A preceptoria na rede básica

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                    A preceptoria na rede básica da Secretaria
Municipal de Saúde do Rio de Janeiro: opinião
dos profissionais de Saúde
Student supervision in primary care clinics in
the Rio de Janeiro City Health Department:
opinions by healthcare professionals
Anete TrajmanI
Naima AssunçãoI
Monique VenturiI
Diogo TobiasI
Walria ToschiI
Victoria BrantII
PALAVRAS-CHAVE

− Atenção primária à saúde.
− Educação médica.
− Tutoria.
− Motivação.

RESUMO
A formação de profissionais de saúde com as competências para prestação de cuidados básicos deve ser
iniciada na graduação. Entretanto, o treinamento na rede básica de saúde (RBS) ainda encontra barreiras
nas esferas docente, discente e nas unidades das Secretarias Municipais de Saúde (SMS). Considerando a
relevância do papel dos preceptores na formação dos estudantes da área da saúde, avaliamos a opinião dos
profissionais de saúde da RBS da SMS do Rio de Janeiro sobre a atividade de preceptoria. Um questionário foi
respondido por 351 profissionais de saúde de 13 das 67 unidades da RBS. Destes, 77% consideram que a
preceptoria faz parte das atribuições do profissional e 61% gostariam de assumir esta tarefa. Várias
dificuldades foram apontadas, incluindo problemas estruturais e de recursos humanos. Os resultados
responsabilizam, de alguma forma, as instituições de ensino superior (IES) e o Estado pela pouca valorização
e estímulo às ações de preceptoria, na medida em que apontam a necessidade de rever as condições de trabalho
e de ensino na RBS. Destacam-se a melhoria dos salários e da infraestrutura e a oportunidade de capacitação
profissional, o que implica parcerias efetivas entre as IES e as SMS.

KEY WORDS

− Primary health Care.
− Education, medical.
− Preceptorship.
− Motivation.

ABSTRACT
Training of health professionals with the necessary skills in primary care should begin during undergraduate
medical education. However, training in the primary care network still faces obstacles among faculty,
students, and the primary care clinics operated by municipal health departments. Considering the relevant
role of supervisors in training students in health-related fields, we investigated the opinions of healthcare
professionals in the primary care network in Rio de Janeiro concerning their student supervision activities. A
total of 351 health professionals from 13 of the 67 primary care clinics answered a questionnaire. Of these,
77% felt that student supervision is part of their responsibilities, and 61% said they would like to play this
role. Various difficulties were identified, including structural and human resources problems. According to
the findings, medical schools and the government are responsible for the under-valuing of student
supervision, emphasizing the need to review the working and teaching conditions in the primary care
network. The results also highlight improvements in wages and infrastructure and the opportunity for

Recebido em: 06/06/2007
Reencaminhado em: 14/01/2008
Aprovado em: 18/03/2008

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professional advancement, requiring effective partnerships between medical schools and the Municipal
Health Department.

I Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro, Brasil.
II Universidade Federal do Rio de Janeiro. Núcleo de Tecnologia de Ensino em Saúde, Rio de Janeiro, Brasil.

Anete Trajman et al.

Preceptoria na rede básica municipal do Rio de Janeiro

INTRODUÇÃO

Em resposta a este desafio, o Ministério da Educação (MEC)

um tema especialmente relevante e resultou na reformulação de di-

elaborou e publicou as Diretrizes Curriculares Nacionais para os
cursos da área da saúde em 2001 e 20024-6, em que recomenda a

ferentes sistemas nacionais de saúde. Auniversalidade e a garantia

realização do treinamento em diferentes cenários e níveis hierár-

de acesso por meio dos cuidados primários de saúde têm sido pre-

quicos de atenção, incluindo a ABS. O treinamento do estudante

conizadas em vários países do mundo como forma de alcançar maior equidade e satisfação das expectativas dos usuários1.

