas como ausência de doença, mas, sim, considerando fatores
como: a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a
educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais17. A ESF prioriza o trabalho em
equipe, a responsabilização compartilhada no planejamento e execução das ações, além da
interdisciplinaridade e integralidade que devem estar presentes nestas ações18.
No contexto de ensino da ESF, o preceptor é o profissional que não é da academia, e sim do serviço,
com formação superior na área de saúde, e tem o papel de estreitar a distância entre a teoria e a prática
na formação dos discentes. Este profissional apresenta como funções: orientar, dar suporte, ensinar e
compartilhar experiências que melhorem a competência do discente19. Espera-se que a relação entre o
preceptor e o discente seja horizontal, que se estimule o ato de pensar e construir hipóteses, e que o
aluno descubra, nesta relação, a importância do trabalho coletivo20.
O preceptor deve se preocupar, sobretudo, com a competência clínica e com os aspectos de ensinoaprendizagem do desenvolvimento profissional, além de favorecer a aquisição de habilidades e
competências para os discentes nos locais de prática em que estes estão inseridos. Cabe, também, ao
preceptor criar as condições necessárias para que mudanças sejam implementadas de maneira
satisfatória durante o processo de formação dos estudantes19.
Nessa perspectiva, o Ensino Superior no Brasil tem, entre seus principais desafios, buscar superar
conceitos vinculados apenas ao conhecimento técnico e biológico, o que favorece a evolução para uma
prática interdisciplinar e integral dos cuidados21-23.
Para tanto, o exercício da interdisciplinaridade possibilita a formação de profissionais que tenham
possibilidades mínimas de trabalhar em conjunto e criar condições para um cuidado mais integrado e
integrador aos usuários do SUS24. É necessário transformar conceitos e práticas de saúde que orientam o
processo de formação acadêmica e profissional em saúde25,26.
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Bispo EPF, Tavares CHF, Tomaz JMT

Concomitante a uma fragmentação e excessiva especialização do conhecimento, resultado do
avanço tecnológico e isolamento das disciplinas, a interdisciplinaridade tem estado no centro das
discussões acerca do desenvolvimento da ciência e das práticas sanitárias27.
Neste contexto, tornou-se viável realizar a pergunta desta pesquisa: Como os preceptores das
unidades de saúde da família do II Distrito Sanitário de Maceió estão atuando quanto à
interdisciplinaridade?

Percurso metodológico
O presente estudo, desenvolvido no ambiente da área de ensino na saúde, correspondeu a um
estudo descritivo de abordagem qualitativa. A pesquisa foi desenvolvida no II Distrito Sanitário (DS) do
Município de Maceió-AL que, por sua vez, é dividido, atualmente, em sete DS, áreas geográficas que
se organizam sob uma base territorial com características epidemiológicas e sociais semelhantes.
Esta pesquisa permitiu uma aproximação com o objeto central de estudo – a interdisciplinaridade –
por meio das informações colhidas durante o processo de investigação.
Apresentou como objetivo analisar como a interdisciplinaridade é instrumentalizada pelos
preceptores nas ações de saúde das ESF do II DS de Maceió. Como também, mais especificamente:
conhecer as práticas dos preceptores relacionadas à interdisciplinaridade; compreender a formação
acadêmica/profissional dos preceptores quanto à interdisciplinaridade; analisar os benefícios das práticas
interdisciplinares no processo ensino-aprendizagem dos discentes; propor sugestões à Instituição de
Ensino Superior e à Secretaria Municipal de Saúde quanto à prática interdisciplinar.
A escolha do instrumento de coleta de dados foi configurada a partir do aprofundamento teórico do
objeto de estudo. Optou-se pelo instrumento de coleta de dados “entrevista aberta ou em
profundidade”28, com questões norteadoras, o que permitiu, ao entrevistador, explorar amplamente as
questões desejadas.
Após a fase de aprofundamento teórico e elaboração do instrumento de coleta de dados, os sujeitos
foram recrutados. Para tanto, foram utilizados, como critérios de inclusão: ser profissional preceptor da
ESF de umas das unidades que compõem o II DS de Maceió; ser profissional da saúde de formação
Superior; estar recebendo discentes de IES durante o período de realização da pesquisa. A inadequação
a qualquer dos critérios foi considerada como único critério de exclusão. Desse modo, foram incluídas,
neste estudo, quatro das cinco equipes de ESF desse distrito.
De acordo com os critérios de inclusão, os sujeitos, em sua totalidade, aceitaram participar desta
pesquisa, após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foram totalizados nove
sujeitos, dispostos em quatro ESF do II DS do município de Maceió. O período de execução da pesquisa
ocorreu de julho a agosto de 2012.
O universo dos sujeitos é apresentado nos quadros 1 e 2, contendo os dados de identificação
pessoal (caracterização dos sujeitos da pesquisa) e dados complementares da prática profissional.
Como forma de análise dos dados, foi escolhida a Análise Temática que, por sua vez, utiliza o
“tema”29 como conceito central e pode ser graficamente apresentado mediante uma mensagem; esta
pode ser uma palavra, uma frase ou um resumo28. E, para analisar o conteúdo destas mensagens, foram
utilizadas as Unidades de Registro (UR)28.
Todas as gravações das entrevistas foram transcritas na íntegra. Sobre esse material realizou-se leitura
exaustiva para apropriação do conteúdo, seguindo o modelo para tratamento, redução e análise,
conforme preconizado pela literatura28,29. Para a interpretação dos dados, os resultados da pesquisa foram
confrontados com o referencial teórico sobre Interdisciplinaridade, ESF, Ensino em Saúde, na busca por
conteúdos coerentes, singulares ou contraditórios.
Após a análise de conteúdo das respostas descritas pelos participantes, os relatos em comum e a
aproximação com o objeto deste estudo, as Unidades de Registro (UR) intituladas foram as seguintes:
UR 1. Atividades que desenvolve no dia a dia de trabalho na ESF
UR 2. Vivência na prática diária profissional
UR 3. Significado de Interdisciplinaridade
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INTERDISCIPLINARIDADE NO ENSINO EM SAÚDE: ...