da área da saúde, tendo em vista a necessidade de reformular a

Nas últimas décadas, a Atenção Básica à Saúde (ABS) tornou-se

Adefinição e os princípios que embasam atualmente a ABS superaram a visão de que esta seria meramente um dos níveis do sistema de saúde ou um campo específico de atuação. Ao contrário, a
ABS é considerada como reorganizadora das práticas individuais e
coletivas, e reorientadora do Sistema Único de Saúde, compreendendo a garantia da integralidade em suas duas dimensões básicas
de abrangência e coordenação2. Estas reformulações mais recentes
de base filosófica, metodológica e organizacional trouxeram para
as instituições de ensino médico e das demais áreas da saúde novos
desafios para o ensino de graduação. A formação de profissionais
de saúde com as competências para prestação de cuidados básicos
deve se iniciar na graduação, considerando a ABS não apenas um
campo de práticas, mas também um corpo de conhecimentos que

orientação profissional, tornou-se um importante desafio, posto
que grande parte das IES ainda segue o modelo hospitalocêntrico. A fim de incentivar a transformação das escolas médicas, de
enfermagem e de odontologia, os Ministérios da Saúde e da
Educação publicaram, então, Portarias Interministeriais que
marcaram o início de uma nova era, destacando-se, entre elas, a
criação dos Polos de Educação Permanente em Saúde (PEPs)7 e o
lançamento dos Programas de Incentivo às Mudanças Curriculares no Ensino Médico (Promed), em 2002, e o de reorientação
profissional, o Pró-Saúde8, em 2005.
Entretanto, para implementar novas políticas de educação
em saúde, é necessária a integração estreita entre os serviços de
saúde e a academia, considerando, inclusive, que o Artigo nº
200, inciso III, da Constituição Federal de 1988 estabelece que a
formação de recursos humanos para a saúde é atribuição do Sis-

exige abordagens disciplinar e pedagógica inteiramente novas. Ao
assumir as múltiplas tarefas relacionadas aos seus princípios, caberá ao egresso a assistência de forma personalizada e continuada a

zados sobre o tema, e apesar de constituir um dispositivo consti-

indivíduos e famílias em seu contexto comunitário e territorial. É
nestes cenários que terão a oportunidade de participar das atividades de promoção de saúde e resolver 80% dos problemas de saúde

tucional e uma necessidade que vem sendo reconhecida por estudantes e profissionais, tanto dos serviços quanto da academia,
há percepção de gestores e educadores na área da saúde de séria

da população, justificando-se, pois, a ênfase na ABS, para o que é
necessária a convergência de todos os esforços, como apontado por
Campos3:

resistência de docentes, discentes e profissionais de saúde para
assumir este treinamento na rede básica de atendimento.

Há uma recomendação curricular genérica de que
a formação médica busque uma variação de cenários para o ensino prático. Na mesma linha recomenda-se a inserção precoce do estudante em atividades práticas. Além disso, se na rede básica se
espera sejam resolvidos 80% dos problemas de saúde da população, se aceitamos que as intervenções no território são de grande complexidade, e
se ainda acrescentamos a isso que grande parte da
população brasileira vive na pobreza, teremos claras evidências técnicas e éticas de que nossas escolas médicas devem formar um profissional competente para intervir nessa realidade. Nesse sentido, a rede básica é um campo de práticas potencial
e necessário, no qual os vários cursos de formação
de profissionais de saúde deverão inserir seus estudantes.

tema Único de Saúde (SUS)9. Embora não haja estudos sistemati-

Acrescenta-se aqui a questão do recente envolvimento dos
profissionais do SUS com atividades de supervisão/orientação
de estudantes de graduação da área da saúde. Esse envolvimento – que vem sendo nomeado preceptoria – não só é recente
como exige o acréscimo de uma formação/aculturação pedagógica para além das funções técnicas que lhe são atribuídas.
Paralelamente, a inserção dos estudantes de graduação na rede
traz para debate algumas questões de ordem pedagógica, uma vez
que pressupõe um trabalho de mediação entre teoria e prática a ser
realizado por docentes das instituições formadoras e também por
tutores ou colaboradores – trabalhadores das unidades de saúde –
que possam atuar como preceptores destes estudantes. Isto nos remete aos sérios problemas vividos por esses trabalhadores no que
se refere às políticas de recursos humanos, às condições de precarização vividas no ambiente de trabalho e à inexistência de oportunidades para a educação continuada, entre outros.
A maioria dos profissionais da rede não encontra apoio institucional ou oferta de oportunidades para acesso a cursos de for-

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mação especializada em saúde da família, em saúde coletiva, ou
mesmo para o exercício de uma clínica ampliada de cunho generalista, conforme as prioridades estabelecidas para o setor. Este
quadro se agrava ainda mais na ocasião da entrada dos estudantes em estágios curriculares nas unidades de saúde, o que torna
recomendável que as instituições formadoras proponham projetos de integração docente-assistencial com as Secretarias Municipais, de modo a contribuir para minimizar o afastamento de
suas respectivas ações. A viabilização destes estágios é, sem dúvida, uma estratégia para formar profissionais de saúde com
perfil mais adequado às diretrizes político-sanitárias, com benefício direto à população assistida pelo SUS.
Com base nestas questões e considerando a relevância do papel dos preceptores na formação dos estudantes do curso de Medicina, o objetivo do estudo foi avaliar a opinião dos profissionais de saúde da rede básica municipal do Rio de Janeiro sobre a
atividade de preceptoria, como parte de um projeto mais amplo
de avaliação da integração docente-assistencial.

MÉTODO
Tipo e local de estudo
Entre janeiro de 2005 e maio de 2006, desenvolveu-se um estudo
transversal, do tipo inquérito, baseado em questionário autoaplicável, em 13 unidades de atendimento básico situadas em diferentes
áreas programáticas, selecionadas por conveniência dos pesquisadores entre as 67 unidades existentes no município do Rio de Janeiro. As unidades foram selecionadas de acordo com contato prévio
feito pelos pesquisadores (AT e WT) com diretores interessados na
realização da pesquisa em suas unidades, após breve explicação
dos objetivos e métodos. Todas as unidades já recebiam, à época do
estudo, estagiários da área de saúde.

Instrumento
O questionário – oferecido a todos os profissionais de saúde presentes no dia das visitas dos estudantes às unidades e respondido
por aqueles que concordaram em participar – continha perguntas
objetivas sobre dados sociodemográficos, profissão, tipo de vínculo na SMS e outros vínculos empregatícios, incluindo os de instituição de ensino superior (IES). Também foi perguntado se o profissional considerava a atividade de preceptoria parte de suas atribuições e se ele gostaria de orientar estudantes. Havia, ainda, perguntas abertas sobre problemas para o treinamento de estudantes e
para o exercício da profissão em suas unidades e sobre pontos positivos e negativos da formação de estudantes na unidade, reconhecidos para os profissionais, estudantes e para o próprio serviço. Finalmente, formulamos perguntas fechadas sobre os incentivos
para participar da supervisão como preceptores. Entre 17 opções

oferecidas, possíveis incentivos para desenvolver a atividade de
preceptoria foram classificados pelo profissional como irrelevante,
desejável, importante ou fundamental.

Análise dos dados
Para o escore de incentivos, um valor de 0 a 3 foi atribuído às
respostas (0 para irrelevante, 1 para desejável, 2 para importante,
3 para fundamental), e a soma dos valores calculada em um escore de importância. Para comparação entre médicos e profissionais de outras categorias, as respostas foram agrupadas em importante/fundamental versus desejável/irrelevante.
As respostas abertas (pontos positivos e negativos) foram
analisadas agrupando-se as opiniões em categorias relativas às
condições de trabalho (incluindo as condições para o usuário),
ao aprendizado, e às colaborações interinstitucionais.
Os dados foram armazenados e analisados no programa
SPSS versão 10.0. A razão das chances (OR) foi utilizada como
medida de associação entre as variáveis na análise univariada.
Para as variáveis associadas com p valor < 0,20, a OR ajustada
(aOR) e o seu intervalo de confiança de 95% foram calculados
utilizando-se análise multivariada, com modelo de regressão logística. Na análise multivariada, um p valor < 0,05 foi considerado estatisticamente significativo.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do
Hospital Municipal Souza Aguiar da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (SMS-RJ), antes da constituição do comitê próprio da SMS. Somente foram incluídas unidades cujas direções expressaram seu acordo por meio da assinatura de autorização.