Quadro 1. Caracterização dos participantes da pesquisa em relação à idade, gênero e formação acadêmica.
Formação
Ano de
Acadêmica – conclusão
Graduação

Sujeito

Idade

Gênero

1

45

F

Medicina

1991

Residência em Pediatria; Residência em Clínica Médica

2

41

F

Fisioterapia

1993

Mestrado em Saúde Coletiva

3

44

M

Medicina

1991

Residência em Cirurgia Geral e Urologia;
Especialização em Saúde da Família

4

58

M

Medicina

1978

Residência em Clínica médica

5

54

F

Enfermagem

1978

Mestrado em Ciências da Saúde

6

35

F

Serviço Social

2000

Pós-graduação em Gestão e Controle Social das
Políticas Públicas

7

54

F

Enfermagem

1979

Especialização em Saúde da Família; Especialização
em Urgência-Emergência

8

40

F

Enfermagem

1991

Especialização em Administração Hospitalar;
Especialização em Auditoria; Especialização em
Urgência-Emergência

9

44

F

Medicina

1995

Especialização em Pediatria

Formação Complementar

Fonte: Autora, 2013.

UR 4. Formação acadêmica/profissional no que se refere à prática interdisciplinar
UR 5. Benefícios das práticas interdisciplinares no processo ensino-aprendizagem dos discentes
UR 6. Sugestões para aperfeiçoar a prática interdisciplinar

Resultados e discussão
Na primeira UR (UR1), que diz respeito às Atividades que desenvolve no dia a dia de trabalho na ESF,
perceberam-se ações voltadas à assistência curativa, contemplando a maior parte das falas, e nenhum
relato tratou do trabalho em equipe, nem destas equipes de saúde com ações de prevenção de agravos
e promoção à saúde de forma prioritária. Saliente-se que estas ações educativas de prevenção e
promoção, além de serem preconizadas pela ESF, também possibilitam a integração das diferentes
categorias profissionais presentes nas equipes de saúde e deveriam contemplar o cotidiano de trabalho
destas equipes da ESF.
Sujeito 2. “Como a gente tem uma demanda reprimida, é feito também, atendimento
domiciliar”.
Sujeito 3. “Aqui na ESF, a gente trabalha com as consultas voltadas para a cobertura dos
diversos programas que são inseridos na ESF, dentre eles as consultas do hipertenso, do
diabético, saúde da mulher [...]”.