RESULTADOS
Entre 426 profissionais presentes nos dias do inquérito, 351
(82,4%) responderam ao questionário. A maior parte dos que recusaram responder alegava falta de tempo. A Tabela 1 contém as
características sociodemográficas e profissionais dos respondentes. Entre os 347 que responderam à pergunta fechada “faz
parte do papel do profissional do SUS orientar estudantes?”, 267
(76,9%) responderam afirmativamente (Tabela 2). Dentre 322
que responderam à pergunta “você gostaria de supervisionar
atividades práticas de estudantes?”, 204 (61,4%) responderam
afirmativamente. Os problemas identificados nas respostas
abertas com maior frequência foram: espaço físico reduzido
(24,5%), carência de recursos (20,7%), falta de tempo dos profissionais (14,4%) e despreparo profissional (11,2%). Os pontos negativos e positivos identificados para estudantes, serviço e profissionais de saúde estão apresentados nas Tabelas 3 e 4. O incentivo mais citado espontaneamente foi a remuneração por esta
atividade (44,5%). A soma dos escores dos incentivos encontra-se na Tabela 5.

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Tabela 1
Características dos 351 profissionais de saúde da rede básica da SMS que responderam ao questionário
autoaplicável – Rio de Janeiro, 2005-2006
Características

n (%)

Idade (média ± DP)

45,31 (± 9,69) anos

Sexo
Mulheres

274 (77,8%)

Homens

76 (21,6%)

Ignorado

2 (0,6%)

Profissão
Médicos

109 (31,0%)

Enfermeiros

78 (22,2%)

Dentistas

56 (15,9%)

Auxiliares de enfermagem

15 (4,3%)

Nutricionistas

14 (4,0%)

Psicólogos

11 (3,1%)

Fisioterapeutas

10 (2,8%)

Outros

19 (5,3%)

Ignorado

40 (11,4%)

Grau de instrução
Mestrado

31 (8,8%)

Especialização

209 (59,4%)

Residência

50 (14,2%)

Graduação

5 (1,4%)

Outros

3 (0,9%)

Ignorado

54 (15,3%)

Vínculo empregatício na SMS
Estatutário

322 (91,5%)

CLT

3 (0,9%)

Cooperativa

2 (0,6%)

Outros

16 (4,4%)

Ignorado

9 (2,6%)

Outro vínculo empregatício
Sim, com IES

59 (16,8%)

Sim, com outras instituições

146 (41,5%)

Não

74 (21%)

Ignorado

73 (20,7%)

Tempo de trabalho na unidade (mediana, faixa)

7 (0-33) anos

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Tabela 2
Profissão dos 238 profissionais de saúde da SMS que responderam sim à pergunta “faz parte do
papel do profissional do SUS orientar estudantes?” – Rio de Janeiro, 2005-2006.
Profissão

Resposta “Sim” n (%)

Nutricionista

14/14 (100%)

Farmacêutico

5/5 (100%)

Fonoaudiólogo

5/5 (100%)

Enfermeiro

74/78 (94,9%)

Auxiliar de enfermagem

11/12 (91,7%)

Dentista

46/56 (82,1%)

Fisioterapeuta

7/10 (70%)

Médico

62/109 (56,9%)

Psicólogo

5/11 (45,5%)

Outros

9/9 (100%)

Tabela 3
Pontos positivos para a atividade de preceptoria na unidade identificados pelos profissionais de saúde da rede
básica da SMS do Rio de Janeiro, 2005-2006
Pontos positivos

Aprendizado

Para o estudante

Para o profissional

vivência prática (56%)

desenvolvimento pessoal e
profissional (64,4%)

aquisição de conhecimento
(32,1%)

Para a unidade
melhor formação
profissional (22,6%)

contato com a realidade (6,7%)

Condições de trabalho

melhor atendimento (46,1%)

Colaborações
interinstitucionais

maior colaboração com IES
(12,9%)

Quando comparados com as demais categorias profissionais, os médicos apontaram com frequência significativamente superior o agendamento de menor número de pacientes [OR =
5,42 (3,11; 9,50), p < 10-4] e passagens para participar de congressos [OR = 2,03 (1,18; 3,49), p = 0,009]. Inversamente, os médicos
apontaram com frequência significativamente inferior os seguintes incentivos: acesso aos periódicos assinados pela IES [OR
= 0,49 (0,29; 0,85), p = 0,006]; aquisição de equipamentos para a
unidade [OR = 0,48 (0,27; 0,84), p = 0,006]; melhoria da infraes-

trutura da unidade [OR = 0,48 (0,25; 0,90), p = 0,013]; e melhoria
da biblioteca da unidade [OR = 0,42 (0,25; 0,71), p < 10-4].
As únicas variáveis significativamente associadas à resposta
afirmativa para “faz parte do papel do profissional do SUS orientar estudantes?” foram a titulação [aOR = 1,65 (1,02; 2,67), p =
0,042] e pertencer a outra categoria que não médicos [aOR = 4,96
(2,76-8,90), p < 10-4]. Os profissionais com outro vínculo em IES
responderam afirmativamente à pergunta “você gostaria de supervisionar atividades práticas de estudantes?” com maior frequência [OR = 10,15 (3,03; 33,93), p < 10-4].

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maior colaboração da IES
com o serviço (21,7%)

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Tabela 4
Pontos negativos para a atividade de preceptoria na unidade identificados pelos profissionais de saúde da rede básica da SMS
do Rio de Janeiro, 2005-2006.
Pontos negativos

Para o estudante

Para o profissional

Para a unidade

sem pontos negativos (33,3%)

sem pontos negativos (26,7%)

sem pontos negativos (58,8%)

sobrecarga de trabalho (43,3%)

constrangimento do paciente
(17,6%)

conviver com as deficiências
do serviço (49,1%)
Aprendizado

falta de profissionais
preparados (12,3%)
contato com a realidade
(5,3%)

interferência na relação
médico-paciente (15,6%)

Condições de trabalho

consumo de recursos (11,8%)

divisão do espaço físico (11,1%)
Colaborações
interinstituicionais

alteração na rotina diária
(5,9%)

nenhum ponto negativo relativo às colaborações insterinstitucionais identificado

Tabela 5
Soma do escore dos incentivos para a preceptoria classificados por 351
profissionais de saúde da rede básica da SMS do Rio de Janeiro, 2005-2006.
Incentivos

Soma dos escores

Melhoria da infra-estrutura da unidade

922

Melhores salários

920

Liberação para participação em congresso

906

Liberação para cursar pós-graduação

898

Aquisição de equipamentos para unidade

897

Complemento salarial para tarefa de preceptoria

888

Incentivo à pesquisa na unidade

883

Capacitação didático-pedagógica

875

Acesso aos periódicos assinados pela IES

875

Capacitação na área de atuação

873

Acesso à biblioteca da IES

846

Acesso aos computadores da IES

836

Passagens para participação em congressos

818

Melhoria da biblioteca da unidade

772

Presença de preceptores da IES na unidade

769

Apoio psicopedagógico

669

Agendamento de menor número de pacientes

667

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DISCUSSÃO

tivos, a melhor remuneração por suas atividades é mais impor-

Este inquérito mostra que a maior parte dos profissionais tem

tante do que o complemento salarial para a tarefa de preceptoria.

interesse em desempenhar a função de preceptor. Entretanto,
identificamos claramente o desinteresse de muitos nesta tarefa,

Este é um ponto que nos parece particularmente interessante e
coerente com a opinião maciça de que as atividades de precepto-

principalmente entre médicos e psicólogos, mesmo entre aque-

ria fazem parte de suas atribuições, podem e devem ser incorpo-

les que concordam com a importância desta atividade na formação do estudante. Os profissionais reconhecem, para o desenvol-

radas no ambiente de trabalho como parte da estratégia de Educação Permanente. Ademais, a remuneração do profissional de

vimento das atividades de preceptoria, dificuldades na infraes-

saúde pela IES conveniada pode resultar em salários diferencia-

trutura (espaço e recursos inadequados) e, em menor escala,
problemas de recursos humanos (despreparo e falta de tempo).

dos na unidade, com consequente frustração dos profissionais
não gratificados. O apoio psicopedagógico e a presença de pre-

Muitos consideram que o treinamento do estudante em condições precárias pode ser ruim, embora outros julguem que este

ceptores da IES na unidade não foram tão importantes quanto a

é um ponto positivo, pois o prepara para as condições que encontrará na vida profissional. Em relação ao serviço, alguns te-