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Bispo EPF, Tavares CHF, Tomaz JMT

Quadro 2. Caracterização dos participantes da pesquisa em relação aos cursos de capacitação para preceptoria
e aos locais de atuação profissional.
Participou de alguma
capacitação para o cargo
de preceptoria (sim/não)
/ Instituição que ofertou

Característica da
capacitação
(Teórica, Prática,
teórico-prática)

Atua como professor
em Instituição de
Ensino Superior - IES
(sim/não) / Instituição

Outro(s) local(ais) de
trabalho

1

Não

—-

Não

—-

2

Não

—-

Sim/ IES Pública

Hospital Particular, IES
Pública e IES Particular

3

Não

—-

Não

Hospital Público

4

Não

—-

Sim/IES Pública

Consultório particular

5

Não

—-

Sim/ IES Particular

IES Pública e IES
Particular

6

Sim/ SecretariaMunicipal
de Saúde de Maceió

Teórica

Não

—-

7

Não

—-

Não

—-

8

Não

—-

Não

—-

9

Sim/ Hospital Sírio
Libanês

Teórico-prática

Não

Hospital Público e
Consultório particular

Sujeito

Fonte: Autora, 2013.

Sujeito 6. “No dia a dia a gente faz atendimento individual; nesses atendimentos, eu faço
também encaminhamentos”.
Sujeito 7. “Eu faço os programas da estratégia, né? Saúde da mulher, pré-natal,
crescimento-desenvolvimento, faço as visitas domiciliares”.
Sujeito 8. “Realizo atendimento pré-natal, crescimento-desenvolvimento, puericultura,
hipertensos, diabéticos, planejamento familiar, citologia, visitas e palestras”.

A interdisciplinaridade é um dos elementos, ou um dos caminhos que possibilita aproximações de
uma prática de Atenção Integral em Saúde30. E a integralidade deve estar articulada à necessidade de se
modificar uma forma fragmentada e desarticulada de agir em saúde, como visto na UR1. Para modificar
esta prática desarticulada e individualista, a ESF surgiu como uma ferramenta de ação do SUS,
possivelmente eficaz para operacionalizar a prática em saúde com uma visão interdisciplinar. E estas
práticas interdisciplinares, no âmbito do ensino, são fundamentais para a formação em saúde.
Observou-se, então, que ações interdisciplinares, seguindo os princípios orientadores do SUS, como
a integralidade, apresentam-se como desafios no Ensino em Saúde. Um desses desafios é oferecer uma
contrapartida à influência do modelo fragmentado de organização do trabalho, em que cada profissional
realiza parcelas do trabalho sem uma integração com as demais áreas envolvidas.
Dessa forma, em um estudo, os autores sustentam que, nas Diretrizes Curriculares Nacionais, a
saúde é considerada uma área interdisciplinar, pois seu objeto, que seria o processo saúde-doença
humano, envolve as relações sociais, a biologia e as expressões emocionais31. Outros autores, por sua

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vez, apontam para a importância das ações coletivas, valorizando o saber do outro32. Entende-se, assim,
que o conhecimento é um processo de construção compartilhada, o que proporciona um maior
entendimento das ações interdisciplinares em saúde.
A UR2 trata da Vivência na prática diária profissional. Os participantes da pesquisa trouxeram dados
voltados ao relacionamento interpessoal entre os membros das equipes. Os sujeitos justificaram o fato
de não priorizarem as atividades interdisciplinares devido à grande demanda da população pelo
atendimento individual, ou seja, pelo atendimento especializado. Os resultados desta UR demonstraram
que os profissionais entrevistados não vivenciam as ações interdisciplinares em saúde em suas
respectivas equipes de ESF.
Sujeito 1. “Eu não tenho problemas com a equipe não”.
Sujeito 3.”Toda a situação de trabalho diário que eu tenho quem faz o planejamento sou eu,
sou eu que faço o planejamento, dentro das necessidades que a gente encontra no trabalho.
[...] o relacionamento com os outros profissionais, técnico de enfermagem, enfermeiros e
tudo é dentro do padrão de respeito ao seu espaço. Pronto”.
Sujeito 4. “Às vezes eu até me pego fazendo a medicina tradicional, porque a ansiedade da
população é a consulta médica, a demanda, e quer que a gente atenda e cada vez mais [...] a
gente vem tentando trabalhar a equipe, inclusive vem tentando trabalhar o que seria uma
equipe de saúde da família, mas a necessidade é tanta, o sofrimento é tanto!”.
Sujeito 7. “Mas acho que eu vivencio as dificuldades no cotidiano do trabalho. Muitas
dificuldades, principalmente de convivência com os outros profissionais. A gente se dá bem,
mas cada um fazendo o seu, sem invadir o espaço do outro”.
Sujeito 9. “E com a minha equipe, eu tenho um relacionamento bom, sabe? Com a
enfermeira da minha equipe, com os agentes de saúde, né?”.

Os resultados desta pesquisa demonstraram que, dentro da prática profissional, que valoriza o
trabalho em equipe, os profissionais de saúde, sujeitos deste estudo, não priorizam a interação entre as
diferentes disciplinas, sobretudo quando esta comunicação é dirigida às práticas interdisciplinares em
saúde. Este fato, na maioria das vezes, foi justificado pelos sujeitos como falta de tempo para o diálogo.
Esta falta de tempo pode sugerir um obstáculo à interação das disciplinas, visto que elas precisam de
uma cooperação mútua para que ações interdisciplinares aconteçam de forma concreta.
A comunicação se dá mediante a metodologia interdisciplinar que significa, antes de tudo, “falar de
disciplinas operantes e cooperantes”3. Isto remete à importância do diálogo entre as diferentes
categorias profissionais para que a prática interdisciplinar aconteça.
A valorização dos espaços de reflexão dos atores em saúde é essencial como espaços de troca, de
interação e comunicação. Dessa forma, os sujeitos relataram a necessidade de reorganização do
trabalho nas ESF para, enfim, existir a possibilidade de interação entre as categorias profissionais em
saúde33.
Na UR3, que trata do Significado de Interdisciplinaridade, observou- se um desconhecimento do
conceito de interdisciplinaridade. Alguns profissionais demonstraram uma confusão com
multidisciplinaridade e, ainda, alguns se aproximaram do significado de interdisciplinaridade. Porém,
neste caso, a interdisciplinaridade é vista como algo teórico apenas, sem ligação com a prática
interdisciplinar.
Sujeito 1. “Inter o que? O que você quer saber? [...] trabalhar com outros profissionais? [...]
a gente faz um trabalho junto”.

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Bispo EPF, Tavares CHF, Tomaz JMT

Sujeito 3. (risos) “Interdisciplinaridade... Eu entendo assim, é... interdisciplinaridade... Deixa
eu ver... Eu entendo que interdisciplinaridade seria uma... Uma gama de profissionais,
trabalhando em atividades diferentes, mas que se complementam. Nós, médicos [...]. A
gente quer o imediatismo da coisa, mas a coisa não funciona no imediatismo. Então a gente
sofre bastante nesse processo de interdisciplinaridade”.
Sujeito 4. “Mas eu não consegui ainda, talvez pela dinâmica do processo de formação, esse
mesmo sentido, de formar os alunos de medicina com essa interdisciplinaridade. Existe a
relação entre as categorias, mas eu ainda não consegui unir, fazer com que os alunos de
medicina vivenciem isso também na prática, apesar de eles sentirem que a gente faz isso”.
Sujeito 6. “É a gente fazer um trabalho único, mas ele fracionado de maneira que o usuário
entenda do que estamos falando”.
Sujeito 7. “Interdisciplinaridade? Interdisciplinaridade? Eu acredito que seja quando tem um
trabalho em equipe não é? Esses conceitos são muito complicados! Cada um que diga que é
uma coisa. Mas acho que é quando se consegue fazer um trabalho em conjunto, vários
profissionais, né?”.
Sujeito 8. “Eu acredito que seja o conjunto de várias profissões... o médico, o enfermeiro,
dentista. Todo mundo junto. É isso? Não tenho certeza. [...] aí a gente faz esse trabalho
junto”.
Sujeito 9. “Você faz a sua parte, mas e aí? Tem coisas que você precisa, né? Do contato com
o outro”.