Curiosamente, o agendamento de menor número de pacientes foi o último na ordem de preferências, embora um número

mem pela qualidade da relação médico-paciente, o que, em par-

expressivo de profissionais tenha espontaneamente referido fal-

te, encontra fundamento. Mostram ainda preocupação com a
formação dos profissionais de saúde, ao identificarem, entre os
pontos negativos, o “despreparo” dos profissionais e, entre as di-

ta de tempo como um dos problemas para esta tarefa. De fato,
embora a maior parte dos profissionais abordados tenha concor-

ficuldades, a “carência” de recursos humanos.
Os profissionais com vínculo em IES responderam que gostariam de desempenhar a preceptoria com maior frequência.
Possivelmente sentem maior segurança por já desenvolverem
atividades de ensino. A maioria dos profissionais da rede não
encontra apoio institucional ou oferecimento de oportunidades
para acesso a cursos de formação especializada em saúde da família, em saúde coletiva ou mesmo para o exercício de uma clínica ampliada de cunho generalista, conforme as prioridades estabelecidas para o setor.
Esse quadro se agrava ainda mais na ocasião da entrada dos
alunos em estágios curriculares nas unidades de saúde, o que
torna no mínimo recomendável que as instituições formadoras
proponham projetos de integração docente-assistencial com as
Secretarias Municipais, de modo a contribuir para minimizar o
afastamento de suas respectivas ações. A viabilização desses estágios é, sem dúvida, uma estratégia para formar profissionais
de saúde com perfil mais adequado às diretrizes político-sanitárias, com benefício direto à população assistida pelo SUS. A formação dos preceptores deve ser uma função prioritária das IES,
no que se refere tanto à atualização profissional quanto às funções de ensino. É esta a vocação das universidades e deve ser
esta a sua principal contrapartida nos convênios com as SMS.
De forma coerente com os pontos negativos referidos, os incentivos à preceptoria mais frequentemente apontados dizem
respeito à melhoria das condições de trabalho: melhor remuneração e capacitação dos profissionais, e melhoria da infraestrutura da unidade. Ressalta-se que, quando escolhem entre os incen-

melhoria das condições de trabalho.

dado em participar, a principal razão para a recusa foi a falta de
tempo, o que pode ter resultado em um viés de seleção. Desta
forma, é possível que a inclusão destes profissionais tivesse aumentado a porcentagem dos que veem a falta de tempo como dificuldade para a preceptoria e dos que gostariam de ter menor
número de pacientes agendados. Embora último no ranqueamento, para os médicos este incentivo foi importante. A presença de estudantes nos ambulatórios gera a necessidade de maior
tempo de consulta, pois o estudante precisa de mais tempo para
completar a anamnese e o exame físico, e a consulta deve ser seguida de um tempo para discussão das hipóteses diagnósticas e
da conduta. Portanto, apesar do baixo ranqueamento entre os incentivos, esta é uma questão que deve ser tratada com atenção
nos acordos interinstitucionais, principalmente no que se refere
aos estágios para estudantes de Medicina. A falta de tempo e a
sobrecarga de trabalho apareceram, de fato, como dificuldades
nas respostas abertas.
Os médicos, que mostraram menor interesse no acesso aos periódicos e na melhoria da biblioteca da unidade, possivelmente têm
outras formas de acesso à atualização, por meio de assinatura de
periódicos e acesso pela internet aos inúmeros sites de educação
continuada. Entretanto, expressaram seu interesse na participação
em congressos como forma de educação continuada.
As condições de infraestrutura também precisam ser adequadas para o acolhimento do estudante. O reduzido espaço e as
precárias condições físicas foram apontados tanto na pergunta
sobre as dificuldades quanto nos pontos negativos.
Apesar das dificuldades e dos pontos negativos apontados,
muitos profissionais reconhecem vantagens na preceptoria. Os

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pontos positivos mais mencionados foram a possibilidade de

conflituoso, segundo Almeida.11 Nem sempre o que as IES en-

seu próprio desenvolvimento profissional e a melhoria do atendimento. Estes pontos foram percebidos independentemente do

tendem como necessidades de saúde da população significa, de
fato, o que ela deseja, o que anseia; e quanto mais os atores se en-

tempo de trabalho, da titulação e do vínculo com algumas IES.

volverem com as decisões, discutindo-as coletivamente, mais

Parece, portanto, que a preceptoria nas unidades básicas pode
atender a alguns anseios dos profissionais, desde que o acordo

efetivo se tornará o benefício para todos.

entre as instituições leve em conta estas expectativas.