Outro estudo aponta uma grande dificuldade dos sujeitos em conceituar a interdisciplinaridade
quando relacionada à prática, com uma tendência à multidisciplinaridade. Nas ações multidisciplinares
existem diferentes categorias profissionais que, não necessariamente, dialogam entre si33. Enquanto
que, para que a interdisciplinaridade aconteça, é preciso existir a interação das disciplinas em torno de
um objetivo em comum, na construção de um novo saber3.
Outras questões também surgiram na UR3, como o fato de que a maioria dos profissionais
demonstrou saber que trabalhar de forma interdisciplinar é algo essencial na ESF e, como preceptores,
presentes na formação dos discentes, reconheceram ser responsáveis por transmitir a prática
interdisciplinar na ESF para os discentes. Porém, identificaram as limitações de sua formação acadêmica
no que diz respeito à teoria e à prática da Interdisciplinaridade.
Outros autores afirmam que a prática dos profissionais na ESF ainda é fundamentada em uma
formação superespecializada e em um isolamento das categorias profissionais34. Este isolamento das
disciplinas pode ser visualizado nos fragmentos de fala dos sujeitos deste estudo, sobretudo quando se
observa uma redução das ações em saúde apenas às práticas curativas e individuais e um distanciamento
das ações de promoção à saúde e prevenção de agravos, primordiais na ESF e essenciais para o
entendimento da interdisciplinaridade.
Percebe-se que as limitações da formação acadêmica do preceptor remetem à capacitação deste. É
preciso que este profissional reconheça o seu papel de protagonista das práticas curriculares dos
discentes no que tange à Interdisciplinaridade.
Para tanto, na medida em que os profissionais e futuros profissionais da saúde aprendem apenas os
aspectos técnicos de sua profissão e não compreendem como se articular com outras categorias
profissionais, a formação universitária, por si só, não possibilitará a atuação interdisciplinar35.
Desse modo, acredita-se que apenas o aprofundamento dos conhecimentos científicos e os avanços
técnicos não sejam suficientes para contemplar a área da saúde. Assim, a interdisciplinaridade se
apresenta como facilitadora na construção de uma visão mais ampliada, pautada na integração das
diferentes categorias profissionais e com o objetivo de elaborar um novo saber.
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Na UR4, que tratou da Formação acadêmica/profissional no que se refere à prática interdisciplinar, a
maioria dos sujeitos não apresentou, nas suas falas, ter conhecido e vivenciado a interdisciplinaridade
durante a formação acadêmica. Já na formação profissional, a busca pelo conhecimento da
interdisciplinaridade demonstrou ser de iniciativa individual.
Sujeito 1. “Na época nem se falava nisso. Eu venho de uma formação totalmente diferente
da formação de hoje”.
Sujeito 4. “A minha formação [...] era medicina e medicina pensando em doença. Só
medicina. Apesar de o curso dizer uma coisa que era formar o médico generalista e blá-bláblá, na prática não era, não era porque a gente via só disciplinas e as disciplinas falando das
doenças de cada disciplina”.
Sujeito 5. “Mas na minha formação não teve e a gente não vê essa prática, assim, nem das
faculdades, nem no serviço de tentar ajustar, né?!”.
Sujeito 7. “Na minha graduação eu não tive nada, não que eu lembre. Era só a enfermagem
com a enfermagem. Só e só. Na pós que eu fiz era só teoria, não tive nada prático de equipe,
até na especialização que fiz com outras categorias profissionais era cada um fazendo o seu,
falando sobre sua área”.
Sujeito 8. “Nunca tive nada disso. Nem durante a graduação nem na pós-graduação que fiz.
Acho que não sei direito o que é interdisciplinaridade não”.

Estes profissionais relataram atuar em equipe, porém demonstraram dificuldade em executar esta
prática dentro da ESF e repassar esta formação interdisciplinar para os discentes. Percebeu-se que os
profissionais preceptores desta pesquisa, em sua maioria, desconhecem a teoria/prática da
interdisciplinaridade, aproximando-a de outros conceitos, como a multidisciplinaridade e a
disciplinaridade.
De acordo com os dados de caracterização dos sujeitos da pesquisa (quadros 1 e 2), os mesmos, em
sua grande maioria, não tiveram uma formação específica para atuar na Estratégia de Saúde da Família.
Considerando dados como idade, ano de graduação e formação complementar, observa-se que os
profissionais não estão preparados para uma prática interdisciplinar de caráter integrador, visto a
deficiência na formação acadêmica e de pós-graduação.
Outros autores sustentam que a sociedade atual exige que a universidade não somente capacite os
acadêmicos para futuras habilitações nas especializações tradicionais, mas que tenha em vista a
formação destes, para desenvolver suas competências e habilidades em função de novos saberes que se
produzem e que exigem um novo tipo de profissional, sem dissociar a teoria da prática36. Estes novos
saberes dizem respeito, sobretudo, à capacidade de trabalhar na perspectiva da interdisciplinaridade.
O conhecimento de outras profissões proporciona a ampliação do olhar dentro do campo da saúde
e, consequentemente, a construção integrada de um novo saber. Saber, por sua vez, elaborado pela
intersecção das diferentes categorias profissionais. Esta integração das disciplinas/profissões só pode ser
compreendida de forma mais concreta quando a teoria e a prática interdisciplinar estão vinculadas.
Desse modo, o cenário de prática, durante a formação acadêmica dos discentes, é o lugar privilegiado
para compreender a interdisciplinaridade, especialmente quando este cenário é a ESF, um dos campos
de operacionalização dos princípios e diretrizes do SUS.
Portanto, é preciso possibilitar os espaços de interação nos cenários de prática, como, também, é
necessário que o profissional preceptor seja conscientizado do seu protagonismo nas práticas
curriculares dos discentes no que diz respeito à interdisciplinaridade30.
O preceptor, neste espaço de serviço e formação acadêmica, deve tornar-se um dos principais
facilitadores da prática interdisciplinar. O que beneficia tanto a população assistida por meio das ações

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integradas em saúde, quanto a formação dos discentes. Além disso, também a formação do aluno deve
ser vista de maneira integral pela instituição formadora.
Esta formação integral facilita a construção de uma relação de cooperação entre professor/preceptor
e discente. O que, por sua vez, acredita-se que proporcione a abertura de caminhos para o
reconhecimento da importância da interação com outras áreas de formação acadêmica. “Uma educação
só pode ser viável se for uma educação integral do ser humano. Uma educação que se dirige à
totalidade aberta do ser humano e não apenas a um de seus componentes”37 (p. 13).
Na UR5, que tratou sobre os Benefícios das práticas interdisciplinares no processo ensinoaprendizagem dos discentes, os sujeitos reconheceram que a interdisciplinaridade é importante e pode
ser o diferencial na formação dos futuros profissionais para o SUS, mesmo as URs anteriores
demonstrando que os próprios sujeitos não praticam e/ou desconhecem a interdisciplinaridade.
Sujeito 1. “Tem sim. Cada um tem que ver o valor profissional do outro, né?”
Sujeito 3. “Na visão dos colegas que são de outras especialidades, de outras profissões, eles
veem a gente como adversários, mas não somos adversários de ninguém, nós estamos
apenas querendo é que as coisas sejam cumpridas de acordo com o que deve ser feito.
Então, pra mim, não me oponho, desde que a minha competência ela não seja usurpada, ela
não seja invadida”.
Sujeito 4. “Eu acho que sim, e uma das coisas que eu falo sempre e procuro executar é de
que o médico não é senhor todo poderoso de uma equipe e que cada profissional tem a sua
importância naquilo que a gente se propõe a fazer”.
Sujeito 6. “É muito, muito importante. A gente tem que saber o seguinte: nós somos [...]
uma equipe. O ideal é que todo mundo pensasse assim. [...] isso é muito importante para a
formação do aluno, que ele também aprenda. Eu acho assim, a medicina muito
individualista, né?”.
Sujeito 7. “[...] trabalhar em equipe, ver o que o outro faz. Tem a resistência da medicina
também. Dos alunos principalmente... Eu acho que deve ser a formação. Aí existem essas
barreiras que impedem”.
Sujeito 8. “Sim, acredito que devam existir benefícios, né? Trabalhar junto com os agentes,
com o dentista, pelo menos fazer as visitas, já deve ser um ganho grande. É um impacto pra
eles chegar aqui na comunidade, se comunicar com os outros profissionais”.
Sujeito 9. “Os meus alunos de medicina, eles não participam das ações interdisciplinares,
infelizmente. Se eles participassem, teriam benefícios, né?”.

Os profissionais parecem demonstrar que o principal benefício da interdisciplinaridade na formação
dos discentes está ligado apenas à relação interpessoal. Acredita-se que os benefícios vão além desta
relação, pois possibilita a construção integrada das ações em saúde e o reconhecimento das outras
categorias profissionais na construção de um novo método/objeto. Dessa forma, a interdisciplinaridade
pode se situar como alternativa para a fragmentação excessiva do conhecimento e auxiliar na elaboração
de um novo saber5.
Outra questão que foi observada nos resultados deste estudo foi a resistência da categoria médica
para o possível trabalho interdisciplinar. Este fato foi trazido, sobretudo, pelos profissionais da medicina e
da enfermagem. Os próprios profissionais médicos relataram a dificuldade de trabalhar com sua
categoria profissional. Estes apontaram algumas questões para justificar esta resistência, como: formação
acadêmica/profissional deficitária do que concerne à interdisciplinaridade; o enfoque acadêmico em

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INTERDISCIPLINARIDADE NO ENSINO EM SAÚDE: ...