tar o profissional interessado na atividade de preceptoria para

Aescuta da fala destes profissionais em estudos que utilizam
metodologias qualitativas, em que possam expressar livremente

que ele desempenhe com segurança e competência o que, na sua
própria visão, faz parte de suas atribuições. E isso precisa ser dis-

seus receios e anseios em relação à preceptoria, poderá enrique-

cutido no âmbito dos serviços de saúde e nas IES:

O principal papel das IES deve ser o de reconhecer e capaci-

cer os achados que este estudo aponta. Neste sentido, estamos
propondo um estudo baseado em grupos focais, constituídos

[...] os profissionais dos serviços valorizam, de
forma geral, os estímulos com os alunos e os
professores. Estes, quando realizam práticas
nos novos cenários, também valorizam as experiências adquiridas como meios de adequação
dos conteúdos curriculares, propiciados pela incorporação de temas/problemas com maior relevância11.

por diferentes categorias profissionais, uma vez que se encontrou significativa diferença nas respostas de diferentes profissionais de saúde. No estudo proposto, poderemos aprofundar as
questões do treinamento profissional, da infraestrutura dos serviços e do que percebem como sendo um possível fator dificultador da relação médico-paciente.
Do ponto de vista do interesse das IES, o treinamento do estudante nas condições do mundo real – as mesmas que encontrará no mercado de trabalho –, visto como uma desvantagem por
alguns profissionais, pode constituir, na realidade, uma vantagem, uma vez que o SUS é, no Brasil, o maior empregador de
profissionais de saúde, e as Diretrizes Curriculares recomendam
o treinamento na atenção básica. Entretanto, o profissional precisa ser capacitado não apenas do ponto de vista da atualização
profissional, como são habitualmente feitos os treinamentos da
SMS, mas formados também na concepção de educação permanente. Os profissionais precisam estar aptos à autoeducação continuada, uma vez que o avanço do conhecimento científico resulta em mudanças constantes e rápidas das condutas preconizadas, exigindo que o profissional reveja criticamente as novas recomendações e diretrizes que surgem. Por outro lado, se serão
responsabilizados pela avaliação do estudante, precisam ser capacitados para esta tarefa. Uma das mais difíceis atribuições da
docência é a avaliação por competências, e não podemos esperar
que o profissional de saúde desempenhe esta tarefa sem qualquer treinamento, como vem sendo realizado na prática. O conhecimento das Diretrizes Curriculares, dos objetivos do curso e
do perfil do egresso de cada IES que estabelece parcerias com a
unidade de saúde também precisa ser discutido com o profissional, para que este possa compreender qual o seu papel e sua responsabilidade na formação do estudante.
As parcerias entre IES e SMS precisam ser revistas para atender aos anseios dos docentes, discentes e profissionais, embora
parceria implique redistribuição de poder, um processo sempre

Por outro lado, a melhoria das condições de trabalho deve
ser considerada pelas autoridades competentes para que a rede
básica possa, de fato, constituir um espaço adequado de treinamento dos estudantes. Um esforço conjunto das SMS, dos corpos docente e discente das IES e dos profissionais de saúde é o
mínimo necessário para que tenhamos quadros eficientes e resolutivos na área da saúde no Brasil e, em especial, no fortalecimento do SUS.
Consideramos que a formação pedagógica de preceptores
deva ter como meta compreender o que significa um processo
dialético de ensino-aprendizagem, por meio da adoção de um
modelo educativo e de perspectivas pedagógicas que superem a
mera transmissão de conhecimentos e que levem os profissionais a extraírem das situações complexas e contraditórias de seus
exercícios profissionais diários a possibilidade de superar obstáculos e construir alternativas de solução. Para assegurar aos preceptores um processo que contribua para uma reflexão sistemática e bem fundamentada sobre o modelo de atenção à saúde, é
preciso uma estratégia educativa que favoreça uma perspectiva
emancipadora. Areflexão crítica sobre os processos de trabalho –
mesmo em condições de alienação e de subordinação a uma lógica que dificulta o exercício profissional como prática criadora e
capaz de dotar os sujeitos de satisfação – é uma condição necessária para ampliar as dimensões realizadoras do trabalho na saúde. Para tanto, é crucial que os profissionais elevem sua formação profissional e ético-política, objetivando transformar substantivamente essas condições adversas, e que possam realizar,

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Anete Trajman et al.