práticas técnico-curativas; e excesso de demanda para os atendimentos ambulatoriais nas unidades
de saúde.
Em outra pesquisa, os autores concluíram que a centralidade do modelo biomédico, com enfoque
em práticas técnicocurativas, dificulta a aproximação entre as diferentes categorias profissionais,
mantendo-se a perspectiva de ‘auxílio’ entre os profissionais e a referência ao “preconceito” e à
“arrogância”31. A centralidade do modelo biomédico é uma das razões que dificulta a realização de uma
ação em saúde mais integrada e de melhor qualidade, tanto na perspectiva daqueles que a realizam
como para os que dela usufruem27,35. A ação interdisciplinar pode possibilitar, também, uma alternativa
de formação diferenciada, pautada em uma visão ampla das problemáticas na área de saúde e a
compreensão de que o conhecimento e ação interdisciplinar não se excluem, mas se intersectam.
A última Unidade de Registro (UR6), que tematizou Sugestões para aperfeiçoar a prática
interdisciplinar, demonstrou que os profissionais necessitam de capacitação sobre interdisciplinaridade,
numa perspectiva teórico-prática. A capacitação foi sugerida pelos preceptores para que sejam de
iniciativa da Instituição de Ensino Superior responsável pelos discentes nos cenários de prática e,
também, da Secretaria Municipal de Saúde, responsável pelos serviços de saúde, como as ESF.
Os preceptores reconheceram suas formações acadêmicas e profissionais deficitárias no que diz
respeito à teoria e à prática interdisciplinar. Estes sujeitos revelaram a necessidade que sentem de
aperfeiçoar suas ações tanto para a melhoria dos serviços de saúde quanto para colaborar de forma mais
eficaz na formação acadêmica dos discentes, no que concerne à interdisciplinaridade.
Sujeito 2. “Pronto, uma sugestão: eu acho que o interessante seria uma capacitação para os
funcionários, né? Uma capacitação voltada para interdisciplinaridade. Que nunca teve.
Como vai poder passar para os alunos? Tem que existir a capacitação. [...] Quem deveria
fazer isso seria alguém com experiência, né? Alguém do município ou a universidade,
alguém que tivesse a prática”.
Sujeito 3. “Algo que fosse da parte da interdisciplinaridade. Eu não sei que ideia eu daria. Eu
não conheço quais são as práticas. Eu não entendo. Eu não sei como se faz essa situação,
entendeu? Eu acho que, talvez, precisa do olhar da academia e do olhar da secretaria pra
capacitar a gente sobre isso e pra receber esses alunos, pra poder ensinar pra eles, né?”.
Sujeito 5. “E em relação à prática interdisciplinar, algo para uniformizar as práticas
interdisciplinares e de educação em saúde. Pra isso teria que a universidade ofertar algo para
os preceptores, uma capacitação sobre isso para uniformizar a gente, pra ajudar na formação
dos meninos, né? Algo que fosse comum a todo mundo”.
Sujeito 6. “O serviço precisa receber visitas da universidade. A universidade poderia
capacitar os preceptores com relação a este trabalho interdisciplinar, mas ela nem sabe o que
fazemos no serviço com os alunos dela, né?”.
Sujeito 7. “Nunca tivemos nada sobre interdisciplinaridade. A Universidade não poderia
capacitar a gente? Levar a gente pra lá? Fazer algo com todo mundo. E a Secretaria
municipal de saúde também, só pensa na doença, então ensinamos pros alunos o que
aprendemos, né?”.
Sujeito 8. “Acho que o que falta é a faculdade aqui com a gente, mais de perto, vendo nosso
trabalho, como a secretaria municipal também. Nossa formação não foi pra isso. Como
vamos ajudar os alunos nesse sentido? Precisam vir decifrar a questão da
interdisciplinaridade. Reunir, discutir e mastigar. Eu posso ter um pensamento que não é o
que significa mesmo. Preciso saber, né? E depois de abrir o leque de possibilidades pra
gente, posso saber como fazer pra passar para os alunos”.

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Bispo EPF, Tavares CHF, Tomaz JMT

As sugestões de capacitação sobre a teoria e a prática interdisciplinar devem ser consideradas.
Porém, mesmo sendo uma sugestão em potencial, acredita-se que a capacitação, como caracterizada
pelos profissionais, não sanará as problemáticas que envolvem uma prática interdisciplinar efetiva.
Talvez, os sujeitos trouxeram a capacitação como ponto principal nesta UR, pelo fato de conhecerem
apenas este formato de aprimoramento do trabalho nos serviços de saúde. Acredita-se que uma
capacitação descontextualizada e orientada por experiências pontuais e próximas da disciplinaridade ou
da multidisciplinaridade não resolverá a distância eminente entre a prática interdisciplinar efetiva e o
preparo profissional para esta prática na ESF.
Os resultados desta pesquisa apontaram, assim como em outro estudo38, que o convívio entre os
integrantes de uma equipe de saúde traz vários questionamentos em relação à postura desses
profissionais, sobretudo com relação às ações em comum. Para a efetivação destas ações, torna-se
necessária a capacitação dos profissionais envolvidos nas equipes de saúde, no sentido de desenvolver e
trabalhar práticas interdisciplinares.
Para que o trabalho de capacitação aconteça, é preciso um reconhecimento da sua necessidade por
parte dos profissionais envolvidos diretamente nas ações integradas em equipes de saúde, como,
também, por parte das instituições formadoras e mantenedoras dos serviços de saúde. É preciso
capacitação sobre interdisciplinaridade para o reconhecimento do trabalho interdisciplinar e da
importância deste para a formação dos futuros profissionais de saúde para o SUS39.
Desse modo, é preciso existir diálogo entre a Instituição de Ensino Superior, a Secretaria Municipal
de Saúde e os cenários de prática possibilitadores de formação, como a ESF, representados pelos
profissionais preceptores. Estes profissionais precisam ser capacitados permanentemente tanto para a
função de preceptoria, já que estão presentes na formação acadêmica dos discentes, quanto para os
serviços de saúde, como a ESF.
Esta estratégia (ESF) do SUS necessita de profissionais capazes de trabalhar de forma compartilhada,
por meio da aceitação de outros saberes. Para que esta prática integrada aconteça, é preciso ir além do
conhecimento técnico-científico. Torna-se necessária, além de uma formação acadêmica voltada à
interdisciplinaridade, a capacitação dos profissionais que estão atuando no serviço e que já passaram
pela academia e não tiveram esta formação ampliada de saúde. Torna-se necessária uma capacitação
permanente, que integre as categorias profissionais, sem segregação, em busca da interdisciplinaridade.

Considerações finais
Os dados apontaram para o desconhecimento da interdisciplinaridade por parte dos profissionais
preceptores deste estudo, tanto na teoria quanto na prática interdisciplinar. Este desconhecimento foi
percebido pelo fato de os sujeitos não terem tido uma formação acadêmica voltada para a
interdisciplinaridade, como, também, durante as vivências no campo profissional, não tiveram nenhum
tipo de capacitação sobre a prática e a teoria interdisciplinar.
Os preceptores reconheceram a importância da interdisciplinaridade para a formação dos futuros
profissionais, como, também, que não estão preparados para repassar, para os discentes, os
conhecimentos dentro de uma ótica interdisciplinar, visto que não foram formados com uma visão
ampliada do conceito de saúde. As conclusões às quais se chegou, a partir desta pesquisa, não esgotam
o tema em questão. Ao se estudar como a interdisciplinaridade é instrumentalizada pelos preceptores
na ESF, pretendeu-se demonstrar a importância da prática e da teoria interdisciplinar nas relações de
trabalho e na formação em Saúde para o SUS.
Os resultados desta pesquisa apontaram, também, para a necessidade de Educação Permanente em
Saúde como prática de ensino-aprendizagem na produção de conhecimentos no cotidiano das
instituições de saúde. Dessa maneira, configura-se como uma estratégia em potencial para o
aperfeiçoamento da prática profissional interdisciplinar.
Ademais, outras influências e outros aspectos podem e devem ser considerados no estudo da
interdisciplinaridade. Portanto, esta pesquisa aponta para novos e produtivos estudos.

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INTERDISCIPLINARIDADE NO ENSINO EM SAÚDE: ...

Colaboradores
Os autores trabalharam juntos em todas as etapas de produção do manuscrito.
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Bispo EPF, Tavares CHF, Tomaz JMT

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mirada del preceptor en la Salud de la Familia. Interface (Botucatu).
Indicios de inadecuación en la actuación de los preceptores de la Estrategia de Salud de
la Familia (ESF), en lo que se refiere a la interdisciplinaridad, llevaron a la propuesta de
análisis de cómo actúan esos profesionales. Estudio descriptivo de abordaje cualitativo,
la encuesta se desarrolló en el II Distrito Sanitario de Maceió, Al, Brazil, con un universo
de nueve sujetos. Se utilizó la “entrevista abierta o en profundidad”, bajo la
perspectiva del análisis de contenido. Después del análisis las unidades de registro
fueron: actividades que desarrolla en el cotidiano de trabajo en la ESF; experiencia en
la práctica diaria profesional; significado de la interdisciplinariedad; formación
académica/profesional en lo que se refiere a la práctica interdisciplinaria; beneficios de
las prácticas interdisciplinarias en el proceso enseñanza/aprendizaje de los discentes.
Los datos mostraron la necesidad de la educación permanente en salud como una
fuerte estrategia para el perfeccionamiento de la práctica interdisciplinaria.

Palabras clave: Educación en salud. Preceptor. Educación Permanente en Salud.
Interdisciplinaridad. Estrategia de Salud de la Familia.
Recebido em 26/04/13. Aprovado em 22/02/14.

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