Preceptoria na rede básica municipal do Rio de Janeiro

no espaço do SUS, o conceito de saúde gestado na Reforma Sanitária que impulsionou originalmente o projeto universalista da
reforma da saúde pública brasileira.

7. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria 198/GM/MS. Diário
Oficial da União nº 32/2004, Secção I.
8. Brasil. Ministério da Saúde. Pró-saúde: programa nacional

Por fim, os estudantes também precisam ser ouvidos, pois

de reorientação da formação profissional em saúde /Mi-

têm sua própria visão, receios e expectativas, que precisam ser

nistério da Saúde, Ministério da Educação. Brasília: Minis-

conhecidos e pactuados à luz das necessidades e expectativas
dos profissionais de saúde.

tério da Saúde; 2005. 77 p. (Série C. Projetos, Programas e

AGRADECIMENTO

Relatórios).
9. Brasil 1988. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado; 1988. Cap. II, Seção II, Art. 200.

Os autores agradecem à Prof. Eliana Claudia Ribeiro pela
contribuição na concepção do questionário.

10. Ceccim RB. Educação Permanente em Saúde: desafio ambicioso e necessário. Interface comum saúde educ.
2005;9(16):161-162.

REFERÊNCIAS
1. Health Council of the Netherlands. European primary
care. Draft report presented to the conference Shaping the
EU Health Community, The Hague, 7-9 Sep. 2004. 98p.
2. Brasil. Ministério da Saúde. Manual para a Organização da
Atenção Básica. Brasília: MS; 1999. p 6.
3. Campos GWS. Diretrizes para o ensino médico na rede básica de saúde. ABEM. [online]. Disponível em:
http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/2005/05/diretrizes-para-o-ensino-mde.htm
4. Brasil. Ministério da Educação. Conselho Nacional de
Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução
CNE/CES n.4 de 7 de Novembro de 2001. Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina.
[online]. Diário Oficial da União, Brasília, 9 de novembro
de 2001. Seção 1, p. 38. Disponível em http://portal.mec.gov.br/sesu/arquivos/pdf/0401Medicina.pdf>
5. Brasil. Ministério da Educação. Conselho Nacional de
Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução
CNE/CES 3/2002. Diretrizes Curriculares Nacionais do
Curso de Graduação em Odontologia. [online]. Diário Oficial da União, Brasília, 4 de março de 2002. Seção 1, p.10.
Disponível em <h t t p : / / p o r t a l . m e c . g o v. b r / s e s u
/ a r q u i v o s / p d f /0302Odontologia.pdf>
6. Brasil. Ministério da Educação. Conselho Nacional de
Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução
CNE/CES 3/2001. Diretrizes Curriculares Nacionais do
Curso de Graduação em Enfermagem. [online]. Diário Oficial da União, Brasília, 9 de novembro de 2001. Seção1,
p.37. Disponível em <h t t p : / / p o r t a l . m e c . g o v. b r / s
e s u / a r q u i v o s / p d f / 0301Enfermagem.pdf>

11. Blejmar B, Almeida M. Mudança organizacional e transformação social. In: A Educação dos profissionais de saúde
na Amédica Latina. Teoria e prática de um movimento de
mudança. Almeida M, Feuerwerker L, Llanos M. (Org.).
São Paulo: Hucitec; 1999. p.17-45

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES
Anete Trajman e Walria Toschi participaram da concepção do
projeto e se responsabilizaram pela aprovação no comitê de ética, contato com diretores de unidades, análise dos dados e redação final do manuscrito. Diogo Tobias, Monique Venturi e Naima Assunção coletaram os dados em campo e participaram da
análise dos resultados e da redação do manuscrito. Victoria
Brant fez contribuições substanciais na redação da forma final
do manuscrito e na análise crítica dos resultados.
Apoio: MV e DT são bolsistas do Programa Institucional de
Iniciação Científica (Pibic) da UGF; NA e VB são bolsistas do
CNPq (Pibic e produtividade); AT é colaboradora (key personnel)
do projeto ICOHRTA FIC/NIH # 5U2 R TW006883-03.
O presente estudo não teve financiamento para a sua realização.

CONFLITO DE INTERESSES
Declarou não haver.

ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA
Anete Trajman
Rua Macedo Sobrinho, 74 – apto 203
Humaitá
CEP. 22271-080 – Rio de Janeiro – RJ
E-mail: atrajman@gmail.com

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